Categoria: Brasil

  • Atafona, distrito do RJ que vem sendo engolido pelo mar, serve de alerta para erosão costeira

    Atafona, distrito do RJ que vem sendo engolido pelo mar, serve de alerta para erosão costeira

    13.nov.2021 às 23h15

    Ana Luiza Albuquerque Nicollas Witzel

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    Restos de uma casa na beira da praia em Atafona; nos períodos mais críticos, o mar chegou a avançar nove metros por ano Nicollas Witzel/Folhapress

    ATAFONA (RJ)

    Se os escafandristas imaginados por Chico Buarque explorassem o mar de Atafona, lá encontrariam fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos e vestígios de uma civilização que, em parte, deixou de existir. Assim como a cidade submersa narrada na música “Futuros Amantes”, o distrito de São João da Barra, no Norte Fluminense, e suas memórias têm sido engolidos pela água.

    Desde a década de 1960, o avanço do mar já causou a destruição de mais de 500 casas, desabrigando centenas de famílias. Dezenas de quarteirões foram para o fundo do oceano.

    Apegados a Atafona, muitos moradores já trocaram de residência algumas vezes para fugir do mar, sem nunca deixar a pequena comunidade. Para eles, as perdas afetivas são mais dolorosas do que as materiais: há lugares que marcaram suas vidas para os quais nunca poderão voltar.

    Distrito de Atafona, em São João da Barra, município do Norte Fluminense, sofre com a erosão costeira há 60 anos – Arquivo Pessoal/Eduardo Bulhões

    A erosão costeira é explicada por uma série de motivos, mas o principal é o assoreamento do rio Paraíba do Sul, que tem seu delta (tipo de foz em que o rio desemboca no mar por meio de vários canais) em Atafona.

    Com cerca de 7.000 habitantes, o distrito é uma espécie de laboratório das consequências da intervenção humana em um ecossistema. Isso porque o assoreamento do rio foi causado especialmente por desvios de água para abastecimento doméstico, industrial e agrícola em São Paulo e no Rio de Janeiro.

    Com menor volume, o Paraíba do Sul não consegue fazer frente ao mar e transportar sedimentos em quantidade suficiente para barrar o avanço das águas em Atafona. Também contribuem para o processo condições naturais, como a dinâmica das correntes marítimas e os fortes ventos na localidade.

    Atafona é apenas uma entre tantas regiões litorâneas que sofrem com a erosão costeira em todo o mundo. Diante das mudanças climáticas e do aumento no nível dos oceanos, o cenário pode piorar nas próximas décadas.

    O geógrafo Eduardo Bulhões, professor na UFF (Universidade Federal Fluminense), lembra que uma pesquisa identificou que somente 4% de todas as regiões litorâneas no mundo erodem em taxas superiores a cinco metros por ano. Atafona é um desses lugares. Nas áreas mais críticas, o mar avança cerca de seis metros por ano. Em alguns períodos, o avanço chegou a nove metros.

    “A erosão só se torna um problema quando há uma cidade instalada. Nesse contexto, Atafona talvez seja o principal ponto do país”, diz.

    O severo processo de erosão que ali ocorre contrasta com a tranquilidade do local, onde a vida se desenrola em um ritmo mais devagar, não se veem edifícios e não se ouvem buzinas. É comum que os moradores se conheçam. Foi assim que a reportagem chegou à casa da aposentada Sonia Ferreira, 77, uma referência na comunidade.

    Acostumados a passar verões em Atafona, Sonia e sua família compraram uma casa ali no fim da década de 1970. À época, alguns quarteirões separavam a construção da praia. Hoje, a residência está de frente para o mar.

    Pilares de antiga construção enterrados na areia da praia de Atafona, distrito do município de São João da Barra, localizado no Norte Fluminense
    Pilares de antiga construção enterrados na areia da praia de Atafona, distrito do município de São João da Barra, localizado no Norte Flumin Nicollas Witzel/Nicollas Witzel/Folhapress

    Em frente à casa de Sonia estão as ruínas do conhecido prédio do Julinho, o único que havia na região, derrubado pelas ondas em 2008. “Foi um impacto muito grande. A gente sempre tem aquela esperança de que não vai chegar na nossa casa”, diz.

    Quando o mar destruiu seu muro, em 2019, Sonia aceitou que precisava se mudar. A aposentada decidiu ir para uma pequena casa nos fundos do terreno e, aos poucos, vem retirando seus pertences.

    “Atafona era um lugar de férias, passeio, alegria. Perder isso é difícil. Você tem seus cantinhos na casa que te remetem a pessoas queridas. Esses cantinhos ficam perdidos na sua história.”

    O prédio do Julinho também é citado como uma das melhores memórias da empresária Camila Hissa, 31, filha dos fundadores do restaurante Ricardinho, o mais famoso em Atafona. “Era um lugar icônico, tinha o barzinho que vendia uma empada deliciosa com um cheiro peculiar. É o resumo da infância”, diz.​

    Seus pais fundaram o restaurante em 1978 e tiveram que mudá-lo de lugar três vezes para fugir do avanço do mar. “Quem é daqui aprendeu a conviver. Não é uma coisa que você se revolta e larga tudo, vai embora.”

    Camila relata que os restaurantes e pescadores foram muito impactados pelas dificuldades de navegação com o assoreamento do rio. Há cerca de três anos houve um período tão crítico que os barcos não conseguiam desembarcar o peixe em Atafona.

    O pescador Valcinei Bento, 52, lembra que nessa época os barcos só trabalhavam com a maré cheia. “Foi um inferno. A gente chegava na beira dos frigoríficos e era uma zona fantasma”, afirma.

    Apesar das perdas financeiras, Camila diz que as perdas emocionais são as piores. “Aquela história foi simplesmente apagada. Era uma época na qual a fotografia era muito cara. As fotos são raras”, afirma.

    No início do ano, um projeto interativo conhecido como Museu Ambulante levou para as ruas uma enorme bicicleta com fotografias antigas de Atafona. O acervo e a iniciativa foram desenvolvidos pela residência artística CasaDuna, fundada pela filósofa Julia Naidin e pelo artista plástico Fernando Codeço.

    Codeço diz que a reação da comunidade foi impressionante e que muitos moradores se identificaram nas fotos, quando ainda eram crianças. “As pessoas imediatamente se emocionavam, queriam contar histórias”, diz.

    Ele afirma que a CasaDuna quer contribuir para a produção de memória local e também discutir sobre a forma predatória com a qual lidamos com o meio ambiente. “Falar de Atafona é falar desse Brasil que está ruindo e de um processo civilizatório que precisa mudar.”

    Algumas das fotos que mais chamaram a atenção foram as da Ilha da Convivência, primeiro lugar atingido pelo avanço do mar. Ao longo de décadas, as famílias de pescadores que lá viviam foram obrigadas a deixar o local, onde hoje ninguém vive.

    Avanço do mar em Atafona, distrito de São João da Barra (RJ), já destruiu 500 casas e desabrigou centenas de famílias
    Avanço do mar em Atafona, distrito de São João da Barra (RJ), já destruiu 500 casas e desabrigou centenas de famílias Gilberto Pessanha/Arquivo pessoa

    Uma das últimas a abandonar a ilha, em setembro de 2008, Jamira Pedra Gomes, 58, resistiu por décadas, mesmo após perder duas casas. Ela lembra que no dia de sua saída acordou de madrugada com o mar batendo nas paredes. “Eu falei ‘me ajuda, Deus’. Espera esfriar minhas pernas, que não vou botar minhas pernas quentes do cobertor nessa água fria”, diz.

    Da 1h às 8h, Jamira carregou sozinha todos os seus pertences. No dia seguinte, as paredes caíram. Sua irmã, Janira Pedra Monteiro, 60, se mudou da ilha anos antes. Quando o mar entrou em sua casa, ela deixou que tudo fosse levado. “A gente fica cansada. O mar tinha tomado quatro casas minhas”, afirma.

    Décadas após a mudança, as irmãs voltaram de barco à ilha acompanhadas pela reportagem. Janira diz que sente falta de andar de canoa, pescar manjuba, pegar caranguejo e fazer redes de pesca. “Eu penso [na ilha], eu quase nem durmo de noite. Essa noite pensei tanto naquele lugar, nas pessoas que se foram.”

    Jamira se emociona ainda mais —chegando na ilha, chorou e apontou para o lugar onde foi dona de um bar. “Eu queria envelhecer lá. Eu gosto tanto que dá vontade de ficar”, diz.

    Ela conta que a saudade se transformou em uma depressão. “Eu vivo do trabalho. Gosto de estar andando com as pessoas, conversando, para me distrair.”

    Os distúrbios psíquicos são citados pelo psicólogo Leandro Viana como uma das consequências do processo erosivo na vida dos moradores.

    Finalizando uma tese de doutorado pela Uenf (Universidade Estadual do Norte Fluminense) sobre Atafona, ele afirma que muitos relatam sentir angústia e ansiedade por estarem sempre em alerta para o movimento do mar. Também causa sofrimento a espera por uma solução.

    “Os pescadores falam muito da Ilha da Convivência, um lugar de muita troca e solidariedade. Ao perder esse lugar, perdeu-se isso também”, diz.

    Nos últimos seis anos, foram realizadas audiências para tratar do tema com a sociedade civil, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública. Três soluções foram apresentadas, mas nenhuma saiu do papel.

    A resolução esbarra em ao menos três pontos: a falta de articulação entre os poderes municipal, estadual e federal, o custo das obras e a insegurança a respeito de seus efeitos ambientais. Em primeiro lugar, é preciso obter uma licença com o Inea (Instituto Estadual do Ambiente).

    “União, estados e municípios têm responsabilidade de zelar pelo ecossistema da praia. Como as responsabilidades e o interesse são difusos, ninguém se sente na obrigação de resolver. Por outro lado, qualquer obra de aumento da faixa de praia leva tempo”, afirma o geógrafo Eduardo Bulhões, autor de um dos projetos.

    A proposta de Bulhões envolve o engordamento artificial da praia para inverter o déficit de areia. Ele avalia que qualquer solução que se proponha como definitiva, com o uso de estruturas rígidas como os espigões, é enganosa.

    “Em todos os lugares onde se criaram proteções com estruturas foram gerados problemas adicionais, e todas as obras têm tempo de vida útil”, diz.

    O geógrafo afirma que uma das opções que podem ser adotadas é a de não fazer nada, mas que mesmo assim precisa haver um planejamento e informação da população. “Acho que em Atafona houve essa opção, de vários governos, e isso não é comunicado de forma eficiente.”

    O professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Gilberto Pessanha, que estuda o caso de Atafona há 20 anos, afirma que mesmo o engordamento artificial requer monitoramento das ondas e dos ventos. Isso envolve tecnologia, pessoal e mais recursos.

    “Existe uma dúvida porque há locais onde houve iniciativa de engordamento de praia e o processo erosivo voltou”, diz.

    Secretária de Meio Ambiente de São João da Barra, Marcela Toledo afirma que o impacto das obras ainda não foi amplamente estudado. Ela diz que o Inea indicou, em 2020, que nenhum dos projetos tem eficácia comprovada. De fato, o órgão citou questões a serem trabalhadas, mas nenhum deles foi avaliado negativamente.

    Em setembro deste ano, foi criada uma Câmara Técnica com a Prefeitura e entidades da sociedade para continuar discutindo a situação e pensar em possíveis soluções. Toledo defende, também, que as ações precisam passar pela União, que, de acordo com a Constituição Federal, é dona das praias.

    Em nota enviada à Folha, a Secretaria de Coordenação e Governança do Patrimônio da União afirma que os encaminhamentos necessários competem à administração municipal. O governo federal argumenta que o Estatuto das Cidades deu aos municípios a capacidade jurídica de gestão das superfícies das cidades.

    https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2021/11/atafona-distrito-do-rj-que-vem-sendo-engolido-pelo-mar-serve-de-alerta-para-erosao-costeira.shtm

    Avaliação

    Erosão Costeira e Suas Causas (4 pontos)
    a) O texto menciona que a erosão costeira em Atafona é causada principalmente pelo assoreamento do rio Paraíba do Sul. Explique como a intervenção humana contribuiu para o assoreamento e, consequentemente, para a erosão costeira. (2 pontos)


    b) Quais são as condições naturais que também contribuem para o processo de erosão em Atafona? Explique como essas condições se combinam com os fatores antrópicos para agravar a situação. (2 pontos)

    Impactos Ambientais e Sociais (3 pontos)
    a) Discuta os impactos sociais da erosão costeira em Atafona, considerando as perdas emocionais e materiais dos moradores, conforme descrito no texto. Como esses impactos estão diretamente ligados às mudanças ambientais na região? (1,5 pontos)


    b) O texto menciona o avanço do mar em Atafona e sua relação com as mudanças climáticas. Como o aumento no nível dos oceanos, associado às mudanças climáticas, pode afetar outras regiões costeiras no Brasil e no mundo? (1,5 pontos)

    Soluções e Desafios Ambientais (3 pontos)
    a) O geógrafo Eduardo Bulhões propõe o “engordamento artificial da praia” como uma possível solução para a erosão em Atafona. Quais são os potenciais benefícios e riscos dessa solução do ponto de vista ambiental? (2 pontos)


    b) O texto aponta a falta de articulação entre os poderes municipal, estadual e federal como um obstáculo para resolver o problema da erosão em Atafona. Como uma gestão ambiental integrada poderia ajudar a enfrentar os desafios ecológicos e sociais nessa e em outras regiões afetadas por problemas semelhantes? (1 ponto)

    Prof Luciano Mannarino

  • Terremoto atinge Peru e moradores do Acre e de Rondônia sentem tremor

    Terremoto atinge Peru e moradores do Acre e de Rondônia sentem tremor

    Vibração registrada foi de magnitude 5,7 e ocorreu próxima da superfície; apesar do susto, não há registros de acidentes

    Por iG Último Segundo

    Atualizada às 10/10/2021 08:08

    Terremoto atinge Peru e moradores de cidades brasileiras sentem tremor
    ReproduçãoTerremoto atinge Peru e moradores de cidades brasileiras sentem tremor

    O oeste do Peru foi atingido por um  terremoto de magnitude 5,7 durante a noite do último sábado (09). Registrado próximo da fronteira peruana com a brasileira e a boliviana, as oscilações terrestres foram sentidas em cidades do Acre e de Rondônia. Apesar do susto, não há registros de acidentes. As informações são do portal G1.

    Segundo serviço de monitoramento do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, em inglês) – portal que observa as atividades sísmicas pelo mundo -, o tremor teve seu epicentro em uma profundidade de 13,5 quilômetros. A distância é considerada muito pequena da superfície e o suficiente para causar grandes danos.

    No Acre, sete municípios sentiram os tremores de terra. Em Rio Branco, a Arena da Floresta – utilizada para a disputa da final do Campeonato Acreano entre Rio Branco e Humaitá – informaram que o abalo foi sentido pouco antes do fim da partida.

    Silas Nascimento, de 33 anos, motorista que mora na capital acreana, relata que sentiu algo diferente enquanto assistia televisão em sua casa. “Estávamos no sofá vendo TV e eu senti uma pequena tontura. Minha esposa falou que tinha sentido um balanço aí depois de alguns segundos nos demos conta do que aconteceu, que foi um tremor de terras. Fiquei preocupado, pois estou fazendo uma obra em casa e fiquei com medo de ter abalado a obra, mas foi um tremor bem fraco e não aconteceu nada”.

    https://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2021-10-10/terremoto-peru-cidades-brasileiras-tremor.html

    Questões

    1 Explique os motivos para instabilidade tectônica no território peruano.

    2 Aponte fatores que contribuem para elevados número de vítimas e danos materiais causados por um terremoto.

    3 Como o Serviço Geológico dos Estados Unidos faz observações sobre abalos sísmicos ao longo da superfície terrestre do planeta?

    4 Por que o território brasileiro não é submetido a abalos sísmicos de grandes intensidades?

    5 Por que moradores do Acre e Rondônia sentiram pequenos tremores desse evento?

    NATURE: Sismômetros domésticos fornecem dados cruciais sobre o terremoto do Haiti

    Namazu e os terremotos. (Atividade)

  • Com secas e degradação, Caatinga perdeu 40% de água original em 35 anos (EF07GE11)

    Com secas e degradação, Caatinga perdeu 40% de água original em 35 anos (EF07GE11)

    EF07GE11

    Caracterizar dinâmicas dos componentes físico-naturais no território nacional,
    bem como sua distribuição e biodiversidade (Florestas Tropicais, Cerrados, Caatingas, Campos
    Sulinos e Matas de Araucária).

    Carlos Madeiro Colaboração para o UOL, em Maceió

    07/10/2021 04h00

    O avanço da degradação ambiental, somado a um período de estiagens severas, levou o bioma da Caatinga a perder 40% de sua água de origem natural entre 1985 e 2020. O dado consta no estudo “Mapeamento Anual de Cobertura e Uso da Terra na Caatinga”, do projeto MapBiomas. Ao todo, foram 79 mil hectares de superfície de água a menos nesses 35 anos, o que equivale a uma área de 96 mil campos de futebol oficiais.

    Carro-pipa capta água em rio em Santa Bárbara (BA)  - Fernando Vivas - 21.out.2016/Folhapress
    Com secas e degradação, Caatinga perdeu 40% de água original em 35 anos Carro-pipa capta água em rio em Santa Bárbara (BA) Imagem: Fernando Vivas – 21.out.2016/Folhapress

    A água natural de um bioma se constitui, especialmente, pelas bacias de rios e açudes já existentes na região. A redução de água no bioma foi compensada, em partes, pela construção de fontes artificiais, como os reservatórios de hidrelétricas. Somando todas as formas encontrada na superfície, o estudo apontou para 922 mil hectares de extensão média da água mapeada em 2020 (menos 8,27% no período de 35 anos).

    Onde está a água de superfície na Caatinga:

    Hidrelétricas – 304.994 hectares (42,7% do total)

    Reservatórios – 211.556 hectares (29,6%)

    Natural – 196.365 hectares (27,5%)

    Mineração – 1.584 hectares (0,2%)

    Caatinga é um bioma que ocupa 844 mil km² do Nordeste e do norte de Minas Gerais, cobrindo 10,1% do território brasileiro. Nele, moram 27 milhões de brasileiros em 1.210 cidades —entre elas, uma capital: Fortaleza. Segundo Washington Franca Rocha, coordenador da equipe de Caatinga do MapBiomas, a perda natural só não causou maiores estragos porque houve uma série de ações públicas recentes. “A gente verificou que, a partir de 2004, houve um investimento em construção de açudes, reservatórios, em infraestrutura hídrica para se armazenar água. Não tivemos uma crise hídrica mais grave por conta dessas ações”, afirma.

    Menos vegetação, menos água.

    A perda de água tem relação direta com a perda de cobertura vegetal. A área remanescente de vegetação nativa, entre 1985 e 2020, por exemplo, caiu 10%. Dos dez municípios que mais perderam essa vegetação natural no período, oito ficam na Bahia.

    Mapa de áreas degradas cresceu em 35 anos - Reprodução/MapBiomas - Reprodução/MapBiomas
    Mapa de áreas degradadas cresceu em 35 anos Imagem: Reprodução/MapBiomas Nesses 35 anos, foram ao menos 15 milhões de hectares de vegetação primária suprimidas

    “O que sustenta o bioma é a vegetação que retém água, não permitindo que ela, de forma acentuada, vá parar no oceano. Se você tira essa cobertura vegetal de forma acelerada, o que vai acontecer é que áreas mais expostas, sem cobertura, tendem a ficar secas”, explica.

    Isso acende um alerta a essas ameaças ao bioma. Reforça a condição de que o bioma está se tornando ainda mais seco. Tivemos uma redução contínua, não cíclica, como a gente consegue mostrar em um período de 35 anos. Algo está acontecendo na região que está se sobrepondo e causando a perda de água.Washington Franca Rocha, do MapBiomas Segundo Rodrigo Vasconcelos, da UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana) e da equipe do MapBiomas Caatinga, a queda começou a se acentuar a partir de 2009. “Hoje, uma minoria [da água superficial] é natural, o que indica a necessidade de novas —e manutenção das atuais— políticas públicas para dar sustentabilidades a estados e municípios”, afirma. O que fica claro, ao longo da série temporal, é que o bioma vem apresentando uma perda de água. Isso merece destaque quando avaliamos que essa redução ocorre em todas as bacias. Há uma forte tendência de diminuição em termos de área mapeada. Rodrigo Vasconcelos, da UEFS e do MapBiomas.

    Rio São Francisco “seca”

    Em 35 anos, o maior reservatório do Nordeste: o rio São Francisco, perdeu 30.679 hectares de superfície com água —o que corresponde a 4,16% do volume total. O pesquisador Humberto Barbosa, coordenador do Lapis (Laboratório de Processamento de Imagens de Satélite), da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), publicou um artigo –junto com outros pesquisadores, em 23 de setembro– em que aponta a degradação ambiental acelerando e causando danos na bacia.

    “Nos últimos anos, toda aquela área do São Francisco vem enfrentando degradação, com a mudança no uso e ocupação do solo, que inclui a conversão de terras para a agricultura, em detrimento da vegetação nativa. Os períodos secos são relativamente comuns no rio São Francisco, mas há uma crescente preocupação sobre a capacidade de esse rio responder a esses eventos de secas”, conta. 2019:

    Sertania - Leo Caldas/Folhapress - Leo Caldas/Folhapress
    Agricultores de Sertânia (PE) buscam água ao lado de canal seco da transposição do São Francisco Imagem: Leo Caldas/Folhapress

    Barbosa diz que isso ocorre em razão da tendência das secas se tornarem mais frequentes e extremas, devido aos efeitos da mudança climática. O semiárido brasileiro é a região do Brasil mais afetada pela mudança climática. Simulações de modelos climáticos indicam possibilidade de redução de cerca de 40% das chuvas na região ainda neste século. A região já conta com 13% do seu território em processo de desertificação. Humberto Barbosa, Lapis/Ufal Segundo ele, as grandes secas que afetaram o rio São Francisco estiveram historicamente mais concentradas na região do Baixo São Francisco (entre Alagoas e Sergipe). “Mas, de acordo com a nossa pesquisa, há sinais de condições crescentes de seca nas demais áreas da bacia, como é o caso do Alto e Médio São Francisco”, explica, lembrando que, nessas áreas, estão localizadas as usinas hidrelétricas de Três Marias (MG), Sobradinho (BA) e Luiz Gonzaga (PE), além de importantes áreas agrícolas”, revela.

    Vista de satélite da barragem de Sobradinho (BA): perdas afetam o rio São Francisco - Planet Scope/Lapis/Ufal - Planet Scope/Lapis/Ufal
    Vista de satélite da barragem de Sobradinho (BA): perdas afetam o rio São Francisco Imagem: Planet Scope/Lapis/Ufa

    Com a maior escassez de água, Barbosa ainda aponta para uma tendência de acirramento nas disputas pelo seu uso. “A avaliação dos impactos de eventos intensos de seca na bacia do rio São Francisco é fundamental para desenvolver estratégias adequadas de adaptação e mitigação desses conflitos”, pontua.

    https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2021/10/07/com-secas-e-degradacao-caatinga-perdeu-40-de-agua-original-em-35-anos.htm

    Questões.

    Prof Luciano Mannarino

    Vegetação

    Domínio Caatinga

    Crise do Clima “Nordeste”

  • Mais desmatamento, menos chuva e menor produção agrícola

    Mais desmatamento, menos chuva e menor produção agrícola

    ECOLOGIA

    7:00
    31 Maio 2021


    Atualizado em
    4 jun 2021


    Carlos Fioravanti

    A quantidade anual de chuva caiu à metade ao longo dos últimos 20 anos em regiões de Rondônia, norte de Mato Grosso e sul do Pará onde a agropecuária ocupou até 60% de áreas antes florestadas, de acordo com análises da equipe do Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Publicado em 10 de maio na revista científica Nature Communications, esse trabalho indicou que as áreas mais atingidas pela redução da precipitação são grandes produtoras de soja.

    “Financeiramente não compensa desmatar para produzir, porque em poucos anos a perda causada com a redução de chuvas será maior que o ganho de produção decorrente do aumento da área plantada”, conclui o engenheiro florestal Argemiro Teixeira Leite-Filho, da UFMG, principal autor do trabalho. “O desmatamento de um ano faz a produtividade cair já no ano seguinte.”

    Em 20 anos, precipitação caiu à metade em áreas que perderam 60% da vegetação nativa, com prejuízo anual estimado em R$ 5,7 bilhõesÁrea desmatada de Rondonópolis, leste do estado de Mato Grosso, preparada para o plantio de soja: perda de vegetação nativa reduz a quantidade de chuva e a produtividade agrícola

    James Martins/Wikimedia

    Causada pelo aumento do albedo (capacidade de refletir a luz solar) e pela queda na umidade liberada pela vegetação nas áreas desmatadas em comparação com a das florestas, a redução de chuva pode causar uma perda de produtividade estimada em US$ 1 bilhão (R$ 5,7 bilhões) por ano na produção de soja e carne na região amazônica, de acordo com esse estudo.

    “Neste ano ainda está chovendo bastante no sul da Amazônia, por causa do La Niña [esfriamento das águas da região equatorial do oceano Pacífico], mas em anos de El Niño [aquecimento do Pacífico equatorial] a diminuição da chuva pode intensificar a seca”, diz Leite-Filho.

    As análises da equipe da UFMG, coordenadas pelo geólogo Britaldo Soares-Filho, se apoiaram em informações do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Brasileira por Satélite (Prodes) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do satélite Tropical Rainfall Measuring Mission (TRMM) da Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, de 1999 a 2019.

    Os pesquisadores avaliaram a perda de vegetação nativa e a redução da precipitação em células de 28, 56, 112 e 224 quilômetros quadrados (km2) em uma área total de 1,9 milhão de km2, do sul da região amazônica, do Acre ao Tocantins (ver mapa). O trabalho contou com apoio do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Tecnológicas (CNPq), Banco Mundial e Fundação de Pesquisa da Alemanha (DFG).

    “A ciência já alerta para a possibilidade há mais de 10 anos, mas esse trabalho é o primeiro a quantificar o prejuízo econômico decorrente da diminuição da chuva”, diz o físico Paulo Artaxo, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP), que não participou do estudo. Especialista na pesquisa sobre aerossóis e membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), ele foi um dos autores do trabalho que em 2016 mostrou como partículas de aerossóis influenciam a formação e o desenvolvimento de nuvens na Amazônia.

    De imediato, em escala local, o desmatamento pode aumentar a quantidade de chuva, de acordo com um estudo publicado em junho de 2003 na Remote Sensing of Environment. “As áreas desmatadas ficam mais quentes, o albedo muda e surgem circulações de correntes de ar que favorecem o aumento da chuva”, diz um dos autores do trabalho, o meteorologista Luiz Augusto Machado, filiado ao Instituto Max Planck da Alemanha e ao IF-USP, após se aposentar no Inpe.

    Esse efeito desaparece, porém, quando a área sem vegetação nativa se amplia. “Quando o desmatamento alcança grandes proporções, com a perda da vegetação nativa em centenas de hectares, o efeito da circulação atmosférica local torna-se muito limitado e ocorre claramente uma redução da precipitação”, acrescenta Machado. Ele alerta: “O prejuízo é muito maior se considerarmos que o desmatamento na Amazônia reduz drasticamente a chuva nas regiões Sul e Sudeste”.

    Estação chuvosa mais curta
    Leite-Filho observou outro efeito do desmatamento: o adiamento do início e o encurtamento em cerca de 30 dias da estação chuvosa no sul da Amazônia, de acordo com um trabalho que publicou em setembro de 2019 na International Journal of Climatology. As chuvas, que nessa região normalmente começam em setembro e seguem até abril, indicam o que e quando plantar.

    Em dezembro de 2020, o jornal O Estado de S. Paulo noticiou que as chuvas irregulares e em uma quantidade 50% menor que a média desde agosto já haviam causado uma perda de 7,3 milhões de toneladas de grãos, principalmente soja, milho e arroz, em todo o país na safra 2020/21.

    “O desmatamento também tem aumentado a frequência e a duração dos veranicos”, diz o pesquisador. Veranicos são períodos secos em meio à estação chuvosa que prejudicam o desenvolvimento das culturas agrícolas.

    Artaxo ressalta: “Se o desenvolvimento brasileiro depender da venda de carne, soja e outras commodities agrícolas a serem produzidas no Brasil Central, é melhor preservar a Amazônia para continuar a ter chuva abundante na região”.

    1. De que forma o La nina afeta o regime de chuvas no sul da Amazônia?

    2. O que é Albedo e por que muda quando ocorre desmatamento na Amazônia?

    3. Explique a importância das commodities agrícolas na economia do Brasil.

    4. O que são veranicos e porque ele vem aumentando sua frequência em porções da Amazônia?

    5. De que forma a perda da vegetação nativa afeta a produtividade da produção agrícola ao longo do tempo?

    Prof Luciano Mannarino

  • Investimentos na matriz eólica superam R$ 187,1 bi na última década

    Investimentos na matriz eólica superam R$ 187,1 bi na última década

    Fonte de energia ganha competitividade no país com preocupação ambiental

    17.jul.2021 às 23h15

    Luis Henrique Gomes

    NATAL

    Quando o primeiro leilão de energia eólica foi feito no Brasil, em 2009, só 0,5% da capacidade de geração de eletricidade do país tinha essa origem. Passados 12 anos, esse percentual cresceu para 10,6%, com investimentos no país que somam US$ 35,8 bilhões entre 2011 e 2019, segundo os cálculos da Bloomberg New Energy Finance. A quantia corresponde a R$ 187,1 bilhões em valores atuais.

    Com esse crescimento, numa década em que o mundo se comprometeu em reduzir a emissão de carbono, a matriz eólica se tornou uma fonte de energia competitiva no Brasil e tem a seu favor o financiamento de bancos internacionais que buscam cumprir as metas do Acordo de Paris, realizado em 2015.

    Somente no Rio Grande do Norte, o estado que mais produz esse tipo de energia no Brasil hoje, mais de R$ 15 bilhões foram investidos em parques eólicos.

    Parque eólico da Neoenergia, localizado em Rio do Fogo, no litoral do Rio Grande do Norte, estado com maior produção de energia eólica no Brasil
    Parque eólico da Neoenergia, localizado em Rio do Fogo, no litoral do Rio Grande do Norte, estado com maior produção de energia eólica no Brasil Alex Régis/Folhapress

    O primeiro foi instalado pela Neoenergia em 2006, no município de Rio do Fogo, distante 80 quilômetros de Natal, com capacidade de 28 MW (megawatts). Hoje, o estado possui uma capacidade de 5.266 MW instalados, em mais de 180 parques.

    Além dos investimentos, empresas têm buscado cada vez mais adquirir energia gerada em parques eólicos, de acordo com a presidente da Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica), Elbia Gannoum. Em 2020, cerca de 3 GW (gigawatts) foram comprados por companhias.

    Dois fatores contribuem para isso: a perspectiva de uma energia mais limpa, com menos passivos ambientais, e o preço competitivo.

    “Hoje a energia eólica é a mais barata do país. Por isso, a perspectiva é que os investimentos aumentem nos próximos anos”, diz Gannoum.

    Segundo a presidente da Abeeólica, o Brasil já está entre os países com as matrizes energéticas mais limpas do mundo, mas o setor eólico continuará em expansão. Os investimentos até 2029 devem chegar a R$ 72,3 bilhões.

    “O Brasil tem a melhor posição do mundo em energia porque é o país mais rico em recursos renováveis”, diz ela.

    https://www1.folha.uol.com.br/mpme/2021/07/investimentos-na-matriz-eolica-superam-r-1871-bi-na-ultima-decada.shtml

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    Explique as condições climáticas que torna o nordeste um grande produtor de energia elétrica a partir de fontes renováveis.

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    Prof Luciano Mannarino