Camada de ozônio não é um dos tópicos ambientais mais comentados hoje em dia, mas isso não significa que ela tenha sido esquecida ou que esteja tudo bem, pelo contrário. Cientistas ainda se esforçam para dimensionar o prejuízo provocado pela ação humana.
Dois artigos publicados nesta quarta (10) na revista Nature, inclusive, apontam o declínio na produção de moléculas responsáveis pela destruição da camada de ozônio, como o triclorofluorometano, também conhecido como CFC-11, usado no processo de fabricação de espumas.
Apenas entre 2018 e 2019, a redução nas emissões foi de 18 mil toneladas, o que representava 26% do total. A medida, feita por meio da análise de gases da atmosfera, foi aferida em locais remotos, distantes de grandes centros poluidores.
A conclusão do trabalho, comandado por cientistas da Noaa (agência americana responsável pelo monitoramento atmosférico e oceânico) e de outras instituições, é que o rápido declínio só foi possível porque deve haver uma grande produção de CFC-11 não reportada e consequente emissão desses gases.
A esperança é que, se mantido o declínio das emissões, e a produção irregular não aumentar, a agressão à camada de ozônio pode estacionar, favorecendo sua regeneração.
Uma outra análise, publicada na mesma edição mostra uma redução importante na produção do CFC-11 na porção leste da China. O estudo contou com medidas feitas na própria China, no Japão e na Coreia do Sul, além de análise da dinâmica atmosférica do continente asiático.
A diminuição foi de cerca de 10 mil toneladas ao ano, entre 2014 e 2017, chegando a 5.000 toneladas em 2019. Essa redução equivale a 60% do declínio nas emissões globais dos poluentes no mesmo período. Apesar da estimativa de ainda existir um grande banco de CFC-11, ou seja, gás aprisionado em dutos e espumas, ainda não liberado para a atmosfera, os autores atribuem a melhora nas emissões às políticas do governo chinês e às ações da indústria do país. Desse trabalho participaram cientistas da Coreia do Sul, Reino Unido, Japão, Suíça, China, EUA e Austrália.
Quanto ao impacto da destruição da camada de ozônio nas diversas formas de vida que habitam a Terra —a humana, inclusive —, o professor da USP Carlos Menck foi em uma expedição para a Antártida no final de 2017 para estudar como a perda da camada atinge o DNA. Só recentemente os resultados foram publicados na revista Photochemistry and Photobiology.
O experimento consistia em expor uma espécie de cápsula gelatinosa contendo DNA ao sol no continente gelado, enquanto outra cápsula, a controle, era protegida com uma folha de papel alumínio. Esse gel é chamado de “dosímetro de lesões de DNA” e permite que experimentos aconteçam fora do laboratório.
Pode parecer simples, mas houve desafios no processo, além do clima gelado.
O buraco na camada de ozônio na Antártida no ano 2000 – Nasa
Um deles foram as skuas, aves migratórias que costumam passear nos arredores da Estação Antártica Comandante Ferraz, a base brasileira no continente. “São como galinhas grandes, mas elas voam”, diz Menck. E o problema é que elas tentaram roubar o material dos experimentos do cientista. “Tentei pregar com fita crepe numa pedra, mas não se passaram nem 15 minutos e lá estava a skua de novo.”
Aconselhado por um colega, bolou uma engenhoca: adaptou o dosímetro em cima de um rodo que encontrou dando sopa na base brasileira. Fincou o cabo na neve e usou a parte de baixo como suporte.
Oficialmente, no artigo científico, trata-se de um “tilted support”, ou suporte angulado, que até facilitou a tarefa, já que para acompanhar o sol bastava girar o aparato.
O ozônio é um gás altamente instável, formado por três átomos de oxigênio (o oxigênio molecular, que respiramos, é composto de dois átomos) localizado principalmente na estratosfera, numa altitude de cerca de 15 km ou maior.
Esse ozônio forma uma espécie de nuvem dispersa, que tem por característica evitar a incidência de raios ultravioleta, especialmente do tipo C, os mais intensos, e também do B na superfície terrestre. Curiosamente, se aglutinados, esses átomos formariam uma camada de apenas cerca de 3 mm (ou 300 DU, unidades Dobson), o que revela a tal fragilidade.
(Também existe ozônio na troposfera, a camada da atmosfera na qual estamos imersos, mas aí ela está associada principalmente à poluição nas grandes cidades, e causa prejuízos à saúde.
Durante a primavera antártica, a camada de ozônio pode chegar ao que seria equivalente a menos de 1 mm (100 DU). Quando o valor está abaixo de 220 UD (o equivalente a 2,2 mm), já se considera que há um buraco. E quem fica abaixo do buraco pode sofrer com a severidade da radiação solar.
“Mesmo sem o buraco, havia uma irradiação muito forte. E nossos experimentos já mostraram uma correlação entre a espessura da camada de ozônio e lesões no DNA, especialmente pela ação de ultravioleta do tipo B [que deixa de ser bloqueado pela camada]”, conta Menck.
Lesões e mutações no DNA estão entre os principais fatores para a ocorrência de cânceres. Em última análise, a vida terrestre poderia ser extinta sem a proteção fornecida pela camada de ozônio.
Em 20 de setembro de 2020, o buraco chegou ao tamanho de 25 milhões de quilômetros quadrados, quase o dobro da área de todo o continente antártico e maior até mesmo que a área da Rússia, o maior país em extensão territorial, segundo dados da Nasa.
Desde as negociações que levaram os países a assinar o Protocolo de Montreal, no final da década de 1980, foram reduzidas as emissões dos chamados CFCs (clorofluorcarbonos), gases usando em aplicações como refrigeração e em aerossóis e que aceleram a degradação do ozônio, e a camada estratosférica se estabilizou.
A expectativa é que, se tudo der certo, a recuperação aos níveis anteriores a 1980 demore entre 60 a 100 anos, relata Paulo Artaxo, professor da USP e estudioso da física atmosférica.
Desde meados da década passada, porém, houve uma desaceleração do progresso por causa de uma emissão remanescente de gases que destroem a camada de ozônio. Segundo pesquisadores do MIT e das Universidades de Sussex e do Estado do Colorado defendem em artigo publicado em 2020 na revista Nature Communications, apesar do sucesso obtido até então, é hora de atualizar as políticas de proteção à camada de ozônio, e não mais nos vangloriarmos de uma conquista do século passado.
Forças israelenses e grupo islâmico ignoram apelos internacionais e mantêm piores confrontos em anos
13.mai.2021 às 9h32
Atualizado: 13.mai.2021 às 12h01
GAZA e JERUSALÉM | AFP e REUTERS
Tropas israelenses se concentraram na fronteira de Gaza nesta quinta-feira (13), e militantes do grupo islâmico Hamas mantiveram disparos de foguetes contra Israel, em conflitos que causam preocupação internacional e acirram hostilidades entre judeus e a minoria árabe em várias cidades do país.
No total, ao menos 90 pessoas morreram desde segunda-feira (10) —83 em Gaza, incluindo 17 crianças, segundo o Ministério da Saúde local, e 7 em Israel, de acordo com autoridades médicas israelenses— e mais de 500 ficaram feridas.
“Estamos em uma situação de emergência, e agora é necessário reforçar massivamente as forças no terreno”, afirmou o ministro da Defesa israelense, Benny Gantz, ao anunciar a convocação de oficiais militares da reserva para reforçar a segurança e o deslocamento de tropas que normalmente estão locadas na fronteira com a Cisjordânia para a região de Gaza.
O porta-voz do braço armado do Hamas, Abu Ubaida, respondeu ao agrupamento das tropas em tom de desafio, pedindo aos palestinos que se levantassem.”Juntem-se como quiserem, do mar, da terra e do céu. Nós nos preparamos para tipos de mortes que fariam vocês amaldiçoarem a si mesmos”, disse.
Soldados israelenses assumem posição em região próxima à fronteira com a Faixa de Gaza – Menahem Kahana – 13.mai.21/AFP
De acordo com as Forças Armadas de Israel, as operações militares do país estão focadas em atingir membros do alto escalão do Hamas. Nesta quarta, a ofensiva matou ao menos 16 líderes de inteligência e membros da ala militar da facção. As baixas, no entanto, foram consideradas pelo Hamas como martírios e servirão de “combustível para nosso projeto de libertar nossa terra”.
Diversas lideranças mundiais pediram o fim da escalada de violência, temendo uma guerra aberta entre os dois lados. Os pedidos desacompanhados de ações práticas, porém, não surtiram efeito sobre o maior pico de hostilidades desde 2014.
Em novos ataques aéreos contra Gaza, Israel atingiu um prédio residencial de seis andares que, segundo os militares israelenses, pertence ao Hamas. O grupo islâmico, que comanda a Faixa de Gaza desde 2007, é considerado uma facção terrorista por EUA, União Europeia e, claro, Israel.
“Estamos enfrentando Israel e a Covid-19. Estamos entre dois inimigos”, disse Asad Karam, 20, um trabalhador da construção civil à agência de notícias Reuters, referindo-se à sobrecarga dos hospitais em Gaza devido às centenas de feridos que agora dividem espaço com os contaminados pelo coronavírus.
Autoridades de saúde de Gaza disseram ainda que estão analisando amostras para investigar a morte de várias pessoas durante a noite desta quarta-feira (12) devido a uma suposta inalação de gás venenoso, mas que não chegaram a uma conclusão.
O Hamas já lançou cerca de 1.600 foguetes contra cidades israelenses, de acordo com os militares de Israel, que dizem ter bombardeado Gaza em mais de 600 ocasiões desde segunda-feira. A maior parte dos foguetes do Hamas tem sido interceptada pelos sistemas de defesas antimísseis, que forçam a detonação dos projéteis inimigos a quilômetros de altitude, muitas vezes ainda em território palestino. Um foguete, entretanto, atingiu um prédio perto de Tel Aviv, segunda maior cidade e capital econômica de Israel, e feriu cinco pessoas.
Principalmente na região sul do país, os moradores tiveram que voltar a conviver com as sirenes que alertam sobre os perigos dos disparos inimigos e iniciam uma corrida para os abrigos antiaéreos públicos e os espaços de paredes reforçadas mantidos por grande parte da população para situações como essa.
Cidades israelenses como Haifa, Jafa e Lod —que ordenou, nesta quinta, toque de recolher das 20h às 3h— também têm sido palco de manifestações da população árabe em apoio à causa palestina. Sinagogas foram atacadas e conflitos eclodiram nas ruas de algumas comunidades, levando prefeitos locais e até o presidente de Israel a alertar sobre o perigo de uma guerra civil.
“Há uma ruptura entre árabes e judeus, e há um preço a pagar”, disse o renomado pesquisador e professor israelense Elie Rekhess, da Universidade Northwestern, no estado americano de Illinois, em entrevista à Folha. “Talvez seja um alerta para que os políticos de ambos os lados lidem com esse problema. Mas não teremos uma guerra civil.”
Grupos judeus e árabes atacaram pessoas e danificaram lojas, hotéis e carros durante a noite desta quarta. Na cidade de Bat Yam, ao sul de Tel Aviv, extremistas judeus realizaram uma marcha em que, de acordo com imagens da TV israelense, uma multidão atacou um motorista palestino —não há informações sobre o estado de saúde dele.
“A violência dentro de Israel atingiu um nível inédito em décadas”, disse o porta-voz da polícia israelense, Micky Rosenfeld, à agência de notícias AFP. Segundo ele, mais de 400 pessoas foram presas e quase mil agentes da guarda de fronteira foram mobilizados para conter a violência em cidades que antes eram vistas como símbolos da convivência entre árabes e judeus.
“O que está acontecendo nos últimos dias nas cidades de Israel é insuportável. Nada justifica este linchamento de árabes pelos judeus e nada justifica o linchamento de judeus pelos árabes “, disse o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, acrescentando que o país vive um “combate em duas frentes”.
Sem conseguir, até agora, frear a escalada de violência, o Conselho de Segurança da ONU fará, nesta sexta-feira (14), a terceira reunião da semana para discutir o cenário atual. Durante as duas primeiras videoconferências, representantes dos EUA se opuseram a declaração conjunta que pedia o fim dos confrontos, por considerá-la “contraproducente” e “inoportuna” neste momento.
A proposta de resolução pedia, entre outros pontos, que Israel respeitasse a lei internacional, interrompesse a construção de assentamentos em territórios ocupados e se comprometesse a não realizar despejos de palestinos que vivem em Jerusalém Oriental —tema que está no centro da atual onda de violência.
O embaixador de Israel na ONU, Gilad Erdan, enviou nesta quinta uma carta à entidade em que culpa o Hamas pelo conflito, mas diz que “Israel tem o direito e o dever de defender seu povo e sua soberania e continuará a fazê-lo vigorosamente”.
“O Hamas está se apresentando como o ‘defensor de Jerusalém e dos locais sagrados’. Isso é, obviamente, uma mentira. É claro que o Hamas premeditou esta escalada de violência e terrorismo e está feliz em pagar o preço das baixas de ambos os lados para se fortalecer politicamente”, afirma Erdan, no documento.
Míssil lançado por Israel atinge prédio na cidade de Gaza Mohammed Abed – 11.mai.21 /AFP
Nesta quinta, Hua Chunying, porta-voz da diplomacia da China, país que neste mês chefia o Conselho de Segurança da ONU, lamentou que “alguns países” —sem citar quais— estejam obstruindo o texto. Ela reiterou a preocupação da China com a crise na região e a posição de Pequim na defesa da solução de dois Estados, um israelense e um palestino, para encerrar o conflito.
O presidente russo, Vladimir Putin, e o secretário-geral da ONU, António Guterres, também reforçaram seus pedidos por paz. “Dada a escalada do conflito israelense-palestino, [ambos os líderes] determinaram que a principal tarefa é o fim da violência entre as duas partes e a garantia da segurança da população civil”, anunciou o Kremlin após uma videoconferência entre as duas lideranças.
Em uma das poucas medidas concretas anunciadas pela comunidade internacional, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, enviou seu principal diplomata para a região, Hady Amr, para negociar com os dois lados uma solução que ponha fim à violência. A declaração aconteceu depois de as principais companhias aéreas americanas cancelarem todos os voos para Tel Aviv devido aos confrontos, movimento que foi seguido nesta quinta por empresas de aviação europeias.
Militantes do Hamas disseram ter lançado foguetes sobre o aeroporto internacional de Ramon, um dos principais de Israel, mas as autoridades portuárias do país disseram que o local, que recebe cerca de dois milhões de pessoas por ano, não foi atingido e segue operando normalmente.
Blinken também falou por telefone com o presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina), Mahmoud Abbas —que atualmente controla a Cisjordânia, mas não tem ingerência sobre o Hamas e a Faixa de Gaza. Na ligação, ele condenou os ataques aéreos e enfatizou a necessidade de diminuir a tensão.
Durante o início da noite, o presidente Joe Biden conversou por telefone com Netanyahu. O americano apoiou o direito de Israel de se defender dos foguetes do Hamas, mas pediu calma para que a situação fosse resolvida rapidamente, de acordo com comunicado da Casa Branca. O governo israelense respondeu em nota que vai manter seus ataques contra alvos do Hamas.
A nova fase de hostilidades, que inclui os bombardeios mais significativos desde a guerra de 2014 no enclave, foi desencadeada por confrontos entre palestinos e forças de segurança israelenses na mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém.
A cidade, sagrada para judeus, palestinos, cristãos e muçulmanos, vive um estado de tensão desde o início do ramadã, mês mais importante para a tradição religiosa islâmica. Em circunstâncias normais, as ruas de Gaza estariam cheias de palestinos, nesta quinta-feira, celebrando o feriado do Eid al-Fitr, que marca o fim do ramadã. Mas o medo tomou o lugar da festa.
“Este Eid é diferente. Vem com bombardeios, medo e horror”, disse Fahd Ramadan, 44, morador de um campo de refugiados em Gaza, à Reuters. As celebrações também foram ofuscadas em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia, além de em outras cidades de Israel, já que parte dos muçulmanos que vivem no país também preferiram não sair de casa para se proteger dos foguetes.
O Hamas, grupo radical islâmico que comanda desde 2007 a região da Faixa de Gaza, rivaliza com o Fatah, que controla a Cisjordânia e a ANP —tradicionalmente reconhecida internacionalmente como representante oficial dos palestinos. Entre a década de 1960 e o início dos anos 1990, o Fatah era considerado o principal grupo palestino e entrou diversas vezes em confrontos contra Israel. Nos últimos 30 anos, porém, a correlação de forças mudou, e o Hamas passou a liderar as ofensivas contra o país vizinho, com a ANP diminuindo a participação em ações violentas.
No centro dos atuais conflitos estão a liberdade de culto em pontos da região de Jerusalém conhecida como Cidade Antiga —que os palestinos dizem estar sendo tolhida— e uma decisão judicial que prevê o despejo de famílias palestinas do bairro de Sheikh Jarrah que, por veredito de um tribunal regional, devem devolver os terrenos a judeus.
COMO FORAM OS ÚLTIMOS CONFRONTOS ENTRE ISRAEL E GRUPOS PALESTINOS
23 e 24.fev.20 Soldados israelenses acusaram um grupo de palestinos de tentar instalar um explosivo na cerca que separa Israel da Faixa de Gaza, o que gerou um conflito entre os dois lados. Em resposta, o grupo radical Jihad Islâmica disparou em um intervalo de 48 horas cerca de cem foguetes contra a região sul de Israel —que respondeu com bombardeios que deixaram quatro palestinos feridos.
3 a 6.mai.19 Depois de dois soldados israelenses que estavam próximos da divisa ficarem feridos por tiros disparados de Gaza, Israel fez um ataque contra alvos do Hamas na região. Em resposta, foram disparados 690 foguetes de Gaza contra Israel, sendo que 240 foram interceptados pelo sistema de defesa antiaérea. O confronto terminou com 25 mortos do lado palestino —incluindo duas mulheres grávidas e duas crianças— e 4 do lado israelense.
25 a 27.mar.19 Um foguete disparado da Faixa de Gaza destruiu uma casa na vila de Mishmeret, que fica ao norte de Tel Aviv, deixando sete israelenses feridos. O premiê Binyamin Netanyahu ordenou, então, o bombardeio de áreas do Hamas, que disparou foguetes contra a cidade de Ashkelon, no sul de Israel. A violência acabou depois de quase uma semana de confronto.
11 a 13.nov.18 Um homem de 40 anos morreu depois que um foguete atingiu sua casa em Ashkelon. Em resposta, equipes das Forças Especiais de Israel realizaram ações na Faixa de Gaza —sete palestinos e um agente israelense foram mortos. Na sequência, grupos de Gaza dispararam foguetes contra Israel que deixaram 53 feridos. As Forças Armadas israelenses, então, bombardearam Gaza, causando três mortos.
8 e 9.ago.18 O governo israelense chegou a cogitar uma ação terrestre em Gaza depois que o lançamento de quase 180 foguetes da região deixou mais de uma dezena de feridos. No fim, porém, Israel optou por um bombardeio contra 150 alvos, que deixou três palestinos mortos, incluindo um bebê.
jul. e ago.14 Integrantes do Hamas sequestraram e mataram três adolescentes israelenses em junho, em ação que deu início ao maior conflito dos últimos sete anos. Em resposta, Israel lançou uma ação contra alvos do grupo na Cisjordânia. Na sequência, tropas do Exército israelense entraram na Faixa de Gaza, em uma escalada do conflito, que se estendeu por sete semanas. Durante esse período, o Hamas e outros grupos lançaram 4.562 foguetes contra Israel, que revidou com ataques contra 5.262 alvos palestinos. Quando enfim os dois lados chegaram a um cessar-fogo, no fim de agosto, mais de 70 israelenses e 2.100 palestinos tinham morrido.
Um terremoto de magnitude 4,7 foi registrado no início da madrugada desta quarta-feira (28) com epicentro em Barcelos, no interior do Amazonas, na divisa com Roraima. O tremor foi sentido também em Manaus, a 400 km de distância do epicentro. Barcelos, com 27 mil habitantes, fica às margens do rio Negro.
“Aqui balançou bastante o lustre e meus cachorros começaram a latir um pouco antes”, relata a advogada e professora Alichelly Ventura, moradora do bairro Ponta Negra, na zona oeste de Manaus, perto da orla do rio Negro.
Foi o segundo tremor sentido pela advogada este ano. No dia 31 de janeiro, moradores de Manaus notaram o reflexo de um terremoto de magnitude 5,7 na Guiana.
Em janeiro, Alichelly sentiu a cama tremer e saiu do prédio em que mora junto com os vizinhos. Em outros bairros de Manaus os moradores fizeram a mesma coisa, com medo das consequências do terremoto.
Nesta quarta-feira a situação foi menos assustadora. Segundo o USGS (Serviço Geológico dos Estados Unidos), o terremoto teve uma profundidade de dez quilômetros e foi um tremor com potencial para causar poucos danos perto do epicentro.
Imagem do Serviço Geológico dos Estados Unidos mostra o epicentro do terremoto – Reprodução
Apesar do susto de moradores de Barcelos e de alguns bairros de Manaus, não há, até o momento, relatos de estragos ou de pessoas feridas.
“É como se a gente estivesse tonta”, descreve a advogada moradora do bairro Ponta Negra. “Tenho medo porque moro em prédio e isso pode abalar as estruturas, dependendo da magnitude”.
Em setembro de 2020, um terremoto de magnitude 6,9 foi registrado no oceano Atlântico, perto de Fernando de Noronha, no estado de Pernambuco. O epicentro foi localizado a cerca de 282 km a leste do arquipélago São Pedro e São Paulo, a 816 km a nordeste de Fernando de Noronha e também próximo a Natal (RN), Recife (PE) e Fortaleza (CE).
Em agosto do mesmo ano, tremores de terra causaram pequenas avarias em imóveis e assustaram moradores em cidades do Recôncavo Baiano, Baixo-sul da Bahia e até em alguns bairros de Salvador.
“Foi um susto para todo mundo. Aqui na cidade, registramos três tremores em sequência”, afirmou, na ocasião, o prefeito de Amargosa, Júlio Pinheiro (PT). Apesar do susto, não houve registro de feridos nem de danos físicos de maior proporção na cidade.
Para além do investimento financeiro, estudiosos veem no alto custo social e ambiental empecilho para expansão hidrelétrica na Amazônia
Operário trabalha na construção de casa de força da hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira (PA), em 2013 Lalo de Almeida / Folhapress
Domingos Zaparolli
Edição 284 out. 2019
A Bacia Amazônica, que em território brasileiro ocupa 3,8 milhões de quilômetros quadrados em sete estados e responde por mais de 60% de toda a disponibilidade hídrica do país, é considerada a área com maior potencial para a expansão da geração hidrelétrica no Plano Nacional de Energia (PNE) elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia. Estudos recentes sobre os impactos socioambientais da construção de hidrelétricas na região e a capacidade de essas usinas gerarem os resultados pretendidos ao longo de sua vida útil, porém, sugerem cautela.
“As hidrelétricas amazônicas só são economicamente competitivas com outras fontes de energia se não são computados os custos sociais e ambientais, os custos de sua eventual remoção, se o cálculo é feito com base no custo da energia instalada e não na energia efetivamente produzida, e se não são considerados os custos de uma justa compensação, que são transferidos para a sociedade”, afirma Emilio Moran, professor de antropologia, geografia e ciências ambientais na Universidade Estadual de Michigan (MSU), nos Estados Unidos, e na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Moran coordenou equipe multidisciplinar formada por professores e pesquisadores das áreas da saúde, geografia, antropologia, economia agrícola e ambiental da Unicamp, da MSU, das universidades federais do Pará (UFPA), Rio Grande do Sul (UFRGS) e Santa Catarina (UFSC), e da suíça St. Gallen. Eles foram a campo no sudoeste do Pará com o objetivo de avaliar os impactos socioambientais gerados pela construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu. Os resultados foram divulgados no final de agosto, em evento realizado em São Paulo.
A pesquisa constatou que a usina hidrelétrica gerou danos para a biodiversidade pesqueira local e para a população de Altamira e Vitória do Xingu, cidades paraenses vizinhas à obra. Aumento do custo de vida, queda na renda de ribeirinhos e agricultores familiares, diminuição da pesca, piora em indicadores da saúde, saneamento deficitário e aumento da violência são alguns dos danos observados. “O que ocorreu em Belo Monte era previsível, já havia ocorrido antes em outros projetos hidrelétricos. Só demonstra que o Estado continua permitindo os mesmos erros que cometia há 40 anos”, diz Moran, referindo-se aos impactos socioambientais registrados nos anos 1970 e 1980 na construção das usinas hidrelétricas de Tucuruí, no rio Tocantins, e Balbina, no rio Uatumã, afluente do Amazonas, e não devidamente considerados na construção de Belo Monte.
O Plano Nacional de Energia foi lançado em 2006 e recebeu sua atualização mais recente em 2018. Contém previsões de consumo e o mapeamento de oportunidades de expansão da oferta energética até 2050. Segundo o documento, dependendo da expansão econômica do país, a demanda por energia deverá crescer a um ritmo de 1,4% a 2,2% ao ano, no período. O potencial hidrelétrico brasileiro foi calculado em 176 mil megawatts (MW). Destes, 108 mil MW já estão disponíveis ou sendo providenciados em outras construções. Entre os demais 68 mil MW inventariados, 52 mil MW correspondem a projetos que envolvem a construção de usinas de médio e grande porte. Desse total, 64%, ou 33 mil MW, são previstos na Bacia Amazônica.
Cotidiano fluvial: botijão de gás é transportado em barcoMaíra Fainguelernt
Conhecedor da região Amazônica, onde trabalha desde 1978 como pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), e convidado do evento, o biólogo norte-americano Philip Martin Fearnside, um dos ganhadores do Prêmio Nobel da Paz em 2007 como membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), diz que o potencial hidrelétrico da Bacia Amazônica está superdimensionado e que os investimentos não trarão os resultados esperados. “Não estão considerando, por exemplo, os efeitos do aquecimento global que reduz as precipitações pluviométricas e consequentemente o fluxo de água nos rios”, alega.
Fearnside cita um estudo realizado em 2015 pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), do governo federal, intitulado “Brasil 2040”, no qual são projetadas as consequências do aquecimento global para o clima do país. Para a região Amazônica, a projeção indica diminuição substancial das chuvas refletindo no volume de água dos rios e na capacidade de geração de hidreletricidade. Os impactos deverão ser diferentes para cada bacia hídrica. Nos cenários projetados, a capacidade de geração em Belo Monte, por exemplo, poderá ser reduzida entre 20% e 55%.
A hidreletricidade é tida pela indústria do setor e por alguns especialistas como uma forma limpa de energia por não utilizar fontes fósseis como combustível. Fearnside considera essa percepção equivocada, principalmente em relação às hidrelétricas instaladas em regiões de floresta. “Há emissão de gases de efeito estufa em quantidades substanciais”, afirma. Estudos realizados pelo cientista indicam que os primeiros anos de atividade de uma hidrelétrica concentram grande emissão de dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O). Segundo ele, o tempo que uma hidrelétrica leva para gerar benefícios, reduzindo a emissão de gases de efeito estufa, é medido em décadas e varia de acordo com a localização, o tamanho e o perfil da área ocupada pela barragem. Em Belo Monte, com a primeira barragem planejada rio acima, o pesquisador estima que pode demorar 40 anos.
Mãe e filha lavam roupas no rioMaíra Fainguelernt
Dependência do rio Xingu O complexo hidrelétrico de Belo Monte é formado por duas casas de força, ou seja, são duas usinas, que somam 24 turbinas, totalizando uma capacidade instalada de 11,2 mil MW, que deverá ser alcançada no último trimestre deste ano com a entrada em funcionamento das quatro últimas turbinas. Com isso, a hidrelétrica passará a ocupar o posto de terceira maior do mundo em capacidade instalada. Mas não em produção efetiva. Em Belo Monte, a oferta de energia firme, aquela que pode ser assegurada, limita-se a 4,4 mil MW em média. A produção efetiva depende da vazão do rio Xingu. Nos meses de seca na região, entre junho e outubro, sua capacidade de geração é bastante reduzida.
Belo Monte é uma usina a fio d’água, ou seja, seu reservatório foi projetado para permitir uma regularização do fluxo de água para poucos dias de operação e não para todo o período seco. Por isso, seu reservatório é quase três vezes menor do que o necessário em uma usina tradicional. Mesmo assim, soma 478 km² em duas represas interligadas por um canal de derivação com 20 km de extensão.
Em janeiro de 2011, quando as obras em Belo Monte foram iniciadas, a hidrelétrica foi orçada em R$ 16 bilhões. Em julho último, o Ministério de Minas e Energia estimou em R$ 42 bilhões seu custo total. A usina pertence a Norte Energia S.A., que tem a estatal Eletrobras como principal acionista, detentora de 49,98% das ações. Os investimentos – na ordem de 80% – tiveram financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Miquéias Calvi, professor da Faculdade de Engenharia Florestal da UFPA, é morador de Altamira há 30 anos. Acompanhou de perto todo o processo de comunicação promovido pelo governo federal e o grupo Norte Energia para o convencimento da população local. Ele relata que foi estabelecida uma narrativa muito convincente de como a usina seria a condutora do desenvolvimento regional, com geração de emprego, renda para o produtor rural e para os comerciantes locais, além de melhorias na oferta de serviços públicos de saúde, saneamento, distribuição de água potável, segurança e moradia. “Conquistaram um apoio grande à obra, que hoje quase não existe mais”, afirma.
Emilio Moran resume a percepção atual da população local em uma frase, repetida inúmeras vezes aos pesquisadores envolvidos no projeto sobre os impactos socioambientais de Belo Monte: “Bom para o Brasil, péssimo para nós”. Os resultados do estudo apresentam as razões da mudança da opinião pública. Antes de Belo Monte, a cidade de Altamira abrigava 75 mil moradores. Dois anos depois do início das obras, já eram quase 150 mil. A construção da usina chegou a gerar 50 mil empregos diretos e indiretos, contingente que foi diminuindo à medida que etapas da obra foram vencidas. Em 2018 a população estimada era de 113 mil habitantes.
A movimentação demográfica teve consequências, inclusive na saúde da população. Márcia Grisotti, chefe do Departamento de Sociologia e Ciência Política da UFSC, estuda os impactos de Belo Monte e destaca o aumento dos registros de sífilis em gestantes da cidade de Altamira, que passou de um caso para cada mil crianças nascidas em 2010 para 15 casos, em 2015. A violência aumentou. Em 2015, a cidade conquistou o indesejável título de a mais violenta do Brasil. Segundo dados do Ministério da Saúde, foram 124,6 homicídios para cada 100 mil habitantes. Cinco anos antes, a taxa era de 60,9 homicídios para cada 100 mil habitantes. Também houve crescimento no número de suicídios e de mortes por acidente de trânsito. “As medidas compensatórias relacionadas à saúde se restringiram à instalação de equipamentos médicos e sanitários, sem acompanhamento dos indicadores nem definição de uma estratégia para mitigar problemas que poderiam ter sido evitados”, diz Grisotti.
Belo Monte será a terceira maior do mundo em capacidade instalada, mas não em produção efetiva
A construção da barragem de Belo Monte e as mudanças no nível de água do Xingu exigiram o deslocamento de 22 mil pessoas que viviam às margens do rio. Essa população foi realocada em cinco Reassentamentos Urbanos Coletivos (RUCs) na periferia de Altamira. Não sem problemas, observa o professor do curso de desenvolvimento regional da UFRGS Guillaume Leturcq. “Pessoas que obtinham sua subsistência do Xingu foram assentadas em vilas distantes a 3 ou 4 quilômetros do rio”, conta. “Não lhes foi oferecida a oportunidade de transferência para localidades onde poderiam manter seu modo de vida.” Muitas das novas casas já foram abandonadas ou vendidas.
O adensamento populacional gerou problemas sanitários. Até 2012, o abastecimento de água de 86% da população era feito por intermédio de poços e o esgoto de 90% das casas era destinado para fossas sépticas. De acordo com Cristina Gauthier, da MSU, a Norte Energia melhorou a infraestrutura de saneamento de Altamira, mas não o suficiente para o crescimento populacional que a cidade enfrentou. Resultado: o uso de poços e fossas segue sendo comum no lugar. “Com o adensamento geográfico, o número de poços e fossas é maior do que antes da construção da usina. Um número maior de fossas impacta a qualidade de água subterrânea do lugar”, diz Gauthier. Em amostra realizada em 30 casas, a pesquisadora constatou que apenas seis poços possuíam água sem contaminantes fecais na época da seca e sete no período chuvoso. Procurada, a Norte Energia não comentou os resultados das pesquisas.
Nem mesmo ribeirinhos que vivem em áreas mais distantes da usina e não precisaram abandonar suas casas ficaram imunes. Moradores da comunidade a jusante de Vila Nova, que soma 156 famílias, relatam que hoje precisam de seis dias para obter a mesma quantidade de peixes que antes pescavam em dois. Além disso, os peixes são menores e há dificuldade em comercializá-los. “Em Altamira é possível comprar peixes de outras regiões do Pará e de Santa Catarina. Apenas um supermercado vendia peixe local em 2015”, diz Miquéias Calvi.
Removido da casa onde vivia por causa da construção da hidrelétrica, morador desmancha palafita em área próxima ao igarapé AltamiraLalo de Almeida / Folhapress
Calvi investigou os impactos de Belo Monte na produção rural na região de Altamira. “A promessa era de que o aumento da população e da demanda por alimentos iria beneficiar o produtor local”, observa. No entanto, três anos após o início da obra, 60% dos agricultores familiares haviam abandonado suas lavouras temporárias. Os cultivos de arroz, feijão, milho e mandioca caíram de 40 mil hectares em 2011 para 20 mil hectares em 2017.
Emilio Moran acredita que muitos dos problemas constatados na pesquisa poderiam ter sido evitados se o licenciamento da usina tivesse sido precedido de um adequado Estudo de Impacto Ambiental e o respectivo Relatório de Impacto Ambiental (EIA-Rima). Para isso, e como determina a legislação brasileira, seria necessário estudar antecipadamente a região, em seus aspectos físicos e humanos, e ouvir as comunidades locais. Órgãos públicos como o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), avalia Moran, também deveriam ter “capacidade e vontade política” para negar licenças, se constatado que determinado empreendimento não atende as obrigações da legislação brasileira e as recomendações do relatório de impacto social e ambiental. “Isso nunca ocorre no Brasil”, lamenta. “Os estudos são feitos, mas as obras começam sem a resolução dos problemas apontados nos estudos.”
O físico José Goldemberg, do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEA-USP) e ex-secretário nacional do Meio Ambiente e de Ciência e Tecnologia, concorda apenas parcialmente com as críticas. Segundo ele, muitos dos impactos socioambientais de Belo Monte poderiam, de fato, ter sido evitados e a empresa deveria ser responsabilizada pelos danos gerados. No entanto, Belo Monte, pondera, não pode ser julgada apenas pelos danos sociais, mas também pelos benefícios gerados para o abastecimento energético de todo o país.
Em sua opinião, as hidrelétricas na Bacia Amazônica devem ser avaliadas caso a caso, levando em consideração sua viabilidade diante dos custos de mitigar os impactos socioambientais e diante dos possíveis efeitos das mudanças climáticas, mas não devem ser descartadas a priori. “O Brasil precisa expandir sua produção de eletricidade e uma hidrelétrica, entre as opções que garantem geração firme, constitui alternativa melhor do que as usinas que utilizam combustíveis fósseis e do que as nucleares”, avalia.
Para o escritor e ativista Ousman Umar, o caminho para tirar a África da pobreza passa por empoderar os jovens, e não por doar toneladas de arroz e comida.
Ele criou a Nasco Feeding Minds, ONG que busca ampliar o acesso dos jovens em Gana ao mundo digital, para que eles aprendam e pensem formas de melhorar a África. A educação também é caminho para evitar que eles caiam nas promessas de traficantes que tentam convencê-los a tentar ir para a Europa, em viagens arriscadas que incluem a travessia do deserto e do mar Mediterrâneo em condições precárias.
O escritor ganês Ousman Umar – Divulgação
“Vivi cinco anos infernais tentando chegar à Europa e não quero que ninguém passe mais por isso”, diz Umar. Ele chegou à Espanha em 2005 e lançou dois livros sobre sua vida: “Viaje al País de Los Blancos”, em 2019, sobre sua travessia, e “Desde el País de los Blancos”, lançado no mês passado, no qual conta as dificuldades para se adaptar à Europa.
Umar, 32, participou do festival virtual Viva Livro, que reuniu autores que escrevem sobre migração, e falou com a Folha por telefone, de Gana. Abaixo, os principais trechos da conversa.
Como a pandemia tem afetado a migração da África para a Europa?
Barcos com imigrantes seguem chegando. Cada vez mais gente quer ir embora, especialmente fugindo de guerras como as da Síria e da Líbia. A situação econômica piorou no mundo inteiro, mas na África piorou mais, porque os países eram mais pobres e já tinham problemas que vinham de muito antes.
Como está a pandemia em Gana?
Em geral, há menos gente contaminada e mortes por coronavírus do que no Ocidente. Estou em Gana agora, e a situação está dez vezes melhor do que em Barcelona. A África viveu muitas outras epidemias recentemente, enquanto a Europa não tinha uma há quase cem anos, então sabe como fazer uma gestão melhor. Há casos em que há uma UTI para cada 1 milhão de habitantes, e, já que não temos como curar, temos que evitar que a enfermidade chegue. Na África, a população é muito mais jovem, e o coronavírus traz mais danos aos maiores de 50 anos, o que também é um fator.
Quais foram os momentos mais marcantes de sua jornada até a Europa?
Com nove anos, deixei meu povoado e fui trabalhar na cidade. Aos 13, comecei uma viagem que passou por oito países da África. Cruzei parte do Saara a pé. Começamos a viagem em 46 pessoas, e só seis chegaram ao final com vida.
Na Líbia, cheguei sem dinheiro, sem celular e sem falar árabe. Chegava a uma cidade, trabalhava em qualquer coisa, que ninguém queria fazer, para juntar dinheiro e pagar um táxi até o povoado seguinte. Por isso, demorei cinco anos até chegar à Europa. Cinco anos infernais, cruéis. Por isso, decidi que ninguém merece viver o que vivi.
Fui tentar atravessar o Mediterrâneo em 2005. Traficantes disseram que em 45 minutos chegaríamos ao paraíso. Na primeira tentativa, 180 pessoas morreram. Na segunda, fiquei 48 horas sentado em um barco, sem comer ou beber, sem saber nadar e com a agonia de pensar que poderia morrer a qualquer momento.
Ao chegar em terra, o grupo corre pela praia e se espalha pelas dunas; a Espanha recebeu nos sete primeiros meses de 2017 17 mil migrantes, o dobro do que tinha recebido no mesmo período do ano passado, segundo o governo. Jon Nazca/Reuters
E como foi depois de chegar à Espanha?
Consegui a autorização para poder entrar, mas onde viver? Fiquei dois meses dormindo na rua em Barcelona, sem que ninguém me olhasse na cara. Nem no deserto me senti tão só. Tive a sorte que uma família me acolheu. Na primeira noite que dormi em uma casa, chorei como uma criança. Me perguntava o que eu tinha feito de mal para merecer tanta tortura e crueldade. E aí percebi que tinha dois propósitos: dar voz aos companheiros que não conseguiram chegar com vida [à Europa] e evitar que novos jovens caiam nesta armadilha infernal.
Como fazer isso?
Assumi minha responsabilidade, como se fosse o presidente do meu país. Usei o dinheiro que ganhei como mecânico de bicicletas, juntei com empréstimos e doações de alguns amigos e comprei 45 computadores, em 2012. Contratei dois professores em Gana, que atuavam em duas escolas com aulas para inclusão digital. Hoje atuamos em 30. E sem ajuda de nenhum governo, só de pessoas que ouvem nossa história.
A caridade não vai mudar a África. Enviar toneladas de arroz não funciona e nunca vai funcionar. Faz-se isso há 60 anos e tudo segue igual. Tem que mudar a estratégia. Nossa ONG alimenta mentes. Chega de pensar só em estômagos. A única maneira de retirar a África da pobreza é empoderar as pessoas. Temos de alimentar as mentes dos jovens, que são ambiciosos e têm tantos anseios, para que eles mudem as coisas partindo de dentro.
Nas últimas eleições de Gana, tivemos o candidato mais jovem a chegar ao Parlamento. Não gosto da política. Tanto faz se você pensa verde, vermelho ou amarelo. O que gosto é de ver o exemplo para que muitos jovens vejam que a África tem muito potencial.
Como vê o efeito de movimentos de valorização dos negros, como o Black Lives Matter?
Estamos vivendo uma época de mudanças. Mas, embora haja intenções, as coisas vão muito lentas. Cheguei à Espanha em 2005, analfabeto. Em menos de dez anos, estava estudando na Universidade de Barcelona. Química, porque queria entender se a magia negra era verdade ou não. E eu era “o” negro da universidade. O único.
Para os imigrantes que chegam à Espanha, não há outro caminho a não ser os piores trabalhos, como colher tomates no campos, sem contrato, porque a lei migratória criminaliza o imigrante. Sem documentos, só resta trabalhar em coisas que os espanhois não querem fazer.
O ator Johnathan Majors na capa da QG americana de outubro; três personalidades negras estiveram na capa da revista neste ano QG/Reprodução
No ano passado, vieram 240 pessoas para Lleida, uma cidade na Catalunha, para colher maçãs. Como havia a questão do vírus, ninguém os acolheu, e eles ficaram dormindo em uma praça por duas semanas. Até que um deles fez um vídeo, contando a história, e postou no Facebook. Um jogador de futebol do Mônaco [Keita Baldé] viu o vídeo e se dispôs a pagar um hotel para que as pessoas deixassem de dormir na rua, como animais. Os hotéis estavam vazios, mas não quiseram alugar um quarto para essas pessoas, porque eram negras. Por outro lado, se morre um americano negro nos Estados Unidos, todo mundo posta “black lives matter” em seus perfis. Mas falta atuar de verdade. Isso realmente faz falta.
RAIO-X
Ousman Umar, 33 Nascido em Gana, migrou para Espanha, onde se formou em relações públicas e marketing na Universidade de Barcelona. Escreveu dois livros, sobre sua travessia até a Europa e sobre as dificuldades de se adaptar à vida no continente. É fundador da ONG Nasco Feeding Minds, que busca ampliar o acesso de jovens em Gana ao mundo digital