Categoria: Brasil

  • Emenda favorece uso político da água, impõe indústria da seca e agrava drama secular

    Emenda favorece uso político da água, impõe indústria da seca e agrava drama secular

    João Pedro Pitombo

    Salvador – A adoção das emendas parlamentares como uma das molas propulsoras das políticas de convivência com a seca deve aprofundar o cenário de contrastes no semiárido brasileiro, que incluem as famílias que precisam andar quilômetros para buscar água e as caixas-d’água que apodrecem guardadas por prefeituras.

    A dinâmica de distribuição dos equipamentos de armazenamento de água sem planejamento, apontam especialistas, favorece o clientelismo, cria abismos entre municípios, inverte prioridades e aprofunda o problema secular da indústria da seca.

    Caixas-d’água da Codevasf estocadas em um depósito na cidade de Santa Filomena (PE) – Mathilde Missioneiro / Folhapress


    Na série de reportagens Política da Seca, a Folha percorreu cinco estados do Nordeste e flagrou efeitos dessa distorção no dia a dia de moradores ignorados pelas emendas e pelas estatais, com famílias que muitas vezes têm que escolher entra a compra de comida e de um garrafão de água.

    Em âmbito federal, a distribuição de cisternas e perfuração de poços é feita por órgãos como a Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba) e o Dnocs (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas), ambos entregues a líderes do centrão por Jair Bolsonaro (PL) e mantidos com esses mesmos dirigentes pelo presidente Lula (PT).

    Em geral, o planejamento é deixado em segundo plano. São os chamados “barões da água”, políticos com influência em Brasília, que definem o destino dos recursos por meio de emendas, turbinadas nos últimos anos. Os equipamentos são escolhidos a partir de um catálogo, como uma espécie de “loja de políticos”.

    “Isso é talvez uma das maiores evidências da permanência desse modelo clientelista no Brasil. E não é aquele clientelismo que não é menos danoso, mas ocorre na esfera local e causa um esvaziamento de uma agenda mais propositiva. É num nível nacional”, afirma a cientista política Priscila Lapa, professora da Universidade Federal de Pernambuco.

    As distorções nos investimentos são ainda mais graves em regiões como a do semiárido brasileiro, região que inclui parte dos estados do Nordeste e o norte de Minas Gerais.


    Emenda parlamentar amplia abismo no acesso a água com abandono e desperdício


    Conforme explica o engenheiro agrônomo João Suassuna, especialista em hidrologia e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, o cenário de escassez demanda uma gestão eficiente dos recursos hídricos e dos investimentos públicos.

    “A água é um recurso finito, sua busca tem que ser planejada e seu uso deve ser feito com a parcimônia devida. É preciso que essa pouca água que existe seja bem distribuída para uso da população”, afirma.

    O pesquisador destaca que a região Nordeste possui cerca de 70 mil represas com um potencial de armazenar 37 bilhões de metros cúbicos de água, o que representa o maior volume represado em região de semiárido do mundo.

    A prioridade, afirma, deveria ser a criação de uma infraestrutura para que essa água seja distribuída de forma bem planejada. Mas, em geral, o que prevalece são as demandas paroquiais de parte dos políticos, que nem sempre vão ao encontro das necessidades de determinada região.

    Um exemplo, mostrado nas reportagens da Folha, é aquisição de reservatórios com baixa capacidade de armazenamento, que demandam o abastecimento recorrente com carros-pipa para que famílias tenham água nos períodos de seca.

    “Temos um histórico de maus políticos que costumam governar com o sofrimento e a miséria do povo. Essa questão do carro-pipa, em que o abastecimento depende das prefeituras, é uma coisa cruel. Tem muito prefeito que não abastece as casas de quem não votou nele”, afirma Suassuna.


    Política da Seca deixa caixas-d’água apodrecerem


    A indústria da seca foi definida pelo economista paraibano Celso Furtado (1920-2004) como um modelo de enfrentamento aos efeitos da estiagem que tem como consequência o enriquecimento da elite econômica agrária e a manutenção do poder de parte dos líderes políticos da região.

    O próprio conceito de Nordeste como uma região do Brasil surge atrelado à questão hídrica, conforme aponta o historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior no livro “A Invenção do Nordeste e Outras Artes”.

    A expressão aparece pela primeira vez em um documento público brasileiro em 1919, quando foi instaurada a Inspetoria Federal de Obras contra as Secas, na gestão do presidente Delfim Moreira. O órgão foi criado em resposta à estiagem de 1915, cujos efeitos perduraram nos anos seguintes.

    A partir da década de 1920, políticos e intelectuais, dentre os quais se destacava o sociólogo Gilberto Freyre, passaram a trabalhar o conceito de Nordeste do ponto de vista político e cultural.

    No governo Juscelino Kubitschek, nos anos 1950, Celso Furtado capitaneou a criação da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), autarquia voltada para o desenvolvimento regional. A criação do Nordeste no formato atual, com nove estados, só seria oficializada em 1970.

    Esquecidos por emendas gastam dinheiro da comida em água e fazem peregrinação
    Cidade de líder do centrão tem caixas-d’água estocadas e distribuídas a conta-gotas.


    Poço vira farra em reduto de emendas, e cidade de político supera estados inteiros
    Emenda vira marco zero da ‘indústria do carro-pipa’, e doação avança sob critério político
    Refém de carro-pipa esquecido por emendas parlamentares recebe água sem tratamento


    Ao longo das últimas décadas, a questão hídrica esteve no epicentro das decisões políticas para o desenvolvimento do Nordeste. Foram realizadas grandes obras de sistemas de armazenamento e abastecimento de água, muitas delas sob a marca de suspeitas de corrupção.

    Em 2005, Lula decidiu fazer da transposição do rio São Francisco a sua principal obra de recursos hídricos na região. Alvo de controvérsia desde a época de sua concepção, o projeto consumiu mais de R$ 16 bilhões e atualmente é objeto de um jogo de empurra entre União e estados para o custeio do sistema.

    Na avaliação de João Abner Guimarães Júnior, especialista em recursos hídricos e professor titular aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, grandes obras hídricas feitas sem critérios técnicos são uma constante na região, em governos de diferentes partidos.

    “A verdadeira indústria da seca são as grandes obras superfaturadas e feitas sem nenhum critério. Esta é a indústria da seca no atacado. O semiárido é um reserva de mercado da indústria das secas”, afirma o Guimarães Júnior.

    Ele defende soluções que passam por políticas públicas e obras talhadas para realidade de cada região, recuperação da infraestrutura hídrica e a integração de sistemas hídricos por meio de adutoras que garantam capilaridade ao abastecimento.

    Isso passa por gastar melhor os recursos que alcançam uma fatia robusta do orçamento federal. Cidade de líder do centrão tem cisternas liberadas a conta-gotas por prefeito na Bahia


    Dados do Siga Brasil, plataforma mantida pelo Senado, apontam que o orçamento de 2023 destinou R$ 2,3 bilhões para recursos hídricos, contemplando obras como a transposição, Adutora do Agreste, Canal do Sertão e Vertente Litorânea.

    Iniciativas como o Programa Cisternas, por outro lado, foram esvaziadas nos últimos anos saindo de 149 mil equipamentos instalados em 2014 para 5.946 no ano passado. O governo Lula anunciou a retomada do projeto com investimento de R$ 562 milhões, beneficiando 60 mil famílias.

    Enquanto isso, a distribuição de cisternas, tanques e caixas-d’água por meio de emendas segue como o carro-chefe de órgãos federais como a Codevasf e Dnocs, modelo que tem procurado distensionar relação do governo Lula com líderes de partidos como PP e União Brasil, que controlam as estatais.

    Diz a cientista política Priscila Lapa: “A ampliação do Legislativo na produção do orçamento pode ser algo bem-vindo por desconcentrar a decisão política. Porém isso deveria ser acompanhado de uma outra cultura política de acompanhamento pela sociedade e órgãos de controle. Não consigo enxergar isso acontecer no curto prazo no Brasil.”

    https://www1.folha.uol.com.br/poder/2023/10/emenda-favorece-uso-politico-da-agua-impoe-industria-da-seca-e-agrava-drama-secular.shtml

    Atividade

    1 Estabeleça relações entre os seguintes órgãos públicos: Dnocs, Sudene e Codevasf.

    2 Por que o rio São Francisco pode ser chamado de “Nilo Brasileiro”?

    3 Explique a expressão “O problema do sertão não é seca e sim a cerca”.

    4 Aponte um problema e ordem ambiental e um de ordem política ligado ao Projeto de Transposição das Águas do São Francisco.

  • Brasil tem envelhecimento recorde, e pessoas de 65 anos ou mais chegam a 10,9% da população

    Brasil tem envelhecimento recorde, e pessoas de 65 anos ou mais chegam a 10,9% da população

    Grupo nessa faixa etária se aproxima de 22,2 milhões em 2022, com alta de 57,4% ante 2010, diz Censo

    Leonardo Vieceli Isabella Menon

    RIO DE JANEIRO e SÃO PAULO

    Indicadores de envelhecimento da população brasileira aceleraram para níveis recordes, e pessoas de 65 anos ou mais já representam 10,9% do total de habitantes no país —dos 203,1 milhões de brasileiros, 22,2 milhões estão nesta faixa etária.

    É o que apontam novos dados do Censo Demográfico 2022 divulgados nesta sexta-feira (27) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

    Elide Elisa Rodrigues Luccas, 72, trabalha no ateliê de sua casa no Butantã, zona oeste de São Paulo
    Elide Elisa Rodrigues Luccas, 72, trabalha no ateliê de sua casa no Butantã, zona oeste de São Paulo – Mathilde Missioneiro/Folhapress

    O percentual de idosos é o maior desde o primeiro recenseamento realizado no Brasil, em 1872, disse o instituto.

    Em termos absolutos, a população nessa faixa etária (22,2 milhões) superou o número total de habitantes de Minas Gerais (20,5 milhões), o segundo estado mais populoso do país.

    Ainda em termos absolutos, o contingente de idosos de 65 anos ou mais teve um salto de 57,4% em relação ao recenseamento anterior, de 2010. À época, a população nessa faixa etária era de 14,1 milhões, o equivalente a 7,4% do total de habitantes.

    Uma comparação mais longa também dá uma dimensão do envelhecimento dos brasileiros. Em 1980, os idosos de 65 anos ou mais representavam 4% da população total. O percentual cresceu ao longo das décadas seguintes, até superar os 10% em 2022.

    Enquanto isso, a participação de crianças e adolescentes vem encolhendo, de acordo com o IBGE. Em 2022, as pessoas de 0 a 14 anos representavam 19,8% do total de habitantes, abaixo da marca de 24,1% em 2010. Em 1980, essa mesma faixa etária correspondia a 38,2% da população total.

    Izabel Marri, gerente de estudos e análises da dinâmica demográfica do IBGE, afirma que o efeito da redução da fecundidade começou a ficar mais visível no Brasil na passagem dos anos 1980 para a década de 1990. Nos anos seguintes, a perda de participação dos jovens se intensificou, como apontam os dados de 2022.

    “É uma estrutura populacional que já não é tão jovem, que está em franco envelhecimento e que tende a envelhecer mais”, diz a pesquisadora.

    Ela afirmou nesta sexta que a pandemia reduziu nascimentos em um nível maior do que o esperado anteriormente. O instituto, contudo, ainda não publicou os dados do Censo sobre fecundidade.

    “A gente está em um período pós-crise, pós-pandemia. Isso fez uma redução dos nascimentos para além do que a gente esperava”, disse Marri.

    O IBGE ponderou que, embora a população brasileira tenha um percentual mais elevado de idosos atualmente, o país é menos envelhecido do que nações como o Japão. A estrutura etária nacional se assemelha mais à de locais como os Estados Unidos.

    IDADE MEDIANA AVANÇA A 35 ANOS

    Outras estatísticas divulgadas nesta sexta reforçam o cenário de envelhecimento no Brasil. Segundo o IBGE, a idade mediana dos brasileiros aumentou em seis anos do Censo 2010 para o levantamento de 2022. Nesse intervalo, o indicador subiu de 29 para 35 anos.

    É o maior nível de uma série histórica divulgada pelo instituto com dados a partir do Censo de 1940, o primeiro produzido pelo órgão. A idade mediana separa o total da população em duas metades iguais: uma mais jovem, e a outra, mais velha. Ou seja, 50% dos brasileiros têm mais de 35 anos, e 50% têm menos.

    O chamado índice de envelhecimento também avançou. Saltou de 30,7 em 2010 para 55,2 em 2022. O novo patamar é o maior da série histórica com dados a partir de 1940.

    Na prática, o índice de envelhecimento referente ao ano passado aponta que havia 55,2 idosos de 65 anos ou mais para cada cem crianças de 0 a 14 anos. Essa relação estava em 10,5 em 1980.

    De acordo com especialistas, o envelhecimento traz uma série de impactos para o país. Parte das pessoas vive mais, e a procura por serviços de saúde tende a aumentar.

    Ao mesmo tempo, o país deve contar com uma proporção menor de jovens trabalhando e gerando recursos para o pagamento de aposentadorias e outros benefícios.

    A solução, segundo economistas, passaria por elevar a produtividade do trabalho, um gargalo histórico no Brasil.

    “As implicações em termos de políticas públicas deveriam estar sendo pensadas há muitos anos para atender a essa população idosa”, diz o demógrafo Ricardo de Sampaio Dagnino, professor da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

    “A gente tem um déficit grande. Precisa debater sobre isso e sobre o que fazer com os jovens”, acrescenta, citando a necessidade de criar caminhos em áreas como trabalho e educação para o segundo grupo.

    RS É O ESTADO MAIS ENVELHECIDO

    De acordo com o Censo, o Rio Grande do Sul é a unidade da federação mais envelhecida. A população de 65 anos ou mais correspondia a 14,1% do total de habitantes do estado em 2022.

    O Rio de Janeiro vem na sequência, com 13,1%. O percentual de São Paulo foi de 11,9%, também acima da média nacional (10,9%).

    Roraima se destaca na outra ponta do ranking. O percentual de idosos de 65 anos ou mais correspondeu a 5,1% da população local em 2022. É a menor proporção entre os estados.

    De acordo com o IBGE, a queda da fecundidade começou mais cedo no Sul do que no Norte, fator que poderia explicar uma parte das diferenças entre gaúchos e roraimenses.

    A região Norte é a mais jovem do país: 25,2% da população local tinha até 14 anos em 2022. A marca equivale a 1 em cada 4 habitantes. O Nordeste (21,1%) e o Centro-Oeste (20,9%) vieram na sequência.

    O Sudeste e o Sul, por outro lado, apresentam as estruturas mais envelhecidas. A população de 65 anos ou mais corresponde a 12,2% e 12,1% do total de habitantes nas duas regiões, respectivamente.

    ‘A CABEÇA NÃO ENVELHECE’, DIZ IDOSA

    A bióloga Elide Luccas, 72, ri ao lembrar que considerava “velhas” suas vizinhas de 30 anos quando implicavam com o barulho que fazia durante brincadeiras.

    Quando tinha entre 20 e 30 anos e pensava sobre os anos 2000, ela sempre imaginava um futuro distante e que estaria velha quando chegasse a virada do milênio. “Nós estamos em 2023, e eu não estou velha. Achava que a velhice estava ligada à aparência”, diz ela. “As vezes, olho no espelho e não me reconheço, mas a cabeça não envelhece.”

    Hoje, a bióloga de São Paulo tem uma rotina que varia de acordo com trabalhos manuais que ela produz, cuidados dos três netos, tarefas domésticas e prática de esportes.

    “Trabalho formal eu não tenho, faço um hobby-trabalho. Não dá para pagar as contas, mas eu ganho um dinheirinho”, diz ela, que confecciona mosaicos em casa e vende em feiras do clube que frequenta. “Melhora a longevidade, é uma distração que me faria muita falta se eu não fizesse.”

    Creusa Biasioli, 75, tem um pensamento semelhante ao de Elide. Ela vive em Araraquara (SP), comanda uma siderúrgica e afirma que gosta de trabalhar e de se sentir útil.

    “Gosto de sempre dar um pulo e saber o que está acontecendo para podermos melhorar”, conta ela.

    MULHERES SÃO MAIS DA METADE DOS BRASILEIROS

    Além dos dados de idade, o IBGE também publicou nesta sexta estatísticas sobre a divisão por sexo da população brasileira.

    Conforme o Censo 2022, as mulheres eram 51,5% (104,5 milhões) do total de habitantes, enquanto os homens representavam 48,5% (98,5 milhões). Ou seja, a parcela feminina superava a masculina em cerca de 6 milhões.

    A comparação com os recenseamentos anteriores sinaliza que as mulheres vêm aumentando sua participação entre os brasileiros. O percentual feminino era de 50,78% em 2000, passou para 51,03% em 2010, alcançando 51,5% em 2022.

    A parcela masculina, por sua vez, estava em 49,22% em 2000, foi para 48,97% em 2010 e atingiu 48,5% em 2022.

    A razão de sexo, que mede o número de homens para cada cem mulheres, diminuiu de 96 em 2010 para 94,2 no ano passado. É a menor relação da série histórica divulgada pelo IBGE com dados a partir de 1940.

    Em linhas gerais, a população feminina supera a masculina no Brasil em razão da mortalidade menor das mulheres na comparação com os homens, afirmou nesta sexta Izabel Marri, gerente de estudos e análises da dinâmica demográfica do instituto.

    Essa tendência, disse a pesquisadora, pode ser reforçada pelas condições do mercado de trabalho em cada município. Segundo ela, as mulheres se concentram mais em grandes cidades pela disponibilidade maior de oportunidades de emprego.

    https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2023/10/brasil-tem-envelhecimento-recorde-e-pessoas-de-65-anos-ou-mais-chegam-a-109-da-populacao.shtml

    Atividade

    1. Quando comparamos os dados do censo da região sul com o da regão norte do Brasil, percebemos diferenças em relação a expectativa de vida e número de brasileiros do sexo masculino. Aponte e explique essas diferenças.

    2. Por que a população feminina apresenta as maiores expectativas de vida?

    3. Viver mais é motivo de comemoração e preocupação para um país. Por quê?

    4. O Brasil está vivendo o seu “bonus demográfico” de maneira produtiva? Justifique.

    5 Como as taxas de fertilidade e mortalidade no Brasil têm evoluído ao longo das décadas e quais são as principais razões por trás dessas mudanças?

    6 Quais são as implicações demográficas da migração interna no Brasil, incluindo a migração do campo para as cidades e a concentração populacional em áreas urbanas?

    Questão 1 – Pirâmide Etária Comparativa

    Gráfico 1 – Pirâmide Etária do Brasil: 2010 x 2022

    Com base no Gráfico 1, que compara a pirâmide etária do Brasil em 2010 e 2022, identifique as principais transformações ocorridas na estrutura etária. O que essas mudanças revelam sobre as taxas de natalidade e longevidade no Brasil?

  • Brasil tem 203 milhões de habitantes, aponta Censo; domicílios crescem mais.

    Ana Paula BimbatiLola Ferreira e Carlos Madeiro

    Do UOL, em São Paulo e no Rio, e colunista do UOL

    28/06/2023 10h00

    Somos 203 milhões de habitantes no Brasil. O número foi divulgado hoje pelo IBGE, que revelou os primeiros resultados do Censo 2022. Segundo os dados, vivemos em 90,6 milhões de domicílios, mas nos últimos 12 anos o país teve a menor taxa de crescimento populacional da sua história —os dados oficiais começam a ser contados a partir de 1872.

    O Censo 2022 foi feito com dois anos de atraso e levou 10 meses de coletas em campo. A pandemia e o corte de verbas no governo Bolsonaro foram apontados como os responsáveis pela demora.

    O que o Censo revelou

    A população cresceu em 12,3 milhões de pessoas em comparação a 2010, quando foi realizado o último censo. Na época, eram 190,7 milhões de habitantes, e agora chegamos a 203 milhões; uma alta de 6,4%.

    Porém, o dado divulgado hoje “reduz” a população do país, estimada anualmente pelo órgão. A projeção atual do IBGE é de que haveria 213,3 milhões de habitantes no país em 2021; também menor que o dado parcial do Censo divulgado no final do ano passado, de 207 milhões de moradores —a divulgação antecipada, por sinal, foi alvo de críticas. (Entenda o porquê da diferença).

    Já em domicílios, a alta foi bem maior: em 2010 eram 67,5 milhões e agora são 90,6 milhões, ou 34% a mais: um ritmo de crescimento cinco vezes maior que o da população.

    Com mais domicílios, caiu o número médio de moradores por residência: são agora 2,79 em média; há 13 anos, esse número era de 3,31.

    O Censo revelou que, nos últimos 12 anos, a taxa de crescimento populacional foi de 0,52% ao ano. Foi a menor já registrada desde que temos dados oficiais sobre o tema, a partir de 1872.

    Hoje saíram apenas dados referentes à população e domicílios. Resultados mais detalhados serão divulgados em publicações específicas por área em breve.

    Os demógrafos vão avaliar, por exemplo, qual o impacto da pandemia de covid-19 nesse baixo crescimento.

    “Tivemos diversos problemas. Primeiro, o corte de orçamento; depois, um período pandêmico, e por isso pegamos um país diferente. Foi difícil contratar recenseadores. Mas estamos entregando o censo do Brasil. Nunca havíamos entregue um resultado definitivo tão rápido como agora.”

    Cimar Azeredo Pereira, presidente do IBGE

    São Paulo, maiores números

    Em termos de moradores, São Paulo segue sendo o estado mais populoso com 44 milhões de moradores; e Roraima, o menos populoso, com seus 636 mil habitantes.

    A região Sudeste segue como o maior número de moradores brasileiros (84,8 milhões de habitantes), com 41,8%, enquanto 8% moram no Centro-Oeste.

    Já entre as cidades, a capital paulista também lidera em população, com 11,4 milhões de pessoas.

    Quando analisadas as maiores variações entre 2010 e 2022, Manaus chama atenção por ter sido a cidade que mais ganhou moradores nos últimos 12 anos em números absolutos, saltando de 1,8 milhão para 2 milhões de moradores.

    Já Salvador teve a maior queda de população entre esses anos, caindo de 2,67 milhões para 2,41 milhões de moradores.

    Com isso, a metrópole mais populosa do Nordeste passou a ser Fortaleza, que passou a ser a 4ª mais populosa do país. Entre os dez municípios mais populosos do país, cinco perderam população entre 2010 e 2022.

    As cidades mais populosas do país:

    São Paulo – 11.451.245 (1,8% a mais que em 2010)

    Rio de Janeiro – 6.211.423 (-1,7%)

    Brasília – 2.817.068 (+9,6%)

    Fortaleza – 2.428.678 (-1,0%)

    Salvador – 2.418.005 (-9,6%)

    Belo Horizonte – 2.315.560 (-2,5%)

    Manaus – 2.063.547 (+14,5)

    Curitiba – 1.773.733 (+1,2%)

    Recife – 1.488.920 (-3,2%)

    Goiânia – 1.437.237 (+10,4%)

    Metrópoles menores, entorno maior

    O Censo também apontou que a cidade com menor população do país não é mais Bora (SP), mas sim Serra da Saudade (MG) e seus 833 moradores.

    O IBGE também contou a população de concentrações urbanas, e e São Paulo segue também como a líder com 20,6 milhões de pessoas na região metropolitana. A região do Rio de Janeiro vem em seguida, com 11,6 milhões.

    Nessas concentrações urbanas (que são classificadas como arranjos populacionais acima de 100 mil habitantes com forte integração da população), moram 124,1 milhões de pessoas.

    Uma tendência observada pelo Censo 2022 é que as médias cidades foram as que mais ganharam população a partir de 2010, com redução de ritmo de alta nas capitais e cidades-pólo de regiões metropolitanas. “É o fato novo do Censo”, diz o presidente do IBGE.

    Vista aérea da área portuária de Manaus Imagem: Prefeitura de Manaus

    Crescimento desigual

    O crescimento populacional ocorreu em todos os estados nesses 12 anos, mas as taxas foram diferentes entre as regiões.

    Os números apontam que o Norte deixou de ter a maior taxa de crescimento populacional e passou o posto para o Centro-Oeste, que registrou uma taxa de 1,23% ao ano, mais que o dobro da média nacional.

    Na contramão, o Nordeste é a região que menos cresceu e teve alta de apenas 0,24% ao ano. Alagoas foi o estado com menor crescimento do país e ficou quase estável, com aumento de apenas 0,02% ao ano.

    Já Roraima teve a maior taxa de crescimento. Parte da explicação disso pode ser explicada pela inédita inclusão do povo Yanomami no recenseamento. … –

    Sobre o Censo

    Para fazer o Censo, o IBGE levou 10 meses em campo. O orçamento inicial aprovado foi de R$ 2,3 bilhões, mas segundo o presidente do órgão, o atual governo precisou investir R$ 350 milhões para concluir as entrevistas em 2023.

    Com o aporte do governo atual, foi possível fazer o recenseamento de mais 16 milhões de pessoas pelo país.

    “Dessas, 2 milhões estavam em favelas e iriam ficar fora”, diz. O número de moradores de favelas será divulgado posteriormente.

    “Estamos orgulhosos por esse momento. Ele é histórico e fundamental para todos nós. Existe um IBGE antes e depois do Censo 2022.”

    Cimar Azeredo Pereira, presidente do IBGE

    Recenseadores visitaram todas as cidades.

    O Censo começou em 1º de agosto de 2022 e encerrou a coleta em junho de 2023. Ao todo, participaram da coleta de dados 215.915 trabalhadores temporários, entre analistas, supervisores e recenseadores.

    Os recenseadores visitaram ao todo 106,8 milhões de endereços, com uma taxa de não-resposta de 4,23%. Nesse quesito, São Paulo se destacou pela média bem acima do restante dos estados: 8,1% dos paulistas não responderam.

    Segundo o IBGE, 1 milhão de domicílios se recusaram a responder o Censo.

    Quando uma pessoa não responde ao Censo, ou o entrevistador não consegue localizar um morador, o IBGE faz uma inferência para calcular de acordo com médias recenseadas no local.

    No Censo 2022, o IBGE informou que 195 milhões de pessoas foram recenseadas e 7,9 milhões foram imputadas (calculadas por método científico).

    Dos domicílios visitados, o IBGE encontrou 18 milhões desocupados ou ocupados ocasionalmente (caso de imóveis usados para veraneio ou aluguel temporário, por exemplo). Em comparação a 2010, a alta foi de 87%.

    https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2023/06/28/resultado-censo-2022-brasil-203-milhoes-de-habitantes.htm

    Questões

    1) Quais são os motivos para o atraso do Censo de 2022?

    2) Por que estado de Roraima teve um aumento de sua população?

    3) Em relação os municípios mais populosos do país, quais foram os que perderam efetivos?

    4) Aponte um fator para a redução do crescimento da população brasileira na última década.

    `Prof Luciano Mannarino

  • Mata atlântica tem crescimento histórico de desmatamento

    Mata atlântica tem crescimento histórico de desmatamento

    24.mai.2022 às 22h00

    Phillippe Watanabe

    SÃO PAULO
    A mata atlântica, o bioma brasileiro mais devastado, está vivendo um momento que parecia que não iria se repetir em sua história: um grande crescimento do desmatamento.

    A destruição na mata atlântica saltou 66% em 2020-2021, em comparação ao período anterior (2020-2019). É o maior aumento percentual registrado desde o início do monitoramento, em 1985 (até 2010 os dados eram divulgados e englobavam um período de cinco anos).

    No período de 2020-2021, foram derrubados 21.642 hectares do bioma, que mantém somente pouco mais de 12% de sua cobertura original. É o maior valor desde 2015/2016, quando era de 29.075 hectares.

    Os dados são de relatório da ONG SOS Mata Atlântica e do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) lançado na noite desta terça-feira (24).

    Metade da foto tem uma floresta em pé, a outra uma floresta escurecida, queimada
    Vista aérea de área desmatada no município de Rio Vermelho, em Minas Gerais – 20.mai.2022 – Douglas Magno/SOS Mata Atlântica.


    “Estamos andando para trás”, afirma Luis Fernando Guedes Pinto, diretor de conhecimento da SOS Mata Atlântica e coordenador do Atlas Mata Atlântica, o projeto que anualmente levanta as áreas desmatadas no bioma.

    Na última semana, em um sobrevoo por áreas de Minas Gerais que tinham registros de desmate no ano passado, a equipe da SOS Mata Atlântica flagrou novas derrubadas em curso —que, pela questão da data, não entram nos dados citados na reportagem.

    “Imagens horríveis. Aquelas imagens da Amazônia. A gente tem que lembrar que estamos falando da mata atlântica, de uma região mais rica, com maior governança. Deveríamos estar falando exclusivamente de restauração e estamos falando de coisas desse nível [desmatamento]. É uma reversão total de agenda”, diz Guedes Pinto.

    Os resultados são vistos como surpreendentes e preocupantes. Ao todo, 15 estados apresentam alta de desmatamento —somente 2 tiveram redução.

    Apesar do crescimento generalizado, três estados concentram mais de 80% da destruição registrada. Minas Gerais, líder de desmate, levou ao chão 9.209 hectares de floresta. Em segundo lugar, a Bahia derrubou 4.968 hectares. O Paraná fecha a lista com 3.299 hectares derrubados. Todos eles tiveram aumentos de destruição superiores a 50% em relação ao período anterior. Em Minas, o salto chegou a 96%.

    Até mesmo estados que se aproximavam de desmatamento zero (quando os dados não passam de 100 hectares no ano) apresentaram crescimento na destruição, caso de São Paulo, Sergipe e Rio de Janeiro. O estado fluminense, por exemplo, antes estava abaixo dos 100 hectares, mas agora teve um aumento de 95% na supressão de matas.

    A única explicação para um aumento generalizado como esse, segundo Guedes Pinto, seria uma visão antiambiental que se espalhou pelo país.

    “São praticamente quatro anos de uma cultura de antifloresta, de negacionismo da ciência e de desmonte da política ambiental. E uma expectativa de impunidade, de ataque à legislação ambiental no Congresso e de atos administrativos do governo federal”, afirma o especialista. “Até atacaram a Lei da Mata Atlântica. Não podemos esquecer do despacho do [Ricardo] Salles.”

    Guedes Pinto se refere a um despacho assinado pelo então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em 2020, que acabava por anistiar proprietários rurais que destruíram mata atlântica. Esse documento reconhecia como áreas consolidadas (sem necessidade de recuperação) as APPs (Áreas de Preservação Permanentes, como margens de rios) desmatadas e ocupadas até julho de 2008.

    O despacho, posteriormente revogado por Salles, seguia um parecer da AGU (Advocacia-Geral da União), feito após pressões da CNA (Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil) e do agronegócio do sul do país.

    “A mata atlântica tem uma lei especial, tem uma governança mais robusta e existe uma segurança jurídica nessas áreas. Não era esperado que a gente chegasse nessa condição. Os resultados mostram que esse contexto institucional nacional acaba contaminando as pessoas e elas tomam a decisão de desrespeitar a lei, de ir para a ilegalidade e abrir novas áreas, infelizmente”, afirma o coordenador do Atlas.

    DESMATAMENTO E AGRONEGÓCIO
    Minas Gerais e Bahia, ambos com áreas grandes contínuas de desmatem, formam uma espécie de bloco de fronteira de derrubada da mata atlântica. Nesses locais, a destruição é ligada ao agronegócio, segundo Guedes Pinto.

    O Paraná é outro com desmate ligado ao agro. Ali, porém, a floresta é comida, aos poucos, com pequenas derrubadas, pelas bordas.

    A dinâmica de desmate continua diferente em outros locais, como São Paulo e Rio de Janeiro, onde as supressões são, costumeiramente, ligadas a pressões urbanas e imobiliárias.

    O coordenador do Atlas alerta que a ideia do relatório não é apontar legalidade ou não de supressões de vegetação. Mas as informações que se têm sobre autorizações para desmatamento no país indicam que o que predomina são desmates ilegais.

    Segundo dados do MapBiomas, mais de 90% dos desmatamentos do bioma têm indícios de ilegalidade.



    Vale ressaltar ainda que o monitoramento é focado em fragmentos maduros de mata, ricos em biodiversidade e biomassa. Portanto, desmatamentos nessas áreas acabam tendo um impacto ainda maior.

    “A gente voltar a ter desmatamentos contínuos nesse patamar de 20 mil hectares é uma tragédia ambiental”, diz Guedes Pinto, que relembra que, segundo a lei da Mata Atlântica, supressões no bioma só podem ser autorizados se forem de interesse público ou com propósito social.

    O bioma chegar a um ano eleitoral com essas taxas de desmate também é algo preocupante, considerando que, em anos de eleição, a derrubada ilegal costuma crescer na mata atlântica.

    Nesses anos, diz o especialista da ONG, o diálogo e a cobrança sobre entes públicos muitas vezes se tornam mais complicados, considerando as mudanças que ocorrem internamente, com pessoas deixando a posição para a disputa de cargos eletivos.

    A destruição da mata também pesa sobre outro ponto que tem crescido nos últimos anos no Brasil: as emissões de gases-estufa. O atlas aponta que o desmatamento registrado na mata atlântica no período 2020-2021 jogou na atmosfera 10,3 milhões de toneladas de CO2 equivalente (medida que soma os gases de efeito estufa).

    O país é parte do Acordo de Paris, que busca reduzir drasticamente as emissões de gases para conter o aumento da temperatura global. O desmatamento e o agronegócio são os principais responsáveis pelas emissões brasileiras.

    O QUE DIZEM AS SECRETARIAS DE MEIO AMBIENTE
    A Folha entrou em contato com as secretarias de meio ambiente dos estados com maiores níveis de desmatamento e com a secretaria de São Paulo.

    Somente a Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente ​paulista respondeu até a conclusão da reportagem.

    Em nota, ela afirma que “a metodologia utilizada pela SOS Mata Atlântica não considera áreas licenciadas e com a devida compensação, de acordo com a legislação ambiental vigente, inclusive para obras de interesse público”.

    Segundo o órgão, no relatório anterior da ONG, metade dos hectares de derrubada apontados para o estado tinha licenciamento pela agência ambiental e medidas compensatórias.

    “Vale lembrar que São Paulo continua com um dos menores índices de desmatamento do país e uma área de mata atlântica de 5,4 milhões de hectares”, diz a nota, que ressalta que ainda analisará os dados presentes no relatório.

    A Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais afirmou que combate diariamente o desmatamento ilegal. Segundo o órgão, o desmate sem autorização teve redução de 9% em áreas de mata atlântica no estado no período 2020/2021.

    A secretaria mineira aponta que há diferenças entre a metodologia que segue e a do Atlas da Mata Atlântica. Além disso, diz que o SOS Mata Atlântica não considera áreas restauradas.

    “Na avaliação do IEF [Instituto Estadual de Florestas], tais pontos interferem no quantitativo de supressão total da vegetação no período. Minas Gerais é o estado que possui a maior área remanescente de Mata Atlântica do país, com cerca de 12,8 milhões de hectares. Além da fiscalização crescente contra o desmatamento, o Governo de Minas adota ações de prevenção, conservação e restauração do Bioma”, diz a nota enviada à reportagem pela secretaria de Minas Gerais.

    https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2022/05/mata-atlantica-tem-crescimento-historico-de-desmatamento.shtml

    Prof Luciano Mannarino

  • Matopiba: Nova fronteira agro do país lidera em desmate e expulsa moradores.

    Carlos Madeiro

    Colunista do UOL

    13/08/2022 04h00Atualizada em 13/08/2022 19h01

    Apontada como nova fronteira agrícola do país, a região do Matopiba —sigla que envolve o Cerrado dos estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia— se tornou o principal motor do desmatamento do país nos últimos anos, devido à expansão do agronegócio. A disputa por terras tem ainda pressionado comunidades tradicionais, expulsando alguns povos da região.

    Com 73 milhões de hectares, o Matopiba responde por aproximadamente 10% da produção de grãos e fibras no país, com destaque para soja, milho e algodão. Em 2021, foi responsável por 23 de cada 100 km² desmatados no país —um recorde para a área.

    Transcerrado, rota de escoamento da produção do Matopiba

    Segundo o Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), atualmente essa é a região que mais cresce, em área plantada, em todo o Brasil. A previsão do governo é que chegue a 8,9 milhões de hectares até o final de 2030. Essa expansão do agro está ocorrendo à custa de grande parte da vegetação nativa da região, levando a área a ser hoje o principal vetor de alta do desmatamento no país.

    Segundo o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil, do MapBiomas Brasil, quase um quarto (23,6%) do desmatamento no Brasil em 2021 ocorreu no Matopiba: 391 mil hectares desmatados. O número é 14% maior em relação a 2020. Ao analisar somente o Cerrado, vê-se que a área dos quatro estados representa 73% do desmatamento do bioma. “Nessa região, existe uma conversão de áreas para pecuária e agricultura que acontece muito mais rápido do que em outras regiões do país”, diz Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas, citando uma predominância da soja na lavoura.

    Segundo ele, 5,1 milhões de hectares já estão mapeados com pontos de desmatamento no Matopiba. Nem 10% do território tem áreas de conservação ou preservação. “Lá não tem muitas unidades de conservação, é muito carente”, diz.

    Cerrado tem sido a área mais desmatada do país nos últimos dois anos Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil

    Histórico e avanço.

    A região do Matopiba começou a ser explorada pelo agronegócio na década de 1980. Mas foi a partir de 2005 que grandes fazendas de monocultura investiram na região. Segundo Juarez Mota, professor da UFMA (Universidade Federal do Maranhão), o Matopiba tem sofrido um “impacto severo” do agronegócio.

    “A gente se volta muito à Amazônia e esquece que temos outros biomas tão importantes, como o Cerrado”, diz. Ele critica a posição antagônica dos EUA e da Europa sobre o desmatamento nacional. “Eles falam tanto da proteção da Amazônia, mas são os maiores desmatadores por meio de fundo de investimento, principalmente dentro desse eixo”, afirma.

    Ele diz que fundos de investimentos internacionais estão comprando fazendas e colocando ações na Bolsa para investir na área. “A questão ambiental tem sofrido com a forma bastante agressiva do agronegócio. E a supressão da vegetação nativa, segundo estudos, tem relação com o clima e a realização de eventos extremos.

    Antes eles eram raros, e agora estão se tornando cada vez mais normais”, afirma. Um exemplo disso foram as chuvas na Bahia entre o final de 2021 e o início deste ano, consideradas as mais intensas na região sul e sudeste do estado.

    “Quando se faz a supressão da vegetação, o equilíbrio hidrológico é muito afetado. O solo e as águas são muito impactados, e as consequências estão aí, com as tragédias das chuvas.

    ” Vista aérea do município de Balsas, no Maranhão Imagem:

    Povos relatam drama.

    A coluna conversou com líderes nas áreas que têm sofrido pressão e perda de territórios. Muitos, porém, não quiseram expor seus nomes, com medo de represálias. Segundo Renato Krahô, líder do povo Krahô-akaywrá no Tocantins, como a sua comunidade não vive em uma terra demarcada, o povo que vive na aldeia Takaywrá sofre com o avanço do agronegócio. “Isso afeta a nossa vida social e ambiental. Somos coagidos, ameaçados”, relata.

    O problema chamou a atenção ao ser um dos julgados, em julho, no Tribunal Permanente dos Povos, que analisou casos do Cerrado brasileiro. Ao todo, foram 15 julgados (veja aqui quais). Eles lutam pela demarcação de seu território e, assim como os Krahô Kanela vivem em 7.000 hectares, disputando uma outra parte que ainda permanece em posse dos fazendeiros. Renato diz que o modo de vida no local depende da água, seja para tirar o sustento, navegar ou para consumo humano e animal.

    “Hoje somos privados de navegar por causa das barragens que estão sendo construídas para uso particular das fazendas”, afirma. Outro ponto citado é a poluição das águas. “Os peixes estão contaminados, além de muitas espécies já estarem em extinção, devido ao uso excessivo de agrotóxicos. Nem a água que a gente bebeu por séculos é mais confiável”, reclama.

    Matopiba tem sua área dividida assim:

    Tocantins – 37,95%

    Maranhão – 32,77%

    Bahia – 18,06%

    Piauí – 11,21%

    Ao todo, são 337 municípios e 73,1 milhões de hectares (51% da área dos quatro estados)

    Até 2021 existiam na área:

    324 mil estabelecimentos agrícolas

    46 unidades de conservação 35 terras indígenas

    36 quilombolas

    1.053 assentamentos de reforma agrária

    Fonte: Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária)

    Para Martin Mayr, coordenador da ONG Agência 10envolvimento e diácono da Diocese de Barreiras, o que as comunidades defendem é a regularização fundiária, por meio de processos como reconhecimento de territórios de indígenas e quilombolas.

    “Estamos falando de áreas que pertencem ao Estado, mas que foram griladas. São as comunidades tradicionais que arcaram com o ônus disso porque eles tinham a sua posse lá antes da chegada desses negócios.”

    Martin Mayr, coordenador de ONG

    O conflito de propriedade e posse tem ido parar muitas vezes na Justiça. Para ele, o Judiciário tem “costume de privilegiar os grileiros”. “Temos muitas vezes casos em que esses povos perderam suas terras: 50%, 60%, 70% de seus territórios. Alguns perderam tudo no oeste baiano. Isso não ocorria antes. Até os anos 1970, havia terra para todos”, lamenta.

    Para Amanda Silva, assessora da Agência 10envolvimento e integrante do Cáritas Regional Nordeste 3, com o avanço do agronegócio e o poder de seu dinheiro, as comunidades tradicionais —como indígenas, ribeirinhas e quilombolas— acabaram se envolvendo em conflitos por terra e por água.

    “Essas comunidades habitam esse Cerrado há muitas gerações, mas a expansão dessa agricultura de larga escala —que necessita de grandes áreas desmatadas— foi usurpando seus territórios e pressionando-as a utilizarem apenas os vales”, diz.

    Ela cita que ainda existe o uso da violência para expulsar moradores. “Em qualquer imagem de satélite, você perceberá que os chapadões, que eram áreas de solta para o gado, hoje praticamente estão ocupados pelo agro”, afirma.

    “As comunidades têm tentado resistir, mas existe um grande custo. Percebe-se um índice considerável de pessoas deprimidas, o êxodo de jovens das comunidades, a presença de agrotóxicos e a inviabilização de seus modos de vida tradicionais.”

    Amanda Silva, assessora.

    https://notícias.uol.com.br/colunas/carlos-madeiro/2022/08/13/avanco-agro-no-matopiba-expulsa-povos-e-responde-por-23-do-desmate-no-pais.htm

    Prof Luciano Mannarino

    Domínio do Cerrado