Tag: tarefas para aula de geografia

  • Por que Toyota, Ford e outras montadoras fugiram do ABC Paulista? (EM13CHS202)

    EM13CHS202    
    Analisar e avaliar os impactos das tecnologias na estruturação e nas dinâmicas de grupos, povos e sociedades contemporâneos (fluxos populacionais, financeiros, de mercadorias, de informações, de valores éticos e culturais etc.), bem como suas interferências nas decisões políticas, sociais, ambientais, econômicas e culturais.

    Fechada em 2019, fábrica da Ford é desmontada em São Bernardo do Campo (SP); espaço dará lugar a centro de logística

    Do UOL, em São Paulo (SP) 11/04/2022 04h00

    Formado por sete municípios da Região Metropolitana de São Paulo, o ABC é considerado o berço da indústria automotiva brasileira e chegou a abrigar quase a totalidade das fábricas de veículos instaladas no País entre as décadas de 1950 e 1970. Contudo, já faz tempo que o ABC já não tem a mesma relevância. Ao longo das últimas décadas, montadoras têm direcionado investimentos para outras localidades do Brasil e algumas, inclusive, decidiram fechar as fábricas que mantinham no histórico polo industrial paulista.

    Fechada em 2019, fábrica da Ford é desmontada em São Bernardo do Campo (SP); espaço dará lugar a centro de logística

    Neste mês, a Toyota anunciou o fechamento da sua fábrica em São Bernardo do Campo, uma das principais cidades do ABC, ao lado de Santo André e São Caetano do Sul. Inaugurada há 60 anos, a linha de produção era a primeira aberta pela marca oriental fora do território japonês. Além disso, em 2019 a Ford fechou sua fábrica no mesmo município, cujo terreno foi vendido e dará lugar a um centro de logística – após ter a aquisição descartada por montadoras…

    UOL Carros consultou especialistas para explicar os motivos dessa “fuga” do ABC – com a ressalva de que a região segue com fábricas de importantes montadoras, como General Motors, Mercedes-Benz, Scania e Volkswagen, que recentemente anunciaram investimentos bilionários para modernizar e ampliar a produção das respectivas unidades ali instaladas..

    Especificamente em relação às fábricas de Toyota e Ford, ouvimos que ambas tiveram o fechamento decretado por estarem defasadas tecnologicamente e não compensarem aporte de novos recursos para sua atualização. No caso da Toyota, a empresa decidiu transferir as atividades de São Bernardo para suas linhas mais recentes em Indaiatuba, Porto Feliz e Sorocaba, no interior paulista, com a justificativa de buscar mais “sinergia” e competitividade no mercado local.

    A unidade do ABC não produz veículos desde 2001, quando o Bandeirante saiu de linha, e hoje fabrica peças de motores. A previsão é de que feche definitivamente as portas no ano que vem.

    Já o adeus da fábrica da Ford em São Bernardo do Campo precedeu o fim das atividades em Taubaté (SP) e Camaçari (BA), no ano passado, quando a Oval Azul encerrou suas operações de manufatura em solo brasileiro. “Considero que, na visão da Toyota, o investimento para modernizar São Bernardo seria muito grande, levando em conta que a marca detém fábricas mais modernas e eficientes, nas quais já tem investido”, avalia Flavio Padovan, sócio da consultoria MRD Consulting e ex-executivo de montadoras como Ford, Volkswagen e Jaguar Land Rover..

    Em relação à Ford, Padovan entende que o fechamento já fazia parte dos planos de encerrar a produção no País. “Ainda assim, não dá para ignorar que a unidade do ABC era ineficiente e antiga, representava um custo morto, sem trazer benefício”.

    Guerra fiscal pulveriza investimentos.

    Segundo o consultor, não é coincidência o fato de as linhas de Toyota e Ford serem as mais defasadas das duas companhias. que, atraídas por vantagens tributárias e imobiliárias, já direcionavam os gastos para fora daquela região. “Assim como Detroit, nos EUA, o ABC foi o primeiro polo automotivo do seu país. Só que, ao longo dos anos, outros Estados e cidades iniciaram uma guerra fiscal e melhoraram a respectiva infraestrutura, enquanto as regiões pioneiras ficaram obsoletas para novos investimentos, que passaram a ficar restritos a companhias já ali consolidadas”.

    Desde os anos 1990, montadoras que ainda não produziam no Brasil preferiram se instalar fora do ABC Paulista, enquanto marcas já instaladas aqui também decidiram erguer novas fábricas em outros locais. Toyota e Honda foram para o interior de São Paulo; Renault e Volkswagen construíram linhas em São José dos Pinhais (PR); Ford investiu em Camaçari (BA); General Motors escolheu Gravataí (RS) para fazer o Chevrolet Onix; Nissan e Peugeot/Citroën selecionaram respectivamente, Resende e Porto Real. no Rio de Janeiro; Jeep elegeu Goiana (PE); e muito antes, lá nos anos 1970, Fiat preferiu Betim (MG) para dar início à sua atividade industrial no Brasil.

    Inaugurada há 60 anos, fábrica da Toyota em São Bernardo vai encerrar atividades no fim do ano que vem.

    O também consultor Ricardo Bacellar, sócio fundador da Bacellar Advisory Boards e conselheiro da SAE Brasil, avalia que os municípios do ABC ainda reúnem localização estratégica e excelente malha rodoviária para atraírem novos aportes de montadoras. Contudo, na ponta do lápis, têm perdido para a concorrência.

    “Por conta da exigência cada vez maior de investimentos para a produção de veículos mais seguros e eficientes, associada a um momento de baixas vendas e falta de componentes, as montadoras têm sido pressionadas como nunca a buscar o melhor custo-benefício na hora de investir”, afirma Bacellar. Dentro desse cenário, diz o especialista, os incentivos fiscais têm sido o principal atrativo, sobretudo na hora de defnir o local para a fabricação de novos produtos.

    Fabrica da Renault em São José dos Pinhais (PR); não é de ontem que montadoras têm preferido outras regiões.

    “As vantagens fiscais têm sido tão importantes que a Jeep preferiu erguer do zero todo um polo automotivo em Pernambuco, incluindo a cadeia de fornecedores. O órgão mais sensível é sempre o bolso e nesse caso não foi diferente.”

    Sindicato afugenta montadora?

    O ABC Paulista também é o berço do sindicalismo no Brasil e até hoje tem entidades atuantes – dentre elas, a mais emblemática é o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que atualmente faz campanha contra o fechamento da fábrica da Toyota em São Bernardo do Campo.

    Trabalhadores mobilizados e com representatividade forte teriam motivado o afastamento de montadoras da região? Para Ricardo Bacellar, o poder de negociação dos sindicatos lá instalados já foi “muito grande” na época em que o ABC reunia quase todas as fabricantes de veículos do País.

    “De fato, a questão sindical pode influenciar na decisão de onde construir uma fábrica. Porém, a mobilização de funcionários sindicalizados não é exclusividade do ABC e acontece em outras cidades. Acredito que esse critério faça mais sentido em locais ainda sem indústria instalada”, opina. Por sua vez, Flavio Padovan diz que sindicato “pesa” na hora de uma empresa decidir onde gastar seu dinheiro, mas não é um fator decisivo.

    “É natural que o sindicato exerça o direito de lutar por sua categoria. Ao longo do tempo, à medida que determinada região vai se desenvolvendo, os trabalhadores inevitavelmente vão se organizando”

    Procuramos o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC para se manifestar sobre a influência da entidade sobre a migração de investimentos para fora da região. A entidade se manifestou por meio de nota, que fala especificamente da fábrica da Toyota.

    “O Sindicato tem pautado políticas públicas que promovam o crescimento do setor industrial e garantam que as fábricas existentes possam se manter e até receber investimento, porém nem o governo do Estado nem o governo federal têm se movimentado em defesa da indústria. Isso é falta de uma política industrial. O Brasil necessita urgentemente de uma política industrial para que o setor possa voltar a gerar empregos. O ABC é mais um reflexo disso”.

    Fechamento não é problema local’, diz prefeito de SBC Fábrica da Ford em São Bernardo do Campo é desmobilizada; nenhuma montadora quis comprar instalações Imagem: André Paixão/Primeira Marcha Segundo Orlando Morando (PSDB), prefeito de São Bernardo do Campo, o fechamento das fábricas da Toyota e da Ford e o direcionamento do investimento das montadoras para outras cidades e Estados não têm relação com sua gestão.

    “O problema é a falta de uma política pública de parte do governo federal para a geração e a manutenção de empregos, o que inclui a necessidade de reforma tributária. Da forma como está, o município fica engessado na sua capacidade de agir”,

    Especificamente em relação à instalação de fábricas de montadoras no interior paulista, Morando destaca que, desde a década de 1950, o valor dos terrenos e também o custo de vida nas cidades do ABC explodiram. “Hoje, o valor do metro quadrado na Região Metropolitana de São Paulo é infinitamente superior na comparação com o interior.

    Não há condição de doar terreno para montadoras”, pontua o prefeito. Ele acrescenta que, assim como no caso da Ford, sua gestão trabalha para que o terreno da Toyota seja vendido para “gerar empregos” e não para empreendimento residencial que gere “especulação imobiliária”. Morando finaliza, informando as iniciativas que sua gestão adotou para atrair projetos industriais de montadoras ou de outros setores: IPTU congelado e com desconto condicionado à geração de empregos; ISS fixado em 2%; e extinção da taxa de incêndio.

    https://www.uol.com.br/carros/noticias/redacao/2022/04/11/por-que-toyota-ford-e-outras-montadoras-fugiram-do-abc-paulista.htm

    Questões

    O que é uma deseconomia de aglomeração?

    O que seria a “guerra fiscal”?

    Explique o contexto político e econômico da chegada das montadoras de automóveis a partir da década de 1950 no Brasil?

    O texto menciona uma outra localidade no mundo que passou por esse processo? Justifique.

    Prof Luciano Mannarino

  • O que é o Escoamento Superficial?

    Escoamento Superficial

    EF06GE04

    É o escoamento de água eu ocorre nas encostas, quando o solo se torna saturado. Essa pode ser uma tradução para o termo inglês runoff. Ele ocorre quando a capacidade de infiltração da superfície do solo é excedida e não consegue mais absorver água. As pequenas depressões do solo vão ficando cheias de água, que começa a escoar pela superfície.

    Logo no início do processo, há uma tendência de a água se escoar de forma mais ou menos irregular, pela superfície do terreno. Mas à medida que a chuva continua, o escoamento tende a ser mais bem distribuído, e nesse caso denomina-se de escoamento em lençol. Se a chuva continuar caindo, o escoamento pode começar a se canalizar em sulcos, formando as ravinas. Essas formas erosivas podem se alargar, ao longo do tempo, e dar origem a voçorocas.

    voçoroca – internet

    Nesse caso, quando o escoamento de água aprofunda essas formas erosivas, pode até alcançar o lençol freático, acontecendo, dessa forma, um escoamento de águas, mais frequente, dentro das voçorocas. Resumindo, o escoamento superficial é de importância capital, para se compreender os erosivos nas encostas.

    Fonte: Novo dicionário geológico-geomorfológico – Antonio Teixeira Guerra, Antonio José Teixeira Guerra. Rio de Janeiro – Bertrand Brasil, 1997.

    Prof Luciano Mannarino

    Cidades precisam mudar estratégia para lidar com águas

    Inundações e deslizamentos de terra na Coreia do Sul matam ao menos 26 (atividade)

    Tragédia em Petrópolis: chuvas de verão extremas são reflexo das mudanças climáticas?

  • Governo altera mapa do semiárido, inclui cidades do ES e exclui do Nordeste (EF06G03 – EF07GE02 – EF07GE09 – EM13CHS106)

    EM13CHS106    
    Utilizar as linguagens cartográfica, gráfica e iconográfica, diferentes gêneros textuais e tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais, incluindo as escolares, para se comunicar, acessar e difundir informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva

    EF06GE03
    DESCREVER OS MOVIMENTOS DO PLANETA E SUA REALÇÃO COM A CIRCULAÇÃO ATMOSFÉRICA, O TEMPO ATMOSFÉRICO E OS PADRÕES CLIMÁTICOS.

    EF07GE02
    Analisar a influência dos fluxos econômicos e populacionais na formação
    socioeconômica e territorial do Brasil, compreendendo os conflitos e as tensões históricas e
    contemporâneas.

    EF07GE09
    Interpretar e elaborar mapas temáticos e históricos, inclusive utilizando
    tecnologias digitais, com informações demográficas e econômicas do Brasil (cartogramas),
    identificando padrões espaciais, regionalizações e analogias espaciais.

    Carlos Madeiro

    Carlos Madeiro é jornalista formado na Ufal (Universidade Federal de Alagoas)

    19/02/2022 04h00

    O Conselho Deliberativo da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) decidiu excluir 50 municípios do mapa do semiárido brasileiro. A decisão, tomada em reunião pelo Conselho Deliberativo, em dezembro, também aprovou a inclusão de outros 215 municípios —a maioria do Sudeste. A publicação da nova delimitação foi feita em 30 de dezembro e as cidades envolvidas têm um prazo de 60 dias para apresentar recurso. A última delimitação havia sido feita em 2017, quando foi definido que o semiárido brasileiro contava com 1.262 municípios. Agora, passa a ter 1.427 —seis deles de um estado que, até então, não estava incluído nessa, o Espírito Santo. Dos 50 municípios retirados do mapa, 42 são do Nordeste e oito são de Minas Gerais.

    Paisagem típica do semiárido, na área do Parque Nacional Serra Capivara, no interior do Piauí

    Apesar de prevista, a alteração foi criticada por organizações que atuam no Nordeste e uma das prefeituras afetadas ouvidas pela reportagem. Procurada pelo UOL, a Sudene informou que as discussões dessa revisão começaram ainda em 2020, e a pesquisa utilizou dados do clima entre os anos de 1991 e 2020 —e que seguiu padrões recomendados pela Organização Mundial de Meteorologia. O semiárido é caracterizado pela seca e aridez.

    Municípios excluídos por estado:

    PB – 10

    MG – 8

    RN e SE – 7

    PE – 5

    AL, BA e CE -4

    PI – 1

    Total – 50

    Municípios incluídos por estado:

    MG – 126

    PI – 31

    PE – 19

    MA – 14

    BA – 9

    ES – 6

    AL e PB- 4

    RN e SE – 1

    Total – 215

    O que muda para quem ‘saiu’ do semiárido Para que a área seja incluída no semiárido, são levados em conta três critérios —e basta apenas um deles para que haja a delimitação: Precipitação pluviométrica média anual igual ou inferior a 800 mm; Índice de Aridez de Thornthwaite (usado para medir o grau de aridez e acidez do solo de uma determinada região) igual ou inferior a 0,5; Percentual diário de déficit hídrico igual ou superior a 60%, considerando todos os dias do ano.

    Fora do semiárido, municípios e agricultores deixam de ter acesso a uma série de políticas públicas, em especial juros mais baixos e uma fatia maior no FNE (Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste). Para este ano, o orçamento previsto é de R$ 26,6 bilhões. Por lei, o fundo destina pelo menos metade dos recursos para o semiárido.

    Há ainda vantagens em outros programas, como o FNDE (Fundo de Desenvolvimento do Nordeste) —também administrado pela Sudene e que é maior em áreas consideradas prioritárias, como o semiárido. Já outros programas são direcionados mais efetivamente para cidades da região, como o de construção de cisternas e o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) semiárido —que financia projetos de infraestrutura hídrica e implementação de infraestrutura

    Na mudança anterior do mapa do semiárido, em 2017, o Conselho Deliberativo da Sudene definiu que os critérios técnicos e científicos utilizados para a delimitação da região seriam revistos em 2021 e a cada dez anos. “Nossa maior preocupação é que tenhamos mudanças nas taxas de juros do FNE. Procurei até me informar sobre isso com o Banco do Nordeste, mas ainda não tive retorno”, diz Hibernon Cavalcanti, secretário de Agricultura de Arapiraca (agreste de Alagoas), o mais populoso município excluído da região

    Desde 2012, o município tem decretado emergência por conta da seca (o que tem sido reconhecido pelo governo federal). A prefeitura informou ao UOL que vai recorrer da decisão por entender que parte do seu território está no semiárido. Mudança contestada A revisão do mapa desagradou a ASA (Articulação do Semiárido), organização que reúne mais de 3 mil entidades. O sociólogo e coordenador do projeto Daki Semiárido Vivo da ASA, Antônio Barbosa, questiona os critérios que a Sudene usou para mudar o mapa do semiárido e excluir e incluir cidades.

    “Faltam informações sobre que critérios aplicaram. A gente sabe que existe uma mudança climática, mas sem os dados não dá pra saber se eles atendem ou não os critérios. Queríamos revisar os dados, junto com outros pesquisadores, mas não houve transparência.”

    Antônio Barbosa, sociólogo e coordenador de projeto da ASA.

    Ele também reclama da revisão de dados em um período tão curto. “Ficou acertado que a revisão ocorreria a cada dez anos. Ocorreu em 2005 e deveria ter ocorrido em 2015 —mas atrasou dois anos e só houve em 2017. Então, ela teria de ser revista, na pior da hipótese, em 2025. Por que fazer isso em ano eleitoral?”, pontua. Para Barbosa, faltou um maior debate sobre as avaliações.

    Na sua opinião, mesmo os municípios que já estavam e permaneceram na lista serão prejudicados na divisão de recursos. “Estamos falando de um bolo que está sendo mais dividido”, diz. Para o meteorologista, professor e pesquisador da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), Humberto Barbosa, a mudança de configuração de uma área é natural dentro de um processo climatológico. Ele acredita que revisões como essa da Sudene, são feitas por critérios técnicos. “A delimitação passou a ser uma política pública estabelecida, inclusive, dentro do plano nacional de mudança climática. Ou seja, é necessário haver revisões. Antigamente, ali pelos anos 1970, acredito que isso era mais político; mas agora é uma área técnica, temos marcadores científicos para isso”,

    A gente sabe que o semiárido pode se expandir ou contrair em função das condições climáticas. A gente vê que o nosso semiárido está perdendo sua fertilidade do solo. Mapeamos isso recentemente e podemos dizer que o semiárido está em mudança, respondendo a esses extremos climáticos que são cada vez mais comuns.”

    Humberto Barbosa, meteorologista da Ufal.

    Para os próximos anos, Barbosa diz que o cenário é de imprevisibilidade sobre as condições climáticas e de como o semiárido vai se comportar diante do aumento da população, da degradação ambiental e da pressão sobre as questões hídricas. “Essa revisão dá para a gente entender a dimensão espacial territorial do semiárido e também enfatizar que esse aumento ou diminuição está muito ligada a condições extremas”, pontua.

    Sudene assegura critérios técnicos

    Ao UOL, a Sudene afirmou que a análise mais recente para delimitação do semiárido teve a participação de técnicos da entidade, de equipes da ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico), Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia).

    “Eles contribuíram ativamente, inclusive no processamento, geração de dados, mapas e relação de municípios habilitados, posteriormente expandido, num segundo momento, para a participação de Instituto Nacional do Semiárido (Insa), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama), Banco do Nordeste do Brasil (BNB) e Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf)”. A Sudene ainda argumenta que, para chegar à nova conclusão, foram processados os dados de índice de aridez, precipitação pluviométrica e déficit hídrico de 2.074 municípios.

    “O trabalho seguiu padrões recomendados pela Organização Mundial de Meteorologia (WMO). De acordo com a entidade internacional, a análise climática de uma região requer o estudo de uma série de 30 anos de dados meteorológicos e ambientais.”

    Sudene.

    A instituição assegura que os governos têm prazo até o fim de fevereiro para apresentarem recurso com “considerações embasadas pelos seus respectivos institutos estaduais de meteorologia”. “O Conselho Deliberativo da Sudene procederá com nova análise, que acontecerá em até 120 dias, e apresentará os resultados na sua próxima reunião”. Sobre prejuízos aos que forem excluídos em definitivo, a nota explica que o Conselho Deliberativo da Sudene instituiu uma regra de transição para assessorar os municípios que não se enquadraram nos contornos semiáridos.

    “As empresas ou produtores localizados nestas cidades que, até a data de entrada em vigor da nova resolução, tenham formalmente apresentado propostas, consultas prévias, cartas consultas ou projetos ao Banco do Nordeste do Brasil (BNB) ou à Sudene pleiteando recursos do FNE ou do FDNE terão seus projetos ou propostas analisadas como se no semiárido estivessem, mesmo que as operações de crédito ainda não tenham sido contratadas”.

    Por fim, garante que as cidades retiradas continuarão recebendo apoio. “Os municípios excluídos continuarão a receber recursos, incentivos e apoio dos instrumentos e quaisquer outras iniciativas protagonizadas pela Superintendência”, pontua.

    https://notícias.uol.com.br/colunas/carlos-madeiro/2022/02/19/delimitacao-do-semiarido-entra-espirito-santo.htm

    Prof Luciano Mannarino

    Crise do Clima “Nordeste”

    Com secas e degradação, Caatinga perdeu 40% de água original em 35 anos

  • Rússia, EUA, China, Coreia do Norte: qual país tem mais armas nucleares?

    Rússia, EUA, China, Coreia do Norte: qual país tem mais armas nucleares?

    Marcelle Duarte – UOL

    09/02/2022

    Hoje, nove países do mundo possuem, comprovada ou alegadamente, armas atômicas. É o chamado “clube nuclear”. Neste contexto, o temor de uma possível terceira guerra mundial ganha novos contornos, com os recentes embates e rusgas entre Estados Unidos, Rússia, China e Coreia do Norte – justamente as nações com maior poderio.

    Em 1968, esforços internacionais de paz levaram à assinatura do TNP (Tratado de Não-Proliferação Nuclear), que entrou em vigor em 5 de março de 1970. Atualmente, conta com a adesão de 189 países, cinco dos quais são reconhecidos como “Estados com armas nucleares” (EAN ou NWS, do inglês nuclear-weapon states).

    São eles, em ordem de fabricação das bombas: Estados Unidos, Rússia (ex-União Soviética), Reino Unido, França e China. Possuem a grande maioria das armas nucleares conhecidas do mundo e, nos termos do tratado, podem mantê-las e também desenvolver pesquisas na área – mas são proibidos de repassar tecnologia bélica a outras nações. Esses também são os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e vencedores da Segunda Guerra Mundial.

    Três países que nunca fizeram parte do TNP realizaram testes nucleares ostensivos depois que o tratado entrou em vigor: Índia, Paquistão e Coreia do Norte. A nona nação do clube é Israel, amplamente creditado como detentor de armamento atômico, mas que se recusa a confirmar ou negar a informação e ainda não conduziu testes – detonações deste tipo não conseguem ser escondidas, pois são detectáveis por instrumentos.

    Vale destacar que a Coreia do Norte assinou o TNP, mas se retirou em 2003, realizando os primeiros testes nucleares três anos depois. Quatro outros países já possuíram bombas atômicas no passado: África do Sul, que desmontou seu arsenal antes de aderir ao tratado, Belarus, Cazaquistão e Ucrânia —as armas das três antigas repúblicas soviéticas foram repatriadas para a Rússia.

    Um levantamento do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri), de 2019, estima haver 13.890 ogivas nucleares pelo mundo – sendo 3.750 ativas, ou seja, implantadas estrategicamente. Em 1986, no fim da Guerra Fria, este número chegou a 70.300.

    “Não sabemos os números exatos dos arsenais, pois muitos países não revelam informações a respeito ou são ambíguos sobre o tema”, explica Vitelio Brustolin, pesquisador da Universidade Harvard e professor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (INEST-UFF).

    Rússia e Estados Unidos possuem cerca de 92% dessas armas, mas têm reduzido mutuamente seus armamentos atômicos desde a dissolução da União Soviética. Por outro lado, relatórios recentes do Pentágono revelam a ampliação gradual do arsenal nuclear da China, Índia, Paquistão e Coreia do Norte. Além disso, há um forte candidato a décimo país com bomba atômica: o Irã, que nos últimos anos ameaça sair do TNP.

    Quantidade de ogivas ativas é capaz de destruir o planeta; saiba quais países têm mais bombas nucleares - Getty Images/iStockphoto
    Quantidade de ogivas ativas é capaz de destruir o planeta; saiba quais países têm mais bombas nucleares

    “Depois de um certo ponto, o aumento da quantidade implica em redundância, pois o arsenal conhecido atualmente já seria capaz de destruir o planeta”, ressalta Brustolin. “Podemos dizer que estamos em uma retomada da Guerra Fria, porém com circunstâncias e contexto diferentes daqueles que se estenderam do final da Segunda Guerra até 1991. O mundo não é mais ‘bipolar’; estamos em meio a alinhamentos multipolares.”

    Guerra nuclear?

    “Uma guerra nuclear é altamente improvável”, acredita o professor. “Isso não significa, no entanto, que um conflito armado convencional entre estados específicos não venha a acontecer. Se de fato houver o uso da força, é provável que seja por meio não atômico.” Uma guerra nuclear seria potencialmente catastrófica não apenas para os países envolvidos, mas para o mundo em geral. Diversos riscos afastam essa possibilidade, entre eles:

    • destruição mútua
    • perdas irreparáveis de cidades inteiras e milhões de habitantes potencial
    • inverno nuclear
    • prejuízos para o mundo todo, perdendo muito mais do que se ganharia com a guerra

    Para uma guerra atômica, a estratégia deve ser bem diferente daquela para conflitos convencionais. “No primeiro ataque, seria preciso destruir ao máximo a capacidade do oponente de contra-atacar. Caso contrário, os dois lados serão alvejados e poderão se destruir mutuamente”, diz Brustolin.

    Muitas das armas não estão em terra, mas em submarinos nucleares cuja localização é incerta. “Por isso, eles são armas tão estratégicas: ao mapear o território do oponente e de aliados em busca de locais de lançamento de armas nucleares, é muito difícil determinar em que local do planeta estão os submarinos.”

    Há temores em relação a grupos terroristas, como a Al Qaeda ou o Estado Islâmico, que poderiam fabricar uma bomba atômica rudimentar, caso tenham acesso a urânio ou plutônio enriquecido.

    Conheça os detalhes dos projetos nucleares das principais nações que já possuem estes armamentos: Estados Unidos Militares dos Estados Unidos fotografam momento da explosão da bomba atômica em Hiroshima, no Japão, em 6 de agosto de 1945.

    Estados Unidos

    bomba - EFE - EFE
    Militares dos Estados Unidos fotografam momento da explosão da bomba atômica em Hiroshima, no Japão, em 6 de agosto de 1945

    Ogivas: 5.500

    Ogivas ativas: 1.375

    Primeiro teste nuclear: 1945

    As primeiras armas nucleares do mundo foram desenvolvidas pelos EUA, durante a Segunda Guerra Mundial, por meio do Projeto Manhattan – uma força-tarefa em resposta ao nazismo, em cooperação com o Reino Unido e o Canadá, que mobilizou cientistas, engenheiros e militares, entre 1942 e 1947. O físico Robert Oppenheimer, diretor do projeto, é considerado o “pai da bomba atômica”.

    A primeira delas foi detonada em 16 de julho de 1945 e menos de um mês depois os Estados Unidos dispararam duas bombas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki, no Japão, em 6 e 9 de agosto, respectivamente. Nas explosões devastadoras, morreram entre 129 mil e 226 mil pessoas, a maioria civis. Até hoje, esta foi a única vez que armas nucleares foram usadas em uma batalha.

    O Projeto Manhattan, na verdade, teve início em 1939, quando Franklin Roosevelt, então presidente norte-americano, recebeu uma carta assinada pelos cientistas Leo Szilard e Albert Einstein, alertando sobre um possível projeto da Alemanha nazista para construção de armas atômicas. O objetivo, então, era se antecipar à bomba alemã, acabar com a guerra e evitar próximos conflitos desta magnitude.

    Mais tarde, durante a Guerra Fria com a então União Soviética, os Estados Unidos também se tornaram o primeiro país a desenvolver armas termonucleas da geração anterior, funcionando por fusão (em vez de fissão) nuclear, como acontece com a energia do Sol. O primeiro teste de um protótipo aconteceu em 1952 (Ivy Mike), no Atol Enewetak, nas remotas Ilhas Marshall.

    Em 1954, os EUA fizeram sua maior detonação nuclear até hoje (Castele Bravo), no Atol Bikini – com 15 megatons, foi cerca de mil vezes mais potente que a bomba de Hiroshima. É a quinta maior explosão atômica da história, excedida apenas por quatro testes soviéticos.

    Rússia (sucessora da União Soviética)

    bomba - Mikhail Svetlov/Getty Images - Mikhail Svetlov/Getty Images
    Míssil nuclear russo na Praça Vermelha, em Moscou, Rússia, durante o desfile militar marcando o 75º aniversário da derrota nazista na Segunda Guerra Mundial.

    Ogivas: 6.257

    Ogivas ativas: 1.456

    Primeiro teste nuclear: 1949

    A segunda nação a desenvolver armas nucleares foi a antiga União Soviética (URSS); o primeiro teste aconteceu em 1949, chamado RDS-1. Este projeto foi realizado, parcialmente, com informações obtidas via espionagem nos Estados Unidos, durante e após a Segunda Guerra. O objetivo era atingir um balanço de forças durante a Guerra Fria. A URSS detonou o explosivo mais poderoso de nossa história, a Tsar Bomba – sua potência teórica é de 100 megatons, mas foi reduzida intencionalmente para 50 durante o teste. Outras bombas soviéticas, com cerca de 20 megatons, ocupam o segundo, terceiro e quarto postos da lista.

    China

    china - Reprodução - Reprodução

    Ogivas: 350

    Ogivas ativas: desconhecido

    Primeiro teste nuclear: 1964

    A China detonou seu primeiro dispositivo de arma nuclear (batizado 596) em 1964, na área de testes Lop Nur. Foi uma resposta aos Estados Unidos e à União Soviética, que protagonizavam a Guerra Fria. Em 1967, testou sua primeira bomba de hidrogênio – foi o salto de tecnologia fissão-fusão mais curto da história. O país é o único do TNP a garantir uma política de “não primeiro uso”; ou seja, só usará suas armas nucleares em resposta a um ataque.

    Coreia do Norte

    bomba - Airbus Defense & Space and 38 North via Reuters - Airbus Defense & Space and 38 North via Reuters
    7.out.2016 – Imagem de satélite da região em torno do local do teste nuclear de Punggye-Ri, na Coreia do Norte.

    A Coreia do Norte é o único país, até hoje, que assinou e posteriormente se retirou do TNP – o anúncio de saída ocorreu em janeiro de 2003, depois que os Estados Unidos a acusou de manter, secretamente, um programa de enriquecimento de urânio. Dois anos depois, ela assumiu possuir armas atômicas funcionais – mas isso gerou dúvidas na comunidade internacional, pois não havia evidências concretas.

    Em 2006, realizou a primeira detonação nuclear, pouco potente, mas que confirmou seu poderio. Em 2016, iniciou os testes com bombas de hidrogênio – também bem menores que de seus rivais, com potência estimada de 250 quilotons.

    Mantém um programa nuclear ativo e cada vez mais sofisticado, violando normas internacionais.

    O Conselho de Segurança das Nações Unidas condena as atividades nucleares do país e impõe sanções cada vez mais severas às forças armadas e à economia norte-coreana. Em 2018, a Coreia do Norte anunciou a suspensão dos testes – um sinal para negociar um acordo de paz com os EUA, que ameaça retaliações, que por diversas vezes beiraram um confronto direto.

    Em 2022, Kim Jong Un já declarou uma possível retomada dos testes nucleares e de mísseis de longo alcance. “A política hostil e a ameaça militar dos Estados Unidos atingiram uma linha de perigo que não pode ser ignorada”, disse o Vale lembrar que o país conta com o apoio da China e, em menor medida, da Rússia.

    Bomba atômica brasileira?

    De acordo com o tratado, os cinco EANs têm o direito de manter suas bombas, mas os demais países que assinaram o TNP se comprometem a nem tentar construir armas nucleares – algo considerado injusto por algumas nações, pois concentra o poder de domínio e destruição mundial nas mãos das potências. Eles podem desenvolver tecnologia nuclear apenas para usinas de eletricidade, medicamentos, aparelhos médicos e outras atividades com fins pacíficos.

    “O Brasil tem, sim, tecnologia e capacidade para produção de armas nucleares, mas renunciou à sua produção e isso trouxe importantes impactos de soft power e smart power”, ressalta Brustolin. “Atualmente, temos um parque de centrífugas para enriquecer urânio e estamos produzindo um submarino com reator nuclear para movimentar os motores, garantindo autonomia de navegação por todo o extenso litoral.

    https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2022/02/09/qual-pais-tem-mais-armas-nuclearea.htm

    Há 30 anos, desintegrava-se a União Soviética, personagem central do século 20

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    Prof Luciano Mannarino

  • Baía de Guanabara ‘fura fila’ e vê nova promessa de despoluição

    Baía de Guanabara ‘fura fila’ e vê nova promessa de despoluição

    Concessão acelera fim do despejo de dejetos, mas adia ampliação de rede de coleta em 8 cidades no Rio de Janeiro
    Canal do Cunha é uma das regiões mais críticas da baía de Guanabara, com alta taxa de poluição e lançamento de resíduos Gabriel Monteiro – 16.nov.2021 / Folhapress

    3.jan.2022 às 20h05

    Italo Nogueira

    RIO DE JANEIRO

    Um dia depois de se mudar para sua casa em Vigário Geral, há 20 anos, o aposentado Reinaldo de Almeida, 76, viu sua porta ficar alagada com água misturada a esgoto após forte chuva na zona norte do Rio de Janeiro.

    A razão era comum a muitos moradores da região metropolitana: dejetos lançados na rede pluvial, feita para coletar água de chuva, que acaba transbordando poluída em temporais.

    A construção de uma rede de esgoto há nove anos em parte do bairro não resolveu o problema do aposentado. Os canos entopem com frequência, provocando transbordamentos da água poluída, que escorre pela rua até a galeria pluvial cujo destino é o rio Pavuna, afluente da baía de Guanabara.

    Sujeira em água turva
    Poluição no canal do Cunha, próximo ao Complexo da Maré, uma das partes mais críticas da região – Gabriel Monteiro/Folhapress

    Assim como Almeida, mais da metade dos cerca de 9 milhões de habitantes do entorno da baía não tem esgoto tratado. É um problema crônico cujas promessas de solução somam quase 40 anos.

    Almeida e seus vizinhos simbolizam também a principal falha dos projetos que prometeram limpar a baía. Eles estão ao lado da ETE (estação de tratamento de esgoto) Pavuna, mas não conseguem enviar seus resíduos para lá de forma adequada.

    O Programa de Despoluição da Baía de Guanabara, de 1994, construiu quatro estações de tratamento, mas não todos os canos necessários para levar os dejetos até elas. O que foi instalado sofre com falhas de manutenção. A ETE Pavuna opera com apenas 18% de sua capacidade.

    O fracasso empurrou para a Olimpíada de 2016 a promessa de tratar 80% do esgoto lançado na baía. Cinco anos depois, a taxa varia de 24% a 46%, a depender da fonte de dados.

    A concessão do saneamento básico no Rio, concluída em abril, renovou as promessas. A nova meta é tratar 90% até 2033, em linha com o novo marco regulatório do setor.

    Um investimento emergencial de R$ 2,7 bilhões nos próximos cinco anos por parte da concessionária Águas do Rio, vencedora do leilão na região, está previsto para acelerar o fim do despejo de dejetos na baía.

    Para isso, porém, foi adiada a solução definitiva para os que não contam com um sistema de esgoto em oito municípios da bacia hidrográfica (Belford Roxo, Duque de Caxias, Itaboraí, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Rio de Janeiro e São Gonçalo). Por cinco anos, o índice de atendimento nessas cidades ficará o mesmo.

    A aposta nesse período é o chamado coletor de tempo seco, de implantação mais rápida. Em vez de novas tubulações ligando casas à rede exclusiva de esgoto, a poluição continua sendo escoada pela rede de drenagem de chuva e será bloqueada ou antes do deságue nos rios ou na própria calha fluvial antes de chegar à baía. Dali, será direcionada para as estações de tratamento, atualmente ociosas.

    Chama-se de tempo seco porque, em caso de chuvas fortes, o sistema não dá conta da vazão e a água poluída é despejada nos rios. Assim, alagamentos e valões que contaminam ruas e vielas devem continuar, segundo especialistas.

    “Tempo seco não acaba com o valão de esgoto. O objetivo é despoluir o rio a curto prazo”, diz Adacto Ottoni, professor do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

    Para ele, o sistema se justifica como estratégia emergencial na bacia do rio Guandu, principal fonte de água da região metropolitana. A poluição no local tem gerado sucessivas crises hídricas, como a proliferação da geosmina. “Não é o caso da baía de Guanabara.”

    O engenheiro sanitarista Alexandre Pessoa, da Fiocruz, afirma que a concessão deveria priorizar a melhoria na saúde dos moradores. “O sistema é feito para trazer uma melhoria ambiental da baía ou para garantir que a população não entre em contato com esgoto das comunidades?”, indaga.

    Para a engenheira Eloisa Elena, o tempo seco pode beneficiar quem vive às margens de rios poluídos. Contudo, ela afirma que o clima chuvoso, intensificado pela crise climática, pode tornar a estratégia ineficaz.

    “Na França, eles passam seis meses sem uma gota de chuva. Lá vale a pena. A nossa situação é diferente. Aqui no nosso bioma, de mata atlântica, todo mês chove. Tempo seco aqui é quebra-galho.”

    Todos os planos anteriores para despoluir a baía tinham como base a ampliação do sistema “separador absoluto”, no qual a água da chuva e o esgoto não se misturam. O tempo seco foi proposto pela primeira vez em 2018, pela Câmara Metropolitana, órgão do governo estadual.

    O urbanista Luiz Firmino, ex-superintendente da Câmara, defende o modelo. Ele afirma que investimentos para o tempo seco antecipam intervenções também necessárias ao “separador absoluto”, como a melhoria de estações de tratamento e instalação de bombas.

    Ele diz também que os dois modelos precisam existir em conjunto para garantir saneamento à população e limpeza dos rios.

    “No mundo inteiro há falha no sistema de esgoto. Não conheço nenhuma cidade no mundo que tenha sucesso no saneamento que não tenha esse mix.”

    Em pesquisa recém-concluída pela Universidade de Lisboa, o urbanista comparou o tratamento de esgoto em Algarve (Portugal) e na região dos Lagos do Rio —ambos usam majoritariamente o tempo seco e têm populações semelhantes. As cidades fluminenses tiveram o triplo de chuva da região portuguesa, mas a perda de eficiência do sistema foi de 18%.

    “Isso não impede o uso desse sistema no clima tropical”, avalia ele.

    Firmino afirma ainda que estudo da concessionária que atua na região dos Lagos aponta queda em internações por diarreias, indicando melhorias na saúde dos moradores por causa do tempo seco.

    O secretário estadual da Casa Civil, Nicola Miccione, afirma que a concessão buscou aproveitar a entrada da iniciativa privada para acelerar a melhoria ambiental da baía.

    “É uma demanda histórica. Trazer saneamento sem a despoluição da baía de Guanabara logo é perder uma oportunidade de ter também o maior projeto ambiental do mundo. Seria renegar por cinco anos algo que pode acontecer agora”, afirmou ele.

    Baía de Guanabara

    Pescador na Baía de Guanabara, próximo ao município de Magé, região metropolitana do rio de Janeiro
    Pescador na Baía de Guanabara, próximo ao município de Magé, região metropolitana do rio de Janeiro Gabriel Monteiro/FolhapressMAIS 

    O caderno de encargos da concessão é expresso ao propor “adiamento da ampliação do sistema de esgotamento sanitário (delay) de cinco anos” nos oito municípios em troca do tempo seco. Também mostra que os índices a serem cobrados das concessionárias sobre esgoto permanecem constantes nessas cidades no período.

    Apesar disso, o governo afirma que não haverá espera. Segundo Riley Rodrigues, assessor especial da Casa Civil, as intervenções para o “separador absoluto” nessa área começarão já, mas só terão efeito depois.

    “Até conseguir efeito, preciso de uma estrutura muito grande. Nesse período, o tempo seco funciona como medida emergencial”, diz Rodrigues.

    Miccione afirma que a baía de Guanabara não está “furando a fila” dos moradores, que aguardam há décadas saneamento básico adequado.

    “Para os outros locais as soluções passam por questões técnicas mais específicas. Não se trata de furar fila, mas a baía tem duas opções de solução e não só uma”, disse.

    O biólogo Mário Moscatelli afirma que, com ou sem adiamento da coleta de esgoto ideal, a baía precisa de intervenções emergenciais.

    “O paciente baía de Guanabara definha dia a dia. Não dá para esperar para atacar as causas e depois pensar nas consequências. Não estamos, do ponto de vista ecológico, numa posição confortável.”

    O monitoramento das águas da baía feito pelo Inea (Instituto Estadual do Ambiente) mostra o passivo ambiental. Dos 19 pontos de análise em 2019 (mais recente disponível), 14 apresentaram média de nível ruim ou péssimo, e 5 foram considerados regulares. Nenhum estava bom ou ótimo.

    A balneabilidade das praias da baía também evidencia a poluição. A de Botafogo, aos pés do Pão de Açúcar, esteve 99,8% dos dias imprópria para banho entre 2015 e 2019, segundo o Comitê da Bacia Hidrográfica da Baía de Guanabara.

    Estudo de 2014 do Instituto Trata Brasil mostra que a falta de saneamento básico é responsável por 15% das internações causadas por doenças gastrointestinais. No ano anterior, o número total de hospitalizações foi de 2.745.

    A Águas do Rio —vencedora dos blocos 1 e 4— tem até abril de 2022 para apresentar um plano de investimento a ser aprovado pela agência reguladora responsável por fiscalizar o cumprimento das metas, como o tratamento de 90% do esgoto da área.

    Não fazem parte desse índice as favelas consideradas não urbanizadas, que concentram 1,2 milhão de pessoas na capital, cerca de 18% da população.

    Nessas áreas da capital, a Águas do Rio tem como obrigação investir R$ 1,2 bilhão em saneamento, independentemente do percentual que isso representa para o total de moradores dessas áreas — o contrato não menciona comunidades dos demais municípios.

    Um dos locais priorizados é o Complexo da Maré, às margens da baía. A concessionária deverá construir um cinturão no seu entorno para coleta de tempo seco.

    Problemas de saneamento no Complexo da Maré

    Mesmo ao lado da estação de tratamento, Complexo da Maré lança esgoto 'in natura' na baía de Guanabara por falha no saneamento básico
    Mesmo ao lado da estação de tratamento, Complexo da Maré lança esgoto ‘in natura’ na baía de Guanabara por falha no saneamento básico Nicollas Witzel/Folhapress

    O bairro possui rede de esgoto, mas, das cinco bombas necessárias, apenas uma está funcionando e de forma precária.

    Assim como Vigário Geral, o complexo de favelas fica próximo a uma ETE, a Alegria, mas não consegue enviar seu esgoto para lá, e ele acaba “in natura” na baía. A unidade funciona com apenas 28% da capacidade.

    Ottoni cita a Maré como um exemplo de local onde ele considera adequada a instalação do tempo seco.

    “Em áreas sem urbanização e segurança não tem como implantar o separador absoluto. É uma área de risco para fazer manutenção”, afirma o professor da Uerj.h

    A diretora da ONG Redes da Maré, Eliana Sousa Silva, critica o argumento.

    “O Estado, que não provê o direito à segurança pública na favela, usa essa falha como argumento para dizer que tem dificuldade de dar acesso pleno ao saneamento. Não podemos aceitar isso”, diz ela.

    Foi não aceitando que moradores da Maré criaram o projeto Cocôzap, que monitora os problemas de saneamento da região. Entre maio e setembro, foram 225 registros, a maior parte relacionada ao esgoto.

    “A ideia é que a participação da população ajude a problematizar essa questão na Maré e a parar de naturalizar esses problemas que para nós são normais. É mostrar que a gente está ali e que a gente importa”, afirmou Vinicius Lopes, coordenador do projeto.

    Firmino afirma ainda que é preciso acompanhar de perto os investimentos a serem feitos pela concessionária.

    “Esse desenho [de investimentos] tem que ser calibrado. Quem vai ditar a prioridade? Se deixar frouxo, quem dita é a economia: onde cumpre mais metas com menos esforço”, diz.

    Alexandre Pessoa, da Fiocruz, vê com preocupação a capacidade do Estado de fiscalizar as metas. “Há uma série de lacunas na modelagem da concessão. Elas são riscos a médio e longo prazo.”

    Miccione, no entanto, diz que haverá acompanhamento. “A despoluição da baía de Guanabara não é mais uma promessa porque ela consta em contrato.”

    https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2022/01/baia-de-guanabara-fura-fila-e-ve-nova-promessa-de-despoluicao.shtml

    Prof Luciano Mannarino