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  • O descendente do homem!

    O descendente do homem!

    Imagem Embutida

    Agustín Fuentes

    21 de maio de 2021:
    Vol. 372, Issue 6544, pp. 769
    DOI: 10.1126 / science.abj4606

    Em 1871, Charles Darwin abordou “o maior e mais interessante problema para o naturalista … a descendência do homem”. Desafiando o status quo, Darwin implantou a seleção natural e sexual, e recentemente adotou a “sobrevivência do mais apto”, produzindo cenários para o surgimento da humanidade. Ele explorou histórias evolutivas, anatomia, habilidades mentais, capacidades culturais, raça e diferenças de sexo. Algumas conclusões foram inovadoras e perspicazes. Seu reconhecimento de que as diferenças entre humanos e outros animais eram de grau, não de tipo, foi o pioneiro. Seu foco em cooperação, aprendizado social e cultura cumulativa continua sendo o centro dos estudos evolutivos humanos. No entanto, algumas das outras afirmações de Darwin estavam tristemente e perigosamente erradas. “Descida” é um texto para aprender, mas não para venerar.

    Darwin viu os humanos como parte do mundo natural, animais que evoluíram (descendem) de primatas ancestrais de acordo com processos e padrões semelhantes para toda a vida. Para Darwin, para conhecer o corpo e a mente humanos, devemos conhecer outros animais e sua (e nossa) descendência com modificação através das linhagens e do tempo. Mas, apesar desses quadros ideais e algumas inferências inovadoras, “Descent” é frequentemente problemático, preconceituoso e prejudicial. Darwin pensou que estava contando com dados, objetividade e pensamento científico para descrever os resultados da evolução humana. Mas durante grande parte do livro, ele não foi. “Descent”, como muitos dos tomos científicos da época de Darwin, oferece uma visão racista e sexista da humanidade.

    Darwin retratou os povos indígenas das Américas e da Austrália como menos do que os europeus em capacidade e comportamento. Os povos do continente africano foram consistentemente referidos como cognitivamente dépauperados, menos capazes e de uma posição inferior do que outras raças. Essas afirmações são confusas porque em “Descent” Darwin ofereceu a refutação da seleção natural como o processo de diferenciação das raças, observando que os traços usados ​​para caracterizá-las pareciam não funcionais em relação à capacidade de sucesso. Como cientista, isso deveria tê-lo feito hesitar, mas ele ainda, sem base, afirmava diferenças evolutivas entre as raças. Ele foi além de simples classificações raciais, oferecendo justificativas para o imperialismo, o colonialismo e o genocídio por meio da “sobrevivência do mais apto”. Isso também é confuso, dada a postura robusta de Darwin contra a escravidão.

    Em “Descent”, Darwin identificou as mulheres como menos capazes do que os homens (brancos), muitas vezes semelhantes às “raças inferiores”. Ele descreveu o homem como mais corajoso, enérgico, inventivo e inteligente, invocando a seleção natural e sexual como justificativa, apesar da falta de dados concretos e avaliação biológica. Suas afirmações inflexíveis sobre a centralidade masculina e a passividade da mulher nos processos evolutivos, para os humanos e em todo o mundo animal, ressoam tanto na misoginia vitoriana quanto na contemporânea.

    Na própria vida de Darwin, ele aprendeu com um naturalista sul-americano descendente de africanos, John Edmonstone, em Edimburgo, e teve relações substantivas com os fueguinos a bordo do HMS Beagle. Sua filha Henrietta foi uma das principais editoras de “Descent”. Darwin foi um cientista perspicaz cujas visões sobre raça e sexo deveriam ter sido mais influenciadas por dados e sua própria experiência de vida. Mas as crenças racistas e sexistas de Darwin, ecoando as visões de colegas científicos e de sua sociedade, foram poderosos mediadores de sua percepção da realidade.

    Hoje, os alunos aprendem que Darwin é o “pai da teoria da evolução”, um cientista gênio. Eles também deveriam aprender Darwin como um homem inglês com preconceitos prejudiciais e infundados que distorceram sua visão dos dados e da experiência. Racistas, sexistas e supremacistas brancos, alguns deles acadêmicos, usam conceitos e afirmações “validadas” por sua presença em “Descent” como suporte para crenças errôneas, e o público aceita muito disso sem crítica.

    “The Descent of Man” é um dos livros mais influentes na história da ciência evolutiva humana. Podemos agradecer a Darwin pelos insights importantes, mas devemos lutar contra suas afirmações infundadas e prejudiciais. Refletindo sobre “Descent” hoje, pode-se olhar para os dados que demonstram inequivocamente que a raça não é uma descrição válida da variação biológica humana, que não há coerência biológica para os cérebros “masculino” e “feminino” ou qualquer simplicidade nos padrões biológicos relacionados ao gênero e sexo, e que a “sobrevivência do mais apto” não representa com precisão a dinâmica dos processos evolutivos. A comunidade científica pode rejeitar o legado de preconceitos e danos nas ciências evolutivas, reconhecendo e agindo sobre a necessidade de diversas vozes e tornando as práticas inclusivas centrais para a investigação evolucionária. No fim.

    (tradução automática)

    http://www.sciencemag.org/about/science-licenses-journal-article-reuse

    Questões

    O autor identifica o racismo e o sexismo na obra de Darwin? Justifique.

    De que forma “Descent” foi apropriado para justificar o Imperialismo Europeu na África?

    Prof Luciano Mannarino

  • Novos estudos analisam destruição da camada de ozônio e seu impacto na saúde humana

    Novos estudos analisam destruição da camada de ozônio e seu impacto na saúde humana

    Pesquisas na Nature mostram redução na produção de CFCs, e estudo brasileiro aponta que a camada mais fina aumenta danos no DNA

    10.fev.2021 às 13h08Atualizado: 10.fev.2021 às 16h06

    Gabriel Alves

    SÃO PAULO

    Camada de ozônio não é um dos tópicos ambientais mais comentados hoje em dia, mas isso não significa que ela tenha sido esquecida ou que esteja tudo bem, pelo contrário. Cientistas ainda se esforçam para dimensionar o prejuízo provocado pela ação humana.

    Dois artigos publicados nesta quarta (10) na revista Nature, inclusive, apontam o declínio na produção de moléculas responsáveis pela destruição da camada de ozônio, como o triclorofluorometano, também conhecido como CFC-11, usado no processo de fabricação de espumas.

    Apenas entre 2018 e 2019, a redução nas emissões foi de 18 mil toneladas, o que representava 26% do total. A medida, feita por meio da análise de gases da atmosfera, foi aferida em locais remotos, distantes de grandes centros poluidores.

    A conclusão do trabalho, comandado por cientistas da Noaa (agência americana responsável pelo monitoramento atmosférico e oceânico) e de outras instituições, é que o rápido declínio só foi possível porque deve haver uma grande produção de CFC-11 não reportada e consequente emissão desses gases.

    A esperança é que, se mantido o declínio das emissões, e a produção irregular não aumentar, a agressão à camada de ozônio pode estacionar, favorecendo sua regeneração.

    Uma outra análise, publicada na mesma edição mostra uma redução importante na produção do CFC-11 na porção leste da China. O estudo contou com medidas feitas na própria China, no Japão e na Coreia do Sul, além de análise da dinâmica atmosférica do continente asiático.

    A diminuição foi de cerca de 10 mil toneladas ao ano, entre 2014 e 2017, chegando a 5.000 toneladas em 2019. Essa redução equivale a 60% do declínio nas emissões globais dos poluentes no mesmo período.
    Apesar da estimativa de ainda existir um grande banco de CFC-11, ou seja, gás aprisionado em dutos e espumas, ainda não liberado para a atmosfera, os autores atribuem a melhora nas emissões às políticas do governo chinês e às ações da indústria do país. Desse trabalho participaram cientistas da Coreia do Sul, Reino Unido, Japão, Suíça, China, EUA e Austrália.

    Quanto ao impacto da destruição da camada de ozônio nas diversas formas de vida que habitam a Terra —a humana, inclusive —, o professor da USP Carlos Menck foi em uma expedição para a Antártida no final de 2017 para estudar como a perda da camada atinge o DNA. Só recentemente os resultados foram publicados na revista Photochemistry and Photobiology.

    O experimento consistia em expor uma espécie de cápsula gelatinosa contendo DNA ao sol no continente gelado, enquanto outra cápsula, a controle, era protegida com uma folha de papel alumínio. Esse gel é chamado de “dosímetro de lesões de DNA” e permite que experimentos aconteçam fora do laboratório.

    Pode parecer simples, mas houve desafios no processo, além do clima gelado.

    O buraco na camada de ozônio na Antártica no ano 2000
    O buraco na camada de ozônio na Antártida no ano 2000 – Nasa

    Um deles foram as skuas, aves migratórias que costumam passear nos arredores da Estação Antártica Comandante Ferraz, a base brasileira no continente. “São como galinhas grandes, mas elas voam”, diz Menck. E o problema é que elas tentaram roubar o material dos experimentos do cientista. “Tentei pregar com fita crepe numa pedra, mas não se passaram nem 15 minutos e lá estava a skua de novo.”

    Aconselhado por um colega, bolou uma engenhoca: adaptou o dosímetro em cima de um rodo que encontrou dando sopa na base brasileira. Fincou o cabo na neve e usou a parte de baixo como suporte.

    Oficialmente, no artigo científico, trata-se de um “tilted support”, ou suporte angulado, que até facilitou a tarefa, já que para acompanhar o sol bastava girar o aparato.

    O ozônio é um gás altamente instável, formado por três átomos de oxigênio (o oxigênio molecular, que respiramos, é composto de dois átomos) localizado principalmente na estratosfera, numa altitude de cerca de 15 km ou maior.

    Esse ozônio forma uma espécie de nuvem dispersa, que tem por característica evitar a incidência de raios ultravioleta, especialmente do tipo C, os mais intensos, e também do B na superfície terrestre. Curiosamente, se aglutinados, esses átomos formariam uma camada de apenas cerca de 3 mm (ou 300 DU, unidades Dobson), o que revela a tal fragilidade.

    (Também existe ozônio na troposfera, a camada da atmosfera na qual estamos imersos, mas aí ela está associada principalmente à poluição nas grandes cidades, e causa prejuízos à saúde.

    Durante a primavera antártica, a camada de ozônio pode chegar ao que seria equivalente a menos de 1 mm (100 DU). Quando o valor está abaixo de 220 UD (o equivalente a 2,2 mm), já se considera que há um buraco. E quem fica abaixo do buraco pode sofrer com a severidade da radiação solar.

    “Mesmo sem o buraco, havia uma irradiação muito forte. E nossos experimentos já mostraram uma correlação entre a espessura da camada de ozônio e lesões no DNA, especialmente pela ação de ultravioleta do tipo B [que deixa de ser bloqueado pela camada]”, conta Menck.

    Lesões e mutações no DNA estão entre os principais fatores para a ocorrência de cânceres. Em última análise, a vida terrestre poderia ser extinta sem a proteção fornecida pela camada de ozônio.

    Em 20 de setembro de 2020, o buraco chegou ao tamanho de 25 milhões de quilômetros quadrados, quase o dobro da área de todo o continente antártico e maior até mesmo que a área da Rússia, o maior país em extensão territorial, segundo dados da Nasa.

    Desde as negociações que levaram os países a assinar o Protocolo de Montreal, no final da década de 1980, foram reduzidas as emissões dos chamados CFCs (clorofluorcarbonos), gases usando em aplicações como refrigeração e em aerossóis e que aceleram a degradação do ozônio, e a camada estratosférica se estabilizou.

    A expectativa é que, se tudo der certo, a recuperação aos níveis anteriores a 1980 demore entre 60 a 100 anos, relata Paulo Artaxo, professor da USP e estudioso da física atmosférica.

    Desde meados da década passada, porém, houve uma desaceleração do progresso por causa de uma emissão remanescente de gases que destroem a camada de ozônio. Segundo pesquisadores do MIT e das Universidades de Sussex e do Estado do Colorado defendem em artigo publicado em 2020 na revista Nature Communications, apesar do sucesso obtido até então, é hora de atualizar as políticas de proteção à camada de ozônio, e não mais nos vangloriarmos de uma conquista do século passado.

    https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2021/02/novos-estudos-analisam-destruicao-da-camada-de-ozonio-e-seu-impacto-na-saude-humana.shtml

    Questões

    1 Caracterize as principais camadas da atmosfera.

    2 O que é a “camada” de ozônio?

    3 Qual a importância do ozônio para vida em nosso planeta?

    4 O que foi o Protocolo de Montreal? Analise seus desdobramentos.

    Antártica: O Continente dos Extremos

    Nova estação antártica brasileira será inaugurada oito anos após o incêndio (atividade)

    Prof Luciano Mannarino

  • Terremoto de magnitude 4,7 atinge cidades da região norte do Brasil

    Terremoto de magnitude 4,7 atinge cidades da região norte do Brasil

    Epicentro foi em Barcelos, no interior do Amazonas. Tremor foi sentido por moradores de Manaus

    Cristina Camargo

    SÃO PAULO

    Um terremoto de magnitude 4,7 foi registrado no início da madrugada desta quarta-feira (28) com epicentro em Barcelos, no interior do Amazonas, na divisa com Roraima. O tremor foi sentido também em Manaus, a 400 km de distância do epicentro. Barcelos, com 27 mil habitantes, fica às margens do rio Negro.

    “Aqui balançou bastante o lustre e meus cachorros começaram a latir um pouco antes”, relata a advogada e professora Alichelly Ventura, moradora do bairro Ponta Negra, na zona oeste de Manaus, perto da orla do rio Negro.

    Foi o segundo tremor sentido pela advogada este ano. No dia 31 de janeiro, moradores de Manaus notaram o reflexo de um terremoto de magnitude 5,7 na Guiana.

    Em janeiro, Alichelly sentiu a cama tremer e saiu do prédio em que mora junto com os vizinhos. Em outros bairros de Manaus os moradores fizeram a mesma coisa, com medo das consequências do terremoto.

    Nesta quarta-feira a situação foi menos assustadora. Segundo o USGS (Serviço Geológico dos Estados Unidos), o terremoto teve uma profundidade de dez quilômetros e foi um tremor com potencial para causar poucos danos perto do epicentro.

    Imagem do Serviço Geológico dos Estados Unidos mostra o epicentro do terremoto
    Imagem do Serviço Geológico dos Estados Unidos mostra o epicentro do terremoto – Reprodução

    Apesar do susto de moradores de Barcelos e de alguns bairros de Manaus, não há, até o momento, relatos de estragos ou de pessoas feridas.

    “É como se a gente estivesse tonta”, descreve a advogada moradora do bairro Ponta Negra. “Tenho medo porque moro em prédio e isso pode abalar as estruturas, dependendo da magnitude”.

    Em setembro de 2020, um terremoto de magnitude 6,9 foi registrado no oceano Atlântico, perto de Fernando de Noronha, no estado de Pernambuco. O epicentro foi localizado a cerca de 282 km a leste do arquipélago São Pedro e São Paulo, a 816 km a nordeste de Fernando de Noronha e também próximo a Natal (RN), Recife (PE) e Fortaleza (CE).

    Em agosto do mesmo ano, tremores de terra causaram pequenas avarias em imóveis e assustaram moradores em cidades do Recôncavo Baiano, Baixo-sul da Bahia e até em alguns bairros de Salvador.

    “Foi um susto para todo mundo. Aqui na cidade, registramos três tremores em sequência”, afirmou, na ocasião, o prefeito de Amargosa, Júlio Pinheiro (PT). Apesar do susto, não houve registro de feridos nem de danos físicos de maior proporção na cidade.

    https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2021/04/terremoto-de-magnitude-47-atinge-cidades-da-regiao-norte-do-brasil.shtml

    Questões

    De que forma o USGS (Serviço Geológico dos Estados Unidos) conseguiu monitorar esse evento sísmico no Brasil?

    O que representam as linhas vermelhas na figura usada na reportagem?

    Imagem do Serviço Geológico dos Estados Unidos mostra o epicentro do terremoto

    Por que o território brasileiro não apresenta abalos sísmicos de grandes intensidades?

    O que é epicentro de um terremoto?

    Terremotos!

    Namazu e os terremotos. (Atividade)

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    Prof Luciano Mannarino.

  • Energia insustentável

    Energia insustentável

    POLÍTICAS PÚBLICAS 

    Para além do investimento financeiro, estudiosos veem no alto custo social e ambiental empecilho para expansão hidrelétrica na Amazônia

    Operário trabalha na construção de casa de força da hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira (PA), em 2013 Lalo de Almeida / Folhapress

    Domingos Zaparolli

    Edição 284
    out. 2019

    A Bacia Amazônica, que em território brasileiro ocupa 3,8 milhões de quilômetros quadrados em sete estados e responde por mais de 60% de toda a disponibilidade hídrica do país, é considerada a área com maior potencial para a expansão da geração hidrelétrica no Plano Nacional de Energia (PNE) elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia. Estudos recentes sobre os impactos socioambientais da construção de hidrelétricas na região e a capacidade de essas usinas gerarem os resultados pretendidos ao longo de sua vida útil, porém, sugerem cautela.

    “As hidrelétricas amazônicas só são economicamente competitivas com outras fontes de energia se não são computados os custos sociais e ambientais, os custos de sua eventual remoção, se o cálculo é feito com base no custo da energia instalada e não na energia efetivamente produzida, e se não são considerados os custos de uma justa compensação, que são transferidos para a sociedade”, afirma Emilio Moran, professor de antropologia, geografia e ciências ambientais na Universidade Estadual de Michigan (MSU), nos Estados Unidos, e na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Moran coordenou equipe multidisciplinar formada por professores e pesquisadores das áreas da saúde, geografia, antropologia, economia agrícola e ambiental da Unicamp, da MSU, das universidades federais do Pará (UFPA), Rio Grande do Sul (UFRGS) e Santa Catarina (UFSC), e da suíça St. Gallen. Eles foram a campo no sudoeste do Pará com o objetivo de avaliar os impactos socioambientais gerados pela construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu. Os resultados foram divulgados no final de agosto, em evento realizado em São Paulo.

    A pesquisa constatou que a usina hidrelétrica gerou danos para a biodiversidade pesqueira local e para a população de Altamira e Vitória do Xingu, cidades paraenses vizinhas à obra. Aumento do custo de vida, queda na renda de ribeirinhos e agricultores familiares, diminuição da pesca, piora em indicadores da saúde, saneamento deficitário e aumento da violência são alguns dos danos observados. “O que ocorreu em Belo Monte era previsível, já havia ocorrido antes em outros projetos hidrelétricos. Só demonstra que o Estado continua permitindo os mesmos erros que cometia há 40 anos”, diz Moran, referindo-se aos impactos socioambientais registrados nos anos 1970 e 1980 na construção das usinas hidrelétricas de Tucuruí, no rio Tocantins, e Balbina, no rio Uatumã, afluente do Amazonas, e não devidamente considerados na construção de Belo Monte.

    O Plano Nacional de Energia foi lançado em 2006 e recebeu sua atualização mais recente em 2018. Contém previsões de consumo e o mapeamento de oportunidades de expansão da oferta energética até 2050. Segundo o documento, dependendo da expansão econômica do país, a demanda por energia deverá crescer a um ritmo de 1,4% a 2,2% ao ano, no período. O potencial hidrelétrico brasileiro foi calculado em 176 mil megawatts (MW). Destes, 108 mil MW já estão disponíveis ou sendo providenciados em outras construções. Entre os demais 68 mil MW inventariados, 52 mil MW correspondem a projetos que envolvem a construção de usinas de médio e grande porte. Desse total, 64%, ou 33 mil MW, são previstos na Bacia Amazônica.

    Cotidiano fluvial: botijão de gás é transportado em barcoMaíra Fainguelernt

    Conhecedor da região Amazônica, onde trabalha desde 1978 como pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), e convidado do evento, o biólogo norte-americano Philip Martin Fearnside, um dos ganhadores do Prêmio Nobel da Paz em 2007 como membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), diz que o potencial hidrelétrico da Bacia Amazônica está superdimensionado e que os investimentos não trarão os resultados esperados. “Não estão considerando, por exemplo, os efeitos do aquecimento global que reduz as precipitações pluviométricas e consequentemente o fluxo de água nos rios”, alega.

    Fearnside cita um estudo realizado em 2015 pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), do governo federal, intitulado “Brasil 2040”, no qual são projetadas as consequências do aquecimento global para o clima do país. Para a região Amazônica, a projeção indica diminuição substancial das chuvas refletindo no volume de água dos rios e na capacidade de geração de hidreletricidade. Os impactos deverão ser diferentes para cada bacia hídrica. Nos cenários projetados, a capacidade de geração em Belo Monte, por exemplo, poderá ser reduzida entre 20% e 55%.

    A hidreletricidade é tida pela indústria do setor e por alguns especialistas como uma forma limpa de energia por não utilizar fontes fósseis como combustível. Fearnside considera essa percepção equivocada, principalmente em relação às hidrelétricas instaladas em regiões de floresta. “Há emissão de gases de efeito estufa em quantidades substanciais”, afirma. Estudos realizados pelo cientista indicam que os primeiros anos de atividade de uma hidrelétrica concentram grande emissão de dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O). Segundo ele, o tempo que uma hidrelétrica leva para gerar benefícios, reduzindo a emissão de gases de efeito estufa, é medido em décadas e varia de acordo com a localização, o tamanho e o perfil da área ocupada pela barragem. Em Belo Monte, com a primeira barragem planejada rio acima, o pesquisador estima que pode demorar 40 anos.

    Mãe e filha lavam roupas no rioMaíra Fainguelernt

    Dependência do rio Xingu
    O complexo hidrelétrico de Belo Monte é formado por duas casas de força, ou seja, são duas usinas, que somam 24 turbinas, totalizando uma capacidade instalada de 11,2 mil MW, que deverá ser alcançada no último trimestre deste ano com a entrada em funcionamento das quatro últimas turbinas. Com isso, a hidrelétrica passará a ocupar o posto de terceira maior do mundo em capacidade instalada. Mas não em produção efetiva. Em Belo Monte, a oferta de energia firme, aquela que pode ser assegurada, limita-se a 4,4 mil MW em média. A produção efetiva depende da vazão do rio Xingu. Nos meses de seca na região, entre junho e outubro, sua capacidade de geração é bastante reduzida.

    Belo Monte é uma usina a fio d’água, ou seja, seu reservatório foi projetado para permitir uma regularização do fluxo de água para poucos dias de operação e não para todo o período seco. Por isso, seu reservatório é quase três vezes menor do que o necessário em uma usina tradicional. Mesmo assim, soma 478 km² em duas represas interligadas por um canal de derivação com 20 km de extensão.

    Em janeiro de 2011, quando as obras em Belo Monte foram iniciadas, a hidrelétrica foi orçada em R$ 16 bilhões. Em julho último, o Ministério de Minas e Energia estimou em R$ 42 bilhões seu custo total. A usina pertence a Norte Energia S.A., que tem a estatal Eletrobras como principal acionista, detentora de 49,98% das ações. Os investimentos – na ordem de 80% – tiveram financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

    Miquéias Calvi, professor da Faculdade de Engenharia Florestal da UFPA, é morador de Altamira há 30 anos. Acompanhou de perto todo o processo de comunicação promovido pelo governo federal e o grupo Norte Energia para o convencimento da população local. Ele relata que foi estabelecida uma narrativa muito convincente de como a usina seria a condutora do desenvolvimento regional, com geração de emprego, renda para o produtor rural e para os comerciantes locais, além de melhorias na oferta de serviços públicos de saúde, saneamento, distribuição de água potável, segurança e moradia. “Conquistaram um apoio grande à obra, que hoje quase não existe mais”, afirma.

    Emilio Moran resume a percepção atual da população local em uma frase, repetida inúmeras vezes aos pesquisadores envolvidos no projeto sobre os impactos socioambientais de Belo Monte: “Bom para o Brasil, péssimo para nós”. Os resultados do estudo apresentam as razões da mudança da opinião pública. Antes de Belo Monte, a cidade de Altamira abrigava 75 mil moradores. Dois anos depois do início das obras, já eram quase 150 mil. A construção da usina chegou a gerar 50 mil empregos diretos e indiretos, contingente que foi diminuindo à medida que etapas da obra foram vencidas. Em 2018 a população estimada era de 113 mil habitantes.

    A movimentação demográfica teve consequências, inclusive na saúde da população. Márcia Grisotti, chefe do Departamento de Sociologia e Ciência Política da UFSC, estuda os impactos de Belo Monte e destaca o aumento dos registros de sífilis em gestantes da cidade de Altamira, que passou de um caso para cada mil crianças nascidas em 2010 para 15 casos, em 2015. A violência aumentou. Em 2015, a cidade conquistou o indesejável título de a mais violenta do Brasil. Segundo dados do Ministério da Saúde, foram 124,6 homicídios para cada 100 mil habitantes. Cinco anos antes, a taxa era de 60,9 homicídios para cada 100 mil habitantes. Também houve crescimento no número de suicídios e de mortes por acidente de trânsito. “As medidas compensatórias relacionadas à saúde se restringiram à instalação de equipamentos médicos e sanitários, sem acompanhamento dos indicadores nem definição de uma estratégia para mitigar problemas que poderiam ter sido evitados”, diz Grisotti.

    Belo Monte será a terceira maior do mundo em capacidade instalada, mas não em produção efetiva

    A construção da barragem de Belo Monte e as mudanças no nível de água do Xingu exigiram o deslocamento de 22 mil pessoas que viviam às margens do rio. Essa população foi realocada em cinco Reassentamentos Urbanos Coletivos (RUCs) na periferia de Altamira. Não sem problemas, observa o professor do curso de desenvolvimento regional da UFRGS Guillaume Leturcq. “Pessoas que obtinham sua subsistência do Xingu foram assentadas em vilas distantes a 3 ou 4 quilômetros do rio”, conta. “Não lhes foi oferecida a oportunidade de transferência para localidades onde poderiam manter seu modo de vida.” Muitas das novas casas já foram abandonadas ou vendidas.

    O adensamento populacional gerou problemas sanitários. Até 2012, o abastecimento de água de 86% da população era feito por intermédio de poços e o esgoto de 90% das casas era destinado para fossas sépticas. De acordo com Cristina Gauthier, da MSU, a Norte Energia melhorou a infraestrutura de saneamento de Altamira, mas não o suficiente para o crescimento populacional que a cidade enfrentou. Resultado: o uso de poços e fossas segue sendo comum no lugar.  “Com o adensamento geográfico, o número de poços e fossas é maior do que antes da construção da usina. Um número maior de fossas impacta a qualidade de água subterrânea do lugar”, diz Gauthier. Em amostra realizada em 30 casas, a pesquisadora constatou que apenas seis poços possuíam água sem contaminantes fecais na época da seca e sete no período chuvoso. Procurada, a Norte Energia não comentou os resultados das pesquisas.

    Nem mesmo ribeirinhos que vivem em áreas mais distantes da usina e não precisaram abandonar suas casas ficaram imunes. Moradores da comunidade a jusante de Vila Nova, que soma 156 famílias, relatam que hoje precisam de seis dias para obter a mesma quantidade de peixes que antes pescavam em dois. Além disso, os peixes são menores e há dificuldade em comercializá-los. “Em Altamira é possível comprar peixes de outras regiões do Pará e de Santa Catarina. Apenas um supermercado vendia peixe local em 2015”, diz Miquéias Calvi.

    Removido da casa onde vivia por causa da construção da hidrelétrica, morador desmancha palafita em área próxima ao igarapé AltamiraLalo de Almeida / Folhapress

    Calvi investigou os impactos de Belo Monte na produção rural na região de Altamira. “A promessa era de que o aumento da população e da demanda por alimentos iria beneficiar o produtor local”, observa. No entanto, três anos após o início da obra, 60% dos agricultores familiares haviam abandonado suas lavouras temporárias. Os cultivos de arroz, feijão, milho e mandioca caíram de 40 mil hectares em 2011 para 20 mil hectares em 2017.

    Emilio Moran acredita que muitos dos problemas constatados na pesquisa poderiam ter sido evitados se o licenciamento da usina tivesse sido precedido de um adequado Estudo de Impacto Ambiental e o respectivo Relatório de Impacto Ambiental (EIA-Rima). Para isso, e como determina a legislação brasileira, seria necessário estudar antecipadamente a região, em seus aspectos físicos e humanos, e ouvir as comunidades locais. Órgãos públicos como o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), avalia Moran, também deveriam ter “capacidade e vontade política” para negar licenças, se constatado que determinado empreendimento não atende as obrigações da legislação brasileira e as recomendações do relatório de impacto social e ambiental.  “Isso nunca ocorre no Brasil”, lamenta. “Os estudos são feitos, mas as obras começam sem a resolução dos problemas apontados nos estudos.”

    O físico José Goldemberg, do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEA-USP) e ex-secretário nacional do Meio Ambiente e de Ciência e Tecnologia, concorda apenas parcialmente com as críticas. Segundo ele, muitos dos impactos socioambientais de Belo Monte poderiam, de fato, ter sido evitados e a empresa deveria ser responsabilizada pelos danos gerados. No entanto, Belo Monte, pondera, não pode ser julgada apenas pelos danos sociais, mas também pelos benefícios gerados para o abastecimento energético de todo o país.

    Em sua opinião, as hidrelétricas na Bacia Amazônica devem ser avaliadas caso a caso, levando em consideração sua viabilidade diante dos custos de mitigar os impactos socioambientais e diante dos possíveis efeitos das mudanças climáticas, mas não devem ser descartadas a priori. “O Brasil precisa expandir sua produção de eletricidade e uma hidrelétrica, entre as opções que garantem geração firme, constitui alternativa melhor do que as usinas que utilizam combustíveis fósseis e do que as nucleares”, avalia.

    Questões

    Por que a vazão do rio Xingu oscila ao longo do ano e de que forma isso afeta a produção de energia hidrelétrica?

    A produção energia elétrica através de uma hidrelétrica é considerada uma fonte limpa? Justifique.

    Explique o papel do Estado brasileiro na produção de energia elétrica?

    Aponte os impactos socioambientais ligados a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.

    Prof Luciano Mannarino

  • Enviar arroz à África nunca vai conter a migração para a Europa, diz escritor de Gana

    Enviar arroz à África nunca vai conter a migração para a Europa, diz escritor de Gana

    Ousman Umar defende ampliar acesso digital aos jovens para resolver pobreza e conter deslocamentos

    10.abr.2021 às 23h15

    Rafael Balago

    SÃO PAULO

    Para o escritor e ativista Ousman Umar, o caminho para tirar a África da pobreza passa por empoderar os jovens, e não por doar toneladas de arroz e comida.

    Ele criou a Nasco Feeding Minds, ONG que busca ampliar o acesso dos jovens em Gana ao mundo digital, para que eles aprendam e pensem formas de melhorar a África. A educação também é caminho para evitar que eles caiam nas promessas de traficantes que tentam convencê-los a tentar ir para a Europa, em viagens arriscadas que incluem a travessia do deserto e do mar Mediterrâneo em condições precárias.

    O escritor ganês Ousman Umar, autor de "Viagem ao País dos Brancos"
    O escritor ganês Ousman Umar – Divulgação

    “Vivi cinco anos infernais tentando chegar à Europa e não quero que ninguém passe mais por isso”, diz Umar. Ele chegou à Espanha em 2005 e lançou dois livros sobre sua vida: “Viaje al País de Los Blancos”, em 2019, sobre sua travessia, e “Desde el País de los Blancos”, lançado no mês passado, no qual conta as dificuldades para se adaptar à Europa.

    Umar, 32, participou do festival virtual Viva Livro, que reuniu autores que escrevem sobre migração, e falou com a Folha por telefone, de Gana. Abaixo, os principais trechos da conversa.

    Como a pandemia tem afetado a migração da África para a Europa? 

    Barcos com imigrantes seguem chegando. Cada vez mais gente quer ir embora, especialmente fugindo de guerras como as da Síria e da Líbia. A situação econômica piorou no mundo inteiro, mas na África piorou mais, porque os países eram mais pobres e já tinham problemas que vinham de muito antes.

    Como está a pandemia em Gana? 

    Em geral, há menos gente contaminada e mortes por coronavírus do que no Ocidente. Estou em Gana agora, e a situação está dez vezes melhor do que em Barcelona. A África viveu muitas outras epidemias recentemente, enquanto a Europa não tinha uma há quase cem anos, então sabe como fazer uma gestão melhor. Há casos em que há uma UTI para cada 1 milhão de habitantes, e, já que não temos como curar, temos que evitar que a enfermidade chegue. Na África, a população é muito mais jovem, e o coronavírus traz mais danos aos maiores de 50 anos, o que também é um fator.

    Quais foram os momentos mais marcantes de sua jornada até a Europa? 

    Com nove anos, deixei meu povoado e fui trabalhar na cidade. Aos 13, comecei uma viagem que passou por oito países da África. Cruzei parte do Saara a pé. Começamos a viagem em 46 pessoas, e só seis chegaram ao final com vida.

    Na Líbia, cheguei sem dinheiro, sem celular e sem falar árabe. Chegava a uma cidade, trabalhava em qualquer coisa, que ninguém queria fazer, para juntar dinheiro e pagar um táxi até o povoado seguinte. Por isso, demorei cinco anos até chegar à Europa. Cinco anos infernais, cruéis. Por isso, decidi que ninguém merece viver o que vivi.

    Fui tentar atravessar o Mediterrâneo em 2005. Traficantes disseram que em 45 minutos chegaríamos ao paraíso. Na primeira tentativa, 180 pessoas morreram. Na segunda, fiquei 48 horas sentado em um barco, sem comer ou beber, sem saber nadar e com a agonia de pensar que poderia morrer a qualquer momento.

    Ao chegar em terra, o grupo corre pela praia e se espalha pelas dunas; a Espanha recebeu nos sete primeiros meses de 2017 17 mil migrantes, o dobro do que tinha recebido no mesmo período do ano passado, segundo o governo.
    Ao chegar em terra, o grupo corre pela praia e se espalha pelas dunas; a Espanha recebeu nos sete primeiros meses de 2017 17 mil migrantes, o dobro do que tinha recebido no mesmo período do ano passado, segundo o governo. Jon Nazca/Reuters

    E como foi depois de chegar à Espanha? 

    Consegui a autorização para poder entrar, mas onde viver? Fiquei dois meses dormindo na rua em Barcelona, sem que ninguém me olhasse na cara. Nem no deserto me senti tão só. Tive a sorte que uma família me acolheu. Na primeira noite que dormi em uma casa, chorei como uma criança. Me perguntava o que eu tinha feito de mal para merecer tanta tortura e crueldade. E aí percebi que tinha dois propósitos: dar voz aos companheiros que não conseguiram chegar com vida [à Europa] e evitar que novos jovens caiam nesta armadilha infernal.

    Como fazer isso? 

    Assumi minha responsabilidade, como se fosse o presidente do meu país. Usei o dinheiro que ganhei como mecânico de bicicletas, juntei com empréstimos e doações de alguns amigos e comprei 45 computadores, em 2012. Contratei dois professores em Gana, que atuavam em duas escolas com aulas para inclusão digital. Hoje atuamos em 30. E sem ajuda de nenhum governo, só de pessoas que ouvem nossa história.

    A caridade não vai mudar a África. Enviar toneladas de arroz não funciona e nunca vai funcionar. Faz-se isso há 60 anos e tudo segue igual. Tem que mudar a estratégia. Nossa ONG alimenta mentes. Chega de pensar só em estômagos. A única maneira de retirar a África da pobreza é empoderar as pessoas. Temos de alimentar as mentes dos jovens, que são ambiciosos e têm tantos anseios, para que eles mudem as coisas partindo de dentro.

    Nas últimas eleições de Gana, tivemos o candidato mais jovem a chegar ao Parlamento. Não gosto da política. Tanto faz se você pensa verde, vermelho ou amarelo. O que gosto é de ver o exemplo para que muitos jovens vejam que a África tem muito potencial.

    Como vê o efeito de movimentos de valorização dos negros, como o Black Lives Matter? 

    Estamos vivendo uma época de mudanças. Mas, embora haja intenções, as coisas vão muito lentas. Cheguei à Espanha em 2005, analfabeto. Em menos de dez anos, estava estudando na Universidade de Barcelona. Química, porque queria entender se a magia negra era verdade ou não. E eu era “o” negro da universidade. O único.

    Para os imigrantes que chegam à Espanha, não há outro caminho a não ser os piores trabalhos, como colher tomates no campos, sem contrato, porque a lei migratória criminaliza o imigrante. Sem documentos, só resta trabalhar em coisas que os espanhois não querem fazer.

    O ator Johnathan Majors na capa da QG americana de outubro; três personalidades negras estiveram na capa da revista neste ano
    O ator Johnathan Majors na capa da QG americana de outubro; três personalidades negras estiveram na capa da revista neste ano QG/Reprodução

    No ano passado, vieram 240 pessoas para Lleida, uma cidade na Catalunha, para colher maçãs. Como havia a questão do vírus, ninguém os acolheu, e eles ficaram dormindo em uma praça por duas semanas. Até que um deles fez um vídeo, contando a história, e postou no Facebook. Um jogador de futebol do Mônaco [Keita Baldé] viu o vídeo e se dispôs a pagar um hotel para que as pessoas deixassem de dormir na rua, como animais. Os hotéis estavam vazios, mas não quiseram alugar um quarto para essas pessoas, porque eram negras. Por outro lado, se morre um americano negro nos Estados Unidos, todo mundo posta “black lives matter” em seus perfis. Mas falta atuar de verdade. Isso realmente faz falta.


    RAIO-X

    Ousman Umar, 33
    Nascido em Gana, migrou para Espanha, onde se formou em relações públicas e marketing na Universidade de Barcelona. Escreveu dois livros, sobre sua travessia até a Europa e sobre as dificuldades de se adaptar à vida no continente. É fundador da ONG Nasco Feeding Minds, que busca ampliar o acesso de jovens em Gana ao mundo digital

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/04/enviar-arroz-a-africa-nunca-vai-conter-a-migracao-para-a-europa-diz-escritor-de-gana.shtml

    Prof Luciano Mannarino