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  • Barreira construída para trazer segurança aparta vidas e memórias

    Barreira construída para trazer segurança aparta vidas e memórias

    Concreto que serpenteia por terras palestinas freou homens-bomba, mas afastou prospecto de paz

    DIOGO BERCITO E LALO DE ALMEIDA

    ENVIADOS ESPECIAIS A ISRAEL E CISJORDÂNIA

    4.set.2017 – 02h00

    Umm Judah, 64, se esqueceu de muitas coisas. Entre elas, a palavra que moldou os anos mais recentes de sua vida: “muro”.

    Professora aposentada, a palestina vive nas cercanias de Belém diante de uma barreira de concreto de oito metros de altura.

    É esse o horizonte à sua porta, que a separa da terra que cultivou por décadas e das lembranças dos filhos iluminados pelos faróis e satisfeitos com os figos recém-colhidos.

    “É como uma venda”, diz à Folha. “Como se nos arrancassem os olhos.”

    Durante a entrevista, ela aponta a construção mais de uma vez por não se lembrar de como chamá-la, mesmo em seu árabe nativo.

    A professora aposentada palestina Umm Judah, 64, que vive diante de um muro de oito metros de altura; barreira a separa da terra que cultivou por décadas
    A professora aposentada palestina Umm Judah, 64, que vive diante de um muro de oito metros de altura; barreira a separa da terra que cultivou por décadas (Lalo de Almeida/Folhapress)

    O muro diante de sua casa é um trecho da barreira de 764 quilômetros que Israel ergue desde 2002 para se separar dos territórios palestinos da Cisjordânia, onde estão cidades como Belém e Ramallah. A maior parte é cerca, e o concreto é usado nas áreas urbanas. Faltam os últimos 194 quilômetros da construção.

    A barreira tem impacto brutal nas vidas de pessoas como Umm Judah. Mas israelenses de diferentes orientações políticas concordam, por outro lado, que existia a necessidade urgente de erguê-la.

    As memórias da Segunda Intifada ainda estão frescas. Cerca de 3.000 palestinos e 1.000 israelenses morreram entre 2000 e 2005 durante o levante palestino contra a ocupação israelense. Os palestinos enviavam homens-bomba; os israelenses revidavam com tanques.

    Muro erguido por Israel desde 2002 para se separar dos territórios palestinos da Cisjordânia; dos 764 quilômetros planejados para a barreira, 570 estão prontos (Lalo de Almeida/Folhapress)

    O israelense Ury Vainsecher, 71, se recorda bem. Ele já vivia em Kfar Saba, cidade a um quilômetro do muro, no caminho para a palestina Qalqilya.

    “Quando meus filhos eram menores, eu os levava a todos os lugares de carro. Tinha medo de que tomassem o ônibus”, diz. “Entre eu ser vítima de uma explosão e uma palestina viver rodeada por muro, prefiro vê-la cercada.”

    Vainsecher perdeu um amigo em um atentado. O filho de um vizinho morreu em outro ataque, e um conhecido que estava em uma pizzaria de Jerusalém alvo dos terroristas, também

    O trecho da barreira diante da casa de Umm Judah é um dos mais recentes.

    Um ano atrás, a palestina caminhava dois ou três minutos até seu pomar para passar o dia sob as oliveiras enrolando folhas de uva. Hoje ela precisa dirigir por 40 minutos para alcançar o outro lado.

    “Mas o muro ajudou os israelenses. Estão relaxados.”

    Judeus diante de muro próximos ao Túmulo de Raquel em Belém, na Cisjordânia, local considerado sagrado pela religião judaica (Lalo de Almeida/Folhapress)

    A fricção causada pela barreira na vida de palestinos como Umm Judah envenena a possibilidade de haver paz entre os dois povos em breve.

    O projeto foi questionado desde a concepção por figuras como Yossi Beilin, arquiteto dos Acordos de Oslo (as negociações de 1993 que levaram à divisão da Cisjordânia em diferentes áreas de controle).

    Se não tivessem sido interrompidos pelo assassinato do premiê israelense Yitzhak Rabin por um ultranacionalista em 1995, tais acordos poderiam ter encerrado o conflito.

    “Era claro que os palestinos seriam humilhados pela construção do muro”, diz Beilin, em Tel Aviv.

    “Mas não foi feito por malícia, e houve esforços para que eles não sofressem, ainda que esses esforços não tenham sido suficientes”, afirma, citando uma série de apelos às cortes israelenses –seis deles com sucesso– para mudar a rota da barreira.

    Muros, diz Beilin, “não são fotogênicos”.

    Grafites e pichações no muro da Cisjordânia; entre as figuras retratadas há o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e forças policiais
    Grafites e pichações no muro da Cisjordânia; entre as figuras retratadas há o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e forças policiais (Lalo de Almeida/Folhapress)

    “São muito difíceis de explicar. A barreira virou um símbolo de como colocamos os palestinos em uma prisão. É a vida deles, e eles se perguntam por que têm que pagar esse preço.” Não apenas por terem sido separados da terra que cultivavam, mas também porque a sua liberdade de ir e vir foi drasticamente reduzida.

    Folha acompanhou a passagem de trabalhadores palestinos rumo a Israel em dois postos de controle militar, em Belém e em Ramallah.

    Às 5h, a fila já transbordava dos corredores metálicos que lembram um curral, os ratos passando pelo chão imundo. Ansiosos, alguns trabalhadores escalavam as grades e formavam uma fila paralela no alto, como equilibristas distópicos.

    O ritual é cotidiano para milhares. “Tornamos a vida de muitos palestinos terrível”, afirma Beilin. “Mas reduzimos o número de mortes, e é difícil dizer que isso tenha sido errado.”

    Trabalhadores palestinos em fila para atravessar posto de controle israelense em Belém, na Cisjordânia; alguns escalam as grades, formando uma fila paralela no ar (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Não é errado, do ponto de vista legal, que um país construa muros em seus limites.

    Mas a divisão entre Israel e os territórios palestinos não é uma fronteira convencional porque, afinal, não existe um Estado palestino. A divisa costuma ser a chamada Linha Verde, que marca as fronteiras anteriores a 1967, ano da Guerra dos Seis Dias, quando Israel tomou a Cisjordânia.

    Vem daí mais uma complicação desta história, vivida diariamente por Umm Judah: de cada 6,5 quilômetros da barreira, 5,5 foram construídos dentro da Cisjordânia e, portanto, fora da fronteira. Em alguns trechos, o muro está 18 quilômetros distante de onde teoricamente deveria serpentear.

    A explicação de um tenente-coronel do Exército israelense que não pôde se identificar é a de que o trajeto foi adaptado às necessidades de segurança. Em algumas ocasiões o muro precisava passar em cima de uma colina, e não embaixo, por exemplo.

    “Nossa experiência nos tribunais é sempre a mesma”, afirma a advogada palestina Dalia Qumsiyeh, que representa Umm Judah.

    “O governo israelense usa a palavra mágica, ‘segurança’, e aprova assim os seus planos”, diz. “Mas, antes de falar em segurança, pensem na senhora que não consegue entrar em sua terra.”

    Ou no palestino Hani Amer, 60, que vive na região noroeste da Cisjordânia, sobre a linha em que o governo israelense queria ter construído o muro.

    Ele se recusou a deixar sua casa, a barreira a contornou, e ele foi cercado em seu terreno de 1.000 m² pelo concreto, o arame farpado e pelas cercas de segurança.

    O palestino Hani Amer, 60, abre portão para entrar em sua propriedade no povoado de Masha, na Cisjordânia; ele se recusou a deixar sua casa e a barreira a contornou (Lalo de Almeida/Folhapress)

    A poucos passos dali, está o assentamento israelense de Elkana, razão para as preocupações.

    “Disseram que ou eu saía daqui ou ficaria isolado. Quis ficar, a despeito de todas as dificuldades, porque é a minha casa”, diz, sentado em um balanço no jardim. À sua frente, está o muro.

    Por algum tempo, Amer precisou pedir que os soldados israelenses abrissem o portão da sua propriedade toda vez que queria sair.

    “Receber visitas era um inferno. Uma punição coletiva.” Com a pressão de organizações humanitárias, o agricultor teve uma pequena vitória: recebeu a chave para uma portinhola no muro, pela qual hoje passa.

    Ao receber a Folha em sua casa, Amer se agacha atrás de um carro, para que a polícia israelense não o veja –ele teme ser punido por receber a imprensa e falar de sua vida. Poderiam, por exemplo, lhe tirar a chave da portinhola.

    “Tive tantos problemas que já nem consigo me lembrar de todos”, diz, antes de relatar alguns.

    Quando seu filho de três anos engatinhou por baixo da cerca, por exemplo, a mãe não teve permissão para cruzar a barreira e buscá-lo. A criança foi encontrada do outro lado e trazida de volta.

    “Eu fui até os soldados e lhes disse: Vocês não são humanos. Vocês viram meu filho e não fizeram nada.”

    Ao ser lembrado que Israel ergueu o muro para garantir a segurança do país, Amer diz que “o que garante a segurança é a justiça”. “Quando você distingue entre dois irmãos, não tem segurança. Imagine entre dois povos.”

    A barreira rompeu em diversas regiões do país o contato, ainda que limitado, que havia entre palestinos e israelenses.

    Barricadas em um rua compartilhada por árabes e judeus em Hebron, na Cisjordânia; abaixo e à esquerda, abrigo anti-terrorismo no povoado israelense de Tzur Yigal, em Israel
    Barricadas em um rua compartilhada por árabes e judeus em Hebron, na Cisjordânia; abaixo e à esquerda, abrigo anti-terrorismo no povoado israelense de Tzur Yigal, em Israel (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Amer vive próximo de Qalqilya, onde israelenses costumavam fazer compras antes da Segunda Intifada.

    O local é próximo também de Tzur Yigal, onde vive o israelense-uruguaio Eran Landau, 64. “Minha casa foi erguida por uma família palestina”, diz. “Tenho amigos do outro lado, apesar de ter lutado contra eles”, afirma.

    “O muro nos inquieta, mas ou você cuida da sua família, ou não. Quero viver bem, e quero que minha filha viva bem. Se ela puder ir para a discoteca sem riscos, não me importo com o que dizem.”

    Landau é membro de uma força-tarefa voluntária para a segurança de Tzur Yigal, e guarda armas, um capacete e uma máscara de gás dentro de uma sala à prova de explosões. “Tenho um fuzil M16 para viajar. Poderiam me atacar a qualquer momento com um coquetel molotov.”

    Policiais israelenses patrulham bairro árabe na Cidade Antiga de Jerusalem, em Jerusalém Oriental (Lalo de Almeida/Folhapress)

    O recém-eleito prefeito de Belém, Anton Salman, discorda da avaliação. “Não acho que seja questão de segurança. É confisco de terra”, diz diante do muro que divide sua cidade. Ele perdeu parte de suas propriedades, isoladas do outro lado da barreira.

    Os desvios em relação à Linha Verde engoliram 9,4% da Cisjordânia, um processo monitorado pelo israelense Dror Etkes, diretor da ONG Kerem Navot. “Fiscalizamos como Israel toma terras na Cisjordânia para dar aos colonos israelenses”, diz –os colonos são os israelenses que vivem dentro da Cisjordânia.

    “A barreira foi construída para permitir que os assentamentos crescessem. Há uma correlação entre a presença de colonos e da barreira.”

    Para o ex-soldado israelense Avner Gvaryahu, 32, é preciso entender a barreira como parte de um sistema mais amplo, que envolve o projeto dos assentamentos. “O governo quer minimizar o número de palestinos aqui.”

    Crianças palestinas jogam pedra e insultam soldados israelenses que estão do outro lado de muro em Ramallah, na Cisjordânia (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Gvaryahu é o líder da organização Breaking the Silence, que compila testemunhos de soldados israelenses sobre a violência da ocupação da Cisjordânia. Ele foi paraquedista, período durante o qual recebia ordens diretas de colonos.

    “O objetivo do sistema é proteger os israelenses, mas ninguém protege os palestinos”, diz Gvaryahu. “Nunca haverá uma sensação real de segurança até que os palestinos tenham respeito e dignidade.”

    Ao redor dos muros e cercas, há zonas-tampão às quais o acesso de palestinos é restrito por razões de segurança.

    “Em algumas áreas entre barreiras é possível ver como surgiu uma nova vida selvagem”, diz Etkes, e aponta para um grupo de veados, que cruzam diante do carro da reportagem e se esgueiram por debaixo do arame farpado rumo à terra de que agora são na prática os donos.

    Palestina acompanhada da filha pede esmola na fila de posto de controle em Qalandia, na Cisjordânia (Lalo de Almeida/Folhapress)

    Umm Judah teme que esse seja o futuro de seu pomar, do outro lado do muro, caso o governo israelense decida que ela já não pode mais cruzar o controle militar. “Sinto como se tivesse perdido alguém da minha família. Roubaram a minha felicidade”, ela afirma, e chora.

    Depois, sobe em uma rua do vilarejo, alta o suficiente para enxergar por cima do muro. Vê seu pomar inacessível –damascos, pêssegos, peras, alecrim– e lamenta: “Vou morrer aqui”.

    http://arte.folha.uol.com.br/mundo/2017/um-mundo-de-muros/israel/conflito-ancestral/

    Prof Luciano Mannarino

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  • Haitianos em desespero veem EUA dobrarem esforços para deportar imigrantes

    Haitianos em desespero veem EUA dobrarem esforços para deportar imigrantes

    Governo Biden expulsa centenas por dia; de volta a um país em múltiplas crises, deportados têm poucas perspectivas

    22.set.2021 às 9h57Atualizado: 22.set.2021 às 19h43

    BAURU (SP)

    Enquanto os Estados Unidos se preparam para quase dobrar o volume de deportações em meio a um novo revés para o governo de Joe Biden, imigrantes haitianos entram em desespero ao serem forçados a voltar ao país mais pobre das Américas, envolto em múltiplas crises.

    No domingo (19) e na segunda-feira (20), centenas de migrantes foram expulsos do território americano em três voos para Porto Príncipe. Nesta terça (21), estavam programados mais quatro voos e, para os próximos dias, há a expectativa de até sete voos diários com destino à capital haitiana e a Cap-Haitien, a segunda maior cidade do país.

    Parte dos haitianos expulsos protagonizou cenas de pânico após desembarcar no aeroporto de Porto Príncipe. Um grupo de homens correu de volta em direção ao avião, e pelo menos um deles tentou voltar a bordo — obviamente, sem sucesso.

    Recém-chegados ao seu país de origem, esses grupos recebem uma pequena quantia em dinheiro, kits básicos de higiene e uma rápida avaliação médica. São, então, deixados à própria sorte.

    Imigrantes sob ponte na fronteira entre EUA e México em Del Rio, no Texas
    Imigrantes sob ponte na fronteira entre EUA e México em Del Rio, no Texas – John Moore – 21.set.21/Getty Images/AFP

    “Atravessamos nove países. No caminho, vimos muitos mortos. Dormimos na selva. E agora, terminou”, disse Belton (nome fictício) à agência de notícias AFP, acompanhado da esposa e de um filho de dois anos, em Porto Príncipe. A família suspira, sem ter a menor ideia do que fará para sobreviver.

    O governo do Haiti não tem “nem o costume nem a logística necessária” para lidar com o volume de migrantes, afirma o economista Etzer Emile. “Mas o pior é que não é prioritário para as autoridades. A prioridade é a divisão do bolo governamental para a próxima reorganização do gabinete de ministros”, diz, em referência ao premiê Ariel Henry, que assumiu o comando do país após o assassinato do presidente Jovenel Moïse — crime no qual o próprio Henry é suspeito de envolvimento.

    Ao jornal americano The Washington Post o chefe do escritório de migração do Haiti, Jean Negot Bonheur Delva, admitiu que o governo “não tinha os meios” para fornecer moradia ou outro tipo de assistência aos recém-chegados.

    “A precariedade e a insegurança vão aumentar exponencialmente. É uma crise a mais”, disse Delva, acrescentando que pediu, no nível individual, uma moratória nos voos de deportação americanos, mas que não sabia se o governo de Henry havia feito algum pedido oficial nesse sentido.

    Nos EUA, o governo Biden enfrenta uma pressão crescente. Quase 10 mil migrantes, principalmente haitianos, permanecem em condições cada vez piores no campo improvisado sob uma ponte que atravessa o rio da cidade de Del Rio, no estado do Texas, até Ciudad Acuña, no México. Autoridades americanas retiraram pelo menos 4.000 pessoas do local nos últimos dias para processamento em centros de detenção.

    Mesmo membros do Partido Democrata fizeram críticas à gestão da crise. Chuck Schumer, líder da maioria democrata no Senado, disse que a expulsão de imigrantes para o Haiti “desafia o bom senso” e expressou indignação com as táticas usadas pelos agentes de fronteira para controlar as multidões — no início da semana, oficiais montados a cavalo foram flagrados usando rédeas para ameaçar migrantes haitianos próximo à fronteira.

    A cavalo, agente de fronteira persegue migrantes que retornavam aos EUA após comprar comida no México
    A cavalo, agente de fronteira persegue migrantes que retornavam aos EUA após comprar comida no México Daniel Becerril/ReutersMAIS 

    A vice-presidente Kamala Harris descreveu a situação como complexa e disse que os EUA precisam “fazer muito mais” para atender às necessidades básicas da população do Haiti. “As pessoas querem ficar em casa, não querem sair, mas vão embora quando não podem satisfazer suas necessidades básicas.”

    Políticos republicanos, de olho nas eleições de meio de mandato em 2022, quando esperam retomar o controle do Congresso, foram ágeis em atribuir a responsabilidade pela crise no campo improvisado no Texas à pressão dos democratas para afrouxar algumas restrições à migração impostas durante o governo de Donald Trump.

    Em meio a esse cenário, uma das hipóteses aventadas pelos americanos é pedir auxílio para países como Brasil e Chile para receber parte dos migrantes haitianos. O tema foi tratado em reunião entre o secretário de Estado, Antony Blinken, e o chanceler brasileiro, Carlos França, após a Assembleia-Geral da ONU.

    No último fim de semana, o acampamento chegou a atingir o pico de 14 mil pessoas, segundo o Acnur, a agência da ONU para refugiados. Nesta terça, grupos no lado americano do rio ocuparam uma área de floresta, e algumas famílias construíram barracas improvisadas com galhos e folhas. Os relatos são de que a comida é escassa e que não há banheiros suficientes para todos.

    Do lado mexicano, o acampamento também tem crescido, e os migrantes têm recebido assistência de grupos como Cruz Vermelha e Médicos Sem Fronteiras, além de moradores de Ciudad Acuña.

    Imigrante haitiano dá banho em seu filho em acampamento improvisado em Del Rio, no Texas
    Imigrante haitiano dá banho em seu filho em acampamento improvisado em Del Rio, no Texas John Moore/Getty Images – 21.set.21/AFPMAIS

    Em entrevista à Reuters, Surreane Petit disse que ficar no México foi uma grande melhoria em comparação com o lado americano do campo. “Aqui o povo mexicano está ajudando muito. Lá estávamos com fome. Debaixo da ponte não havia ajuda, nenhuma ajuda.”

    Acompanhada do filho de três anos de idade, ela contou ter vivido os últimos cinco anos no Chile, mas que decidiu ir embora depois que os efeitos da pandemia no país a deixaram desempregada.

    Apesar do risco de ser deportado para o Haiti a qualquer momento, Carly Pierre, outro migrante, disse que ficou no acampamento, depois de vários anos morando no Brasil, porque ainda tem esperanças de entrar nos EUA junto com a esposa e dois filhos, de 3 e 5 anos.

    “Há os deportados e há as pessoas que vão conseguir entrar”, disse Pierre, com a roupa ainda molhada por ter atravessado o rio para comprar um refrigerante no lado mexicano.

    A expectativa não é completamente infundada. Segundo dois funcionários do governo Biden que falaram em anonimato à agência Associated Press, parte dos ocupantes do acampamento improvisado tem sido liberada em território americano sob a condição de comparecer a um escritório de imigração em 60 dias.

    A quantidade de pessoas liberadas nesses termos, assim como os critérios para esse tipo de prática, ainda não estão claros, mas, de acordo com os entrevistados, adultos solteiros são alvos preferenciais dos voos de deportação.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/09/haitianos-em-desespero-veem-eua-dobrarem-esforcos-para-deportar-imigrantes.shtml

    Questão

    1 Aponte fatores que tornam o Haiti um país de emigrantes.

    2 A questão dos imigrantes haitianos tem reflexos na disputa eleitoral nos EUA? Justifique.

    3 O que foi a MINUSTAH? Ela cumpriu plenamente seus objetivos?

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  • Vulcão capaz de gerar tsunami no Brasil entra em alerta amarelo de erupção

    Vulcão capaz de gerar tsunami no Brasil entra em alerta amarelo de erupção

    Colaboração para o UOL, em Maceió

    16/09/2021 04h00

    Autoridades espanholas elevaram para o nível amarelo o alerta de erupção do vulcão Cumbre Vieja, localizado na ilha de La Palma, na costa do continente africano. Segundo pesquisadores, o vulcão poderia provocar um tsunami que atingiria todas as Américas, com maior impacto sobre os litorais das regiões Norte e Nordeste do Brasil. A informação da elevação de nível do vulcão foi dada pelo portal MetSul Meteorologia e confirmada pelo A informação da elevação de nível do vulcão foi dada pelo portal MetSul Meteorologia e confirmada pelo UOL.

    Vulcão em La Palma, na Espanha, fica a 4,4 mil km de São Luís - Reprodução Google
    Vulcão em La Palma, na Espanha, fica a 4,4 mil km de São Luís

    O vulcão está adormecido há décadas e começou a dar sinais de atividade moderada nos últimos dias. “Ele não estava dando sinais de erupção, mas agora ele chegou a um segundo nível. São quatro níveis de alerta. Ele pode vir a ter uma erupção, mas não significa que essa erupção vai gerar um tsunami, mas é uma possibilidade, mesmo que mínima”, explica o pesquisador do Instituto de Ciências do Mar da UFC (Universidade Federal do Ceará), Carlo Teixeira.

    A hipótese de que um tsunami poderia ser causado pela erupção do Cumbre Vieja já foi confirmada em várias pesquisas sobre o tema. “Existem diversos estudos já publicados sobre essa possibilidade de tsunami. É uma hipótese real, e ela aconteceria caso houvesse uma erupção explosiva”, conta Carlos Teixeira. Segundo análise feita em estudo produzido no Departamento de Geologia da UFPR (Universidade Federal do Paraná) a Ilha de La Palma fica a 4.462 km de São Luís. “Estima-se que a próxima erupção poderá desestabilizar a encosta da ilha devido a fatores como declividade do vulcão, volume de material mobilizado, fatores climáticos e principalmente, a uma zona de fraqueza existente que facilitará a ocorrência do movimento de massa”, afirma pesquisa feita na UFPR do geólogo Mauro Gustavo Resse Filho, que pesquisou o tema e publicou TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) em 2017.

    Este movimento por sua vez, poderá ser capaz de gerar um tsunami que percorrerá distâncias transatlânticas e que atingirá o praticamente todos os países banhados pelo oceano Atlântico. A partir da modelagem de tal evento, obteve-se a informação que toda a costa brasileira será afetada”

    Mauro Resse Filho

    Riscos

    Carlos Teixeira diz que não há motivo para preocupação no momento. “Se essa possibilidade de erupção ocorrer, não significa que vai ser explosiva; se for, não quer dizer que vai chegar aqui com ondas de oito, dez metros; pode chegar aqui bem menor”, explica.

    “A pergunta que a gente faz é: será que o Brasil —e não só o Brasil, porque ele pode chegar no Caribe e nos EUA— está preparado para um evento desses?”

    Segundo o site Metsul, a região de La Palma enfrenta um aumento significativo nos movimentos sísmicos desde sábado, “acompanhando a tendência de alta desde 2017 e ganhou maior força desde 2020”. “Nos últimos dias, além de aumentar o volume de movimentos sísmicos, sua intensidade aumentou com abalos que tiveram magnitude superior a 3. A profundidade dos epicentros também diminuiu, em média, de 30 para 12 quilômetros. Só ontem foram mais de 100 tremores e um teve profundidade de apenas 4 quilômetros”, informa.

    https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2021/09/16/vulcao-capaz-de-gerar-tsunami-no-brasil-vai-a-nivel-2-de-alerta-de-erupcao.htm

    Questões

    1 Aponte o tipo de encontro de placas tectônicas mais próximo desse vulcão.

    2 Explique a formação do oceano atlântico.

    3 Por que especialistas afirmam que os litorais das regiões norte e nordeste do Brasil podem ser os mais afetados por essas ondas?

    Terremotos!

    Os abalos sísmicos e os países (Atividade)

    VÍDEO – TEORIA DA DERIVA CONTINENTAL

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  • NATURE – Controle do metano para desacelerar o aquecimento global

    NATURE – Controle do metano para desacelerar o aquecimento global

    As reduções de dióxido de carbono são fundamentais, mas o último relatório do IPCC destaca os benefícios de fazer cortes em outros gases de efeito estufa também.

    Hydraulic fracking pumps at sunset
    As operações de petróleo e gás – como o Campo de Petróleo de Inglewood, em Los Angeles, Califórnia – são uma fonte chave de metano. Crédito: Cidadãos do Planeta/Imagens de Educação/Universal Images Group/Getty

    Não há dúvida que é necessário eliminar combustíveis fósseis e parar a liberação de dióxido de carbono na atmosfera para evitar os efeitos dolorosos do aquecimento global. O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) não deixa dúvidas sobre isso. Mas o CO2  não é o único gás de efeito estufa. O painel climático também destaca o problema — e a oportunidade — representado pelo metano, que contribuiu com até 0,5 °C de aquecimento desde os tempos pré-industriais, perdendo apenas para o CO2.

    O metano é o principal componente do gás natural, cuja popularidade como fonte relativamente limpa de energia fóssil aumentou mais de 50% nas últimas duas décadas. Os combustíveis fósseis ajudaram a aumentar as concentrações atmosféricas de metano, que mais do que dobraram desde os tempos pré-industriais, de cerca de 700 partes por bilhão em volume para quase 1.900 p.p.b. em 2020.

    O metano é preocupante porque tem um impacto maior sobre o clima. O gás compõe uma pequena fração da nossa atmosfera — os níveis de CO2  são mais de 200 vezes maiores. O metano é cerca de 80 vezes mais poderoso que o CO2  na captura de calor na atmosfera terrestre. Ele também quebra muito mais rapidamente do que o CO2, com uma vida média de cerca de uma década, em comparação com séculos para CO2. Isso significa que a redução das emissões de metano poderia proporcionar um alívio a curto prazo, enquanto governos e empresas negociam a transição mais difícil dos combustíveis fósseis para a energia limpa.

    Relatório climático do IPCC: a Terra está mais quente do que está em 125.000 anos

    Em um esforço para reduzir as emissões de metano, os cientistas têm investigado duas questões ligadas. Primeiro, quais são as principais fontes de metano? Segundo, onde estão os piores infratores? A pecuária é a maior fonte, responsável por 31% do total global, segundo Ilissa Ocko, do Fundo de Defesa Ambiental (FED) sem fins lucrativos da cidade de Nova York e seus colegas. As operações de petróleo e gás ocupam o segundo lugar, com 26%. Outras fontes incluem aterros sanitários, minas de carvão, pastos de arroz e estações de tratamento de água.

    Reduzir o metano da pecuária representa um desafio particular. As pessoas poderiam comer menos carne, mas convencer as pessoas a mudar sua dieta raramente é simples. Além disso, o consumo de carne está aumentando em países de baixa e média renda — em linha com o aumento da renda. Deve ser mais fácil conter as emissões de outros setores. Em muitos casos, fazê-lo não custaria nada — e poderia até ser lucrativo.

    As emissões globais de metano podem ser reduzidas em 57% até 2030 usando tecnologias existentes, relatam Ocko e seus colegas. E quase um quarto do total global de metano poderia ser eliminado sem custo líquido. A indústria de petróleo e gás poderia fazer a maior diferença aqui, tendo tanto a infraestrutura quanto o incentivo para minimizar as perdas de metano: mais metano em seus oleodutos significa mais receita. Em outros setores, os operadores de aterros sanitários, minas de carvão e estações de tratamento de águas residuais poderiam capturar o gás e usá-lo para gerar eletricidade. E os produtores de arroz poderiam minimizar as emissões com melhores práticas de irrigação e manejo do solo. Se essas medidas forem implementadas em todo o mundo, os aumentos projetados do aquecimento global poderiam ser reduzidos em 0,25 °C até 2050 e 0,5 °C até 2100, segundo o estudo. Esses são números significativos considerando que o mundo já aqueceu 1,1 °C, e os líderes globais se comprometeram a limitar o total a 1,5-2 °C.

    As duras verdades das mudanças climáticas — pelos números

    O principal problema é identificar precisamente de onde vêm as emissões de metano. Há mais de uma década, pesquisadores monitoraram o metano a partir de pesquisas de aeronaves usando sensores infravermelhos que podem detectar gases na luz solar refletidos da Terra2. Hoje, os satélites fazem parte desse esforço de monitoramento. Pesquisas mostram que um número relativamente pequeno de “super-emissores” são responsáveis por uma parcela significativa das emissões de metano, particularmente na indústria de petróleo e gás.

    A capacidade de identificar grandes fontes de metano está pronta para avançar nos próximos dois anos. Em 2022, o FED lançará um satélite projetado para identificar emissões em grandes faixas de terra. A Carbon Mapper, uma parceria sem fins lucrativos que inclui o Laboratório de Propulsão a Jato da NASA e a empresa Planet, com sede em São Francisco, seguirá em 2023 com dois protótipos de satélites projetados para rastrear metano e CO2  na escala de instalações individuais.

    Em março, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e a Comissão Europeia lançaram o Observatório Internacional de Emissões de Metano para ajudar a coordenar esses esforços e ajudar os formuladores de políticas e empresas a agir. O observatório também terá acesso a estoques estimados de emissões de governos e indústrias. Cerca de 70 produtores de petróleo e gás, incluindo gigantes como Shell e BP, se comprometeram a estabelecer metas claras de redução de emissões e reportar emissões sob uma iniciativa liderada pela Climate & Clean Air Coalition, uma iniciativa internacional que envolve governos, organizações sem fins lucrativos, empresas e outros. Este trabalho também ajudará a informar novos compromissos de redução de metano que serão feitos na conferência climática da ONU em Glasgow, Reino Unido, em novembro.

    O mundo continuará aquecendo enquanto o CO2  estiver sendo bombeado para a atmosfera. Mas reduzir as emissões de metano e outros gases poderosos do efeito estufa pode reduzir a picada. É por isso que governos e empresas devem aproveitar a oportunidade, ganhando um pouco mais de tempo para a humanidade fazer o que precisa ser feito.

    Natureza 596, 461 (2021)

    https://doi.org/10.1038/d41586-021-02287-y

    (uso de tradutor)

    Questão

    1. Por que a redução da emissão de CO2 é fundamental para diminuir o efeito estufa?

    2. Estabeleça diferenças entre o metano e o CO2 no aquecimento global.

    3 Explique a relação entre a pecuária e o aumento da concentração de metano na atmosfera.

    4 O que é poluição atmosférica?

    Prof Luciano Mannarino

  • O aumento da migração extracontinental na América Latina

    O aumento da migração extracontinental na América Latina

    Não são poucos os que se instalam pelo esgotamento dos seus recursos ou como consequência de um processo de expulsão

    27.ago.2021 às 10h00

    Luisa Feline Freier

    A migração de pessoas de outros continentes –especialmente da África e da Ásia– mas também do Caribe é um fenômeno crescente na América Latina. E embora a maioria deles vá inicialmente para os Estados Unidos ou Canadá, não são poucos os que se instalam num país latino-americano, seja por opção, por necessidade devido ao esgotamento dos seus recursos, ou como consequência de um processo de expulsão.

    POR QUE E COMO CHEGAM OS MIGRANTES EXTRACONTINENTAIS À AMÉRICA LATINA?

    A migração extracontinental na América Latina é um fluxo misto, uma vez que migrantes com motivações diferentes convergem dentro do mesmo grupo. Em alguns casos, especialmente entre os migrantes subsaarianos e do Médio Oriente, as principais razões são a perseguição e a violência. Enquanto que aqueles que deixam os seus países por razões econômicas ou devido a catástrofes naturais vêm principalmente de países do Sul da Ásia e do Haiti. Mas existem outras razões para a migração extracontinental, tais como o reagrupamento familiar.

    A chegada à América Latina explica-se principalmente por fatores políticos, uma vez que, geograficamente, a Europa seria um destino mais próximo. Mas durante a primeira década do século 21, dois fenômenos notáveis ocorreram quase em paralelo: o aumento das restrições à entrada na Europa e a flexibilização dos requisitos de entrada na América Latina. Em particular, alguns países latino-americanos com governos de esquerda como a Argentina sob Néstor Kirchner (2003-2007), Equador sob Rafael Correa (2007-2017) e Brasil sob Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) relaxaram as suas políticas de migração, especialmente as políticas de vistos, e promoveram um discurso oficial centrado nos direitos humanos dos migrantes. Estas medidas de abertura, embora temporárias na maioria dos casos, revelaram-se atrativas para a população migrante extracontinental. Uma vez estabelecidos, os fluxos de pessoas de fora da região aumentaram de forma constante.

    As rotas de migração vão de sul à norte. Começam na América do Sul, onde migrantes extracontinentais entram através de países com requisitos de vistos menos exigentes, como o Equador ou o Brasil. Continuam para a América Central através da região de Darién, uma área florestal e de alto risco entre a Colômbia e o Panamá. Embora não existam estatísticas semelhantes às das mortes de migrantes no Mediterrâneo, estima-se que o Darién é uma das rotas migratórias mais perigosas do mundo, pois é uma selva espessa, com geografia hostil e a presença de grupos armados, o que também interrompe a rota da rodovia Pan-Americana. De acordo com a Unicef, o número de crianças que atravessam o Darién quintuplicou nos últimos cinco anos.

    Barraca com produtos da arte africana na feira do imigrante, ao lado da estação Santa Cruz da linha 5-lilás
    Barraca com produtos da arte africana na feira do imigrante, ao lado da estação Santa Cruz da linha 5-lilás li/Eduardo Anizelli/Folhapress

    Por fim, os migrantes fazem o seu percurso através da América Central e México para os Estados Unidos e Canadá. Esta longa e dispendiosa viagem é muitas vezes feita com a ajuda de contatos, sejam contrabandistas ou outros migrantes que conhecem a rota. É também comum alternar entre meios de transporte terrestres e aquáticos, tais como autocarros, carros particulares e barcos, ou viajar a pé. Toda a viagem pode demorar vários meses ou mesmo anos.

    QUE DESAFIOS ENFRENTAM OS MIGRANTES?

    Ao longo da viagem, os migrantes enfrentam uma série de desafios, tais como naufrágios, problemas de saúde causados pela exposição a condições meteorológicas extremas, e fraudes de contrabandistas durante o percurso. Além disso, a superlotação, a hostilidade das autoridades públicas e o colapso de alguns serviços nas zonas fronteiriças complicam ainda mais a situação dos migrantes.

    Como exemplo, entre fevereiro e março de 2021, centenas de migrantes africanos e haitianos que fugiam da crise sanitária e econômica no Brasil ficaram presos na Ponte de Integração na fronteira entre o Brasil e o Peru. Durante várias semanas, enfrentaram a fome, condições de higiene inadequadas, tratamento hostil por parte da polícia e a separação de algumas famílias.

    Entretanto, no final de Julho de 2021, mais de dez mil migrantes africanos, asiáticos e haitianos ficaram retidos na cidade de Necocli, no norte da Colômbia, à espera de transporte para o Panamá. Diante do colapso da cidade, sobrecarregada com alojamento, água e serviços de limpeza, o governo municipal declarou um estado de calamidade pública.

    A primeira barreira enfrentada pelos migrantes de fora do continente ao chegar aos países de trânsito ou de destino é frequentemente a regularização da sua estadia. O cruzamento irregular das fronteiras muitas vezes fecha as portas para uma posterior regularização. E quando decidem candidatar-se ao estatuto de refugiado, a taxa de respostas favoráveis aos seus pedidos é frequentemente baixa.

    Na Argentina, por exemplo, venezuelanos, senegaleses, cubanos, haitianos e dominicanos estão no topo da lista em termos do número de pedidos de refugiados. No entanto, entre 2016 e 2020, apenas 10 das 1.267 candidaturas de haitianos, 11 das 885 candidaturas de cubanos e nenhuma das 705 candidaturas de dominicanos foram aprovadas.

    As detenções e expulsões na América do Norte são a última grande preocupação dos migrantes em sua travessia. Camarões, a República Democrática do Congo e a Eritreia foram os três principais países africanos cujos nacionais foram detidos no México em 2018. E durante os últimos cinco anos, pessoas de mais de oitenta países africanos e asiáticos foram presas nos Estados Unidos depois de entrarem no país através do México.

    Além disso, as condições de vida nos centros de detenção do México são altamente questionáveis. As organizações de direitos humanos denunciaram a superlotação, os maus tratos e a falta de cuidados médicos. Um caso emblemático foi a morte do migrante haitiano Maxene Andre no Centro de Detenção de Migrantes Siglo 21; passaram-se dois anos desde então e o seu corpo ainda não foi entregue à sua família, nem as circunstâncias da sua morte foram totalmente esclarecidas.

    Ativistas da ONG SOS Mediterrâneo fazem protesto em Marselhas, na França
    Ativistas da ONG SOS Mediterrâneo fazem protesto em Marselhas, na França Clement Mahoudeau – 24.ago.2020/AFP

    Quando os migrantes chegam finalmente ao seu destino ou decidem instalar-se num país de trânsito, mesmo nos casos em que a regularização migratória é conquistada, enfrentam barreiras à sua inserção laboral e social. Muitos acabam em empregos informais e sazonais, tais como venda ambulante em tendas e praias na Argentina, ou com contratos temporários em fábricas no Brasil. Além disso, enfrentam dificuldades linguísticas no caso da população de língua não espanhola, e discriminação racial no caso da população afrodescendente.

    Em conclusão, é de salientar que este é um processo relativamente pouco estudado e de difícil mensuração, uma vez que representa frequentemente fluxos migratórios mistos e irregulares, especialmente durante a pandemia de Covid-19. Neste contexto, sob a perspectiva das políticas públicas, é necessário compreender não só os desafios que os migrantes extracontinentais enfrentam nos seus processos de trânsito, mas também no interior dos países de acolhimento.

    Professora do Departamento Acadêmico de Ciências Sociais e Políticas da Universidad del Pacífico do Peru e pesquisadora da CIUP. Doutora em ciência política pela London School of Economics and Political Science, LSE (Inglaterra).Soledad Castillo Jara

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/latinoamerica21/2021/08/o-aumento-da-migracao-extracontinental-na-america-latina.shtml

    Prof Luciano Mannarino