Categoria: Brasil

  • O difícil caminho para o nosso Everest amazônico (EM13CHS306/302 – EFGE05)

    EM13CHS302
       Analisar e avaliar criticamente os impactos econômicos e socioambientais de cadeias produtivas ligadas à exploração de recursos naturais e às atividades agropecuárias em diferentes ambientes e escalas de análise, considerando o modo de vida das populações locais – entre elas as indígenas, quilombolas e demais comunidades tradicionais -, suas práticas agroextrativistas e o compromisso com a sustentabilidade.
    EM13CHS306
    Contextualizar, comparar e avaliar os impactos de diferentes modelos socioeconômicos no uso dos recursos naturais e na promoção da sustentabilidade econômica e socioambiental do planeta (como a adoção dos sistemas da agrobiodiversidade e agroflorestal por diferentes comunidades, entre outros).

    EF06G05
    Relacionar padrões climáticos, tipos de solo, relevo e formações vegetais

    Volta das excursões ao ponto mais alto do país pede preparo físico e psicológico

    8.abr.2022 à 0h05

    Ainda nos bancos escolares aprendemos que o Brasil não tem montanhas altas por tratar-se de território mais antigo cujos maiores picos sofreram mais milhões de anos de erosão que os de outras freguesias, lembram? Há até hoje intensa discussão entre acadêmicos que questionam se podemos ou não chamar de montanhas o que, na verdade, seriam apenas montes, morros, qualquer coisa longe da imponência de cordilheiras como a dos Andes ou a do reverenciado Himalaia, essas, sim, incontestavelmente dignas de serem chamadas de montanhas.

    Mas enquanto especialistas não resolvem se temos ou não montanhas para chamar de nossas, um grupo de montanhistas conta ansioso os dias para seguir até o cume mais alto do Brasil —o pico da Neblina, a exatos 2.993,78 metros de altitude segundo medição mais recente confirmada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) com a ajuda de satélite. Ou Yaripo, ” montanha do vento”, como o chamam reverentemente os índios da etnia yanomami, moradores e donos do pedaço cobiçado por garimpeiros.

    Vista de drone do Pico da Neblina com grupo-piloto no cume – Marcos Amend -6.jun.17/Folhapress

    E é para o Pico da Neblina, ou Yaripo, que acaba de ser reaberta a possibilidade de acesso a turistas muito especiais: aqueles que têm condicionamentos físico e psicológico suficientes para encarar não apenas os perrengues habituais de uma subida, mas a jornada até sua base pelas trilhas barrentas da floresta amazônica em um Toyota velho, mais sete horas de “voadeira”, a canoa com motor de popa tradicional na região, até o coração do Parque Nacional do Pico da Neblina, dentro da Terra Indígena Yanomami. De lá, depois da bênção dos yanomamis, começa a subida. Ao todo, são de sete a dez dias de jornada, dependendo do fôlego dos participantes e das condições meteorológicas..

    Magno Souza, da Roraima Adventures, no centro, com os yanomamis que abençoam a expedição ao Pico da Neblina (Yaripo).

    A aventura não é mesmo para qualquer par de pernas e uma mochila cheia de boa vontade. O empresário Magno Souza, dono da Roraima Adventures, de Boa Vista (RR), especialista em experiências amazônicas como a subida ao monte Roraima, conta que começou a articular a operação do acesso ao pico da Neblina em 2007. Só em 2009 conseguiu subir pela primeira vez, depois de muita conversa com os yanomami, a Funai e o Ibama.

    “Só que, de repente, já em 2010, aquilo tinha virado a casa da mãe Joana, muita gente começou a querer explorar o acesso sem experiência e sem respeitar a cultura e os costumes dos yanomamis, e o Ministério Público proibiu de vez o acesso”, conta ele. O isolamento iria até 2015, quando a Funai publicou instrução normativa regulamentando o turismo em áreas indígenas. Retomadas as conversas, acabaram sendo autorizadas três operadoras que se responsabilizariam pela organização da jornada, indicadas pelo pioneiro Souza. “Não queríamos monopólio, mas precisávamos de gente que conhecesse o meio, as dificuldades específicas da região”, explica ele. Além da Roraima Adventures, estão credenciadas como operadoras a Amazon Emotions e a Ambiental Turismo.

    De conversa em conversa, a primeira expedição-piloto, realizada em parceria da Roraima Adventures e da Amazon Emotions, levou dez visitantes-cobaias para o topo, em 2017, incluindo um repórter da Folha. Estava tudo preparado para dar início aos pacotes em março de 2020 —mas aí veio a pandemia e, com ela, a suspensão de toda a programação.

    Expedição ao Pico da Neblina (Yaripo).  Magno Souza, fundador da Roraima Adventures COM  índios yanomami
( Foto: Divulgação ) *** FOTOS NO MAXIMO 4 COLUNAS ***
    Expedição ao Pico da Neblina (Yaripo). Magno Souza, fundador da Roraima Adventures COM índios yanomami ( Foto: Divulgação )

    Só há poucos dias, mais exatamente em 17 de março passado, a primeira turma de dez turistas saiu de São Gabriel da Cachoeira (AM) em direção ao Parque Nacional. Desses, dois ficaram pelo caminho.

    NA FLORESTA, O MAIS PREVISÍVEL É O IMPREVISTO

    “O impacto da floresta, da alimentação e da cultura tão diferente dos yanomamis, que acompanham os grupos em todo o percurso, forçaram dois dos membros do grupo a desistir já no segundo dia da expedição”, relata Souza. “Eles reconheceram não terem condição psicológica para enfrentar uma trilha de tanta dificuldade, e saíram a tempo”, acrescenta.

    No site das operadoras e agências parceiras é alertado sem meias tintas que se trata de uma trilha de alta dificuldade. Pessoas que estejam com mais de 10 kg acima do chamado “peso ideal” devem passar por uma entrevista antes de fechar o pacote. E quem tem problemas de joelhos, coluna ou qualquer tipo de enfermidade crônica ou psicológica só deve se dirigir ao guichê da agência depois de consultar um médico. A coisa ali é séria.

    “Não é exagero, é cuidado e responsabilidade”, ressalta Souza, lembrando que se trata de uma jornada na qual, por mais que a equipe de apoio se esforce para cuidar de acampamento, alimentação, transporte, primeiros socorros e, até comunicação por satélite para emergências, “o mais previsível é sempre o imprevisto”. E o imprevisto, em um lugar tão distante de tudo, pode ser uma grande encrenca, quando não acabar em morte.

    Mas, então, por que alguém iria querer se meter em tamanho desafio? Bom, em primeiro lugar vem sempre a célebre resposta que o alpinista britânico George Mallory deu ao repórter do The New York Times que lhe perguntou, em 1924, por que queria tanto subir ao topo do Everest (jornada, por sinal, na qual morreria): “Porque está lá”. Pois nada como saber que algo “está lá”, desafiando nossas habilidades, para forçar o primeiro passo à frente.

    Só que tem mais que perrengues, segundo Souza, que acompanhou esse primeiro grupo da retomada: “Nada pode relatar a intensidade do que se sente ao chegar ao pico depois de tantas dificuldades, muita chuva, frio, calor, umidade, a floresta, o rio, tantas experiências diferentes seguidas sem trégua”, suspira esse mato-grossense de Campo Grande com o sorriso de quem, aos 60 anos recém-cumpridos, não vê a hora de voltar a subir.

    https://www1.folha.uol.com.br/blogs/e-logo-ali/2022/04/o-dificil-caminho-para-o-nosso-everest-amazonico.shtml

    Prof Luciano Mannarino

    Na Amazônia, 20% das bacias sofrem alto impacto de atividades humanas

    Formações Vegetais do Brasil

  • Governo altera mapa do semiárido, inclui cidades do ES e exclui do Nordeste (EF06G03 – EF07GE02 – EF07GE09 – EM13CHS106)

    EM13CHS106    
    Utilizar as linguagens cartográfica, gráfica e iconográfica, diferentes gêneros textuais e tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais, incluindo as escolares, para se comunicar, acessar e difundir informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva

    EF06GE03
    DESCREVER OS MOVIMENTOS DO PLANETA E SUA REALÇÃO COM A CIRCULAÇÃO ATMOSFÉRICA, O TEMPO ATMOSFÉRICO E OS PADRÕES CLIMÁTICOS.

    EF07GE02
    Analisar a influência dos fluxos econômicos e populacionais na formação
    socioeconômica e territorial do Brasil, compreendendo os conflitos e as tensões históricas e
    contemporâneas.

    EF07GE09
    Interpretar e elaborar mapas temáticos e históricos, inclusive utilizando
    tecnologias digitais, com informações demográficas e econômicas do Brasil (cartogramas),
    identificando padrões espaciais, regionalizações e analogias espaciais.

    Carlos Madeiro

    Carlos Madeiro é jornalista formado na Ufal (Universidade Federal de Alagoas)

    19/02/2022 04h00

    O Conselho Deliberativo da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) decidiu excluir 50 municípios do mapa do semiárido brasileiro. A decisão, tomada em reunião pelo Conselho Deliberativo, em dezembro, também aprovou a inclusão de outros 215 municípios —a maioria do Sudeste. A publicação da nova delimitação foi feita em 30 de dezembro e as cidades envolvidas têm um prazo de 60 dias para apresentar recurso. A última delimitação havia sido feita em 2017, quando foi definido que o semiárido brasileiro contava com 1.262 municípios. Agora, passa a ter 1.427 —seis deles de um estado que, até então, não estava incluído nessa, o Espírito Santo. Dos 50 municípios retirados do mapa, 42 são do Nordeste e oito são de Minas Gerais.

    Paisagem típica do semiárido, na área do Parque Nacional Serra Capivara, no interior do Piauí

    Apesar de prevista, a alteração foi criticada por organizações que atuam no Nordeste e uma das prefeituras afetadas ouvidas pela reportagem. Procurada pelo UOL, a Sudene informou que as discussões dessa revisão começaram ainda em 2020, e a pesquisa utilizou dados do clima entre os anos de 1991 e 2020 —e que seguiu padrões recomendados pela Organização Mundial de Meteorologia. O semiárido é caracterizado pela seca e aridez.

    Municípios excluídos por estado:

    PB – 10

    MG – 8

    RN e SE – 7

    PE – 5

    AL, BA e CE -4

    PI – 1

    Total – 50

    Municípios incluídos por estado:

    MG – 126

    PI – 31

    PE – 19

    MA – 14

    BA – 9

    ES – 6

    AL e PB- 4

    RN e SE – 1

    Total – 215

    O que muda para quem ‘saiu’ do semiárido Para que a área seja incluída no semiárido, são levados em conta três critérios —e basta apenas um deles para que haja a delimitação: Precipitação pluviométrica média anual igual ou inferior a 800 mm; Índice de Aridez de Thornthwaite (usado para medir o grau de aridez e acidez do solo de uma determinada região) igual ou inferior a 0,5; Percentual diário de déficit hídrico igual ou superior a 60%, considerando todos os dias do ano.

    Fora do semiárido, municípios e agricultores deixam de ter acesso a uma série de políticas públicas, em especial juros mais baixos e uma fatia maior no FNE (Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste). Para este ano, o orçamento previsto é de R$ 26,6 bilhões. Por lei, o fundo destina pelo menos metade dos recursos para o semiárido.

    Há ainda vantagens em outros programas, como o FNDE (Fundo de Desenvolvimento do Nordeste) —também administrado pela Sudene e que é maior em áreas consideradas prioritárias, como o semiárido. Já outros programas são direcionados mais efetivamente para cidades da região, como o de construção de cisternas e o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) semiárido —que financia projetos de infraestrutura hídrica e implementação de infraestrutura

    Na mudança anterior do mapa do semiárido, em 2017, o Conselho Deliberativo da Sudene definiu que os critérios técnicos e científicos utilizados para a delimitação da região seriam revistos em 2021 e a cada dez anos. “Nossa maior preocupação é que tenhamos mudanças nas taxas de juros do FNE. Procurei até me informar sobre isso com o Banco do Nordeste, mas ainda não tive retorno”, diz Hibernon Cavalcanti, secretário de Agricultura de Arapiraca (agreste de Alagoas), o mais populoso município excluído da região

    Desde 2012, o município tem decretado emergência por conta da seca (o que tem sido reconhecido pelo governo federal). A prefeitura informou ao UOL que vai recorrer da decisão por entender que parte do seu território está no semiárido. Mudança contestada A revisão do mapa desagradou a ASA (Articulação do Semiárido), organização que reúne mais de 3 mil entidades. O sociólogo e coordenador do projeto Daki Semiárido Vivo da ASA, Antônio Barbosa, questiona os critérios que a Sudene usou para mudar o mapa do semiárido e excluir e incluir cidades.

    “Faltam informações sobre que critérios aplicaram. A gente sabe que existe uma mudança climática, mas sem os dados não dá pra saber se eles atendem ou não os critérios. Queríamos revisar os dados, junto com outros pesquisadores, mas não houve transparência.”

    Antônio Barbosa, sociólogo e coordenador de projeto da ASA.

    Ele também reclama da revisão de dados em um período tão curto. “Ficou acertado que a revisão ocorreria a cada dez anos. Ocorreu em 2005 e deveria ter ocorrido em 2015 —mas atrasou dois anos e só houve em 2017. Então, ela teria de ser revista, na pior da hipótese, em 2025. Por que fazer isso em ano eleitoral?”, pontua. Para Barbosa, faltou um maior debate sobre as avaliações.

    Na sua opinião, mesmo os municípios que já estavam e permaneceram na lista serão prejudicados na divisão de recursos. “Estamos falando de um bolo que está sendo mais dividido”, diz. Para o meteorologista, professor e pesquisador da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), Humberto Barbosa, a mudança de configuração de uma área é natural dentro de um processo climatológico. Ele acredita que revisões como essa da Sudene, são feitas por critérios técnicos. “A delimitação passou a ser uma política pública estabelecida, inclusive, dentro do plano nacional de mudança climática. Ou seja, é necessário haver revisões. Antigamente, ali pelos anos 1970, acredito que isso era mais político; mas agora é uma área técnica, temos marcadores científicos para isso”,

    A gente sabe que o semiárido pode se expandir ou contrair em função das condições climáticas. A gente vê que o nosso semiárido está perdendo sua fertilidade do solo. Mapeamos isso recentemente e podemos dizer que o semiárido está em mudança, respondendo a esses extremos climáticos que são cada vez mais comuns.”

    Humberto Barbosa, meteorologista da Ufal.

    Para os próximos anos, Barbosa diz que o cenário é de imprevisibilidade sobre as condições climáticas e de como o semiárido vai se comportar diante do aumento da população, da degradação ambiental e da pressão sobre as questões hídricas. “Essa revisão dá para a gente entender a dimensão espacial territorial do semiárido e também enfatizar que esse aumento ou diminuição está muito ligada a condições extremas”, pontua.

    Sudene assegura critérios técnicos

    Ao UOL, a Sudene afirmou que a análise mais recente para delimitação do semiárido teve a participação de técnicos da entidade, de equipes da ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico), Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia).

    “Eles contribuíram ativamente, inclusive no processamento, geração de dados, mapas e relação de municípios habilitados, posteriormente expandido, num segundo momento, para a participação de Instituto Nacional do Semiárido (Insa), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama), Banco do Nordeste do Brasil (BNB) e Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf)”. A Sudene ainda argumenta que, para chegar à nova conclusão, foram processados os dados de índice de aridez, precipitação pluviométrica e déficit hídrico de 2.074 municípios.

    “O trabalho seguiu padrões recomendados pela Organização Mundial de Meteorologia (WMO). De acordo com a entidade internacional, a análise climática de uma região requer o estudo de uma série de 30 anos de dados meteorológicos e ambientais.”

    Sudene.

    A instituição assegura que os governos têm prazo até o fim de fevereiro para apresentarem recurso com “considerações embasadas pelos seus respectivos institutos estaduais de meteorologia”. “O Conselho Deliberativo da Sudene procederá com nova análise, que acontecerá em até 120 dias, e apresentará os resultados na sua próxima reunião”. Sobre prejuízos aos que forem excluídos em definitivo, a nota explica que o Conselho Deliberativo da Sudene instituiu uma regra de transição para assessorar os municípios que não se enquadraram nos contornos semiáridos.

    “As empresas ou produtores localizados nestas cidades que, até a data de entrada em vigor da nova resolução, tenham formalmente apresentado propostas, consultas prévias, cartas consultas ou projetos ao Banco do Nordeste do Brasil (BNB) ou à Sudene pleiteando recursos do FNE ou do FDNE terão seus projetos ou propostas analisadas como se no semiárido estivessem, mesmo que as operações de crédito ainda não tenham sido contratadas”.

    Por fim, garante que as cidades retiradas continuarão recebendo apoio. “Os municípios excluídos continuarão a receber recursos, incentivos e apoio dos instrumentos e quaisquer outras iniciativas protagonizadas pela Superintendência”, pontua.

    https://notícias.uol.com.br/colunas/carlos-madeiro/2022/02/19/delimitacao-do-semiarido-entra-espirito-santo.htm

    Prof Luciano Mannarino

    Crise do Clima “Nordeste”

    Com secas e degradação, Caatinga perdeu 40% de água original em 35 anos

  • Tragédia em Petrópolis: chuvas de verão extremas são reflexo das mudanças climáticas?

    Tempestades são comuns nesta época do ano, mas eventos climáticos extremos estão ficando mais frequentes e intensos, apontam especialistas

    16.fev.2022 às 21h21

    Rafael Barifouse

    SÃO PAULO | BBC NEWS BRASIL

    Os temporais que atingiram desde o final do ano passado a Bahia, Minas Gerais, São Paulo e, agora, o Rio foram seguidos por dois tipos de reação.

    A primeira é de dor e revolta, pelas vidas perdidas por causa dos desastres, mas é bastante comum ouvir também que esses eventos extremos são por causa das mudanças climáticas.

    Mas dá para dizer isso? Ou são as mesmas tempestades de verão de sempre?

    Forte chuva que caiu em Petrópolis causou destruição e dezenas de mortes – Eduardo Anizelli/ Folhapress

    A resposta está no meio do caminho, segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.

    Isso porque, sim, nessa época do ano, costumam ocorrer chuvas muito fortes.

    Mas, ao mesmo tempo, a frequência e intensidade dos eventos climáticos extremos está aumentando, de acordo com os dados científicos disponíveis.

    A meteorologista Josélia Pegorim, da Climatempo, explica que essas tempestades são um resultado de um fenômeno climático conhecido como zona de convergência do Atlântico Sul.

    Essas zonas se formam quando a umidade trazida pelos ventos da Amazônia se encontra com uma frente fria que vem do sul.

    Isso faz com que as nuvens carregadas fiquem concentradas em uma região até desaguarem em temporais.

    “Praticamente todos os anos a gente observa a formação dessas zonas de convergência, com maior ou menor intensidade. Não é nenhuma novidade, não dá pra dizer que é um fenômeno novo que as mudanças climáticas estão provocando”, diz Pegorim.

    COMBINAÇÃO

    A meteorologista faz uma ressalva, no entanto: as zonas de convergência explicam os temporais em Minas, São Paulo e Bahia, mas, no caso de Petrópolis, tratou-se de um evento diferente e excepcional.

    “Os outros eventos de chuvas fortes que teve foram chuvas que foram se acumulando em alguns dias, houve vários episódios de chuva intensa. Foram vários eventos de zonas de convergência atuando na mesma região ao longo de semanas. Em Petrópolis, choveu em três horas mais do que a média histórica do mês inteiro”, diz Pegorim.

    Moradores, bombeiros e agentes da Defesa Civil trabalham na busca por sobreviventes no morro da Oficina, em Petrópolis
    Moradores, bombeiros e agentes da Defesa Civil trabalham na busca por sobreviventes no morro da Oficina, em Petrópolis Eduardo Anizelli/FolhapressMAIS

    A meteorologista diz que houve na cidade fluminense uma “combinação perfeita” de fatores climáticos.

    O ar já estava úmido por causa de uma frente fria que tinha passado. Ventos vindos do oceano trouxeram ainda mais umidade. E o encontro desse ar mais frio com uma massa de ar quente na região serrana favoreceu a formação de nuvens.

    Para completar, o relevo montanhoso fez com que os ventos úmidos subissem as encostas das serras e deixassem as nuvens ainda mais carregadas.

    Estael Sias, meteorologista da Metsul, concorda que a chuva que atingiu Petrópolis foi incomum por causa da sua intensidade em uma área tão concentrada, mas diz que isso não chega a ser surpreendente.

    Sias explica que o encontro entre massas de ar frio e quente costuma ser o gatilho de formação de nuvens com potencial “explosivo”.

    O relevo dessa área do Rio também contribui para que ocorram chuvas fortes.

    “Não precisa ir muito longe, nas últimas décadas, a região serrana teve temporais, deslizamentos e mortes”, recorda a meteorologista.

    Ela cita especialmente as chuvas de janeiro de 2011, que deixaram mais de 900 mortos em Petrópolis, Nova Friburgo e Teresópolis.

    Mas Sias avalia que a ocorrência de uma sequência de chuvas tão intensas em tão pouco tempo, junto com outros eventos climáticos extremos, é um sinal das mudanças climáticas.

    “Houve tempestades de areia no ano passado, calor muito forte no sul do país neste ano, cheia no Tocantins, secas intensas. Quando a gente olha tudo isso junto pode considerar um indicativo”, diz Sias.

    O climatologista Carlos Nobre diz ser raro que as mudanças climáticas provoquem eventos nunca vistos antes.

    O mais comum é ver fenômenos extremos como esses cada vez mais intensos e frequentes.

    “Basta olhar os relatórios científicos e ver que a frequência das ondas de calor é de três a quatro vezes maior do que há 150 anos, as chuvas intensas que causam desastres ficaram mais frequentes, os incêndios florestais e as secas, batemos recordes de temperatura. tudo isso está acontecendo por causa do aquecimento global”, diz Nobre.

    TRAGÉDIA EM PETRÓPOLIS

    Chuvas deixam dezenas de mortos e centenas de desabrigados

    O cientista avalia que o que causa a tragédia não é exatamente a ocorrência das tempestades, mas o fato de muita gente morar em áreas de risco e continuarem a viver ali mesmo depois de tragédias como a de 2011, por exemplo.

    Hoje, diz Nobre, 5 milhões de brasileiros vivem em áreas de risco. “Isso não é nada trivial”, afirma o climatologista.

    “O que a gente vê hoje acontece em meio a um aumento de pouco mais de 1 grau na temperatura do planeta e, mesmo que a gente tenha muito sucesso com as políticas ambientais, ainda vai subir mais, então, a gente precisa colocar em prática políticas para sermos mais resilientes a esses desastres naturais, e a melhor delas é não deixar as pessoas habitarem áreas de risco.”

    Questões

    1) No texto é possível identificar os três tipos de chuvas da natureza? Caracterize-as!!!

    Prof Luciano Mannarino

  • ‘Rio voador’, o fenômeno que ajuda a explicar as tempestades de verão no Brasil

    ‘Rio voador’, o fenômeno que ajuda a explicar as tempestades de verão no Brasil

    Encontro entre corredor de umidade, que flui de norte para sul do país, e frentes frias causa chuvas fortes nesta época do ano

    1º.fev.2022 às 8h46

    Rafael BarifouseBBC NEWS BRASIL

    As tempestades que vêm causando uma sequência de tragédias no Brasil desde o final do ano passado têm em comum um mesmo fenômeno.

    Assim como a água corre em terra, também há fluxos massivos de água nos céus.

    Na América do Sul, um desses enormes corredores de umidade atmosférica vai da região amazônica até o centro-sul do país.

    Imagem aérea mostra casas parcialmente destruídas por deslizamento de terra
    Tempestades provocaram deslizamentos e mortes em São Paulo – Reuters

    Esse “rio voador” carrega parte da água que evapora no norte para outras partes do território nacional.

    “É uma região muito úmida e tropical, onde tem um aquecimento constante. A Floresta Amazônica por si só já despeja uma quantidade enorme de água na atmosfera pela evaporação”, explica Estael Sias, da Metsul Meteorologia.

    “O relevo da América do Sul, a cordilheira dos Andes, não deixa essa umidade escapar do continente, obrigando esse rio voador a descer.”

    Se esse corredor de umidade se encontra com uma frente fria vinda do sul, as nuvens carregadas tendem a ficar concentradas por alguns dias em uma determinada região.

    Ilustração do mapa do Brasil mostra imagem de satélite indicando com setaas a Zona de Convergência do Atlântico Sul
    ‘Rio voador’ leva umidade da Amazônia até o sul do país – MetSul Meteorologia

    Um fenômeno potencializa o outro, formando um terceiro —a chamada zona de convergência do Atlântico Sul, que é recorrente durante o verão nesta região do planeta e provoca fortes chuvas.

    Foi o que aconteceu primeiro no sul da Bahia, no final do ano passado e, depois, em Minas Gerais, no início do mês.

    Agora, foi a vez das chuvas torrenciais atingirem São Paulo, provocando mais inundações, deslizamentos e mortes.

    Sias explica que o rio voador da América do Sul corre a uma altitude entre 5 a 10 km do solo e fica ativo durante o ano todo.

    Seu curso e alcance são influenciados pela dinâmica dos ventos na região e pela passagem de outros fenômenos pelo continente.

    “No inverno, um sistema de alta pressão atmosférica não deixa a maioria das frentes frias subirem até o Sudeste ou o Centro-Oeste, por isso é um período muito seco nessa parte do país, e o rio atmosférico consegue ir até mais ao sul”, afirma a especialista.

    “No verão, esse bloqueio vai para o oceano, se afastando do continente, e as frentes frias conseguem subir. Quando sobe uma frente fria, ela se conecta à umidade amazônica, e elas vão andando juntas até parar em cima do Sudeste ou do Nordeste do Brasil e se transformar em chuvas e temporais.”

    Ilustração do mapa do Brasil mostra imagem de sátelite
    Encontro de ‘rio voador’ com frente fria cria zona de convergência na região do Atlântico Sul – Climatempo

    Sias afirma que, na semana passada, o rio voador estava mais disperso, mas que, nesta semana, uma massa de ar frio e seco chegou ao sul do país e criou uma barreira que não deixou o corredor de umidade avançar.

    As nuvens ficaram então paradas sobre a região metropolitana de São Paulo e foram potencializadas pela frente fria, provocando fortes chuvas.

    O resultado foi que choveu em poucos dias a média histórica para o mês inteiro, e isso foi fatal em uma região que já vinha sofrendo com tempestades.

    FENÔMENO É CARACTERÍSTICO DO VERÃO

    No entanto, apesar de muita gente pensar que chuvas assim são excepcionais, Francisco de Assis, do Instituto Nacional de Meteorologia, explica que as zonas de convergência são algo característico da América do Sul no verão.

    “Dependendo do ano, ocorrem mais para o sul ou mais para o norte”, afirma Assis.

    Nesta época do ano, o corredor de umidade que vem da Amazônia ganha força. “Há uma alta liberação de calor e umidade da Amazônia devido às temperaturas elevadas,”, afirma Assis.

    Também há uma maior evaporação de água dos oceanos Pacífico e Atlântico, intensificando esses fenômenos meteorológicos, explica o especialista.

    Josélia Pegorim, meteorologista da Climatempo, reforça que as zonas de convergência acontecem todos os anos, com maior ou menor intensidade.

    “Se pegarmos outros eventos de desastres naturais e de chuvas catastróficas, no Sudeste em particular, quase todos, ou a maior parte, estiveram associados à formação de zonas de convergência”, diz Pegorim.

    Imagem mostra um carro no meio de uma rua alagada
    Em poucos dias, choveu a média de janeiro inteiro na região metropolitana de SP – Reuters

    A especialista avalia que as tragédias ocorrem não pela intensidade das chuvas ou porque elas sejam imprevisíveis —na verdade, foi o contrário, dizem os meteorologistas ouvidos pela reportagem, e alertas foram emitidos com antecedência.

    O problema é a falta de preparo e de reação das autoridades aos avisos.

    “A culpa é da chuva até certo ponto. Não se pode dizer que é por causa das mudanças climáticas ou que nunca choveu assim, porque já teve chuvas até piores. Não teve surpresa”, diz Pegorim.

    Ao mesmo tempo, afirma a meteorologista, a canalização do ar úmido da região Norte em direção ao Centro-Oeste e ao Sudeste e a formação das zonas de convergência no encontro com frentes frias, formando tempestades, tem uma função importante.

    “Esse sistema é fundamental para que consigamos recompor as reservas de água para os reservatórios de geração de energia e de abastecimento da população.”

    https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2022/02/rio-voador-o-fenomeno-que-ajuda-a-explicar-as-tempestades-de-verao-no-brasil.shtml

    Prof Luciano Mannarino

    Questões

    1 De que forma o aumento da devastação da floresta amazônica pode modificar a quantidade de chuvas no verão das regiões Centro Oeste e Sudeste?

    2 Explique as características do Clima Equatorial a partir de seu Climograma.

    3 Por que eventos de chuvas intensas atingem mais as populações de baixa renda nas grandes metrópoles da região sudeste? Quais intervenções que o poder público poderia fazer para diminuir os danos dessas chuvas sobre essas populações?

    4 Como o “La Nina” altera o comportamento das massas de ar que atuam no Brasil?

    Rios voadores (atividade)

    CLIMAS DO MUNDO – CLIMA EQUATORIAL

    ‘Fine Waters’ (avaliação)

  • Em MS, ‘brasiguaios’ dominam o maior assentamento de sem-terra do país.

    Em MS, ‘brasiguaios’ dominam o maior assentamento de sem-terra do país.

    Rodrigo Bertolotto

    Do TAB, em Ponta Porã (MS)

    18/01/2022 04h01

    Sempre com belas jovens a tiracolo, Olacyr de Moraes descia do jatinho em Ponta Porã (MS) para vistoriar sua fazenda de 500 km², maior que o território de 17 países reconhecidos pela ONU. A pista particular de aterrissagem do chamado “rei da soja”, maior produtor individual do grão no mundo no final do século 20, é usada agora para secar o milho produzido no maior assentamento sem-terra do país.

    Após a derrocada empresarial de Moraes, a terra foi desapropriada e distribuída a mais de 3.000 famílias, a partir de 2003. O atual distrito de Nova Itamarati quer virar município e possui 17 mil habitantes atraídos por esse simbólico exemplo de reforma agrária no Brasil. O revelador é que 80% deles é de “brasiguaios”, população que migrou para o país vizinho e voltou nos últimos anos.

    O paranaense Djones Ambrust, conhecido como Tigrinho, viveu no Paraguai até os 18 anos. Justo acontecia a Copa do Mundo de 1998 quando ele atravessou a fronteira para se juntar a um acampamento de sem-terra em Naviraí (MS). “Minha família plantava na terra dos outros, e o dinheiro só dava pra pagar as contas. E ainda tinha que conviver com a perseguição e preconceito dos paraguaios. Por isso, vim embora”, conta

    Meses depois, ele se mudou para uma barraca feita de paus e lonas, como tantas outras, em uma fazenda ocupada em Itaquiraí (MS), à beira da BR-163. “Era numa ribanceira, as carretas passavam aceleradas, e o vento rasgava a lona. A gente acordava com o sereno da noite caindo na gente.” Atualmente, tem casa e lote no assentamento Itamarati.

    Em 2000, seus familiares que ficaram na colônia de brasileiros em Canindeyú (Paraguai) avisaram que um grande proprietário estava precisando de gente para a colheita, e Tigrinho atravessou a fronteira de volta — para sua tristeza. “Não gosto nem de lembrar. Era como se tivessem arrasado toda minha infância: eles derrubaram a casa, o pomar e a escola para fazer plantação. O lugar onde eu cresci foi todo empurrado e virou entulho no meio do mato.” Assim como a paisagem, a própria história dessa gente está sendo apagada.

    brasiguaios - José Medeiros/UOL - José Medeiros/UOL
    O paranaense Djones Ambrust, 41, saiu do Paraguai com 18 anos e hoje planta soja orgânica no maior assentamento sem-terra do Brasil.

    Quando as marchas se encontram

    A divisa entre os dois países ganhou o desenho atual há exatos 150 anos. Após dois anos do fim da Guerra do Paraguai (1864-1870), era assinado o tratado bilateral Loizaga-Cotegipe, que estabeleceu os limites entre as nações. Os vencedores ficaram com territórios que antes eram reivindicados pelos derrotados, e começou o avanço de empresas e populações brasileiras que nem sempre obedeceram aos marcos fronteiriços.

    O primeiro mega empreendimento da região foi a extração da erva-mate nativa dos dois países pela Companhia Matte Larangeira, propriedade de Thomaz Larangeira, empresário que fornecera insumos para as tropas imperiais. Com sucessivas concessões e explorando mão de obra indígena, a empresa vendeu chimarrão para os argentinos até os anos 1940.

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    Grupo de agricultores brasiguaios presente em reunião no assentamento Itamarati, em Ponta Porã (MS).

    Foi quando começou a “Marcha para o Oeste”, promovida pelo Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945). Arregimentou-se levas de sulistas para as áreas de fronteira, com desmatamento e lavoura. A partir da década de 1960, o avanço passou a alfândega: o ditador paraguaio Alfredo Stroessner fomentou por seu lado a “Marcha ao Leste”, incentivando a migração de agricultores vizinhos habituados à mecanização.

    Resultado: na década de 1980, 10% dos habitantes do Paraguai eram brasileiros e descendentes — hoje, a porcentagem é 3% (240 mil). Uma das razões dessa diminuição foram os conflitos agrários. Nessa briga, os mais desprotegidos são os pequenos lavradores e empregados rurais brasileiros. O agronegócio verde-amarelo, que chega a ser dono de mais de 50% das terras em áreas fronteiriças, segundo censos econômicos paraguaios, tem conexões políticas na capital, Assunção, e se protege bem mais dos vários movimentos campesinos.

    Brazilians, go home

    “Direto eu ouvia: ‘volta pro seu país’. Isso é também um resquício da guerra. Estudei na escola de lá, e, quando ensinam História, havia muito ódio aos brasileiros”, relembra Jacob Bamberg, 48. Ele nasceu em Cascavel (PR) e morou dos 11 aos 38 anos no país vizinho. Um grileiro brasileiro enganou seu pai, que comprou um terreno sem título oficial paraguaio — e a família acabou ganhando a vida como funcionários de outros conterrâneos.

    Bamberg foi tratorista, churrasqueiro e garçom e nunca teve terra própria no Paraguai. Ouvia falar das ocupações de latifúndios improdutivos no Brasil, mas não se arriscava a voltar. “Muita gente me convidou, mas se falava muito mal dos sem-terra, e eu não queria morar em acampamento. Acabei vindo por pura necessidade”, conta ele, que é uma das lideranças atuais do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) no assentamento Itamarati.

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    O agricultor brasiguaio Jacob Bamberg toma tereré em pausa do trabalho em seu lote no assentamento Itamarati, o maior do Brasil..

    Nessa condição, voltou ao Paraguai para verificar as ameaças que camponeses paraguaios faziam a carvoeiros brasileiros, confundidos com jagunços de grandes proprietários. “Eles não tinham nem uma espingarda velha para caçar passarinho e não sabiam do perigo que corriam. Quando contei para eles, choraram de tanto medo”, relata.

    Segundo Bamberg, o campesinato paraguaio é muito dividido. “Há muitos grupos pequenos que se voltam contra os colonos brasileiros porque é mais fácil, é o vizinho tão pobre quanto eles. Outros radicalizam e querem expulsar todos os estrangeiros. E ainda tem os que vão para as guerrilhas”, analisa. O país conta com os únicos grupos guerrilheiros em atividade da América do Sul, como o EPP (Ejército del Pueblo Paraguayo) e EML (Ejército del Mariscal López), com incursões em propriedades de brasileiros por lá.

    Guerrilheiros na fazenda

    “Eles queimaram o maquinário, os tratores e os galpões. Enquanto a situação for essa, não vou mais investir ali.” Assim o empresário gaúcho Iracy Antoniolli descreve a ação em 2018 do EPP, grupo armado de no máximo 80 integrantes, que entrou e destruiu sua fazenda no Departamento de Concepción, centro-norte do Paraguai.

    Antoniolli, 81, é uma exceção entre os brasiguaios: fez fortuna extraindo peroba nas matas vizinhas e hoje tem gado, madeireiras e plantações nos dois países. A ideia inicial era trocar a vidinha na serra gaúcha pelas oportunidades em Sinop (MT), mas sua mulher, quando percebeu que iria morar no meio da floresta, decidiu que não dariam mais nem um passo na direção norte. “A gente estava em Campo Grande, e pra distraí-la, disse para ir até a fronteira. Quando nos hospedamos no hotel de Ponta Porã, choveu corretor oferecendo terra no Paraguai”, recorda-se. Formado em contabilidade, fez os cálculos e viu que podia ficar milionário com o negócio.

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    O empresário brasiguaio Iracy Antoniolli posa em seu escritório em Pedro Juan Caballero com chimarrão e bandeira paraguaia.

    Voltou para Nova Prata (RS), vendeu os três carros que tinha e pediu um empréstimo no banco. Foi ao país vizinho, comprou “um perobal maravilhoso”, botou abaixo e vendeu tudo para empreiteiras paulistanas, afinal, as perobas estavam cada vez mais escassas em território nacional. “Não tinha um balde de asfalto nas estradas do Paraguai, era ruim trazer as toras pro Brasil, mas o Stroessner dava muito incentivo fiscal e financiamento para quem colocava dinheiro no país”, afirma. Hoje, Antoniolli tem 35 funcionários no Paraguai e 50 no Brasil. Mora em Ponta Porã, mas seu escritório é em Pedro Juan Caballero, aproveitando a conurbação binacional. Ele é da direção tanto do CTG (Centro do de Tradições Gaúchas) do lado brasileiro quanto da Asociación Rural do Departamento de Amambay, do lado paraguaio.

    Ponte sem amizade

    O casal Rosane e Ivanildo Silva também tiveram sua terra no Departamento de Caaguazú invadidas. Pior: tomada por pessoas que eles consideravam amigos. “Um deles tinha sido meu colega de escola. Outro ajudava meu marido no trator e tomava tereré com a gente. No dia que íamos construir o casebre no terreno, eles barraram a gente na estrada com facões, machadinhas e galões de gasolina”, conta Rosane, que perdeu um dente e ficou com a boca inchada por tentar argumentar com o grupo, que era uma milícia rural e não tinha ligação com os chamados carperos da Via Campesina, maior agrupação paraguaia de sem-terra.

    Depois de três décadas de Paraguai, três filhos para cuidar e com todas as economias investidas no sítio ocupado, o casal decidiu se juntar ao movimento sem-terra em Mato Grosso do Sul.

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    Braz Correia, 46, viveu metade da vida no Paraguai, mas agora cuida de seu rebanho e é motorista escolar no assentamento Itamarati (MS)

    Os brasiguaios são os únicos da diáspora brasileira com perfil rural. Além da vegetação e do solo similar ao Brasil, a concentração de terras no Paraguai é parecida também, e isso determinou as perambulações dessa população da região Sul para o Paraguai e depois em direção ao Centro-Oeste nas últimas décadas.

    O que tomaram de Rosane e Ivanildo no Paraguai eles tentam reconstruir do lado brasileiro, cuidando de seu lote familiar e ajudando nas terras coletivas do assentamento Itamarati. “É como diz o ditado: o bom filho à casa torna”, resume Rosane.

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    O paranaense Altair Schlickmann viveu 31 anos no Paraguai, onde nasceu seu filho, mas hoje é assentado da reforma agrária em Ponta Porã (MS)

    https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2022/01/18/brasiguaios-dominam-o-maior-assentamento-de-sem-terra-do-pais.htm

    1) O que são “grilheiros” de terra?

    2) O que foi a “Marcha para o Oeste” brasileira e como ela se relaciona com um importante fluxo de migrantes no Brasil?

    3) O texto fala de “conurbação binacional”. O que significa essa expressão?

    4) Estabeleça semelhanças entre o MST e os “carperos” paraguaios.

    5) O que foi o Acordo Loizaga-Cotegipe e de que forma ele se relaciona com tensões entre brasileiros e paraguaios?

    6) O que são “brasiguaios”?

    Questão Agrária/Agrícola

    Brasil foca em soja e milho para exportação, e arroz e feijão perdem espaço…

    Menos floresta, mais agropecuária

    Prof Luciano Mannarino