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  • UM MUNDO DE MUROS (QUÊNIA E SOMÁLIA)

    Na fronteira dos desprovidos, quem foge da fome se depara com o terror

    Cerca erguida entre dois dos países mais pobres do mundo para tentar frear o terrorismo barra famílias assombradas por seca, doenças e um Estado falido

    PATRICIA CAMPOS MELLO E LALO DE ALMEIDA

    10.jul.2017 – 02h00

    Noor Addow, 45, suas duas esposas e dez filhos andaram durante 17 dias. Fugindo da seca, da fome, do terrorismo e da epidemia de cólera na Somália, levavam apenas a roupa do corpo. As crianças, algumas descalças, outras com chinelos, tinham os pés cobertos de bolhas e de feridas.

    Toda vez que passavam por um vilarejo, paravam na mesquita e mendigavam comida. Quando a água de suas vasilhas acabava, enganavam a sede chupando raízes que achavam no caminho. À noite, dormiam no mato, com medo dos leões e das hienas.

    No 14º dia, Fatma, 19, a esposa mais nova de Noor, entrou em trabalho de parto.

    Estava muito fraca. No vilarejo onde viviam na Somália, primeiro a represa secou, depois a plantação de milho morreu e, por fim, foram-se as cabras. Havia muitos meses que ninguém comia direito.

    Fatma deu à luz embaixo de uma árvore. Eram gêmeos. Osman morreu no meio da noite, nos braços do pai. Khadija morreu de manhã, no colo da mãe. Não tiveram tempo para chorar.

    “Precisamos continuar andando, senão vamos perder mais filhos”, disse Noor.

    Barwago, uma das esposas de Noor Addow, segura a filha Salado, 2, em Dadaab, no Quênia –o maior campo de refugiados do mundo (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Caminharam mais três dias e chegaram a Dadaab, no Quênia – o maior campo de refugiados do mundo, onde vivem 250 mil pessoas, na maioria somalis.

    Os Addow não sabiam, mas não eram bem-vindos.

    Um ano antes, o governo do Quênia anunciara que fecharia Dadaab. Segundo o presidente, Uhuru Kenyatta, o campo tinha se transformado em um viveiro de terroristas do Al Shabaab – uma facção extremista islâmica ligada à Al Qaeda– e de lá haviam saído os extremistas que mataram 147 pessoas no ataque à universidade de Garissa, em 2 de abril de 2015.

    O governo passou a fazer repatriação voluntária dos refugiados, apesar da seca, do cólera e da milícia terrorista ainda estar em boa parte do território somali. Mais ou menos na mesma época, o Quênia deixou de dar status de refugiados aos somalis que cruzam a fronteira. “Anteriormente, eles recebiam automaticamente o status de refugiados, todo mundo sabia que não havia paz na Somália e que eles não vinham para cá a turismo”, diz Jean Bosco Rushatsi, chefe de operações do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) nos campos de Dadaab.

    “Depois da decisão do governo de fechar os campos, ninguém mais recebeu esse status.”

    Sem isso, os somalis não têm mais perspectiva de, um dia, serem reassentados em um país rico como Canadá, Austrália ou Estados Unidos.

    E o pior: por não serem considerados refugiados, os somalis que chegaram em Dadaab nos últimos dois anos não recebem o pacote de assentamento, que inclui um terreno e materiais para construírem suas barracas.

    Nem ganham o “ration card”, o vale-ração que dá direito a uma porção quinzenal de cereais, farinha, óleo, açúcar, sal e uma quantia para compra de vegetais e frutas.

    Sem a ração quinzenal, a família de Noor tem sobrevivido à base de folhas fervidas desde que chegou, há pouco mais de um mês. Todos os dias a filha mais velha recolhe as folhas no mato e ferve com água numa panela até que virem uma papa verde viscosa.

    “É salgadinho, o gosto não é ruim”, diz Abay, a filha de 20 anos.

    Quando chegou a Dadaab, Noor achou ter tirado a sorte grande. Ele encontrou um terreno com duas tendas cujos ocupantes acabavam de ser repatriados para a Somália.

    Acima, a somali Subam Ali (de azul), 36, segura criança próximo à sua tenda em Dadaab, no Quênia; abaixo, vista aérea do maior campo de refugiados do mundo

    Acima, a somali Subam Ali (de azul), 36, segura criança próximo à sua tenda em Dadaab, no Quênia; abaixo, vista aérea do maior campo de refugiados do mundo (Lalo de Almeida/Folhapress)

    A família de dez se dividiu nas manyattas improvisadas, cujas paredes eram feitas com galhos secos de acácia, amarrados uns nos outros com tiras de saco de lixo, cobertas por lona doada por organizações humanitárias e papelão.

    O mobiliário se restringia à esteira no chão. Dentro das tendas, morava um enxame inimaginável de moscas. No canto, ficava uma latrina construída por uma ONG.

    Ao redor do terreno, uma cerca feita com galhos secos de acácia, cheios de espinhos, e uma infinidade de roupas velhas e trapos enroscados. As roupas velhas funcionam como espantalhos para proteger as casas das hienas. Sorrateiros, os animais rondam durante a noite e matam os bodes. Às vezes, matam os bebês.

    Noor ficou feliz com a moradia herdada, mas logo descobriu que não teria direito ao vale-ração. Por um mês, a família viveu de alimentos doados por vizinhos e folhas fervidas. A maioria dos somalis é muçulmana e segue à risca os ensinamentos de Maomé de ajuda aos pobres.

    Vista aérea de cerca que está sendo construída pelo governo queniano na fronteira com a Somália; até agora, pouco mais de 5 km foram finalizados (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Até que ele recebeu um token -um jeito que o Acnur achou de dar ao menos um pouco de comida às famílias mais necessitadas que não tinham o status de refugiados.

    Noor se preparava, animado, para acordar às 4h e esperar na fila quilométrica para os armazéns mantidos pelo Programa Mundial de Alimentação. Sairia de lá com um pouco de feijão e milho.

    Apesar de tudo isso, Dadaab ainda é melhor que a Somália para os Addow.

    “Aqui ao menos tem água”, dizia Habiba, a filha de 13 anos, empurrando um carrinho de mão com algumas vasilhas. Eles também têm acesso a assistência médica. Salado, a filha de dois anos, está com malária e acabara de voltar do hospital. A menina franzina tem braços finos e barriga protuberante, marcas da desnutrição crônica.

    Crianças posam para foto no vilarejo BP1, próximo à cidade queniana de Mandera, que faz fronteira com a Somália e onde está sendo construída cerca (Lalo de Almeida/Folhapress)

    No Quênia, os refugiados não têm autorização para trabalhar, nem para sair dos campos. Vivem de bicos.

    “Minha mulher passou o dia lavando roupa para fora e ganhou um saco de arroz. Não faço nada senão esperar pelo food token”, diz Noor.

    Ele diz que gostaria muito de ir para a “América”, onde há muitos somalis. Informado de que o atual presidente americano, Donald Trump, tem dificultado a entrada de refugiados, franze a testa. “Não sabia disso não.”

    Noor tampouco sabia que o governo queniano está fechando os campos de refugiados. “A gente acabou de chegar. Se nos mandarem voltar para a Somália, não sei o que faremos. Somos pastores e agricultores, não podemos voltar para o mato seco.”

    Desde 2014, o Quênia fez a repatriação voluntária de 75 mil somalis que estavam em Dadaab. Dois dos cinco campos do complexo já fecharam.

    Segundo a ONU, 6,2 milhões de pessoas na Somália precisam de ajuda humanitária atualmente. Isso corresponde a quase a metade da população. Na última grande fome, em 2011, morreram 260 mil pessoas de inanição. Muitas estão em perigo novamente.

    “Eles vão fechar os campos e mandar as pessoas de volta para um país onde não existe nem atendimento médico nem escola, e há uma epidemia de cólera”, diz Liesbeth Aelbrecht, chefe da missão dos Médicos sem Fronteiras no Quênia.

    A vida dos refugiados vai ficar pior ainda.

    O governo queniano está construindo uma cerca de 700 km na fronteira com a Somália para restringir a entrada dos somalis. O objetivo é frear atentados terroristas da milícia islâmica Al Shabaab.

    A funcionária pública queniana Saadia Kullow, 29, festeja a construção da cerca. Ela mora em Mandera, cidade de 150 mil habitantes que fica na tríplice fronteira entre Quênia, Etiópia e Somália.

    A funcionária pública queniana Saadia Kullow (à dir.), 29, ao lado da filha Asia, 6; elas moram em Mandera, na tríplice fronteira entre Quênia, Etiópia e Somália (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Mandera vive sob estado de sítio há meses por causa dos ataques do Al Shabaab. Vigora um toque de recolher das 19h às 06h —quem sai na rua nesse horário é preso.

    Estrangeiros são proibidos de entrar na cidade por causa da falta de segurança.

    Representantes do governo e visitantes só andam acompanhados de carros com seguranças armados com metralhadoras. O último atentado foi no fim de maio. Uma bomba contra o comboio de carros onde estava o governador do condado matou cinco seguranças.

    Saadia, que mora em Mandera desde que nasceu, já testemunhou cinco atentados. No último, jogaram bombas a poucos metros da casa dela. Até hoje, toda vez que passa um caminhão na rua ou há algum barulho mais alto, seu filho de dois anos e meio acorda gritando: “Mamãe, mamãe, bomba!”

    Crianças se refrescam no vilarejo BP1, que fica próximo a Mandera, cidade queniana que faz fronteira com a Etiópia e Somália (Lalo de Almeida/Folhapress)

    “Sempre tem tensão, nunca sabemos quando eles vão atacar. Mas eles vão. Por isso vai ser ótimo esse muro.”

    Hoje, a fronteira é porosa, e os traficantes de armas, contrabandistas de açúcar e extremistas se aproveitam.

    Centenas de pessoas cruzam da Somália para o Quênia todos os dias para trabalhar, ver parentes, buscar pastos mais verdes para os animais. Se dão azar de encontrar um policial no caminho, os somalis sabem que basta pagar propina de uns 50 xelins quenianos (cerca de R$ 1,65) para passar.

    As obras da cerca começaram em 2014, mas, por ora apenas 5,3 km foram construídos.

    Mesmo isso já atrapalha.

    No povoado de BP1 (de Border Point 1, por ser o primeiro ponto desta que é uma das mais voláteis fronteiras do mundo), os pastores de cabras não podem mais atravessar facilmente para a Somália em busca de pastos verdes, cada vez mais raros.

    A maioria das crianças somalis estuda no Quênia, porque não há muitas escolas funcionando na Somália. Antes, bastava cruzar a fronteira. Agora, elas precisam andar 12 quilômetros na ida e 12 na volta para contornar a cerca e chegar à escola.

    “Esta fronteira é artificial, nossa comunidade é uma só: mesma língua, mesmo povo, mesma religião”, diz o chefe da aldeia BP1, Mohammad Salat. No norte do Quênia, a população é etnicamente somali e é muçulmana, ao contrário da maioria dos quenianos, que é cristã. Até 1925, essa área era parte da região somali de Jubaland.

    Segundo Fredrick Shisia, comissário do condado de Mandera, o propósito da cerca não é dividir somalis e quenianos, é evitar a entrada de terroristas. O Al Shabaab costuma atacar cristãos e funcionários do governo, soldados ou policiais quenianos.

    Tropas do Quênia estão na Somália desde 2011 combatendo o Al Shabaab.

    Shisia admite que a cerca dificultará a entrada dos refugiados somalis. “Mas a Somália está bem mais estável, estamos incentivando os somalis a voltarem para casa, pois ninguém reconstruirá o país se eles não voltarem.”

    Abay, 20, filha de Noor Adow, recolhe folhas e cozinha em frente à sua tenda no campo de refugiados de Dadaab, no Quênia (Lalo de Almeida/Folhapress)

    E, de qualquer forma, “esse número enorme de refugiados é um fardo para nossa economia”, diz o comissário. “Se para a Europa é difícil, imagine para a gente?”

    Diferentemente da Europa e dos Estados Unidos, onde os governos também ergueram muros para estancar o fluxo de refugiados, o Quênia não é um país rico.

    A Somália tem a menor renda per capita do mundo: US$ 400, ou cerca de R$ 1.300, por ano.

    No Quênia, a renda é mais de oito vezes a dos somalis. Ainda assim, o país fica em 185º de 230 países. Seus US$ 3.400 anuais por pessoa correspondem a 25% da renda anual per capita brasileira.

    Soldado do exército queniano observa área que faz fronteira com a Somália; cerca separa os dois países (Lalo de Almeida/Folhapress)

    No condado de Mandera, a taxa de analfabetismo é de 75%. Não existe estrada asfaltada. Mais de metade das crianças está desnutrida. Há apenas um médico para cada 114 mil habitantes.

    “Em vez de criticar o fechamento dos campos e a construção da cerca, a comunidade internacional deveria entender que Dadaab se transformou num covil de terroristas”, diz Harun Kamal, vice-comissário do condado de Garissa, onde fica Dadaab. ” Os países ricos deveriam se oferecer para receber 5 ou 10 mil refugiados somalis.

    https://arte.folha.uol.com.br/mundo/2017/um-mundo-de-muros/quenia/pobreza/

    Questões

    Analise os fatores que levam as famílias somalis a se deslocarem para campos de refugiados como Dadaab no Quênia. Qual é a relação entre os fatores ambientais, sociais e políticos nesse contexto?

    Discorra sobre o impacto da construção de cercas e muros nas fronteiras de países em desenvolvimento como o Quênia. Como essas barreiras influenciam a vida dos refugiados e a dinâmica entre segurança e direitos humanos?

    Avalie a situação dos refugiados somalis em Dadaab à luz dos direitos humanos. Como a falta de reconhecimento de seu status como refugiados afeta sua qualidade de vida e suas perspectivas futuras?

    Considerando a crise de refugiados abordada no texto, discuta o papel da comunidade internacional. O que poderia ser feito para ajudar países como o Quênia a lidar com o influxo de refugiados de forma mais humanitária?

    Refletindo sobre a questão dos “muros” mencionada no texto, discuta como a construção de barreiras físicas nas fronteiras reflete as tensões políticas e sociais globais em torno da imigração e do refúgio.

    Explique como as questões ambientais, como a seca e a falta de recursos, podem desencadear crises humanitárias. Como isso se reflete na situação da Somália e de seus refugiados?

    Descreva os desafios enfrentados pelas famílias somalis que chegam aos campos de refugiados. Como essas experiências podem influenciar a percepção global sobre a crise dos refugiados?

    O texto menciona que muitos refugiados somalis esperam um dia ser reassentados em países mais ricos. Discuta as dificuldades e as realidades desse processo de reassentamento em um cenário global de crescentes restrições à imigração.

    Analise o papel das organizações humanitárias em situações como a dos refugiados somalis no Quênia. Quais são os principais desafios que essas organizações enfrentam ao prestar assistência a essas populações?

    Discuta as implicações sociais e econômicas da presença de campos de refugiados como Dadaab em países como o Quênia. Como essa situação afeta a relação entre os refugiados e a população local?

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    Prof Luciano Mannarino

  • UM MUNDO DE MUROS (BRASIL)

    À beira da estrada, a pobreza se esconde e o crime prospera

    Milhões passam diante da Vila Esperança, seus desempregados e seu esgoto aberto, mas, graças à gestora da rodovia dos Imigrantes, não a veem.

    24.jul.2017 – 02h00

    Duas vezes por semana, a dentista Mariana Salgado, 39, passa de carro ao lado do muro de concreto que foi construído na altura do quilômetro 58,5 da rodovia dos Imigrantes, em Cubatão (SP). Quando ela está se aproximando, fica nervosa, acha que alguém vai aparecer de repente, com uma arma na mão. “Não faço a menor ideia do que tem atrás desse muro”, diz a dentista, que mora em Santos e atende em São Paulo às terças e quintas-feiras. “Só sei que duas amigas minhas foram assaltadas aí.”

    Assim como Mariana, centenas de milhares de paulistas de classe média descem para o litoral pela Imigrantes, onde o pedágio é de R$ 25,60, e não sabem o que existe atrás daquele muro de 3 metros de altura, 25 centímetros de espessura e 1 quilômetro de extensão, construído pela Ecovias em maio de 2016.

    O muro separa os turistas dos cerca de 25 mil habitantes de Vila Esperança, favela onde 12% da população não tem nenhuma renda, 14% ganham até um salário mínimo, e todos despejam seu esgoto no rio que deságua nas praias frequentadas pelos paulistas de classe média.

    Só nesse trecho de um quilômetro, houve sete assaltos em 2015, um assalto e um latrocínio em 2016 e um assalto e uma tentativa em 2017, diz a polícia rodoviária. Segundo a Ecovias, o objetivo do muro é “melhorar as condições de segurança pública da rodovia”.

    Crianças brincam em Kombi abandonada debaixo de viaduto da rodovia dos Imigrantes na comunidade de Vila Esperança, em Cubatão (Lalo de Almeida/Folhapress)

    O trecho também recebeu reforço na iluminação, e foram instaladas novas câmeras para utilização pela polícia. A favela é controlada pelo tráfico de drogas. O murou pegou os moradores de Vila Esperança de surpresa. De um dia para o outro, começou a construção. Ninguém avisou.

    “Esse muro aí, é para proteger os turistas, né? Mas e a gente? Era por lá que a gente passava para vender na pista”, diz a potiguar Luzia Gonçalves da Silva, 54. Para ela, a barreira só atrapalhou. Luzia vendia água, refrigerante, biscoito de polvilho e salgadinho sabor bacon na pista. Da janela de casa, via a estrada -se estivesse congestionada, ela comemorava.

    Enchia o isopor de mercadorias e ajeitava no carrinho de mão. Chegou a virar noite vendendo na pista, em engarrafamento de Ano Novo. Luzia foi obrigada a desistir do trabalho de ambulante. Por causa do muro, o caminho até a estrada ficou mais longo, e ela não aguenta puxar o carrinho pesado na lama. De qualquer jeito, nem adianta chegar lá, porque o guarda manda voltar.

    Abriu então o Bar da Sofrência embaixo do viaduto no bairro e vende a dose de pinga a R$ 2 e a de conhaque a R$ 2,50. “Mas o movimento está fraco. Quem vai comprar se ninguém tem emprego e os bêbados só pedem fiado?”

    Luzia migrou do Rio Grande do Norte para Cubatão aos 13 anos, no auge do “milagre econômico” da ditadura militar. Naquela época, várias indústrias se instalavam na cidade. Ela foi trabalhar na feira em Vila Parisi, bairro de baixa renda que ficou conhecido como o coração do Vale da Morte depois que 37 crianças nasceram sem cérebro, por causa da alta concentração de poluição.

    Sebastião Ribeiro, chamado de Zumbi, batizou de “muro da vergonha” a barreira de concreto construída pela Ecovias. “Quando não sabem o que fazer, constroem um muro e acham que resolveram o problema”, diz.

    “São mais de 20 mil moradores pagando pelo que uns poucos fizeram.”

    Vila Esperança nasceu em 1972, com o início da construção da rodovia dos Imigrantes. Parte dos operários que trabalhavam nas obras da estrada construiu seus barracos ou palafitas no mangue, que é área de proteção ambiental.

    Zumbi veio do Maranhão em 1980 e se instalou em um barraco com a mãe e seis irmãos. Nos anos 90, com a crise econômica, a população da favela explodiu porque muita gente no polo industrial perdeu o emprego e acabou na invasão.

    O maranhense, que hoje tem 47 anos, cresceu vendendo água mineral e cocada na Imigrantes com a mãe. Formou-se em Direito aos 44 e hoje é o principal líder comunitário de Vila Esperança, além de ser secretário de assistência Social de Cubatão. Fundou uma ONG que troca material de reciclagem por uma moeda chamada “mangue”, que pode ser usada na lojinha da organização e em estabelecimentos locais.

    Segundo Zumbi, a comunidade também tem seu muro do orgulho, que foi construído pela ALL Logística (atualmente Rumo) para separar a ferrovia da favela e, assim, evitar acidentes.

    Quando duplicou a estrada de ferro, a Rumo se comprometeu com algumas medidas compensatórias para conseguir a licença ambiental. Asfaltou a via principal, construiu passarelas, reformou a ONG e equipou uma sala de informática com 18 computadores. Além disso, o muro de 3,5 quilômetros vai sendo aos poucos grafitado por moradores de Vila Esperança, que aprendem com o grafiteiro Tuim, de uma favela próxima.

    “Qualquer obra cria transtorno para a população, por isso fizemos uma aproximação com a comunidade e identificamos projetos existentes para mitigar impactos da duplicação da ferrovia”, diz Silvia Mari Azuma, coordenadora de licenciamento ambiental da Rumo.

    A Ecovias diz que sua responsabilidade se limita à ampliação, conservação, manutenção e operação das rodovias. “Assuntos relacionados à comunidade são de responsabilidade do poder público”, afirma a empresa. De fato, segundo a Artesp, agência regulatória de transporte do Estado, a construção do muro não exigia licença ambiental, portanto não houve medidas de compensação.

    Isso não amansa os críticos. “Em pleno século 21, construíram um muro de apartheid para isolar os pobres”, diz o prefeito de Cubatão, Ademário Oliveira. “Deviam ter investido o dinheiro em moradia, água e saneamento na comunidade.” A Ecovias gastou R$ 14,4 milhões com o muro e as outras medidas de segurança.

    Moradores da Vila Esperança, em Cubatão, fazem grafite em muro que separa a comunidade de linhas do trem (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Para a vasta maioria da população que não tem nenhuma esperança de sair da Vila, o muro não faz diferença. “Não tenho nem o que falar sobre esse muro aí, para mim tanto faz como tanto fez”, diz Carlos Alexandre Vieira de Lima, o Xambito, 23.

    Às 15h de uma segunda-feira, o campinho de futebol sob o viaduto de Vila Esperança está lotado de jovens descalços disputando o clássico Dois Poste contra Santa Cruz. Ninguém tem emprego. Xambito é um deles. “Antes tinha bico de pedreiro, R$ 60 reais o dia mais o rango, e na feira era R$ 50 no sábado, R$ 50 no domingo e trazia uns legumes. Agora não tem nada.”

    A mãe de Xambito é viciada em crack. Ficou três anos presa depois de tentar assassinar o marido alcoólatra colocando chumbinho (veneno de rato) no café dele. A irmã de Xambito também é viciada em crack e se prostitui. O pai dele matou um homem, está preso e não vê Xambito há mais de 15 anos.

    “Minha mãe nunca trabalhou; pedra, cachaça e pó acabaram com a vida dela. Quando eu falo com ela não sai mais nenhuma lágrima, entreguei na mão de Deus”, diz ele. “Se a senhora visse, a pele da minha mãe está meio branca, meio preta, aconteceu alguma coisa, está feia demais a minha mãe, a pedra acaba com a pessoa.”

    Gato ao lado de palafita construída sobre mangue na comunidade de Vila Esperança, em Cubatão (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Xambito precisa pagar pensão para seu filho de três anos, mas não quer voltar para a “vida errada”, como diz. “Eu tinha uns 16 anos quando entrei na vida louca. Quando a gente arrumava um trabalho, saía, aí quando nós estávamos na “precisão” de um dinheiro, entrava de novo na vida errada”, conta.

    “Essa vida errada aí, biqueira [ponto de vendas de drogas], tráfico, só tem dois caminhos: cadeia ou morte; não quero nenhum desses dois, quero ver meu filho crescer, botar ele pra jogar bola, pra estudar”, diz Xambito, que anda pela favela com uma caixinha de som tocando o sertanejo Felipe Araújo. Ele está correndo atrás de um “serviço fichado” (registrado). Já foi várias vezes aos pátios das fábricas em Cubatão, mas diz que aparecem dez vagas para 500 pessoas. “Só com ajuda de Deus para ser chamado, é muita gente desempregada.”

    Na Vila, apenas 24% dos moradores concluíram o ensino médio. Xambito parou no quinto ano e já tentou voltar a estudar várias vezes. “É preciso ter força, né, porque chega dois meses, três meses, fica cansativo; começo a fumar maconha, fico boladão e volto para casa.”

    Fumar, jogar bola e tomar emprestado o wi-fi do barraco vizinho para entrar no WhatsApp e no Facebook –é esse o dia a dia de Xambito e da maioria de seus amigos em Vila Esperança. “Queria mudar minha vida, está difícil pra caramba.” Ele já tentou a religião. “Já fiquei dois, três meses indo à igreja, louvava tremendamente, mas somos falhos, né, parei de ir e entrei de novo nas paradas.”

    Na comunidade de Vila Esperança, operários que trabalhavam nas obras da rodovia dos Imigrantes construíram barracos ou palafitas sobre o mangue (Lalo de Almeida/Folhapress)

    No lado pobre do muro, oportunidade é coisa rara. “A gente acorda e fica pensando, caramba, e agora, como eu vou arrumar dinheiro, eu vou roubar? O que eu vou fazer? Eu penso nisso, em roubar, não posso falar que não penso. Mas sei que, se fizer isso, posso voltar ou não voltar pra casa.”

    Xambito diz que não quer sucumbir à vida errada. Mas a tentação é grande. “Na vida errada, a gente sai com um dinheirinho legal, mano.” No dia 27 de maio de 2016, o estudante Reinaldo Lima de Souza, 17, morreu na altura do quilômetro 59 da Imigrantes. Durante uma tentativa de roubo, Reinaldo foi atingido por uma pedra no rosto que atravessou o para-brisa do carro onde ele estava.

    O muro de concreto de três metros de altura construído pela Ecovias já estava lá, isolando Vila Esperança.

    http://arte.folha.uol.com.br/mundo/2017/um-mundo-de-muros/brasil/excluidos/

     

     

    Questões

     

    1. Quais foram as principais características do muro construído pela Ecovias na Rodovia dos Imigrantes e qual foi o objetivo oficial declarado pela empresa para a sua construção?

    2. De que maneira a construção do muro afetou a economia informal dos moradores de Vila Esperança?

    3. O muro realmente contribuiu para a redução da criminalidade na região? Justifique sua resposta com base nas informações do texto.

    4. Como a construção do muro pode ser interpretada como uma forma de segregação social? Cite exemplos do texto.

    5. Segundo o texto, qual é a posição da Ecovias em relação às responsabilidades sociais e ambientais? Como isso reflete nas ações da empresa?

    6. Quais são os problemas ambientais enfrentados pela comunidade de Vila Esperança, conforme mencionado no texto?

    7. Como a falta de consulta à comunidade local durante a construção do muro impactou os moradores de Vila Esperança?

    8. De que forma os moradores de Vila Esperança utilizam o grafite como forma de resistência e expressão cultural?

    9. Considerando os impactos descritos no texto, quais medidas poderiam ser adotadas para promover um desenvolvimento mais sustentável e inclusivo na região?

    10. Compare a situação de Vila Esperança com outro caso de construção de barreiras urbanas no Brasil ou no mundo. Quais semelhanças e diferenças você identifica?

     

    Prof. Luciano Mannarino

    UM MUNDO DE MUROS (EUA E MÉXICO)

    UM MUNDO DE MUROS (CISJORDÂNIA E ISRAEL)

  • UM MUNDO DE MUROS (CISJORDÂNIA E ISRAEL)

    Barreira construída para trazer segurança aparta vidas e memórias

    Concreto que serpenteia por terras palestinas freou homens-bomba, mas afastou prospecto de paz

    DIOGO BERCITO E LALO DE ALMEIDA

    4.set.2017 – 02h00

    Umm Judah, 64, se esqueceu de muitas coisas. Entre elas, a palavra que moldou os anos mais recentes de sua vida: “muro”.

    Professora aposentada, a palestina vive nas cercanias de Belém diante de uma barreira de concreto de oito metros de altura.

    É esse o horizonte à sua porta, que a separa da terra que cultivou por décadas e das lembranças dos filhos iluminados pelos faróis e satisfeitos com os figos recém-colhidos.

    “É como uma venda”, diz à Folha. “Como se nos arrancassem os olhos.”

    Durante a entrevista, ela aponta a construção mais de uma vez por não se lembrar de como chamá-la, mesmo em seu árabe nativo.

    A professora aposentada palestina Umm Judah, 64, que vive diante de um muro de oito metros de altura; barreira a separa da terra que cultivou por décadas

    A professora aposentada palestina Umm Judah, 64, que vive diante de um muro de oito metros de altura; barreira a separa da terra que cultivou por décadas (Lalo de Almeida/Folhapress)

     

     

    O muro diante de sua casa é um trecho da barreira de 764 quilômetros que Israel ergue desde 2002 para se separar dos territórios palestinos da Cisjordânia, onde estão cidades como Belém e Ramallah. A maior parte é cerca, e o concreto é usado nas áreas urbanas. Faltam os últimos 194 quilômetros da construção.

    A barreira tem impacto brutal nas vidas de pessoas como Umm Judah. Mas israelenses de diferentes orientações políticas concordam, por outro lado, que existia a necessidade urgente de erguê-la.

    As memórias da Segunda Intifada ainda estão frescas. Cerca de 3.000 palestinos e 1.000 israelenses morreram entre 2000 e 2005 durante o levante palestino contra a ocupação israelense. Os palestinos enviavam homens-bomba; os israelenses revidavam com tanques.

    Muro erguido por Israel desde 2002 para se separar dos territórios palestinos da Cisjordânia; dos 764 quilômetros planejados para a barreira, 570 estão prontos (Lalo de Almeida/Folhapress) 

    O israelense Ury Vainsecher, 71, se recorda bem. Ele já vivia em Kfar Saba, cidade a um quilômetro do muro, no caminho para a palestina Qalqilya.

    “Quando meus filhos eram menores, eu os levava a todos os lugares de carro. Tinha medo de que tomassem o ônibus”, diz. “Entre eu ser vítima de uma explosão e uma palestina viver rodeada por muro, prefiro vê-la cercada.”

    Vainsecher perdeu um amigo em um atentado. O filho de um vizinho morreu em outro ataque, e um conhecido que estava em uma pizzaria de Jerusalém alvo dos terroristas, também.

    O trecho da barreira diante da casa de Umm Judah é um dos mais recentes.

    Um ano atrás, a palestina caminhava dois ou três minutos até seu pomar para passar o dia sob as oliveiras enrolando folhas de uva. Hoje ela precisa dirigir por 40 minutos para alcançar o outro lado.

    “Mas o muro ajudou os israelenses. Estão relaxados.”

    Judeus diante de muro próximos ao Túmulo de Raquel em Belém, na Cisjordânia, local considerado sagrado pela religião judaica (Lalo de Almeida/Folhapress) 

    A fricção causada pela barreira na vida de palestinos como Umm Judah envenena a possibilidade de haver paz entre os dois povos em breve.

    O projeto foi questionado desde a concepção por figuras como Yossi Beilin, arquiteto dos Acordos de Oslo (as negociações de 1993 que levaram à divisão da Cisjordânia em diferentes áreas de controle).

    Se não tivessem sido interrompidos pelo assassinato do premiê israelense Yitzhak Rabin por um ultranacionalista em 1995, tais acordos poderiam ter encerrado o conflito.

    “Era claro que os palestinos seriam humilhados pela construção do muro”, diz Beilin, em Tel Aviv.

    “Mas não foi feito por malícia, e houve esforços para que eles não sofressem, ainda que esses esforços não tenham sido suficientes”, afirma, citando uma série de apelos às cortes israelenses –seis deles com sucesso– para mudar a rota da barreira.

    Muros, diz Beilin, “não são fotogênicos”.

    Grafites e pichações no muro da Cisjordânia; entre as figuras retratadas há o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e forças policiais

    Grafites e pichações no muro da Cisjordânia; entre as figuras retratadas há o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e forças policiais (Lalo de Almeida/Folhapress)

     

    “São muito difíceis de explicar. A barreira virou um símbolo de como colocamos os palestinos em uma prisão. É a vida deles, e eles se perguntam por que têm que pagar esse preço.” Não apenas por terem sido separados da terra que cultivavam, mas também porque a sua liberdade de ir e vir foi drasticamente reduzida.

    Folha acompanhou a passagem de trabalhadores palestinos rumo a Israel em dois postos de controle militar, em Belém e em Ramallah.

    Às 5h, a fila já transbordava dos corredores metálicos que lembram um curral, os ratos passando pelo chão imundo. Ansiosos, alguns trabalhadores escalavam as grades e formavam uma fila paralela no alto, como equilibristas distópicos.

    O ritual é cotidiano para milhares. “Tornamos a vida de muitos palestinos terrível”, afirma Beilin. “Mas reduzimos o número de mortes, e é difícil dizer que isso tenha sido errado.”

    Trabalhadores palestinos em fila para atravessar posto de controle israelense em Belém, na Cisjordânia; alguns escalam as grades, formando uma fila paralela no ar (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Não é errado, do ponto de vista legal, que um país construa muros em seus limites.

    Mas a divisão entre Israel e os territórios palestinos não é uma fronteira convencional porque, afinal, não existe um Estado palestino. A divisa costuma ser a chamada Linha Verde, que marca as fronteiras anteriores a 1967, ano da Guerra dos Seis Dias, quando Israel tomou a Cisjordânia.

    Vem daí mais uma complicação desta história, vivida diariamente por Umm Judah: de cada 6,5 quilômetros da barreira, 5,5 foram construídos dentro da Cisjordânia e, portanto, fora da fronteira. Em alguns trechos, o muro está 18 quilômetros distante de onde teoricamente deveria serpentear.

    A explicação de um tenente-coronel do Exército israelense que não pôde se identificar é a de que o trajeto foi adaptado às necessidades de segurança. Em algumas ocasiões o muro precisava passar em cima de uma colina, e não embaixo, por exemplo.

     

    “Nossa experiência nos tribunais é sempre a mesma”, afirma a advogada palestina Dalia Qumsiyeh, que representa Umm Judah.

    “O governo israelense usa a palavra mágica, ‘segurança’, e aprova assim os seus planos”, diz. “Mas, antes de falar em segurança, pensem na senhora que não consegue entrar em sua terra.”

    Ou no palestino Hani Amer, 60, que vive na região noroeste da Cisjordânia, sobre a linha em que o governo israelense queria ter construído o muro.

    Ele se recusou a deixar sua casa, a barreira a contornou, e ele foi cercado em seu terreno de 1.000 m² pelo concreto, o arame farpado e pelas cercas de segurança.

    O palestino Hani Amer, 60, abre portão para entrar em sua propriedade no povoado de Masha, na Cisjordânia; ele se recusou a deixar sua casa e a barreira a contornou (Lalo de Almeida/Folhapress)

     

     

    A poucos passos dali, está o assentamento israelense de Elkana, razão para as preocupações.

    “Disseram que ou eu saía daqui ou ficaria isolado. Quis ficar, a despeito de todas as dificuldades, porque é a minha casa”, diz, sentado em um balanço no jardim. À sua frente, está o muro.

    Por algum tempo, Amer precisou pedir que os soldados israelenses abrissem o portão da sua propriedade toda vez que queria sair.

    “Receber visitas era um inferno. Uma punição coletiva.” Com a pressão de organizações humanitárias, o agricultor teve uma pequena vitória: recebeu a chave para uma portinhola no muro, pela qual hoje passa.

    Ao receber a Folha em sua casa, Amer se agacha atrás de um carro, para que a polícia israelense não o veja –ele teme ser punido por receber a imprensa e falar de sua vida. Poderiam, por exemplo, lhe tirar a chave da portinhola.

     

    “Tive tantos problemas que já nem consigo me lembrar de todos”, diz, antes de relatar alguns.

    Quando seu filho de três anos engatinhou por baixo da cerca, por exemplo, a mãe não teve permissão para cruzar a barreira e buscá-lo. A criança foi encontrada do outro lado e trazida de volta.

    “Eu fui até os soldados e lhes disse: Vocês não são humanos. Vocês viram meu filho e não fizeram nada.”

    Ao ser lembrado que Israel ergueu o muro para garantir a segurança do país, Amer diz que “o que garante a segurança é a justiça”. “Quando você distingue entre dois irmãos, não tem segurança. Imagine entre dois povos.”

    A barreira rompeu em diversas regiões do país o contato, ainda que limitado, que havia entre palestinos e israelenses.

    Barricadas em um rua compartilhada por árabes e judeus em Hebron, na Cisjordânia; abaixo e à esquerda, abrigo anti-terrorismo no povoado israelense de Tzur Yigal, em Israel

    Barricadas em um rua compartilhada por árabes e judeus em Hebron, na Cisjordânia; abaixo e à esquerda, abrigo anti-terrorismo no povoado israelense de Tzur Yigal, em Israel (Lalo de Almeida/Folhapress)

     

    Amer vive próximo de Qalqilya, onde israelenses costumavam fazer compras antes da Segunda Intifada.

    O local é próximo também de Tzur Yigal, onde vive o israelense-uruguaio Eran Landau, 64. “Minha casa foi erguida por uma família palestina”, diz. “Tenho amigos do outro lado, apesar de ter lutado contra eles”, afirma.

    “O muro nos inquieta, mas ou você cuida da sua família, ou não. Quero viver bem, e quero que minha filha viva bem. Se ela puder ir para a discoteca sem riscos, não me importo com o que dizem.”

    Landau é membro de uma força-tarefa voluntária para a segurança de Tzur Yigal, e guarda armas, um capacete e uma máscara de gás dentro de uma sala à prova de explosões. “Tenho um fuzil M16 para viajar. Poderiam me atacar a qualquer momento com um coquetel molotov.”

    Policiais israelenses patrulham bairro árabe na Cidade Antiga de Jerusalem, em Jerusalém Oriental (Lalo de Almeida/Folhapress)
     

    O recém-eleito prefeito de Belém, Anton Salman, discorda da avaliação. “Não acho que seja questão de segurança. É confisco de terra”, diz diante do muro que divide sua cidade. Ele perdeu parte de suas propriedades, isoladas do outro lado da barreira.

    Os desvios em relação à Linha Verde engoliram 9,4% da Cisjordânia, um processo monitorado pelo israelense Dror Etkes, diretor da ONG Kerem Navot. “Fiscalizamos como Israel toma terras na Cisjordânia para dar aos colonos israelenses”, diz –os colonos são os israelenses que vivem dentro da Cisjordânia.

    “A barreira foi construída para permitir que os assentamentos crescessem. Há uma correlação entre a presença de colonos e da barreira.”

    Para o ex-soldado israelense Avner Gvaryahu, 32, é preciso entender a barreira como parte de um sistema mais amplo, que envolve o projeto dos assentamentos. “O governo quer minimizar o número de palestinos aqui.”

    Crianças palestinas jogam pedra e insultam soldados israelenses que estão do outro lado de muro em Ramallah, na Cisjordânia (Lalo de Almeida/Folhapress)
     

    Gvaryahu é o líder da organização Breaking the Silence, que compila testemunhos de soldados israelenses sobre a violência da ocupação da Cisjordânia. Ele foi paraquedista, período durante o qual recebia ordens diretas de colonos.

    “O objetivo do sistema é proteger os israelenses, mas ninguém protege os palestinos”, diz Gvaryahu. “Nunca haverá uma sensação real de segurança até que os palestinos tenham respeito e dignidade.”

    Ao redor dos muros e cercas, há zonas-tampão às quais o acesso de palestinos é restrito por razões de segurança.

    “Em algumas áreas entre barreiras é possível ver como surgiu uma nova vida selvagem”, diz Etkes, e aponta para um grupo de veados, que cruzam diante do carro da reportagem e se esgueiram por debaixo do arame farpado rumo à terra de que agora são na prática os donos.

    Palestina acompanhada da filha pede esmola na fila de posto de controle em Qalandia, na Cisjordânia (Lalo de Almeida/Folhapress)
     

    Umm Judah teme que esse seja o futuro de seu pomar, do outro lado do muro, caso o governo israelense decida que ela já não pode mais cruzar o controle militar. “Sinto como se tivesse perdido alguém da minha família. Roubaram a minha felicidade”, ela afirma, e chora.

    Depois, sobe em uma rua do vilarejo, alta o suficiente para enxergar por cima do muro. Vê seu pomar inacessível –damascos, pêssegos, peras, alecrim– e lamenta: “Vou morrer aqui”.

     

    http://arte.folha.uol.com.br/mundo/2017/um-mundo-de-muros/israel/conflito-ancestral/

     

    Prof Luciano Mannarino

     

  • UM MUNDO DE MUROS (SÉRVIA E HUNGRIA)

    Na porta da Europa, tentar entrar é ciclo de perpétua incerteza

    Política anti-imigrantes de premiê húngaro deixa no limbo, no mato e na neve milhares de retirantes e refugiados vindos da África, Ásia e Oriente Médio

    PATRICIA CAMPOS MELLO E LALO DE ALMEIDA

    07.ago.2017 – 02h00

    Duas cercas paralelas, de quatro metros de altura, estendem-se ao longo dos 175 quilômetros de fronteira entre a Sérvia e a Hungria para impedir a entrada de refugiados e migrantes.

    A primeira é uma cerca simples de arame farpado, construída em setembro de 2015. A segunda, uma barreira de alta tecnologia, ficou pronta em março deste ano. É equipada com sensores elétricos que dão choques leves em quem tenta passar e avisam aos guardas a localização exata do intruso.

    Tem câmeras com visão noturna e sensores térmicos que detectam a aproximação de pessoas. E alto-falantes que advertem em três línguas, inglês, árabe e farsi : “Alerta, você está na fronteira da Hungria, que é propriedade do governo húngaro; se você danificar a cerca, cruzar ilegalmente ou tentar atravessar, estará cometendo um crime”.

    Cercas paralelas que estendem-se ao longo dos 175 quilômetros de fronteira entre a Sérvia e a Hungria para impedir a entrada de refugiados e migrantes (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Apesar da parafernália, milhares de sírios, afegãos, paquistaneses e iraquianos não desistem do que batizaram de “the game”, o jogo –a tentativa de cruzar ilegalmente a fronteira em busca de uma vida melhor na União Europeia.

    Durante semanas, os migrantes ficam escondidos em grupos de dez a 30 pessoas no mato, em locais chamados de “the jungle”, a selva, esperando a hora de cruzar. Quando o traficante de pessoas liga de madrugada, os grupos correm para a fronteira.

    A tática é se dividir: 30 pessoas entram de um lado, 20 de outro. A polícia não consegue pegar todos de uma vez e alguns conseguem entrar.

    A primeira cerca foi construída pelo nacionalista Viktor Orban, o primeiro-ministro da Hungria, no pico da crise dos refugiados. Na época, uma multidão de mais de mil pessoas por dia tentava entrar na Hungria. O número caiu muito, mas ainda há 50 pessoas tentando atravessar diariamente de forma ilegal.

    O paquistanês Rana Muzzafar Sabir, 28, já tentou cruzar 11 vezes da Sérvia para a Hungria. Na última, há um mês, policiais húngaros o pegaram já dentro do território da Hungria e o espancaram. Chutaram seu olho e quebraram seu nariz, ele conta. Depois, o deportaram para a Sérvia. Ele não foi para o hospital porque tem medo de a polícia aparecer.

    Os Médicos sem Fronteiras (MSF) atenderam 106 pessoas vítimas de violência da polícia de fronteira húngara de janeiro de 2016 a fevereiro de 2017. Na maioria dos casos, os migrantes tinham marcas de espancamentos, mordidas de cachorro e tiveram ossos quebrados. No inverno, refugiados relatam que os policiais despejavam água fria em suas roupas e os deixavam por horas na neve, a temperaturas abaixo de -10 °C.

    Sabir saiu de sua casa, em Lahore, há oito meses. Passou por Irã, Turquia, Bulgária e Sérvia. “Estou cansado, mas continuo determinado”, diz Sabir, da “selva” onde se esconde, nos arredores de Subotica, na Sérvia. Ele e mais dez paquistaneses acampam no local, onde há muito lixo espalhado, cobertores no chão e uma barraca.

    Refugiado paquistanês fala ao celular em vagão abandonado na cidade de Subotica, na Sérvia, próximo da fronteira com a Hungria
    Acima, Rana Sabir (o segundo da esq. para a dir.) e outros refugiados paquistaneses preparam refeição com alimentos doados por uma ONG em acampamento escondido chamado de

    Acima, Rana Sabir (o segundo da esq. para a dir.) e outros refugiados paquistaneses preparam refeição com alimentos doados por uma ONG em acampamento escondido chamado de “jungle” (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Numa grade de jipe que virou grelha, os refugiados assam pão chiapati e cozinham frango ao curry com mantimentos trazidos por uma ONG. Carregam os celulares em postos de gasolina e vivem à base de energéticos.

    Muitos deles aprenderam o pouco de inglês que sabem no caminho, assistindo a vídeos no YouTube e ouvindo música no celular.

    Para despistar, a cada noite eles dormem em um lugar diferente, muitas vezes dentro de vagões abandonados de trem. Voltam para “a selva” para cozinhar e esperar o chamado do coiote, que cobra 2.500 euros (R$ 9.200) pela travessia da Sérvia até a Áustria, através da Hungria.

    Normalmente, só pagam se conseguirem chegar, mas alguns traficantes pedem uma “entrada” não reembolsável.

    ”Às vezes fico muito deprimido, não me acostumo com essa vida”, diz Sabir, que tem um MBA em finanças e trabalhava como contador na Pepsi em Lahore. Ele deixou o Paquistão porque começou a ser perseguido pelo grupo terrorista Lashkar-e-Taiba. “E quando cheguei aqui chamavam a gente de terrorista.”

    O afegão Hameedullah Suleiman, 18, já tentou cruzar seis vezes. Aluno exemplar, cursava faculdade de engenharia aeronáutica no Paquistão com bolsa de estudos, mas os pais exigiram que retornasse para seu vilarejo no sul do Afeganistão.

    “Se voltasse, teria que parar de estudar para trabalhar com meus irmãos na terra, sem falar no Taleban, que matou muita gente que conheço”, diz ele, que vive na “selva” há um mês. ”Às vezes penso: o que está acontecendo com a minha vida?”

    Suleiman quer ir para Londres, onde mora um tio seu.

     

    Existem cerca de 6.000 refugiados encalhados na Sérvia, esperando para entrar na União Europeia.

    Muitos vivem nos campos de refugiados e estão em listas de espera para entrar na Hungria, onde terão o pedido de refúgio analisado. Mas a espera pode levar dois anos, e muitos jamais conseguirão refúgio. Então, tentam cruzar ilegalmente.

    No campo de Obrenovac, no subúrbio de Belgrado, vivem 950 homens solteiros, sendo 250 menores de idade.

    Segundo Mirjana Ivanovic-Milenkovski, porta-voz do Acnur, a agência de refugiados da ONU, na Sérvia, 1 em cada 4 refugiados hoje na Sérvia é menor de idade, muitas vezes desacompanhado.

    Em Obrenovac, passam o tempo jogando críquete ou navegando na internet em seus celulares. Usam o campo de dormitório. Depois de uns dias lá voltam para a “selva”, para tentar cruzar para Croácia ou Hungria.

    Imigrantes em campos de refugiados na Sérvia esperam para entrar na Hungria, onde seus pedidos de refúgio são analisados (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Em 2015, passaram mais de 400 mil migrantes pela Hungria, a porta para a UE, em seu caminho para países como Alemanha e Suécia, mais amigáveis a refugiados.

    Após a construção da cerca, o aumento do patrulhamento nas águas turcas e o acordo entre UE e Turquia para remanejar ao país euroasiático os que chegassem à Grécia, assinado em março de 2016, o número despencou.

    No entanto, muitos refugiados ficaram encalhados em campos na Grécia (mais de 60 mil) e na Sérvia (mais de 6.000).

    Boa parte dos sírios e iraquianos que vieram naquela época conseguiram ser acolhidos como refugiados pela UE.

    Sobraram cidadãos de países que têm mais dificuldade em receber esse status, como Paquistão, Bangladesh e Afeganistão, e os poucos que continuam a chegar.

    “A maioria não tem nenhuma perspectiva de entrar legalmente; a lista de espera tem milhares de pessoas, mas a Hungria só está admitindo oito por dia para a área de trânsito, enquanto têm seus processos analisados. Mesmo assim, após examinarem o processo, a maioria não conseguirá refúgio”, diz Stephane Moissaing, chefe da missão do MSF na Sérvia.

    “Nós todos sabemos que isso não é uma crise de refugiados. Dos que estão vindo, 95% são migrantes econômicos, não são perseguidos, mas querem uma vida melhor”, diz Zoltan Kovacs, porta-voz do primeiro-ministro húngaro Viktor Orban.

    À esquerda, policial húngaro que está sendo preparado para trabalhar na área que divide Sérvia e Hungria; à direita, o afegão Hameedullah Suleiman, 18, que já tentou cruzar a fronteira seis vezes

    À esquerda, policial húngaro que está sendo preparado para trabalhar na área que divide Sérvia e Hungria; à direita, o afegão Hameedullah Suleiman, 18, que já tentou cruzar a fronteira seis vezes (Lalo de Almeida/Folhapress)

    “Todos querem o estilo de vida europeu, e as fronteiras abertas passam a mensagem de que é isso possível; a Europa não pode assumir a responsabilidade por todos.”

    Para Robert Molnar, prefeito da cidade fronteiriça de Kubhekhaza, que se opõe a Orban, argumentar que a Hungria não deve receber migrantes econômicos é egoísta.

    “Cerca de 10% da população húngara é imigrante econômica, saiu do país em busca de oportunidades –então esses húngaros têm o direito de buscar uma vida melhor e os migrantes que vêm para cá fazer o mesmo não têm?”, diz.

    Desde 2012, Orban, que chama os migrantes de “cavalo de Tróia do terrorismo”, vem implementando uma política anti-imigração. O governo lançou uma campanha com outdoors em que se lia: “Se você vier para a Hungria, não tome os empregos dos húngaros” e “Se você vier para a Hungria, você precisa respeitar nossa cultura”.

    Policiais húngaros que estão sendo treinados para trabalhar na fronteira entre Sérvia e Hungria fazem exercícios

    Policiais húngaros que estão sendo treinados para trabalhar na fronteira entre Sérvia e Hungria fazem exercícios (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Orban baixou leis autorizando o confinamento em centros de detenção dos refugiados que estão com processo em análise. Os centros são contêineres cercados por arame farpado onde refugiados vivem por meses, e foram criticados pelo Acnur e pela UE.

    Além disso, Orban criou uma divisão policial chamada Caçadores de Fronteiras e quer recrutar 3.000 pessoas.

    A cerca teve grande apoio da população. Imre Csonka, agricultor em Horgos, na fronteira com a Sérvia, lembra-se do dia em que milhares de refugiados e migrantes pisaram em sua plantação de crisântemos, em 2015.

    “Eles destruíram todo meu trabalho”, diz. “A cerca era necessária, a polícia sozinha não estava dando conta de deter toda essa gente”, afirma Csonka enquanto passa o trator em suas terras, a poucos metros da cerca.

     Segundo o governo húngaro, o gasto com a cerca, policiamento, áreas de trânsito e campanhas soma 1 bilhão de euros.

    “A Hungria não deveria receber um só migrante”, diz o caminhoneiro Attila Szegedi, 45, que fazia parte de uma milícia privada de defesa das fronteiras. “O Islã é incompatível com a nossa cultura”, diz.

    Para ele, a cerca foi uma boa medida, mas o governo não é duro o suficiente nas punições contra aqueles que entram ilegalmente no país.

    “Queremos que as pessoas vejam o que tem ocorrido na Alemanha, na França e na Suécia por causa dos migrantes, há uma onda de crimes, violência contra mulheres”, diz.

    “Não negamos que existam problemas de segurança, mas o governo exagera e assusta as pessoas”, diz o sociólogo Mark Kékesi, fundador da ONG Migration Aid (ajuda à migração), em Szeged.

    “A legitimidade do governo de Orban depende disso, o pensamento do eleitor é: ‘eles podem ser corruptos, mas defendem nosso país dessas pessoas que querem roubar nossos empregos e estuprar nossas filhas’.”

    Para o ativista Tibor Varga, 61, da Eastern Europe Outreach, a crise da migração é complexa e não será resolvida apenas com cercas.

    “Pense na seguinte situação: você acolhe em sua casa uma família sem teto de dez pessoas. Como você foi boa e os ajudou, eles chamam outras duas famílias com dez pessoas cada e pedem que você também as acolha”, diz ele, que trabalha há sete anos com refugiados na Sérvia.

    “O que você vai fazer? Você tem capacidade para ajudar todo esse pessoal? Não existem respostas simples.”

    Imigrante lê em campo de refugiados na Sérvia enquanto espera por chance para entrar na Hungria (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Alguns dias depois do encontro com a Folha na “selva”, o paquistanês Sabir tentou cruzar a fronteira pela 12ª vez e foi bem sucedido.

    Ele andou durante quatro dias para atravessar a Hungria, sem comer nada, só bebendo água. Foi se orientando pelo GPS no celular, mas, quando acabou a bateria, trocou o Google Maps pelo instinto. Está agora em um campo de refugiados na Áustria. De lá, vai para a França, onde quer morar.

    O afegão Hameed também cruzou alguns dias após o encontro com a reportagem, mas foi pego por policiais húngaros. Deportado, voltou para um campo de refugiados em Belgrado e pretende tentar cruzar em breve. Desta vez, pela Croácia.

    http://arte.folha.uol.com.br/mundo/2017/um-mundo-de-muros/servia/persistencia/

     

     

    UM MUNDO DE MUROS (EUA E MÉXICO)

    UM MUNDO DE MUROS (QUÊNIA E SOMÁLIA)

    UM MUNDO DE MUROS (CISJORDÂNIA E ISRAEL)

     

  • Berlim congela aluguéis por 5 anos para tentar frear gentrificação

    Cidade busca impedir que pessoas mais pobres tenham de deixar bairros com alta procura

    Melissa Eddy
    BERLIM | THE NEW YORK TIMES

    Os preços dos aluguéis de mais de 1,5 milhão de apartamentos em Berlim serão congelados ou reduzidos por cinco anos, graças a uma nova legislação que visa frear uma alta recente dos aluguéis que vem expulsando moradores mais velhos ou de renda mais baixa.

    Aprovada por legisladores na quinta-feira (30/1) e prevista para entrar em vigor em março, a medida é uma tentativa do governo de esquerda berlinense de barrar o processo de  gentrificação de uma cidade que ficou famosa por seu cenário criativo, mas está sentindo a pressão de investidores imobiliários e de projetos de infraestrutura.

    Bonecos e cartazes de protesto contra a alta do preço dos aluguéis em Berlim – Hannibal Hanschke – 23.fev.2019/Reuters

    “Criamos um instrumento que vai sustar o movimento ascendente absurdo dos preços pelos próximos cinco anos”, anunciou Katrin Lompscher, senadora responsável pelo desenvolvimento e vida urbana de Berlim, em coletiva de imprensa na sexta-feira. “Cabe aos políticos criar as condições básicas para permitir que pessoas de renda mais baixa e de classe média continuem a poder viver em Berlim.”

    Viver em imóvel alugado é mais comum na Alemanha do que em casa própria; mais de metade dos habitantes do país aluga o imóvel em que vive. Apenas 18% dos 3 milhões de habitantes de Berlim têm casa ou apartamento próprio.

    A nova lei não permite que a maioria dos aluguéis na cidade custe mais do que em 2019 e limita o valor que pode ser cobrado, com base na condição do imóvel e suas instalações.

    Críticos da medida dizem que ela vai dificultar o crescimento muito necessário do mercado imobiliário e afastar empresas dispostas a construir unidades habitacionais de custo acessível numa cidade que, conhecida nos anos 1990 por seu cenário “pobre, mas sexy” de festas e clubes, desde então tornou-se uma capital europeia que passa por transformações velozes.

    Empresários do setor imobiliário e membros do partido conservador da chanceler Angela Merkel ameaçaram contestar a lei. Segundo eles, a medida viola a constituição alemã, que estipula que os aluguéis são determinados pelo governo federal.

    “O teto imposto aos aluguéis equivale a uma desapropriação. É uma catástrofe para o mercado imobiliário berlinense”, disse Jürgen Michael Schick, presidente da Associação Imobiliária da Alemanha. Desde que a medida que impõe um teto aos aluguéis foi proposta pela prefeitura de Berlim, no ano passado, a entidade vem avisando sobre seus potenciais efeitos negativos.

    “Limitar e reduzir a receita obtida de aluguéis vai gerar incerteza para investidores e desencorajar os investimentos no setor”, disse Schick.

    Para Lompscher, o objetivo não é sustar o crescimento do parque habitacional, mas reduzir a pressão financeira sobre os inquilinos enquanto empreendedores imobiliários e autoridades municipais facilitam a construção de mais unidades habitacionais. Berlim, capital da Alemanha, tem planos para construir mais de 60 mil apartamentos adicionais nos próximos anos, disse a senadora, muitos dos quais serão imóveis de preço mais acessível.

    Após a queda do Muro de Berlim, em 1989, a cidade reunificada se viu com um excedente de apartamentos, muitos dos quais de propriedade do estado. Em um esforço para gerar recursos urgentemente necessários para custear a reunificação de Berlim oriental e ocidental, muitos imóveis foram privatizados.

    Investidores imobiliários estrangeiros não demoraram a entender o potencial de crescimento que havia em Berlim – onde os aluguéis ainda custam significativamente menos que em Londres, Paris ou Roma— e começaram a comprar e reformar apartamentos. Também começaram a cobrar aluguéis mais altos.
    Ao mesmo tempo a população de Berlim continuou a crescer. Entre 2012 e 2017 a cidade ganhou 250 mil habitantes a mais, segundo cifras oficiais.

    Esse conjunto de fatores levou a uma alta nos preços dos aluguéis, especialmente nos bairros mais procurados. Em 2017, Berlim foi a única grande cidade do mundo em que os preços dos imóveis subiram mais de 20% em relação ao ano anterior, e os aluguéis acompanharam essa alta.

    “Três milhões de inquilinos em Berlim vão se beneficiar da medida”, disse Iris Spranger, porta-voz para assuntos habitacionais em Berlim do SPD, um dos partidos governistas que aprovou a lei.

    “Após uma fase prolongada de aumentos galopantes, os aluguéis agora serão congelados”, ela disse. “É mais do que necessário.”

     

    Tradução de Clara Allain.

     

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/02/berlim-congela-alugueis-por-5-anos-para-tentar-frear-gentrificacao.shtml

     

    Questões
    1) Como ocorre o processo de gentrificação?
    2) É possível apontar em sua cidade esse processo ocorrendo? Exemplifique.
    3) A reportagem cita um evento que foi determinante para que a cidade de Berlim
    tornasse uma “capital européia”. Explique.
    4) Segundo a reportagem, a gentrificação em porções da Cidade de Berlim descortina
    uma questão política. Justifique.
    5) A gentrificação desconstrói o espírito  de um lugar.  Analise a afirmativa.
    Prof. Luciano Mannarino