Os EUA registraram, em 2020, o menor número de nascimentos de bebês em mais de 40 anos, na medida em que a pandemia de coronavírus forçou famílias a adiarem ou cancelarem planos de terem filhos.
A taxa de natalidade nos EUA já vinha em queda nos últimos seis anos, mas agora alcançou a menor marca desde 1979. Os cerca de 3,6 milhões de bebês americanos que nasceram no ano passado representam uma queda de 4% em relação ao ano anterior, de acordo com dados divulgados pelo Centro Nacional de Estatísticas de Saúde dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC).
O CDC não atribui a queda diretamente à pandemia, mas especialistas vêm alertando que as diversas crises provocadas ou maximizadas pela Covid-19 têm impacto direto sobre a fertilidade das mulheres e sobre os planos das famílias para longo prazo.
Americana apresenta bebê à família por videoconferência devido às restrições para contenção do coronavírus em Los Angeles, na Califórnia – Brandon Bell – 26.nov.20/AFP
Os altos índices de desemprego, o cenário de incerteza econômica, os efeitos do vírus sobre a saúde mental das famílias e até o fato de que há mais pessoas precisando dedicar atenção a familiares em recuperação são alguns dos fatores que podem estar relacionados à redução do número de nascimentos.
Dados mais antigos mostram que os EUA viveram cenários parecidos em outros momentos de crise. Segundo estatísticas do Population Reference Bureau (PRB), uma organização sem fins lucrativos, a taxa de natalidade americana atingiu o mínimo histórico em 1936, sete anos após a quebra do mercado de ações em 1929, que mergulhou o país no período conhecido como Grande Depressão.
À medida que a economia do país se recuperou, os EUA viveram uma explosão demográfica, o chamado “baby boom”, concentrada principalmente no período pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
A partir da década de 1960, no entanto, o índice médio de fertilidade começou a cair em decorrência de importantes mudanças sociais, como a ascensão dos movimentos feministas, o surgimentos de novos e mais eficazes métodos de contracepção e, em 1973, a legalização do aborto nos EUA.
Em junho do ano passado, o Instituto Brookings, grupo de pesquisadores com sede na capital americana, publicou um relatório estimando que a crise de saúde pública causada pelo coronavírus e a consequente recessão econômica resultariam em uma queda de 300 mil a 500 mil nascimentos em 2021.
Em dezembro, os pesquisadores revisaram a estimativa e a mantiveram em 300 mil nascimentos a menos neste ano, mas fizeram ressalvas a respeito de fatores cujo impacto na fertilidade ainda não havia sido mensurado de forma completa, como o fechamento de escolas e creches.
Outro estudo, do Instituto Guttmacher, especializado em saúde reprodutiva, constatou que 34% das mulheres americanas adiaram seus planos de maternidade ou diminuíram a expectativa sobre a quantidade de filhos que desejavam ter devido à pandemia.
Além da incerteza sobre o futuro, a queda na natalidade também pode estar relacionada a um movimento de queda na frequência e no interesse por sexo.
Uma pesquisa realizada nos primeiros meses da pandemia nos EUA pelo Instituto Kinsey mostrou que 43,5% dos entrevistados relataram um declínio em sua vida sexual, enquanto 42,8% disseram não ter notado diferenças e 13,6% apontaram melhoras.
Giacomo Vicenzo Colaboração para Ecoa, em São Paulo (SP) 26/04/2021 15h07
Você já ouviu falar do Censo Demográfico?
Talvez já tenha recebido os recenseadores do IBGE, responsáveis pela pesquisa, em sua casa, ou já os notou circulando pelas vias da cidade nos anos em que o levantamento é feito. A pesquisa estava prevista para ser realizada este ano, mas na sexta (23) o governo anunciou que o orçamento de 2021 não terá recursos para realização. O IBGE já sinalizava o que estava por vir ainda em março, quando divulgou uma nota em que apontava que o corte previsto no projeto do orçamento iria impossibilitar que o Censo 2021 fosse realizado. O estudo já estava atrasado, pois geralmente é feito nos países de 10 em 10 anos e o último feito no Brasil, foi em 2010. Mas o que é o Censo Demográfico e como esse estudo afeta a nossa vida? Ecoa conversou com especialistas, um ex-ministro e profissionais que lidam com esses dados em diversas esferas para entender os impactos de sua não realização e explicar como funciona esse levantamento.
O que é o Censo?
O Censo Demográfico realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) é um levantamento estatístico que traz diversos dados populacionais, como por exemplo, socioeconômicos, de modo de vida de uma população e étnicos. Se hoje você sabe quantas pessoas moram em sua cidade e outros dados a respeito da população do país ou do entorno onde mora, pode ter certeza que o Censo foi um dos responsáveis diretos ou indiretos por esses estudos. “Censo é a contagem da população. Parece simples, mas é basicamente contar cada mestre pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e que atuou como pesquisador do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) por sete anos. “Alguns dados podem ser estimados, como o total da população, a partir de taxas de natalidade e mortalidade. Outros não. O censo de 2010 tinha um gabarito com mais de 100 perguntas, onde eram medidas as coisas mais diversas, desde a quantidade de eletrodomésticos de uma casa até a escolaridade dos moradores”, explica Moraes.
Quando foi o primeiro Censo?
À primeira vista a ideia de levantamento demográfico nos parece algo relativamente novo e uma ferramenta das sociedades modernas, mas a verdade é que se chegamos até aqui com o número de informações e conhecimentos populacionais que detemos, é porque esse tipo de estudo já era feito no passado e foi sendo modernizado e adequado ao longo do tempo. A primeira concepção de Censo Demográfico surgiu há muitos anos atrás, como explica Paulo de Martino Jannuzzi, professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE) do IBGE a Ecoa: “O Censo Demográfico é o principal levantamento estatístico de qualquer país. Sua existência tem mais de 2 mil anos, pois contar o total populacional é algo que data em registros dos tempos bíblicos e sempre foi importante para que se tenha um dimensionamento da população [na época] para o exército e para fins fiscais”, explica Jannuzzi.
O professor lembra que naturalmente os censos vão se sofisticando ao longo do tempo e ficando cada vez mais importantes. “Na Revolução Francesa e na Revolução Americana se tem a menção específica sobre censos como um instrumento para poder definir a representação [política] de cada região”, explica. Ao longo do tempo, o estudo passou a ter muitas outras funções, além da simples contagem populacional e hoje são um instrumento fundamental para retratar as sociedades ao longo de suas histórias. “Essa já é uma realidade desde o final do século 19, quando os questionários do censo começaram a levantar uma série de informações importantíssimas para o reconhecimento da identidade nacional”, ressalta Jannuzzi. O primeiro Censo Demográfico brasileiro foi em 1872 e o estudo ocorreu, de certa forma, com 20 anos de atraso, pois uma parcela da sociedade se opunha à realização do levantamento.
Esse foi o primeiro e último da época do Império e era para ter sido feito em 1852, mas os latifundiários foram resistentes à realização do censo, pois, obviamente, a pesquisa iria mapear a quantidade de escravos e, portanto, identificaria as bases tributárias para reincidir impostos para o financiamento do Império”, explica Jannuzzi O professor ainda lembra que o Censo de 1872 já trazia informações sobre religião, ocupação, raça [como era entendida nesta época – alforriado, escravo e branco] e deficiência. “De lá para cá, as coisas se sofisticaram e a partir de 1960 com a introdução da técnica de amostragem, se tem a possibilidade de se detalhar ainda mais”, explica.
Qual a importância do Censo atualmente?
Teich ficou no cargo de ministro da Saúde por menos de um mês Imagem: REPRODUÇÃO/MINISTÉRIO DA SAÚDE
Já entendemos como o Censo funciona, uma coleta de dados e informações que são capazes de retratar uma sociedade e mostrar suas mais diversas nuances. No Brasil, com 28% dos domicílios sem acesso à internet, o estudo passa longe das possibilidades de ser feito de forma online e usa a visita dos recenseadores para coletar dados dos mais diversos e tem o objetivo de mapear por igual o país.
Mas qual a importância de se fazer esse levantamento ainda hoje?
Moraes explica que ele é um norte fundamental ao Estado brasileiro na hora de criar políticas públicas. “O Fundo de Participação dos Municípios utiliza os dados do Censo para calcular quanto cada município tem a receber”, comenta. “Pensando em um exemplo atual, quando o Ministério da Saúde calcula qual o público-alvo de uma campanha de vacinação, utiliza-se os dados do Censo. Se sabemos que na cidade ‘X’ tem uma quantidade ‘Y’ de pessoas com mais de 60 anos, é porque houve um Censo que contou aquela população”, completa Nelson Teich, ex-Ministro da Saúde e médico oncologista explica, em entrevista a Ecoa, que os dados do Censo são como ter um diagnóstico do que está acontecendo com o país. “Sem esses dados, não se consegue dimensionar e nem diagnosticar os problemas para que se aloque as verbas de forma eficaz e se crie políticas públicas.
É preciso lembrar que todos os recursos são finitos”, comenta Teich. Ainda que existam outros estudos, a importância do Censo é primordial no sentido de apresentar justamente diferenças entre regiões e populações. “Não se pode trabalhar um país na média, é preciso conhecer as características da Nelson Teich, ex-Ministro da Saúde e médico oncologista explica, em entrevista a Ecoa, que os dados do Censo são como ter um diagnóstico do que está acontecendo com o país. “Sem esses dados, não se consegue dimensionar e nem diagnosticar os problemas para que se aloque as verbas de forma eficaz e se crie políticas públicas. É preciso lembrar que todos os recursos são finitos”, comenta Teich.
Ainda que existam outros estudos, a importância do Censo é primordial no sentido de apresentar justamente diferenças entre regiões e populações. “Não se pode trabalhar um país na média, é preciso conhecer as características das pessoas e os lugares. Até mesmo em países pequenos se encontra situações muito heterogêneas”, defende o ex-ministro de Saúde “Quando se tem a informação detalhada, se obriga que o gestor trabalhe, pois se tem o diagnóstico exato do que é preciso fazer”, completa.
Como seria um Brasil sem Censo para sempre?
Toda política pública é criada baseada nas necessidades da população, mas para conhecer essas necessidades é preciso ter dados às mãos. O ex-ministro da saúde Teich afirma que a pandemia de covid-19 mostrou que essa incapacidade de gerar informações levou a uma necessidade de se criar ações baseadas em intuições e não em diagnósticos reais dos problemas. “Sem dados se criam políticas públicas com base na impressão, não se sabe se está criando algo efetivo”, diz. “É como chegar a um lugar em que há muito câncer de pulmão e descobrir que quem usa isqueiro têm mais câncer. É claro que não é isqueiro, é cigarro. Mas sem essa informação, corre-se o risco de fazer uma campanha de política pública contra o isqueiro”, comenta Teich
Mais do que navegar às cegas e encarcerar os vendedores de isqueiros em um Brasil hipotético, sem esses dados, o país não teria conseguido focalizar políticas públicas de segurança alimentar de forma bem orientada, que garantiram a saída do Mapa da Fome. “Ter mapeado a população em extrema pobreza nos Censos de 2000 e de 2010, trouxe a garantia de uma boa focalização em programas como o Bolsa Família, que fez com que as ações de segurança alimentar e assistência social se dirigissem aos bolsões de extrema pobreza na zona rural e nas periferias urbanas com um nível de qualidade técnica e precisão muito bom, que fez com que o Cadastro Único pudesse refletir esse mapeamento e auxiliasse na saída do Mapa da Fome”, comenta Jannuzzi. Adiado para 2022, a possível aceitação do estudo por uma parcela da sociedade preocupa o pesquisador. “O discurso contra o Censo é um sentimento que pode pegar em determinados segmentos, que podem não querer participar da pesquisa.
Da mesma forma que se pregou a contra a vacina, talvez ano que vem tenhamos um movimento muito ruim em relação a isso”, avalia. “O Censo é uma realização técnica, mas que tem motivação política. O estudo traz um reconhecimento da identidade nacional. O fato de não se priorizar o estudo mostra que estamos em um momento muito diferente de outros da história do Brasil”, completa Jannuzzi.
A pandemia de Covid-19 roubou, sozinha, quase dois anos da esperança de vida no Brasil. O índice crescia sem parar desde 1945 – em média, a expectativa de vida aumentava cinco meses a cada ano. Era um sinal da melhoria nas condições básicas de vida, que aumentavam a longevidade da população. Mas esse quadro se reverteu em 2020, ano em que 195 mil brasileiros morreram por Covid-19. A estimativa era de que o índice chegasse a 77 anos em 2020, mas, por causa da Covid-19, ficou em 75 anos. Em algumas unidades da federação o retrocesso foi ainda maior: Distrito Federal, Amazonas, Amapá, Roraima e Espírito Santo tiveram redução de mais de três anos na esperança de vida ao nascer.
Esses resultados constam de estudo publicado em pré-print por pesquisadores de Harvard, Princeton, Universidade do Sul da Califórnia e Universidade Federal de Minas Gerais. O trabalho mediu o impacto direto das mortes por Covid-19 na demografia brasileira. E a conclusão é clara: a mortalidade pela doença no país tem sido “catastrófica”. “Nossa estimativa ainda foi extremamente conservadora”, explica a demógrafa Marcia Castro, chefe do departamento de Saúde Global e População da Universidade de Harvard e líder do estudo. “O nosso cálculo para este estudo considerou apenas os óbitos por Covid-19, mas o excesso de mortalidade observado no Brasil é muito maior do que só os óbitos pela doença.” Segundo o Conselho Nacional de Secretários de Saúde, o Brasil teve 275 mil mortes acima do esperado em 2020 – 80 mil a mais que os registros de morte por Covid-19. Esse excedente de mortes pode ser, em parte, atribuído ao colapso do sistema de saúde, consequência direta do descontrole da pandemia.
Ilustração de Carvall
Castro e outros pesquisadores já iniciaram um novo estudo, agora para calcular o impacto do volume total de mortes na expectativa de vida. “Ainda não há dados para o mundo todo, mas certamente o Brasil vai estar entre os países com maior redução”, prevê Castro. O decréscimo que a Covid-19 causou na esperança de vida brasileira em 2020 foi 72% maior que o observado nos Estados Unidos, líder de mortes pela doença no planeta. E, a julgar pelo padrão de mortandade, o impacto em 2021 vai ser ainda maior. No Amazonas e em Rondônia, por exemplo, as mortes por Covid-19 nestes quatro primeiros meses do ano já superaram os registros de todo o ano passado. “É possível que a gente, pelo segundo ano seguido, observe impacto significativo na expectativa de vida”, diz Castro.
No Amazonas, atingido com voracidade pela pandemia que mergulhou o estado no caos e matou mais de 5 mil pessoas em 2020, a retração na esperança de vida foi ainda mais grave. A expectativa de vida, que deveria chegar a 73 anos em 2020, ficou em 69,5. A mortalidade da Covid-19 fez o estado perder, em apenas um ano, 60% do avanço na expectativa de vida conquistado nas últimas duas décadas. Além da redução desse índice, a Covid-19 também intensificou as desigualdades regionais no Brasil, refletindo o peso desproporcional da epidemia nos estados. Antes da pandemia, a diferença entre a maior e a menor expectativa de vida em nível estadual era de 8,54 anos. Depois da pandemia, a diferença aumentou para 9,15 anos. Na estimativa dos pesquisadores, Santa Catarina apresenta o maior índice (78 anos), e Roraima, o menor (69 anos).
A esperança de vida ao nascer é um indicador que reflete o potencial de sobrevivência da população, dadas as características demográficas. Serve para responder a uma pergunta hipotética: se uma pessoa que nasceu em um dado ano fosse submetida, ao longo da vida, às condições de mortalidade observadas naquele mesmo ano, por quanto tempo ela sobreviveria? Para calcular a esperança de vida, os pesquisadores coletam informações sobre a mortalidade do país em um ano específico – número de mortes, idade e sexo dos mortos. Depois, a curva de mortes é padronizada e os pesquisadores chegam a um número. Castro explica que isso não significa que todas as pessoas vão observar essas taxas na vida real. Ou seja, os nascidos em 2020 não vão necessariamente morrer aos 75 anos. Mas essa é a melhor maneira que os especialistas encontraram para acompanhar a evolução da mortalidade no mundo e comparar indicadores de saúde em vários locais diferentes. A expectativa de vida também tem aplicações práticas importantes: é um dos parâmetros usados para calcular o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
“É óbvio que a queda da expectativa de vida ao nascer vai trazer o IDH para baixo”, diz Castro. Especialistas já alertaram que, com essa queda, o Brasil terá dificuldade para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável propostos pela ONU. Na análise de Castro, essa será uma tendência global, mas o impacto a longo prazo depende das medidas implementadas para controlar a pandemia. Nesse ponto, a situação do Brasil é preocupante. “Não temos nem vacinação rápida nem medidas sustentáveis que diminuam a transmissão do vírus”, avalia Castro. “A expectativa é que esse quadro melhore em 2022, mas não dá para garantir que a esperança de vida e o IDH voltem rapidamente ao nível pré-pandemia.”
É normal que crises sanitárias e humanitárias reduzam os índices vitais. A pandemia de gripe espanhola, no início do século XX, reduziu a expectativa nos Estados Unidos entre 7 e 12 anos. Assim que essas crises são superadas, geralmente há um repique que logo corrige a esperança de vida perdida. Mas, no caso da Covid-19 no Brasil, os pesquisadores argumentam que a situação não vai se estabilizar rapidamente. Primeiro porque o país atualmente atravessa o pior momento da pandemia. Com o sistema de saúde em colapso, a atenção básica não é capaz de diagnosticar e tratar outras doenças – e essa paralisia cobra um preço. Os pesquisadores estimam que só a redução dos tratamentos de tuberculose e HIV pode aumentar a mortalidade pelos próximos cinco anos. Em 2020, 20% das crianças deixaram de se vacinar contra hepatite B, poliomielite e outras enfermidades. Além disso, relatos de sequelas deixadas pela Covid-19 nos pacientes que sobrevivem continuam crescendo. Isso inclui fadiga, complicações neurológicas, pulmonares e cardiovasculares que podem trazer complicações a longo prazo.
A crise econômica, que eleva os níveis de pobreza e desigualdade, também pode afetar os indicadores de saúde no Brasil nos próximos anos. O fim do auxílio emergencial aumentou o número de pessoas abaixo da linha da pobreza. Atualmente, cerca de 27 milhões de brasileiros estão nessa situação – o que corresponde a 12,8% da população. Os pesquisadores lembram que a perda de renda pode reduzir o acesso aos serviços de saúde e aumentar os índices de mortalidade infantil. “O que vai acontecer no longo prazo depende de como o cenário da Covid-19 vai se desenrolar nos próximos meses. No ano passado, quando as mortes estavam em declínio, não fizemos nada para conter a segunda onda”, lembra Castro. “Se continuarmos sujeitos a isso, sem impedir a transmissão do vírus, podemos ter esses efeitos se arrastando por um período cada vez mais longo.”
Pela primeira vez na história, o Brasil pode registrar mais óbitos que nascimentos. Em abril deste ano, até o dia 13, a Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen) registrou 61.540 óbitos no país e 63.760 nascimentos – um saldo positivo de apenas 2.220 vidas. Os dados para esse período ainda não estão consolidados, mas indicam uma tendência perigosa. “Demograficamente, isso não é normal para o Brasil e está diretamente ligado ao excesso de mortalidade que estamos tendo por causa da pandemia”, explica Castro. A estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) era que esse cenário só aconteceria em 2047, com a progressiva mudança na pirâmide etária brasileira. O choque demográfico causado pela Covid-19 pode antecipar esse processo de maneira brusca. “Não era para isso acontecer agora”, conclui Castro.
Em algumas cidades, o saldo negativo de vidas já é uma realidade. No ano passado, Rio de Janeiro e Porto Alegre registraram mais mortes que nascimentos, um cenário inédito nos registros da Arpen – o que os especialistas chamam de crescimento vegetativo negativo. A capital carioca, já com dados consolidados, fechou 2020 com saldo negativo de 4,6 mil habitantes e bateu recorde de mortes registradas no portal da Arpen – consequência direta da pandemia de Covid-19. O Rio de Janeiro chegou a ser a capital com a maior taxa de mortes pela doença a cada 100 mil habitantes no Brasil. Atualmente, todas as regiões da cidade estão sob risco muito alto de infecção e a tendência é que o morticínio prossiga em 2021. No mês de abril, até o dia 13, 19,4 mil óbitos foram registrados no município – e apenas 17,5 mil nascimentos.
“O caso do Rio de Janeiro levanta a questão do que vai acontecer com a estrutura da população depois da pandemia”, explica Castro. Essas mudanças podem trazer consequências econômicas. As projeções populacionais são publicadas todo ano pelo IBGE porque determinam o tamanho da verba destinada às cidades por meio de rubricas como o Fundo de Participação dos Municípios (FPM). A base dessas projeções atualmente ainda é o Censo de 2010, com estimativas atualizadas ano a ano. “Existem técnicas demográficas que corrigem esses dados. Mas agora, mais do que nunca, precisamos do Censo atualizado para saber o que está acontecendo com a população”, argumenta Castro.
As análises demográficas têm três pilares: nascimentos, óbitos e migração. O terceiro componente só pode ser medido pelo Censo. Sem os dados de migração não é possível saber se nessas cidades chegaram mais pessoas do que saíram – e se a população de cada município está, de fato, diminuindo.
Em 2019, o IBGE pediu 3,4 bilhões de reais para realizar o Censo de 2020. Após pressão do governo federal, o órgão enxugou os gastos e estimou um custo de 2 bilhões. A pesquisa foi adiada por causa da pandemia de Covid-19. O Orçamento editado pelo governo neste ano prevê a liberação de apenas 71,7 milhões de reais para o Censo – menos de 4% do valor necessário. A verba inviabiliza o pagamento dos 204 mil recenseadores e supervisores, espalhados pelo Brasil, e dos demais custos da pesquisa. Procurado, o IBGE informou que aguarda uma definição do orçamento da União para se manifestar sobre o tema. “Só o Censo pode mostrar como está a população depois de um ano de pandemia”, explica Castro. Sem os dados, o país fica no escuro.
A demógrafa Marcia Castro acredita que o crescimento vegetativo negativo será revertido. “Esse nível de mortalidade não é sustentável a longo prazo”, explica. “Nem consigo imaginar um cenário desses.” A questão, para ela, é saber quando isso vai acontecer. O efeito de uma pandemia, além de ser medido pelo número de mortes, também pode ser medido pelo número de nascimentos. Em uma pesquisa anterior, Castro estudou a epidemia do vírus da zika e verificou que, na época, o número de nascimentos diminuiu.
“Não é incomum que a fecundidade caia em momentos de crise”, explica. “Pode haver uma retração dos nascimentos porque a situação é tão grave que as pessoas adiam a gravidez.” Nesse cenário, uma volta à normalidade pré-pandemia seria ainda mais lenta. Uma outra possibilidade é um baby boom, explosão no número de novos nascimentos assim que a pandemia acabar, como observado em períodos pós-guerra. “Tudo isso vai ter que ser estudado a longo prazo”, diz. Mais urgente é controlar a pandemia e reduzir danos. Até a última segunda-feira (12), o país registrou 355 mil óbitos por Covid-19 – quase metade deles nos quatro primeiros meses de 2021. “Abril já é um mês perdido. Agora a gente precisa tomar as medidas para salvar os próximos meses. É uma situação desumana”, conclui Castro.
Nas análises demográficas são fundamentais três grandes indicativos. Taxa de Natalidade, Taxa Mortalidade e Saldo das migrações. Explique por que o terceiro componente só pode ser medido através do Censo?
O que é um “baby boom” é por que ele é observado em períodos pós guerra?
O aumento da esperança de vida num país é motivo de júbilo e de preocupação. Explique essa contradição.
De que forma a COVID pode afetar o IDH brasileiro?
Explique a diferença na esperança de vida entre os estados de Santa Catarina e Roraima.
Para o escritor e ativista Ousman Umar, o caminho para tirar a África da pobreza passa por empoderar os jovens, e não por doar toneladas de arroz e comida.
Ele criou a Nasco Feeding Minds, ONG que busca ampliar o acesso dos jovens em Gana ao mundo digital, para que eles aprendam e pensem formas de melhorar a África. A educação também é caminho para evitar que eles caiam nas promessas de traficantes que tentam convencê-los a tentar ir para a Europa, em viagens arriscadas que incluem a travessia do deserto e do mar Mediterrâneo em condições precárias.
O escritor ganês Ousman Umar – Divulgação
“Vivi cinco anos infernais tentando chegar à Europa e não quero que ninguém passe mais por isso”, diz Umar. Ele chegou à Espanha em 2005 e lançou dois livros sobre sua vida: “Viaje al País de Los Blancos”, em 2019, sobre sua travessia, e “Desde el País de los Blancos”, lançado no mês passado, no qual conta as dificuldades para se adaptar à Europa.
Umar, 32, participou do festival virtual Viva Livro, que reuniu autores que escrevem sobre migração, e falou com a Folha por telefone, de Gana. Abaixo, os principais trechos da conversa.
Como a pandemia tem afetado a migração da África para a Europa?
Barcos com imigrantes seguem chegando. Cada vez mais gente quer ir embora, especialmente fugindo de guerras como as da Síria e da Líbia. A situação econômica piorou no mundo inteiro, mas na África piorou mais, porque os países eram mais pobres e já tinham problemas que vinham de muito antes.
Como está a pandemia em Gana?
Em geral, há menos gente contaminada e mortes por coronavírus do que no Ocidente. Estou em Gana agora, e a situação está dez vezes melhor do que em Barcelona. A África viveu muitas outras epidemias recentemente, enquanto a Europa não tinha uma há quase cem anos, então sabe como fazer uma gestão melhor. Há casos em que há uma UTI para cada 1 milhão de habitantes, e, já que não temos como curar, temos que evitar que a enfermidade chegue. Na África, a população é muito mais jovem, e o coronavírus traz mais danos aos maiores de 50 anos, o que também é um fator.
Quais foram os momentos mais marcantes de sua jornada até a Europa?
Com nove anos, deixei meu povoado e fui trabalhar na cidade. Aos 13, comecei uma viagem que passou por oito países da África. Cruzei parte do Saara a pé. Começamos a viagem em 46 pessoas, e só seis chegaram ao final com vida.
Na Líbia, cheguei sem dinheiro, sem celular e sem falar árabe. Chegava a uma cidade, trabalhava em qualquer coisa, que ninguém queria fazer, para juntar dinheiro e pagar um táxi até o povoado seguinte. Por isso, demorei cinco anos até chegar à Europa. Cinco anos infernais, cruéis. Por isso, decidi que ninguém merece viver o que vivi.
Fui tentar atravessar o Mediterrâneo em 2005. Traficantes disseram que em 45 minutos chegaríamos ao paraíso. Na primeira tentativa, 180 pessoas morreram. Na segunda, fiquei 48 horas sentado em um barco, sem comer ou beber, sem saber nadar e com a agonia de pensar que poderia morrer a qualquer momento.
Ao chegar em terra, o grupo corre pela praia e se espalha pelas dunas; a Espanha recebeu nos sete primeiros meses de 2017 17 mil migrantes, o dobro do que tinha recebido no mesmo período do ano passado, segundo o governo. Jon Nazca/Reuters
E como foi depois de chegar à Espanha?
Consegui a autorização para poder entrar, mas onde viver? Fiquei dois meses dormindo na rua em Barcelona, sem que ninguém me olhasse na cara. Nem no deserto me senti tão só. Tive a sorte que uma família me acolheu. Na primeira noite que dormi em uma casa, chorei como uma criança. Me perguntava o que eu tinha feito de mal para merecer tanta tortura e crueldade. E aí percebi que tinha dois propósitos: dar voz aos companheiros que não conseguiram chegar com vida [à Europa] e evitar que novos jovens caiam nesta armadilha infernal.
Como fazer isso?
Assumi minha responsabilidade, como se fosse o presidente do meu país. Usei o dinheiro que ganhei como mecânico de bicicletas, juntei com empréstimos e doações de alguns amigos e comprei 45 computadores, em 2012. Contratei dois professores em Gana, que atuavam em duas escolas com aulas para inclusão digital. Hoje atuamos em 30. E sem ajuda de nenhum governo, só de pessoas que ouvem nossa história.
A caridade não vai mudar a África. Enviar toneladas de arroz não funciona e nunca vai funcionar. Faz-se isso há 60 anos e tudo segue igual. Tem que mudar a estratégia. Nossa ONG alimenta mentes. Chega de pensar só em estômagos. A única maneira de retirar a África da pobreza é empoderar as pessoas. Temos de alimentar as mentes dos jovens, que são ambiciosos e têm tantos anseios, para que eles mudem as coisas partindo de dentro.
Nas últimas eleições de Gana, tivemos o candidato mais jovem a chegar ao Parlamento. Não gosto da política. Tanto faz se você pensa verde, vermelho ou amarelo. O que gosto é de ver o exemplo para que muitos jovens vejam que a África tem muito potencial.
Como vê o efeito de movimentos de valorização dos negros, como o Black Lives Matter?
Estamos vivendo uma época de mudanças. Mas, embora haja intenções, as coisas vão muito lentas. Cheguei à Espanha em 2005, analfabeto. Em menos de dez anos, estava estudando na Universidade de Barcelona. Química, porque queria entender se a magia negra era verdade ou não. E eu era “o” negro da universidade. O único.
Para os imigrantes que chegam à Espanha, não há outro caminho a não ser os piores trabalhos, como colher tomates no campos, sem contrato, porque a lei migratória criminaliza o imigrante. Sem documentos, só resta trabalhar em coisas que os espanhois não querem fazer.
O ator Johnathan Majors na capa da QG americana de outubro; três personalidades negras estiveram na capa da revista neste ano QG/Reprodução
No ano passado, vieram 240 pessoas para Lleida, uma cidade na Catalunha, para colher maçãs. Como havia a questão do vírus, ninguém os acolheu, e eles ficaram dormindo em uma praça por duas semanas. Até que um deles fez um vídeo, contando a história, e postou no Facebook. Um jogador de futebol do Mônaco [Keita Baldé] viu o vídeo e se dispôs a pagar um hotel para que as pessoas deixassem de dormir na rua, como animais. Os hotéis estavam vazios, mas não quiseram alugar um quarto para essas pessoas, porque eram negras. Por outro lado, se morre um americano negro nos Estados Unidos, todo mundo posta “black lives matter” em seus perfis. Mas falta atuar de verdade. Isso realmente faz falta.
RAIO-X
Ousman Umar, 33 Nascido em Gana, migrou para Espanha, onde se formou em relações públicas e marketing na Universidade de Barcelona. Escreveu dois livros, sobre sua travessia até a Europa e sobre as dificuldades de se adaptar à vida no continente. É fundador da ONG Nasco Feeding Minds, que busca ampliar o acesso de jovens em Gana ao mundo digital
Queixas de discriminação racial aumentaram 50% no país, que vai inaugurar memorial às vítimas da escravidão
REUTERS
24.mar.2021 às 16h58
O Conselho da Europa, principal grupo de direitos humanos da União Europeia, afirmou nesta quarta-feira (24) que Portugal deve fazer mais para enfrentar seu passado colonial e seu papel no comércio de escravos e, assim, combater o racismo e a discriminação.
O relatório surge num momento de acirramento do debate sobre o legado colonial no país —no começo do mês, a remoção dos brasões das ex-colônias de Portugal da chamada praça do Império, pretendida pela Câmara Municipal de Lisboa, gerou uma acalorada discussão e dividiu portugueses.
Agora, o país também se prepara para inaugurar seu primeiro memorial às vítimas da escravidão, em Lisboa. O monumento —uma fileira de palmeiras pintadas de preto— foi desenhado pelo artista angolano Kiluanji Kia Henda, financiado pela Câmara e ficará no centro da capital.
Monumento aos Descobrimentos, na região de Belém, é um dos principais cartões-postais de Lisboa – Lalo de Almeida – 7.nov.2017/Folhapress
O texto, assinado pela comissária para os Direitos Humanos, Dunja Mijatović, manifesta preocupação diante do aumento do número de crimes motivados por ódio racial, visando particularmente ciganos, afrodescendentes e estrangeiros no país.
Do século 15 ao 19, as embarcações portuguesas transportaram cerca de 6 milhões de africanos escravizados através do Atlântico, cifra maior que a de qualquer outra nação. A era colonial, que viu países como Angola, Moçambique, Brasil, Cabo Verde e Timor Leste sujeitos ao domínio português, é frequentemente citada como motivo de orgulho. Atualmente, no entanto, a forma como a escravidão costuma ser abordada nas escolas tem sido questionada.
“São necessários mais esforços para Portugal reconhecer as violações de direitos humanos no passado para combater os preconceitos racistas contra afrodescendentes, herdados de um passado colonial e do comércio de escravos”, disse o Conselho da Europa em seu relatório.
Dia da Revolução dos Cravos na pandemia
Homem dá um cravo a moradora de Benfica Patricia de Melo Moreira/AFP
Em 2020, as queixas de discriminação racial aumentaram 50% no país, atingindo a marca de 655 denúncias. Segundo a secretária de Estado para a Igualdade, Rosa Monteiro, entretanto, esse número provavelmente está abaixo da taxa real de incidentes, uma vez que muitos casos não são registrados.
“Nossa narrativa histórica é como uma ferida muito séria que não foi tratada adequadamente. E, para curá-la, temos que conversar sobre o que aconteceu”, disse Monteiro à agência de notícias Reuters, acrescentando que o governo está preparando um plano nacional de combate ao racismo.
Episódios crescentes de racismo incluem uma passeata com referências ao movimento racista Ku Klux Klan, com máscara e tochas, em frente à sede da ONG SOS Racismo, em Lisboa, organizada pelo Resistência Nacional, grupo de extrema direita nacionalista. Esse mesmo grupo enviou emails com ameaças de morte a dirigentes de ONGs e a três deputadas de partidos de esquerda.
Portugal planeja realizar, ainda neste ano, seu primeiro censo sobre origem étnica. Segundo dados do serviço de fronteira, havia, em 2019, cerca de 103 mil africanos oficialmente residentes no país. Os brasileiros lideram o ranking de maior comunidade de imigrantes, com 151 mil pessoas.
Edgard Marcondes, 32, com a esposa Geisa, 32, e o filho Bento, 2, na Praia da Marinha, no Algarve, em Portugal. “Se eu fosse o Super-Homem, o racismo no Brasil seria minha kriptonita”, diz Arquivo pessoal
O Conselho da Europa também expressou preocupação com o crescimento da direita populista no país, destacando o partido Chega, liderado pelo deputado André Ventura
Amparando propostas como a castração química de pedófilos e a pena de morte, além da defesa de que não existe racismo em Portugal, o Chega conquistou não apenas o voto antissistema, mas também o de eleitores descontentes com o restante da direita no país.
Ventura também fez comentários públicos contra Mamadou Ba, um dos principais ativistas do movimento antirracismo no país, que no mês passado foi alvo de uma petição pela sua deportação após chamar um oficial colonical, morto recentemente vítima de Covid-19, de sanguinário. Marcelino da Mata era o mais condecorado militar do exército português.
“Não estamos tentando reescrever a história, estamos dizendo que a história que contamos hoje não é suficiente”, disse Ba em um protesto no domingo (22). “Queremos uma história que represente todos os portugueses.”