Categoria: População

  • América do Sul: um espaço migratório regional ‘quase perfeito

    América do Sul: um espaço migratório regional ‘quase perfeito

    Os seus migrantes são, em sua esmagadora maioria, naturais da mesma região

    20.mar.2021 às 8h00

    Mohammed ElHajji

    Professor Titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Integrante dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação e em Psicologia Social. Também é professor e coordenador local do Master Erasmus Mundus em Migrações Transnacionais. Especialista em Migrações Transnacionais e Comunicação Intercultural.

    América do Sul constitui, segundo os especialistas, um espaço migratório regional “quase perfeito”, na medida que seus migrantes são, em sua esmagadora maioria, naturais da mesma região. O subcontinente é conhecido por sua diversidade cultural, étnica e linguística, graças tanto à plurimilenar herança indígena como aos progressivos aportes migratórios vindos de todos os cantos do planeta. Neste contexto, a mobilidade humana em geral e as migrações transnacionais em particular constituem uma verdadeira máquina de diversificação / integração das populações e culturas do mundo.

    O crescimento das migrações intrarregionais

    A diversificação acontece na perspectiva local, da sociedade receptora. E a integração tem lugar no plano regional, em função do aumento e consolidação das trocas materiais e simbólicas entre sociedades e países vizinhos ou próximos. Fato de grande relevância quando se considera que uma das principais mudanças ocorridas na paisagem migratória transnacional contemporânea é a reorientação regional de seus fluxos.

    Segundo a Organização Internacional das Migrações (OIM), hoje, o volume das migrações Sul-Sul já é superior ao das migrações Sul-Norte. Dos 258 milhões de migrantes registrados no mundo em 2017, cerca de 100 milhões (ou quase 40% desse total) migraram de um país do Sul para outro país também do Sul, contra apenas 86 milhões (ou um pouco mais de 30%) de pessoas que migraram do Sul para o Norte. Neste cenário, o exemplo sul-americano é um dos mais emblemáticos.

    O legado dos processos de integração regional

    América do Sul tem uma população de quase 430 milhões de indivíduos; o que representa 65% da população latino-americana e 42% dos habitantes das Américas. Segundo a ONU, no plano social e político, a América do Sul continua enfrentando os desafios da desigualdade social e a falta de coordenação política e econômica regional.

    Estes desafios ficam evidentes sobretudo, se considerarmos a crise generalizada pela qual passam as principais organizações regionais: a União das Nações Sul-americanas (Unasul) em processo avançado de desagregação; a Comunidade Andina (CAN) praticamente paralisada; e o Mercado Comum do Sul (Mercosul) lutando por sua sobrevivência.

    Bandeiras de países da América do Sul aparecem penduradas. À direita, está o ex-presidente Lula
    Bandeiras de países da América do Sul durante reunião da cúpula do Mercosul, em Belo Horizonte – Antonio Scorza – 24.nov.2010/AFP

    Todavia, há de se reconhecer que as três instituições tiveram o mérito de esboçar políticas migratórias impregnadas pelos princípios universais de direitos humanos e os ideais de igualdade e justiça social.

    Segundo o estudo “Hacia el Sur. La construcción de la ciudadanía suramericana y la movilidad intrarregional” estas políticas delinearam as bases de uma gradativa integração regional que garantisse aos cidadãos do subcontinente o direito ao livre trânsito, à residência em qualquer um dos países membros dessas organizações, à direitos sociais e trabalhistas iguais aos nacionais do país receptor, à simplificação e uniformização dos documentos, trâmites e procedimentos jurídicos e administrativos.

    Na prática, o passado escravagista e colonial da região, a rigidez de suas hierarquias sociais, classistas e étnicas, o nacionalismo, a xenofobia, o racismo institucional, acabam dificultando a implementação e efetivação do ideal de uma cidadania sul-americana.

    Isto também acontece como resultado do desconhecimento dos acordos e os direitos deles decorrentes tanto por parte dos cidadãos como, às vezes, pelos próprios funcionários do Estado.

    Um espaço migratório regional “quase perfeito”

    As migrações intrarregionais constituem uma experiência bastante nova para a América do Sul. Até meados do século XX, o subcontinente era conhecido mais como destino de imigrantes internacionais— em sua maioria europeus. Num segundo momento, a tendência se inverte e América do Sul vira uma região de emigração principalmente rumo à América do Norte e Europa.

    Todavia, se a emigração continua sendo uma realidade estruturante da paisagem social de todos os países sul-americanos, a partir do final do século passado, essas migrações vão se tornando cada vez mais intrarregionais, beneficiando inicialmente Argentina, Chile e Venezuela, antes que os fluxos comecem a se diversificar para abranger o Brasil e outros países da região.

    Estas populações procuram melhores condições de vida, como no caso dos bolivianos que migram até Argentina e Brasil para trabalhar em setores como a indústria têxtil, ou os colombianos que procuram proteção internacional como consequência da violência e do conflito armado que afeta o país há mais de meio século.

    Segundo a OIM, em 2015, a região contava cerca de 5 milhões de imigrantes contra uma dezena de milhões de emigrantes. Entre 2010 e 2015, além de registrar um aumento progressivo e considerável das migrações que supera os 10%, cabe destacar que 70% do contingente de imigrantes presentes no subcontinente era composto de nacionais da mesma região.

    No entanto, para melhor avaliar esse crescimento espetacular, não se pode ignorar o atual número de cidadãos venezuelanos que deixam sua terra de origem em decorrência da crise social e política que assola o país. Volume que, segundo as projeções do ACNUR e da OIM deve ter já chegado, em 2020, a 6,4 milhões de migrantes e refugiados venezuelanos.

    Assim, se numa projeção bastante conservadora, calculamos que, ao menos 2/3 da população venezuelana migrada vão permanecer na região, podemos deduzir que as migrações intrarregionais na América do Sul devem, a termo, alcançar um volume que se aproxima de 8 milhões de indivíduos.

    E, mesmo se considerarmos que, até 2015, Venezuela acolhia mais de 1 milhão e meio de migrantes, majoritariamente intrarregionais, dos quais uma parte pode ter deixado o país, ainda continua aceitável manter a estimativa superior a 7 milhões de migrantes intrarregionais no subcontinente. O que representa cerca de 90% do conjunto das migrações que acontecem na América do Sul.

    Em todo caso, não são os números em si que nos interessam, mas sim o fato observado por estudos como “Radiographie des flux” (2020), de que a América do Sul seria um espaço migratório regional “quase perfeito”. Assim, mais do que a quantidade e densidade dos fluxos, vale a pena destacar a sua significância humana e cultural.

    Numa região relativamente jovem e ainda em processo de formação social e cultural, é necessário observar com atenção o fenômeno migratório intrarregional enquanto fator de produção de uma identidade sul-americana e um vetor de integração regional de “baixo para cima”

    Se, como vimos, as principais instituições interestatais da região não têm demonstrado força suficiente para acelerar esse processo de integração, não se pode negar que um de seus principais legados: o Acordo de Residência e Livre Trânsito (instituído pelo Mercosul), prova que não apenas há uma real demanda em mobilidade humana na região, mas que à medida que o Acordo se enraíza no imaginário social da região, mais essa integração se dará de maneira natural.

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    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/latinoamerica21/2021/03/america-do-sul-um-espaco-migratorio-regional-quase-perfeito.shtml

  • O perfil demográfico do Brasil até 2100 e os desafios da covid-19

    O perfil demográfico do Brasil até 2100 e os desafios da covid-19

    José Eustáquio Diniz Alves

     “A transição demográfica é o fenômeno de comportamento de massa mais importante da história da humanidade” (ALVES, 1994)

    A pandemia da covid-19 vai ter um impacto profundo no mundo, tanto em termos de morbimortalidade, quanto em termos econômicos. Contudo, por maior que seja o impacto em número de vítimas fatais, o surto pandêmico será incapaz de alterar a transição demográfica brasileira de longo prazo. Ou seja, a queda nas taxas brutas de natalidade e mortalidade vão continuar e a estrutura etária vai manter o ritmo de envelhecimento.

    Todavia, a pandemia pode jogar a pá de cal na possibilidade de aproveitamento do bônus demográfico e, desta forma, pode inviabilizar a decolagem do desenvolvimento humano do país e o Brasil pode ter que abandonar o sonho de se tornar uma nação próspera e feliz.

    O Brasil passou pelo fenômeno da transição demográfica (queda das altas taxas de mortalidade e natalidade), fundamentalmente, no século XX, e, em consequência, vai ter uma grande transição da estrutura etária no século XXI. A configuração demográfica do país no atual século será totalmente diferente dos primeiros 500 anos de história do país.

    A Divisão de População da ONU divulgou, em junho de 2019, as novas projeções populacionais para todos os países, para as regiões e para o total mundial. E no final do ano divulgou os novos gráficos sobre o perfil demográfico dos países. As figuras abaixo mostram as pirâmides populacionais do Brasil em três momentos.

    Em 1950, a população brasileira era de 53,9 milhões de habitantes, sendo 26,7 milhões de homens e 27,2 milhões de mulheres (meio milhão a mais de mulheres). A estrutura etária era jovem (alta proporção de crianças e adolescentes e baixíssima proporção de idosos) e a idade mediana era de apenas 19,2 anos (metade da população estava abaixo de 19,2 anos). Este tipo de pirâmide refletia a realidade dos primeiros 450 anos da demografia brasileira.

    Em 1985 foi o último ano em que a pirâmide brasileira teve um “formato egípcio” (cada grupo etário mais jovem era maior do que o grupo imediatamente anterior). A população brasileira era de 135,3 milhões de habitantes, sendo 67,3 milhões de homens e 68 milhões de mulheres (700 mil mulheres a mais). A idade mediana subiu ligeiramente para 21,4 anos, marcando o começo muito inicial do processo de envelhecimento.

    Em 2020 a pirâmide brasileira já apresentou uma redução da base e um encorpamento do meio da estrutura etária. A população brasileira foi estimada em 212,6 milhões de habitantes, sendo 104,4 milhões de homens e 108,2 milhões de mulheres (3,8 milhões de mulheres a mais). A idade mediana subiu para 33,5 anos, mostrando a rapidez do processo de envelhecimento do Brasil.

    Normalmente, a ONU apresenta para o restante do século três cenários de projeções, conforme mostra o gráfico abaixo para o caso do Brasil. No cenário de projeção alta, a estimativa indica uma população de 272,7 milhões de brasileiros em 2100. No cenário de projeção média, a população brasileira seria de 180,7 milhões de habitantes em 2100. E no cenário de projeção baixa, o número ficaria em 114,4 milhões de habitantes em 2100. Nos três cenários o número de mulheres continua superando o número de homens e o processo de envelhecimento é acentuado. A idade media na projeção alta em 2100 está estimada em 42,3 anos. Na projeção baixa a idade mediana ficaria em impressionantes 62,6 anos. E na projeção média (a mais provável) a idade mediana ficaria em 51,4 anos (ou seja, metade da população ficaria abaixo de 51,4 anos e a outra metade acima desta idade). O século XXI vai ser o século do envelhecimento demográfico do Brasil.

    Os gráficos abaixo detalham o perfil demográfico do Brasil entre 1950 e 2100. Nota-se que a população que era de 53,9 milhões em 1950 deve atingiu um pico de 229,6 milhões de habitantes em 2045 e depois iniciar uma trajetória de queda (a depender das taxas de fecundidade a queda pode ser menor ou maior). A população de 0-14 anos já está caindo desde o final do século XX. A população de 15-24 anos (idade de segundo grau e de universidade) já começou a cair desde o início do atual século. A população de 25-64 anos (potencialmente em idade de trabalhar) vai continuar crescendo até meados do atual século, mas vai cair na segunda metade do século. E a população idosa vai aumentar constantemente sua proporção na população total.

    As taxas brutas de mortalidade (TBM) e de natalidade (TBN) vão se encontrar em 2045 e a partir desta data o crescimento vegetativo se torna negativo. A taxa de fecundidade total (TFT) ficou ao nível de reposição (2,1 filhos por mulher) em 2005 e deve ficar abaixo do nível de reposição no restante do século. As taxas de mortalidade caíram significativamente e a esperança de vida ao nascer aumentou expressivamente, sendo que as mulheres mantém uma vantagem sobre os homens em termos de anos médios de vida.

    Todos os dados acima mostram que o Brasil terá uma mudança completa no seu perfil demográfico entre 1950 e 2100. Em meados do século XX, o Brasil tinha altas taxas de mortalidade e natalidade, uma estrutura etária muito rejuvenescida e altas taxas de crescimento natural. No final do século XXI, o Brasil terá baixas taxas de mortalidade e natalidade, uma estrutura etária muito envelhecida e decrescimento populacional.

    Atualmente, em 2020, o Brasil tem a melhor configuração demográfica de sua estrutura etária, pois tem as razões de dependência mais baixas da história (passada e futura). Ou seja, a proporção de pessoas dependentes (crianças e idosos) é menor dos 520 anos da história brasileira e será menor em relação ao futuro, pois ela já começou a subir e vai se elevar bastante com o processo de envelhecimento. Isto quer dizer que o Brasil está no melhor momento do bônus demográfico.

    Esta nova configuração demográfica exigiria que as políticas econômicas e sociais se adaptem à nova realidade populacional, fortalecendo as políticas de educação e emprego. Infelizmente a crise econômica que começou em 2014 já estava fazendo o Brasil desperdiçar este momento histórico e que é fundamental para qualquer nação que queira dar um salto de qualidade de vida para a sua população. Só é possível um país enriquecer (ter alto IDH) antes de envelhecer.

    Mas com toda a crise econômica e no mercado de trabalho que acontece depois da eclosão do coronavírus, o desafio de aproveitar os momentos favoráveis da estrutura etária parece um sonho cada vez mais distante. O FMI, no relatório divulgado em abril, estimou que o mundo vai ter a maior depressão econômica da história do capitalismo e o Brasil vai ter a sua pior recessão anual da história em 2020.

    Assim, neste quadro econômico que já era muito complexo, a covid-19 chegou ao país em um momento de muita instabilidade política e, tudo indica, terá um impacto mortal sobre a economia brasileira, fazendo com que o Brasil desperdice de vez a sua chance de aproveitar o bônus demográfico e de dar um salto na qualidade de vida da população brasileira.

    Questões para as turmas da primeira série

    1. O texto aborda características populacionais do Brasil. Indo nessa direção, pesquise as cinco maiores populações absolutas do mundo e as descreva abaixo.

    2. Faça uma diferenciação entre os conceitos de taxa bruta de mortalidade e taxa bruta de natalidade.

    3. O que é uma pirâmide etária? Por quais transformações a pirâmide etária brasileira foi atravessando desde 1950 até os dias de hoje?

    4. Qual grupo de países apresenta a pirâmide etária em “formato egípcio” até os dias de hoje?

    5. Explique a afirmativa: “o século XXI vai ser o ser o século do envelhecimento demográfico do Brasil”.

    Questões para as turmas da segunda série

    1.O texto aborda a dinâmica demográfica brasileira. Indo na direção conceitual, diferencie o crescimento vegetativo (abordado no texto) do crescimento populacional mais amplo.

    2. Qual é a taxa de fecundidade considerada ideal para um crescimento equilibrado de uma população, ou seja, com a manutenção da reposição populacional? A população brasileira está acima ou abaixo dessa taxa de fecundidade? Por qual motivo?

    3. O que é a transição demográfica? Faça uma pesquisa e compare a transição demográfica dos países europeus com a transição demográfica brasileira.

    4. Explique o que é o bônus demográfico trazido no texto e de que forma ele pode ser importante para o desenvolvimento econômico do país.

    5. Explique a afirmativa: “só é possível um país enriquecer (ter alto IDH) antes de envelhecer”.

    Questões para as turmas da terceira série

    1. O aumento da expectativa de vida é motivo de orgulho e preocupação para um país. Explique essa contradição.
    2. Estabeleça diferenças entre as atuais pirâmides etárias do Brasil e da Alemanha.
    3. O processo de urbanização vem afetando as taxas de natalidade do Brasil? Justifique.
    4. Explique as mudanças observadas na forma das pirâmides etárias do Brasil nas ultimas décadas.
    5. Qual a importância do Censo para um país?

    https://www.ecodebate.com.br/2020/04/29/o-perfil-demografico-do-brasil-ate-2100-e-os-desafios-da-covid-19-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

  • Barco afunda no Senegal, e 140 morrem no naufrágio de imigrantes mais letal do ano

    Barco afunda no Senegal, e 140 morrem no naufrágio de imigrantes mais letal do ano

    Embarcação com 200 pessoas que tentavam chegar às ilhas Canárias pegou fogo antes de submergir

    29.out.2020 às 16h32

    Ana Estela de Sousa Pinto

    BRUXELAS

    Ao menos 140 pessoas morreram afogadas no mais letal acidente com imigrantes deste ano, na costa do Senegal, segundo a OIM (agência da ONU para imigrações).

    O barco, com cerca de 200 pessoas a bordo, pegou fogo e virou perto de Saint-Louis, na costa noroeste do país africano. Os imigrantes tentavam chegar às ilhas Canárias, arquipélago espanhol que fica na altura do litoral marroquino.

    Segundo a OIM, pescadores e embarcações das marinhas senegalesa e espanhola resgataram 59 pessoas e recuperaram os restos mortais de outras 20.

    O acidente se segue a quatro outros naufrágios registrados no Mediterrâneo na semana passada e um no canal da Mancha, que matou um casal e dois de seus filhos, de 9 e 5 anos —um bebê ainda está desaparecido.

    Imigrantes resgatados de vários barcos nas ilhas Canárias, arquipélago espanhol que fica na costa africana – Desiree Martin – 25.out.2020/AFP

    “Apelamos à unidade entre governos, parceiros e a comunidade internacional para desmantelar as redes de tráfico e contrabando que tiram partido da juventude desesperada”, disse Bakary Doumbia, chefe da missão da OIM no Senegal.

    Há um mês, a Comissão Europeia (Poder Executivo do bloco) apresentou sua proposta de nova política de imigração para a UE, que tem como um dos pilares combater os coiotes que cobram pelo transporte ilegais de imigrantes.

    Migrantes aguardam em base naval em Trípoli (Líbia) após resgate da guarda costeira
    Migrantes aguardam em base naval em Trípoli (Líbia) após resgate da guarda costeira Ismail Zitouny /Reuters

    Segundo a agência da ONU, o número de embarcações de imigrantes que deixam o oeste da África Ocidental em direção às Ilhas Canárias aumentou muito neste ano. A estimativa é de 11 mil chegadas ao arquipélago espanhol neste ano, quatro vezes as 2.557 do mesmo período do ano passado.

    Somente em setembro, 14 barcos transportando 663 migrantes deixaram o Senegal para o arquipélago espanhol. A OIM diz que ao menos um quarto das viagens é interrompido por naufrágio ou algum outro incidente.

    Com esse caso recente, são ao menos 414 as pessoas que morreram ao longo dessa rota desde janeiro, de acordo com o Projeto de Migrantes Desaparecidos. No ano passado, foram 210 mortes.

    www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/10/ao-menos-140-morrem-no-mais-letal-naufragio-de-imigrantes-do-ano.shtml

    Questão

    1. Aponte um motivo para esse fluxo de imigrantes.

    2. O que são “coiotes”?

    3. Qual seria o principal destino dessa migração?

    Prof Luciano Mannarino

  • Segregação Socioespacial

    Segregação Socioespacial

    No caso de São Paulo, a pobreza urbana não é só uma questão de nível, ou índice, mas também de concentração espacial e social, envolvendo desigualdade, separação e homogeneidade espacial. Esse problema também está ligado às políticas públicas, que deveriam ser criadas para melhorar a situação dessas pessoas. O problema não é novo, nem está ausente das cidades norte-americanas e europeias. A literatura da área de Ciências Sociais acumulou um conhecimento considerável não apenas sobre os antigos processos de segregação que marcaram cidades como Nova York e Detroit, mas também sobre as dinâmicas de novas formas de segregação e pobreza urbana (Harloe et al., 1992; Marcuse, 1996; Logan et al., 1992)8 que levaram a novas formas de protesto urbano (Jencks, 1993)9. Embora a questão da desigualdade e da falta de equidade na distribuição dos benefícios da urbanização esteja presente no debate internacional, há uma forte ênfase na questão da separação entre grupos sociais e da homogeneidade social das várias partes da cidade, estruturada especialmente pela etnia e pela raça.

    Geralmente, a segregação nas cidades brasileiras é semelhante, com a pobreza tendendo a ser altamente concentrada em termos espaciais. No entanto, no Brasil a ênfase da literatura sempre esteve mais na existência de desigualdades e injustiças na distribuição da renda e dos serviços públicos do que na separação dos grupos sociais. Esses dois elementos estão obviamente associados empiricamente, assim como se imbricam nos processos que produzem o espaço urbano, mas enquanto na literatura internacional há forte ênfase na questão da análise da homogeneidade de cada espaço em particular, no caso nacional essa dimensão está praticamente ausente, sendo o foco centrado nas desigualdades. Por outro lado, parece muito mais difícil combater a pobreza por meio das políticas públicas no Brasil, visto que a pobreza acumulada é enorme e os processos que a reproduzem estão mesclados com vários aspectos de reprodução social10.

    UNESCO realiza seminário em Nova York sobre soluções brasileiras para  combater a pobreza urbana – ONU Brasil

    Uma importante consequência social da fusão entre desigualdade e a segregação é o forte efeito cumulativo dos riscos sociais e ambientais em alguns pontos críticos que chamamos de “hiperperiferias” (Torres e Marques, 2001). Na verdade, o nível dos problemas sociais e ambientais de determinadas áreas é impressionante, superpondo, em termos espaciais (e sociais), os piores indicadores socioeconômicos, com riscos de enchentes e deslizamentos de terra, um ambiente intensamente poluído e serviços sociais (quando os há) extremamente ineficientes (Torres, 1997)11.

    Embora a presença de populações pobres nas periferias e favelas não esteja em discussão, as causas de sua concentração espacial são objeto de debate. A literatura brasileira na área geralmente enfatiza três diferentes grupos de causas para esse padrão de urbanização:

    – o mercado de trabalho e a estrutura social – para essa literatura, a segregação urbana é uma consequência do mercado de trabalho, como nos trabalhos resenhados por Valladares e Coelho (1987). Para eles, a natureza da estrutura social brasileira e seu mercado de trabalho, bem como as recentes transformações pelas quais passaram, explicariam os padrões de alta segregação e as baixíssimas condições de vida nas periferias. A pobreza urbana no Brasil não seria um mero problema de integração na sociedade industrial moderna, mas um traço estrutural da economia capitalista dos países em desenvolvimento;

    – a dinâmica do mercado imobiliário e da produção de moradias – alguns autores enfatizam os incorporadores e suas estratégias. De acordo com essa linha de raciocínio, a estrutura urbana seria explicada em grande parte por esses atores, que teriam o poder de controlar as melhores localizações, especular com a terra desocupada e lucrar com mudanças na utilização das propriedades e suas redondezas (Ribeiro, 1997)13. Outros autores concentram-se no modo como o mercado imobiliário aloca grupos sociais e atividades econômicas por meio de mecanismos microeconômicos de valorização da terra; esses fatores promovem a segregação dos mais pobres por meio da competição pelo uso da terra (Smolka, 1987 e Abramo, 1994);

    – políticas estatais – um outro grupo de autores focaliza o poder regulador do Estado sobre o território. De acordo com essas análises, o Estado pode manter privilégios e excluir uma parte significativa da cidade dos benefícios da urbanização por meio da legislação sobre a construção civil e o uso do solo (Rolnik, 1997 e Néri, 2002). Um elemento central aqui seria o zoneamento, que “congelaria” os benefícios da urbanização em determinadas partes da cidade habitadas pelos grupos mais ricos, ao mesmo tempo em que permite vários tipos de padrões de uso e de construção no restante da cidade. Outros estudos apontam padrões de segregação promovidos ou incrementados pela ação direta do Estado (Fix, 2001; Marques e Bichir, 2001; Vetter, 1975 e Vetter et al., 1981); aqui, as causas seriam o aumento do valor da terra em certas partes da cidade, resultante de investimentos públicos ou de obras públicas, os quais podem expulsar alguns grupos sociais ou substituí-los por outros (Vetter, 1975 e Vetter et al., 1981), ou mesmo a ação direta do Estado deslocando compulsoriamente populações de baixa renda (Fix, 2001).

    É muito provável que os três processos descritos acima ocorram simultaneamente. É verdade que famílias localizadas na base da estrutura social tendem a viver em condições mais precárias e a ter escolhas muito limitadas, especialmente na sociedade brasileira, onde a ascensão social é restrita. Mas também é verdade que o mercado imobiliário está estruturado em torno de ofertas de uso e locação do solo, e que a maioria da população não pode pagar quase nada para morar. Essas pessoas tendem a ser empurradas para lugares sem serviços públicos e com quase nenhuma renda diferencial. No entanto, também é verdade que o Estado pode incrementar esses processos, ou mesmo causar ou multiplicar a segregação e a produção de desigualdades de maneira direta e concentrada.

    http://www.revistaedugeo.com.br/ojs/index.php/revistaedugeo/article/view/747

    Questões

    Analise a relação entre desigualdade e segregação urbana em São Paulo. Como a fusão desses dois fatores contribui para a formação das “hiperperiferias” mencionadas no texto?

    Explique como o mercado de trabalho e a estrutura social contribuem para a segregação urbana no Brasil. Quais são as características específicas do mercado de trabalho brasileiro que agravam esse problema?

    Discuta o papel do mercado imobiliário na produção e manutenção da segregação urbana. Como as estratégias dos incorporadores imobiliários afetam a distribuição espacial das diferentes classes sociais nas cidades brasileiras?

    Avalie como as políticas estatais podem intensificar os processos de segregação e desigualdade urbana. De que maneiras o Estado, direta ou indiretamente, contribui para a exclusão de grupos sociais dos benefícios da urbanização?

    Compare a abordagem da literatura internacional sobre segregação urbana com a abordagem brasileira. Por que a questão da homogeneidade social e da separação entre grupos é mais enfatizada no contexto internacional do que no Brasil?

    Discuta como os três grupos de causas da segregação urbana apresentados no texto (mercado de trabalho e estrutura social, mercado imobiliário, e políticas estatais) podem atuar de forma simultânea e interconectada para agravar a situação da pobreza urbana.

    Considerando as diferentes causas da segregação urbana mencionadas no texto, proponha possíveis soluções ou políticas públicas que poderiam ser implementadas para mitigar esses problemas nas cidades brasileiras.

    Analise o impacto da concentração espacial da pobreza em São Paulo em relação aos riscos sociais e ambientais. Como esses riscos se acumulam nas “hiperperiferias” e quais são as possíveis consequências para as populações que vivem nessas áreas?

    Reflita sobre como a dinâmica da segregação urbana e da desigualdade se manifestam em outras grandes cidades ao redor do mundo. Como essas dinâmicas podem ser semelhantes ou diferentes das encontradas em São Paulo?

    Explore a importância da discussão sobre homogeneidade social na literatura internacional. De que maneira a inclusão dessa discussão no contexto brasileiro poderia contribuir para um entendimento mais profundo das desigualdades urbanas no país?

      Prof Luciano Mannarino.

    1. A Conurbação e o combate ao Covid19.

      A Conurbação e o combate ao Covid19.

      Do UOL, em São Paulo 24/06/2020 15h34.

      O promotor Luiz Alberto Meirelles Szikora, da cidade de Votorantim (SP), divulgou hoje uma nota de esclarecimento para pedir explicações sobre o funcionamento de um shopping center localizado na divisa do município com a vizinha Sorocaba. Como as duas cidades estão em fases diferentes de flexibilização das medidas de isolamento contra a pandemia do novo coronavírus, o estabelecimento reabriu apenas parcialmente no início da semana: as lojas do lado de Sorocababa.

      Como as duas cidades estão em fases diferentes de flexibilização das medidas de isolamento contra a pandemia do novo coronavírus, o estabelecimento reabriu apenas parcialmente no início da semana: as lojas do lado de Sorocaba estão fechadas, enquanto as lojas em Votorantim foram abertas.

      Shopping na divisa entre Sorocaba (SP) e Votorantim (SP) fica

      Na nota, divulgada pelo Ministério Público de São Paulo, o promotor classificou a situação como “absurda e icônica”, “por retratar a absoluta incongruência entre as posturas adotadas, atualmente, pelos municípios de Votorantim e de Sorocaba, em relação às medidas de isolamento e de distanciamento social (…)”. “Vale lembrar que os dois municípios formam um grande maciço urbanizado (conurbação), de modo que, em muitos locais, basta atravessar uma rua ou uma avenida ou seguir por mais alguns metros numa via pública, para sair do território de um município e adentrar no território de outro”, acrescenta o texto.

      Na nota, a Promotoria de Justiça de Votorantim pede “uma solução única, que abranja todos os estabelecimentos situados no território do município de Votorantim, para resolver a divergência de posturas adotadas, atualmente, entre os referidos municípios, em relação às medidas de isolamento e de distanciamento social”.

      Segundo o texto, as medidas devem ser compatíveis e uniformes nas duas cidades. Ainda no documento, o promotor anunciou ter enviado um ofício ontem à Prefeitura de Votorantim para pedir informações. A partir daí, deverá determinar providências cabíveis, “especialmente se o Município de Votorantim continuar a adotar medidas menos rígidas de isolamento e de distanciamento social.

       

      Conceito de Conurbação (4 pontos)
      a) O texto menciona que Votorantim e Sorocaba formam um “grande maciço urbanizado (conurbação)”. Explique o que significa o conceito de conurbação e como ele se aplica à relação entre essas duas cidades. (2 pontos)


      b) Como a conurbação entre Votorantim e Sorocaba pode impactar a aplicação de políticas públicas, como as medidas de isolamento social? (2 pontos)

      Relação com Metrópoles (3 pontos)
      a) Considerando que a conurbação ocorre quando áreas urbanas de diferentes municípios se fundem, como a situação descrita no texto pode influenciar a dinâmica de uma região metropolitana? (1,5 pontos)


      b) Discuta a importância de uma gestão integrada entre municípios conurbados dentro de uma metrópole para enfrentar desafios como a pandemia de COVID-19. (1,5 pontos)

      Implicações Urbanas e Sociais (3 pontos)
      a) O promotor menciona a “absoluta incongruência” entre as medidas adotadas por Votorantim e Sorocaba. Como a falta de uniformidade nas políticas de isolamento social pode afetar as populações que vivem em áreas conurbadas? (2 pontos)


      b) Em uma região conurbada, quais seriam as vantagens de tratar os municípios como uma única entidade metropolitana para o planejamento urbano? (1 ponto)

      Prof Luciano Mannarino

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