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  • Brasil aposta no enfrentamento armado, que vítima jovens e negros

    Thiago Amâncio

    Eduardo Anizelli

    Comunidade Cerro Corá, na zona sul do Rio, vista a partir do mirante Dona Marta – Eduardo Anizelli/Folhapress

    RIO DE JANEIRO

    Orelha tem 22 anos e várias marcas de tiro no braço. Segurou um fuzil pela primeira vez aos 13. Desde então ele já comandou algumas bocas de fumo no Rio de Janeiro e hoje é um dos que chefiam a operação em parte de uma favela da capital fluminense.

    É uma comunidade como tantas outras, com um centro comercial agitado que mais lembra uma cidade do interior. Carros de som anunciam promoções, motociclistas circulam sem capacete e as pessoas se cumprimentam indo e voltando do trabalho.

    Mais para o alto do morro, nas lajes e janelas de prédios improvisados de três e quatro andares, rapazes com pistolas na cintura trocam informações por rádios transmissores sobre tudo o que acontece no chão. Vivem na expectativa de ataques de um grupo rival ou de invasões da polícia. Eles próprios se definem como bandidos.

    Quando a reportagem chega e se identifica, eles passam mensagens e autorizam a subida. Orelha e Perverso, 26, recebem a equipe em uma sala. Têm o corpo marcado por tatuagens. Explicam que fazem parte da cadeia de tráfico de drogas da região. Outras pessoas acompanham a conversa.

    Estão armados e carregam granadas, mas não agem de maneira hostil. Aceitam posar para fotos, os rostos cobertos por camisetas. Dizem que podemos perguntar o que quisermos, desde que não fique registrado no texto de que favela são, e não revelam seus nomes verdadeiros.

    “Eu entrei para o crime porque minha família toda estava envolvida, primos, irmão. Não tinha como me espelhar em outras coisas”, diz Perverso.

    Orelha diz que começou pelo dinheiro e que hoje em dia gosta de ser traficante. “Já tive muito dinheiro e não saí até agora. É gostar de estar dessa forma aí, entendeu? Podem falar que não, mas nós, dessa forma, muitos [nos] respeitam. E nós estamos aí para não sermos oprimidos por ninguém, entendeu?”

    Os dois traficantes dizem que já foram presos por homicídio e que estão foragidos. Fazem parte de uma facção criminosa, com tentáculos em todo o país, que tem no tráfico de drogas sua principal fonte de renda.

    Dizem que a venda de substâncias ilícitas não vai acabar, quaisquer que sejam as tentativas da polícia. “Morre um, nasce outro”, diz Orelha, que afirma que não são eles os causadores da violência: “Se eles [policiais] não vierem aqui, nós não vamos até eles. Mas, se vierem, vai ter troca de tiro”.

    Os buracos das paredes dos becos do morro confirmam a ameaça. As estatísticas também. O Rio de Janeiro é um estado violento, com taxa de 37,6 homicídios a cada 100 mil habitantes, maior que a média nacional de 31,6.

    É o resultado de uma disputa das facções criminosas que brigam entre si pelo controle de territórios e mercados e com as polícias Civil e Militar –responsáveis por um terço dos assassinatos na cidade, segundo os dados oficiais.

    O Rio é uma espécie de microcosmo da violência nacional e emblema do fracasso do Estado brasileiro em lidar com as drogas ilegais ao privilegiar o enfrentamento e o encarceramento em massa.

    Na comemoração dos primeiros cem dias de seu governo, o presidente Jair Bolsonaro lançou a nova Política Nacional sobre Drogas com o então ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro. Apesar de envolver também os ministérios da Saúde, Cidadania e Família, o foco do texto é o combate ao crime organizado e as ações repressivas para reduzir a oferta de substâncias ilegais.

    O texto diz considerar a posição majoritariamente contrária da população brasileira quanto à legalização de drogas. Com efeito, pesquisa Datafolha de 2018 mostra que dois a cada três brasileiros se dizem contrários à liberação da maconha no país.

    A política destaca ainda a venda de bens apreendidos do tráfico de drogas (cujos leilões passaram dos R$ 92 milhões no primeiro semestre deste ano) e ações de inteligência com resultados elogiados por especialistas, como a operação Caixa Forte, deflagrada no fim de agosto, com mais de 400 mandados de prisão para desarticular o braço financeiro do PCC e bloquear mais de R$ 250 milhões, ou a operação Rei do Crime, do fim de setembro, que bloqueou R$ 730 milhões da facção.

    Movimento na Estrada da Gávea, na Favela da Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro – Eduardo Anizelli/Folhapress

    O governo federal tem atuado contra propostas de flexibilização. No começo de setembro, o ministro da Justiça, André Mendonça, encaminhou a deputados moção de repúdio ao projeto de lei 399/2015, que propõe legalizar o cultivo da cânabis no Brasil para uso medicinal e industrial.

    A carta destaca efeitos nocivos do uso crônico da maconha e diz que o consumo de drogas é grave problema de saúde pública com impactos nos espaços familiares e sociais. Afirma, por fim, que houve aumento do uso de cânabis em países que flexibilizaram o controle.

    Não é bem assim. Estudos da epidemiologista psiquiátrica brasileira Sílvia Saboia Martins, da Universidade Columbia (EUA), mostram que não houve alteração significativa no uso de maconha por adolescentes nos estados americanos onde ocorreu autorização para uso medicinal.

    Suas pesquisas tomam por base o detalhado Levantamento Nacional sobre Uso de Drogas e Saúde dos Estados Unidos (NSDUH, na sigla em inglês) e concluem que, mesmo onde se liberou o uso recreativo, houve aumento discreto de consumo só a partir dos 21 anos; entre adolescentes do sexo masculino, observou-se até mesmo um recuo.

    O professor da Universidade de São Paulo Leandro Piquet Carneiro, especialista em políticas públicas, diz que há duas coisas positivas na forma como o Brasil trata as drogas: um setor ativo de saúde pública, para tratar dependentes, e o fato de a legislação ser branda com os usuários.

    Para ele, enquanto vivermos em um regime de proibição de drogas, há pouca alternativa à resposta pela via da segurança pública.

    “Vivemos numa região produtora de cocaína, ao lado de três países produtores [Colômbia, Bolívia e Peru]. Isso tem impacto na disponibilidade da droga, por aqui, com o crack, com propagação de centros de consumo por todo o país, que tem um efeito criminogênico muito forte. Há também disputa por pontos de venda no varejo. O sistema internacional de proibição obriga os países a terem uma resposta pela [via da] segurança pública”, diz.

    Os traficantes Orelha, 22, e Perverso, 26, que assumem ter cometido homicídio e estar foragidos, mostram armas em favela no Rio – Eduardo Anizelli/Folhapress

    O delegado Orlando Zaccone, que estudou o tráfico em sua dissertação de mestrado e é autor do livro “Acionistas do Nada – Quem São os Traficantes de Drogas”, defende a legalização das drogas porque, em suas palavras, o tráfico é um crime sem vítimas.

    “O usuário não é vítima, porque ele é criminalizado, inclusive. A saúde pública está sendo ofendida muito mais com a proibição”, diz. “Não existe coisa que ofenda mais a saúde pública do que uma guerra.”

    A cabeleireira Raquel Sabino, 24, perdeu o pai, Sebastião Sabino da Silva, em um confronto que durou mais de uma semana no Jacarezinho, zona norte do Rio, em 2017. O feirante paraibano se mudara para o Rio para sustentar os 13 irmãos após perder o pai. Começou com uma barraca de batata frita, comprou outra de milho e foi ampliando o negócio até adquirir um depósito de bebidas, quando já tinha sete filhos.

    Raquel Sabino, moradora do Jacarezinho cujo pai, Sebastião Sabino, foi morto pela polícia – Eduardo Anizelli/Folhapress

    Em 2017, durante uma operação policial, ficou nervoso com o sumiço da filha mais nova, à época com 13 anos, e saiu a sua procura. Na rua, tomou três tiros da polícia: no pescoço, na boca e no coração.

    “Ele era tão forte que conseguiu ainda chegar à calçada e pedir resgate. Ficou uns 40 minutos mais ou menos agonizando, e os policiais falando que não iam deixar socorrê-lo porque ele era traficante [na versão da polícia]. Meu pai teve que ser carregado em cima de uma porta”, conta Raquel.

    Desde então ela sofre com síndrome do pânico e diz que se enrola nos lençóis sempre que há operações. “Eu luto muito para poder sair daqui. É horrível. Qualquer barulhinho já me assusto, me abaixo.”

    Viela da Favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio de Janeiro – Eduardo Anizelli/Folhapress

    No Jacarezinho, controlada pelo Comando Vermelho, a reportagem foi interpelada por um grupo de rapazes armados assim que entrou, perto de uma linha de trem de onde parte das dormentes dos trilhos foi arrancada e fincada na rua ao lado, para impedir o avanço de carros da polícia. Passantes carregam pistolas e fuzis nas ruas.

    A apreensão de armamento do tráfico é uma das justificativas para as operações policiais nessas comunidades. Com a pandemia da Covid-19, no entanto, elas foram limitadas pelo Supremo Tribunal Federal, que agora exige da polícia justificativa e comunicação ao Ministério Público como precondição para as incursões.

    Em manifestação ao STF, o governo do Rio criticou a medida, que disse criar “zona de proteção para as organizações criminosas de narcotraficantes e de milicianos, o que redundará, em poucos meses, no aumento recorde dos indicadores de criminalidade.”

    Jacarezinho é uma comunidade na zona norte do Rio mais fechada que outras favelas onde hoje até turistas são bem recebidos, como a Rocinha ou o Vidigal, na zona sul.

    O segurança Airã de Oliveira, 29, morador do Jacarezinho desde que nasceu, não nega que o crime seja violento. “Infelizmente, a gente cresceu com isso”, diz. Ele brinca com a reportagem quando passa diante de um açougue com galinhas vivas na porta. “Não gosto nem de ver animal sendo morto. Para quem já viu o que eu vi, é engraçado, né. Quando eu era criança, vi até jogo de futebol com cabeça de gente.”

    Oliveira conta que perdeu 21 amigos com quem cresceu, mortos pelo tráfico ou pela polícia. Também perdeu o pai, que era envolvido com o crime e foi morto por cúmplices. “Era uma vida que não queria para mim.”

    Airã de Oliveira, morador do Jacarezinho, cujo pai foi morto pelo crime – Eduardo Anizelli/Folhapress

    Com a polícia, porém, a relação é diferente. Há dois anos, um primo levou um tiro no pescoço dentro de casa, disparado por um policial que o confundiu com um traficante, e ficou paraplégico. “Eu não sei explicar por que têm tanta raiva da gente. Nós moradores não temos nada a ver com essa guerra, não é culpa nossa.”

    “A gente sai da favela e já é enquadrado, tem de abrir os braços, abrir as pernas para eles revistarem. Aquele sentimento de medo, de fazer um movimento errado, de ganhar um tiro”, desabafa. “Um negro de 1 metro e 90…”

    Negros são 75% das vítimas de homicídios no país, segundo o Atlas da Violência de 2020, apesar de representarem 56% da população. Enfrentam risco 2,7 vezes maior de serem mortos do que pessoas não negras.

    Com 750 mil pessoas encarceradas, segundo dados do ano passado do Departamento Penitenciário Nacional, o Brasil tem a terceira maior população encarcerada do mundo em números absolutos, atrás apenas dos EUA (2,1 milhões) e da China (1,7 milhão). No Brasil, são mais de 350 presos para cada 100 mil brasileiros, total que cresceu aceleradamente no último século .

    A explicação mais aceita para o fenômeno é a atual Lei de Drogas, de 2006, que paradoxalmente tentava reduzir o encarceramento de usuários impondo-lhes penas alternativas. Mas o texto não define uma quantidade objetiva de droga para classificar alguém como traficante, abrindo margem para que usuários sejam condenados por tráfico.

    Um recurso da Defensoria Pública de São Paulo pede que a criminalização da posse de drogas para uso pessoal seja considerada inconstitucional. Começou a ser examinado em 2015 e foi liberado para julgamento pelo ministro Alexandre de Moraes em 2018, mas até hoje não foi colocado na pauta do Supremo Tribunal Federal.

    O tráfico de drogas é o segundo crime com maior incidência nos presídios, correspondendo a uma a cada cinco prisões. Entre as mulheres, esse índice chega a 51%. A maior parte é de jovens (45% tem até 29 anos) e negros (67% da população carcerária). Hoje, 30% dos presos do país ainda não foram a julgamento.

    “Os dados disponíveis mostram que os presos não são os traficantes que se impõem tiranicamente sobre comunidades pelo uso da força, mas varejistas do comércio de substâncias ilícitas, que têm sido presos sem porte de arma, sem prática de violência e sem vínculo conhecido com facção”, diz o antropólogo e escritor Luiz Eduardo Soares.

    Isso acontece, em seu raciocínio, porque a Polícia Militar é pressionada a produzir, e entende isso por prisão. Como não pode fazer investigações, atribuição da Polícia Civil, procura fazer prisões em flagrante, muitas delas por tráfico de drogas. “Temos um filtro seletivo de cor, classe e território que é o da prisão em flagrante”, afirma.

    Policiais na entrada da Favela da Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro – Eduardo Anizelli/Folhapress

    Dentro da cadeia, o preso vai precisar se aliar a uma facção criminosa para sobreviver, e deverá lealdade a ela quando sair da prisão. “Nós estamos pavimentando uma carreira no crime, contratando violência futura.”

    O Rio de Janeiro tem hoje quatro principais grupos criminosos. O maior e mais conhecido deles é o Comando Vermelho, mas há também o Terceiro Comando Puro e o Amigos dos Amigos, além das milícias, que também fazem tráfico de drogas.

    As quadrilhas são chamadas de facções prisionais justamente por surgirem ou se fortalecerem dentro do sistema carcerário, como é o caso da paulista Primeiro Comando da Capital. As facções têm células em todo o país e associações no exterior para produção e escoamento internacional de drogas.

    Piquet Carneiro, da USP, diz concordar que as prisões fortalecem as facções criminosas. Mas, para ele, o encarceramento tem importante efeito dissuasório, por provocar um medo de ser preso entre pessoas que pensam em entrar para o crime, e incapacitante, por tirar bandidos da rua.

    Os moradores de favelas questionam as ações da polícia, mas não o tráfico. Para Maicon Almeida, 32, morador do Complexo do Alemão, não faz sentido comparar o Estado com o poder paralelo. “Eu não reclamo do tráfico porque aqui impera o tráfico, não tem como chegar e falar que não é pra fazer isso, não é pra fazer aquilo. O Estado eu posso e eu devo cobrar.”

    O Complexo do Alemão, onde Almeida vive, virou símbolo do sucesso e, em seguida, do fracasso da política de combate ao tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Dez anos atrás, após uma semana de ataques pela cidade, forças estaduais e nacionais ocuparam a favela, prenderam traficantes e fincaram uma bandeira nacional no alto do morro.

    “Eu olhava para um lado, via o tráfico. Na TV, a polícia chegando. E você no meio daquilo.”, conta Almeida, que já viu uma série de incursões policiais. A primeira de que se lembra foi em 1992, quando militares ocuparam a favela para garantir a segurança das autoridades que foram à conferência Eco-92. À época, exigiam até carteira de trabalho dos moradores que queriam passar pelo cerco.

    “Não é eficaz. Se fosse, já tinha acabado [o crime]. Nunca mudou, e não é assim que vai mudar”, diz ele. “Precisamos acabar com o tráfico de drogas. Tu olha pra cá, onde tem plantação de maconha aqui? Como chega arma? Criminalizam esse lugar, dizem que todo mundo aqui ou é bandido ou amigo de bandido ou tem parente bandido. Para grande parte da população todo mundo aqui é conivente com o tráfico. Mas ninguém é conivente com ninguém.”

    Maicon de Almeida, morador do Complexo do Alemão – Eduardo Anizelli/Folhapress

    A diferença de tratamento ficou patente quando Almeida estudava em Botafogo, na zona sul. Os colegas fumavam maconha perto de policiais sem qualquer pudor e não eram abordados.

    O delegado Zaccone, quando atuava em Jacarepaguá, zona oeste da cidade, fazia registros de quatro prisões em flagrante por tráfico de drogas por plantão. O território de sua delegacia abarcava favelas como a Cidade de Deus.

    “Fui transferido para a Barra da Tijuca, área nobre, e ficava até seis meses sem fazer nenhum flagrante. Você olhava os boletins de ocorrência e pensava que não havia tráfico de drogas na Barra. É lógico que isso não era verdade”, afirma.

    “O que você tem são políticas criminalizadoras e ações de segurança diferenciadas”, diz o policial. Se o objetivo da repressão policial é reduzir o consumo e a circulação das drogas e proteger a saúde pública, a política no país tem fracassado, afirma o delegado.

    “O espaço do pobre e o pobre são considerados o tempo inteiro como perigosos. O que legitima esse controle violento das favelas do Rio e das periferias do Brasil é a proibição à droga. Por esse aspecto, eu poderia dizer que a proibição tem resultados positivos para a manutenção dessa ordem desigual em nosso país.”

    Brendo Oliveira, 16, em sua casa no Complexo do Alemão – Eduardo Anizelli/Folhapress

    Brendo Oliveira, 16, negro e morador do Complexo do Alemão, sabe bem o que é isso. “A vida aqui é bem difícil, por conta de tiroteio. A gente está aí, tranquilão, crianças brincando, tem tiroteio, acerta morador, e você não sabe nem de onde vem”, diz ele.

    Oliveira perdeu o pai e um tio, traficantes, que morreram em trocas de tiros, mas está seguro de que não quer isso para si. “É morte ou cadeia. Eu sou totalmente diferente do meu pai. Minha vida é outra, judô, jiu-jítsu, futebol, arte, fotografar. “

    O jovem mora perto da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Fazendinha, prédio com buracos de bala nos vidros e placas de ferro para conter os projéteis. A instalação fica no alto de um morro, ao lado de uma estação do teleférico desativado.

    Quando criada, em 2012, a UPP ficava em uma área vibrante, movimentada pelos turistas que usavam o teleférico e enchiam os bares e a feira de artesanato local. Na estação havia uma clínica de saúde da família e projetos sociais, como aulas de judô para crianças nas quais Brendo começou a praticar a luta.

    Acima, vista do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro; abaixo, Laureana Sousa, a Mineira, com o marido, Galileu, e os filhos no Complexo do Alemão – Eduardo Anizelli/Folhapress

    O fechamento do teleférico em 2016 reduziu o movimento, e as atividades foram se encerrando aos poucos, até que a estação foi ocupada pela polícia e fechada ao público. A unidade passou a ser tudo menos pacificadora, desabafa Laureana Sousa, 34, mais conhecida como Mineira.

    Dona de um bar atrás da UPP, ela aponta a relação tensa da corporação com os moradores da região: “Sem a polícia aqui, os moradores sabem as regras do morro, o que pode e o que não pode, cada um faz sua parte e não tem violência. Você vive uma vida inteira tranquilo, porque bandido não bate na porta de morador. Agora, a polícia entra, invade, bagunça, humilha uma mãe de família”.

    “Os nossos governantes, hoje em dia, querem cancelar CPF, não importa de quem. Para eles, nossos filhos, dentro da comunidade, já são sementes do mal. A criança está crescendo pra virar bandido, então qualquer coisa que eles matarem dentro da favela está bom”, afirma.

    A repressão ao tráfico de drogas acaba concentrada na ponta do negócio, diz o delegado Zaccone, no varejo, onde o lucro é menor, e não na produção da droga ilícita. “O efeito disso é que esse mercado se mantém forte economicamente, e a gente tem uma quantidade imensa de jovens negros pobres encarcerados e mortos em ações policiais.”

    Na cidade do Rio de Janeiro, a polícia matou no ano passado 726 pessoas, 38% dos 1.913 habitantes que morreram de forma violenta na capital fluminense.

    O governo estadual do Rio de Janeiro não deu entrevista para esta reportagem, mas enviou nota afirmando que 81% das 1.413 favelas do estado sofrem com grupos ligados ao tráfico de drogas e 19% sofrem com a ação de milicianos.

    O governo calcula que haveria cerca de 40 criminosos em cada uma dessas favelas, chegando a estimativa de 56.620 criminosos em liberdade portando armas de fogo de grosso calibre e atuando para o tráfico de drogas ou grupos de milicianos em todo o estado.

    “É dentro dessa realidade que acontecem as operações realizadas pelas polícias Civil e Militar, que têm como principal objetivo localizar criminosos e apreender armas e drogas”, segue a nota. “Essas ações são pautadas por informações da área de inteligência e seguem protocolos rígidos de execução, sempre com a preocupação de preservar vidas.” O estado diz que o número de homicídios no último mês de agosto foi o menor desde 1991, assim como o consolidado de 2019.

    Os números do próprio governo mostram que entre junho –após a proibição pelo STF de operações violentas em comunidades sem justificativa prévia– e agosto (último dado disponível), 798 pessoas foram assassinadas no estado, ante 1.001 no mesmo período do ano passado. Uma redução de 20%, que ajudou a reverter a tendência de alta na letalidade policial em plena pandemia.

    Vista da cidade do Rio de Janeiro a partir do mirante Dona Marta – Eduardo Anizelli/Folhapress

    https://arte.folha.uol.com.br/mundo/2020/estado-alterado-as-politicas-para-drogas-pelo-mundo/brasil/efeitos-da-guerra-as-drogas/

  • Por que o Norte está na parte superior da maioria dos mapas do mundo?


    As explicações passam por questões religiosas, espirituais e políticas

    4.jun.2022 às 12h55

    POR JERRY BROTTON – DA BBC RÁDIO 4, SÉRIE ‘ONE DIRECTION’ *

    Poucas coisas parecem mais naturais do que os quatro pontos cardeais.

    Onde quer que você esteja no planeta, você pode ver o Sol nascendo no Leste e se pondo no Oeste. O zênite do sol identifica o Sul, enquanto outra estrela, a estrela polar, lhe dirá onde está o norte. Sem os pontos cardeais estaríamos perdidos. Mais do que pontos em um mapa ou bússola, são ideias poderosas com significados políticos, morais e culturais.

    Mapa do astrônomo e geógrafo grego Claudio Ptolomeo
    Mapa do astrônomo e geógrafo grego Claudio Ptolomeo – BBC News Brasil/Getty Images

    Mas por que o Norte acabou no topo da maioria dos mapas do mundo?

    Embora as quatro direções cardeais de uma bússola sejam definidas pelas realidades físicas do polo norte magnético (norte-sul) e do nascer e pôr do sol (leste-oeste), não há razão para o norte automaticamente receber essa “distinção”. O Sul e o Leste poderiam muito bem ocupar esse lugar, e o fizeram no passado.

    O Oeste no mapa

    Embora tenha dado origem a um dos conceitos mais poderosos e intangíveis – o Ocidente ou o mundo ocidental – as sociedades antigas recusavam-se a privilegiar o Ocidente como lugar onde o sol se punha.

    'Calypso's Grotto', Francis Danby, ca. 1843
    Para muitas culturas, o pôr do sol e o Oeste simbolizavam o fim da vida

    O pôr do sol personificava o fim da jornada da vida, antecipando a escuridão e o reino da morte, de modo que quase nenhuma cultura o escolheu como orientação sagrada para a oração, e menos ainda o colocou no topo de seus mapas. Ele era colocado na área inferior dos mapas, como no mapa-múndi de Hereford, um dos grandes mapas medievais, no qual ao olhar para baixo você chega ao oeste, onde o julgamento final espera por você.

    Essa posição está associada a uma sensação de fim, de prenúncio, de escuridão e decadência. E nas bordas do mapa estão as letras MORS, a palavra latina para “morte”. Mas se o Oeste estiver na parte de baixo dos mapas, o Leste estará na parte de cima.

    O Leste e o nascer do sol

    Na história dos pontos cardeais, tudo começa no Leste com o nascer do sol. O oriente tem sido desde tempos imemoriais um símbolo de nascimento, do início da jornada da vida. Oriente vem do latim oriens, aparecer, nascer. É a raiz do termo “orientação”, a principal forma de nos localizarmos no espaço.

    O leste foi definido em oposição ao oeste ao longo do eixo horizontal que precedia o norte-sul. No cristianismo primitivo, o Leste é a localização do paraíso, uma razão poderosa pela qual ele é posicionado no topo de muitos mapas-múndi.

    Mapa mundi de Hereford
    Mapa-múndi de Hereford, feito em 1300

    No mapa mundi de Hereford, abaixo de Cristo, sentado em um arco-íris, está o Jardim do Éden. Abaixo, a Torre de Babel e no centro, Jerusalém. Na parte inferior, a oeste, estão os pilares de Hércules, que podem ser interpretados como o fim dos tempos.

    Fora do mundo terrestre, nas bordas do mapa, o tempo terrestre termina e é substituído pelo eterno presente do céu, onde não há necessidade de pontos cardeais. E no canto inferior do mapa há uma figura saindo do quadro, olhando para o mundo que ele está deixando. A inscrição acima diz: “continue”.

    A figura parece sair desta vida, mas olha ansiosamente para o topo do mapa, para o leste, aquele lugar de renascimento, onde toda a vida começa. Este mapa-múndi foi feito em couro de bezerro por volta de 1300.

    Coberto por mais de 1.000 inscrições, ilustrações de labirintos e monstros, é uma vasta enciclopédia visual do conhecimento cristão e retrata a criação bíblica da humanidade. Por que foi criado permanece um mistério?

    Embora não seja um mapa convencional, pois ao invés de mostrar um caminho físico traça um caminho espiritual, é a prova de que os mapas poderiam ter o leste como norte.

    É que “a morada também tem a ver com identidade, que é uma declaração espiritual e teológica, não geográfica”, sublinha o historiador dos mapas islâmicos Yossef Rappaort.

    O Sul nos mapas do mundo islâmico

    A direção geográfica tem sido extremamente importante para o ritual na vida diária desde o início do Islã.

    Mapa-múndi de Al-Idrisi
    Mapa-múndi de Al-Idrisi, com o sul no topo
    Tabula Rogeriana
    Tábula Rogeriana, feita por Al-Idrisi para Roger II en 1154

    A “qibla” ou “quibla” é a direção sagrada da oração para Meca. À medida que mais tribos ao norte de Medina, a cidade onde o profeta Maomé viveu e ensinou, se converteram ao islamismo, o quibla se estabeleceu ao sul. “Isso impactou a maneira como eles viam o mundo, então fazia sentido que, escolhendo uma direção cardinal sobre as outras, eles escolhessem essa.” É por isso que a maioria dos mapas-múndi islâmicos posicionam o sul na parte superior.

    Um dos mapas mais famosos posicionando o sul na parte superior foi feito em 1154 por Al-Idrisi, que viveu na corte do rei normando cristão Roger 2º da Sicília, embora fosse muçulmano.

    “Nesses mapas, a Europa está na parte inferior e muitas vezes é muito menor do que estamos acostumados”, observa Rappaort. Embora não seja o foco desses mapas, o continente europeu tem um belo nome: “‘A diversão de quem anseia por viajar pelos horizontes’. Essa é a tradução literal”, diz o historiador.

    América Invertida
    “América Invertida”, obra do pintor uruguaio Joaquín Torres-García de 1943.

    Séculos depois, o Sul ressurgiu no topo, com obras como “América Invertida” do pintor uruguaio Joaquín Torres-García (1874-1949) e o icônico Mapa Corretivo Universal do Mundo de 1979 do australiano Stuart McArthur. MacArthur escreveu na legenda do mapa: “O Sul não vai mais chafurdar em um poço de insignificância carregando o Norte em seus ombros por pouco ou nenhum reconhecimento de seus esforços. Finalmente, o Sul emerge por cima.”

    Por que o Norte começou a aparecer no topo?

    O Norte é o mais contraditório dos pontos cardeais. É um lugar desolado e escuro. Um deserto congelado de exílio, punição e até morte. Monstros e demônios enchiam as regiões congeladas do norte dos mapas cristãos medievais. Mas é também uma região de beleza austera, gerando maravilha, revelação e, com a Estrela Polar, constância, até salvação.

    Mapa de estrelas
    ‘Se há algo que explica por que tendemos a colocar o norte no topo, acho que é o Polaris’ diz Felipe Fernández-Armesto, especialista em história da navegação e cartografia

    O Norte também é único entre os quatro pontos cardeais, devido ao polo físico do campo magnético da Terra. As correntes de convecção combinam a eletricidade com o núcleo planetário de ferro e níquel, criando um campo geomagnético que gira em torno do planeta e se espalha pelo espaço.

    No entanto, como não possuímos uma bússola neurológica interna, do ponto de vista científico, não temos um sentido inato do norte magnético. Então, por que ele acabou por padrão no topo do mapa-múndi é uma questão que ainda divide os historiadores. Sabemos por que os chineses o tinham ali, embora as primeiras bússolas chinesas apontassem para o sul, o que era considerado mais desejável do que o norte escuro. O imperador vivia no norte do país e sempre tinha que aparecer no topo do mapa, olhando seus súditos de cima para baixo.

    E os demais mapas com o Norte no topo?

    “Se há algo que explica por que tendemos a colocar o Norte no topo, acho que é o Polaris”, diz Felipe Fernández-Armesto, especialista em história da navegação e cartografia. “O verdadeiro salto para o norte veio com a expansão da navegação em alto mar. Essa estrela do norte foi absolutamente crítica para os navegadores se localizarem naqueles mares desconcertantes, onde não há características físicas para dizer onde você está.”

    El mapa del mundo de Gerardus Mercator, de 1569
    Mapa de Gerardus Mercator, de 1569

    Se for para apontarmos um momento decisivo para a fixação do norte no topo do mapa-múndi, seria 1569 e a publicação do cartógrafo flamengo Gerardus Mercator. Seu mapa, famoso por ser o primeiro a levar em conta a curvatura da Terra (embora não seja o primeiro a colocar o Norte no topo), foi projetado para ajudar os marinheiros a navegar pelo mundo, usando linhas de latitude e longitude para traçar um caminho reto.

    O Norte está no topo, mas não porque importasse mais, muito pelo contrário. Os Polos Norte e Sul projetam-se ao infinito e “não importava”, segundo Mercator, pois não havia interesse em navegar até eles. O mapa de Mercator tornou-se a cartografia padrão para fins náuticos. Na década de 1970, foi usado como base para mapear a superfície de Marte. O norte de Mercator havia triunfado mesmo em planetas distantes. Mas, de volta à Terra, pelo menos como ponto cardeal, essa posição já não é mais tão privilegiada.

    Mapas virtuais

    Nas últimas décadas, a maioria das pessoas carrega seu próprio atlas virtual no telefone. O ponto mais importante é aquele pequeno ponto azul em nossos aplicativos de mapa que seguimos sem muito cuidado com as direções da bússola ou o terreno pelo qual estamos nos movendo.

    GPS
    A localização dos pontos cardeais perdeu importância diante dos mapas virtuais que usamos nos aplicativos de celular

    “Com o mapeamento tradicional de mapas, trata-se de ter uma visão geral da área de interesse. Você se coloca mentalmente lá e navega usando as habilidades que aprendeu na infância”, explica Ed Parsons, tecnólogo espacial-chefe do Google.

    “No mapeamento online, os pontos cardeais são menos relevantes.” “Com o Google Maps, seu telefone sabe onde você está e o mapa que você vê é orientado de forma a te colocar no centro. É autocentrado. Você é o centro do mapa e a direção em que está viajando está à sua frente.” “A geração que cresceu com smartphones pode nunca saber como é estar perdido.”

    Alguns observadores temem, no entanto, que estejamos virtualmente conectados, mas ambientalmente separados do mundo físico, habitando um reino confuso de analfabetismo espacial. “As habilidades de orientação foram essenciais para a sobrevivência ao longo de nossa história evolutiva”, diz o jornalista científico Michael Bond.

    “A relação que você tem com a paisagem pela qual está viajando não se reduz a seguir um conjunto de instruções. Obter informações do lugar ao seu redor ajuda a construir um mapa cognitivo.” Pela primeira vez na história, podemos estar perdendo muitas das habilidades e ferramentas espaciais que nos sustentaram por milênios.

    Em outras palavras, podemos estar perdendo o Norte.

    https://www.bbc.com/portuguese/geral-61691283#:~:text=O%20norte%20est%C3%A1%20no%20topo,cartografia%20padr%C3%A3o%20para%20fins%20n%C3%A1uticos.

    Essa reportagem é uma adaptação de um episódio da série da BBC Radio 4 “One Direction”, do historiador e autor Jerry Brotton.

    Questões

    Compreensão Geral

    Qual é o motivo principal pelo qual o Norte acabou no topo da maioria dos mapas do mundo?

    Como as diferentes culturas históricas encaravam o Leste e o Oeste em seus mapas?

    De acordo com o texto, qual foi a principal mudança tecnológica que diminuiu a importância dos pontos cardeais nos mapas?

    Detalhamento Cultural e Histórico

    Por que o Leste foi tão importante em muitos mapas antigos, especialmente nos contextos cristãos?

    Qual é a razão apresentada no texto para a maioria dos mapas-múndi islâmicos posicionarem o Sul no topo?

    Como o mapa de Hereford reflete a visão medieval do mundo?

    Navegação e Cartografia

    Como a Estrela Polar influenciou a escolha do Norte como ponto de orientação principal nos mapas?

    Qual foi a contribuição de Gerardus Mercator para a cartografia, e como ela influenciou a preferência pelo Norte no topo dos mapas?

    Reflexão Crítica

    Por que o texto sugere que estamos “perdendo o Norte” na era dos mapas digitais e dos smartphones?

    De que maneira a mudança de mapas tradicionais para mapas virtuais pode impactar nossa relação com o mundo físico e nossa habilidade de orientação espacial?

    Análise de Impacto Cultural e Político

    Como os pontos cardeais, mais do que simples direções, possuem significados políticos, morais e culturais?

    Como a escolha de uma direção cardeal para o topo dos mapas pode refletir as perspectivas e valores de uma sociedade?

    Interpretação Contextual

    No texto, qual é o significado associado ao Oeste e como isso afetou sua posição nos mapas antigos?

    Por que o Sul ganhou destaque em obras como “América Invertida” de Joaquín Torres-García e o Mapa Corretivo Universal do Mundo de Stuart McArthur?

    Aplicação Prática

    Como a orientação pelos pontos cardeais foi essencial para a sobrevivência humana ao longo da história?

    Que lições podemos aprender ao refletir sobre como diferentes culturas e períodos históricos abordaram a orientação nos mapas?

    Conclusão e Pensamento Futuro

    Como podemos equilibrar o uso de tecnologias de navegação modernas com a preservação de nossas habilidades de orientação natural?

    O que você acha que o texto sugere sobre a importância de mantermos um senso de orientação no mundo físico, apesar dos avanços tecnológicos?

    Prof Luciano Mannarino

    Governo altera mapa do semiárido, inclui cidades do ES e exclui do Nordeste (EF06G03 – EF07GE02 – EF07GE09 – EM13CHS106)

    A formação do Território Brasileiro (EM13CHS204)

    Significado do nome de cada Bairro da Cidade do Rio de Janeiro.

  • O que sobra?

    O que sobra?

    Quando nos momentos vividos não encontramos ensinamentos e a vida se resume a satisfazer demandas de um corpo.

    O que sobra?

    Prof Luciano Mannarino

  • A superfície da Terra está subindo embaixo dos nossos pés

    Camada de gelo mostra sinais de derretimento a oeste do Alasca, em imagem feita em 4 de fevereiro de 2014 por satélites da Nasa. O estreito de Bering, coberto com gelo, se situa entre Alasca e Rússia Imagem: MODIS/Aqua/NASA Brian K. Sullivan 27/03/2015 18h07

    Brian K. Sullivan

    27/03/2015 18h07

    Nos EUA, nos últimos doze meses, houve alertas mais do que suficientes de como o clima pode afetar nossas vidas. A Califórnia está entrando no quarto ano de seca porque não teve neve suficiente. Boston está começando a emergir de uma quantidade recorde de neve. Quase todos os dias, voos são cancelados, crianças perdem aulas e pais enviam cheques às seguradoras para para se protegerem de inundações, furacões e tornados.

    No entanto, também existem impactos de longo prazo que a maioria das pessoas talvez não perceba. Por exemplo, se você mora no Canadá, no norte dos EUA ou em determinadas partes da Europa, o solo sob seus pés está subindo. E o motivo, de certo modo, é o clima.

    Mas não o clima no sentido da chuva de ontem ou do vento da semana passada. O fenômeno foi causado pelas neves que se acumularam e criaram enormes mantos de gelo que cobriram a terra na última Era do Gelo. OK, foi muita neve, por um longo período de tempo, mas a questão tem mais a ver com o clima do que simplesmente com as condições meteorológicas

    Independentemente da causa, a mudança é perceptível. “Podemos monitorá-la em tempo real”, disse Theresa Damiani, pesquisadora de geologia da Investigação Geodésica Nacional (NGS), da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA), em Camp Springs, Maryland.

    Compensação da Terra.

    O peso dos mantos de gelo, que tinham diversos quilômetros de espessura em alguns lugares, empurrou a superfície da Terra para baixo. Quando o gelo derreteu e recuou, o solo começou a subir novamente. A NOAA descreve o fenômeno como o que acontece quando um colchão velho volta ao formato original depois que uma pessoa se levanta de manhã. Quando os mantos de gelo começaram a recuar, ocorreu uma recuperação rápida em muitas regiões, que desacelerou ao longo dos séculos, disse Damiani.

    “O solo vem se recuperando e continua nisso”, disse Damiani. “Leva um período muito longo”.

    A superfície da Terra sobe cerca de 1 milímetro por mês no Canadá e aproximadamente a mesma quantidade ao longo de um ano nos EUA, disse ela. Para um lugar como a Baía de Hudson, no Canadá, as mudanças seriam visíveis ao longo da vida de uma pessoa, disse ela.

    “Se você construiu um atracadouro, parece que o oceano está baixando”, disse Damiani.

    Não é que o nível do oceano esteja caindo? É que a terra está voltando a subir.

    Ao calcular o aumento dos oceanos devido ao atual derretimento das geleiras e dos mantos de gelo, os pesquisadores precisam levar em consideração essas taxas de recuperação, de acordo com um relatório da NOAA publicado em dezembro de 2012. Área coberta É claro que a terra só está subindo nas áreas cobertas pelo manto de gelo. No hemisfério ocidental, essa região abrange quase todo o Canadá até a Nova Inglaterra, passando pelos Grandes Lagos e chegando à Região Centro-Oeste, às Grandes Planícies do norte e ao Noroeste do Pacífico.

    Além do limite dos lugares em que o gelo empurrou o solo para baixo, existem áreas onde a superfície está, na verdade, assentando-se mais abaixo. O que aconteceu aí é que o terreno na beira dos mantos de gelo se comportou como a geleia que se esparrama para fora de um sanduíche esmagado.

    As mudanças podem provocar pequenos terremotos, embora eles sejam muito fracos e passem despercebidos para a maioria das pessoas.

    O movimento é acompanhado por meio de satélites de posicionamento global e é utilizado para assegurar que os mapas continuem sendo exatos, disse Damiani. “A tarefa da minha agência, a NGS, é a de monitorar o formato do planeta”, disse Damiani. Os países escandinavos também monitoram a lenta taxa de recuperação da superfície ao longo dos últimos 14.000 anos, um ou dois séculos a mais ou a menos, desde que os mantos de gelo atingiram o auge na última Era do Gelo.

    A paciência é, sem dúvida, um dos requisitos para esse trabalho.

    https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2015/03/27/a-superficie-da-terra-esta-subindo-sob-seus-pes.htm

    Prof Luciano Mannarino

    Atividade em sala (pesquisar)

    Qual a relação entre a reportagem e os estudos de Isostasia Geológica?

    O que é Glacioisostasia?

    Relacione movimento eustático e epirogênese.

    Geologia/Geomorfologia

    Conceitos de Epirogênese e de Orogênese.

    Apresentação do Professor de Geologia…

  • Trens maiores tiram quase 800 composições do principal corredor ferroviário do país

    Trens maiores tiram quase 800 composições do principal corredor ferroviário do país

    EM13CHS302

    Analisar e avaliar criticamente os impactos econômicos e socioambientais de cadeias produtivas ligadas à exploração de recursos naturais e às atividades agropecuárias em diferentes ambientes e escalas de análise, considerando o modo de vida das populações locais – entre elas as indígenas, quilombolas e demais comunidades tradicionais -, suas práticas agroextrativistas e o compromisso com a sustentabilidade.

    Concessionária Rumo completa um ano da operação de trens com 120 vagões entre Rondonópolis (MT) e o porto de Santos

    6.mai.2022 às 7h34

    Marcelo Toledo

    A implantação de trens com mais vagões no principal corredor do agronegócio no país, entre Rondonópolis (MT) e o porto de Santos, fez com que cerca de 800 viagens deixassem de ser feitas somente em 2021.

    O sistema de trens com 120 vagões foi implantado pela concessionária Rumo em março do ano passado, com o objetivo de reduzir custos e, ao mesmo tempo, transportar mais carga até o porto no litoral paulista. Até então, eram utilizadas somente composições com 80 vagões.

    Trem da concessionária Rumo, com 120 vagões, trafega no principal corredor do agronegócio, que liga Rondonópolis (MT) ao Porto de Santos
    Trem da concessionária Rumo, com 120 vagões, trafega no principal corredor do agronegócio, que liga Rondonópolis (MT) ao Porto de Santos – Divulgação

    Para isso, o plano iniciado em 2018 envolveu mapeamento da tecnologia nas locomotivas, como é o carregamento em Rondonópolis, o tempo que leva para embarcar toda a carga, como seria trafegar por todas as cidades paulistas e a chegada a Santos.

    Um dos problemas é que a malha paulista é muito recortada. Criada principalmente entre o fim do século 19 e as primeiras décadas do século passado, ela tem curvas irregulares e traçado que dificulta a operação de grandes composições. O percurso era o ideal para o período por buscar café nas fazendas, já que não havia outro meio de transporte de carga.

    A proposta inicial da Rumo era utilizar cinco locomotivas para tracionar os 120 vagões, mas após estudos no decorrer de 2021 concluiu-se que era possível fazer a rota entre a cidade mato-grossense e Santos com quatro locomotivas.

    “Esse fator e mais o auxílio das tecnologias embarcadas de condução semiautônoma permitem um ciclo mais eficiente para atender as principais regiões produtoras do país”, diz a concessionária.

    A medida reduziu a emissão de gases e fez, também, com que o comprimento de cada trem passasse de 1,5 quilômetro para 2,2 quilômetros.

    Americana fica na linha tronco da concessão, o chamado corredor de exportações
    Americana fica na linha tronco da concessão, o chamado corredor de exportações Rafael Hupsel/FolhapressMAIS

    De acordo com a concessionária, se mantivesse em 2022 as operações no formato antigo, seriam necessárias mais de 40 locomotivas e 1.445 vagões para cumprir o mesmo ciclo que agora é feito com 120 vagões.

    Foram realizadas no ano passado 1.585 viagens com os 120 vagões, ante as 2.377 que teriam de ocorrer para levar a mesma carga caso a rota fosse percorrida com trens menores. A redução é de 792 viagens.

    Gerente executivo de planejamento da Rumo, Thiago Alvarenga disse que a operação já trouxe “ganhos operacionais expressivos” e que a perspectiva é melhor para este ano. A fase de testes indicou que, a cada cem viagens com o trem maior, o ganho de combustível era equivalente a quatro trens.

    Trecho em obras na BR-163, no Pará, que liga estados da região Centro-Oeste a portos no norte do país
    Trecho em obras na BR-163, no Pará, que liga estados da região Centro-Oeste a portos no norte do país DivulgaçãoMAIS 

    O agronegócio tem impulsionado o novo modelo de viagens da Rumo. O Imea (Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária) estima que a área plantada com soja crescerá 2,55% na próxima safra em relação à anterior, atingindo 11,13 milhões de hectares.

    “A ampliação inicial está pautada pela valorização do preço da oleaginosa, demanda aquecida e o cenário de preços favoráveis dos subprodutos da soja, o que motivou alguns produtores a fazerem a conversão de áreas de pastagens para agricultura, principalmente em regiões onde a pecuária predomina —nordeste, noroeste e norte”, diz relatório do instituto.

    Dos 6,5 trens por dia, em média, que a Rumo embarca rumo a Santos, cinco saem do terminal em Rondonópolis, com 74 mil toneladas diárias.

    A forte demanda chegou a fazer com que, em um único dia, fossem embarcados 11 trens, 7 deles partindo de Rondonópolis.

    Um trem desse tamanho não é inédito no país, já que há outras ferrovias que transportam minério, por exemplo, com composições que chegam a ter 300 vagões. Em outras, porém, não é possível trafegar com mais de 40 vagões.

    Isso é determinado conforme a modernidade da ferrovia e a existência ou não de trechos de serra ou raios de curvatura menores, por exemplo.

    A Rumo passou a operar com trens de 120 vagões no segundo semestre do ano passado também a partir dos terminais de São Simão e Rio Verde, ambos em Goiás.

    Com a alteração no tamanho dos trens, a capacidade de cada um passou da equivalência de 173 caminhões para 261 caminhões.

    https://www1.folha.uol.com.br/blogs/sobre-trilhos/2022/05/trens-maiores-tiram-quase-800-composicoes-do-principal-corredor-ferroviario-do-pais.shtml

    Questões.

    1 Explique a criação da malhar ferroviária no interior paulista no final do Século XIX.

    Prof Luciano Mannarino