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  • Pampa/RS

    São mais de duas décadas explicando essa paisagem natural brasileira e finalmente eu consegui visitá-la.

    Muita emoção!!!

    Pampa/RS (2022)





    Prof Luciano Mannarino

  • Plano Diretor e o bem-estar da população

    Plano Diretor e o bem-estar da população

    A conquista do bem-estar da população deve constar no planejamento das cidades

    9.jul.2022 às 4h00

    Bem-estar e qualidade de vida são questões críticas para o funcionamento das cidades e, consequentemente, aspectos importantíssimos a serem considerados nos planos diretores estratégicos de cada município. Entretanto, as formas de associação do plano de desenvolvimento urbano com o bem-estar da população e sua relação com o ambiente construído nem sempre estão claras para os planejadores.

    Nesse sentido, pode ser bastante útil a compreensão do modelo conceitual proposto pelo professor Kostas Mouratidis, do departamento de planejamento urbano da Norwegian Univeristy of Life Sciences, na Noruega.

    O modelo considera para a caracterização do ambiente construído, no âmbito desse estudo, quatro componentes principais: uso do solo, sistema de transporte, desenho urbano e habitação.

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    Vila Guilhermina, zona leste de São Paulo – Eduardo Anizelli/Folhapres

    A definição de bem-estar da população, considerado um conceito subjetivo, compreenderia três aspectos: satisfação com a vida, bem-estar emocional e a eudaimonia (doutrina que prega a felicidade como finalidade da vida humana).

    Assim, estabelecidos o ambiente construído e o objetivo a ser alcançado (bem-estar da população), o autor indica os aspectos que devem ser considerados no planejamento das cidades para proporcionar essa conexão de forma eficiente: mobilidade, lazer, trabalho, relações sociais, bem-estar residencial, respostas emocionais e saúde.

    Isso significa dizer que, embora existam inúmeras questões importantes a serem consideradas no planejamento de uma cidade, esses são aspectos essenciais quando se pretende estruturar mecanismos que permitam alcançar o bem-estar da população.

    A mobilidade é um dos aspectos mais relevantes e abrangentes. Permite que as pessoas acessem lugares, instalações e serviços e, assim, participem de atividades e atendam às suas necessidades diárias. Gera também respostas emocionais – por exemplo, deslocamentos longos e estressantes ou agradáveis– e, portanto, influencia o bem-estar emocional.

    As viagens urbanas permitem que as pessoas conheçam outras pessoas, dirijam-se até seus locais de trabalho, visitem lojas e acessem instalações e serviços de saúde, educacionais, espaços recreativos, esportivos e culturais. Essas opções de acesso contribuem para a satisfação de necessidades e permitem que as pessoas alcancem a eudaimonia.

    O trabalho é um dos domínios mais importantes da vida, e a satisfação no trabalho contribui substancialmente para o bem-estar. O nível de diversidade e acessibilidade, a oportunidade de trabalho e educação são extremamente importantes nesse processo.

    Nesse contexto, estudos mostram que cidades mais densas e vibrantes aumentam o acesso a bens e serviços, facilitam a interação diária, atraem talentos, facilitam o empreendedorismo e possibilitam a mobilidade social e econômica.

    A satisfação com a moradia expressa o nível de contentamento com a habitação em que se vive, e fornece indicações sobre a influência das características da habitação no bem-estar social. Além, obviamente, da satisfação com a habitação em si – aspectos relacionados com a vizinhança são importantes. Assim, é desejável que problemas urbanos comuns (ruídos, desigualdades, criminalidade, falta de espaços verdes) sejam relativamente limitados, e características essenciais (densidade, uso do solo equilibrado, transporte público eficiente, caminhabilidade), e um ambiente construído compacto sejam foco do planejamento.

    Vista aérea do edifício Figueira Altos do Tatuapé, de 170 metros
    Vista aérea do edifício Figueira Altos do Tatuapé, de 170 metros Eduardo Knapp/FolhapressMAIS 

    O estudo do professor Mouratidis conclui que as estratégias potenciais para melhorar o bem-estar social por meio do planejamento urbano podem incluir aspectos, como melhorar as condições para viagens ativas e transporte público e restringir as viagens de automóveis quando possível; fornecer acesso fácil e equitativo a instalações e serviços; desenvolver ou orientar a tecnologia e novas opções de mobilidade para melhorar a inclusão e a qualidade de vida de diferentes grupos; integrar ao máximo as várias formas de natureza urbana; fornecer espaços públicos acessíveis e inclusivos; manter a manutenção e a ordem no espaço urbano, vegetação e sistemas de transporte.

    Além disso, aponta que outras questões importantes como implementar estratégias de redução de ruído; propor modelos para o desenvolvimento de edifícios e espaços públicos esteticamente agradáveis com base nas necessidades e preferências dos moradores; reduzir as desigualdades socioespaciais ao mesmo tempo em que dá apoio à moradia e ao transporte para grupos vulneráveis; assegurar que políticas, planos, leis e regulamentos urbanos considerem o conhecimento baseado em evidências; melhorar a transferência de conhecimento e interação entre planejadores e coordenadores de saúde pública; aplicar a medição e benchmarking dos resultados do planejamento urbano; e empregar estratégias de empoderamento e incentivar a participação pública e a inclusão de grupos vulneráveis no processo de planejamento.

    Essas estratégias podem e devem ser orientações importantes para planejadores municipais que estejam elaborando ou revisando seus planos diretores, para que possam, dessa forma, incorporar definitivamente ao planejamento a conquista do bem-estar da população.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/claudiobernardes/2022/07/plano-diretor-e-o-bem-estar-da-populacao.shtml

    Questões (consulta)

    1 O que são “desigualdades socioespaciais”? Por que elas ocorrem?

    2 A participação pública na elaboração de um Plano Diretor aumenta a eudaimonia? Justifique.

  • Com mais de 8 mil torres eólicas, NE sofre com danos ambientais silenciosos.

    Com mais de 8 mil torres eólicas, NE sofre com danos ambientais silenciosos.

    Carlos Madeiro

    Colunista do UOL

    03/07/2022 04h00

    A instalação em grande escala de parques eólicos na região Nordeste se tornou motivo de preocupação para pesquisadores do tema, que dizem que o avanço do setor ao longo das últimas duas décadas ocorreu sem minimizar corretamente os danos ambientais. A coluna conversou com pesquisadores e leu estudos mais recentes, que revelam impactos como desmatamento e redução na movimentação de dunas e da recarga de lençóis freáticos (água subterrânea, essencial especialmente no semiárido).

    Torres na proximidade da comunidade de Xavier, em Camocim (CE)

    Tida como uma das energias produzidas mais limpas, a produção eólica, que utiliza o vento, vem ganhando força no país. Segundo a Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica), são 805 parques, 708 deles no Nordeste. Ao todo são 8.211 torres instaladas somente na região. A energia eólica foi defendida por Jair Bolsonaro, em recentes discursos. Ele disse que anunciará, em breve, um projeto de energia eólica no Nordeste que equivalerá à geração de “50 Itaipus”. Recentemente, a coluna mostrou os danos sociais que a instalação de parques estava causando no interior do Nordeste, com casas e cisternas rachadas e estradas com acesso deteriorado.

    Danos cumulativos

    A coordenadora do Labocart (Laboratório de Geoprocessamento e Cartografia Social) da UFC (Universidade Federal do Ceará) —que reúne pesquisadores sobre a energia eólica em todo o país—, Adryane Gorayeb, alerta que, com a instalação dessas milhares de torres, é preciso trabalhar agora com o conceito de impactos cumulativos

    “Hoje se estuda de forma isolada. É como se só aquele empreendimento fosse causar dano, mas não estamos falando de um empreendimento, mas de vários construídos em épocas e distâncias diferentes”, afirma. Em 2019, alguns desses estudos foram publicados no livro “Impactos socioambientais da implantação dos parques de energia eólica no Brasil”, que apontou para muitos problemas. Segundo Gorayeb, os estudos deixaram claro os impactos, que começam antes da obra, quando há desmatamento, em muitos casos, para construção de estradas para que caminhões pesados passem.

    “Muitas vezes eram ambientes fechados, que não tinha nenhum acesso”, explica. Se a construção de estrada vier por calçamento ou asfalto, o impacto afeta o ecossistema. “Raios solares sobre o asfalto acumulam muito mais calor maior que um solo exposto com argila e areia”, diz. Outro fator já clarificado pelas pesquisas é que essas obras causaram impermeabilização do solo, que prejudica o reabastecimento dos aquíferos. Especialmente em áreas secas, esses lençóis freáticos são fundamentais para garantir água à população..

    “Nesse processo a água vai sendo rebaixada, ficando cada vez mais no fundo. Na prática, as pessoas que vivem ao redor precisam cavar com poços mais profundos. Nordeste hoje responde por mais 80% da produção de energia eólica do Brasil Imagem: Marilia Barros.

    Problemas em dunas e água de Camocim

    A pesquisadora Raquel Morais, da UFC, fez uma análise sobre a qualidade das águas subterrâneas em Camocim, no extremo oeste do litoral cearense. No local, o parque eólico ocupou uma área de 1.040 hectares (o equivalente a 10,4 km²), e que 5% desse terreno foi impermeabilizado.

    No estudo ela perfurou 15 poços, que depois foram fechados e expostos a mudanças de solo similares às causadas pelos empreendimentos. O resultado obtido foi que os poços estavam com menos pressão e vazão de água. “As interferências são muito relevantes e influenciaram também a recarga das lagoas entre as dunas, muitas delas que eram permanentes antes da instalação do parque”, diz. Ela cita que, após a implementação do empreendimento, esses volumes hídricos secaram, comprometendo a pesca.

    Torres na proximidade da comunidade de Xavier, em Camocim (CE).

    Um outro estudo na mesma área feito pela geógrafa Gloria Duran, especialista em sensoriamento remoto (ciência que estuda imagens captadas à distância). Ela usou imagens antigas e recentes de satélite para comparar os impactos das dunas de Camocim. “Existiam deslocamentos de até 100 metros a cada dois anos dessas dunas, e depois que foi construído houve uma redução e não supera 60 metros em alguns locais.

    A construção dos parques se transformou numa espécie de barreira sobre o campo de dunas”, explica. Ela cita que, à época, o impacto conseguiu ser medido antes porque os parques de Aracati e Camocim foram as primeiras construções na região. “Foi feito de forma muito rápida”, completa.

    O professor e pesquisador da UERN (Universidade do Estado do Rio Grande do Norte), Rodrigo Guimarães, também estuda o tema há anos e reforça que a instalação das fundações muda a dinâmica natural das dunas por conta dos aterros e estruturas de suporte às torres. “Além disso, a utilização de água subterrânea em grande quantidade diminuindo o aporte [de água] de ecossistemas, como lagoas costeiras e manguezais”, diz. Sobre o movimento das dunas, Guimarães explica que boa parte delas migram naturalmente e voltam para o mar através dos estuários [área alagada de encontro com o mar] de rios. “Com as obras, as dunas são escavadas. Eles injetam muito concreto na base para instalar as torres, e as dunas vão sendo fixadas”. completa.

    Rio Grande do Norte é o estado com mais parques no país.

    Pássaros também afetados

    A bióloga Paula Tavares, que é mestre em geografia pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), também pesquisou o impacto nos pássaros com as torres e cita que há danos encontrados. “Os principais são as colisões, os afugentamentos e o efeito de barreira”, diz. Ela defende que o licenciamento ambiental deve analisar o local, onde o parque vai ser erguido para saber o impacto. Quando já erguido, existem formas também de reduzir impactos, como a pá pintada de preto na turbina —que consegue reduzir em até 70% a morte acidental de pássaros. “Uma outra tecnologia muito interessante é a instalação de radares que detectam a aproximação de bandos de aves e com essa informação as máquinas podem ser paradas, evitando a colisão”, conta.

    Nordeste hoje responde por mais 80% da produção de energia eólica do Brasil..

    Entidade afirma que atua para evitar danos

    Segundo a Abeeólica, os parques construídos no Brasil respeitam as legislações ambientais e são erguidos sempre tentando reduzir os impactos ambientais para se “conviver de forma compatível com a preservação dos principais recursos ambientais do território”.

    Sobre a questão do desmatamento, a entidade diz que a instalação de parques resulta em “baixos índices de supressão vegetal para implantação do empreendimento, sem supressão de grandes poligonais e, portanto, com impactos reduzidos”.

    Complexo Eólico Ventos de São Clemente está nos municípios pernambucanos de Caetés, Capoeiras, Pedra e Venturosa Imagem: Divulgação

    Divulgação De acordo com a entidade, os empreendimentos são distribuídos “de forma a conviver com um entorno preservado quanto às características de infiltração de água, sendo exceções os casos de uso de pavimentação asfáltica nas estradas associadas”.

    Diz ainda que, sempre que possível, os projetos buscam utilizar estradas vicinais já existentes no território. “Esses acessos são revitalizados com sistemas de drenagem e contenção de sedimentos, bem como com recuperação e controle de erosões que ficam como um legado para o território”, afirma.

    Quando há necessidade de instalar novos acessos, assegura que as estradas são projetadas “sem o uso de pavimentação asfáltica e considerando as melhores práticas da engenharia”, com sistema de drenagem. Sobre os prejuízos as dunas, a Abeeolica explicou que, no início das atividades há mais de 15 anos, “alguns parques foram instalados em dunas, com as respectivas compensações ambientais”. “Hoje isso já é bastante incomum, visto que os parques tendem a se instalar em áreas fora do litoral”, diz.

    Sobre o impacto causado pelos aerogeradores a pássaros, a entidade assegura que, antes de um parque eólico ser construído, há uma uma série de etapas técnicas prévias para se adaptar e atender à legislação ambiental.

    “Uma destas etapas inclui, exatamente, estudo de rotas migratórias de aves. A licença apenas é concedida quando há comprovação de que os riscos para impacto de aves são baixos e que podem ser compensados por medidas mitigatórias definidas pelos órgãos ambientais”, afirma, citando que, quando o “impacto reduzido chega, há medidas mitigatórias”.

    Carlos Madeiro

    https://noticias.uol.com.br/colunas/carlos-madeiro/

    Formado em jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas e com especialização em gestão de conteúdo em jornalismo pela Universidade Mackenzie, Carlos Madeiro atua há 20 anos e escreve para o UOL desde 2009, participando de grandes coberturas e fazendo reportagens e análises sobre o Nordeste e o Norte do Brasil.

    https://noticias.uol.com.br/colunas/carlos-madeiro/2022/07/03/com-mais-de-700-parques-eolicos-ne-sofre-com-danos-ambientais-silenciosos.htm

    Questões.

    1.Aponte os fatores naturais que determinam o grande potencial eólico da região nordeste.

    2. Quais são os pontos positivos ligados a produção de energia elétrica a partir da fonte eólica?

    3. Quais medidas podem reduzir a mortalidade de pássaros no uso desse tipo de fonte?

    4. Explique a importância da legislação ambiental no uso da fonte eólica.

    5. Como se produz energia eólica a partir do vento?

    Prof Luciano Mannarino

    #geoverdade

  • Sindicatos mantêm área plantada de coca sob controle na Bolívia

    CHAPARE, LA PAZ E YUNGAS (BOLÍVIA)

    Na parede, o emblema da folha de coca sobre o machado e o facão –eco do símbolo comunista da foice e do martelo– é o cartão de visitas da federação dos sindicatos de cocaleiros de Chimoré, no Chapare. No piso de cimento, milhares de folhas secam antes do ensaque. Até ali, o processo está dentro da lei, mas o destino final dificilmente será o consumo tradicional. A probabilidade maior é que vire pó.

    O cenário sugere descontrole, mas os números revelam o contrário. Há mais de uma década, quando um cocaleiro do Chapare chegou à presidência, a Bolívia adota uma estratégia nunca admitida oficialmente, mas que resultou na mais bem-sucedida experiência mundial de controle da produção de cocaína: a legalização do plantio destinado ao narcotráfico.

    A política foi comandada até há pouco por Evo Morales, que renunciou em outubro de 2019. Primeiro como líder dos produtores, ele enfrentou erradicações forçadas financiadas pelos EUA e tentativas frustradas de cultivos alternativos. Já presidente (2006-2019), expulsou a DEA (agência antidrogas norte-americana), delegou o controle dos cultivos aos sindicatos e elevou de 3.200 hectares para 7.700 hectares a área de coca permitida no Chapare, no centro do país.

    Elton Morán colhe folhas de coca em sua plantação próxima ao povoado de Huancané, na região dos Yungas – Lalo de Almeida/Folhapress

    Assim desmantelou-se a tutela norte-americana, baseada na erradicação agressiva dos plantios da Erythroxylum coca, cultivada nos Andes desde pelo menos 2.000 a.C. Foram mais de duas décadas de programas pouco eficientes de substituição de cultivos e de punições ao narcotráfico, estratégia que predomina nos outros dois países produtores do mundo, Colômbia e Peru.

    Do tripé, a Bolívia de Evo manteve a legislação com penas duras, sem legalização de consumo nem da maconha. Mas o discurso oficial passou a ser “coca sim, cocaína não”, com ênfase no uso tradicional presente em vários países sul-americanos, inclusive no Brasil –no noroeste amazônico, a folha é chamada de epadu.

    É fato que, além do crescimento populacional, a mastigação tradicional tem ganhado adeptos graças a novidades para melhorar o gosto amargo. A mais popular é a estévia, adoçante natural. Café e chocolate são outras opções.

    Mas o consumo tradicional está longe de absorver a produção. Números do próprio governo Evo indicam que mais de 90% da coca do Chapare não passa pelos dois mercados legais da folha, em Cochabamba e na capital, La Paz.

    Cocaleiros carregam sacos de folha de coca do lado de fora do mercado de Villa Fatima, na capital La Paz – Lalo de Almeida/Folhapress

    Esse desvio é de fácil constatação nas ruas, inclusive no Chapare, onde a coca vendida para a mastigação tradicional costuma ser trazida dos Yungas, região perto de La Paz onde a sagrada planta andina é cultivada há séculos.

    A folha de coca é um estimulante de potência média com alto poder nutritivo, fonte de calorias, proteínas, cálcio, ferro, vitamina A e outros nutrientes. Desde antes da invasão europeia faz parte da dieta de povos andinos e amazônicos.

    Já a cocaína, extraída da folha, foi isolada pela primeira vez em 1860, na Alemanha. Por décadas, foi usada legalmente na medicina e de forma recreativa, até passar a ser proibida em vários países, na primeira metade do século 20.

    A Bolívia é o principal fornecedor de cocaína do Brasil. Estudo de 2012 feito pela Polícia Federal revelou que 54,3% da cocaína que ingressa no país tem origem no Chapare ou nos Yungas. Em segundo lugar, aparece o Peru (38%).

    O Brasil é o segundo maior consumidor mundial de cloridrato de cocaína (pó), depois dos Estados Unidos, e provavelmente o maior consumidor de derivados de cocaína (como o crack), segundo relatório do Departamento de Estado dos EUA.

    Importante ponto de embarque para a Europa, o Brasil é o único país fronteiriço às três nações produtoras.

    A reportagem procurou a PF em Brasília sobre a entrada da cocaína boliviana, mas não obteve resposta.

    Diferentemente dos Yungas, o plantio intensivo da coca é recente no Chapare. O cultivo explodiu a partir dos anos 1980 por causa da demanda e da mão-de-obra disponível após a demissão e a migração em massa de mineiros do Altiplano, a maioria do povo quéchua. Atualmente, as federações representam cerca de 50 mil famílias.

    Cocaleira na trilha que dá acesso à sua plantação perto de Chimoré, na região do Chapare – Lalo de Almeida/Folhapress

    A legalização da coca no Chapare começou sob o governo Carlos Mesa, em 2004, após acordo com Morales. Desde então, uma família pode plantar no máximo um “cato”, correspondente a 1.600 m², ou duas quadras de futsal.

    O excedente está sujeito à “racionalização”. O controle de quem tem direito a um cato e de quem excedeu o limite é dos sindicatos e das federações. Cabe ao governo combater o cultivo em áreas não autorizadas, como parques nacionais e regiões fora do Chapare e dos Yungas.

    Não faltaram críticas ao que se fazia no Chapare, principalmente dos EUA. Opositores, como o ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga, previam que a coca financiaria um novo narcoestado, como ocorrera no início da década de 1980.

    Mas não foi o que ocorreu. Em 2008, quando Evo expulsou a DEA, a Bolívia tinha 25.400 hectares de coca. Onze anos depois, o país registrava superfície praticamente idêntica, 25.500 hectares.

    No mesmo período, a Colômbia, que adota uma linha dura e recebe ajuda média de US$ 400 milhões (mais de R$ 2,1 bilhões) por ano dos EUA, viu a área plantada saltar 90%, alcançando 154 mil hectares. É, de longe, o maior produtor de cocaína, seguida de Peru e Bolívia. Os números são da UNODC (Escritório da ONU contra Drogas e Crime).

    Plantações de coca nas montanhas da região dos Yungas – Lalo de Almeida/Folhapress

    Outra comparação favorável é o nível de violência. Na Bolívia, a taxa de homicídios é de 6 por 100 mil habitantes, uma das mais baixas da América Latina. Na Colômbia, a taxa chega a 25 por 100 mil habitantes, uma das mais altas da região. Já o Peru ocupa posição intermediária.

    “Não há cartéis [na Bolívia], como o de Cali ou de Sinaloa. Existem nexos com algumas organizações internacionais para transportar a droga, mas é uma delinquência boliviana, não tão agressiva como em outros países. E há um controle da polícia, das forças especiais”, diz o ex-diretor geral da Força Especial de Luta contra o Narcotráfico, general Luis Caballero, em La Paz, onde hoje é advogado.

    Em relatório do Departamento de Estado americano, a Bolívia e a Venezuela aparecem como os únicos países que “comprovadamente falharam” em cumprir obrigações internacionais de combate ao narcotráfico. Ao justificar a classificação, que gera sanções à Bolívia, o documento menciona o aumento da área legal de 12 mil hectares para 22 mil hectares, em 2017.

    A ampliação não tem respaldo técnico. Em 2013, levantamento financiado pela União Europeia concluiu que 14.700 hectares são suficientes para o consumo tradicional.

    “Claro que se trata de uma legalização ‘de facto’”, afirma o economista Roberto Laserna, que estuda a coca há mais de duas décadas. “Sabendo o destino dessa coca, foi permitido que ela seja produzida e comercializada. A ideia do governo era reprimir o narcotraficante e liberar o cocaleiro, mas obviamente há uma conexão direta entre ambos.

    Carregador leva sacos de folha de coca no mercado Villa Fatima, em La Paz – Lalo de Almeida/Folhapress

    Defensor da regularização da coca e da cocaína, o pesquisador do Ceres (Centro de Estudos da Realidade Econômica e Social), de Cochabamba, ressalva que o controle deveria ser incumbência do Estado. No Chapare, afirma, o resultado foi uma “republiqueta” controlada pelos sindicatos, em que camponeses têm pouco poder de decisão enquanto o narcotráfico cresce.

    “A solução ao problema da coca e da cocaína passa por alguma forma de legalização e regularização. E isso começa pelo controle da coca mediante permissões a produtores individuais. Isso é impossível de fazer agora pelo poder dos sindicatos, pela ausência do Estado e pela penetração que tem o narcotráfico nessa zona.”

    Com a experiência de quase 30 anos combatendo o tráfico em Cochabamba, o coronel da Polícia Nacional Rolando Raya afirma que, a partir do governo Evo Morales, a produção “se autodisciplinou”, enquanto o cato fez com que o dinheiro fosse compartilhado de forma homogênea.

    Polícia prepara queima de drogas apreendidas em montanhas no entorno de Cochabamba – Lalo de Almeida/Folhapress

    “Eles pensaram: ‘O que vai acontecer se produzirmos mais? Haverá intervenção. Então faremos uma política bem-sucedida. É legal ter o meu cato’. Ninguém cresceu mais do que tinha de crescer. É um narcotráfico disciplinado”, afirmou, em entrevista na sede do seu comando.

    Ex-integrante da FELCN, Raya afirma que, por outro lado, há maior penetração e pulverização do tráfico, que passou de grandes chefes para clãs familiares. “As fábricas [de cocaína] estão em toda a Bolívia”, diz o coronel, que vê uma crescente perda de controle territorial. “Se entramos, há morte. Nem o governo Morales conseguia entrar.”

    Posto policial depredado e abandonado em Villa Tunari, na região do Chapare, reduto eleitoral do ex-presidente Evo Morales – Lalo de Almeida/Folhapress

    Órfão aos 12 anos, Edgar Quispe migrou de Potosí ao Chapare nos anos 1980 para trabalhar nos cultivos de coca. Ele disse que, até o governo Gonzalo Sánchez de Lozada (2002-2003), o governo agia com violência para erradicar a coca. Já os cultivos alternativos, afirma, não funcionavam.

    “Não havia mercado. A única forma de sobreviver no trópico de Cochabamba era a coca”, conta Quispe durante encontro de mulheres cocaleiras em Chimoré, em um ginásio de esportes cercado de barro e apinhado de vendedores ambulantes de comida. Apesar do nome do evento, só homens discursaram no dia em que a reportagem lá esteve, antes da pandemia do coronavírus.

    Cocaleiros participam de congresso em um ginásio em Chimoré, na região do Chapare – Lalo de Almeida/Folhapress

    No passado, Quispe teve seu plantio erradicado à força. Sem alternativa, em 1992 migrou para a Argentina, onde ficou até 2001. Como resultado da repressão, explica Quispe, os cocaleiros começaram a formar o partido Movimento ao Socialismo, que passou a controlar as prefeituras do Chapare e, na eleição de 2005, levaria Evo ao poder. Com o ex-cocaleiro no poder, a dinâmica mudou. “Se há coca excedente, isso tem de ser anunciado, e a pessoa tem de permitir a entrada em seu sítio.”

    Hoje com 49 anos, ele cultiva coca legalmente. Com o dinheiro poupado na Argentina, comprou 25 hectares. A sua principal atividade é a criação de gado –tem 20 cabeças.

    Assim como outros cocaleiros, Quispe passou a viver em Chimoré, a 10 km de seu cato, cidade de comércio informal, casas simples e ruas de pavimentação mal-conservada.

    A renda da coca é razoável. Na federação, o saco da folha (23 kg) é comercializado por 1.200 bolivianos (R$ 730). Cada cato produz, em média, três sacos a cada três meses.

    Acima, sacos de folhas e abaixo, as folhas de coca no mercado de Chimoré, na região do Chapare – Lalo de Almeida/Folhapress

    A área dos plantios, antes acessível apenas após longas caminhadas, hoje está conectada por estradas de terra. Na região visitada pela Folha, o cocal ficava a cerca de 5 minutos a pé de uma via. Os cocaleiros trabalham ali durante o dia e à noite voltam à cidade.

    Para complementar a renda, os camponeses também trabalham para outros camponeses. Todo o plantio da coca é manual –o machado e o facão são usados para abrir a roça na floresta. Uma diária sai por 120 bolivianos (R$ 73).

    Ecoando o discurso de Evo, ninguém admite que a coca do Chapare vai principalmente para o narcotráfico. “Comercializamos nos nossos centros de armazenagem, despachamos à comercialização em nível departamental, em Cochabamba, e depois para o país. A coca é distribuída para o pijcheo [mastigação]”, afirma Leonardo Loza, um dos principais dirigentes do Chapare e filiado ao MAS.

    Leonardo Loza, lider cocaleiro, caminha por sua plantação de coca na zona rural de Chimoré – Lalo de Almeida/Folhapress

    A reportagem também visitou a região dos Yungas. Embora fique apenas a algumas dezenas de quilômetros de La Paz, a viagem é demorada devido às estradas precárias esculpidas nas serras que fazem a transição dos Andes para a Amazônia.

    Assim como no Chapare, não há sinais de riqueza ou de desigualdade. As casas, construídas sobre encostas íngremes, são simples, e os carros, velhos -a maioria circula sem placas, contrabandeados do Chile.

    Porém, ao contrário do Chapare, os principais líderes cocaleiros dos Yungas deixaram de apoiar Evo. Sempre latentes, as divergências se escancaram após a lei de 2017, que ampliou a área dos cultivos. A medida, afirmam os líderes, favoreceu o Chapare e legalizou produção que vai ao narcotráfico.

    Acima, cocaleira descansa no mercado Villa Fatima, em La Paz; abaixo, Pedro Antonio, filho de Elton Morán, descansa na sombra enquanto o pai trabalha na plantação – Lalo de Almeida/Folhapress

    Em meio ao rompimento com Evo, vários dirigentes acabaram presos, incluindo seu principal líder, Franklin Gutiérrez. Na recente crise política, ele apoiou os protestos que provocaram a queda do ex-presidente e depois se aproximou do governo interino. O país é governado pela direitista Jeanine Áñez. Por causa da pandemia, a nova eleição presidencial foi adiada de maio para setembro, depois para outubro.

    Entre os cocaleiros yunguenhos, no entanto, o ex-presidente guarda popularidade. É o caso de Elton Morán, 30. Morador do povoado de Huancané, ele aprendeu o ofício do pai e do avô.

    “A coca é a atividade que mais nos dá sustento”, diz o agricultor no meio do seu cocal. Ele começou a ajudar o pai com 12 anos e hoje divide a tarefa com a mulher, com quem tem dois filhos.

    “Evo Morales entrou quando eu estava no colégio. Meus pais se sentiam muito orgulhosos de que um camponês chegasse ao governo”, diz Morán, que aponta a substituição das paredes das casas do barro para o tijolo como uma das mudanças favoráveis do seu governo. “Muitos consideram que a sua entrada foi muito boa, e outros o rechaçam. Pessoalmente, vejo que foi bom. Daqui a cinco anos, já vamos saber quão bom foi Evo e também os que tanto o julgavam.”

    Mural com o rosto do ex-presidente Evo Morales em estrada no Chapare – Lalo de Almeida/Folhapress

    Coca, cocaína e Bolívia

    1859 O alemão Albert Niemann isola o alcaloide das folhas de coca, planta usada há séculos por indígenas. A descoberta é batizada de cocaína

    1862-1914 A cocaína passa a ser empregada em vários produtos, de anestésicos à primeira versão da Coca-Cola. O principal produtor é o Peru

    Décadas de 1910 e 1920 EUA e outros países passam a proibir a substância após descobertas de seu efeito nocivo. No Brasil, o veto é estabelecido via lei em 1921 -a primeira legislação do país sobre drogas.

    1961 Sob pressão norte-americana, a ONU aprova a Convenção Única Sobre Entorpecentes, que inclui a erradicação da planta de coca. Em 1973, sob ditadura militar, a Bolívia se compromete a acabar com o uso tradicional em 25 anos

    1971 O presidente americano Richard Nixon declara guerra às drogas. Ao longo da década, consumo de cocaína explode, e colombianos assumem o comando do tráfico

    1973 Nixon cria a DEA, agência antidrogas, com forte atuação na América do Sul

    1980 General García Meza assume o poder na Bolívia em golpe, em ação financiada pelo narcotráfico. Enquanto promove perseguição à esquerda, transforma o país em ditadura narcomilitar. Traficantes do país se aliam ao colombiano Pablo Escobar

    1988 Sob o presidente Victor Paz Estenssoro, a Bolívia é o único país a se opor à criminalização do uso tradicional da folha de coca em nova convenção da ONU. País estabelece limite de 12 mil hectares para plantio tradicional, mas endurece punição de pequenos infratores

    Década de 1990 Consumo de cocaína se espalha para outros países -incluindo o Brasil. Em 1993, Escobar é morto em Medellín. Na Bolívia, campanhas de erradicação forçada no Chapare enfrentam resistência dos cocaleiros, entre os quais Evo Morales

    2000 O presidente americano Bill Clinton aprova US$ 1,3 bilhão em ajuda à Colômbia

    2004 Após negociar com Morales, o presidente Carlos Mesa limita a produção a 1.600 m² por família no Chapare

    2006 Morales assume a presidência, mas mantém liderança das seis federações cocaleiras do Chapare

    2006-12 No México, presidente Felipe Calderón emprega dezenas de milhares de militares contra os cartéis que usam o país para levar cocaína aos EUA. Número de homicídios explode

    2013 Bolívia obtém vitória simbólica na ONU ao conseguir licença especial para o uso tradicional da coca

    2017 Morales amplia de 12 mil ha para 22 mil ha a área para plantio de coca, favorecendo principalmente Chapare. Líderes dos Yungas, área de cultivo ancestral, criticam mudança

    2019 ONU registra a maior produção de cocaína da história, de 1.976 toneladas em 2017. Explosão é puxada pela Colômbia

    2019 Morales renuncia à presidência em meio à crise política por sua insistência em se candidatar a um quarto mandato

    https://arte.folha.uol.com.br/mundo/2020/estado-alterado-as-politicas-para-drogas-pelo-mundo/bolivia/controle-da-area-cultivada/