Categoria: Brasil

  • Com mais de 8 mil torres eólicas, NE sofre com danos ambientais silenciosos.

    Com mais de 8 mil torres eólicas, NE sofre com danos ambientais silenciosos.

    Carlos Madeiro

    Colunista do UOL

    03/07/2022 04h00

    A instalação em grande escala de parques eólicos na região Nordeste se tornou motivo de preocupação para pesquisadores do tema, que dizem que o avanço do setor ao longo das últimas duas décadas ocorreu sem minimizar corretamente os danos ambientais. A coluna conversou com pesquisadores e leu estudos mais recentes, que revelam impactos como desmatamento e redução na movimentação de dunas e da recarga de lençóis freáticos (água subterrânea, essencial especialmente no semiárido).

    Torres na proximidade da comunidade de Xavier, em Camocim (CE)

    Tida como uma das energias produzidas mais limpas, a produção eólica, que utiliza o vento, vem ganhando força no país. Segundo a Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica), são 805 parques, 708 deles no Nordeste. Ao todo são 8.211 torres instaladas somente na região. A energia eólica foi defendida por Jair Bolsonaro, em recentes discursos. Ele disse que anunciará, em breve, um projeto de energia eólica no Nordeste que equivalerá à geração de “50 Itaipus”. Recentemente, a coluna mostrou os danos sociais que a instalação de parques estava causando no interior do Nordeste, com casas e cisternas rachadas e estradas com acesso deteriorado.

    Danos cumulativos

    A coordenadora do Labocart (Laboratório de Geoprocessamento e Cartografia Social) da UFC (Universidade Federal do Ceará) —que reúne pesquisadores sobre a energia eólica em todo o país—, Adryane Gorayeb, alerta que, com a instalação dessas milhares de torres, é preciso trabalhar agora com o conceito de impactos cumulativos

    “Hoje se estuda de forma isolada. É como se só aquele empreendimento fosse causar dano, mas não estamos falando de um empreendimento, mas de vários construídos em épocas e distâncias diferentes”, afirma. Em 2019, alguns desses estudos foram publicados no livro “Impactos socioambientais da implantação dos parques de energia eólica no Brasil”, que apontou para muitos problemas. Segundo Gorayeb, os estudos deixaram claro os impactos, que começam antes da obra, quando há desmatamento, em muitos casos, para construção de estradas para que caminhões pesados passem.

    “Muitas vezes eram ambientes fechados, que não tinha nenhum acesso”, explica. Se a construção de estrada vier por calçamento ou asfalto, o impacto afeta o ecossistema. “Raios solares sobre o asfalto acumulam muito mais calor maior que um solo exposto com argila e areia”, diz. Outro fator já clarificado pelas pesquisas é que essas obras causaram impermeabilização do solo, que prejudica o reabastecimento dos aquíferos. Especialmente em áreas secas, esses lençóis freáticos são fundamentais para garantir água à população..

    “Nesse processo a água vai sendo rebaixada, ficando cada vez mais no fundo. Na prática, as pessoas que vivem ao redor precisam cavar com poços mais profundos. Nordeste hoje responde por mais 80% da produção de energia eólica do Brasil Imagem: Marilia Barros.

    Problemas em dunas e água de Camocim

    A pesquisadora Raquel Morais, da UFC, fez uma análise sobre a qualidade das águas subterrâneas em Camocim, no extremo oeste do litoral cearense. No local, o parque eólico ocupou uma área de 1.040 hectares (o equivalente a 10,4 km²), e que 5% desse terreno foi impermeabilizado.

    No estudo ela perfurou 15 poços, que depois foram fechados e expostos a mudanças de solo similares às causadas pelos empreendimentos. O resultado obtido foi que os poços estavam com menos pressão e vazão de água. “As interferências são muito relevantes e influenciaram também a recarga das lagoas entre as dunas, muitas delas que eram permanentes antes da instalação do parque”, diz. Ela cita que, após a implementação do empreendimento, esses volumes hídricos secaram, comprometendo a pesca.

    Torres na proximidade da comunidade de Xavier, em Camocim (CE).

    Um outro estudo na mesma área feito pela geógrafa Gloria Duran, especialista em sensoriamento remoto (ciência que estuda imagens captadas à distância). Ela usou imagens antigas e recentes de satélite para comparar os impactos das dunas de Camocim. “Existiam deslocamentos de até 100 metros a cada dois anos dessas dunas, e depois que foi construído houve uma redução e não supera 60 metros em alguns locais.

    A construção dos parques se transformou numa espécie de barreira sobre o campo de dunas”, explica. Ela cita que, à época, o impacto conseguiu ser medido antes porque os parques de Aracati e Camocim foram as primeiras construções na região. “Foi feito de forma muito rápida”, completa.

    O professor e pesquisador da UERN (Universidade do Estado do Rio Grande do Norte), Rodrigo Guimarães, também estuda o tema há anos e reforça que a instalação das fundações muda a dinâmica natural das dunas por conta dos aterros e estruturas de suporte às torres. “Além disso, a utilização de água subterrânea em grande quantidade diminuindo o aporte [de água] de ecossistemas, como lagoas costeiras e manguezais”, diz. Sobre o movimento das dunas, Guimarães explica que boa parte delas migram naturalmente e voltam para o mar através dos estuários [área alagada de encontro com o mar] de rios. “Com as obras, as dunas são escavadas. Eles injetam muito concreto na base para instalar as torres, e as dunas vão sendo fixadas”. completa.

    Rio Grande do Norte é o estado com mais parques no país.

    Pássaros também afetados

    A bióloga Paula Tavares, que é mestre em geografia pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), também pesquisou o impacto nos pássaros com as torres e cita que há danos encontrados. “Os principais são as colisões, os afugentamentos e o efeito de barreira”, diz. Ela defende que o licenciamento ambiental deve analisar o local, onde o parque vai ser erguido para saber o impacto. Quando já erguido, existem formas também de reduzir impactos, como a pá pintada de preto na turbina —que consegue reduzir em até 70% a morte acidental de pássaros. “Uma outra tecnologia muito interessante é a instalação de radares que detectam a aproximação de bandos de aves e com essa informação as máquinas podem ser paradas, evitando a colisão”, conta.

    Nordeste hoje responde por mais 80% da produção de energia eólica do Brasil..

    Entidade afirma que atua para evitar danos

    Segundo a Abeeólica, os parques construídos no Brasil respeitam as legislações ambientais e são erguidos sempre tentando reduzir os impactos ambientais para se “conviver de forma compatível com a preservação dos principais recursos ambientais do território”.

    Sobre a questão do desmatamento, a entidade diz que a instalação de parques resulta em “baixos índices de supressão vegetal para implantação do empreendimento, sem supressão de grandes poligonais e, portanto, com impactos reduzidos”.

    Complexo Eólico Ventos de São Clemente está nos municípios pernambucanos de Caetés, Capoeiras, Pedra e Venturosa Imagem: Divulgação

    Divulgação De acordo com a entidade, os empreendimentos são distribuídos “de forma a conviver com um entorno preservado quanto às características de infiltração de água, sendo exceções os casos de uso de pavimentação asfáltica nas estradas associadas”.

    Diz ainda que, sempre que possível, os projetos buscam utilizar estradas vicinais já existentes no território. “Esses acessos são revitalizados com sistemas de drenagem e contenção de sedimentos, bem como com recuperação e controle de erosões que ficam como um legado para o território”, afirma.

    Quando há necessidade de instalar novos acessos, assegura que as estradas são projetadas “sem o uso de pavimentação asfáltica e considerando as melhores práticas da engenharia”, com sistema de drenagem. Sobre os prejuízos as dunas, a Abeeolica explicou que, no início das atividades há mais de 15 anos, “alguns parques foram instalados em dunas, com as respectivas compensações ambientais”. “Hoje isso já é bastante incomum, visto que os parques tendem a se instalar em áreas fora do litoral”, diz.

    Sobre o impacto causado pelos aerogeradores a pássaros, a entidade assegura que, antes de um parque eólico ser construído, há uma uma série de etapas técnicas prévias para se adaptar e atender à legislação ambiental.

    “Uma destas etapas inclui, exatamente, estudo de rotas migratórias de aves. A licença apenas é concedida quando há comprovação de que os riscos para impacto de aves são baixos e que podem ser compensados por medidas mitigatórias definidas pelos órgãos ambientais”, afirma, citando que, quando o “impacto reduzido chega, há medidas mitigatórias”.

    Carlos Madeiro

    https://noticias.uol.com.br/colunas/carlos-madeiro/

    Formado em jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas e com especialização em gestão de conteúdo em jornalismo pela Universidade Mackenzie, Carlos Madeiro atua há 20 anos e escreve para o UOL desde 2009, participando de grandes coberturas e fazendo reportagens e análises sobre o Nordeste e o Norte do Brasil.

    https://noticias.uol.com.br/colunas/carlos-madeiro/2022/07/03/com-mais-de-700-parques-eolicos-ne-sofre-com-danos-ambientais-silenciosos.htm

    Questões.

    1.Aponte os fatores naturais que determinam o grande potencial eólico da região nordeste.

    2. Quais são os pontos positivos ligados a produção de energia elétrica a partir da fonte eólica?

    3. Quais medidas podem reduzir a mortalidade de pássaros no uso desse tipo de fonte?

    4. Explique a importância da legislação ambiental no uso da fonte eólica.

    5. Como se produz energia eólica a partir do vento?

    Prof Luciano Mannarino

    #geoverdade

  • Brasil aposta no enfrentamento armado, que vítima jovens e negros

    Thiago Amâncio

    Eduardo Anizelli

    Comunidade Cerro Corá, na zona sul do Rio, vista a partir do mirante Dona Marta – Eduardo Anizelli/Folhapress

    RIO DE JANEIRO

    Orelha tem 22 anos e várias marcas de tiro no braço. Segurou um fuzil pela primeira vez aos 13. Desde então ele já comandou algumas bocas de fumo no Rio de Janeiro e hoje é um dos que chefiam a operação em parte de uma favela da capital fluminense.

    É uma comunidade como tantas outras, com um centro comercial agitado que mais lembra uma cidade do interior. Carros de som anunciam promoções, motociclistas circulam sem capacete e as pessoas se cumprimentam indo e voltando do trabalho.

    Mais para o alto do morro, nas lajes e janelas de prédios improvisados de três e quatro andares, rapazes com pistolas na cintura trocam informações por rádios transmissores sobre tudo o que acontece no chão. Vivem na expectativa de ataques de um grupo rival ou de invasões da polícia. Eles próprios se definem como bandidos.

    Quando a reportagem chega e se identifica, eles passam mensagens e autorizam a subida. Orelha e Perverso, 26, recebem a equipe em uma sala. Têm o corpo marcado por tatuagens. Explicam que fazem parte da cadeia de tráfico de drogas da região. Outras pessoas acompanham a conversa.

    Estão armados e carregam granadas, mas não agem de maneira hostil. Aceitam posar para fotos, os rostos cobertos por camisetas. Dizem que podemos perguntar o que quisermos, desde que não fique registrado no texto de que favela são, e não revelam seus nomes verdadeiros.

    “Eu entrei para o crime porque minha família toda estava envolvida, primos, irmão. Não tinha como me espelhar em outras coisas”, diz Perverso.

    Orelha diz que começou pelo dinheiro e que hoje em dia gosta de ser traficante. “Já tive muito dinheiro e não saí até agora. É gostar de estar dessa forma aí, entendeu? Podem falar que não, mas nós, dessa forma, muitos [nos] respeitam. E nós estamos aí para não sermos oprimidos por ninguém, entendeu?”

    Os dois traficantes dizem que já foram presos por homicídio e que estão foragidos. Fazem parte de uma facção criminosa, com tentáculos em todo o país, que tem no tráfico de drogas sua principal fonte de renda.

    Dizem que a venda de substâncias ilícitas não vai acabar, quaisquer que sejam as tentativas da polícia. “Morre um, nasce outro”, diz Orelha, que afirma que não são eles os causadores da violência: “Se eles [policiais] não vierem aqui, nós não vamos até eles. Mas, se vierem, vai ter troca de tiro”.

    Os buracos das paredes dos becos do morro confirmam a ameaça. As estatísticas também. O Rio de Janeiro é um estado violento, com taxa de 37,6 homicídios a cada 100 mil habitantes, maior que a média nacional de 31,6.

    É o resultado de uma disputa das facções criminosas que brigam entre si pelo controle de territórios e mercados e com as polícias Civil e Militar –responsáveis por um terço dos assassinatos na cidade, segundo os dados oficiais.

    O Rio é uma espécie de microcosmo da violência nacional e emblema do fracasso do Estado brasileiro em lidar com as drogas ilegais ao privilegiar o enfrentamento e o encarceramento em massa.

    Na comemoração dos primeiros cem dias de seu governo, o presidente Jair Bolsonaro lançou a nova Política Nacional sobre Drogas com o então ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro. Apesar de envolver também os ministérios da Saúde, Cidadania e Família, o foco do texto é o combate ao crime organizado e as ações repressivas para reduzir a oferta de substâncias ilegais.

    O texto diz considerar a posição majoritariamente contrária da população brasileira quanto à legalização de drogas. Com efeito, pesquisa Datafolha de 2018 mostra que dois a cada três brasileiros se dizem contrários à liberação da maconha no país.

    A política destaca ainda a venda de bens apreendidos do tráfico de drogas (cujos leilões passaram dos R$ 92 milhões no primeiro semestre deste ano) e ações de inteligência com resultados elogiados por especialistas, como a operação Caixa Forte, deflagrada no fim de agosto, com mais de 400 mandados de prisão para desarticular o braço financeiro do PCC e bloquear mais de R$ 250 milhões, ou a operação Rei do Crime, do fim de setembro, que bloqueou R$ 730 milhões da facção.

    Movimento na Estrada da Gávea, na Favela da Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro – Eduardo Anizelli/Folhapress

    O governo federal tem atuado contra propostas de flexibilização. No começo de setembro, o ministro da Justiça, André Mendonça, encaminhou a deputados moção de repúdio ao projeto de lei 399/2015, que propõe legalizar o cultivo da cânabis no Brasil para uso medicinal e industrial.

    A carta destaca efeitos nocivos do uso crônico da maconha e diz que o consumo de drogas é grave problema de saúde pública com impactos nos espaços familiares e sociais. Afirma, por fim, que houve aumento do uso de cânabis em países que flexibilizaram o controle.

    Não é bem assim. Estudos da epidemiologista psiquiátrica brasileira Sílvia Saboia Martins, da Universidade Columbia (EUA), mostram que não houve alteração significativa no uso de maconha por adolescentes nos estados americanos onde ocorreu autorização para uso medicinal.

    Suas pesquisas tomam por base o detalhado Levantamento Nacional sobre Uso de Drogas e Saúde dos Estados Unidos (NSDUH, na sigla em inglês) e concluem que, mesmo onde se liberou o uso recreativo, houve aumento discreto de consumo só a partir dos 21 anos; entre adolescentes do sexo masculino, observou-se até mesmo um recuo.

    O professor da Universidade de São Paulo Leandro Piquet Carneiro, especialista em políticas públicas, diz que há duas coisas positivas na forma como o Brasil trata as drogas: um setor ativo de saúde pública, para tratar dependentes, e o fato de a legislação ser branda com os usuários.

    Para ele, enquanto vivermos em um regime de proibição de drogas, há pouca alternativa à resposta pela via da segurança pública.

    “Vivemos numa região produtora de cocaína, ao lado de três países produtores [Colômbia, Bolívia e Peru]. Isso tem impacto na disponibilidade da droga, por aqui, com o crack, com propagação de centros de consumo por todo o país, que tem um efeito criminogênico muito forte. Há também disputa por pontos de venda no varejo. O sistema internacional de proibição obriga os países a terem uma resposta pela [via da] segurança pública”, diz.

    Os traficantes Orelha, 22, e Perverso, 26, que assumem ter cometido homicídio e estar foragidos, mostram armas em favela no Rio – Eduardo Anizelli/Folhapress

    O delegado Orlando Zaccone, que estudou o tráfico em sua dissertação de mestrado e é autor do livro “Acionistas do Nada – Quem São os Traficantes de Drogas”, defende a legalização das drogas porque, em suas palavras, o tráfico é um crime sem vítimas.

    “O usuário não é vítima, porque ele é criminalizado, inclusive. A saúde pública está sendo ofendida muito mais com a proibição”, diz. “Não existe coisa que ofenda mais a saúde pública do que uma guerra.”

    A cabeleireira Raquel Sabino, 24, perdeu o pai, Sebastião Sabino da Silva, em um confronto que durou mais de uma semana no Jacarezinho, zona norte do Rio, em 2017. O feirante paraibano se mudara para o Rio para sustentar os 13 irmãos após perder o pai. Começou com uma barraca de batata frita, comprou outra de milho e foi ampliando o negócio até adquirir um depósito de bebidas, quando já tinha sete filhos.

    Raquel Sabino, moradora do Jacarezinho cujo pai, Sebastião Sabino, foi morto pela polícia – Eduardo Anizelli/Folhapress

    Em 2017, durante uma operação policial, ficou nervoso com o sumiço da filha mais nova, à época com 13 anos, e saiu a sua procura. Na rua, tomou três tiros da polícia: no pescoço, na boca e no coração.

    “Ele era tão forte que conseguiu ainda chegar à calçada e pedir resgate. Ficou uns 40 minutos mais ou menos agonizando, e os policiais falando que não iam deixar socorrê-lo porque ele era traficante [na versão da polícia]. Meu pai teve que ser carregado em cima de uma porta”, conta Raquel.

    Desde então ela sofre com síndrome do pânico e diz que se enrola nos lençóis sempre que há operações. “Eu luto muito para poder sair daqui. É horrível. Qualquer barulhinho já me assusto, me abaixo.”

    Viela da Favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio de Janeiro – Eduardo Anizelli/Folhapress

    No Jacarezinho, controlada pelo Comando Vermelho, a reportagem foi interpelada por um grupo de rapazes armados assim que entrou, perto de uma linha de trem de onde parte das dormentes dos trilhos foi arrancada e fincada na rua ao lado, para impedir o avanço de carros da polícia. Passantes carregam pistolas e fuzis nas ruas.

    A apreensão de armamento do tráfico é uma das justificativas para as operações policiais nessas comunidades. Com a pandemia da Covid-19, no entanto, elas foram limitadas pelo Supremo Tribunal Federal, que agora exige da polícia justificativa e comunicação ao Ministério Público como precondição para as incursões.

    Em manifestação ao STF, o governo do Rio criticou a medida, que disse criar “zona de proteção para as organizações criminosas de narcotraficantes e de milicianos, o que redundará, em poucos meses, no aumento recorde dos indicadores de criminalidade.”

    Jacarezinho é uma comunidade na zona norte do Rio mais fechada que outras favelas onde hoje até turistas são bem recebidos, como a Rocinha ou o Vidigal, na zona sul.

    O segurança Airã de Oliveira, 29, morador do Jacarezinho desde que nasceu, não nega que o crime seja violento. “Infelizmente, a gente cresceu com isso”, diz. Ele brinca com a reportagem quando passa diante de um açougue com galinhas vivas na porta. “Não gosto nem de ver animal sendo morto. Para quem já viu o que eu vi, é engraçado, né. Quando eu era criança, vi até jogo de futebol com cabeça de gente.”

    Oliveira conta que perdeu 21 amigos com quem cresceu, mortos pelo tráfico ou pela polícia. Também perdeu o pai, que era envolvido com o crime e foi morto por cúmplices. “Era uma vida que não queria para mim.”

    Airã de Oliveira, morador do Jacarezinho, cujo pai foi morto pelo crime – Eduardo Anizelli/Folhapress

    Com a polícia, porém, a relação é diferente. Há dois anos, um primo levou um tiro no pescoço dentro de casa, disparado por um policial que o confundiu com um traficante, e ficou paraplégico. “Eu não sei explicar por que têm tanta raiva da gente. Nós moradores não temos nada a ver com essa guerra, não é culpa nossa.”

    “A gente sai da favela e já é enquadrado, tem de abrir os braços, abrir as pernas para eles revistarem. Aquele sentimento de medo, de fazer um movimento errado, de ganhar um tiro”, desabafa. “Um negro de 1 metro e 90…”

    Negros são 75% das vítimas de homicídios no país, segundo o Atlas da Violência de 2020, apesar de representarem 56% da população. Enfrentam risco 2,7 vezes maior de serem mortos do que pessoas não negras.

    Com 750 mil pessoas encarceradas, segundo dados do ano passado do Departamento Penitenciário Nacional, o Brasil tem a terceira maior população encarcerada do mundo em números absolutos, atrás apenas dos EUA (2,1 milhões) e da China (1,7 milhão). No Brasil, são mais de 350 presos para cada 100 mil brasileiros, total que cresceu aceleradamente no último século .

    A explicação mais aceita para o fenômeno é a atual Lei de Drogas, de 2006, que paradoxalmente tentava reduzir o encarceramento de usuários impondo-lhes penas alternativas. Mas o texto não define uma quantidade objetiva de droga para classificar alguém como traficante, abrindo margem para que usuários sejam condenados por tráfico.

    Um recurso da Defensoria Pública de São Paulo pede que a criminalização da posse de drogas para uso pessoal seja considerada inconstitucional. Começou a ser examinado em 2015 e foi liberado para julgamento pelo ministro Alexandre de Moraes em 2018, mas até hoje não foi colocado na pauta do Supremo Tribunal Federal.

    O tráfico de drogas é o segundo crime com maior incidência nos presídios, correspondendo a uma a cada cinco prisões. Entre as mulheres, esse índice chega a 51%. A maior parte é de jovens (45% tem até 29 anos) e negros (67% da população carcerária). Hoje, 30% dos presos do país ainda não foram a julgamento.

    “Os dados disponíveis mostram que os presos não são os traficantes que se impõem tiranicamente sobre comunidades pelo uso da força, mas varejistas do comércio de substâncias ilícitas, que têm sido presos sem porte de arma, sem prática de violência e sem vínculo conhecido com facção”, diz o antropólogo e escritor Luiz Eduardo Soares.

    Isso acontece, em seu raciocínio, porque a Polícia Militar é pressionada a produzir, e entende isso por prisão. Como não pode fazer investigações, atribuição da Polícia Civil, procura fazer prisões em flagrante, muitas delas por tráfico de drogas. “Temos um filtro seletivo de cor, classe e território que é o da prisão em flagrante”, afirma.

    Policiais na entrada da Favela da Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro – Eduardo Anizelli/Folhapress

    Dentro da cadeia, o preso vai precisar se aliar a uma facção criminosa para sobreviver, e deverá lealdade a ela quando sair da prisão. “Nós estamos pavimentando uma carreira no crime, contratando violência futura.”

    O Rio de Janeiro tem hoje quatro principais grupos criminosos. O maior e mais conhecido deles é o Comando Vermelho, mas há também o Terceiro Comando Puro e o Amigos dos Amigos, além das milícias, que também fazem tráfico de drogas.

    As quadrilhas são chamadas de facções prisionais justamente por surgirem ou se fortalecerem dentro do sistema carcerário, como é o caso da paulista Primeiro Comando da Capital. As facções têm células em todo o país e associações no exterior para produção e escoamento internacional de drogas.

    Piquet Carneiro, da USP, diz concordar que as prisões fortalecem as facções criminosas. Mas, para ele, o encarceramento tem importante efeito dissuasório, por provocar um medo de ser preso entre pessoas que pensam em entrar para o crime, e incapacitante, por tirar bandidos da rua.

    Os moradores de favelas questionam as ações da polícia, mas não o tráfico. Para Maicon Almeida, 32, morador do Complexo do Alemão, não faz sentido comparar o Estado com o poder paralelo. “Eu não reclamo do tráfico porque aqui impera o tráfico, não tem como chegar e falar que não é pra fazer isso, não é pra fazer aquilo. O Estado eu posso e eu devo cobrar.”

    O Complexo do Alemão, onde Almeida vive, virou símbolo do sucesso e, em seguida, do fracasso da política de combate ao tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Dez anos atrás, após uma semana de ataques pela cidade, forças estaduais e nacionais ocuparam a favela, prenderam traficantes e fincaram uma bandeira nacional no alto do morro.

    “Eu olhava para um lado, via o tráfico. Na TV, a polícia chegando. E você no meio daquilo.”, conta Almeida, que já viu uma série de incursões policiais. A primeira de que se lembra foi em 1992, quando militares ocuparam a favela para garantir a segurança das autoridades que foram à conferência Eco-92. À época, exigiam até carteira de trabalho dos moradores que queriam passar pelo cerco.

    “Não é eficaz. Se fosse, já tinha acabado [o crime]. Nunca mudou, e não é assim que vai mudar”, diz ele. “Precisamos acabar com o tráfico de drogas. Tu olha pra cá, onde tem plantação de maconha aqui? Como chega arma? Criminalizam esse lugar, dizem que todo mundo aqui ou é bandido ou amigo de bandido ou tem parente bandido. Para grande parte da população todo mundo aqui é conivente com o tráfico. Mas ninguém é conivente com ninguém.”

    Maicon de Almeida, morador do Complexo do Alemão – Eduardo Anizelli/Folhapress

    A diferença de tratamento ficou patente quando Almeida estudava em Botafogo, na zona sul. Os colegas fumavam maconha perto de policiais sem qualquer pudor e não eram abordados.

    O delegado Zaccone, quando atuava em Jacarepaguá, zona oeste da cidade, fazia registros de quatro prisões em flagrante por tráfico de drogas por plantão. O território de sua delegacia abarcava favelas como a Cidade de Deus.

    “Fui transferido para a Barra da Tijuca, área nobre, e ficava até seis meses sem fazer nenhum flagrante. Você olhava os boletins de ocorrência e pensava que não havia tráfico de drogas na Barra. É lógico que isso não era verdade”, afirma.

    “O que você tem são políticas criminalizadoras e ações de segurança diferenciadas”, diz o policial. Se o objetivo da repressão policial é reduzir o consumo e a circulação das drogas e proteger a saúde pública, a política no país tem fracassado, afirma o delegado.

    “O espaço do pobre e o pobre são considerados o tempo inteiro como perigosos. O que legitima esse controle violento das favelas do Rio e das periferias do Brasil é a proibição à droga. Por esse aspecto, eu poderia dizer que a proibição tem resultados positivos para a manutenção dessa ordem desigual em nosso país.”

    Brendo Oliveira, 16, em sua casa no Complexo do Alemão – Eduardo Anizelli/Folhapress

    Brendo Oliveira, 16, negro e morador do Complexo do Alemão, sabe bem o que é isso. “A vida aqui é bem difícil, por conta de tiroteio. A gente está aí, tranquilão, crianças brincando, tem tiroteio, acerta morador, e você não sabe nem de onde vem”, diz ele.

    Oliveira perdeu o pai e um tio, traficantes, que morreram em trocas de tiros, mas está seguro de que não quer isso para si. “É morte ou cadeia. Eu sou totalmente diferente do meu pai. Minha vida é outra, judô, jiu-jítsu, futebol, arte, fotografar. “

    O jovem mora perto da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Fazendinha, prédio com buracos de bala nos vidros e placas de ferro para conter os projéteis. A instalação fica no alto de um morro, ao lado de uma estação do teleférico desativado.

    Quando criada, em 2012, a UPP ficava em uma área vibrante, movimentada pelos turistas que usavam o teleférico e enchiam os bares e a feira de artesanato local. Na estação havia uma clínica de saúde da família e projetos sociais, como aulas de judô para crianças nas quais Brendo começou a praticar a luta.

    Acima, vista do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro; abaixo, Laureana Sousa, a Mineira, com o marido, Galileu, e os filhos no Complexo do Alemão – Eduardo Anizelli/Folhapress

    O fechamento do teleférico em 2016 reduziu o movimento, e as atividades foram se encerrando aos poucos, até que a estação foi ocupada pela polícia e fechada ao público. A unidade passou a ser tudo menos pacificadora, desabafa Laureana Sousa, 34, mais conhecida como Mineira.

    Dona de um bar atrás da UPP, ela aponta a relação tensa da corporação com os moradores da região: “Sem a polícia aqui, os moradores sabem as regras do morro, o que pode e o que não pode, cada um faz sua parte e não tem violência. Você vive uma vida inteira tranquilo, porque bandido não bate na porta de morador. Agora, a polícia entra, invade, bagunça, humilha uma mãe de família”.

    “Os nossos governantes, hoje em dia, querem cancelar CPF, não importa de quem. Para eles, nossos filhos, dentro da comunidade, já são sementes do mal. A criança está crescendo pra virar bandido, então qualquer coisa que eles matarem dentro da favela está bom”, afirma.

    A repressão ao tráfico de drogas acaba concentrada na ponta do negócio, diz o delegado Zaccone, no varejo, onde o lucro é menor, e não na produção da droga ilícita. “O efeito disso é que esse mercado se mantém forte economicamente, e a gente tem uma quantidade imensa de jovens negros pobres encarcerados e mortos em ações policiais.”

    Na cidade do Rio de Janeiro, a polícia matou no ano passado 726 pessoas, 38% dos 1.913 habitantes que morreram de forma violenta na capital fluminense.

    O governo estadual do Rio de Janeiro não deu entrevista para esta reportagem, mas enviou nota afirmando que 81% das 1.413 favelas do estado sofrem com grupos ligados ao tráfico de drogas e 19% sofrem com a ação de milicianos.

    O governo calcula que haveria cerca de 40 criminosos em cada uma dessas favelas, chegando a estimativa de 56.620 criminosos em liberdade portando armas de fogo de grosso calibre e atuando para o tráfico de drogas ou grupos de milicianos em todo o estado.

    “É dentro dessa realidade que acontecem as operações realizadas pelas polícias Civil e Militar, que têm como principal objetivo localizar criminosos e apreender armas e drogas”, segue a nota. “Essas ações são pautadas por informações da área de inteligência e seguem protocolos rígidos de execução, sempre com a preocupação de preservar vidas.” O estado diz que o número de homicídios no último mês de agosto foi o menor desde 1991, assim como o consolidado de 2019.

    Os números do próprio governo mostram que entre junho –após a proibição pelo STF de operações violentas em comunidades sem justificativa prévia– e agosto (último dado disponível), 798 pessoas foram assassinadas no estado, ante 1.001 no mesmo período do ano passado. Uma redução de 20%, que ajudou a reverter a tendência de alta na letalidade policial em plena pandemia.

    Vista da cidade do Rio de Janeiro a partir do mirante Dona Marta – Eduardo Anizelli/Folhapress

    https://arte.folha.uol.com.br/mundo/2020/estado-alterado-as-politicas-para-drogas-pelo-mundo/brasil/efeitos-da-guerra-as-drogas/

  • Trens maiores tiram quase 800 composições do principal corredor ferroviário do país

    Trens maiores tiram quase 800 composições do principal corredor ferroviário do país

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    Analisar e avaliar criticamente os impactos econômicos e socioambientais de cadeias produtivas ligadas à exploração de recursos naturais e às atividades agropecuárias em diferentes ambientes e escalas de análise, considerando o modo de vida das populações locais – entre elas as indígenas, quilombolas e demais comunidades tradicionais -, suas práticas agroextrativistas e o compromisso com a sustentabilidade.

    Concessionária Rumo completa um ano da operação de trens com 120 vagões entre Rondonópolis (MT) e o porto de Santos

    6.mai.2022 às 7h34

    Marcelo Toledo

    A implantação de trens com mais vagões no principal corredor do agronegócio no país, entre Rondonópolis (MT) e o porto de Santos, fez com que cerca de 800 viagens deixassem de ser feitas somente em 2021.

    O sistema de trens com 120 vagões foi implantado pela concessionária Rumo em março do ano passado, com o objetivo de reduzir custos e, ao mesmo tempo, transportar mais carga até o porto no litoral paulista. Até então, eram utilizadas somente composições com 80 vagões.

    Trem da concessionária Rumo, com 120 vagões, trafega no principal corredor do agronegócio, que liga Rondonópolis (MT) ao Porto de Santos
    Trem da concessionária Rumo, com 120 vagões, trafega no principal corredor do agronegócio, que liga Rondonópolis (MT) ao Porto de Santos – Divulgação

    Para isso, o plano iniciado em 2018 envolveu mapeamento da tecnologia nas locomotivas, como é o carregamento em Rondonópolis, o tempo que leva para embarcar toda a carga, como seria trafegar por todas as cidades paulistas e a chegada a Santos.

    Um dos problemas é que a malha paulista é muito recortada. Criada principalmente entre o fim do século 19 e as primeiras décadas do século passado, ela tem curvas irregulares e traçado que dificulta a operação de grandes composições. O percurso era o ideal para o período por buscar café nas fazendas, já que não havia outro meio de transporte de carga.

    A proposta inicial da Rumo era utilizar cinco locomotivas para tracionar os 120 vagões, mas após estudos no decorrer de 2021 concluiu-se que era possível fazer a rota entre a cidade mato-grossense e Santos com quatro locomotivas.

    “Esse fator e mais o auxílio das tecnologias embarcadas de condução semiautônoma permitem um ciclo mais eficiente para atender as principais regiões produtoras do país”, diz a concessionária.

    A medida reduziu a emissão de gases e fez, também, com que o comprimento de cada trem passasse de 1,5 quilômetro para 2,2 quilômetros.

    Americana fica na linha tronco da concessão, o chamado corredor de exportações
    Americana fica na linha tronco da concessão, o chamado corredor de exportações Rafael Hupsel/FolhapressMAIS

    De acordo com a concessionária, se mantivesse em 2022 as operações no formato antigo, seriam necessárias mais de 40 locomotivas e 1.445 vagões para cumprir o mesmo ciclo que agora é feito com 120 vagões.

    Foram realizadas no ano passado 1.585 viagens com os 120 vagões, ante as 2.377 que teriam de ocorrer para levar a mesma carga caso a rota fosse percorrida com trens menores. A redução é de 792 viagens.

    Gerente executivo de planejamento da Rumo, Thiago Alvarenga disse que a operação já trouxe “ganhos operacionais expressivos” e que a perspectiva é melhor para este ano. A fase de testes indicou que, a cada cem viagens com o trem maior, o ganho de combustível era equivalente a quatro trens.

    Trecho em obras na BR-163, no Pará, que liga estados da região Centro-Oeste a portos no norte do país
    Trecho em obras na BR-163, no Pará, que liga estados da região Centro-Oeste a portos no norte do país DivulgaçãoMAIS 

    O agronegócio tem impulsionado o novo modelo de viagens da Rumo. O Imea (Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária) estima que a área plantada com soja crescerá 2,55% na próxima safra em relação à anterior, atingindo 11,13 milhões de hectares.

    “A ampliação inicial está pautada pela valorização do preço da oleaginosa, demanda aquecida e o cenário de preços favoráveis dos subprodutos da soja, o que motivou alguns produtores a fazerem a conversão de áreas de pastagens para agricultura, principalmente em regiões onde a pecuária predomina —nordeste, noroeste e norte”, diz relatório do instituto.

    Dos 6,5 trens por dia, em média, que a Rumo embarca rumo a Santos, cinco saem do terminal em Rondonópolis, com 74 mil toneladas diárias.

    A forte demanda chegou a fazer com que, em um único dia, fossem embarcados 11 trens, 7 deles partindo de Rondonópolis.

    Um trem desse tamanho não é inédito no país, já que há outras ferrovias que transportam minério, por exemplo, com composições que chegam a ter 300 vagões. Em outras, porém, não é possível trafegar com mais de 40 vagões.

    Isso é determinado conforme a modernidade da ferrovia e a existência ou não de trechos de serra ou raios de curvatura menores, por exemplo.

    A Rumo passou a operar com trens de 120 vagões no segundo semestre do ano passado também a partir dos terminais de São Simão e Rio Verde, ambos em Goiás.

    Com a alteração no tamanho dos trens, a capacidade de cada um passou da equivalência de 173 caminhões para 261 caminhões.

    https://www1.folha.uol.com.br/blogs/sobre-trilhos/2022/05/trens-maiores-tiram-quase-800-composicoes-do-principal-corredor-ferroviario-do-pais.shtml

    Questões.

    1 Explique a criação da malhar ferroviária no interior paulista no final do Século XIX.

    Prof Luciano Mannarino

  • Na Amazônia, 20% das bacias sofrem alto impacto de atividades humanas

    Na Amazônia, 20% das bacias sofrem alto impacto de atividades humanas

    EM13CHS304

    Analisar os impactos socioambientais decorrentes de práticas de instituições governamentais, de empresas e de indivíduos, discutindo as origens dessas práticas, selecionando, incorporando e promovendo aquelas que favoreçam a consciência e a ética socioambiental e o consumo responsável.

    EM13CHS306

    Contextualizar, comparar e avaliar os impactos de diferentes modelos socioeconômicos no uso dos recursos naturais e na promoção da sustentabilidade econômica e socioambiental do planeta (como a adoção dos sistemas da agrobiodiversidade e agroflorestal por diferentes comunidades, entre outros).

    Projeto usou dados de estudos relacionados a hidrelétricas, rodovias, agropecuária e garimpo

    Phillippe Watanabe

    SÃO PAULO

    Pelo menos 20% das microbacias da Amazônia sofrem alto impacto de atividades ou infraestruturas que ocorrem ao seu redor, como hidrelétricas —principal agente de pressão—, mineração e garimpo ilegal, estradas e agropecuária.

    Essa é a conclusão de um novo índice, o IIAA (Índice de Impacto nas Águas da Amazônia), criado pela Ambiental Media, com apoio do Instituto Serrapilheira e participação de pesquisadores.

    O índice faz parte do projeto Aquazônia, lançado nesta quinta-feira (5).

    O IIAA vai de 0, que significa impacto muito baixo, até mais de 5, para classificação de impacto extremo.

    Águas amazônicas divididas por pedras, formando o que parecem ser pequenos rios
    Pedrais na região da Volta Grande do rio Xingu, área de influência da hidrelétrica de Belo Monte – 29.ago.2018 – Lalo de Almeida/Folhapress

    Foram analisados dados de hidroeletricidade, exploração mineral, hidrovias, agropecuária, degradação florestal, cruzamentos de rios com estradas, área urbana e mudanças climáticas em 11.216 microbacias da Amazônia Legal.

    Dessas, 2.299 apresentam um impacto tido como alto pelo IIAA.

    O top cinco de áreas mais impactadas —e, dessa forma, com números mais altos no índice— tem presença de bacias com hidrelétricas. São elas: a do Madeira, que tem a hidrelétrica Canaã, em Rondônia; a do Tapajós, com a hidrelétrica Braço Norte, em Mato Grosso; a do Xingu, região da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará; a do Tapajós, com a hidrelétrica Paranorte, em Mato Grosso; e a do Madeira, novamente, com a hidrelétrica Jamari, em Rondônia, mais uma vez.

    Filtrando pelas microbacias com impactos alto, muito alto ou extremo, cerca de 50% —o que representa 1.146— estão em áreas de afetação de hidrelétricas. Curiosamente, 478 (21%) dessas microbacias com elevados graus de impactos sofrem, ao mesmo tempo, com a presença de mineração (ou garimpo ilegal).

    Segundo o levantamento, a bacia do rio Putumayo-Içá é o corpo d’água tributário do rio Amazonas que mais sofre com mineração, com impacto em 63% do percurso.

    O índice também aponta a situação em unidades de conservação e em terras indígenas. Nas primeiras, cerca de 23% (ou 77) possuem índice de impacto alto —dez estão em Rondônia. No caso da áreas indígenas protegidas, 14% (53) têm índices de impacto altos, muito altos ou extremos.

    Na Amazônia, um bioma em que a agropecuária é conhecida como vetor de desmatamento e queimadas, logicamente a atividade também teria impactos considerável em algumas regiões.

    Segundo os dados do projeto, as bacias (todas tributárias do rio Amazonas) Curuá-una, Guamá e Pacajá estão em áreas totalmente impactadas pelo agronegócio.

    As bacias dos rios Tocantins e Xingu não estão muito atrás: 98% da área de ambas sofre impacto dessa atividade econômica.

    Vale destacar que, apesar de contar com a participação de pesquisadores, o índice não tem a intenção de ser científico. Thiago Medaglia, fundador da Ambiental Media e coordenador do projeto, afirma que se trata de uma iniciativa baseada em ciência, mas ainda assim um trabalho de cunho jornalístico.

    Medaglia diz que a ideia do projeto surgiu ao se dar conta de que, ao falar de Amazônia, o foco é quase sempre e exclusivamente a floresta.

    “Quando a gente fala em desmatamento temos cenas chocantes da floresta sendo desmatada ou conseguimos mensurar via satélite”, afirma o idealizador do Aquazônia. “Mas quando falamos de água é mais difícil que isso seja, de alguma forma, medido e percebido.”

    Daí surgiu a ideia de um índice que pudesse passar uma percepção do que está acontecendo com as águas amazônicas.

    Olhar para as águas desse bioma e de outros é algo relevante, especialmente em um contexto de mudanças climáticas. Dados do MapBiomas Água, apontam um país que seca. O Brasil perdeu, de 1991 até 2020, cerca de 15,7% da superfície de água que possuía, o equivalente a 3,1 milhões de hectares. O Pantanal teve redução de 74% da superfície de água, e a Amazônia, de cerca de 13%.

    Mas, voltando ao IIAA, para se fazer um índice, são imputados determinados pesos para diferentes elementos que o compõem. As hidrelétricas tiveram o maior peso, explicando, assim, o motivo de áreas mais impactadas serem, em geral, próximas a essas estruturas.

    Segundo Cecília Gontijo Leal, consultora científica do Aquazônia e pesquisadora da USP, isso não é à toa. “Uma hidrelétrica é uma alteração completamente drástica em um curso d’agua”, afirma. “Não tínhamos dúvida. O consenso é que hidrelétricas e barramentos são o que pode acontecer de mais drástico em um rio.”

    Apesar de o impacto dessa forma de geração de energia não ser algo necessariamente surpreendente, algumas surpresas surgiram. Gontijo Leal aponta que, pelo índice, é possível ver que, quando há hidrelétricas, outros fatores de impacto se somam, aumentando o peso dessa estrutura na equação.

    “Um impacto pode potencializar os efeitos de outro e, nos sistemas biológicos, está tudo muito interligado”, afirma a pesquisadora.

    Gontijo Leal e Medaglia questionam os licenciamentos individualizados das hidrelétricas, sem uma avaliação integrada com outras dessas estruturas e considerando efeitos cumulativos. “Licenciar uma por uma é muito fácil”, diz a cientista.

    Segundo o coordenador do Aquazônia, é preciso tomar cuidado com a máxima de que hidrelétricas são sempre soluções positivas. “Não é que não pode construir usina, mas é construir com estratégia, o que precisa englobar não só a produção de energia, como também serviços ecossistêmicos e os processos naturais dos rios. Tem vários estudos que demonstram que os estudos de impacto deveriam ser melhores e podem ser melhores. Existem métricas para isso.”

    Apesar de o mapa aquático dos impactos na Amazônia já estar bem colorido, os dados do projeto ainda não estão completos. Mas isso por falta de informações confiáveis e de qualidade para pontos como pesca e contaminação por agrotóxicos.

    Um dos objetivos da iniciativa, inclusive, é ajudar a trazer ao debate público a necessidade de mais dados sobre a saúde dos rios da Amazônia e as lacunas científicas e legislativas relacionadas ao assunto, diz Medaglia.

    “São dados importantes que precisaríamos incluir, mas eles não existem. O índice deve estar subestimando o que acontece”, diz Gontijo Leal.

    A pesquisadora da USP faz ainda outra ressalva. O IIAA aponta somente a distribuição das ameaças. Ou seja, não foi feita uma análise qualitativa das águas das bacias da Amazônia ou os possíveis impactos sobre a biodiversidade local, por exemplo.

    Folha enviou questionamentos para os ministérios do Meio Ambiente, de Minas e Energia, de Infraestrutura, para a Ana (Agência Nacional de Águas) e para a ANM (Agência Nacional de Mineração).

    Somente a Ana respondeu até a publicação desta reportagem. A agência afirma que ainda não tomou conhecimento do índice e que, no “processo de emissão da outorgas de direito de uso de recursos hídricos para águas da União (interestaduais e transfronteiriças), a Ana considera condicionantes ambientais do Ibama ou do respectivo órgão ambiental competente”.

    https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2022/05/na-amazonia-20-das-bacias-sofrem-alto-impacto-de-atividades-humanas.shtml

    Questões

    1. Explique o contexto político e econômico da criação da ANA (Agencia Nacional de Águas).

    2. Aponte impactos ambientais ligados as seguintes atividades na Amazônia:

    • Construção de rodovias
    • Construção de Hidrelétricas
    • Garimpo
    • Mineração
    • Agropecuária

    3. O que são microbacias hidrográficas?

    4. Como se formam os “rios voadores”? E qual o seu papel nos climas do Sudeste e Centro Oeste do Brasil?

    ‘Rio voador’, o fenômeno que ajuda a explicar as tempestades de verão no Brasil

    Domínio Amazônico

    Amazônia: soberania e direito amazônico

    Prof Luciano Mannarino

  • Por que Toyota, Ford e outras montadoras fugiram do ABC Paulista? (EM13CHS202)

    EM13CHS202    
    Analisar e avaliar os impactos das tecnologias na estruturação e nas dinâmicas de grupos, povos e sociedades contemporâneos (fluxos populacionais, financeiros, de mercadorias, de informações, de valores éticos e culturais etc.), bem como suas interferências nas decisões políticas, sociais, ambientais, econômicas e culturais.

    Fechada em 2019, fábrica da Ford é desmontada em São Bernardo do Campo (SP); espaço dará lugar a centro de logística

    Do UOL, em São Paulo (SP) 11/04/2022 04h00

    Formado por sete municípios da Região Metropolitana de São Paulo, o ABC é considerado o berço da indústria automotiva brasileira e chegou a abrigar quase a totalidade das fábricas de veículos instaladas no País entre as décadas de 1950 e 1970. Contudo, já faz tempo que o ABC já não tem a mesma relevância. Ao longo das últimas décadas, montadoras têm direcionado investimentos para outras localidades do Brasil e algumas, inclusive, decidiram fechar as fábricas que mantinham no histórico polo industrial paulista.

    Fechada em 2019, fábrica da Ford é desmontada em São Bernardo do Campo (SP); espaço dará lugar a centro de logística

    Neste mês, a Toyota anunciou o fechamento da sua fábrica em São Bernardo do Campo, uma das principais cidades do ABC, ao lado de Santo André e São Caetano do Sul. Inaugurada há 60 anos, a linha de produção era a primeira aberta pela marca oriental fora do território japonês. Além disso, em 2019 a Ford fechou sua fábrica no mesmo município, cujo terreno foi vendido e dará lugar a um centro de logística – após ter a aquisição descartada por montadoras…

    UOL Carros consultou especialistas para explicar os motivos dessa “fuga” do ABC – com a ressalva de que a região segue com fábricas de importantes montadoras, como General Motors, Mercedes-Benz, Scania e Volkswagen, que recentemente anunciaram investimentos bilionários para modernizar e ampliar a produção das respectivas unidades ali instaladas..

    Especificamente em relação às fábricas de Toyota e Ford, ouvimos que ambas tiveram o fechamento decretado por estarem defasadas tecnologicamente e não compensarem aporte de novos recursos para sua atualização. No caso da Toyota, a empresa decidiu transferir as atividades de São Bernardo para suas linhas mais recentes em Indaiatuba, Porto Feliz e Sorocaba, no interior paulista, com a justificativa de buscar mais “sinergia” e competitividade no mercado local.

    A unidade do ABC não produz veículos desde 2001, quando o Bandeirante saiu de linha, e hoje fabrica peças de motores. A previsão é de que feche definitivamente as portas no ano que vem.

    Já o adeus da fábrica da Ford em São Bernardo do Campo precedeu o fim das atividades em Taubaté (SP) e Camaçari (BA), no ano passado, quando a Oval Azul encerrou suas operações de manufatura em solo brasileiro. “Considero que, na visão da Toyota, o investimento para modernizar São Bernardo seria muito grande, levando em conta que a marca detém fábricas mais modernas e eficientes, nas quais já tem investido”, avalia Flavio Padovan, sócio da consultoria MRD Consulting e ex-executivo de montadoras como Ford, Volkswagen e Jaguar Land Rover..

    Em relação à Ford, Padovan entende que o fechamento já fazia parte dos planos de encerrar a produção no País. “Ainda assim, não dá para ignorar que a unidade do ABC era ineficiente e antiga, representava um custo morto, sem trazer benefício”.

    Guerra fiscal pulveriza investimentos.

    Segundo o consultor, não é coincidência o fato de as linhas de Toyota e Ford serem as mais defasadas das duas companhias. que, atraídas por vantagens tributárias e imobiliárias, já direcionavam os gastos para fora daquela região. “Assim como Detroit, nos EUA, o ABC foi o primeiro polo automotivo do seu país. Só que, ao longo dos anos, outros Estados e cidades iniciaram uma guerra fiscal e melhoraram a respectiva infraestrutura, enquanto as regiões pioneiras ficaram obsoletas para novos investimentos, que passaram a ficar restritos a companhias já ali consolidadas”.

    Desde os anos 1990, montadoras que ainda não produziam no Brasil preferiram se instalar fora do ABC Paulista, enquanto marcas já instaladas aqui também decidiram erguer novas fábricas em outros locais. Toyota e Honda foram para o interior de São Paulo; Renault e Volkswagen construíram linhas em São José dos Pinhais (PR); Ford investiu em Camaçari (BA); General Motors escolheu Gravataí (RS) para fazer o Chevrolet Onix; Nissan e Peugeot/Citroën selecionaram respectivamente, Resende e Porto Real. no Rio de Janeiro; Jeep elegeu Goiana (PE); e muito antes, lá nos anos 1970, Fiat preferiu Betim (MG) para dar início à sua atividade industrial no Brasil.

    Inaugurada há 60 anos, fábrica da Toyota em São Bernardo vai encerrar atividades no fim do ano que vem.

    O também consultor Ricardo Bacellar, sócio fundador da Bacellar Advisory Boards e conselheiro da SAE Brasil, avalia que os municípios do ABC ainda reúnem localização estratégica e excelente malha rodoviária para atraírem novos aportes de montadoras. Contudo, na ponta do lápis, têm perdido para a concorrência.

    “Por conta da exigência cada vez maior de investimentos para a produção de veículos mais seguros e eficientes, associada a um momento de baixas vendas e falta de componentes, as montadoras têm sido pressionadas como nunca a buscar o melhor custo-benefício na hora de investir”, afirma Bacellar. Dentro desse cenário, diz o especialista, os incentivos fiscais têm sido o principal atrativo, sobretudo na hora de defnir o local para a fabricação de novos produtos.

    Fabrica da Renault em São José dos Pinhais (PR); não é de ontem que montadoras têm preferido outras regiões.

    “As vantagens fiscais têm sido tão importantes que a Jeep preferiu erguer do zero todo um polo automotivo em Pernambuco, incluindo a cadeia de fornecedores. O órgão mais sensível é sempre o bolso e nesse caso não foi diferente.”

    Sindicato afugenta montadora?

    O ABC Paulista também é o berço do sindicalismo no Brasil e até hoje tem entidades atuantes – dentre elas, a mais emblemática é o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que atualmente faz campanha contra o fechamento da fábrica da Toyota em São Bernardo do Campo.

    Trabalhadores mobilizados e com representatividade forte teriam motivado o afastamento de montadoras da região? Para Ricardo Bacellar, o poder de negociação dos sindicatos lá instalados já foi “muito grande” na época em que o ABC reunia quase todas as fabricantes de veículos do País.

    “De fato, a questão sindical pode influenciar na decisão de onde construir uma fábrica. Porém, a mobilização de funcionários sindicalizados não é exclusividade do ABC e acontece em outras cidades. Acredito que esse critério faça mais sentido em locais ainda sem indústria instalada”, opina. Por sua vez, Flavio Padovan diz que sindicato “pesa” na hora de uma empresa decidir onde gastar seu dinheiro, mas não é um fator decisivo.

    “É natural que o sindicato exerça o direito de lutar por sua categoria. Ao longo do tempo, à medida que determinada região vai se desenvolvendo, os trabalhadores inevitavelmente vão se organizando”

    Procuramos o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC para se manifestar sobre a influência da entidade sobre a migração de investimentos para fora da região. A entidade se manifestou por meio de nota, que fala especificamente da fábrica da Toyota.

    “O Sindicato tem pautado políticas públicas que promovam o crescimento do setor industrial e garantam que as fábricas existentes possam se manter e até receber investimento, porém nem o governo do Estado nem o governo federal têm se movimentado em defesa da indústria. Isso é falta de uma política industrial. O Brasil necessita urgentemente de uma política industrial para que o setor possa voltar a gerar empregos. O ABC é mais um reflexo disso”.

    Fechamento não é problema local’, diz prefeito de SBC Fábrica da Ford em São Bernardo do Campo é desmobilizada; nenhuma montadora quis comprar instalações Imagem: André Paixão/Primeira Marcha Segundo Orlando Morando (PSDB), prefeito de São Bernardo do Campo, o fechamento das fábricas da Toyota e da Ford e o direcionamento do investimento das montadoras para outras cidades e Estados não têm relação com sua gestão.

    “O problema é a falta de uma política pública de parte do governo federal para a geração e a manutenção de empregos, o que inclui a necessidade de reforma tributária. Da forma como está, o município fica engessado na sua capacidade de agir”,

    Especificamente em relação à instalação de fábricas de montadoras no interior paulista, Morando destaca que, desde a década de 1950, o valor dos terrenos e também o custo de vida nas cidades do ABC explodiram. “Hoje, o valor do metro quadrado na Região Metropolitana de São Paulo é infinitamente superior na comparação com o interior.

    Não há condição de doar terreno para montadoras”, pontua o prefeito. Ele acrescenta que, assim como no caso da Ford, sua gestão trabalha para que o terreno da Toyota seja vendido para “gerar empregos” e não para empreendimento residencial que gere “especulação imobiliária”. Morando finaliza, informando as iniciativas que sua gestão adotou para atrair projetos industriais de montadoras ou de outros setores: IPTU congelado e com desconto condicionado à geração de empregos; ISS fixado em 2%; e extinção da taxa de incêndio.

    https://www.uol.com.br/carros/noticias/redacao/2022/04/11/por-que-toyota-ford-e-outras-montadoras-fugiram-do-abc-paulista.htm

    Questões

    O que é uma deseconomia de aglomeração?

    O que seria a “guerra fiscal”?

    Explique o contexto político e econômico da chegada das montadoras de automóveis a partir da década de 1950 no Brasil?

    O texto menciona uma outra localidade no mundo que passou por esse processo? Justifique.

    Prof Luciano Mannarino