Decisão é resposta a envelhecimento rápido da população mostrado por censo
31.mai.2021 às 7h27
PEQUIM | AFP e REUTERS
A Chinaanunciou nesta segunda (31) que vai autorizar a cada casal ter até três filhos, acabando com o limite de dois ainda em vigor. A decisão foi tomada poucas semanas após a divulgação dos resultados do último censo, que apontou expressiva queda da taxa de natalidade no país mais populoso do mundo.
“Em resposta ao envelhecimento da população (…) os casais serão autorizados a ter três filhos”, informou a agência estatal Xinhua, ao relatar as conclusões de uma reunião do gabinete político do Partido Comunista comandada pelo líder Xi Jinping.
Médico examina recém-nascido em maternidade da China – 25.abr.21/ AFP
Xi disse que a mudança será acompanhada por “medidas de apoio conduzidas para melhorar a estrutura populacional do país, alcançando a estratégia de lidar ativamente com uma população em envelhecimento”. Entre as medidas, citou a redução dos custos de educação, o aumento do financiamento habitacional, a garantia dos interesses legais de mulheres que trabalham e a repressão aos dotes “estratosféricos”. Afirmou ainda que o país vai educar os jovens “para o casamento e o amor”.
Até o ano passado, quem tinha um terceiro filho precisava pagar uma multa de 130 mil yuans (R$ 106,5 mil), de acordo com uma advertência governamental na cidade de Weihai.
No dia 11 de maio, os resultados do censo realizado em 2020 revelaram um envelhecimento mais rápido que o esperado da população chinesa e o menor crescimento populacional em décadas. A China continental tinha 1,411 bilhão de habitantes em 2020, 72 milhões a mais do que em 2010. O crescimento anual médio entre 2011 e 2020, entretanto, foi de 0,53%, o menor ao menos desde a década de 1950. Na década anterior (2001-2010), essa taxa havia sido de 0,57%.
Os dados mostraram uma taxa de fecundidade de 1,3 filho por mulher em 2020, em sintonia com sociedades em processo de envelhecimento, como Japão e Itália. No ano passado, marcado pela pandemia de Covid, o número de nascimentos no país caiu a 12 milhões, contra 14,65 milhões em 2019.
A taxa de natalidade em 2019 (10,48 por 1.000) já estava no menor nível desde a fundação da China comunista, em 1949. Assim, em 2016, depois de mais de três décadas da “política do filho único”, a China flexibilizou as regras e permitiu o segundo filho.
Mas a nova política não foi suficiente para estimular a taxa de natalidade, em queda livre devido a vários motivos, incluindo a redução no número de casamentos, o aumento do custo da moradia e da educação e, também, a decisão das mulheres de adiar os planos de gravidez para privilegiar a carreira profissional.
Estudo publicado neste ano por cientistas da Universidade de Hangzhou mostrou que a política de dois filhos encorajou casais ricos e foi “menos sensível à carga financeira de criar uma criança”, levando a um aumento nos custos com educação e cuidados infantis e desencorajando pais de primeira viagem.
A Xinhua fez uma enquete na rede social Weibo, questionando se a população estava pronta para a política dos três filhos. Cerca de 29 mil dos 31 mil que responderam afirmaram que “nunca pensariam nisso”. O restante escolheu as opções “estou pronto e querendo muito isso”, “está nos meus planos” ou “estou na dúvida e há muito a considerar”. A pesquisa foi posteriormente removida. “Estou pronto para ter três filhos se você me der 5 milhões de yuans [o equivalente a R$ 4 milhões]”, postou um usuário.
No outro extremo da pirâmide, o censo mostrou que a China tinha mais de 264 milhões de pessoas com mais de 60 anos em 2020. O grupo de pessoas com mais de 60 anos constitui agora 18,7% do total da população, um aumento de 5,44 pontos percentuais na comparação com o levantamento de 2010.
Do outro lado, a população em idade ativa (15 a 59 anos) representa 63,35% do total, uma queda de 6,79 pontos na comparação com a década anterior. Demógrafos advertiram que o país pode registrar o mesmo fenômeno de Japão e Coreia do Sul, com excesso de idosos em comparação à população jovem e ativa no mercado de trabalho, uma preocupação que levou o Parlamento chinês, em março, a aprovar um plano para aumentar progressivamente a idade de aposentadoria durante os próximos cinco anos.
POLÍTICA DO FILHO ÚNICO IMPEDIU NASCIMENTO DE 400 MILHÕES
No começo dos anos 1950, a China tinha cerca de 540 milhões de habitantes e, em menos de 30 anos, dobrou a população, atingindo 1 bilhão no começo da década de 1980.
Em seguida, com uma política rígida de controle de natalidade, que permitia apenas um filho por casal em muitos casos, o crescimento populacional foi contido. Estima-se que a medida tenha impedido o nascimento de cerca de 400 milhões de pessoas desde sua aplicação, a partir de 1979.
Casais que descumpriam as restrições estavam sujeitos a penas como pagamento de multas e perda de emprego, e havia denúncias de medidas mais duras, como esterilizações e abortos forçados.
Em 2015, o regime suspendeu a política do filho único e passou a estimular que cada família tenha dois filhos. A decisão, porém, não aumentou a taxa de natalidade, o que levou a pedidos do fim do limite de duas crianças por família. A meta estabelecida em 2016 era superar 1,42 bilhão de habitantes em 2020.
Pelos dados do último censo, a China conseguiu atenuar o desequilíbrio entre sexos induzido pela preferência tradicional por meninos e que, às vezes, leva à eliminação de fetos do sexo feminino. Assim, o país registrou o nascimento de 111,3 meninos para cada 100 meninas, uma proporção em queda de 6,8 pontos percentuais na comparação com 2010.
A Alemanha reconheceu oficialmente nesta sexta-feira (28) ter sido responsável por um genocídio na Namíbia durante a era colonial. O governo alemão pagará à nação africana 1,1 bilhão de euros (cerca de R$ 7 bilhões) para compensar danos infligidos.
A matança aconteceu entre 1904 e 1907, quando soldados alemães assassinaram de 75 mil a 100 mil pessoas no então território da África do Sudoeste, atual Namíbia, após revolta dos povos herero e nama.
Uma das últimas fronteiras africanas a despertar o interesse de colonizadores europeus, essas áreas semidesérticas foram ocupadas pela Alemanha em 1884. A expansão rumo ao interior levou aos conflitos com povos já estabelecidos, enraivecidos pela perda das poucas terras aráveis do território.
Soldado alemão (dir.) e prisioneiros africanos durante repressão a povos herero e nama na região em que hoje fica a Namíbia; o massacre dos colonizadores durou de 1904 a 1907 – Arquivos Nacionais da Namíbia via AFP
A revolta dos povos herero e dos nama foi contida com assassinatos em massa, internação em campos de concentração insalubres e expulsões para o deserto, onde milhares de homens, mulheres e crianças morreram de sede. O massacre alemão exterminou 80% dos herero e 50% dos nama, reduzindo-os a parcelas relativamente pequenas entre os 2,6 milhões de namibianos atuais. Os herero, por exemplo, passaram de 40% da população para apenas 7%.
A Organização das Nações Unidas, que define genocídio como “uma série de atos, incluindo assassinato, cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso”, considera desde 1985 o massacre como o primeiro genocídio do século 20, e a Alemanha já havia reconhecido “responsabilidade moral”.
Museus alemães também devolveram em 2018 restos mortais de vítimas herero e nama que haviam sido trazidos para a Alemanha para pesquisas destinadas a “provar a superioridade da raça branca”. As negociações sobre o pagamento da indenização, porém, levaram seis meses, porque a Alemanha temia que o uso do termo “reparação” a deixasse suscetível a novas ações na Justiça.
No anúncio desta sexta, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, disse oficialmente que os eventos, “da perspectiva de hoje”, foram “um genocídio”. “À luz da responsabilidade histórica e moral da Alemanha, pediremos perdão à Namíbia e aos descendentes das vítimas”, afirmou, antes de enfatizar que “reivindicações legais de compensação não podem ser derivadas disso”.
O governo alemão quer desincentivar reclamações como a da Grécia, que pede cerca de € 289 bilhões (R$ 1,84 trilhão) por danos causados durante o período nazista. Por isso, os recursos foram anunciados como “um gesto de reconhecimento do imensurável sofrimento infligido às vítimas”.
“Queremos apoiar a Namíbia e os descendentes das vítimas com um programa substancial de 1,1 bilhão de euros para reconstrução e desenvolvimento”, disse Maas.
A Namíbia ocupa o 130º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, entre 189 pesquisados e tem a segunda maior desigualdade do mundo, segundo o Banco Mundial, melhor apenas que a vizinha África do Sul nesse item. Seu índice de Gini é de 59,1, numa escala que vai de 0 a 100 (o do Brasil é 53,4), o desemprego passa de 30%, e a pobreza atinge mais de 20% da população.
Apesar da promessa de participação das populações locais nos investimentos em infraestrutura, o acordo foi rejeitado por líderes dos herero e dos nama. Eles afirmaram considerar o valor insuficiente para compensar o sofrimento de seus ancestrais e a perda de suas terras.
Crânio que faz parte de restos mortais de guerreiros dos povos herero e nama, em museu de Berlim, em 2018; os ossos foram devolvidos pela Alemanha à Namíbia – Christian Mang – 29.ago.18/Reuters
O anúncio alemão acompanha o movimento de vários outros países europeus para reconhecer crimes do período colonial e oferecer reparações. Desde o ano passado, estátuas foram derrubadas em vários países, e governos como o da França e da Holanda têm devolvido obras de arte trazidas de países africanos, discussão que ocorre também no Reino Unido.
Nesta semana, o presidente francês, Emmanuel Macron, foi a Ruanda pedir desculpas pelo papel da França no genocídio que deixou 800 mil mortos da etnia tutsi, em 1994. Estudo encomendado pelo governo francês concluiu que o país europeu, embora não tenha sido cúmplice do genocídio, tinha “responsabilidades avassaladoras”, por se manter aliada ao governo “racista, corrupto e violento” dos hutus, que se preparavam para massacrar os tutsis.
Museu das Civilizações Negras de Dacar, no Senegal Divulgação
“A França tem um papel, uma história e uma responsabilidade política. Tem o dever de confrontar a história e reconhecer sua parte no sofrimento que infligiu ao povo ruandês”, disse Macron nesta quinta (27), após visitar o Memorial do Genocídio de Kigali.
Manter e ampliar sua influência na África é uma das prioridades de política internacional de Macron, que gosta de lembrar ser o primeiro presidente francês nascido depois que a maior parte do continente conquistou sua independência. Em 2019, ele visitou a África oriental e assinou acordos de parcerias e investimentos na Etiópia e no Quênia. Na viagem atual, ele visita ainda a África do Sul.
Fenômeno deixou ao menos 32 mortos e milhares de desabrigados; 170 crianças estão desaparecidas
GOMA (REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO) | AFP e REUTERS
Tremores de terra sacudiram nesta segunda-feira (24) a cidade de Goma, na República Democrática do Congo, assustando moradores que começavam a voltar às suas casas depois que um vulcão entrou em erupção no sábado (22) e deixou milhares de desabrigados e ao menos 32 mortos, segundo o chefe da defesa civil da província de North Kivu, Joseph Makundi, afirmou à agência de notícias Reuters.
Entre as vítimas, nove estavam envolvidas em um acidente de trânsito durante a fuga e quatro eram prisioneiros de uma penitenciária que tentavam fugir, enquanto outras morreram queimadas, devido à inalação de fumaça ou asfixiadas pelo gás vulcânico.
Um dos vulcões mais ativos e perigosos do mundo, o monte Nyiragongo entrou em erupção subitamente na tarde de sábado, pegando de surpresa autoridades e moradores e derramando lava por centenas de metros em direção à cidade de 2 milhões de habitantes. O balanço de mortos deve subir consideravelmente —o Unicef estima que 170 crianças estejam entre os desaparecidos.
Lava desce do vulcão Nyiragongo perto de Goma, na República Democrática do Congo – 22.mai.21/Missão da ONU para a Estabilização da República Democrática do Congo via Reuters
Segundo especialistas, os tremores são causados pelo alinhamento das placas tectônicas, e o risco de uma segunda erupção é pequeno. Ainda assim, as autoridades pediram que a população fique alerta.
Numerosos desde o domingo, os terremotos continuaram durante toda a noite de domingo e na manhã desta segunda-feira, alguns com grande intensidade. Segundo testemunhas ouvidas pela agência de notícias Reuters, eles acontecem a cada meia hora, em média.
Parte da população, que já havia retornado às suas casas após a erupção, saiu da cidade novamente, e edifícios de vários andares foram abandonados. Reabertas na manhã desta segunda, muitas lojas fecharam após os tremores. As escolas não funcionaram e pediram que os alunos fiquem em casa.
Autoridades informaram que 17 povoados foram afetados pela erupção e que os danos materiais foram importantes. Dois rios de lava desceram do vulcão, e um deles alcançou a periferia de Goma, onde parou na manhã de domingo. Uma importante estrada da região também foi afetada, e muitas casas foram engolidas. A última erupção do Nyiragongo aconteceu em janeiro de 2002 e causou cerca de cem mortes.
Nesta segunda, a lava rochosa ainda estava quente e soltava fumaça em alguns lugares. Dezenas de pessoas se aproximaram do local, algumas correndo risco de inalar fluídos tóxicos. Muitos moradores fugiram até a fronteira com Ruanda, ao sul de Goma, ou em direção ao sudoeste, na região do Masisi.
Uma delegação de oito ministros chegou à área para supervisionar a reconstrução.
O Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul e o segundo maior bioma do Brasil, compreendendo cerca de 22% do território brasileiro. Caracteriza-se por ser uma região de savana, estendendo-se por cerca de 200 milhões de quilômetros quadrados. Possui uma formação vegetal de grande biodiversidade e grande potencial aquífero, no entanto, é considerado atualmente o segundo bioma do Brasil mais ameaçado.
Características do Cerrado
→ Localização
O Cerrado é um bioma localizado no nordeste do Paraguai, leste da Bolívia e em grande parte do Brasil Central, constituindo cerca de 22% do território brasileiro. No Brasil, a sua área compreende os estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo e Distrito Federal e alguns encraves (terreno ou território dentro do outro) no Amapá, Amazonas e Roraima. Estima-se que a área abrangida pelo Cerrado no Brasil, segundo o IBGE, alcance 2.036.448 km2 de extensão.
O bioma Cerrado limita-se ao norte com o bioma Amazônia; a leste e nordeste, com a Caatinga; ao sudoeste, com o Pantanal; e a sudeste, com a Mata Atlântica. Isso confere ao bioma Cerrado uma característica única: é o único bioma na América do Sul a ter tantos contatos biogeográficos. A região compreendida por essa formação vegetal apresenta altitudes que variam de 0 a 1800 metros. Essa área abrange diferentes bacias hidrográficas, como a Bacia do Amazonas, Bacia do Tocantins, Bacia do Paraná, Bacia do São Francisco e Bacia do Parnaíba.
Vegetação e flora do Cerrado
O Cerrado é reconhecido como a savana com maior biodiversidade do mundo, abrigando cerca de 11.627 espécies de plantas nativas, sendo, aproximadamente, 4.400 espécies endêmicas (existentes apenas nesse bioma). Em razão da sua extensão, o bioma Cerrado não possui uma fitofisionomia (aspecto da vegetação de uma região) única. A vegetação é bastante diversificada, variando de formas campestres, como os campos limpos, a formações florestais densas, como os cerradões. Os fatores que possibilitam essa variedade de fisionomias está relacionado com os tipos de solo, tipos de clima e tipos de relevo nas regiões que abrigam o Cerrado.
No Cerrado, há onze principais tipos de vegetação, que estão distribuídos em formações savânicas, florestais e campestres. Essas fitofisionomias possuem uma grande variedade de espécies, apresentando plantas arbóreas, herbáceas, arbustivas e cipós. Essa variedade de vegetação pode ser distribuída em dois estratos:
estrato lenhoso: composto por árvores longas e arbustos;
estrato herbáceo: composto por ervas e subarbustos.
Esses estratos possuem características diferentes, o que os torna competitivos, pois dependem de condições específicas para se desenvolverem, ou seja, o que beneficia um dos estratos acaba por prejudicar o outro. A formação herbácea, por exemplo, caracteriza-se pela ausência de sombra. Portanto, se ocorrer o adensamento da formação lenhosa, a formação herbácea enfrentará problemas para se desenvolver, pois o sombreamento não favorece o seu crescimento.
As árvores de estrato lenhoso que compõem o Cerrado costumam apresentar troncos grossos e tortuosos. Suas raízes podem atingir até 15 metros de profundidade, garantindo que a vegetação encontre água e consiga manter-se independentemente do período de seca. Já as formações herbáceas possuem raízes menos profundas, chegando a aproximadamente 30 centímetros de profundidade. Por causa da pouca profundidade, os ramos das formações herbáceas secam à medida que se estabelece o período de seca. Esses ramos secos propiciam as queimadas recorrentes nesse tipo de bioma.
Em virtude da diversificação vegetal desse bioma, há árvores que alcançam até 20 metros de altura e também cactos e orquídeas (estes são encontrados em áreas de chapadões). Essa diversidade garante ao Cerrado algumas tonalidades em sua paisagem. As principais cores encontrados nesse bioma são verde, amarelo e tons amarronzados em razão do descoramento da vegetação ocasionado pela forte incidência do sol.
Destacam-se no Cerrado as seguintes espécies de vegetação:
→ Clima do Cerrado
O bioma Cerrado é constituído predominantemente pelo clima tropical sazonal, caracterizado por invernos secos e verões chuvosos, apresentando precipitação média de 1.500 mm. Essa precipitação varia nos limites com outros biomas. Na região do Cerrado limitante com a Caatinga, por exemplo, o índice pluviométrico encontra-se entre 600 mm a 800 mm. Já no limite com o bioma Amazônia, a precipitação alcança entre 2.000 mm a 2.200 mm.
A estação definida pelo período de seca geralmente se inicia no mês de maio, finalizando-se no mês de setembro. A estação chuvosa tem início em outubro, estendendo-se até o mês de abril. Nessa estação, é comum acontecer os chamados veranicos, que são curtos períodos de seca. A temperatura média anual fica em torno de 22º C, variando as médias ao longo das estações do ano. Nos períodos de seca, a umidade do ar pode chegar a 15%, geralmente nos meses de julho e agosto. A insolação é bastante intensa e reduz-se nos períodos chuvosos em razão da alta nebulosidade.
→ Fauna do Cerrado
O Cerrado conta com uma grande variedade de espécies animais, destacando-se o grupo de insetos. Apesar da grande variedade, a fauna do Cerrado é pouco conhecida, especialmente o grupo dos invertebrados. A fauna apresenta cerca de 837 espécies de aves, das quais 29 são endêmicas; 185 espécies de répteis, das quais 24 são endêmicas; 194 espécies de mamíferos, sendo 19 delas endêmicas; e 150 anfíbios, sendo 45 endêmicos. Alguns estudos indicam que há cerca de 14.425 espécies de invertebrados.
Os principais exemplos de animais vertebrados do Cerrado são:
→ Solo do Cerrado
Os solos do bioma Cerrado caracterizam-se pela sua profundidade, drenagem e por serem antigos, datados no Período Terciário. Os solos, geralmente, possuem cor avermelhada, são porosos e permeáveis, portanto, sofrem intensos processos de lixiviação (lavagem da camada superficial do solo pelo escoamento de águas superficiais). Contudo, há regiões do Cerrado em que os solos apresentam formações de couraças, que acabam por dificultar a entrada de água das chuvas, impedindo que nessas áreas formem-se vegetações exuberantes e haja o desenvolvimento da agricultura.
A textura dos solos desse bioma é diversificada, com predomínio de areia, seguida por argila e silte. Pode-se dizer então que os solos são predominantemente arenosos ou argilosos, o que resulta na baixa capacidade de reter água. No que tange às características químicas, os solos do Cerrado apresentam bastante acidez, com pH que varia entre 4 e 5 (pH neutro é 7). A acidez conferida a esses solos deve-se ao fato de apresentarem em sua composição altos níveis de alumínio.
Nesse bioma, predominam os latossolos, caracterizados por excessiva acidez, e os podzólicos, que podem ser chamados também de argissolos. Os latossolos apresentam coloração avermelhada e são pobres em nutrientes. Já os podzólicos apresentam coloração mais escura, com tonalidades vermelhas, e são bastante suscetíveis a processos erosivos. A falta de nutrientes em alguns solos desse bioma dificultava o desenvolvimento da agricultura. Isso foi corrigido com técnicas como a calagem, capaz de corrigir a acidez do solo.
Principais produtos agrícolas cultivados no Cerrado:
» Soja;
» Cana-de-açúcar;
» Milho;
» Algodão.
Quais são os “tipos de Cerrado”?
O uso da expressão “tipos de Cerrado” não é correto. Sabe-se que o bioma Cerrado, em razão de sua grande extensão no território brasileiro e por fazer fronteira com diversos outros biomas, possui paisagens variadas e uma grande biodiversidade. O termo correto para referir-se a essas variações paisagísticas é fitofisionomiasdo Cerrado. Essas fitofisionomias variam de acordo com as regiões, características do clima, do solo e do relevo. A classificação mais comum apresenta os seguintes tipos de fitofisionomia:
1. Campos Limpos: é um tipo de vegetação composto por gramíneas, sem a presença de estrato lenhoso. Esse tipo de fitofisionomia é propício para o deslocamento de animais como a onça-pintada, ema e tamanduá-bandeira.
2. Campo Sujo: é comumente conhecido como Cerrado Ralo e é constituído por plantas do estrato herbáceo, nos quais arbustos são poucos expressivos.
3. Cerrado Stricto Senso: representa a vegetação mais predominante nesse bioma. Constitui-se principalmente por espécies arbustivas, compostas por árvores de pequeno porte com troncos tortuosos e espessos. Esses arbustos não são densos, como em áreas de matas fechadas, e adaptam-se às condições do ambiente, apresentando raízes com bastante profundidade, que alcançam os lençóis freáticos.
4. Mata Seca: esse tipo de fitofisionomia encontra-se afastado de cursos d’água. Nela se localizam árvores como ipê e aroeira, que ao longo da estação seca perdem suas folhas em razão da baixa disponibilidade de água.
O ipê é uma árvore característica da fitofisionomia conhecida como mata seca.
5. Cerradão: constitui uma vegetação de transição entre a mata seca e o cerrado strictu senso. Apresenta árvores com muitas folhas e ramos, além de características tortuosas. Nesse tipo fitofisionômico, encontra-se uma vegetação com porte maior que os arbustos, chegando a nove metros de altura.
6. Matas de Galerias: também conhecidas como Matas Úmidas, são vegetações que acompanham os cursos d’água. Apresentam árvores que podem atingir até 30 metros de altura, troncos lisos e folhas pequenas. Mantêm sua folhagem verde durante todo o ano graças à presença de água.
7. Veredas: conhecidas também como Áreas de Várzeas, estão localizadas em áreas de nascentes de diversas bacias hidrográficas. A vegetação é comumente formada pelo buriti e espécies de mata e campo. Limitam-se com os campos limpos e campos sujos. A vegetação apresenta exuberância.
8. Cerrado Rupestre: esse tipo de vegetação forma-se em ambientes com características rochosas, especialmente em serras. As principais espécies desse tipo de fitofisionomia são o caju, papiro, murici e mangaba.
Importância do Cerrado
O Cerrado é um bioma que, em razão da sua grande biodiversidade, deve ser conservado. Estudos apresentam que cerca de 200 espécies nativas desse bioma possuem, além de potencial econômico, potencial medicinal. Algumas espécies de plantas já foram patenteadas por indústrias farmacêuticas. São exemplos de espécies do Cerrado com potencial medicinal de acordo com o Ministério do Meio Ambiente:
barbatimão: é uma árvore do Cerrado cuja casca, folhas e raízes podem ser usadas como cicatrizante de feridas, úlceras e sangramentos;
pacari: é uma árvore do Cerrado cujas folhas e entrecascas podem ser utilizadas para cicatrização, tratamento de úlceras e gastrites;
rufão: é uma planta do Cerrado que cresce entre moitas cujas raízes podem ser utilizadas para fazer chás ou garrafadas. A raiz do rufão é usada para tratar anemias e inflamações no estômago e intestino.
Outra relevância desse bioma é que ele compreende uma área habitada há centenas de anos, principalmente populações indígenas. É do próprio bioma que esses povos conseguem o seu sustento, extraindo dele recursos naturais, portanto é necessário que esse bioma seja preservado para que essas comunidades consigam manter a sua sobrevivência. As principais comunidades indígenas existentes no Cerrado são Karajás, Avá-Canoeiros e Xerentes.
Devastação do Cerrado
A perda da biodiversidade no bioma Cerrado já é uma realidade. Bastaram apenas cinco décadas para se reduzir o tamanho original desse bioma para 41% do total original segundo o Ministério do Meio Ambiente. As principais atividades que comprometem a conservação desse bioma estão relacionadas com o extrativismo e a expansão agrícola. Expandir a atividade agrícola requer desmatar áreas, o que vem acontecendo com frequência na região abrangida pelo Cerrado.
A pecuária também tem provocado inúmeros impactos no bioma, pois o desmatamento para criação de áreas de pastagem é intenso. Essas atividades, além de descaracterizar o bioma no sentido paisagístico, alteram também a manutenção da biodiversidade, visto que muitos animais perdem seu habitat, correndo o risco de entrar em extinção, assim como espécies endêmicas de plantas.
É válido lembrar que o Cerrado abrange uma grande área de bacias hidrográficas, possuindo um potencial aquífero imenso, representando 8% da disponibilidade de água em nível nacional. Quando as áreas são desmatadas para viabilizar atividades como a agropecuária, além de degradar a natureza, propicia também o assoreamento das áreas das bacias e pode provocar contaminação das águas por causa do uso de agrotóxicos nas produções agrícolas.
Resumo
O Cerrado é considerado o segundo maior bioma da América do Sul e o segundo maior bioma do Brasil. É conhecido como savana brasileira e possui uma grande biodiversidade. Sua vegetação possui características predominantes, como árvores de tronco grosso e tortuoso, além de gramíneas e arbustos. O clima do Cerrado é tropical sazonal, apresentando duas estações definidas: uma seca e outra chuvosa. Os solos desse bioma são geralmente pobres em nutrientes, apresentam coloração avermelhada e alta porosidade. A fauna do Cerrado, apesar de pouco conhecida, é bastante diversa, contando com espécies como onça-pintada e tamanduá-bandeira. Infelizmente, o Cerrado é uma formação vegetal que vem sendo bastante devastada, principalmente pela expansão de atividades agropecuárias, o que tem causado inúmeras perdas de biodiversidade.
21 de maio de 2021: Vol. 372, Issue 6544, pp. 769 DOI: 10.1126 / science.abj4606
Em 1871, Charles Darwin abordou “o maior e mais interessante problema para o naturalista … a descendência do homem”. Desafiando o status quo, Darwin implantou a seleção natural e sexual, e recentemente adotou a “sobrevivência do mais apto”, produzindo cenários para o surgimento da humanidade. Ele explorou histórias evolutivas, anatomia, habilidades mentais, capacidades culturais, raça e diferenças de sexo. Algumas conclusões foram inovadoras e perspicazes. Seu reconhecimento de que as diferenças entre humanos e outros animais eram de grau, não de tipo, foi o pioneiro. Seu foco em cooperação, aprendizado social e cultura cumulativa continua sendo o centro dos estudos evolutivos humanos. No entanto, algumas das outras afirmações de Darwin estavam tristemente e perigosamente erradas. “Descida” é um texto para aprender, mas não para venerar.
Darwin viu os humanos como parte do mundo natural, animais que evoluíram (descendem) de primatas ancestrais de acordo com processos e padrões semelhantes para toda a vida. Para Darwin, para conhecer o corpo e a mente humanos, devemos conhecer outros animais e sua (e nossa) descendência com modificação através das linhagens e do tempo. Mas, apesar desses quadros ideais e algumas inferências inovadoras, “Descent” é frequentemente problemático, preconceituoso e prejudicial. Darwin pensou que estava contando com dados, objetividade e pensamento científico para descrever os resultados da evolução humana. Mas durante grande parte do livro, ele não foi. “Descent”, como muitos dos tomos científicos da época de Darwin, oferece uma visão racista e sexista da humanidade.
Darwin retratou os povos indígenas das Américas e da Austrália como menos do que os europeus em capacidade e comportamento. Os povos do continente africano foram consistentemente referidos como cognitivamente dépauperados, menos capazes e de uma posição inferior do que outras raças. Essas afirmações são confusas porque em “Descent” Darwin ofereceu a refutação da seleção natural como o processo de diferenciação das raças, observando que os traços usados para caracterizá-las pareciam não funcionais em relação à capacidade de sucesso. Como cientista, isso deveria tê-lo feito hesitar, mas ele ainda, sem base, afirmava diferenças evolutivas entre as raças. Ele foi além de simples classificações raciais, oferecendo justificativas para o imperialismo, o colonialismo e o genocídio por meio da “sobrevivência do mais apto”. Isso também é confuso, dada a postura robusta de Darwin contra a escravidão.
Em “Descent”, Darwin identificou as mulheres como menos capazes do que os homens (brancos), muitas vezes semelhantes às “raças inferiores”. Ele descreveu o homem como mais corajoso, enérgico, inventivo e inteligente, invocando a seleção natural e sexual como justificativa, apesar da falta de dados concretos e avaliação biológica. Suas afirmações inflexíveis sobre a centralidade masculina e a passividade da mulher nos processos evolutivos, para os humanos e em todo o mundo animal, ressoam tanto na misoginia vitoriana quanto na contemporânea.
Na própria vida de Darwin, ele aprendeu com um naturalista sul-americano descendente de africanos, John Edmonstone, em Edimburgo, e teve relações substantivas com os fueguinos a bordo do HMS Beagle. Sua filha Henrietta foi uma das principais editoras de “Descent”. Darwin foi um cientista perspicaz cujas visões sobre raça e sexo deveriam ter sido mais influenciadas por dados e sua própria experiência de vida. Mas as crenças racistas e sexistas de Darwin, ecoando as visões de colegas científicos e de sua sociedade, foram poderosos mediadores de sua percepção da realidade.
Hoje, os alunos aprendem que Darwin é o “pai da teoria da evolução”, um cientista gênio. Eles também deveriam aprender Darwin como um homem inglês com preconceitos prejudiciais e infundados que distorceram sua visão dos dados e da experiência. Racistas, sexistas e supremacistas brancos, alguns deles acadêmicos, usam conceitos e afirmações “validadas” por sua presença em “Descent” como suporte para crenças errôneas, e o público aceita muito disso sem crítica.
“The Descent of Man” é um dos livros mais influentes na história da ciência evolutiva humana. Podemos agradecer a Darwin pelos insights importantes, mas devemos lutar contra suas afirmações infundadas e prejudiciais. Refletindo sobre “Descent” hoje, pode-se olhar para os dados que demonstram inequivocamente que a raça não é uma descrição válida da variação biológica humana, que não há coerência biológica para os cérebros “masculino” e “feminino” ou qualquer simplicidade nos padrões biológicos relacionados ao gênero e sexo, e que a “sobrevivência do mais apto” não representa com precisão a dinâmica dos processos evolutivos. A comunidade científica pode rejeitar o legado de preconceitos e danos nas ciências evolutivas, reconhecendo e agindo sobre a necessidade de diversas vozes e tornando as práticas inclusivas centrais para a investigação evolucionária. No fim.