Mês: maio 2021

  • Israel concentra tropas na fronteira com Gaza em meio a foguetes do Hamas e conflitos internos

    Forças israelenses e grupo islâmico ignoram apelos internacionais e mantêm piores confrontos em anos

    13.mai.2021 às 9h32

    Atualizado: 13.mai.2021 às 12h01

    GAZA e JERUSALÉM | AFP e REUTERS

    Tropas israelenses se concentraram na fronteira de Gaza nesta quinta-feira (13), e militantes do grupo islâmico Hamas mantiveram disparos de foguetes contra Israel, em conflitos que causam preocupação internacional e acirram hostilidades entre judeus e a minoria árabe em várias cidades do país.

    No total, ao menos 90 pessoas morreram desde segunda-feira (10) —83 em Gaza, incluindo 17 crianças, segundo o Ministério da Saúde local, e 7 em Israel, de acordo com autoridades médicas israelenses— e mais de 500 ficaram feridas.

    “Estamos em uma situação de emergência, e agora é necessário reforçar massivamente as forças no terreno”, afirmou o ministro da Defesa israelense, Benny Gantz, ao anunciar a convocação de oficiais militares da reserva para reforçar a segurança e o deslocamento de tropas que normalmente estão locadas na fronteira com a Cisjordânia para a região de Gaza.

    O porta-voz do braço armado do Hamas, Abu Ubaida, respondeu ao agrupamento das tropas em tom de desafio, pedindo aos palestinos que se levantassem.”Juntem-se como quiserem, do mar, da terra e do céu. Nós nos preparamos para tipos de mortes que fariam vocês amaldiçoarem a si mesmos”, disse.

    Soldados israelenses assumem posição em região próxima à fronteira com a Faixa de Gaza – Menahem Kahana – 13.mai.21/AFP

    De acordo com as Forças Armadas de Israel, as operações militares do país estão focadas em atingir membros do alto escalão do Hamas. Nesta quarta, a ofensiva matou ao menos 16 líderes de inteligência e membros da ala militar da facção. As baixas, no entanto, foram consideradas pelo Hamas como martírios e servirão de “combustível para nosso projeto de libertar nossa terra”.

    Diversas lideranças mundiais pediram o fim da escalada de violência, temendo uma guerra aberta entre os dois lados. Os pedidos desacompanhados de ações práticas, porém, não surtiram efeito sobre o maior pico de hostilidades desde 2014.

    Em novos ataques aéreos contra Gaza, Israel atingiu um prédio residencial de seis andares que, segundo os militares israelenses, pertence ao Hamas. O grupo islâmico, que comanda a Faixa de Gaza desde 2007, é considerado uma facção terrorista por EUA, União Europeia e, claro, Israel.

    “Estamos enfrentando Israel e a Covid-19. Estamos entre dois inimigos”, disse Asad Karam, 20, um trabalhador da construção civil à agência de notícias Reuters, referindo-se à sobrecarga dos hospitais em Gaza devido às centenas de feridos que agora dividem espaço com os contaminados pelo coronavírus.

    Autoridades de saúde de Gaza disseram ainda que estão analisando amostras para investigar a morte de várias pessoas durante a noite desta quarta-feira (12) devido a uma suposta inalação de gás venenoso, mas que não chegaram a uma conclusão.

    O Hamas já lançou cerca de 1.600 foguetes contra cidades israelenses, de acordo com os militares de Israel, que dizem ter bombardeado Gaza em mais de 600 ocasiões desde segunda-feira. A maior parte dos foguetes do Hamas tem sido interceptada pelos sistemas de defesas antimísseis, que forçam a detonação dos projéteis inimigos a quilômetros de altitude, muitas vezes ainda em território palestino. Um foguete, entretanto, atingiu um prédio perto de Tel Aviv, segunda maior cidade e capital econômica de Israel, e feriu cinco pessoas.

    Principalmente na região sul do país, os moradores tiveram que voltar a conviver com as sirenes que alertam sobre os perigos dos disparos inimigos e iniciam uma corrida para os abrigos antiaéreos públicos e os espaços de paredes reforçadas mantidos por grande parte da população para situações como essa.

    Cidades israelenses como Haifa, Jafa e Lod —que ordenou, nesta quinta, toque de recolher das 20h às 3h— também têm sido palco de manifestações da população árabe em apoio à causa palestina. Sinagogas foram atacadas e conflitos eclodiram nas ruas de algumas comunidades, levando prefeitos locais e até o presidente de Israel a alertar sobre o perigo de uma guerra civil.

    “Há uma ruptura entre árabes e judeus, e há um preço a pagar”, disse o renomado pesquisador e professor israelense Elie Rekhess, da Universidade Northwestern, no estado americano de Illinois, em entrevista à Folha. “Talvez seja um alerta para que os políticos de ambos os lados lidem com esse problema. Mas não teremos uma guerra civil.”

    Grupos judeus e árabes atacaram pessoas e danificaram lojas, hotéis e carros durante a noite desta quarta. Na cidade de Bat Yam, ao sul de Tel Aviv, extremistas judeus realizaram uma marcha em que, de acordo com imagens da TV israelense, uma multidão atacou um motorista palestino —não há informações sobre o estado de saúde dele.

    “A violência dentro de Israel atingiu um nível inédito em décadas”, disse o porta-voz da polícia israelense, Micky Rosenfeld, à agência de notícias AFP. Segundo ele, mais de 400 pessoas foram presas e quase mil agentes da guarda de fronteira foram mobilizados para conter a violência em cidades que antes eram vistas como símbolos da convivência entre árabes e judeus.

    “O que está acontecendo nos últimos dias nas cidades de Israel é insuportável. Nada justifica este linchamento de árabes pelos judeus e nada justifica o linchamento de judeus pelos árabes “, disse o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, acrescentando que o país vive um “combate em duas frentes”.

    Sem conseguir, até agora, frear a escalada de violência, o Conselho de Segurança da ONU fará, nesta sexta-feira (14), a terceira reunião da semana para discutir o cenário atual. Durante as duas primeiras videoconferências, representantes dos EUA se opuseram a declaração conjunta que pedia o fim dos confrontos, por considerá-la “contraproducente” e “inoportuna” neste momento.

    A proposta de resolução pedia, entre outros pontos, que Israel respeitasse a lei internacional, interrompesse a construção de assentamentos em territórios ocupados e se comprometesse a não realizar despejos de palestinos que vivem em Jerusalém Oriental —tema que está no centro da atual onda de violência.

    O embaixador de Israel na ONU, Gilad Erdan, enviou nesta quinta uma carta à entidade em que culpa o Hamas pelo conflito, mas diz que “Israel tem o direito e o dever de defender seu povo e sua soberania e continuará a fazê-lo vigorosamente”.

    “O Hamas está se apresentando como o ‘defensor de Jerusalém e dos locais sagrados’. Isso é, obviamente, uma mentira. É claro que o Hamas premeditou esta escalada de violência e terrorismo e está feliz em pagar o preço das baixas de ambos os lados para se fortalecer politicamente”, afirma Erdan, no documento.

    Míssil lançado por Israel atinge prédio na cidade de Gaza
    Míssil lançado por Israel atinge prédio na cidade de Gaza Mohammed Abed – 11.mai.21 /AFP

    Nesta quinta, Hua Chunying, porta-voz da diplomacia da China, país que neste mês chefia o Conselho de Segurança da ONU, lamentou que “alguns países” —sem citar quais— estejam obstruindo o texto. Ela reiterou a preocupação da China com a crise na região e a posição de Pequim na defesa da solução de dois Estados, um israelense e um palestino, para encerrar o conflito.

    O presidente russo, Vladimir Putin, e o secretário-geral da ONU, António Guterres, também reforçaram seus pedidos por paz. “Dada a escalada do conflito israelense-palestino, [ambos os líderes] determinaram que a principal tarefa é o fim da violência entre as duas partes e a garantia da segurança da população civil”, anunciou o Kremlin após uma videoconferência entre as duas lideranças.

    Em uma das poucas medidas concretas anunciadas pela comunidade internacional, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, enviou seu principal diplomata para a região, Hady Amr, para negociar com os dois lados uma solução que ponha fim à violência. A declaração aconteceu depois de as principais companhias aéreas americanas cancelarem todos os voos para Tel Aviv devido aos confrontos, movimento que foi seguido nesta quinta por empresas de aviação europeias.

    Militantes do Hamas disseram ter lançado foguetes sobre o aeroporto internacional de Ramon, um dos principais de Israel, mas as autoridades portuárias do país disseram que o local, que recebe cerca de dois milhões de pessoas por ano, não foi atingido e segue operando normalmente.

    Blinken também falou por telefone com o presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina), Mahmoud Abbas —que atualmente controla a Cisjordânia, mas não tem ingerência sobre o Hamas e a Faixa de Gaza. Na ligação, ele condenou os ataques aéreos e enfatizou a necessidade de diminuir a tensão.

    Durante o início da noite, o presidente Joe Biden conversou por telefone com Netanyahu. O americano apoiou o direito de Israel de se defender dos foguetes do Hamas, mas pediu calma para que a situação fosse resolvida rapidamente, de acordo com comunicado da Casa Branca. O governo israelense respondeu em nota que vai manter seus ataques contra alvos do Hamas.

    A nova fase de hostilidades, que inclui os bombardeios mais significativos desde a guerra de 2014 no enclave, foi desencadeada por confrontos entre palestinos e forças de segurança israelenses na mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém.

    A cidade, sagrada para judeus, palestinos, cristãos e muçulmanos, vive um estado de tensão desde o início do ramadã, mês mais importante para a tradição religiosa islâmica. Em circunstâncias normais, as ruas de Gaza estariam cheias de palestinos, nesta quinta-feira, celebrando o feriado do Eid al-Fitr, que marca o fim do ramadã. Mas o medo tomou o lugar da festa.

    “Este Eid é diferente. Vem com bombardeios, medo e horror”, disse Fahd Ramadan, 44, morador de um campo de refugiados em Gaza, à Reuters. As celebrações também foram ofuscadas em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia, além de em outras cidades de Israel, já que parte dos muçulmanos que vivem no país também preferiram não sair de casa para se proteger dos foguetes.

    O Hamas, grupo radical islâmico que comanda desde 2007 a região da Faixa de Gaza, rivaliza com o Fatah, que controla a Cisjordânia e a ANP —tradicionalmente reconhecida internacionalmente como representante oficial dos palestinos. Entre a década de 1960 e o início dos anos 1990, o Fatah era considerado o principal grupo palestino e entrou diversas vezes em confrontos contra Israel. Nos últimos 30 anos, porém, a correlação de forças mudou, e o Hamas passou a liderar as ofensivas contra o país vizinho, com a ANP diminuindo a participação em ações violentas.

    No centro dos atuais conflitos estão a liberdade de culto em pontos da região de Jerusalém conhecida como Cidade Antiga —que os palestinos dizem estar sendo tolhida— e uma decisão judicial que prevê o despejo de famílias palestinas do bairro de Sheikh Jarrah que, por veredito de um tribunal regional, devem devolver os terrenos a judeus.


    COMO FORAM OS ÚLTIMOS CONFRONTOS ENTRE ISRAEL E GRUPOS PALESTINOS

    23 e 24.fev.20 Soldados israelenses acusaram um grupo de palestinos de tentar instalar um explosivo na cerca que separa Israel da Faixa de Gaza, o que gerou um conflito entre os dois lados. Em resposta, o grupo radical Jihad Islâmica disparou em um intervalo de 48 horas cerca de cem foguetes contra a região sul de Israel —que respondeu com bombardeios que deixaram quatro palestinos feridos.

    3 a 6.mai.19 Depois de dois soldados israelenses que estavam próximos da divisa ficarem feridos por tiros disparados de Gaza, Israel fez um ataque contra alvos do Hamas na região. Em resposta, foram disparados 690 foguetes de Gaza contra Israel, sendo que 240 foram interceptados pelo sistema de defesa antiaérea. O confronto terminou com 25 mortos do lado palestino —incluindo duas mulheres grávidas e duas crianças— e 4 do lado israelense.

    25 a 27.mar.19 Um foguete disparado da Faixa de Gaza destruiu uma casa na vila de Mishmeret, que fica ao norte de Tel Aviv, deixando sete israelenses feridos. O premiê Binyamin Netanyahu ordenou, então, o bombardeio de áreas do Hamas, que disparou foguetes contra a cidade de Ashkelon, no sul de Israel. A violência acabou depois de quase uma semana de confronto.

    11 a 13.nov.18 Um homem de 40 anos morreu depois que um foguete atingiu sua casa em Ashkelon. Em resposta, equipes das Forças Especiais de Israel realizaram ações na Faixa de Gaza —sete palestinos e um agente israelense foram mortos. Na sequência, grupos de Gaza dispararam foguetes contra Israel que deixaram 53 feridos. As Forças Armadas israelenses, então, bombardearam Gaza, causando três mortos.

    8 e 9.ago.18 O governo israelense chegou a cogitar uma ação terrestre em Gaza depois que o lançamento de quase 180 foguetes da região deixou mais de uma dezena de feridos. No fim, porém, Israel optou por um bombardeio contra 150 alvos, que deixou três palestinos mortos, incluindo um bebê.

    jul. e ago.14 Integrantes do Hamas sequestraram e mataram três adolescentes israelenses em junho, em ação que deu início ao maior conflito dos últimos sete anos. Em resposta, Israel lançou uma ação contra alvos do grupo na Cisjordânia. Na sequência, tropas do Exército israelense entraram na Faixa de Gaza, em uma escalada do conflito, que se estendeu por sete semanas. Durante esse período, o Hamas e outros grupos lançaram 4.562 foguetes contra Israel, que revidou com ataques contra 5.262 alvos palestinos. Quando enfim os dois lados chegaram a um cessar-fogo, no fim de agosto, mais de 70 israelenses e 2.100 palestinos tinham morrido.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/05/israel-concentra-tropas-na-fronteira-com-gaza-em-meio-a-foguetes-do-hamas-e-conflitos-internos.shtml

    REGIONALIZAÇÃO: ORIENTE MÉDIO (vídeo e atividades)

    ONU pede que Israel mude plano ‘ilegal e perigoso’ de anexar terras da Cisjordânia (atividade)R

    io Jordão, Colinas de Golã, Israel e a Síria. (Atividade)

    UM MUNDO DE MUROS (CISJORDÂNIA E ISRAEL)

  • População da China tem menor crescimento em décadas e atinge 1,41 bilhão

    População da China tem menor crescimento em décadas e atinge 1,41 bilhão

    Censo revela aumento do número de idosos e queda na proporção de homens

    10.mai.2021 às 23h40 – Atualizado: 11.mai.2021 às 12h14

    Rafael Balago

    SÃO PAULO | REUTERS e AFP

    Após seguidos adiamentos, a China revelou, enfim, os dados de seu último censo. De acordo com o levantamento, divulgado na manhã desta terça (11) —noite de segunda (10) no Brasil—, a parte continental do país asiático tinha 1,411 bilhão de habitantes em 2020, 72 milhões a mais do que em 2010.

    Trata-se da menor taxa de crescimento populacional no país asiático ao menos desde a década de 1960.

    Os dados mostram uma taxa de fecundidade de 1,3 filho por mulher em 2020, em sintonia com sociedades em processo de envelhecimento, como Japão e Itália.

    O censo é feito a cada dez anos pelo Departamento Nacional de Estatísticas e, nesta edição, envolveu o trabalho de mais de 7 milhões de funcionários entre novembro e dezembro de 2020. Parte dos dados foi coletada online: moradores puderam escanear QR codes e preencher os formulários usando celulares.

    Chineses caminham em distrito financeiro de Pudong, em Xangai – Aly Song – 10.mai.2021/Reuters

    No último levantamento, de 2010, o país tinha 1,339 bilhão de habitantes. Assim, o crescimento anual médio entre 2011 e 2020 foi de 0,53%. Na década anterior (2001-2010), essa taxa havia sido de 0,57%.

    Com esse ritmo, o país pode perder o título de maior população do mundo mais rapidamente que o previsto. A Índia deve registrar em 2020, de acordo com estimativa da ONU, 1,38 bilhão de habitantes —e a população indiana cresce, em média, 1% ao ano, segundo estudo divulgado no ano passado por Nova Déli.

    A China havia previsto que a curva de crescimento populacional atingiria o pico em 2027, quando seria superada pela Índia. A população chinesa começaria, então, a diminuir, até chegar a 1,32 bilhão em 2050. O porta-voz do Escritório Nacional de Estatísticas, Ning Jizhe, confirmou que o país se aproxima do pico, mas não antecipou uma data. A população deve ser superior a 1,4 bilhão “durante um certo tempo”, disse.

    A queda da taxa de natalidade tem várias razões: diminuição do número de casamentos, custo de habitação e educação e gravidez mais tardia das mulheres que priorizam a carreira, por exemplo.

    No ano passado, marcado pela pandemia de Covid-19, o número de nascimentos caiu a 12 milhões, contra 14,65 milhões em 2019, ano em que a taxa de natalidade (10,48 por 1.000) já estava no menor nível desde a fundação da China comunista, em 1949. A pandemia de coronavírus “aumentou a incerteza da vida cotidiana e a preocupação com o nascimento de um filho”, explicou Ning.

    No começo dos anos 1950, o país tinha cerca de 540 milhões de habitantes e, em menos de 30 anos, dobrou a população, atingindo 1 bilhão no começo da década de 1980.

    Em seguida, com uma política rígida de controle de natalidade, que permitia apenas um filho por casal em muitos casos, o crescimento populacional foi contido. Estima-se que a medida tenha impedido o nascimento de cerca de 400 milhões de pessoas desde sua aplicação, a partir de 1979.

    Casais que descumpriam as restrições estavam sujeitos a penas como pagamento de multas e perda de emprego, e havia denúncias de medidas mais duras, como esterilizações e abortos forçados.

    Em 2015, o regime suspendeu a política do filho único e passou a estimular que cada família tenha dois filhos. A decisão, porém, não aumentou a taxa de natalidade, o que leva a pedidos do fim do limite de duas crianças por família. A meta estabelecida em 2016 era superar 1,42 bilhão de habitantes em 2020.

    Pelos dados do último censo, a China conseguiu atenuar o desequilíbrio entre sexos induzido pela preferência tradicional por meninos e que, às vezes, leva à eliminação de fetos do sexo feminino. Assim, o país registrou o nascimento de 111,3 meninos para cada 100 meninas, uma proporção em queda de 6,8 pontos percentuais na comparação com 2010.

    Em fevereiro deste ano, o Ministério da Segurança Pública chinês já havia divulgado números que apontavam queda no número de recém-nascidos. Segundo os dados, houve 11,79 milhões de nascimentos em 2019 —em 2020, esse número caiu para 10,035 milhões.

    Foto aérea de um bairro cultural de Beicang, localizado no distrito de Jiangbei, em Chongqing, que foi reformado a partir de um antigo armazém têxtil; cidade possui topografia montanhosa
    Foto aérea de um bairro cultural de Beicang, localizado no distrito de Jiangbei, em Chongqing, que foi reformado a partir de um antigo armazém têxtil; cidade possui topografia montanhosa Liu Chan – 23.abr.2021/Xinhua

    O regime chinês havia contestado, no fim de abril, uma reportagem do jornal britânico Financial Times que apontava encolhimento no número de habitantes na China pela primeira vez em décadas.

    POPULAÇÃO MAIS VELHA E MAIS URBANA

    O total de maiores de 60 anos na China subiu 5,4 pontos percentuais na última década, enquanto o de crianças e adolescentes de até 14 anos aumentou 1,3 ponto percentual. Agora, a população se divide em 18,7% de idosos, 17,95% com até 14 anos de idade e 63,35% com idades entre 15 e 59 anos.

    Por isso, os demógrafos advertem que o país pode registrar o mesmo fenômeno de Japão e Coreia do Sul, com excesso de idosos em comparação à população jovem e ativa no mercado de trabalho, uma preocupação que levou o Parlamento chinês, em março, a aprovar um plano para aumentar progressivamente a idade de aposentadoria durante os próximos cinco anos.

    Em relação à distribuição dos habitantes pelo país, as cidades ganharam 236 milhões de habitantes, e o total da população que vive em áreas urbanas aumentou 14 pontos percentuais, atingindo 63,89%. Ao mesmo tempo, a população “flutuante” de migrantes internos —pessoas de zonas rurais que trabalham em cidades com pouca proteção social— chegou a 376 milhões, aumento de quase 70% em uma década.

    Na educação, o país elevou a taxa de adultos que foram à universidade: o índice passou de 8,9 para 15,4 a cada 100 habitantes. Na mesma toada, o analfabetismo caiu de 4% para 2% do total.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/05/populacao-da-china-cresce-mais-devagar-e-atinge-141-bilhao-de-pessoas-em-2020.shtml

    Questões

    1 Aponte algumas razões para a queda da taxa de natalidade na China.

    2 Explique a diferença de gênero na população jovem da China.

    3 Por que China tem buscado aumentar progressivamente a idade da aposentadoria de sua população ativa?

    4 Por que a China vai perder o posto de maior população absoluta do mundo na próxima década?

    DEMOGRAFIA E TEORIA DA TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA.

    O perfil demográfico do Brasil até 2100 e os desafios da covid-19

    População

    Risco de mais desastres naturais

    Prof Luciano Mannarino

  • Diferenças entre um Tornado e um Furacão

    Tornados

    Tornado é um redemoinho de ventos girando com muita velocidade e que se forma em condições especiais num ambiente de tempestade muito forte. Este redemoinho descende de uma nuvem de tempestade (cumulunimbus) muitas vezes, atinge o chão, causando destruição por onde passa. A dimensão espacial do tornado é de centenas de metros e ele, normalmente, tem uma vida média de poucos minutos e percorre uma extensão de 500 a 1500 metros, ainda que na sua trajetória os ventos passem comumente de 200 km/h. A maioria deles giram em sentido ciclônico quando observados de cima, mas alguns foram vistos girando em sentido anti-ciclônico, ou seja, em sentido horário, quando observados de cima.

    Este fenômeno é visível por causa da poeira e sujeira levantadas do solo e pelo vapor d’água condensada. A pressão baixa dentro de um funil causa a expansão e resfriamento do ar, resultando na condensação do vapor d’água. As vezes, o ar é tão seco que os ventos giratórios permanecem invisíveis até atingir o solo e começam a carregar sujeiras. Ocasionalmente, o funil não pode ser visto por causa da chuva, nuvens de poreira, ou escuridão. Muitos tornados possuem um barulho distinto que pode ser ouvido por muitas milhas até quando eles não são bem visíveis. Este som parece ser mais alto quando o tornado toca o solo. Contudo, nem todos os tornados produzem este barulho. A maioria dos tornados tem o diâmetro de 100 a 600 metros. Alguns são de poucos metros de largura e outros excedem 1600 metros.

    Tornado

    Os tornados ocorrem em muitas partes do mundo, mas os mais frequentes e violentos acontecem nos Estados Unidos, numa média de mais de 800, anualmente. As Planícies Centrais dos EUA estão mais sujeitas aos tornados porque a atmosfera favorece o desenvolvimento de trovoadas severas que produzem tornados.

    Especialmente, na primavera, o ar úmido e quente na superfície é abaixo do ar mais frio e seco produzindo uma atmosfera instável. Embora tornados ocorram a qualquer hora, eles são mais frequentes entre 16h e 18h quando o ar na superfície é mais instável. Também ocorrem na Inglaterra, Canadá, China, França, Alemanha, Holanda, Hungria, Índia, Itália, Japão, Rússia, e até em Bermuda e nas Ilhas Fiji. Porém não estão restritos somente nestes países.

    Um furacão é um ciclone tropical que se tornou muito intenso com ventos girando no sentido horário no Hemisfério Sul e em sentido anti-horário no Hemisfério Norte ao redor de um centro de baixa pressão. Normalmente, bem no centro do furacão há uma região sem nuvens e com ventos calmos, chamada de olho do furacão.

    Nesta região, há movimentos de ar descendentes, ao lado de uma grande área circular de centenas de quilômetros com vigorosos movimentos ascendentes do ar, o que provoca formação de nuvens e muita chuva. Há também várias outras formas de ciclones, como os ciclones extra-tropicais, onde também os ventos giram em torno de um centro de baixa pressão, mas os processos físicos de formação e manutenção são muito distintos daqueles que atuam no furacão.

    Normalmente, os ciclones tropicais se formam quando um centro de baixa pressão viajando sobre oceanos tropicais encontra águas com temperaturas acima de 26ºC. Nesse ponto, aumenta a evaporação da superfície do oceano e o ar úmido ascendendo próximo ao centro esfria e formam-se nuvens com mais de 8 a 10 km de altura. Quando o vapor d’água se condensa nas gotículas de chuva, libera o calor latente de condensação devido à mudança de fase da água. Este calor liberado aquece o ar, que sobe ainda mais e faz com que a pressão atmosférica baixe mais no centro do sistema.

    Com o abaixamento da pressão, mais ar circundante é deslocado em direção ao centro do sistema e o sistema se realimenta disso para continuar a se intensificar. Quanto mais baixa a pressão em seu centro, mais fortes serão os ventos ao seu redor, tendo que estar acima de 119 km/hora para ser classificado como furacão. Além de águas acima de 26ºC e ventos que não podem variar muito com a altura outras condições na atmosfera precisam estar presentes para a formação dos furacões.

    Se os ventos forem muito fortes entre 5 e 10 km de altura, um ciclone tropical não se tornará um furacão. Até o Furacão Catarina, nunca havia sido observado um furacão no Atlântico Sul, uma vez que, em sua porção tropical, as águas estão quase sempre abaixo de 26ºC. Furacões não se formam precisamente sobre o Equador porque necessita estar um pouco afastado do Equador para os sistemas meteorológicos sentirem os efeitos da rotação da Terra, que faz com que os ventos girem ao redor do centro de baixa pressão.

    Furacões acontecem sobre a maioria dos Oceanos Tropicais em áreas onde a temperatura do mar encontra-se acima de 26ºC. Até o Furacão Catarina, a grande exceção era o Atlântico Sul. Ocorrem com maior frequência no Atlântico Tropical Norte, Pacífico Tropical Oriental, Pacífico Tropical Norte Oriental e Pacífico Tropical Sul Oriental, além do Oceano Índico.

    Furacão

    Segundo o pesquisador do INPE, Carlos Nobre o Furacão Catarina foi o primeiro furacão observado no Atlântico Sul, pelo menos desde que há registros meteorológicos confiáveis no Brasil, isto é, por 100 anos ou mais. Nos últimos 40 anos, desde que há satélites meteorológicos, não há registros de furacões nesta parte do Oceano Atlântico. Também, o Furacão Catarina originou-se a partir de um ciclone extra-tropical, ao passo que a maioria absoluta dos ciclones tropicais, dos quais alguns deles virão a se tornar furacões, originam-se de depressões tropicais, isto é, centros de baixa pressão tropicais.

    Por último, furacões se formam sobre águas oceânicas acima de 24ºC. Na região de formação do Catarina, as águas encontravam-se entre 24ºC e 26ºC, um pouco abaixo deste limiar. Portanto, um fenômeno raro e atípico, sob qualquer ponto de vista, mas que se formou, de qualquer maneira. Em outras palavras, o Furacão Catarina fez mudar o paradigma sobre furacões no Atlântico Sul.

    Previsão de ciclones tropicais são somente factíveis na escala de dias. Portanto, nós somente saberemos se poderá haver furacões no Atlântico Sul, quando acontecer algum outro, além do Furacão Catarina, que ocorreu em março de 2004. Ainda não há certeza científica de que o Atlântico Sul se tornará um local onde furacões passarão a ocorrer com freqüência, mas é uma hipótese que não pode ser descartada.

    Na faixa subtropical do Atlântico Sul, podem aumentar as chances de ocorrência de furacões pelo lado da atmosfera, isto é, situações onde a velocidade do vento não varia muito com a altura em relação àquela da superfície. Se a temperatura do mar continuar aumentando com o aquecimento global, estes mares subtropicais chegarão a ter mais comumente temperaturas acima de 26ºC, que é outra condição para furacões se formarem. Há, porém, outros determinantes que indicam que dificilmente seria uma região com ocorrência de muitos furacões, no caso de voltarem a ocorrer.

    Porém, devemos lembrar que o Furacão Catarina originou-se de um ciclone extratropical e estes normalmente, como o próprio nome diz, ocorrem fora da faixa tropical e sub-tropical. O efeito dos ciclones extra-tropicais sobre o Atlântico Sul é sentido nas ressacas que afetam todo o litoral Sul e também o litoral do Sudeste do Brasil.

    Fonte: https://www.cptec.inpe.br/glossario.shtml#9

    Prof Luciano Mannarino

    CLIMAS DO MUNDO – TROPICAL

    Crise do Clima “Ártico”

  • Risco de mais desastres naturais

    Aquecimento global deve favorecer aumento de inundações bruscas e deslizamentos de terra causados por chuvas extremas no Sul, Sudeste e leste do Nordeste

    Marcos Pivetta

    Edição 303
    mai. 2021

    Ambiente

    O aumento gradual do aquecimento global ao longo deste século deve intensificar progressivamente a incidência de chuvas extremas e elevar o risco de deslizamentos de terras e inundações bruscas nas regiões Sul e Sudeste e na faixa leste do Nordeste, onde ficam os maiores centros urbanos e se concentram mais de dois terços da população do Brasil. Se a temperatura média do planeta subir 4 graus Celsius (°C) em relação ao valor apresentado no final do século XIX, logo após a Revolução Industrial, a probabilidade de, por exemplo, ocorrer enxurradas na Região Metropolitana de São Paulo, que atualmente já é considerável, cresce quase 15%. A elevação do risco de deslizamentos de terra na maior megalópole brasileira é um pouco menor, mas ainda assim significativa, da ordem de 10%. Essas são algumas das conclusões de um artigo de modelagem climática publicado em 3 de março no periódico Frontiers in Climate por pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento de Desastres Naturais (Cemaden), localizado no interior paulista, e do Met Office Hadley Centre for Climate Science and Services, do Reino Unido.

    Estudo prevê que o risco de enchentes na Região Metropolitana de São Paulo pode aumentar até 15% em razão do aquecimento global Fabio Vieira / FotoRua / NurPhoto via Getty Images

    O aumento de 10% a 15% no risco de haver desastres, como o previsto para a Grande São Paulo, pode parecer pouco, mas sua relação com os impactos das calamidades não é linear. “Vimos que o potencial de ocorrer mais inundações e deslizamentos de terra aumenta sobretudo nas regiões onde hoje esse risco já é alto”, comenta um dos autores do artigo, o climatologista José Antonio Marengo, coordenador de pesquisa e desenvolvimento do Cemaden. “Se a temperatura global subir 1,5 ou 2 ºC, o custo de se adaptar a essa situação será muito elevado. Caso o aumento seja de 4 ºC, o processo de adaptação em si fica quase inviável.” Marengo estuda os impactos das mudanças climáticas no Brasil por meio de projetos financiados pela FAPESP e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

    Na porção ocidental da região Norte e em setores do Centro-Oeste, deslizamentos e inundações também tendem a se tornar mais frequentes com o avanço de temporais decorrentes do aquecimento global ao longo deste século, segundo o estudo. Mas, por essas áreas terem baixa densidade demográfica, os deslizamentos de terra e enchentes raramente afetam a vida dos moradores locais e tendem a não provocar desastres com vítimas humanas ou patrimoniais.

    A vulnerabilidade da Região Metropolitana de São Paulo não é um caso extremo e isolado. Em quase todas as áreas em torno das capitais do país há elevação da probabilidade de haver deslizamentos de terra e inundações, de acordo com as simulações. Em Curitiba, se a temperatura subir 4º C, o risco de ocorrer deslizamentos sobe cerca de 10%. Em Porto Alegre e no Vale do Itajaí, em Santa Catarina, duas áreas que atualmente apresentam os maiores níveis de risco para deslizamentos de terra no país, o aumento da temperatura planetária faz o risco desse tipo de desastre crescer entre 2% e 7%. A situação é semelhante quando o foco são as inundações. Como São Paulo, Florianópolis é outra capital em que o estudo aponta um aumento acima de 10% no risco de incidência de inundações por causa do aquecimento global.

    Das grandes capitais, Recife parece ser uma exceção. As simulações não apontaram risco aumentado de ocorrer inundações e deslizamentos. No caso da capital pernambucana e de outros pontos do Nordeste, não se trata apenas de a região apresentar uma menor propensão natural a ser alvo de desastres decorrentes de chuvas extremas. Há também uma falta de consenso dos modelos climáticos sobre como o aquecimento global vai afetar o regime de chuvas na região e, por conseguinte, impactar a probabilidade de haver enchentes e deslizamentos. “Nosso grau de confiança para fazer previsões em boa parte do Nordeste é menor do que no Sul e Sudeste”, diz o pesquisador Pedro Camarinha, especialista em mudanças climáticas e desastres do Cemaden, outro autor do estudo. “Para essas duas regiões, geralmente cinco dos seis modelos climáticos que usamos no estudo apontam resultados semelhantes.”

    As projeções do artigo se baseiam em uma abordagem ligeiramente diferente da que usualmente tem sido adotada em trabalhos similares. Em vez de se preocupar em determinar em que década deste século a temperatura média global, em razão do aumento do chamado efeito estufa, vai alcançar um certo nível, os pesquisadores direcionaram o foco de seu estudo para outra questão: qual será o impacto no risco de haver inundações e deslizamentos de terra quando, independentemente do ano, o aquecimento global atingir três cenários possíveis, aumentos de 1,5°, 2° e 4 ºC na temperatura média planetária em relação ao valor registrado em 1880, de 13,7 °C?

    Para responder a essa pergunta, a equipe do Cemaden e do Hadley Centre usou os parâmetros atuais de ocupação e demografia do território nacional e calculou o risco atual de haver enchentes e deslizamentos de terra em todo o país. Em seguida, sem alterar o tamanho da população brasileira e sua distribuição geográfica, inseriu os três cenários de aquecimento global em seis modelos climáticos globais, desenvolvidos por diferentes centros de estudo, entre os quais o Hadley Centre. No fim do processo, cada modelo forneceu para diferentes pontos do país e, para os três distintos graus de aumento de temperatura, novos índices referentes ao risco de haver enchentes e grandes deslizamentos de terra.

    Desde a Revolução Industrial, em razão do acúmulo dos chamados gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono e o metano, o planeta se tornou, em média, 1,1 °C mais quente. As previsões mais recentes feitas no âmbito de trabalhos que vão embasar o próximo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que deve ser lançado no segundo semestre de 2021, apontam que o marco de 1,5 °C deve ser atingido em no máximo duas décadas. “Mesmo que agora reduzíssemos a zero todas as emissões de gases de efeito, provavelmente iríamos ultrapassar esse limite nos próximos anos”, diz Marengo. “Precisamos adaptar nossas cidades a essa nova realidade.”

    Questões

    Segundo estudos apontados pelo texto, porções ocidentais da região norte irão sofrer aumento de casos de enchentes e deslizamentos nesse século sem provocar desastres com vítimas humanas e danos patrimoniais. Por quê?

    Aponte mudanças que podemos fazer nas cidades brasileiras para atenuar os efeitos do aumento do efeito estufa.

    Aquecimento profundo

    VÍDEO – UMA VERDADE INCONVENIENTE (LEGENDADO)

    Prof Luciano Mannarino

  • As pontes do Acre existem e unirão a região mais dinâmica do Brasil ao Pacífico

    As pontes do Acre existem e unirão a região mais dinâmica do Brasil ao Pacífico

    Obra conectará a capital do Acre a outras capitais sem a necessidade de balsa

    7.mai.2021 às 10h57

    Pedro Silva Barros

    É economista. Trabalha no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea (Brasília). Foi Diretor de Assuntos Econômicos da União de Nações Sul-Americanas (Unasul). Doutor em Integração Latino-Americana pela USP.

    O Acre foi a última grande expansão territorial do Brasil. Comprado da Bolívia no início do século 20, faz fronteira também com o Peru. Nos últimos anos, foi comum em diferentes regiões do Brasil, a expressão “o Acre não existe”. Convertida em piadas e memes, refletia de forma pejorativa sua pequena população, economia de baixa complexidade, infraestrutura deficiente e, sobretudo, a ignorância de regiões decadentes que tem dificuldade de conhecer o próprio país.

    As notícias do Acre para o grande público brasileiro nos últimos anos se resumiram às suas constantes inundações e a nova rota de migração. Ambos os fenômenos têm relação direta com as pontes do estado, que terão novo protagonismo devido à profunda mudança geoeconômica que o Brasil está passando.

    Nesta sexta-feira (7) será inaugurada pelo presidente Bolsonaro a ponte do Abunã, em Rondônia. A obra de 1,9 km sobre o rio Madeira conectará pela primeira vez a capital do Acre a outras capitais do país sem a necessidade de balsa.

    Ponte do Madeira, na região do Abunã, em Rondônia, que liga o Acre por estrada – Pedro Devani / Secom

    A decisão de construí-la foi da presidenta Dilma Rousseff em 2014, durante uma cheia que deixou Rio Branco, capital do Acre, isolada das demais capitais do Brasil por 90 dias. A crítica situação para os acrianos naquele momento foi amenizada pelas pontes de Epitaciolândia e Assis Brasil. Inauguradas em 2004 e 2006, ligaram o Acre à Bolívia e ao Peru, respectivamente. Essas pontes construídas no governo Lula juntas com a pavimentação da BR-317 até Assis Brasil, realizada no governo Fernando Henrique Cardoso, garantiram o fornecimento de combustível peruano e alimentos bolivianos para os acreanos.

    DO SONHO À DESILUSÃO EM UMA DÉCADA

    Também foi o caminho para milhares de haitianos que migraram para o Brasil após o terremoto de Porto Príncipe em 2010. Eles chagavam depois de longas viagens. Partiam por via aérea para o Equador, com escala no Panamá. Depois seguiam por terra pelo Peru para ingressarem no Brasil via Acre. A avançada política migratória equatoriana e o bom desempenho econômico do Brasil tornavam essa rota atraente. Em 14 fevereiro de 2021, os estrangeiros na ponte binacional entre Assis Brasil e Iñapari foram novamente notícia.

    Quatrocentos deles, em sua maioria haitianos, mas também oriundos de países da costa oeste africana e de países indostânicos, que vieram de diferentes estados brasileiros após estadia de períodos variados no país. Devido à restrição de entrada de estrangeiros no Peru, em decorrência da pandemia da Covid-19, os migrantes foram impedidos de ingressar no país vizinho, a fim de continuar seus projetos migratórios. Bloquearam a ponte por vários dias. Deixaram o Brasil sem ver inaugurada a ponte do Abunã. Talvez pela desilusão com a crise de saúde pública ou o aumento do desemprego.

    Faltava pouco. No final do governo Michel Temer, em dezembro de 2018, 85% da ponte do Abunã já estava pronta e a expectativa era que a inauguração fosse em agosto de 2019. Após atrasos, aditivos e alguns adiamentos, e 117 anos depois do Tratado de Petrópolis que formalizou o acordo entre Brasil e Bolívia para que o Acre formasse parte do território brasileiro, este estado estará interconectado por estradas ao Atlântico. Tão importante quanto, Rondônia, sul do Amazonas e noroeste de Mato Grosso terão um caminho totalmente pavimentado ao Pacífico.

     Cheia do Rio Tarauacá, na cidade que leva o mesmo nome, no Acre
    Cheia do Rio Tarauacá, na cidade que leva o mesmo nome, no Acre Rafael Dias


    MARCHA PARA OESTE

    O Brasil caminha para Oeste na economia, na demografia e principalmente nas exportações. A atual fase dessa marcha é consequência do abandono industrial interno e da transição do centro dinâmico da economia mundial do Atlântico Norte à Ásia-Pacífico.

    Ao se isolar politicamente da América do Sul e desmontar o apoio estatal à internacionalização de suas empresas, o Brasil aprofundou a crise de seu setor industrial cambaleado pelo baixo crescimento interno. Não à toa, Brasil e Argentina foram os dois países cujo setor industrial mais perdeu peso relativo no mundo nos últimos cinco anos. O futuro produtivo do país parece não estar mais concentrado no Atlântico.

    Entre 2000 e 2010 todas as regiões do Brasil cresceram e as exportações per capita nominais se multiplicaram por mais de três, passando de US$ 324 para US$ 1.051. Em 2020, as exportações per capita do conjunto do Brasil haviam recuado para US$ 988. Mas o comportamento entre os estados é muito discrepante. São Paulo, líder em exportações industriais, exportava US$ 19 bilhões em 2000, atingiu US$ 59 bilhões em 2011 e regrediu a US$ 42 bilhões em 2020. Já Mato Grosso exportou US$ 1 bilhão em 2000 e US$ 18 bilhões em 2020, aumentando suas vendas externas concentradas no agronegócio ininterruptamente ano após ano.

    Nos últimos 20 anos, o comércio mundial triplicou seu valor nominal em dólares, as exportações da China multiplicaram seu valor por dez e as vendas externas de Mato Grosso aumentaram 18 vezes. Na proporção per capita, um mato-grossense exportou em média US$ 5.170 em 2020 enquanto um chinês exportou US$ 1.799.

    CUSTOS AMBIENTAIS

    A expansão da fronteira agrícola em direção ao norte e oeste veio acompanhada de altos custos ambientais e mudanças logísticas. Mato Grosso só esteve atrás do Pará em desmatamento nos últimos anos e parte significativa da produção agrícola do estado se dá em terras devastadas ilegalmente.

    A dinâmica tem sido desmatamento, aumento da exploração de madeira, seguida do crescimento da produção pecuária e, depois, da expansão das áreas de cultivo de grãos. Esse movimento avança em direção a Rondônia e ao Acre. Em 2000, Rondônia exportava apenas US$ 43 nominais per capita, sendo 90% madeira. Em 2020 foram US$ 764 por rondoniense, 52% só de carnes, 30% de soja e menos de 5% de madeira.

    Mas a saída pelos portos do Atlântico, cada vez mais longe da produção, tira competitividade da carne brasileira. A carne fresca e refrigerada tem um valor médio no mercado mundial 20% superior ao da carne congelada. O Brasil responde sozinho por 19,9% das exportações mundiais de carne congelada, mas apenas por 3,7% das carnes frescas e refrigeradas. As carnes de maior valor da fronteira ocidental brasileira serão muito mais competitivas nos mercados da Ásia-Pacífico se cruzarem os Andes por terra. Não apenas pelo custo, mas principalmente pelo tempo.

    CAMINHO MAIS CURTO

    Por vias pavimentadas, o distrito de Abunã, em Rondônia, está a 1.734 km do porto de Matarani, na costa do Pacífico peruano, e a 3.274 km do porto de Santos ou a 2.784 de Belém, Pará. Já a fronteiriça Assis Brasil, no Acre, está a 1.164 km de Matarani, 3.357 km de Belém e a 3.864 km de Santos. E Matarani está a alguns milhares de milhas náuticas mais próxima do Japão do que Santos ou Belém. Os dias economizados no trajeto pelos portos do Pacífico podem garantir acesso rápido de produtos refrigerados à Ásia, mercado que via Atlântico o Brasil só alcança em commodities e congelados. Para isso é necessário escala e logística.

    A saída pelo Pacífico pode ser o caminho para agregar mais valor às exportações do Centro-Oeste e, principalmente, da Amacro, acrônimo referente à área da que congrega o sul do Amazonas, o leste do Acre e o noroeste de Rondônia, próximos à tríplice fronteira entre Brasil, Bolívia e o Peru. O Acre está prestes a viver uma grande transformação, de magnitude similar a que ocorreu em Mato Grosso e que está em curso em Rondônia. O desafio é aprender rapidamente para evitar as externalidades negativas da expansão agrícola de Mato Grosso e do Matopiba (parte do Maranhão, Tocantins, Piauí e Oeste da Bahia), reforçar o uso organizado e consciente do solo e coibir a devastação ilegal.

    No caso do Matopiba, o conceito surgiu após a realidade econômica se impor com altos custos ambientais e aproveitamento limitado dos benefícios sociais do aumento da produção. Na Amacro é possível definir o modelo de desenvolvimento no início da nova realidade econômica e seu planejamento será mais satisfatório se incluir a conexão com o Pacífico.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/latinoamerica21/2021/05/as-pontes-do-acre-existem-e-unirao-a-regiao-mais-dinamica-do-brasil-ao-pacifico.shtml

    Questão

    1 O que o autor quer dizer quando afirma que o “futuro produtivo parece não estar mais concentrado no Atlântico”?

    2 O que são países indostânicos? Explique

    3 De que forma a pauta de exportação do Estado de Rondônia entre 2000 e 2020 caracteriza o avanço da fronteira agropecuária na região?

    4 A saída pelo pacífico vai agregar valor as nossas exportações no setor agropecuário? Justifique.

    5 Estabeleça diferenças entre a Amacro e a Matopiba!!

    ACRE. UMA BREVE HISTÓRIA

    NO AGRONEGÓCIO, PRESERVAÇÃO E PRODUÇÃO DEVEM ANDAR JUNTAS

    Prof Luciano Mannarino