Categoria: População

  • Mundo com 8 bilhões é, sobretudo, mais envelhecido e desafiador

    Em 1965 entrei para a faculdade de medicina. A população mundial mal passava de 3 bilhões; a do Brasil, 83 milhões. As taxas de natalidade eram altas, e a grande preocupação era com a superpopulação. Prevalecia a teoria neomalthusiana, de incentivo ao uso de métodos contraceptivos e o controle do crescimento populacional com influência do Estado. Do contrário, o mundo não teria capacidade de produzir alimentos para tanta gente.

    Rios de dinheiro de fundações americanas chegavam para deter o “desenfreado crescimento da população”. De envelhecimento populacional ninguém falava. A proporção dos 60+ no mundo era de 4,2. No Brasil, idosos eram apenas 2,8% da população, enquanto 21,4% eram crianças abaixo de 15 anos.

    Três mulheres idosas caminham em rua de Maiaki, na Ucrânia – Yasuyoshi Chiba – 6.mai.22/AFP


    Ao longo das décadas que tenho como médico, um mundo bem diferente emergiu. Se as altas taxas de natalidade tivessem prevalecido, o marco mundial de 8 bilhões já teria há muito sido alcançado, e o Brasil teria uma população muito maior que os 215 milhões de hoje.

    Estima-se que o Brasil atinja seu pico populacional em 2046, com 231,1 milhões. A proporção de idosos, hoje em torno de 15,5%, dobrará até 2050. Segundo o IBGE, em 2022 a proporção de pessoas acima de 50 anos ultrapassou a de com menos de 30 anos. O único segmento da população que seguirá crescendo ao longo do século é o de pessoas idosas.

    Este cenário de rápido envelhecimento vislumbrado para o Brasil é compartilhado com outros países em desenvolvimento, como a China. A diferença é que no gigante asiático foi resultado de uma rígida política de um filho por família, enquanto no Brasil a queda da natalidade foi tão vertiginosa quanto não programada.

    Antes de 2000, o número médio de filhos ao final da vida reprodutiva de uma mulher atingiu o nível abaixo do necessário para reposição: dois —casais precisam ter em média mais de dois filhos para que haja crescimento populacional, salvo em países que recebem muitos imigrantes. Dentro em pouco as mulheres nascidas nos anos 1980 e 1990, quando as taxas de nascimento ainda eram relativamente altas, chegarão à menopausa. Teremos então atingido nosso pico populacional.

    As implicações para saúde são transcendentais. Focando o Brasil apenas, é necessário formularmos políticas de saúde para uma população muito mais envelhecida. Isso pressupõe uma perspectiva de curso de vida pois ninguém envelhece “de repente”. Somos, no final da vida, um reflexo de nossos hábitos e comportamentos –que, por sua vez, dependem de oportunidades para que eles sejam mais saudáveis.


    Saúde é criada no dia a dia, onde as pessoas vivem, trabalham, locomovem-se, divertem-se, amam-se, como já dizia, em 1986, a Carta de Ottawa de Promoção da Saúde da OMS. É, portanto, crucial fazer com que escolhas mais saudáveis sejam também mais fáceis, simples e baratas. Gritantes desigualdades distinguem aqueles que chegam bem à velhice e milhões que envelhecem precocemente e mal.

    Face à impossibilidade de prevenirmos por completo as doenças crônicas associadas ao envelhecimento, faz-se imperativo postergá-las o mais que possível. Se ganharmos dez, 15 anos sem doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes, câncer, doenças neurodegenerativas, inclusive vários tipos de demências, não é só a qualidade de vida que aumenta. Os custos para os sistemas de saúde, público ou privado, baixam significativamente.

    O envelhecimento populacional pressupõe desenvolver uma cultura do cuidado. É um marco civilizatório. Não é viável, nem tampouco justo, que o ônus recaia exclusivamente na família. É dever do Estado desenvolver políticas e intervenções que dividam tal responsabilidade.

    Menos justo ainda esperar que o tal “cuidado pela família” seja um eufemismo, que recaia para as mulheres da família a responsabilidade. Cuidam dos filhos, dos pais, dos sogros e mesmo do esposo, geralmente mais velho, e, quando necessitam elas próprias de cuidados, não há ninguém que lhes cuide.

    Embora vivam mais, as mulheres sofrem mais de doenças incapacitantes, como as doenças osteomusculares. Essa questão de gênero é fundamental para um país que tão rapidamente envelhece. Os homens precisarão deixar de ser sobretudo recipientes de cuidado para dele participarem ativamente.

    Globalmente veremos nas próximas décadas transformações desafiadoras. A Índia deve ultrapassar a China como país mais populoso do mundo em 2023. A elas seguem-se os Estados Unidos, Indonésia e Paquistão, o Brasil ocupando a sexta posição. Em 2050, Índia e China seguirão nas primeiras posições, seguidas da Nigéria e, no ranking dos dez mais populosos países do mundo, estarão também Etiópia, Congo e Bangladesh.

    A ONU projeta que em 2064 teremos 10 bilhões e, na década de 2080, alcançaremos o pico de 10,4 bilhões

    O influente Institute for Health Metrics and Evaluation, ligado à Universidade de Washington, projeta que a população mundial será de 9,7 bilhões em 2064 e logo começará a diminuir, com exceção dos países subsaarianos. As implicações geopolíticas são óbvias: o resto do mundo muito mais envelhecido, imensas populações jovens de países pobres à procura de oportunidades. É hora de levar demografia como algo muito mais sério do que levamos no Brasil.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2022/11/mundo-com-8-bilhoes-e-sobretudo-mais-envelhecido-e-desafiador.shtml

    Prof Luciano Mannarino

    Questões

    1 Explique a Teoria Demográfica Neomalthusiana.

    2 Aponte fatores que explicam a diminuição da taxa de fecundidade da mulher brasileira.

    3 De que forma o “envelhecer bem” diminuiu os custos para o sistema de saúde?

    4 Os “cuidados pela família” acabam sendo responsabilidade dos membros femininos.

    Você concorda com essa afirmação? Justifique.

    5 O “envelhecer precocemente e mal” se relaciona com o acesso diferencial a riqueza? Justifique.

    DEMOGRAFIA E TEORIA DA TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA.

    Em meio à pandemia de Covid, EUA registram menor taxa de natalidade em mais de 40 anos

    Para conter crise demográfica, China autorizará 3 filhos por família

  • Colonialismo tardio e dados imprecisos aprofundam diferenças entre países lusófonos (EM13CHS204/603)

    30.set.2021 às 4h00Atualizado: 2.out.2021 às 9h30

    GUARULHOS

    Nove pontos no mapa-múndi, distribuídos em quatro continentes, marcam hoje aquilo que é conhecido como a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

    A língua –ora tida como a quinta mais falada do mundo, ora como a sétima– é partilhada por um contingente aproximado de 260 milhões a 280 milhões de pessoas, número que deve dobrar até o final do século 21, se consideradas as projeções demográficas das Nações Unidas para a África, onde estão seis dos países lusófonos.

    Mais de cinco séculos após a expansão ultramarina de Portugal levar às ex-colônias o português, e muitas vezes impô-lo à força, essas nações compartilham a língua, alguns costumes e parte de suas histórias —mas estão longe de ser uma massa homogênea.

    Monumento aos Descobrimentos, referência às grandes navegações portuguesas, localizado em Lisboa, capital de Portugal, país que colonizou as demais nações que hoje compõem a comunidade lusófona
    Monumento aos Descobrimentos, referência às grandes navegações portuguesas, localizado em Lisboa, capital de Portugal, país que colonizou as Lalo de Almeida – 7.nov.17/FolhapressMAIS 

    Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste situam-se de maneira bem diferente nos índices internacionais que comparam áreas como economia, desenvolvimento humano e democracia. Há uma receita para ler essas diferenças, que envolve conhecimento sobre as características locais e pitadas de contexto histórico.

    Folha conversou com dois especialistas em lusofonia para saber quais fatores devem ser levados em conta na hora de analisar a radiografia dos países de língua portuguesa.

    Professor de economia da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, e ex-secretário-executivo da Comissão Econômica da ONU para a África, o guineense Carlos Lopes explica que o colonialismo tardio é um dos principais fatores que levaram os lusófonos a se desenvolverem de forma tão diferente.

    Enquanto o Brasil se tornou independente em 1822, os países de língua portuguesa localizados na África conquistaram sua independência mais de um século depois, na década de 1970. A independência tardia, afirma Lopes, teve dois efeitos principais.

    Com uma economia estruturada na dependência de matérias-primas, essas nações demoraram a iniciar o processo de industrialização, modernização econômica e diminuição da informalidade. “O colonialismo tardio traz com ele uma longa caminhada para chegar à transformação estrutural.”

    A conquista da independência em meio ao contexto da Guerra Fria também fez com que as novas nações tivessem de se posicionar de algum lado da disputa geopolítica, o que imprimiu contornos bem específicos às relações internacionais dos países. Houve ainda um atraso na formação de quadros políticos, já que, em geral, os lusófonos africanos chegaram à independência com um restrito acesso ao ensino superior, o que desembocou em problemas de gestão pública.

    “As antigas colônias portuguesas na África foram os últimos territórios do continente a contar com um estabelecimento de ensino superior”, diz a historiadora Helena Wakim Moreno, mestre pela USP e professora do Centro Universitário Sumaré. “Em Angola e Moçambique, essas instituições só foram formadas em 1963.”

    A contextos gerais se soma o que Lopes classifica como fabricações locais. “Na maior parte dos países, houve uma gestão do dinheiro público concentrada na classe dominante e, portanto, criou-se uma elite que gosto de chamar de rentista —aquela que suga a renda fácil que vem das matérias-primas”, diz.

    O comparativo internacional da lusofonia também pede cautela para a análise dos dados de nações africanas. Segundo Lopes, parte considerável das estatísticas dessas nações apresenta problemas nos censos —com exceção do arquipélago de Cabo Verde. “Nesses países temos uma média de 60% da população que não tem documentos, e apenas 10% das terras têm algum registro formal.”

    A situação não é melhor na contabilidade nacional, que fornece informações para que se possa, por exemplo, comparar o PIB (Produto Interno Bruto) dos países. O economista explica que os lusófonos africanos têm poucas atualizações na metodologia que afere a situação financeira. Um exemplo é Guiné-Bissau, onde o ano-base de dados econômicos ainda é o de 2007.

    “A economia que esses Estados conhecem é a das transações internacionais, como matérias-primas, balanço de pagamentos e ajuda financeira. As outras, de que os governos não precisam para funcionar, são abstraídas”, diz. “Isso exacerba a desigualdade, porque há uma parte significativa da população que vive às margens do Estado moderno.”

    Com esses contornos históricos, emergiram também nações muito diferentes quando os temas são o desenvolvimento humano e as liberdades democráticas —algo que muitos dos lusófonos africanos, por exemplo, só foram vivenciar na década de 1990, quando tiveram início eleições multipartidárias.

    “Os Estados estiveram por muito tempo submetidos a uma legislação do Estado colonial português que colocava uma série de restrições à educação e à economia”, diz Moreno. “Os africanos não podiam ser donos de comércios, e o desenvolvimento econômico estava nas mãos da elite colonial estrangeira.”

    Lopes acrescenta que o contexto histórico-social fez com que fossem retardadas as condições para que uma democracia plena emergisse na maioria dos países de língua portuguesa. Com uma administração pública que reconhecia apenas uma pequena parcela da sociedade —em geral, os colonos— como cidadãos, o comportamento cívico e participativo demorou a chegar para grande parte da lusofonia.

    “Os Estados, após a independência, alargaram mal a cidadania, porque havia um hábito da administração colonial de tratar a maior parte das pessoas como sujeitos, não como cidadãos”, diz. “E então começa a emergir uma democracia fechada, para os letrados. Isso exacerbou a etnicidade, o tribalismo.”

    Por isso, ele critica os comparativos internacionais que não levam em conta o contexto africano. “Digo que devemos democratizar a África e africanizar a democracia. Ou seja, aceitar que há um determinado número de características próprias do continente que precisam ser levadas em conta.”

    A partir desse incômodo, o economista participou da formulação do Índice Ibrahim de Governança Africana, que mede anualmente a qualidade da administração em 54 países africanos.

    Do outro lado do Atlântico, o Brasil, também uma jovem democracia, não têm mostrado grandes êxitos nos comparativos internacionais. O país vem caindo desde a década passada no ranking que mede a democracia e também despenca, por quatro anos consecutivos, no ranking de liberdade de imprensa.

    Desde 1996, os nove países lusófonos, que já compartilham a língua e parte de suas histórias, passaram a integrar a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, uma cúpula internacional cuja articulação teve grande participação do brasileiro José Aparecido de Oliveira (1929-2007), ex-ministro da Cultura.

    Lopes critica o que chama de “excitações diplomáticas” na história da CPLP e parte de sua arquitetura institucional. Um dos principais problemas seria o fato de as lideranças bienais da comunidade serem eleitas por meio de rotatividade geográfica. “Isso condena a comunidade a ter sempre uma pessoa designada pelo país da vez, em vez de escolher o melhor, a pessoa mais representativa e capaz.”

    Por outro lado, tece elogios e reconhece feitos que a mobilização diplomática já alcançou. “Veja a quantidade de líderes mundiais que a comunidade consegue produzir”, diz, referindo-se ao português António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas pelo segundo mandato consecutivo, ao brasileiro José Graziano, ex-diretor-geral da FAO (agência da ONU para Alimentação e Agricultura), e a ele próprio, que atua na ONU e já liderou a Comissão Econômica das Nações Unidas para África —uma espécie de Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) africana.

    A historiadora Helena Wakim Moreno afirma que a CPLP tem muito a oferecer aos falantes de português, especialmente se ampliar as prioridades para além “da tônica economicista adotada nos últimos anos”. Assim, para ela, mais cooperações universitárias, de pesquisa e ensino seriam bem-vindas.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/09/colonialismo-tardio-e-dados-imprecisos-aprofundam-diferencas-entre-paises-lusofonos.shtml

    Habilidades do BNCC presentes no texto.

    EF08GE15 – Analisar o papel do processo de colonização na formação econômica, política, social e cultural dos diferentes territórios colonizados por Portugal.

    O texto aborda o impacto do colonialismo português, enfatizando as diferenças no desenvolvimento econômico e social dos países de língua portuguesa.

    EM13CHS601 – Analisar criticamente os processos de colonização e descolonização, levando em conta as diferentes trajetórias e seus impactos na organização sociopolítica, econômica e cultural das nações.

    O texto detalha como o colonialismo tardio influenciou a trajetória histórica dos países lusófonos, e como esses países lidaram com sua independência no contexto da Guerra Fria.

    EM13CHS202 – Analisar as desigualdades econômicas e sociais, considerando as influências dos processos históricos, políticos e culturais em diferentes contextos e épocas.

    O texto explora as desigualdades nos países lusófonos, relacionando-as com o colonialismo, a falta de estrutura educacional, e a concentração de poder econômico nas elites locais.

    EF09HI22 – Identificar e analisar processos históricos, dinâmicas políticas e econômicas e características culturais de países africanos, a partir da interação com outras sociedades e culturas.

    O texto fala sobre a independência tardia dos países africanos lusófonos, suas dificuldades econômicas, e os desafios enfrentados para consolidar democracias.

    EM13CHS504 – Analisar criticamente as interações entre os países e seus impactos econômicos, sociais, políticos e culturais em contextos de integração regional e internacional.

    O texto menciona a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e seus desafios em relação à representação e à liderança rotativa, e analisa os impactos da integração de países lusófonos.

    EM13CHS301 – Compreender as transformações nas relações de poder entre as nações, considerando as disputas hegemônicas e suas consequências para o desenvolvimento socioeconômico.

    O texto aborda o papel da Guerra Fria na posição dos países recém-independentes e as transformações políticas nas ex-colônias portuguesas.

    Atividade

    Como o colonialismo tardio afetou o desenvolvimento econômico e político dos países lusófonos na África, de acordo com o texto?

    Quais são as principais diferenças entre os países lusófonos, e como essas diferenças estão relacionadas ao contexto histórico de cada nação?

    De acordo com o texto, quais desafios específicos a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) enfrenta para se consolidar como um bloco internacional coeso?

    Qual é a crítica de Carlos Lopes sobre as estatísticas nos países lusófonos africanos, e quais são as implicações disso para a comparação internacional?

    Como o contexto histórico e social influenciou o atraso na democratização dos países lusófonos africanos?

    A partir do texto, como você interpreta a frase de Carlos Lopes: “devemos democratizar a África e africanizar a democracia”?

    Quais fatores históricos e sociais levaram à formação de uma elite rentista nos países lusófonos africanos, e quais são as consequências disso para a sociedade?

    Quais são as limitações apontadas no texto sobre a metodologia de cálculo do PIB em alguns países lusófonos africanos, como a Guiné-Bissau?

    De que maneira o texto sugere que o passado colonial dos países lusófonos ainda influencia suas políticas de desenvolvimento e cidadania atualmente?

    Como o Brasil se posiciona no cenário internacional em relação aos outros países lusófonos, conforme descrito no texto? Quais são seus principais desafios?

      Prof Luciano Mannarino

    1. Mulheres se tornam peças-chave na transição demográfica e econômica da China

      Mulheres se tornam peças-chave na transição demográfica e econômica da China

      Ouvir as demandas delas é necessário também para a própria legitimidade do Estado-Partido chinês

      16.out.2021 às 10h00

      Tatiana Prazeres

      PEQUIM

      As expectativas do governo chinês mudaram tão rapidamente que as propagandas nas ruas ainda mantêm o padrão antigo da “família margarina”. No metrô de Pequim, por exemplo, é possível ver um anúncio do Templo do Céu, um dos cartões postais da capital, em que pais jovens aparecem com duas crianças —um menino e uma menina—, todos felizes num passeio em um dia de céu azul.

      Após a política do filho único imperar durante 36 anos, o governo passou a estimular a formação de famílias maiores. A grande mudança ocorreu em 2015, quando ter um segundo filho foi permitido. Em maio de 2021, foi a vez de o terceiro ser autorizado. Assim, os cartazes do metrô já estão desatualizados.

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      Chinesas em um vagão de metrô exclusivo para mulheres em Guangzhou, capital da província de Guangdong, a mais populosa do país  – Giulia Marchi – 5.fev.18/The New York Times

      Políticas de planejamento familiar são tão debatidas na China que, horas depois do anúncio da última mudança, a hashtag #apolíticadoterceirofilhochegou teve 1,76 bilhão de visualizações na rede Weibo.

      Essa guinada acontece porque uma crise demográfica bate à porta da China, algo que ficou evidente no censo divulgado neste ano. As mulheres chinesas têm, em média, 1,3 filho, taxa bem abaixo do necessário para a reposição da população, de 2,1 filhos. Por isso, a população deve começar a encolher em breve.

      A redução populacional preocupa sobretudo devido às repercussões econômicas. A diminuição da força de trabalho limita o potencial de crescimento do país e, sem o bônus demográfico de tempos atrás, há menos gente produzindo e mais gastos com saúde, previdência e assistência social aos idosos.

      O temor é o de que, como em outros países, a China fique presa na armadilha da renda média, em que, após atingir certo nível de riqueza, vem a estagnação, impedindo-a de alcançar um padrão de renda alta.

      Para enfrentar esse desafio, o comando central chinês, formado em sua maioria por homens, precisa ouvir e olhar para as chinesas, peças-chave na transição demográfica e econômica do país.

      Na China de hoje, os casamentos estão em baixa, os divórcios em alta, e o interesse em ter dois filhos —quem dirá três— não é grande. Logo que as autoridades anunciaram que os casais poderiam ter três filhos, a agência estatal de notícias Xinhua pensou ser uma boa ideia conduzir uma enquete online: “Você está pronto para a política de três filhos?”. Resultado: “Não considero, de jeito nenhum, ter três filhos” foi a resposta mais selecionada, muito à frente das demais. A enquete rapidamente saiu do ar.

      As mulheres são as que mais hesitam, pois sabem que, apesar de mudanças significativas nas últimas quatro décadas, a sociedade segue depositando responsabilidades elevadas sobre elas.

      O governo tenta reverter a situação. Para conter a alta do número de divórcios, por exemplo, o primeiro Código Civil chinês, em vigor desde janeiro, estabeleceu um período para “esfriar a cabeça”, uma espécie de intervalo entre o pedido e a efetivação da separação para quem sabe, evitar decisões impulsivas.

      Quando o governo fala em famílias maiores, refere-se ao modelo tradicional. Caso elas decidam ser mães sozinhas, encontram dificuldades para que os filhos obtenham o “hukou”, o registro de residência que garante acesso aos serviços públicos básicos como saúde e educação.

      Em setembro, o governo também anunciou um estímulo à educação sexual de jovens, com o objetivo claro de evitar abortos que não sejam motivados por questões de saúde. A interrupção da gravidez é legal e relativamente comum na China, passando ao largo do debate moral-religioso comum em muitos países.

      Devido às altas expectativas relacionadas à educação, criar filhos custa especialmente caro para a classe média chinesa. Por isso, o governo se movimentou para impor limites rígidos à indústria de aulas extracurriculares, na tentativa de ajudar a aliviar a pressão financeira sobre os pais.

      Algumas cidades foram além e criaram incentivos financeiros para proles maiores. Em Panzhihua, na província de Sichuan, os casais poderão pleitear uma ajuda mensal equivalente a US$ 77 (cerca de R$ 423) para o segundo e o terceiro filhos, até que as crianças completem três anos de idade. Gansu, uma das províncias mais pobres da China, também divulgou recentemente medidas com a mesma finalidade.

      Ainda que sofram pressão de familiares para “dar continuidade” ao sangue e ao sobrenome do pai, ou que corram o risco de serem estigmatizadas como as “que sobraram”, muitas mulheres têm resistido a seguir os passos de suas mães. Cada vez mais elas têm se voltado contra o modelo de casamento tradicional.

      Sobre os homens recaem cobranças para que sejam deixadas de lado características consideradas “femininas”. Agora, autoridades determinaram que homens “afeminados” tenham menos espaço na TV.

      O movimento feminista, apesar das dificuldades, tem crescido na esteira do aumento de denúncias de casos de abuso e assédio sexual, na linha do #metoo. Mas mesmo com conquistas recentes, como leis e campanhas contra violência doméstica, a luta das mulheres na China é diferente da de outras partes.

      Feministas testam os limites do sistema e a tolerância das autoridades. Normalmente, encontram soluções criativas, buscam manter a discrição, usam emojis em vez de texto para contornar controles de conteúdo ou se manifestam evitando confrontação —uma comediante feminista, por exemplo, faz sucesso nas redes. Porque as mulheres, claro, ainda têm de contribuir para preservar a dita harmonia social.

      Os gêmeos Sun Qiyu e Sun Qichun seguram a bandeira chinesa na Praça da Paz Celestial, em Pequim
      Os gêmeos Sun Qiyu e Sun Qichun seguram a bandeira chinesa na Praça da Paz Celestial, em Pequim Kim Kyung-Hoon – 2.nov.2015

      O desafio demográfico requer que as mulheres, além de procriar, sigam trabalhando. Com a população economicamente ativa encolhendo, elas são indispensáveis na força laboral. Precisam, assim, continuar consumindo, além de cuidar da geração anterior, cada vez mais longeva. A conta não fecha. São necessárias mudanças significativas nas políticas de suporte e no mercado de trabalho.

      Como em outros países, a China precisa de mais creches. Mas os chineses precisam também vencer uma barreira cultural: a persistência da tradição de deixar crianças aos cuidados dos avós paternos, o que aumenta ainda mais a dependência das mulheres em relação ao marido. A percepção popular é a de que seria melhor confiar a eles —não a algum estranho– o cuidado dos pequenos.

      Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho pode ser cruel com as mulheres, especialmente em idade fértil ou com filhos pequenos. Ainda ocorre de uma mulher enfrentar, em entrevistas de emprego, perguntas sobre se pretende engravidar —talvez um resquício da época em que a unidade de trabalho tinha a responsabilidade de garantir o respeito às regras de planejamento familiar.

      A centralidade da mulher na nova fase econômica chinesa contrasta com a concentração persistente de homens na cúpula do governo e do Partido Comunista. Dos 25 membros do Politburo, uma das estruturas de poder mais importantes do país, há apenas uma mulher. No Comitê Permanente do Politburo, órgão ainda mais relevante, nunca houve uma mulher entre os seus sete membros.

      Conceber políticas públicas com um olhar para a situação das mulheres também se relaciona com a legitimidade do partido diante das novas gerações —especialmente as mulheres da nova classe média urbana. Seus desejos e ambições podem ser muito diferentes dos de suas mães que, até poucas décadas atrás, viviam majoritariamente num ambiente rural e centrado no modelo de família tradicional.

      A capacidade de as autoridades reconhecerem e responderem a essas mudanças têm impacto direto na satisfação —ao menos delas— em relação ao governo.

      Se em 2021 o Partido Comunista Chinês comemorou seu centenário, agora já está de olho nos objetivos associados à próxima comemoração. Em 2049, no 100º aniversário da República Popular da China, os líderes do país pretendem realizar o dito “sonho chinês”.

      Querem que a China seja “forte, democrática, civilizada, harmoniosa e um país socialista moderno’’. Pois a China não será tudo isso se as mulheres ficarem para trás. Ouvir as mulheres é necessário não apenas para o crescimento econômico, mas também para a própria legitimidade do Estado-Partido.

      https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/10/mulheres-se-tornam-peca-chave-na-transicao-demografica-e-economica-da-china.shtml

      Prof Luciano Mannarino

      Para conter crise demográfica, China autorizará 3 filhos por família

      População da China tem menor crescimento em décadas e atinge 1,41 bilhão

      DEMOGRAFIA E TEORIA DA TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA.

    2. Covid provoca maior queda da expectativa de vida desde a Segunda Guerra

      Covid provoca maior queda da expectativa de vida desde a Segunda Guerra

      Estudo analisa impacto da pandemia em 29 países e cita que Brasil pode ter perdas ainda maiores

      27.set.2021 às 18h01

      BAURU (SP)

      O impacto da pandemia de Covid-19 nos índices de mortalidade alcançou em 2020 uma magnitude não testemunhada desde a Segunda Guerra Mundial, na Europa Ocidental, ou desde a dissolução da União Soviética, na Europa Oriental.

      As conclusões são de um estudo publicado neste domingo (26) no International Journal of Epidemiology e conduzido por um grupo de pesquisadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e da Universidade do Sul da Dinamarca.

      O levantamento conclui ainda que a expectativa de vida ao nascer caiu, de 2019 para 2020, em 27 dos 29 países analisados —os dados são de 27 nações europeias, além de EUA e Chile; o Brasil não entrou na análise. Os grupos em que houve maior redução são os de homens americanos e lituanos (queda de 2,2 e 1,7 anos, respectivamente).

      Homem que recebeu diagnóstico de Covid-19 internado no Centro do Departamento de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital San Filippo Neri, em Roma, na Itália
      Homem que recebeu diagnóstico de Covid-19 internado no Centro do Departamento de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital San Filippo Neri, em Roma, na Itália – Alberto Lingria – 19.mar.21/Xinhua

      Quedas de mais de um ano também foram registradas nas expectativas de vida em homens de 11 países e em mulheres de 8, afirma o relatório.

      Para dimensionar a gravidade dessa redução, os pesquisadores explicam que esse grupo de nações levou, em média, 5,6 anos para elevar a expectativa de vida de sua população em um ano —progresso que a pandemia de coronavírus eliminou ao longo de 2020 apenas.

      Ainda segundo o levantamento, mulheres de 15 países e homens de 10 terminaram o ano passado com uma expectativa de vida menor do que a registrada em 2015.

      A expectativa de vida ao nascer é uma das métricas mais usadas para analisar a saúde e a longevidade de determinada população.

      O índice se refere à média de anos que uma amostra de recém-nascidos viveria se estivesse sujeita aos índices de mortalidade vigentes no momento da medição. Embora não deva ser interpretado como previsão ou projeção da duração da vida em âmbito individual, ele permite a identificação de padrões nos índices de mortalidade.

      Ativistas da ONG Rio de Paz, entidade de defesa dos direitos humanos, abrem covas na praia de Copacabana para chamar a atenção para as mortes causadas pela Covid-19 no país
      Ativistas da ONG Rio de Paz, entidade de defesa dos direitos humanos, abrem covas na praia de Copacabana para chamar a atenção para as morte Pilar Olivares/Reuters

      No contexto da Covid-19, explicam os pesquisadores, a expectativa de vida ao nascer permite comparar “impactos cumulativos da pandemia com choques de mortalidade no passado e tendências recentes em diferentes países”.

      Assim, é possível analisar, por exemplo, os efeitos diretos e indiretos do coronavírus nos estudos populacionais. Segundo o relatório, a queda nos índices dos países avaliados se explica, entre outros motivos, pela maior mortalidade da Covid entre homens e pessoas com idade mais avançada –justamente os dois grupos que vinham puxando a curva da expectativa de vida para cima nos últimos anos.

      Como efeitos indiretos da pandemia, os pesquisadores destacam o aumento do número de mortes por outras causas, devido a adiamentos e atrasos de tratamentos de doenças cardiovasculares e de câncer, por exemplo, com a sobrecarga de hospitais. Por outro lado, há indícios de que medidas de restrição do contágio, como lockdowns, tenham diminuído o número de mortes por acidentes nas estradas.

      O estudo toma como base de comparação dados demográficos registrados entre 2015 e 2019. Todos os grupos analisados sofreram queda na expectativa de vida e em uma dimensão que anula quase todos os ganhos dos cinco anos anteriores, com exceção das mulheres na Finlândia e de pessoas de ambos os sexos na Dinamarca

      Os países escandinavos fogem à tendência constatada no estudo devido, segundo os pesquisadores, a “intervenções precoces não farmacêuticas, juntamente com um sistema de saúde robusto”.

      O fato de os EUA apresentarem resultado tão negativo pode ser explicado por algumas hipóteses levantadas no relatório. Uma delas é a de que, apesar de ter uma população mais jovem, o país apresenta maior índice de comorbidades entre pessoas com menos de 60 anos.

      “Outros fatores, como aqueles ligados ao racismo estrutural e à desigualdade no acesso ao sistema de saúde entre a população economicamente ativa, podem ajudar a explicar o aumento da mortalidade”, diz o estudo. São citados artigos científicos que apontam que populações socialmente desfavorecidas nos EUA, como negros e latinos, tiveram perdas em expectativa de vida três vezes maiores do que a média nacional.

      O médico Daniel Lewis, que ficou hospitalizado por um mês com Covid
      O médico Daniel Lewis, que ficou hospitalizado por um mês com Covid Erin Schaff -7.abr.2021

      Apesar de não integrar a análise, o Brasil é citado nas conclusões do relatório, ao lado do México, como nação emergente “devastada pela pandemia”, onde as perdas em expectativa de vida podem ser ainda maiores do que as demais mencionadas.

      Os autores observam ainda que, devido à falta de informações “completas e confiáveis”, somente dois países de fora da Europa — EUA e Chile — puderam ser objeto de análise. Nos demais, “os verdadeiros impactos da pandemia na mortalidade podem nunca ser totalmente conhecidos”.

      https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/09/covid-provoca-maior-queda-da-expectativa-de-vida-desde-a-segunda-guerra.shtml

      Questões

      Prof Luciano Mannarino

      Para conter crise demográfica, China autorizará 3 filhos por família

      DEMOGRAFIA E TEORIA DA TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA.

    3. O aumento da migração extracontinental na América Latina

      O aumento da migração extracontinental na América Latina

      Não são poucos os que se instalam pelo esgotamento dos seus recursos ou como consequência de um processo de expulsão

      27.ago.2021 às 10h00

      Luisa Feline Freier

      A migração de pessoas de outros continentes –especialmente da África e da Ásia– mas também do Caribe é um fenômeno crescente na América Latina. E embora a maioria deles vá inicialmente para os Estados Unidos ou Canadá, não são poucos os que se instalam num país latino-americano, seja por opção, por necessidade devido ao esgotamento dos seus recursos, ou como consequência de um processo de expulsão.

      POR QUE E COMO CHEGAM OS MIGRANTES EXTRACONTINENTAIS À AMÉRICA LATINA?

      A migração extracontinental na América Latina é um fluxo misto, uma vez que migrantes com motivações diferentes convergem dentro do mesmo grupo. Em alguns casos, especialmente entre os migrantes subsaarianos e do Médio Oriente, as principais razões são a perseguição e a violência. Enquanto que aqueles que deixam os seus países por razões econômicas ou devido a catástrofes naturais vêm principalmente de países do Sul da Ásia e do Haiti. Mas existem outras razões para a migração extracontinental, tais como o reagrupamento familiar.

      A chegada à América Latina explica-se principalmente por fatores políticos, uma vez que, geograficamente, a Europa seria um destino mais próximo. Mas durante a primeira década do século 21, dois fenômenos notáveis ocorreram quase em paralelo: o aumento das restrições à entrada na Europa e a flexibilização dos requisitos de entrada na América Latina. Em particular, alguns países latino-americanos com governos de esquerda como a Argentina sob Néstor Kirchner (2003-2007), Equador sob Rafael Correa (2007-2017) e Brasil sob Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) relaxaram as suas políticas de migração, especialmente as políticas de vistos, e promoveram um discurso oficial centrado nos direitos humanos dos migrantes. Estas medidas de abertura, embora temporárias na maioria dos casos, revelaram-se atrativas para a população migrante extracontinental. Uma vez estabelecidos, os fluxos de pessoas de fora da região aumentaram de forma constante.

      As rotas de migração vão de sul à norte. Começam na América do Sul, onde migrantes extracontinentais entram através de países com requisitos de vistos menos exigentes, como o Equador ou o Brasil. Continuam para a América Central através da região de Darién, uma área florestal e de alto risco entre a Colômbia e o Panamá. Embora não existam estatísticas semelhantes às das mortes de migrantes no Mediterrâneo, estima-se que o Darién é uma das rotas migratórias mais perigosas do mundo, pois é uma selva espessa, com geografia hostil e a presença de grupos armados, o que também interrompe a rota da rodovia Pan-Americana. De acordo com a Unicef, o número de crianças que atravessam o Darién quintuplicou nos últimos cinco anos.

      Barraca com produtos da arte africana na feira do imigrante, ao lado da estação Santa Cruz da linha 5-lilás
      Barraca com produtos da arte africana na feira do imigrante, ao lado da estação Santa Cruz da linha 5-lilás li/Eduardo Anizelli/Folhapress

      Por fim, os migrantes fazem o seu percurso através da América Central e México para os Estados Unidos e Canadá. Esta longa e dispendiosa viagem é muitas vezes feita com a ajuda de contatos, sejam contrabandistas ou outros migrantes que conhecem a rota. É também comum alternar entre meios de transporte terrestres e aquáticos, tais como autocarros, carros particulares e barcos, ou viajar a pé. Toda a viagem pode demorar vários meses ou mesmo anos.

      QUE DESAFIOS ENFRENTAM OS MIGRANTES?

      Ao longo da viagem, os migrantes enfrentam uma série de desafios, tais como naufrágios, problemas de saúde causados pela exposição a condições meteorológicas extremas, e fraudes de contrabandistas durante o percurso. Além disso, a superlotação, a hostilidade das autoridades públicas e o colapso de alguns serviços nas zonas fronteiriças complicam ainda mais a situação dos migrantes.

      Como exemplo, entre fevereiro e março de 2021, centenas de migrantes africanos e haitianos que fugiam da crise sanitária e econômica no Brasil ficaram presos na Ponte de Integração na fronteira entre o Brasil e o Peru. Durante várias semanas, enfrentaram a fome, condições de higiene inadequadas, tratamento hostil por parte da polícia e a separação de algumas famílias.

      Entretanto, no final de Julho de 2021, mais de dez mil migrantes africanos, asiáticos e haitianos ficaram retidos na cidade de Necocli, no norte da Colômbia, à espera de transporte para o Panamá. Diante do colapso da cidade, sobrecarregada com alojamento, água e serviços de limpeza, o governo municipal declarou um estado de calamidade pública.

      A primeira barreira enfrentada pelos migrantes de fora do continente ao chegar aos países de trânsito ou de destino é frequentemente a regularização da sua estadia. O cruzamento irregular das fronteiras muitas vezes fecha as portas para uma posterior regularização. E quando decidem candidatar-se ao estatuto de refugiado, a taxa de respostas favoráveis aos seus pedidos é frequentemente baixa.

      Na Argentina, por exemplo, venezuelanos, senegaleses, cubanos, haitianos e dominicanos estão no topo da lista em termos do número de pedidos de refugiados. No entanto, entre 2016 e 2020, apenas 10 das 1.267 candidaturas de haitianos, 11 das 885 candidaturas de cubanos e nenhuma das 705 candidaturas de dominicanos foram aprovadas.

      As detenções e expulsões na América do Norte são a última grande preocupação dos migrantes em sua travessia. Camarões, a República Democrática do Congo e a Eritreia foram os três principais países africanos cujos nacionais foram detidos no México em 2018. E durante os últimos cinco anos, pessoas de mais de oitenta países africanos e asiáticos foram presas nos Estados Unidos depois de entrarem no país através do México.

      Além disso, as condições de vida nos centros de detenção do México são altamente questionáveis. As organizações de direitos humanos denunciaram a superlotação, os maus tratos e a falta de cuidados médicos. Um caso emblemático foi a morte do migrante haitiano Maxene Andre no Centro de Detenção de Migrantes Siglo 21; passaram-se dois anos desde então e o seu corpo ainda não foi entregue à sua família, nem as circunstâncias da sua morte foram totalmente esclarecidas.

      Ativistas da ONG SOS Mediterrâneo fazem protesto em Marselhas, na França
      Ativistas da ONG SOS Mediterrâneo fazem protesto em Marselhas, na França Clement Mahoudeau – 24.ago.2020/AFP

      Quando os migrantes chegam finalmente ao seu destino ou decidem instalar-se num país de trânsito, mesmo nos casos em que a regularização migratória é conquistada, enfrentam barreiras à sua inserção laboral e social. Muitos acabam em empregos informais e sazonais, tais como venda ambulante em tendas e praias na Argentina, ou com contratos temporários em fábricas no Brasil. Além disso, enfrentam dificuldades linguísticas no caso da população de língua não espanhola, e discriminação racial no caso da população afrodescendente.

      Em conclusão, é de salientar que este é um processo relativamente pouco estudado e de difícil mensuração, uma vez que representa frequentemente fluxos migratórios mistos e irregulares, especialmente durante a pandemia de Covid-19. Neste contexto, sob a perspectiva das políticas públicas, é necessário compreender não só os desafios que os migrantes extracontinentais enfrentam nos seus processos de trânsito, mas também no interior dos países de acolhimento.

      Professora do Departamento Acadêmico de Ciências Sociais e Políticas da Universidad del Pacífico do Peru e pesquisadora da CIUP. Doutora em ciência política pela London School of Economics and Political Science, LSE (Inglaterra).Soledad Castillo Jara

      https://www1.folha.uol.com.br/colunas/latinoamerica21/2021/08/o-aumento-da-migracao-extracontinental-na-america-latina.shtml

      Prof Luciano Mannarino