21 de maio de 2021: Vol. 372, Issue 6544, pp. 769 DOI: 10.1126 / science.abj4606
Em 1871, Charles Darwin abordou “o maior e mais interessante problema para o naturalista … a descendência do homem”. Desafiando o status quo, Darwin implantou a seleção natural e sexual, e recentemente adotou a “sobrevivência do mais apto”, produzindo cenários para o surgimento da humanidade. Ele explorou histórias evolutivas, anatomia, habilidades mentais, capacidades culturais, raça e diferenças de sexo. Algumas conclusões foram inovadoras e perspicazes. Seu reconhecimento de que as diferenças entre humanos e outros animais eram de grau, não de tipo, foi o pioneiro. Seu foco em cooperação, aprendizado social e cultura cumulativa continua sendo o centro dos estudos evolutivos humanos. No entanto, algumas das outras afirmações de Darwin estavam tristemente e perigosamente erradas. “Descida” é um texto para aprender, mas não para venerar.
Darwin viu os humanos como parte do mundo natural, animais que evoluíram (descendem) de primatas ancestrais de acordo com processos e padrões semelhantes para toda a vida. Para Darwin, para conhecer o corpo e a mente humanos, devemos conhecer outros animais e sua (e nossa) descendência com modificação através das linhagens e do tempo. Mas, apesar desses quadros ideais e algumas inferências inovadoras, “Descent” é frequentemente problemático, preconceituoso e prejudicial. Darwin pensou que estava contando com dados, objetividade e pensamento científico para descrever os resultados da evolução humana. Mas durante grande parte do livro, ele não foi. “Descent”, como muitos dos tomos científicos da época de Darwin, oferece uma visão racista e sexista da humanidade.
Darwin retratou os povos indígenas das Américas e da Austrália como menos do que os europeus em capacidade e comportamento. Os povos do continente africano foram consistentemente referidos como cognitivamente dépauperados, menos capazes e de uma posição inferior do que outras raças. Essas afirmações são confusas porque em “Descent” Darwin ofereceu a refutação da seleção natural como o processo de diferenciação das raças, observando que os traços usados para caracterizá-las pareciam não funcionais em relação à capacidade de sucesso. Como cientista, isso deveria tê-lo feito hesitar, mas ele ainda, sem base, afirmava diferenças evolutivas entre as raças. Ele foi além de simples classificações raciais, oferecendo justificativas para o imperialismo, o colonialismo e o genocídio por meio da “sobrevivência do mais apto”. Isso também é confuso, dada a postura robusta de Darwin contra a escravidão.
Em “Descent”, Darwin identificou as mulheres como menos capazes do que os homens (brancos), muitas vezes semelhantes às “raças inferiores”. Ele descreveu o homem como mais corajoso, enérgico, inventivo e inteligente, invocando a seleção natural e sexual como justificativa, apesar da falta de dados concretos e avaliação biológica. Suas afirmações inflexíveis sobre a centralidade masculina e a passividade da mulher nos processos evolutivos, para os humanos e em todo o mundo animal, ressoam tanto na misoginia vitoriana quanto na contemporânea.
Na própria vida de Darwin, ele aprendeu com um naturalista sul-americano descendente de africanos, John Edmonstone, em Edimburgo, e teve relações substantivas com os fueguinos a bordo do HMS Beagle. Sua filha Henrietta foi uma das principais editoras de “Descent”. Darwin foi um cientista perspicaz cujas visões sobre raça e sexo deveriam ter sido mais influenciadas por dados e sua própria experiência de vida. Mas as crenças racistas e sexistas de Darwin, ecoando as visões de colegas científicos e de sua sociedade, foram poderosos mediadores de sua percepção da realidade.
Hoje, os alunos aprendem que Darwin é o “pai da teoria da evolução”, um cientista gênio. Eles também deveriam aprender Darwin como um homem inglês com preconceitos prejudiciais e infundados que distorceram sua visão dos dados e da experiência. Racistas, sexistas e supremacistas brancos, alguns deles acadêmicos, usam conceitos e afirmações “validadas” por sua presença em “Descent” como suporte para crenças errôneas, e o público aceita muito disso sem crítica.
“The Descent of Man” é um dos livros mais influentes na história da ciência evolutiva humana. Podemos agradecer a Darwin pelos insights importantes, mas devemos lutar contra suas afirmações infundadas e prejudiciais. Refletindo sobre “Descent” hoje, pode-se olhar para os dados que demonstram inequivocamente que a raça não é uma descrição válida da variação biológica humana, que não há coerência biológica para os cérebros “masculino” e “feminino” ou qualquer simplicidade nos padrões biológicos relacionados ao gênero e sexo, e que a “sobrevivência do mais apto” não representa com precisão a dinâmica dos processos evolutivos. A comunidade científica pode rejeitar o legado de preconceitos e danos nas ciências evolutivas, reconhecendo e agindo sobre a necessidade de diversas vozes e tornando as práticas inclusivas centrais para a investigação evolucionária. No fim.
Camada de ozônio não é um dos tópicos ambientais mais comentados hoje em dia, mas isso não significa que ela tenha sido esquecida ou que esteja tudo bem, pelo contrário. Cientistas ainda se esforçam para dimensionar o prejuízo provocado pela ação humana.
Dois artigos publicados nesta quarta (10) na revista Nature, inclusive, apontam o declínio na produção de moléculas responsáveis pela destruição da camada de ozônio, como o triclorofluorometano, também conhecido como CFC-11, usado no processo de fabricação de espumas.
Apenas entre 2018 e 2019, a redução nas emissões foi de 18 mil toneladas, o que representava 26% do total. A medida, feita por meio da análise de gases da atmosfera, foi aferida em locais remotos, distantes de grandes centros poluidores.
A conclusão do trabalho, comandado por cientistas da Noaa (agência americana responsável pelo monitoramento atmosférico e oceânico) e de outras instituições, é que o rápido declínio só foi possível porque deve haver uma grande produção de CFC-11 não reportada e consequente emissão desses gases.
A esperança é que, se mantido o declínio das emissões, e a produção irregular não aumentar, a agressão à camada de ozônio pode estacionar, favorecendo sua regeneração.
Uma outra análise, publicada na mesma edição mostra uma redução importante na produção do CFC-11 na porção leste da China. O estudo contou com medidas feitas na própria China, no Japão e na Coreia do Sul, além de análise da dinâmica atmosférica do continente asiático.
A diminuição foi de cerca de 10 mil toneladas ao ano, entre 2014 e 2017, chegando a 5.000 toneladas em 2019. Essa redução equivale a 60% do declínio nas emissões globais dos poluentes no mesmo período. Apesar da estimativa de ainda existir um grande banco de CFC-11, ou seja, gás aprisionado em dutos e espumas, ainda não liberado para a atmosfera, os autores atribuem a melhora nas emissões às políticas do governo chinês e às ações da indústria do país. Desse trabalho participaram cientistas da Coreia do Sul, Reino Unido, Japão, Suíça, China, EUA e Austrália.
Quanto ao impacto da destruição da camada de ozônio nas diversas formas de vida que habitam a Terra —a humana, inclusive —, o professor da USP Carlos Menck foi em uma expedição para a Antártida no final de 2017 para estudar como a perda da camada atinge o DNA. Só recentemente os resultados foram publicados na revista Photochemistry and Photobiology.
O experimento consistia em expor uma espécie de cápsula gelatinosa contendo DNA ao sol no continente gelado, enquanto outra cápsula, a controle, era protegida com uma folha de papel alumínio. Esse gel é chamado de “dosímetro de lesões de DNA” e permite que experimentos aconteçam fora do laboratório.
Pode parecer simples, mas houve desafios no processo, além do clima gelado.
O buraco na camada de ozônio na Antártida no ano 2000 – Nasa
Um deles foram as skuas, aves migratórias que costumam passear nos arredores da Estação Antártica Comandante Ferraz, a base brasileira no continente. “São como galinhas grandes, mas elas voam”, diz Menck. E o problema é que elas tentaram roubar o material dos experimentos do cientista. “Tentei pregar com fita crepe numa pedra, mas não se passaram nem 15 minutos e lá estava a skua de novo.”
Aconselhado por um colega, bolou uma engenhoca: adaptou o dosímetro em cima de um rodo que encontrou dando sopa na base brasileira. Fincou o cabo na neve e usou a parte de baixo como suporte.
Oficialmente, no artigo científico, trata-se de um “tilted support”, ou suporte angulado, que até facilitou a tarefa, já que para acompanhar o sol bastava girar o aparato.
O ozônio é um gás altamente instável, formado por três átomos de oxigênio (o oxigênio molecular, que respiramos, é composto de dois átomos) localizado principalmente na estratosfera, numa altitude de cerca de 15 km ou maior.
Esse ozônio forma uma espécie de nuvem dispersa, que tem por característica evitar a incidência de raios ultravioleta, especialmente do tipo C, os mais intensos, e também do B na superfície terrestre. Curiosamente, se aglutinados, esses átomos formariam uma camada de apenas cerca de 3 mm (ou 300 DU, unidades Dobson), o que revela a tal fragilidade.
(Também existe ozônio na troposfera, a camada da atmosfera na qual estamos imersos, mas aí ela está associada principalmente à poluição nas grandes cidades, e causa prejuízos à saúde.
Durante a primavera antártica, a camada de ozônio pode chegar ao que seria equivalente a menos de 1 mm (100 DU). Quando o valor está abaixo de 220 UD (o equivalente a 2,2 mm), já se considera que há um buraco. E quem fica abaixo do buraco pode sofrer com a severidade da radiação solar.
“Mesmo sem o buraco, havia uma irradiação muito forte. E nossos experimentos já mostraram uma correlação entre a espessura da camada de ozônio e lesões no DNA, especialmente pela ação de ultravioleta do tipo B [que deixa de ser bloqueado pela camada]”, conta Menck.
Lesões e mutações no DNA estão entre os principais fatores para a ocorrência de cânceres. Em última análise, a vida terrestre poderia ser extinta sem a proteção fornecida pela camada de ozônio.
Em 20 de setembro de 2020, o buraco chegou ao tamanho de 25 milhões de quilômetros quadrados, quase o dobro da área de todo o continente antártico e maior até mesmo que a área da Rússia, o maior país em extensão territorial, segundo dados da Nasa.
Desde as negociações que levaram os países a assinar o Protocolo de Montreal, no final da década de 1980, foram reduzidas as emissões dos chamados CFCs (clorofluorcarbonos), gases usando em aplicações como refrigeração e em aerossóis e que aceleram a degradação do ozônio, e a camada estratosférica se estabilizou.
A expectativa é que, se tudo der certo, a recuperação aos níveis anteriores a 1980 demore entre 60 a 100 anos, relata Paulo Artaxo, professor da USP e estudioso da física atmosférica.
Desde meados da década passada, porém, houve uma desaceleração do progresso por causa de uma emissão remanescente de gases que destroem a camada de ozônio. Segundo pesquisadores do MIT e das Universidades de Sussex e do Estado do Colorado defendem em artigo publicado em 2020 na revista Nature Communications, apesar do sucesso obtido até então, é hora de atualizar as políticas de proteção à camada de ozônio, e não mais nos vangloriarmos de uma conquista do século passado.
Com perspectiva de dobrar a produção de grãos nos próximos anos, o agronegócio de Mato Grosso é hoje disputado por três bilionários projetos ferroviários que, para o governo, podem revolucionar a logística de transportes da produção agrícola do país.
Juntos, os projetos demandariam ao menos R$ 40 bilhões em investimentos, para adicionar quase 2.000 quilômetros à malha ferroviária do país. O mais adiantado é o menor deles, a Fico (Ferrovia de Integração do Centro-Oeste), que será construída pela Vale.
O governo aposta suas fichas no mais complexo, a Ferrogrão, que liga Sinop (MT) aos portos de Miritituba e Santarém, no Pará, que enfrenta resistências no Ministério Público e críticas de especialistas que temem o risco de despejo de dinheiro público nas obras.
Trem da ALL, atual Rumo Logística, passando pela malha da MRS, próximo da Estação Evangelista de Souza, no bairro Emburá, extremo sul da cidade de São Paulo – Eduardo Anizelli/Folhapress
A expectativa é licitar a ferrovia ainda este ano, mas a meta depende de derrubada de liminar do STF (Supremo Tribunal Federal) que suspendeu a alteração de limites da Floresta Nacional do Jamanxim (PA) para a passagem dos trilhos.
Em outra frente, a Rumo Logística tenta convencer o governo que tem direito a construir um ramal expandindo sua malha de Rondonópolis (MT), onde já atua, até Lucas do Rio Verde (MT) para transportar a produção do estado até o porto de Santos.
Atualmente, a Rumo já opera no transporte de grãos de Mato Grosso por meio de seu terminal em Rondonópolis, mas a maior parte da produção agrícola local é transportada ainda por caminhões, modal ineficiente para esse tipo de carga e as longas distâncias que percorre.
Com a pavimentação do trecho norte da BR-163, que tem traçado parecido ao da Ferrogrão, os produtores locais já comemoram redução de 20% no custo de transporte, mas são entusiastas da perspectiva de maior economia com os projetos ferroviários
“Se não tivermos concorrência entre os modais de transporte, o frete sempre será caro”, diz o presidente da Aprosoja (Associação dos Produtores de Soja), Antônio Galvan. “O modal rodoviário hoje está superado, só utilizamos porque é o único que temos.”
Galvan diz ver demanda para os três projetos, mas o temor de que a competição inviabilize investimentos bilionários é foco de embates entre empreendedores e o governo, tornados públicos no fim de abril pelo ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas.
Em evento com empresários do setor de construção do Maranhão, o ministro disse que questionamentos ambientais sobre a Ferrogrão são “cortina de fumaça” patrocinada por interesses econômicos contra o projeto.
“Eu vou lá, patrocino uma ONG, pego um indígena, boto debaixo do braço, vou lá na Redação do jornal para dar o pau, dizer que a ferrovia é ruim”, afirmou, acusando operadores de ferrovias que cobrariam hoje frete equivalente ao ferroviário para transportar os grãos.
Freitas não citou nomes, mas a crítica foi dirigida à Rumo, única empresa que presta o serviço atualmente e apontada como a principal concorrente da Ferrogrão. A companhia, de fato, tem atuado nos bastidores para viabilizar seu projeto antes.
A empresa não dá entrevista sobre o assunto. Junto ao governo, defende que o contrato de concessão da malha que opera permite a expansão rumo ao norte de Mato Grosso. O governo alega que essa cláusula foi extinta e tenta empurrar o projeto para viabilizar a ferrovia para o Pará.
A Rumo dependeria, portanto, de aprovação de projeto de lei que altera o marco legal do setor ferroviário e permite a construção de ferrovias por autorização e não pelo modelo de concessão, que prevê concorrência pública.
O Ministério da Infraestrutura deixa claro que a Ferrogrão é sua prioridade na área de transporte e, nos bastidores, a Rumo acusa o governo de atrasar seu projeto para viabilizar o projeto concorrente.
Presidente da República, Jair Bolsonaro, ao lado do ex-presidente Fernando Collor de Melo e de Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, durante cerimonia, em Maceió/AL, para a entrega de 500 unidades habitacionais Alan Santos/Alan Santos – 13.mai.21/PR
O modelo de concessão da Ferrogrão prevê, inclusive, a criação de um fundo com recursos de concessões de outras ferrovias para bancar imprevistos, entre eles a entrada em operação do ramal da Rumo antes de 2045. Isto é, se a empresa acelerar seu projeto, o fundo teria que bancar parte da receita da outra ferrovia.
Para críticos da obra, como o economista Cláudio Frischtak, da consultoria Inter.B, essa possibilidade é um sinal de que o projeto tem riscos de não parar de pé sem aporte de dinheiro público — o que o Ministério da Infraestrutura afirma que não ocorrerá.
Como é uma ferrovia ponta a ponta, sem terminais intermediários, a Ferrogrão só poderá entrar em operação quando estiver totalmente concluída, o que está previsto para 2030. Para garantir o pagamento do financiamento, precisa de ao menos 20 milhões de toneladas nos primeiros anos.
A Rumo alega que seu projeto corre menos risco porque começa a gerar receita assim que o primeiro trecho do novo ramal for concluído, uma vez que a ligação restante com o porto de Santos já é operacional.
A terceira ferrovia projetada para chegar a Mato Grosso, a Fico, foi incluída como contrapartida à renovação de concessões ferroviárias da Vale. A mineradora ficará responsável pelas obras e, quando concluído, o trecho deve ser concedido em leilão.
A princípio, ela ligará Mato Grosso à Ferrovia Norte-Sul, abrindo uma nova alternativa logística para escoamento da produção do Centro-Oeste pelo Maranhão. Caso o governo consiga concluir também a Fiol (Ferrovia de Integração Oeste-Leste), a Fico ganha conexão com o porto de Ilhéus (BA).
Marcassa diz que as projeções de crescimento da produção de grãos no Centro-Oeste permitem a coexistência dos três projetos. A Ferrogrão prevê 40 milhões de toneladas e a expansão da Rumo, outras 40 milhões. A Fico terá capacidade inicial de 10 milhões.
O Imea (Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária) projeta já para 2030 uma produção de cerca de 120 milhões de toneladas de soja e milho. Incluindo o arroz, Galvan fala em 150 milhões, dobrando a capacidade de produção atual.
“Ainda tem a carga de retorno”, acrescenta a secretária de Fomento, Planejamento e Parcerias do Ministério da Infraestrutura, Natália Marcassa. “A Malha Norte sobe com Coca-Cola e fralda descartável para o MT, tem carga de fertilizante para Ferrogrão… Hoje todo esse centro é alimentado por caminhão em carga geral.”
“E tem todo o restante, algodão, pecuária, congelados… Depois vai aparecer minério e outras coisas”, afirma Galvan. “Com certeza essas três ferrovias vão ter que ser ampliadas no futuro.”
Forças israelenses e grupo islâmico ignoram apelos internacionais e mantêm piores confrontos em anos
13.mai.2021 às 9h32
Atualizado: 13.mai.2021 às 12h01
GAZA e JERUSALÉM | AFP e REUTERS
Tropas israelenses se concentraram na fronteira de Gaza nesta quinta-feira (13), e militantes do grupo islâmico Hamas mantiveram disparos de foguetes contra Israel, em conflitos que causam preocupação internacional e acirram hostilidades entre judeus e a minoria árabe em várias cidades do país.
No total, ao menos 90 pessoas morreram desde segunda-feira (10) —83 em Gaza, incluindo 17 crianças, segundo o Ministério da Saúde local, e 7 em Israel, de acordo com autoridades médicas israelenses— e mais de 500 ficaram feridas.
“Estamos em uma situação de emergência, e agora é necessário reforçar massivamente as forças no terreno”, afirmou o ministro da Defesa israelense, Benny Gantz, ao anunciar a convocação de oficiais militares da reserva para reforçar a segurança e o deslocamento de tropas que normalmente estão locadas na fronteira com a Cisjordânia para a região de Gaza.
O porta-voz do braço armado do Hamas, Abu Ubaida, respondeu ao agrupamento das tropas em tom de desafio, pedindo aos palestinos que se levantassem.”Juntem-se como quiserem, do mar, da terra e do céu. Nós nos preparamos para tipos de mortes que fariam vocês amaldiçoarem a si mesmos”, disse.
Soldados israelenses assumem posição em região próxima à fronteira com a Faixa de Gaza – Menahem Kahana – 13.mai.21/AFP
De acordo com as Forças Armadas de Israel, as operações militares do país estão focadas em atingir membros do alto escalão do Hamas. Nesta quarta, a ofensiva matou ao menos 16 líderes de inteligência e membros da ala militar da facção. As baixas, no entanto, foram consideradas pelo Hamas como martírios e servirão de “combustível para nosso projeto de libertar nossa terra”.
Diversas lideranças mundiais pediram o fim da escalada de violência, temendo uma guerra aberta entre os dois lados. Os pedidos desacompanhados de ações práticas, porém, não surtiram efeito sobre o maior pico de hostilidades desde 2014.
Em novos ataques aéreos contra Gaza, Israel atingiu um prédio residencial de seis andares que, segundo os militares israelenses, pertence ao Hamas. O grupo islâmico, que comanda a Faixa de Gaza desde 2007, é considerado uma facção terrorista por EUA, União Europeia e, claro, Israel.
“Estamos enfrentando Israel e a Covid-19. Estamos entre dois inimigos”, disse Asad Karam, 20, um trabalhador da construção civil à agência de notícias Reuters, referindo-se à sobrecarga dos hospitais em Gaza devido às centenas de feridos que agora dividem espaço com os contaminados pelo coronavírus.
Autoridades de saúde de Gaza disseram ainda que estão analisando amostras para investigar a morte de várias pessoas durante a noite desta quarta-feira (12) devido a uma suposta inalação de gás venenoso, mas que não chegaram a uma conclusão.
O Hamas já lançou cerca de 1.600 foguetes contra cidades israelenses, de acordo com os militares de Israel, que dizem ter bombardeado Gaza em mais de 600 ocasiões desde segunda-feira. A maior parte dos foguetes do Hamas tem sido interceptada pelos sistemas de defesas antimísseis, que forçam a detonação dos projéteis inimigos a quilômetros de altitude, muitas vezes ainda em território palestino. Um foguete, entretanto, atingiu um prédio perto de Tel Aviv, segunda maior cidade e capital econômica de Israel, e feriu cinco pessoas.
Principalmente na região sul do país, os moradores tiveram que voltar a conviver com as sirenes que alertam sobre os perigos dos disparos inimigos e iniciam uma corrida para os abrigos antiaéreos públicos e os espaços de paredes reforçadas mantidos por grande parte da população para situações como essa.
Cidades israelenses como Haifa, Jafa e Lod —que ordenou, nesta quinta, toque de recolher das 20h às 3h— também têm sido palco de manifestações da população árabe em apoio à causa palestina. Sinagogas foram atacadas e conflitos eclodiram nas ruas de algumas comunidades, levando prefeitos locais e até o presidente de Israel a alertar sobre o perigo de uma guerra civil.
“Há uma ruptura entre árabes e judeus, e há um preço a pagar”, disse o renomado pesquisador e professor israelense Elie Rekhess, da Universidade Northwestern, no estado americano de Illinois, em entrevista à Folha. “Talvez seja um alerta para que os políticos de ambos os lados lidem com esse problema. Mas não teremos uma guerra civil.”
Grupos judeus e árabes atacaram pessoas e danificaram lojas, hotéis e carros durante a noite desta quarta. Na cidade de Bat Yam, ao sul de Tel Aviv, extremistas judeus realizaram uma marcha em que, de acordo com imagens da TV israelense, uma multidão atacou um motorista palestino —não há informações sobre o estado de saúde dele.
“A violência dentro de Israel atingiu um nível inédito em décadas”, disse o porta-voz da polícia israelense, Micky Rosenfeld, à agência de notícias AFP. Segundo ele, mais de 400 pessoas foram presas e quase mil agentes da guarda de fronteira foram mobilizados para conter a violência em cidades que antes eram vistas como símbolos da convivência entre árabes e judeus.
“O que está acontecendo nos últimos dias nas cidades de Israel é insuportável. Nada justifica este linchamento de árabes pelos judeus e nada justifica o linchamento de judeus pelos árabes “, disse o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, acrescentando que o país vive um “combate em duas frentes”.
Sem conseguir, até agora, frear a escalada de violência, o Conselho de Segurança da ONU fará, nesta sexta-feira (14), a terceira reunião da semana para discutir o cenário atual. Durante as duas primeiras videoconferências, representantes dos EUA se opuseram a declaração conjunta que pedia o fim dos confrontos, por considerá-la “contraproducente” e “inoportuna” neste momento.
A proposta de resolução pedia, entre outros pontos, que Israel respeitasse a lei internacional, interrompesse a construção de assentamentos em territórios ocupados e se comprometesse a não realizar despejos de palestinos que vivem em Jerusalém Oriental —tema que está no centro da atual onda de violência.
O embaixador de Israel na ONU, Gilad Erdan, enviou nesta quinta uma carta à entidade em que culpa o Hamas pelo conflito, mas diz que “Israel tem o direito e o dever de defender seu povo e sua soberania e continuará a fazê-lo vigorosamente”.
“O Hamas está se apresentando como o ‘defensor de Jerusalém e dos locais sagrados’. Isso é, obviamente, uma mentira. É claro que o Hamas premeditou esta escalada de violência e terrorismo e está feliz em pagar o preço das baixas de ambos os lados para se fortalecer politicamente”, afirma Erdan, no documento.
Míssil lançado por Israel atinge prédio na cidade de Gaza Mohammed Abed – 11.mai.21 /AFP
Nesta quinta, Hua Chunying, porta-voz da diplomacia da China, país que neste mês chefia o Conselho de Segurança da ONU, lamentou que “alguns países” —sem citar quais— estejam obstruindo o texto. Ela reiterou a preocupação da China com a crise na região e a posição de Pequim na defesa da solução de dois Estados, um israelense e um palestino, para encerrar o conflito.
O presidente russo, Vladimir Putin, e o secretário-geral da ONU, António Guterres, também reforçaram seus pedidos por paz. “Dada a escalada do conflito israelense-palestino, [ambos os líderes] determinaram que a principal tarefa é o fim da violência entre as duas partes e a garantia da segurança da população civil”, anunciou o Kremlin após uma videoconferência entre as duas lideranças.
Em uma das poucas medidas concretas anunciadas pela comunidade internacional, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, enviou seu principal diplomata para a região, Hady Amr, para negociar com os dois lados uma solução que ponha fim à violência. A declaração aconteceu depois de as principais companhias aéreas americanas cancelarem todos os voos para Tel Aviv devido aos confrontos, movimento que foi seguido nesta quinta por empresas de aviação europeias.
Militantes do Hamas disseram ter lançado foguetes sobre o aeroporto internacional de Ramon, um dos principais de Israel, mas as autoridades portuárias do país disseram que o local, que recebe cerca de dois milhões de pessoas por ano, não foi atingido e segue operando normalmente.
Blinken também falou por telefone com o presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina), Mahmoud Abbas —que atualmente controla a Cisjordânia, mas não tem ingerência sobre o Hamas e a Faixa de Gaza. Na ligação, ele condenou os ataques aéreos e enfatizou a necessidade de diminuir a tensão.
Durante o início da noite, o presidente Joe Biden conversou por telefone com Netanyahu. O americano apoiou o direito de Israel de se defender dos foguetes do Hamas, mas pediu calma para que a situação fosse resolvida rapidamente, de acordo com comunicado da Casa Branca. O governo israelense respondeu em nota que vai manter seus ataques contra alvos do Hamas.
A nova fase de hostilidades, que inclui os bombardeios mais significativos desde a guerra de 2014 no enclave, foi desencadeada por confrontos entre palestinos e forças de segurança israelenses na mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém.
A cidade, sagrada para judeus, palestinos, cristãos e muçulmanos, vive um estado de tensão desde o início do ramadã, mês mais importante para a tradição religiosa islâmica. Em circunstâncias normais, as ruas de Gaza estariam cheias de palestinos, nesta quinta-feira, celebrando o feriado do Eid al-Fitr, que marca o fim do ramadã. Mas o medo tomou o lugar da festa.
“Este Eid é diferente. Vem com bombardeios, medo e horror”, disse Fahd Ramadan, 44, morador de um campo de refugiados em Gaza, à Reuters. As celebrações também foram ofuscadas em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia, além de em outras cidades de Israel, já que parte dos muçulmanos que vivem no país também preferiram não sair de casa para se proteger dos foguetes.
O Hamas, grupo radical islâmico que comanda desde 2007 a região da Faixa de Gaza, rivaliza com o Fatah, que controla a Cisjordânia e a ANP —tradicionalmente reconhecida internacionalmente como representante oficial dos palestinos. Entre a década de 1960 e o início dos anos 1990, o Fatah era considerado o principal grupo palestino e entrou diversas vezes em confrontos contra Israel. Nos últimos 30 anos, porém, a correlação de forças mudou, e o Hamas passou a liderar as ofensivas contra o país vizinho, com a ANP diminuindo a participação em ações violentas.
No centro dos atuais conflitos estão a liberdade de culto em pontos da região de Jerusalém conhecida como Cidade Antiga —que os palestinos dizem estar sendo tolhida— e uma decisão judicial que prevê o despejo de famílias palestinas do bairro de Sheikh Jarrah que, por veredito de um tribunal regional, devem devolver os terrenos a judeus.
COMO FORAM OS ÚLTIMOS CONFRONTOS ENTRE ISRAEL E GRUPOS PALESTINOS
23 e 24.fev.20 Soldados israelenses acusaram um grupo de palestinos de tentar instalar um explosivo na cerca que separa Israel da Faixa de Gaza, o que gerou um conflito entre os dois lados. Em resposta, o grupo radical Jihad Islâmica disparou em um intervalo de 48 horas cerca de cem foguetes contra a região sul de Israel —que respondeu com bombardeios que deixaram quatro palestinos feridos.
3 a 6.mai.19 Depois de dois soldados israelenses que estavam próximos da divisa ficarem feridos por tiros disparados de Gaza, Israel fez um ataque contra alvos do Hamas na região. Em resposta, foram disparados 690 foguetes de Gaza contra Israel, sendo que 240 foram interceptados pelo sistema de defesa antiaérea. O confronto terminou com 25 mortos do lado palestino —incluindo duas mulheres grávidas e duas crianças— e 4 do lado israelense.
25 a 27.mar.19 Um foguete disparado da Faixa de Gaza destruiu uma casa na vila de Mishmeret, que fica ao norte de Tel Aviv, deixando sete israelenses feridos. O premiê Binyamin Netanyahu ordenou, então, o bombardeio de áreas do Hamas, que disparou foguetes contra a cidade de Ashkelon, no sul de Israel. A violência acabou depois de quase uma semana de confronto.
11 a 13.nov.18 Um homem de 40 anos morreu depois que um foguete atingiu sua casa em Ashkelon. Em resposta, equipes das Forças Especiais de Israel realizaram ações na Faixa de Gaza —sete palestinos e um agente israelense foram mortos. Na sequência, grupos de Gaza dispararam foguetes contra Israel que deixaram 53 feridos. As Forças Armadas israelenses, então, bombardearam Gaza, causando três mortos.
8 e 9.ago.18 O governo israelense chegou a cogitar uma ação terrestre em Gaza depois que o lançamento de quase 180 foguetes da região deixou mais de uma dezena de feridos. No fim, porém, Israel optou por um bombardeio contra 150 alvos, que deixou três palestinos mortos, incluindo um bebê.
jul. e ago.14 Integrantes do Hamas sequestraram e mataram três adolescentes israelenses em junho, em ação que deu início ao maior conflito dos últimos sete anos. Em resposta, Israel lançou uma ação contra alvos do grupo na Cisjordânia. Na sequência, tropas do Exército israelense entraram na Faixa de Gaza, em uma escalada do conflito, que se estendeu por sete semanas. Durante esse período, o Hamas e outros grupos lançaram 4.562 foguetes contra Israel, que revidou com ataques contra 5.262 alvos palestinos. Quando enfim os dois lados chegaram a um cessar-fogo, no fim de agosto, mais de 70 israelenses e 2.100 palestinos tinham morrido.
Um terremoto de magnitude 4,7 foi registrado no início da madrugada desta quarta-feira (28) com epicentro em Barcelos, no interior do Amazonas, na divisa com Roraima. O tremor foi sentido também em Manaus, a 400 km de distância do epicentro. Barcelos, com 27 mil habitantes, fica às margens do rio Negro.
“Aqui balançou bastante o lustre e meus cachorros começaram a latir um pouco antes”, relata a advogada e professora Alichelly Ventura, moradora do bairro Ponta Negra, na zona oeste de Manaus, perto da orla do rio Negro.
Foi o segundo tremor sentido pela advogada este ano. No dia 31 de janeiro, moradores de Manaus notaram o reflexo de um terremoto de magnitude 5,7 na Guiana.
Em janeiro, Alichelly sentiu a cama tremer e saiu do prédio em que mora junto com os vizinhos. Em outros bairros de Manaus os moradores fizeram a mesma coisa, com medo das consequências do terremoto.
Nesta quarta-feira a situação foi menos assustadora. Segundo o USGS (Serviço Geológico dos Estados Unidos), o terremoto teve uma profundidade de dez quilômetros e foi um tremor com potencial para causar poucos danos perto do epicentro.
Imagem do Serviço Geológico dos Estados Unidos mostra o epicentro do terremoto – Reprodução
Apesar do susto de moradores de Barcelos e de alguns bairros de Manaus, não há, até o momento, relatos de estragos ou de pessoas feridas.
“É como se a gente estivesse tonta”, descreve a advogada moradora do bairro Ponta Negra. “Tenho medo porque moro em prédio e isso pode abalar as estruturas, dependendo da magnitude”.
Em setembro de 2020, um terremoto de magnitude 6,9 foi registrado no oceano Atlântico, perto de Fernando de Noronha, no estado de Pernambuco. O epicentro foi localizado a cerca de 282 km a leste do arquipélago São Pedro e São Paulo, a 816 km a nordeste de Fernando de Noronha e também próximo a Natal (RN), Recife (PE) e Fortaleza (CE).
Em agosto do mesmo ano, tremores de terra causaram pequenas avarias em imóveis e assustaram moradores em cidades do Recôncavo Baiano, Baixo-sul da Bahia e até em alguns bairros de Salvador.
“Foi um susto para todo mundo. Aqui na cidade, registramos três tremores em sequência”, afirmou, na ocasião, o prefeito de Amargosa, Júlio Pinheiro (PT). Apesar do susto, não houve registro de feridos nem de danos físicos de maior proporção na cidade.