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  • Juventude e fronteiras no Mercosul

    Juventude e fronteiras no Mercosul

    A transição para a vida adulta para os que vivem nas áreas fronteriças é particularmente complexa

    24.jun.2021 às 9h30

    Nahuel Oddone – Doutor em estudos internacionais (UPV/EHU) e chefe de Promoção e Intercâmbio de Políticas Sociais no Instituto Social do Mercosul (ISM)

    Em 2019, mais de 60 milhões de adolescentes e jovens de 10 a 24 anos viviam nos Estados membros do Mercosul, de acordo com estatísticas da Divisão de População das Nações Unidas.

    Na Argentina representavam 23,5%; no Brasil, 23,2%; no Paraguai, 28,5%; no Uruguai, 21,6%.

    Entretanto, nas localidades fronteiriças mais povoadas, essa média é significativamente maior, devido a uma colonização tardia do território, como no caso de Ciudad del Este (Paraguai), ou devido à atração da migração interna ou internacional, como em Foz de Iguaçu.

    A América Latina e o Caribe estão passando por um processo de transição demográfica acelerado.

    E, apesar dos diferentes estágios demográficos que os países da região estão experimentando, a região ainda tem uma janela de oportunidade conhecida como o “bônus demográfico”.

    DESAFIOS E OPORTUNIDADES

    A dimensão da fronteira é sem dúvida uma variável chave que influencia as condições e oportunidades de desenvolvimento para adolescentes e jovens.

    A transição para a vida adulta para aqueles que vivem nessas áreas é particularmente complexa.

    Em algumas áreas, foi detectada uma série de problemas sociais decorrentes da reprodução precoce, do abandono escolar e da dificuldade de acesso ao emprego, que muitas vezes ocorre no contexto de uma economia informal e, às vezes, ilícita.

    Todos esses fatores contribuem para perpetuar a transmissão intergeracional da pobreza e limitar as oportunidades de desenvolvimento.

    A falta de acesso a serviços básicos como saúde, educação e trabalho tem um impacto no bem-estar pessoal e coletivo e afeta os processos decisórios individuais.

    Na medida em que adolescentes e jovens aumentam sua autonomia progressiva e conseguem plena integração social, eles terão melhores condições para alcançar seu pleno potencial.

    Vila Thomaz Albornoz, território brasileiro reivindicado pelo Uruguai
    Vila Thomaz Albornoz, território brasileiro reivindicado pelo Uruguai Fábio Zanini/Folhapress
    A NECESSIDADE DE POLÍTICAS PÚBLICAS FOCALIZADAS

    Nesse contexto, há quatro fatores que demonstram a necessidade do desenho de políticas focalizadas que levem em conta o território fronteiriço e o ciclo de vida das pessoas que ali vivem.

    Primeiro, a cobertura de saúde de adolescentes e jovens é menor, com maior precariedade em comparação com as crianças ou com as pessoas idosas.

    Da mesma forma, aqueles jovens que tiveram cobertura de saúde por meio de seus pais tendem a perdê-la após os 18 anos de idade.

    Em segundo lugar, o abandono escolar tende a ser maior nos últimos anos do ensino médio, porque os jovens começam a trabalhar ou a ajudar em novas tarefas. Aqueles que conseguem terminar o ensino médio enfrentam maiores desafios para entrar na universidade.

    Há poucos (ou nenhum) programas que acompanhem a transição do ensino médio para a universidade.

    Enquanto na faixa etária de 15 a19 anos nas cidades fronteiriças de Posadas (Argentina), Encarnación (Paraguai), Santana do Livramento, Rivera (Uruguai), Concordia (Argentina) e Ciudad del Este (Paraguai) mais de 70% frequentam um estabelecimento de ensino, na faixa etária de 20 a 24 anos em quase todos os casos fica abaixo de 50%.

    Em terceiro lugar, há uma maior informalidade econômica.

    Na América Latina, a informalidade é de 54%, em média, segundo a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) e a OIT (Organização Internacional do Trabalho), mas essa porcentagem tende a aumentar substancialmente à medida que nos aproximamos das fronteiras.

    A atração de uma parte importante da força de trabalho jovem para empregos precários tem duas consequências principais.

    Por um lado, as pessoas que entram na economia informal tendem a permanecer nela, afetando a solidariedade dos sistemas de proteção social.

    Por outro lado, os homens jovens tendem a migrar da informalidade para a ilegalidade.

    Como consequência, há uma alta exposição de jovens fronteiriços a fazer parte de redes de contrabando e tráfico.

    Em quarto lugar, a população de mulheres na faixa etária de 20 a 24 anos que não estudam nem trabalham nas maiores cidades fronteiriças do Mercosul é significativa, chegando a 38,6% em Rivera. Na faixa etária seguinte, 25 a 29 anos, porcentagens semelhantes são observadas.

    As pesquisas sobre o “uso do tempo” geralmente escondem a carga de cuidados que as mulheres assumem dentro do lar (trabalho não remunerado), seja o cuidado de irmãos mais novos ou crianças, ou tarefas de limpeza doméstica, entre outros, afetando o desenvolvimento de seus projetos pessoais.

    Indígena da etnia pemón foge em trilha de mata para o Brasil carregando os filhos gêmeos
    Indígena da etnia pemón foge em trilha de mata para o Brasil carregando os filhos gêmeos Fabiano Maisonnave/Folhapress
    OS EFEITOS DA PANDEMIA

    A pandemia de Covid-19 teve um forte impacto nas fronteiras. O fechamento truncou a dinâmica social e o uso de serviços transfronteiriços.

    Além do fato de que o impacto tem sido diferencial por cidade, a incerteza tem “congelado” projetos de natureza mais individual.

    Os desafios impostos pela pandemia aumentaram a necessidade de maior investimento social, coordenação das ações nas fronteiras e garantia de coesão social a fim de contribuir para superar a interseccionalidade das lacunas que afetam suas populações.

    Dentro dessa estrutura, é provável que as mulheres jovens enfrentem novos desafios para conseguir uma maior e melhor participação na reativação econômica pós-Covid-19.

    Por isso, são necessárias intervenções específicas para garantir sua participação em programas de treinamento profissional e empreendedorismo, bem como a criação de novos espaços de cuidados que permitirão que mais mulheres com crianças se juntem à força de trabalho formal.

    Além das dificuldades envolvidas em habitar esses espaços, a dimensão da fronteira é uma oportunidade.

    A identidade fronteiriça de adolescentes e jovens é um valor diferencial que permite gerar projetos de vida intercultural mais associativos e respeitosos da diversidade.

    É também uma oportunidade para implementar novas formas de participação e inovação social que fortalecem sua capacidade de influenciar a agenda pública.

    O desenvolvimento de uma cidadania no Mercosul que realce o papel da juventude fronteiriça é fundamental para a sustentabilidade da integração regional.

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    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/latinoamerica21/2021/06/juventude-e-fronteiras-no-mercosul.shtml

    Questões

    1 O que seria o “bônus demográfico”? Cite um aspecto positivo ligado a ele.

    2. O que são “cidades gêmeas” ? Baseado no texto, aponte um exemplo.

    3 Explique a criação do Mercosul.

    4. Quais seriam as políticas públicas focalizadas que atenderiam as demandas da população jovem que vivem no território fronteiriço do Mercosul?

    4. Faça uma pequeno resumo (cinco linhas) sobre os aspectos que o texto aborda.

    América do Sul: um espaço migratório regional ‘quase perfeito

    Em cúpula, Lacalle Pou defende Mercosul sem alinhamento com EUA ou China..

    Prof Luciano Mannarino

  • Non pessiore Dio…

    Non pessiore Dio…

    Non pessiore Dio…

    Bisavó Maria Tereza chegou ao Brasil por volta da década de 1950.
    Reclusa e sempre vestida de negro, não falava uma palavra em português.
    Meu avô fez um cantinho para ela na casa e ali vivia.

    Toda tarde, por volta das 18:00, se recolhia e de joelhos rezava com absoluta fé sob os olhos dos netos que admiravam seu compromisso com Deus

    Non peggiorare Dio, lascialo così com’è, non peggiorare

    Em suas preces havia uma pessoa que pedia para que as coisas não piorassem.

    Não queria mais sofrer!

    Logo após, se erguia com muita dificuldade e sentava próxima a janela para contemplar o entardecer.

    Maria Tereza havia finalmente encontrado paz depois de ter vivido duas Grandes Guerras Mundiais.

    Luciano Mannarino

  • Armas nucleares podem ser salvação da cúpula entre Biden e Putin

    Armas nucleares podem ser salvação da cúpula entre Biden e Putin

    Primeira reunião dos líderes ocorre sob forte pessimismo nesta quarta em Genebra

    Igor GielowSÃO PAULO

    Razão última pela qual reuniões de cúpula entre presidentes americanos e russos são objeto de atenção mundial, as armas nucleares podem ser a tábua de salvação do encontro de Joe Biden com Vladimir Putin nesta quarta (16).

    Os líderes farão em Genebra, na Suíça, a primeira reunião com Biden como presidente. Um cardápio indigesto de temas já foi adiantado por ambos em entrevistas, com o reforço de que ninguém vai mudar de posição e que avanços são altamente improváveis.

    Biden deixa o avião presidencial após aterrissar no aeroporto de Genebra, cidade onde irá se encontrar com Putin
    Biden deixa o avião presidencial após aterrissar no aeroporto de Genebra, cidade onde irá se encontrar com Putin – Denis Balibouse/Pool/Reuters

    Entram nessa lista a guerra civil na Ucrânia, o apoio russo à ditadura na Belarus e a opressão do Kremlin aos opositores domésticos como Alexei Navalni.

    Biden já disse que vai riscar “linhas vermelhas”, algo que seu ex-chefe Barack Obama tentou com Putin na Síria, só para ser humilhado. E o russo disse que as diferenças são claras.

    Sobram assuntos menores, como a retomada de atividades diplomáticas de lado a lado e talvez algum debate sobre o futuro da guerra civil no país árabe. E as armas nucleares.

    O primeiro gesto de política externa de Biden foi estender por cinco anos, como queria Putin, o último tratado vigente de limitação de armas nucleares. O antecessor do americano, Donald Trump, havia retirado os EUA de dois outros acordos e queria deixar o Novo Start caducar.

    Biden reverteu o último ponto e agora há espaço para negociar novos limites, regimes de inspeção e talvez até incluir armas mais sofisticadas, como os mísseis hipersônicos desenvolvidos pela Rússia.

    “Nós instamos os líderes a aproveitar a oportunidade e fazer progressos significativos para reduzir arsenais e rumar à adesão ao Tratado de Proibição de Armas Nucleares”, afirmou Beatrice Fihn, diretora-executiva da Campanha Internacional pela Abolição de Armas Nucleares (Ican, na sigla inglesa).

    Ela e uma sobrevivente do ataque atômico a Hiroshima em 1945 receberam, em 2017, o Prêmio Nobel da Paz concedido à Ican. Mas sua visão é otimista, sendo confrontada pela realpolitik: não se espera que os donos de 90% das armas nucleares do planeta renunciem a seus arsenais. “O risco do uso de armas é maior hoje do que na Guerra Fria”, disse Fihn. “O único modo de eliminar o risco é eliminar as bombas.”

    O presidente dos EUA, Joe Biden, e sua esposa, a primeira-dama Jill Biden (esq.), posam com a rainha Elizabeth durante encontro no Castelo de Windsor, logo antes de irem tomar chá juntos
    O presidente dos EUA, Joe Biden, e sua esposa, a primeira-dama Jill Biden (esq.), posam com a rainha Elizabeth durante encontro no Castelo de Windsor, logo antes de irem tomar chá juntos Steve Parsons /AFPL

    Em relatório divulgado nesta semana, o Instituto Internacional da Paz de Estocolmo afirmou que tanto russos como americanos ampliaram em cerca de 50 ogivas seus arsenais em 2020. “No ano passado, EUA e Rússia gastaram juntos US$ 45,5 bilhões desenvolvendo e mantendo seus arsenais”, afirmou a ativista.

    Para ela, seria importante coibir as novas formas de emprego da bomba. “A expansão qualitativa é tão perigosa quanto o aumento dos números de ogivas, e nós vimos como essas tecnologias emergentes podem aumentar o risco de uso das armas”, disse Fihn.

    Seja como for, ambos os líderes pretendem capitalizar o embate suíço.

    Biden poderá aparecer como alguém firme, o que pega bem em casa e é notado pelos rivais em Pequim. Putin, por sua vez, fará o mesmo ante sua audiência doméstica —fora que a hostilidade de um americano que já o chamou de assassino pode ser usada para justificar a repressão à oposição apoiada pelos EUA.

    Tema/statusDo que se trataPosição de BidenPosição de Putin
    Ucrânia
    Sem acordo
    País perdeu a Crimeia e leste é ocupado por rebeldes pró-KremlinBusca pacificar a região e trazer a Ucrânia para a UE e para a OtanQuer manter áreas rebeldes autônomas e não aceita Kiev ocidental
    Belarus
    Sem acordo
    Repressão política pós-eleição isolou o país, que tem apoio de MoscouPrepara novas sanções contra a ditadura e quer mudança de regimeQuer manter o status quo e talvez promover a unificação dos países
    Alexei Navalni
    Sem acordo
    Opositor foi preso após ser envenenado e sua organização, fechadaQuer Navalni solto e pede melhoria nos direitos humanos na RússiaConsidera que são assuntos internos e vê interferência ocidental
    Otan
    Sem acordo
    Aliança militar tem missão anti-Rússia renovada sob BidenAmericano quer manter pressão e agradar os aliadosReforça sua posição militar na fronteira com a Europa
    Ciberataques
    Sem acordo
    EUA acusam Rússia por série de ataques em 2016 e 2020Vai fazer a acusação e ameaçar medidas retaliatóriasNega a acusação, que chama de paranoia ocidental
    Sanções
    Sem acordo
    Desde 2014 EUA e Europa aplicam sanções econômicasDesde que assumiu, manteve e ampliou as medidasCritica sanções como atos de agressão internacional
    Vacinação
    Sem avanço
    Países competem na geopolítica do imunizanteQuer distribuir de graça 500 mi de doses em um anoQuer ver a Sputnik V aprovada na Europa
    Energia
    Avanço difícil
    Putin está completando um novo gasoduto com a AlemanhaAplica sanções à obra, que amplia dependência europeiaVê obra como fato consumado e conta com pragmatismo
    Síria
    Pode haver avanço
    Guerra civil tem seu fim travado devido a impassesSem cartas, pode bancar paz nos termos do KremlinPode rifar ditador Assad em troca de seguir no país
    Armas nucleares
    Deve haver avanço
    Países precisam renegociar acordo de limitaçãoAceitou termos de Putin e deve seguir em frenteEstá satisfeito, mas não quer incluir novos mísseis
    Embaixadas
    Deve haver avanço
    Embaixadores foram retirados e há restrições de movimentoDeve aceitar uma retomada da normalidadeDeve aceitar uma retomada da normalidade

    Biden chegou nesta terça (15) a Genebra, onde se encontrou com autoridades suíças. Disse que “sempre estou pronto”, ao ser questionado sobre a beligerância previsível na reunião.

    Na véspera, ele havia dito que não buscava um conflito com a Rússia, mas que o país precisa ser responsabilizado por ações agressivas. Ele falava em Bruxelas, onde se encontrou com a cúpula da Otan, a aliança militar ocidental demonizada por Putin.

    O comunicado final do encontro, que incluiu pela primeira vez a China como uma preocupação estratégica do clube, manteve Moscou como a principal ameaça à segurança dos Estados-membros.

    Tanques ucranianos fazem manobras perto de Donetsk
    Tanques ucranianos fazem manobras perto de Donetsk Forças Armadas da Ucrânia – 14.abr.2021/Via Reuters

    Putin deverá chegar pela manhã, e o encontro começará às 13h (8h em Brasília) no histórico palacete Villa La Grange, no parque homônimo, quase em frente ao famoso jato d’água do lago Genebra e não muito distante da Villa Diodati, palco da famosa competição etílico-literária patrocinada pelo lorde Byron em 1818, da qual nasceu o “Frankenstein” de Mary Shelley.

    A segurança envolve quase 4.000 policiais e militares, e o formato da cúpula reflete o clima entre os dois presidentes, o pior desde a Guerra Fria entre Moscou e Washington.

    Não haverá almoço, e as conversas vão durar de quatro a cinco horas, presenciadas na maior parte do tempo pelo secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, e pelo chanceler russo, Serguei Lavrov, assessorados pela tropa usual de intérpretes.

    Ambos os líderes serão recebidos pelo presidente suíço, Guy Parmelin, que irá deixá-los na biblioteca do palacete.

    Será a trigésima reunião entre ocupantes da Casa Branca e do Kremlin desde que os países tomaram rumos rivais ao fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, após terem lutado juntos contra o Eixo.

    O encontro mais recente foi em outro país com fama de neutro, a Finlândia, em 2018. Nele, Trump impressionou negativamente os EUA ao aceitar a negativa de Putin de que teria havido influência de hackers russos na eleição americana de 2016 —em favor do republicano.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/06/armas-nucleares-podem-ser-salvacao-da-cupula-entre-biden-e-putin.shtml

    Questões

    1 Por que a Cidade de Genebra é constantemente usada como palco para costurar acordos de limitação de armas nucleares?

    2 Por que Beatrice Fihn recebeu o Premio Nobel da Paz de 2017?

    3 Embora lutarem juntos na 2 Guerra Mundial, Russos e Americanos se tornaram rivais logo após o seu término. Por quê?

    4 Explique a posição de americanos e russo em relação a questão da Ucrânia.

    5 O que é o Novo Start?

    Prof Luciano Mannarino

  • O estranho comportamento do núcleo da Terra que intriga os cientistas

    O estranho comportamento do núcleo da Terra que intriga os cientistas

    Por razões desconhecidas, o núcleo interno do nosso planeta, uma massa compacta de ferro e níquel, está crescendo mais rápido de um lado que do outro

    15.jun.2021 às 15h30

    BBC NEWS BRASIL

    A milhares de quilômetros abaixo da terra, está ocorrendo um fenômeno científico que ninguém sabe explicar.

    É que o núcleo interno do nosso planeta, uma massa compacta de ferro e níquel, está crescendo mais rápido de um lado que do outro.

    Um estudo realizado por sismólogos da Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos, e publicado na revista científica Nature Geoscience, revelou que a área do núcleo, localizada numa zona abaixo do mar de Banda, na Indonésia, é maior que a parte que se encontra no outro extremo, debaixo do Brasil.

    Terra é formada por várias camadas, como uma cebola
    Terra é formada por várias camadas, como uma cebola – Science Photo Library

    Por meio de simulações de computador, os especialistas criaram uma espécie de mapa que mostra o crescimento do núcleo da Terra durante os últimos 1 bilhão de anos.

    E chegaram à conclusão que ele se comportou num “padrão desequilibrado”, com novos “cristais de ferro” que se formam mais rapidamente do seu lado asiático.

    “O lado oeste tem aparência diferente do lado leste até o centro, não só na parte superior do núcleo interno, como alguns sugeriram. A única maneira de explicar isso é que um lado esteja crescendo mais rápido que o outro”, disse Daniel Frost, um dos cientistas que participaram da pesquisa, em um comunicado.

    De acordo com os especialistas, esse fenômeno tem implicações para o campo magnético da Terra (que nos protege das partículas perigosas do Sol).

    Isso porque o campo magnético é formado pela convecção no núcleo externo, impulsionada pela liberação de calor do núcleo interno.

    AS EVIDÊNCIAS

    O interior da Terra é formado por camadas parecidas com as de uma cebola. A última delas (a mais profunda) é o núcleo interno sólido de ferro e níquel, que tem um raio de 1.200 km, aproximadamente três quartos do tamanho da Lua.

    Ele é rodeado por um núcleo externo fluido de ferro fundido e níquel, de aproximadamente 2.400 km de espessura. O núcleo externo, por sua vez, é circundado por um manto de rocha quente com 2.900 km de espessura e coberto por uma fina crosta rochosa fria na superfície.

    Por meio do estudo de ondas sísmicas, os especialistas analisam como se comportam essas camadas, mas faz anos que têm notado que as ondas não se distribuem na mesma direção quando viajam entre os polos e na zona equatorial.

    Essa suposição foi a base para a compreensão de que poderia haver uma certa diferença no núcleo da Terra, responsável por esse fenômeno.

    “O movimento do ferro líquido no núcleo externo retira o calor do núcleo interno, fazendo com que ele congele”, disse Frost na revista científica Live Science.

    “Isso significa que o núcleo externo tem recebido mais calor do lado leste [sob a Indonésia] do que do oeste [sob o Brasil]”, acrescentou.

    Segundo o cientista, a melhor forma de visualizar o que está acontecendo a milhares de quilômetros de profundidade é imaginar um corte do tronco da árvore formado por anéis de crescimento que partem de um ponto central.

    O centro dos anéis, neste caso, seria deslocado do centro da árvore, de modo que os círculos fiquem mais espaçados no lado leste da árvore e mais próximos no lado oeste.

    No entanto, este crescimento mais rápido sob o mar da Indonésia não deixou o núcleo desequilibrado, explicam os cientistas.

    A gravidade distribui o novo crescimento uniformemente, mantendo o núcleo interno esférico e expandindo seu raio em média um milímetro por ano.

    A IDADE DO NÚCLEO

    As simulações por computador permitiram também aos sismólogos estabelecer uma data mais precisa para a formação do núcleo terrestre.

    E sabe-se que o núcleo se formou quando a Terra já havia se organizado, aparentemente a partir da concentração de metais como ferro e níquel.

    “Determinamos limites bastante flexíveis para a idade do núcleo interno, entre 500 e 1,5 bilhão de anos, o que pode ajudar no debate sobre como o campo magnético foi gerado antes que o núcleo interno sólido existisse”, disse Barbara Romanowicz, outra pesquisadora que participou do estudo.

    “Sabemos que o campo magnético já existia 3 bilhões de anos atrás, então outros processos devem ter conduzido a convecção no núcleo externo naquela época”, acrescentou.

    De acordo com a pesquisa, a idade mais jovem do núcleo interno pode significar que, no início da história da Terra, o calor que fervia o núcleo do fluido vinha de elementos leves que se separaram do ferro, não da cristalização deste metal.

    https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2021/06/o-estranho-comportamento-do-nucleo-da-terra-que-intriga-os-cientistas.shtml

    Questões

    1 Caracterize cada uma das principais camadas do interior do nosso planeta.

    2 De que forma os cientistas analisam o comportamento das camadas internas do nosso planeta?

    3 Explique a formação do campo magnético do nosso planeta e destaque sua importância.

    CAMADAS DA TERRA E ESCALA GEOLÓGICA DO TEMPO (vídeo e atividades)

    Prof Luciano Mannarino

  • ‘Sovietistão’ equilibra história e relato de viagem em ex-nações soviéticas

    ‘Sovietistão’ equilibra história e relato de viagem em ex-nações soviéticas

    4.jun.2021 às 20h00

    Carlos Graieb SÃO PAULO

    Rota da seda. Gás e petróleo. Herança soviética. O Mar de Aral que está secando. Ditadores malucos. Rapto de esposas. Estepe. Montanhas. Para mim (e acredito que para um imenso número de pessoas), a Ásia Central era isso até a semana passada: informação fragmentada e sem ordem. A leitura de “Sovietistão”, da escritora e antropóloga norueguesa Erika Fatland, pôs fim a essa bagunça.

    O livro é produto de oito meses de estadia nos cinco Estados centro-asiáticos que foram parte da União Soviética até 1991 e hoje existem de forma independente: Cazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Quirguistão e Tadjiquistão.

    Mulher segura bandeira da antiga União Soviética durante manifestação para comemorar o 151º aniversário denascimento do líder comunista Vladmir Lenin no Quirguistão
    Mulher segura bandeira da antiga União Soviética durante manifestação para comemorar o 151º aniversário de nascimento do líder comunista Vladmir Lenin no Quirguistão – Viacheslav Oseledko – 22.abr.2021/AFP

    Como as melhores narrativas de viagem, esta consegue equilibrar perspectiva histórica e testemunho pessoal com grande habilidade. Assim, cada um dos cinco países se separa da massa indistinta dos “istãos”, que tiveram as diferenças aplainadas pelo regime soviético, e emerge com seu passado, suas etnias, suas paisagens e suas peculiaridades sociais e políticas delineados de maneira clara.

    As distinções são necessárias, pois, como observa Fatland, os cinco países são “notavelmente dissimilares”. Enquanto mais de 80% do Turcomenistão é tomado pelo deserto, o Tadjiquistão é 90% montanhas. Enquanto o Cazaquistão nada em dinheiro, graças às suas reservas de gás, o Quirguistão depende em boa parte dos recursos enviados do exterior por gente que emigrou.

    Se o Turcomenistão é uma ditadura tão fechada quanto a Coreia do Norte (os dois países, aliás, insistem que não tiveram nenhum caso de Covid-19 graças à sabedoria de seus governantes) e talvez ainda mais bizarra, o Quirguistão tem votações democráticas e já depôs dois presidentes.

    As páginas em que Fatland expõe acontecimentos já distantes no tempo nunca são áridas. É assim, por exemplo, com sua explanação do “Grande Jogo”, a disputa entre os impérios britânico e russo que desenhou e redesenhou várias vezes o mapa da Ásia Central no século 19.

    É assim também com sua análise histórica das empreitadas soviéticas que provocaram devastação ambiental. A autora visitou a região de Semipalatinsk, no Cazaquistão, onde o regime de Moscou realizou a maioria de seus testes nucleares no século 20. Esteve, igualmente, nos extremos norte e sul do antigo Mar de Aral, que teve sua água roubada por grandes obras de irrigação na era soviética.

    Se a pesquisa dá estrutura ao livro, as experiências de Fatland lhe dão cor. A sorte a ajudou no Turcomenistão: depois de esperar horas debaixo do sol por uma corrida de cavalos que, todo mundo já sabia, teria o ditador Gurbanguly Berdymukhamedov como vencedor, ela o viu se estatelar no chão na linha de chegada.

    Depois da igreja, 1975
    Depois da igreja, 1975 Antanas Sutkus

    No Tadjiquistão, ela participa de um casamento em uma aldeia remota e dedica belas páginas descritivas à cerimônia e à paisagem. E atenção, fãs de Borat: no Quirguistão, e não no Cazaquistão do intrépido jornalista do cinema, ela explora a prática do rapto de esposas entrevistando mulheres que se resignaram a ela —e uma que se rebelou.

    Aquilo que Fatland não oferece é uma análise geopolítica mais ampla, que ponha os cinco países da Ásia Central em relação às potências econômicas e militares vizinhas, ou de outros continentes. A região está ensanduichada entre Rússia e China, mas apenas a ligação com a primeira recebe alguma atenção.

    A maneira como o Sovietistão se encaixa nos planos econômicos e políticos da China nem é arranhada, embora seja o fator mais importante para o seu futuro. Para quem quiser acrescentar essa peça ao quebra-cabeças, sugiro a leitura de “As Novas Rotas da Seda”, de Peter Frankopan, que tem edição portuguesa.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/06/sovietistao-equilibra-historia-e-relato-de-viagem-em-ex-nacoes-sovieticas.shtm

    Questões

    De que forma os ventos da “perestroika” e da “glasnost” se ligam ao título do texto jornalístico?

    Caracterizes cada um dos países da Ásia Central.

    O texto cita um grande impacto ambiental nessa região. Explique por que isso vem ocorrendo.

    Por que, no penúltimo parágrafo, o autor recorreu a uma palavra pouco usada para demostrar a situação geopolítica da região?

    Prof Luciano Mannarino