Categoria: Brasil

  • Brasil deveria entrar na ‘nova rota da seda’ da China? Talvez já esteja

    Brasil deveria entrar na ‘nova rota da seda’ da China? Talvez já esteja

    15.maio.2021 às 14h57

    Vista aérea de barragem financiada pela China no Equador. Federico Rios Escobar/The New York Times

    Igor Patrick

    Os números alardeados pela propaganda oficial impressionam: 70 países participantes, US$ 690 bilhões em investimentos e um longo cinturão conectando o leste asiático à Europa, África e, mais recentemente, à América Latina.

    Sob vários ângulos, a “nova rota da seda da China” —oficialmente “Iniciativa do Cinturão e Rota”— tinha tudo para se tornar o projeto do século, o ponto de virada que tornaria Pequim um grande centro do comércio internacional.

    O cancelamento de acordos assinados pela Austrália com a iniciativa e as dúvidas quanto à capacidade de economias de menor porte honrarem débitos contraídos com os bancos chineses, porém, acenderam o alerta amarelo: faz sentido para o Brasil se juntar ao pacote bilionário de infraestrutura?

    Anunciado em um discurso do líder chinês Xi Jinping no Cazaquistão, o projeto surgiu com menos coesão do que faz parecer o governo. Falando a estudantes da Universidade Nazarbayev, Xi pregou o “estreitamento dos laços econômicos, o aprofundamento da cooperação e a expansão do espaço de desenvolvimento na região da Eurásia. Devemos adotar uma abordagem inovadora e construir em conjunto um cinturão econômico ao longo da Rota da Seda”, disse ele, em referência ao lendário trajeto que ligava a Ásia à Europa por volta de 200 a.C.

    Membro sênior do John L. Thornton China Center do Brookings Institution, David Dollar era emissário do Tesouro americano na embaixada dos EUA em Pequim à época do discurso. Em entrevista à Folha, ele conta que a criação da marca “nova rota da seda” foi menos um projeto novo e mais uma forma de dar coesão a uma série de iniciativas que a China já vinha desenvolvendo desde que começou a internacionalização de empresas nacionais e o fortalecimento de laços diplomáticos estratégicos.

    “Eles já estavam desenvolvendo vários projetos no exterior desde 2008, e Xi Jinping criou uma marca para algo que já existia. Surpreendentemente, a reação da imprensa ocidental a esse discurso e o destaque que os jornais deram ao termo [nova rota da seda] foram os prováveis fatores a consolidar a iniciativa para os chineses. Já naquela época era, sem dúvidas, um importante pacote de incentivos econômicos voltados ao desenvolvimento, mas o slogan político ajudou a dar credibilidade”, opina o economista.

    Chineses visitam exposição sobre Iniciativa do Cinturão e Rota durante conferência organizada pelo Ministério dos Recursos Humanos. OIT/Divulgação

    A impressão de que a Iniciativa do Cinturão e Rota surgiu mais como uma campanha publicitária do que um projeto bem delineado talvez ajude a explicar as evidências coletadas por Dollar nos anos seguintes ao anúncio de Xi.

    Acompanhando o desenvolvimento do projeto, o economista conta que, a despeito dos anúncios grandiosos, os países que resolveram aderir ao projeto não receberam maiores investimentos chineses — em comparação com as economias que decidiram não se juntar à rota.

    “Se você pegar os discursos oficiais de Xi e os documentos chineses, é sempre possível encontrar referências ao Cinturão e Rota como o coração de uma grande estratégia conectando a Ásia Central à Europa e à África, seja por terra ou pelo mar. Porém, a maior parte dos investimentos chineses em infraestrutura não está concentrada neste corredor. O Brasil e vários países africanos, por exemplo, receberam muito mais dinheiro, mesmo que nem todos estejam oficialmente ligados ao projeto chinês.”

    Diplomacia flexível

    Pesquisadores dos investimentos estrangeiros no Brasil, os professores Fábio Morosini da UFRGS e Michelle Ratton Sanchez, da FGV-SP, acompanham há anos o linguajar jurídico dos contratos assinados por empresas chinesas. Conduzindo um levantamento sobre a participação da China no setor de energia elétrica brasileiro, eles avaliam que a indiferença quanto a aderir ou não a Iniciativa do Cinturão e Rota se dá pelo dinamismo dos acordos selados pelos chineses.

    “Existe uma discussão grande sobre o que é o modelo de cooperação dos Estados Unidos, ou como funcionam os marcos regulatórios da União Europeia. Percebemos que parece não haver um modelo chinês. Há flexibilidade para adaptar negócios, o que possibilita entrar em mercados diferentes, avaliando as ferramentas regulatórias e sensibilizando as estratégias de acordo com o ambiente jurídico local”, afirma Sanchez.

    Além disso, segundo Morosini, comparações preliminares entre os acordos da Iniciativa assinados com países asiáticos ou europeus e os memorandos em vigor no Brasil parecem não trazer grandes diferenças.

    O professor afirma que o Brasil já consolidou a posição de principal destino de investimentos chineses na América Latina e maior parceiro comercial de Pequim na região, dinâmica que uma negativa à Iniciativa do Cinturão e Rota dificilmente mudaria.

    “Estudamos acordos bilaterais assinados entre 2005 e 2018, o que nos permitiu concluir que o tipo de linguagem e as áreas estratégicas previstas nas relações sino-brasileiras são quase iguais [aos da Iniciativa do Cinturão e Rota]”, diz Morosini. “A provocação que fazemos é: será que ainda faz sentido debater se vale se juntar ou não à Iniciativa quando a China já conseguiu entrar no Brasil, digamos assim, utilizando de instrumentos jurídicos tão parecidos?”

    Iniciativa avança pela América Latina

    Se para o Brasil o debate não parece mais fazer sentido, outros países latino-americanos enxergam o projeto chinês como um farol de possíveis investimentos na região.

    Nos memorandos de entendimento, promessas para a construção de grandiosos projetos de infraestrutura ajudam a seduzir economias menos robustas, com menores ofertas de investimento estrangeiro direto disponíveis. A realidade, contudo, mostra que a diplomacia chinesa tem encontrado dificuldade em viabilizar esses projetos e ainda não conseguiu “encher os olhos” dos países mais representativos na região.

    Países na América Latina signatários da ‘nova rota da seda’ chinesa

    Pesquisador associado ao Instituto Internacional de Estudos Asiáticos da Universidade de Leiden, Rafael Abrão conta que, originalmente, a América Latina não seria incluída no projeto chinês, mas se tornou integrante por uma demanda dos países locais, ávidos por dinheiro chinês.

    Sem grande planejamento de antemão, os chineses anunciaram a chegada do projeto à região trazendo poucos investimentos novos e renomeando iniciativas antigas —e algumas até já concluídas— como parte do Cinturão e Rota.

    “Os chineses vêm ampliando a relevância na região há muito tempo e a América Latina é essencial ao desenvolvimento deles, à medida em que se consolida como a principal fonte de commodities. Tem um pouco de propaganda [na Iniciativa], mas parece haver também um desejo genuíno de impulsionar uma infraestrutura que facilite o escoamento e a exportação dessas mercadorias para a China”, afirma Abrão.

    O pesquisador destaca que todos os países latinos possuem déficits de infraestrutura e podem se beneficiar de possíveis parcerias com os chineses, embora seja necessário avaliar os riscos. Recentemente, a construção mal planejada de hidrelétricas no Equador usando dinheiro chinês deixou Quito em débito com o país, que agora quer ser ressarcido com petróleo, como previa o contrato inicial.

    O fracasso do investimento prejudicou a imagem da China entre equatorianos e fez ressurgir o temor da “armadilha da dívida”, usada por países europeus e pelos EUA para acusar Pequim de coagir economias frágeis a assumirem grandes empréstimos, exigindo concessões quando não conseguem receber de volta o dinheiro.

    “Esse risco não é recente e não se restringe à China. A própria Argentina está em uma situação bem delicada com o dinheiro que pegou do FMI. Mesmo assim, é importante que os países sejam responsáveis ao assumir compromissos de longo prazo com bancos chineses”, aconselha Abrão.

    Dollar segue o mesmo entendimento. “Não gosto desse conceito de ‘armadilha da dívida’ porque não acredito nem por um segundo que chineses emprestam dinheiro já na expectativa de levar um calote. Se estes exemplos nos dizem algo, é que bancos chineses têm feito um trabalho ruim na análise de risco e que os países precisam escolher levantar projetos sustentáveis”.

    Prof Luciano Mannarino

  • As pontes do Acre existem e unirão a região mais dinâmica do Brasil ao Pacífico

    As pontes do Acre existem e unirão a região mais dinâmica do Brasil ao Pacífico

    Obra conectará a capital do Acre a outras capitais sem a necessidade de balsa

    7.mai.2021 às 10h57

    Pedro Silva Barros

    É economista. Trabalha no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea (Brasília). Foi Diretor de Assuntos Econômicos da União de Nações Sul-Americanas (Unasul). Doutor em Integração Latino-Americana pela USP.

    O Acre foi a última grande expansão territorial do Brasil. Comprado da Bolívia no início do século 20, faz fronteira também com o Peru. Nos últimos anos, foi comum em diferentes regiões do Brasil, a expressão “o Acre não existe”. Convertida em piadas e memes, refletia de forma pejorativa sua pequena população, economia de baixa complexidade, infraestrutura deficiente e, sobretudo, a ignorância de regiões decadentes que tem dificuldade de conhecer o próprio país.

    As notícias do Acre para o grande público brasileiro nos últimos anos se resumiram às suas constantes inundações e a nova rota de migração. Ambos os fenômenos têm relação direta com as pontes do estado, que terão novo protagonismo devido à profunda mudança geoeconômica que o Brasil está passando.

    Nesta sexta-feira (7) será inaugurada pelo presidente Bolsonaro a ponte do Abunã, em Rondônia. A obra de 1,9 km sobre o rio Madeira conectará pela primeira vez a capital do Acre a outras capitais do país sem a necessidade de balsa.

    Ponte do Madeira, na região do Abunã, em Rondônia, que liga o Acre por estrada – Pedro Devani / Secom

    A decisão de construí-la foi da presidenta Dilma Rousseff em 2014, durante uma cheia que deixou Rio Branco, capital do Acre, isolada das demais capitais do Brasil por 90 dias. A crítica situação para os acrianos naquele momento foi amenizada pelas pontes de Epitaciolândia e Assis Brasil. Inauguradas em 2004 e 2006, ligaram o Acre à Bolívia e ao Peru, respectivamente. Essas pontes construídas no governo Lula juntas com a pavimentação da BR-317 até Assis Brasil, realizada no governo Fernando Henrique Cardoso, garantiram o fornecimento de combustível peruano e alimentos bolivianos para os acreanos.

    DO SONHO À DESILUSÃO EM UMA DÉCADA

    Também foi o caminho para milhares de haitianos que migraram para o Brasil após o terremoto de Porto Príncipe em 2010. Eles chagavam depois de longas viagens. Partiam por via aérea para o Equador, com escala no Panamá. Depois seguiam por terra pelo Peru para ingressarem no Brasil via Acre. A avançada política migratória equatoriana e o bom desempenho econômico do Brasil tornavam essa rota atraente. Em 14 fevereiro de 2021, os estrangeiros na ponte binacional entre Assis Brasil e Iñapari foram novamente notícia.

    Quatrocentos deles, em sua maioria haitianos, mas também oriundos de países da costa oeste africana e de países indostânicos, que vieram de diferentes estados brasileiros após estadia de períodos variados no país. Devido à restrição de entrada de estrangeiros no Peru, em decorrência da pandemia da Covid-19, os migrantes foram impedidos de ingressar no país vizinho, a fim de continuar seus projetos migratórios. Bloquearam a ponte por vários dias. Deixaram o Brasil sem ver inaugurada a ponte do Abunã. Talvez pela desilusão com a crise de saúde pública ou o aumento do desemprego.

    Faltava pouco. No final do governo Michel Temer, em dezembro de 2018, 85% da ponte do Abunã já estava pronta e a expectativa era que a inauguração fosse em agosto de 2019. Após atrasos, aditivos e alguns adiamentos, e 117 anos depois do Tratado de Petrópolis que formalizou o acordo entre Brasil e Bolívia para que o Acre formasse parte do território brasileiro, este estado estará interconectado por estradas ao Atlântico. Tão importante quanto, Rondônia, sul do Amazonas e noroeste de Mato Grosso terão um caminho totalmente pavimentado ao Pacífico.

     Cheia do Rio Tarauacá, na cidade que leva o mesmo nome, no Acre
    Cheia do Rio Tarauacá, na cidade que leva o mesmo nome, no Acre Rafael Dias


    MARCHA PARA OESTE

    O Brasil caminha para Oeste na economia, na demografia e principalmente nas exportações. A atual fase dessa marcha é consequência do abandono industrial interno e da transição do centro dinâmico da economia mundial do Atlântico Norte à Ásia-Pacífico.

    Ao se isolar politicamente da América do Sul e desmontar o apoio estatal à internacionalização de suas empresas, o Brasil aprofundou a crise de seu setor industrial cambaleado pelo baixo crescimento interno. Não à toa, Brasil e Argentina foram os dois países cujo setor industrial mais perdeu peso relativo no mundo nos últimos cinco anos. O futuro produtivo do país parece não estar mais concentrado no Atlântico.

    Entre 2000 e 2010 todas as regiões do Brasil cresceram e as exportações per capita nominais se multiplicaram por mais de três, passando de US$ 324 para US$ 1.051. Em 2020, as exportações per capita do conjunto do Brasil haviam recuado para US$ 988. Mas o comportamento entre os estados é muito discrepante. São Paulo, líder em exportações industriais, exportava US$ 19 bilhões em 2000, atingiu US$ 59 bilhões em 2011 e regrediu a US$ 42 bilhões em 2020. Já Mato Grosso exportou US$ 1 bilhão em 2000 e US$ 18 bilhões em 2020, aumentando suas vendas externas concentradas no agronegócio ininterruptamente ano após ano.

    Nos últimos 20 anos, o comércio mundial triplicou seu valor nominal em dólares, as exportações da China multiplicaram seu valor por dez e as vendas externas de Mato Grosso aumentaram 18 vezes. Na proporção per capita, um mato-grossense exportou em média US$ 5.170 em 2020 enquanto um chinês exportou US$ 1.799.

    CUSTOS AMBIENTAIS

    A expansão da fronteira agrícola em direção ao norte e oeste veio acompanhada de altos custos ambientais e mudanças logísticas. Mato Grosso só esteve atrás do Pará em desmatamento nos últimos anos e parte significativa da produção agrícola do estado se dá em terras devastadas ilegalmente.

    A dinâmica tem sido desmatamento, aumento da exploração de madeira, seguida do crescimento da produção pecuária e, depois, da expansão das áreas de cultivo de grãos. Esse movimento avança em direção a Rondônia e ao Acre. Em 2000, Rondônia exportava apenas US$ 43 nominais per capita, sendo 90% madeira. Em 2020 foram US$ 764 por rondoniense, 52% só de carnes, 30% de soja e menos de 5% de madeira.

    Mas a saída pelos portos do Atlântico, cada vez mais longe da produção, tira competitividade da carne brasileira. A carne fresca e refrigerada tem um valor médio no mercado mundial 20% superior ao da carne congelada. O Brasil responde sozinho por 19,9% das exportações mundiais de carne congelada, mas apenas por 3,7% das carnes frescas e refrigeradas. As carnes de maior valor da fronteira ocidental brasileira serão muito mais competitivas nos mercados da Ásia-Pacífico se cruzarem os Andes por terra. Não apenas pelo custo, mas principalmente pelo tempo.

    CAMINHO MAIS CURTO

    Por vias pavimentadas, o distrito de Abunã, em Rondônia, está a 1.734 km do porto de Matarani, na costa do Pacífico peruano, e a 3.274 km do porto de Santos ou a 2.784 de Belém, Pará. Já a fronteiriça Assis Brasil, no Acre, está a 1.164 km de Matarani, 3.357 km de Belém e a 3.864 km de Santos. E Matarani está a alguns milhares de milhas náuticas mais próxima do Japão do que Santos ou Belém. Os dias economizados no trajeto pelos portos do Pacífico podem garantir acesso rápido de produtos refrigerados à Ásia, mercado que via Atlântico o Brasil só alcança em commodities e congelados. Para isso é necessário escala e logística.

    A saída pelo Pacífico pode ser o caminho para agregar mais valor às exportações do Centro-Oeste e, principalmente, da Amacro, acrônimo referente à área da que congrega o sul do Amazonas, o leste do Acre e o noroeste de Rondônia, próximos à tríplice fronteira entre Brasil, Bolívia e o Peru. O Acre está prestes a viver uma grande transformação, de magnitude similar a que ocorreu em Mato Grosso e que está em curso em Rondônia. O desafio é aprender rapidamente para evitar as externalidades negativas da expansão agrícola de Mato Grosso e do Matopiba (parte do Maranhão, Tocantins, Piauí e Oeste da Bahia), reforçar o uso organizado e consciente do solo e coibir a devastação ilegal.

    No caso do Matopiba, o conceito surgiu após a realidade econômica se impor com altos custos ambientais e aproveitamento limitado dos benefícios sociais do aumento da produção. Na Amacro é possível definir o modelo de desenvolvimento no início da nova realidade econômica e seu planejamento será mais satisfatório se incluir a conexão com o Pacífico.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/latinoamerica21/2021/05/as-pontes-do-acre-existem-e-unirao-a-regiao-mais-dinamica-do-brasil-ao-pacifico.shtml

    Questão

    1 O que o autor quer dizer quando afirma que o “futuro produtivo parece não estar mais concentrado no Atlântico”?

    2 O que são países indostânicos? Explique

    3 De que forma a pauta de exportação do Estado de Rondônia entre 2000 e 2020 caracteriza o avanço da fronteira agropecuária na região?

    4 A saída pelo pacífico vai agregar valor as nossas exportações no setor agropecuário? Justifique.

    5 Estabeleça diferenças entre a Amacro e a Matopiba!!

    ACRE. UMA BREVE HISTÓRIA

    NO AGRONEGÓCIO, PRESERVAÇÃO E PRODUÇÃO DEVEM ANDAR JUNTAS

    Prof Luciano Mannarino

  • Terremoto de magnitude 4,7 atinge cidades da região norte do Brasil

    Terremoto de magnitude 4,7 atinge cidades da região norte do Brasil

    Epicentro foi em Barcelos, no interior do Amazonas. Tremor foi sentido por moradores de Manaus

    Cristina Camargo

    SÃO PAULO

    Um terremoto de magnitude 4,7 foi registrado no início da madrugada desta quarta-feira (28) com epicentro em Barcelos, no interior do Amazonas, na divisa com Roraima. O tremor foi sentido também em Manaus, a 400 km de distância do epicentro. Barcelos, com 27 mil habitantes, fica às margens do rio Negro.

    “Aqui balançou bastante o lustre e meus cachorros começaram a latir um pouco antes”, relata a advogada e professora Alichelly Ventura, moradora do bairro Ponta Negra, na zona oeste de Manaus, perto da orla do rio Negro.

    Foi o segundo tremor sentido pela advogada este ano. No dia 31 de janeiro, moradores de Manaus notaram o reflexo de um terremoto de magnitude 5,7 na Guiana.

    Em janeiro, Alichelly sentiu a cama tremer e saiu do prédio em que mora junto com os vizinhos. Em outros bairros de Manaus os moradores fizeram a mesma coisa, com medo das consequências do terremoto.

    Nesta quarta-feira a situação foi menos assustadora. Segundo o USGS (Serviço Geológico dos Estados Unidos), o terremoto teve uma profundidade de dez quilômetros e foi um tremor com potencial para causar poucos danos perto do epicentro.

    Imagem do Serviço Geológico dos Estados Unidos mostra o epicentro do terremoto
    Imagem do Serviço Geológico dos Estados Unidos mostra o epicentro do terremoto – Reprodução

    Apesar do susto de moradores de Barcelos e de alguns bairros de Manaus, não há, até o momento, relatos de estragos ou de pessoas feridas.

    “É como se a gente estivesse tonta”, descreve a advogada moradora do bairro Ponta Negra. “Tenho medo porque moro em prédio e isso pode abalar as estruturas, dependendo da magnitude”.

    Em setembro de 2020, um terremoto de magnitude 6,9 foi registrado no oceano Atlântico, perto de Fernando de Noronha, no estado de Pernambuco. O epicentro foi localizado a cerca de 282 km a leste do arquipélago São Pedro e São Paulo, a 816 km a nordeste de Fernando de Noronha e também próximo a Natal (RN), Recife (PE) e Fortaleza (CE).

    Em agosto do mesmo ano, tremores de terra causaram pequenas avarias em imóveis e assustaram moradores em cidades do Recôncavo Baiano, Baixo-sul da Bahia e até em alguns bairros de Salvador.

    “Foi um susto para todo mundo. Aqui na cidade, registramos três tremores em sequência”, afirmou, na ocasião, o prefeito de Amargosa, Júlio Pinheiro (PT). Apesar do susto, não houve registro de feridos nem de danos físicos de maior proporção na cidade.

    https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2021/04/terremoto-de-magnitude-47-atinge-cidades-da-regiao-norte-do-brasil.shtml

    Questões

    De que forma o USGS (Serviço Geológico dos Estados Unidos) conseguiu monitorar esse evento sísmico no Brasil?

    O que representam as linhas vermelhas na figura usada na reportagem?

    Imagem do Serviço Geológico dos Estados Unidos mostra o epicentro do terremoto

    Por que o território brasileiro não apresenta abalos sísmicos de grandes intensidades?

    O que é epicentro de um terremoto?

    Terremotos!

    Namazu e os terremotos. (Atividade)

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    Prof Luciano Mannarino.

  • O que é o Censo? Entenda como a não realização dele afeta a nossa vida.

    O que é o Censo? Entenda como a não realização dele afeta a nossa vida.

    Giacomo Vicenzo Colaboração para Ecoa, em São Paulo (SP) 26/04/2021 15h07

    Você já ouviu falar do Censo Demográfico?

    Talvez já tenha recebido os recenseadores do IBGE, responsáveis pela pesquisa, em sua casa, ou já os notou circulando pelas vias da cidade nos anos em que o levantamento é feito. A pesquisa estava prevista para ser realizada este ano, mas na sexta (23) o governo anunciou que o orçamento de 2021 não terá recursos para realização. O IBGE já sinalizava o que estava por vir ainda em março, quando divulgou uma nota em que apontava que o corte previsto no projeto do orçamento iria impossibilitar que o Censo 2021 fosse realizado. O estudo já estava atrasado, pois geralmente é feito nos países de 10 em 10 anos e o último feito no Brasil, foi em 2010. Mas o que é o Censo Demográfico e como esse estudo afeta a nossa vida? Ecoa conversou com especialistas, um ex-ministro e profissionais que lidam com esses dados em diversas esferas para entender os impactos de sua não realização e explicar como funciona esse levantamento.

    O que é o Censo?

    O Censo Demográfico realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) é um levantamento estatístico que traz diversos dados populacionais, como por exemplo, socioeconômicos, de modo de vida de uma população e étnicos. Se hoje você sabe quantas pessoas moram em sua cidade e outros dados a respeito da população do país ou do entorno onde mora, pode ter certeza que o Censo foi um dos responsáveis diretos ou indiretos por esses estudos. “Censo é a contagem da população. Parece simples, mas é basicamente contar cada mestre pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e que atuou como pesquisador do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) por sete anos. “Alguns dados podem ser estimados, como o total da população, a partir de taxas de natalidade e mortalidade. Outros não. O censo de 2010 tinha um gabarito com mais de 100 perguntas, onde eram medidas as coisas mais diversas, desde a quantidade de eletrodomésticos de uma casa até a escolaridade dos moradores”, explica Moraes.

    Quando foi o primeiro Censo?

    À primeira vista a ideia de levantamento demográfico nos parece algo relativamente novo e uma ferramenta das sociedades modernas, mas a verdade é que se chegamos até aqui com o número de informações e conhecimentos populacionais que detemos, é porque esse tipo de estudo já era feito no passado e foi sendo modernizado e adequado ao longo do tempo. A primeira concepção de Censo Demográfico surgiu há muitos anos atrás, como explica Paulo de Martino Jannuzzi, professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE) do IBGE a Ecoa: “O Censo Demográfico é o principal levantamento estatístico de qualquer país. Sua existência tem mais de 2 mil anos, pois contar o total populacional é algo que data em registros dos tempos bíblicos e sempre foi importante para que se tenha um dimensionamento da população [na época] para o exército e para fins fiscais”, explica Jannuzzi.

    O professor lembra que naturalmente os censos vão se sofisticando ao longo do tempo e ficando cada vez mais importantes. “Na Revolução Francesa e na Revolução Americana se tem a menção específica sobre censos como um instrumento para poder definir a representação [política] de cada região”, explica. Ao longo do tempo, o estudo passou a ter muitas outras funções, além da simples contagem populacional e hoje são um instrumento fundamental para retratar as sociedades ao longo de suas histórias. “Essa já é uma realidade desde o final do século 19, quando os questionários do censo começaram a levantar uma série de informações importantíssimas para o reconhecimento da identidade nacional”, ressalta Jannuzzi. O primeiro Censo Demográfico brasileiro foi em 1872 e o estudo ocorreu, de certa forma, com 20 anos de atraso, pois uma parcela da sociedade se opunha à realização do levantamento.

    Esse foi o primeiro e último da época do Império e era para ter sido feito em 1852, mas os latifundiários foram resistentes à realização do censo, pois, obviamente, a pesquisa iria mapear a quantidade de escravos e, portanto, identificaria as bases tributárias para reincidir impostos para o financiamento do Império”, explica Jannuzzi O professor ainda lembra que o Censo de 1872 já trazia informações sobre religião, ocupação, raça [como era entendida nesta época – alforriado, escravo e branco] e deficiência. “De lá para cá, as coisas se sofisticaram e a partir de 1960 com a introdução da técnica de amostragem, se tem a possibilidade de se detalhar ainda mais”, explica.

    Qual a importância do Censo atualmente?

    Nelson Teich -                                 REPRODUÇÃO/MINISTÉRIO DA SAÚDE                              -                                 REPRODUÇÃO/MINISTÉRIO DA SAÚDE
    Teich ficou no cargo de ministro da Saúde por menos de um mês Imagem: REPRODUÇÃO/MINISTÉRIO DA SAÚDE

    Já entendemos como o Censo funciona, uma coleta de dados e informações que são capazes de retratar uma sociedade e mostrar suas mais diversas nuances. No Brasil, com 28% dos domicílios sem acesso à internet, o estudo passa longe das possibilidades de ser feito de forma online e usa a visita dos recenseadores para coletar dados dos mais diversos e tem o objetivo de mapear por igual o país.

    Mas qual a importância de se fazer esse levantamento ainda hoje?

    Moraes explica que ele é um norte fundamental ao Estado brasileiro na hora de criar políticas públicas. “O Fundo de Participação dos Municípios utiliza os dados do Censo para calcular quanto cada município tem a receber”, comenta. “Pensando em um exemplo atual, quando o Ministério da Saúde calcula qual o público-alvo de uma campanha de vacinação, utiliza-se os dados do Censo. Se sabemos que na cidade ‘X’ tem uma quantidade ‘Y’ de pessoas com mais de 60 anos, é porque houve um Censo que contou aquela população”, completa Nelson Teich, ex-Ministro da Saúde e médico oncologista explica, em entrevista a Ecoa, que os dados do Censo são como ter um diagnóstico do que está acontecendo com o país. “Sem esses dados, não se consegue dimensionar e nem diagnosticar os problemas para que se aloque as verbas de forma eficaz e se crie políticas públicas.

    É preciso lembrar que todos os recursos são finitos”, comenta Teich. Ainda que existam outros estudos, a importância do Censo é primordial no sentido de apresentar justamente diferenças entre regiões e populações. “Não se pode trabalhar um país na média, é preciso conhecer as características da Nelson Teich, ex-Ministro da Saúde e médico oncologista explica, em entrevista a Ecoa, que os dados do Censo são como ter um diagnóstico do que está acontecendo com o país. “Sem esses dados, não se consegue dimensionar e nem diagnosticar os problemas para que se aloque as verbas de forma eficaz e se crie políticas públicas. É preciso lembrar que todos os recursos são finitos”, comenta Teich.

    Ainda que existam outros estudos, a importância do Censo é primordial no sentido de apresentar justamente diferenças entre regiões e populações. “Não se pode trabalhar um país na média, é preciso conhecer as características das pessoas e os lugares. Até mesmo em países pequenos se encontra situações muito heterogêneas”, defende o ex-ministro de Saúde “Quando se tem a informação detalhada, se obriga que o gestor trabalhe, pois se tem o diagnóstico exato do que é preciso fazer”, completa.

    Como seria um Brasil sem Censo para sempre?

    Toda política pública é criada baseada nas necessidades da população, mas para conhecer essas necessidades é preciso ter dados às mãos. O ex-ministro da saúde Teich afirma que a pandemia de covid-19 mostrou que essa incapacidade de gerar informações levou a uma necessidade de se criar ações baseadas em intuições e não em diagnósticos reais dos problemas. “Sem dados se criam políticas públicas com base na impressão, não se sabe se está criando algo efetivo”, diz. “É como chegar a um lugar em que há muito câncer de pulmão e descobrir que quem usa isqueiro têm mais câncer. É claro que não é isqueiro, é cigarro. Mas sem essa informação, corre-se o risco de fazer uma campanha de política pública contra o isqueiro”, comenta Teich

    Mais do que navegar às cegas e encarcerar os vendedores de isqueiros em um Brasil hipotético, sem esses dados, o país não teria conseguido focalizar políticas públicas de segurança alimentar de forma bem orientada, que garantiram a saída do Mapa da Fome. “Ter mapeado a população em extrema pobreza nos Censos de 2000 e de 2010, trouxe a garantia de uma boa focalização em programas como o Bolsa Família, que fez com que as ações de segurança alimentar e assistência social se dirigissem aos bolsões de extrema pobreza na zona rural e nas periferias urbanas com um nível de qualidade técnica e precisão muito bom, que fez com que o Cadastro Único pudesse refletir esse mapeamento e auxiliasse na saída do Mapa da Fome”, comenta Jannuzzi. Adiado para 2022, a possível aceitação do estudo por uma parcela da sociedade preocupa o pesquisador. “O discurso contra o Censo é um sentimento que pode pegar em determinados segmentos, que podem não querer participar da pesquisa.

    Da mesma forma que se pregou a contra a vacina, talvez ano que vem tenhamos um movimento muito ruim em relação a isso”, avalia. “O Censo é uma realização técnica, mas que tem motivação política. O estudo traz um reconhecimento da identidade nacional. O fato de não se priorizar o estudo mostra que estamos em um momento muito diferente de outros da história do Brasil”, completa Jannuzzi.

    https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2021/04/26/o-que-e-o-censo-entenda-como-a-nao-realizacao-dele-afeta-a-nossa-vida.htm

  • Energia insustentável

    Energia insustentável

    POLÍTICAS PÚBLICAS 

    Para além do investimento financeiro, estudiosos veem no alto custo social e ambiental empecilho para expansão hidrelétrica na Amazônia

    Operário trabalha na construção de casa de força da hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira (PA), em 2013 Lalo de Almeida / Folhapress

    Domingos Zaparolli

    Edição 284
    out. 2019

    A Bacia Amazônica, que em território brasileiro ocupa 3,8 milhões de quilômetros quadrados em sete estados e responde por mais de 60% de toda a disponibilidade hídrica do país, é considerada a área com maior potencial para a expansão da geração hidrelétrica no Plano Nacional de Energia (PNE) elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia. Estudos recentes sobre os impactos socioambientais da construção de hidrelétricas na região e a capacidade de essas usinas gerarem os resultados pretendidos ao longo de sua vida útil, porém, sugerem cautela.

    “As hidrelétricas amazônicas só são economicamente competitivas com outras fontes de energia se não são computados os custos sociais e ambientais, os custos de sua eventual remoção, se o cálculo é feito com base no custo da energia instalada e não na energia efetivamente produzida, e se não são considerados os custos de uma justa compensação, que são transferidos para a sociedade”, afirma Emilio Moran, professor de antropologia, geografia e ciências ambientais na Universidade Estadual de Michigan (MSU), nos Estados Unidos, e na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Moran coordenou equipe multidisciplinar formada por professores e pesquisadores das áreas da saúde, geografia, antropologia, economia agrícola e ambiental da Unicamp, da MSU, das universidades federais do Pará (UFPA), Rio Grande do Sul (UFRGS) e Santa Catarina (UFSC), e da suíça St. Gallen. Eles foram a campo no sudoeste do Pará com o objetivo de avaliar os impactos socioambientais gerados pela construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu. Os resultados foram divulgados no final de agosto, em evento realizado em São Paulo.

    A pesquisa constatou que a usina hidrelétrica gerou danos para a biodiversidade pesqueira local e para a população de Altamira e Vitória do Xingu, cidades paraenses vizinhas à obra. Aumento do custo de vida, queda na renda de ribeirinhos e agricultores familiares, diminuição da pesca, piora em indicadores da saúde, saneamento deficitário e aumento da violência são alguns dos danos observados. “O que ocorreu em Belo Monte era previsível, já havia ocorrido antes em outros projetos hidrelétricos. Só demonstra que o Estado continua permitindo os mesmos erros que cometia há 40 anos”, diz Moran, referindo-se aos impactos socioambientais registrados nos anos 1970 e 1980 na construção das usinas hidrelétricas de Tucuruí, no rio Tocantins, e Balbina, no rio Uatumã, afluente do Amazonas, e não devidamente considerados na construção de Belo Monte.

    O Plano Nacional de Energia foi lançado em 2006 e recebeu sua atualização mais recente em 2018. Contém previsões de consumo e o mapeamento de oportunidades de expansão da oferta energética até 2050. Segundo o documento, dependendo da expansão econômica do país, a demanda por energia deverá crescer a um ritmo de 1,4% a 2,2% ao ano, no período. O potencial hidrelétrico brasileiro foi calculado em 176 mil megawatts (MW). Destes, 108 mil MW já estão disponíveis ou sendo providenciados em outras construções. Entre os demais 68 mil MW inventariados, 52 mil MW correspondem a projetos que envolvem a construção de usinas de médio e grande porte. Desse total, 64%, ou 33 mil MW, são previstos na Bacia Amazônica.

    Cotidiano fluvial: botijão de gás é transportado em barcoMaíra Fainguelernt

    Conhecedor da região Amazônica, onde trabalha desde 1978 como pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), e convidado do evento, o biólogo norte-americano Philip Martin Fearnside, um dos ganhadores do Prêmio Nobel da Paz em 2007 como membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), diz que o potencial hidrelétrico da Bacia Amazônica está superdimensionado e que os investimentos não trarão os resultados esperados. “Não estão considerando, por exemplo, os efeitos do aquecimento global que reduz as precipitações pluviométricas e consequentemente o fluxo de água nos rios”, alega.

    Fearnside cita um estudo realizado em 2015 pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), do governo federal, intitulado “Brasil 2040”, no qual são projetadas as consequências do aquecimento global para o clima do país. Para a região Amazônica, a projeção indica diminuição substancial das chuvas refletindo no volume de água dos rios e na capacidade de geração de hidreletricidade. Os impactos deverão ser diferentes para cada bacia hídrica. Nos cenários projetados, a capacidade de geração em Belo Monte, por exemplo, poderá ser reduzida entre 20% e 55%.

    A hidreletricidade é tida pela indústria do setor e por alguns especialistas como uma forma limpa de energia por não utilizar fontes fósseis como combustível. Fearnside considera essa percepção equivocada, principalmente em relação às hidrelétricas instaladas em regiões de floresta. “Há emissão de gases de efeito estufa em quantidades substanciais”, afirma. Estudos realizados pelo cientista indicam que os primeiros anos de atividade de uma hidrelétrica concentram grande emissão de dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O). Segundo ele, o tempo que uma hidrelétrica leva para gerar benefícios, reduzindo a emissão de gases de efeito estufa, é medido em décadas e varia de acordo com a localização, o tamanho e o perfil da área ocupada pela barragem. Em Belo Monte, com a primeira barragem planejada rio acima, o pesquisador estima que pode demorar 40 anos.

    Mãe e filha lavam roupas no rioMaíra Fainguelernt

    Dependência do rio Xingu
    O complexo hidrelétrico de Belo Monte é formado por duas casas de força, ou seja, são duas usinas, que somam 24 turbinas, totalizando uma capacidade instalada de 11,2 mil MW, que deverá ser alcançada no último trimestre deste ano com a entrada em funcionamento das quatro últimas turbinas. Com isso, a hidrelétrica passará a ocupar o posto de terceira maior do mundo em capacidade instalada. Mas não em produção efetiva. Em Belo Monte, a oferta de energia firme, aquela que pode ser assegurada, limita-se a 4,4 mil MW em média. A produção efetiva depende da vazão do rio Xingu. Nos meses de seca na região, entre junho e outubro, sua capacidade de geração é bastante reduzida.

    Belo Monte é uma usina a fio d’água, ou seja, seu reservatório foi projetado para permitir uma regularização do fluxo de água para poucos dias de operação e não para todo o período seco. Por isso, seu reservatório é quase três vezes menor do que o necessário em uma usina tradicional. Mesmo assim, soma 478 km² em duas represas interligadas por um canal de derivação com 20 km de extensão.

    Em janeiro de 2011, quando as obras em Belo Monte foram iniciadas, a hidrelétrica foi orçada em R$ 16 bilhões. Em julho último, o Ministério de Minas e Energia estimou em R$ 42 bilhões seu custo total. A usina pertence a Norte Energia S.A., que tem a estatal Eletrobras como principal acionista, detentora de 49,98% das ações. Os investimentos – na ordem de 80% – tiveram financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

    Miquéias Calvi, professor da Faculdade de Engenharia Florestal da UFPA, é morador de Altamira há 30 anos. Acompanhou de perto todo o processo de comunicação promovido pelo governo federal e o grupo Norte Energia para o convencimento da população local. Ele relata que foi estabelecida uma narrativa muito convincente de como a usina seria a condutora do desenvolvimento regional, com geração de emprego, renda para o produtor rural e para os comerciantes locais, além de melhorias na oferta de serviços públicos de saúde, saneamento, distribuição de água potável, segurança e moradia. “Conquistaram um apoio grande à obra, que hoje quase não existe mais”, afirma.

    Emilio Moran resume a percepção atual da população local em uma frase, repetida inúmeras vezes aos pesquisadores envolvidos no projeto sobre os impactos socioambientais de Belo Monte: “Bom para o Brasil, péssimo para nós”. Os resultados do estudo apresentam as razões da mudança da opinião pública. Antes de Belo Monte, a cidade de Altamira abrigava 75 mil moradores. Dois anos depois do início das obras, já eram quase 150 mil. A construção da usina chegou a gerar 50 mil empregos diretos e indiretos, contingente que foi diminuindo à medida que etapas da obra foram vencidas. Em 2018 a população estimada era de 113 mil habitantes.

    A movimentação demográfica teve consequências, inclusive na saúde da população. Márcia Grisotti, chefe do Departamento de Sociologia e Ciência Política da UFSC, estuda os impactos de Belo Monte e destaca o aumento dos registros de sífilis em gestantes da cidade de Altamira, que passou de um caso para cada mil crianças nascidas em 2010 para 15 casos, em 2015. A violência aumentou. Em 2015, a cidade conquistou o indesejável título de a mais violenta do Brasil. Segundo dados do Ministério da Saúde, foram 124,6 homicídios para cada 100 mil habitantes. Cinco anos antes, a taxa era de 60,9 homicídios para cada 100 mil habitantes. Também houve crescimento no número de suicídios e de mortes por acidente de trânsito. “As medidas compensatórias relacionadas à saúde se restringiram à instalação de equipamentos médicos e sanitários, sem acompanhamento dos indicadores nem definição de uma estratégia para mitigar problemas que poderiam ter sido evitados”, diz Grisotti.

    Belo Monte será a terceira maior do mundo em capacidade instalada, mas não em produção efetiva

    A construção da barragem de Belo Monte e as mudanças no nível de água do Xingu exigiram o deslocamento de 22 mil pessoas que viviam às margens do rio. Essa população foi realocada em cinco Reassentamentos Urbanos Coletivos (RUCs) na periferia de Altamira. Não sem problemas, observa o professor do curso de desenvolvimento regional da UFRGS Guillaume Leturcq. “Pessoas que obtinham sua subsistência do Xingu foram assentadas em vilas distantes a 3 ou 4 quilômetros do rio”, conta. “Não lhes foi oferecida a oportunidade de transferência para localidades onde poderiam manter seu modo de vida.” Muitas das novas casas já foram abandonadas ou vendidas.

    O adensamento populacional gerou problemas sanitários. Até 2012, o abastecimento de água de 86% da população era feito por intermédio de poços e o esgoto de 90% das casas era destinado para fossas sépticas. De acordo com Cristina Gauthier, da MSU, a Norte Energia melhorou a infraestrutura de saneamento de Altamira, mas não o suficiente para o crescimento populacional que a cidade enfrentou. Resultado: o uso de poços e fossas segue sendo comum no lugar.  “Com o adensamento geográfico, o número de poços e fossas é maior do que antes da construção da usina. Um número maior de fossas impacta a qualidade de água subterrânea do lugar”, diz Gauthier. Em amostra realizada em 30 casas, a pesquisadora constatou que apenas seis poços possuíam água sem contaminantes fecais na época da seca e sete no período chuvoso. Procurada, a Norte Energia não comentou os resultados das pesquisas.

    Nem mesmo ribeirinhos que vivem em áreas mais distantes da usina e não precisaram abandonar suas casas ficaram imunes. Moradores da comunidade a jusante de Vila Nova, que soma 156 famílias, relatam que hoje precisam de seis dias para obter a mesma quantidade de peixes que antes pescavam em dois. Além disso, os peixes são menores e há dificuldade em comercializá-los. “Em Altamira é possível comprar peixes de outras regiões do Pará e de Santa Catarina. Apenas um supermercado vendia peixe local em 2015”, diz Miquéias Calvi.

    Removido da casa onde vivia por causa da construção da hidrelétrica, morador desmancha palafita em área próxima ao igarapé AltamiraLalo de Almeida / Folhapress

    Calvi investigou os impactos de Belo Monte na produção rural na região de Altamira. “A promessa era de que o aumento da população e da demanda por alimentos iria beneficiar o produtor local”, observa. No entanto, três anos após o início da obra, 60% dos agricultores familiares haviam abandonado suas lavouras temporárias. Os cultivos de arroz, feijão, milho e mandioca caíram de 40 mil hectares em 2011 para 20 mil hectares em 2017.

    Emilio Moran acredita que muitos dos problemas constatados na pesquisa poderiam ter sido evitados se o licenciamento da usina tivesse sido precedido de um adequado Estudo de Impacto Ambiental e o respectivo Relatório de Impacto Ambiental (EIA-Rima). Para isso, e como determina a legislação brasileira, seria necessário estudar antecipadamente a região, em seus aspectos físicos e humanos, e ouvir as comunidades locais. Órgãos públicos como o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), avalia Moran, também deveriam ter “capacidade e vontade política” para negar licenças, se constatado que determinado empreendimento não atende as obrigações da legislação brasileira e as recomendações do relatório de impacto social e ambiental.  “Isso nunca ocorre no Brasil”, lamenta. “Os estudos são feitos, mas as obras começam sem a resolução dos problemas apontados nos estudos.”

    O físico José Goldemberg, do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEA-USP) e ex-secretário nacional do Meio Ambiente e de Ciência e Tecnologia, concorda apenas parcialmente com as críticas. Segundo ele, muitos dos impactos socioambientais de Belo Monte poderiam, de fato, ter sido evitados e a empresa deveria ser responsabilizada pelos danos gerados. No entanto, Belo Monte, pondera, não pode ser julgada apenas pelos danos sociais, mas também pelos benefícios gerados para o abastecimento energético de todo o país.

    Em sua opinião, as hidrelétricas na Bacia Amazônica devem ser avaliadas caso a caso, levando em consideração sua viabilidade diante dos custos de mitigar os impactos socioambientais e diante dos possíveis efeitos das mudanças climáticas, mas não devem ser descartadas a priori. “O Brasil precisa expandir sua produção de eletricidade e uma hidrelétrica, entre as opções que garantem geração firme, constitui alternativa melhor do que as usinas que utilizam combustíveis fósseis e do que as nucleares”, avalia.

    Questões

    Por que a vazão do rio Xingu oscila ao longo do ano e de que forma isso afeta a produção de energia hidrelétrica?

    A produção energia elétrica através de uma hidrelétrica é considerada uma fonte limpa? Justifique.

    Explique o papel do Estado brasileiro na produção de energia elétrica?

    Aponte os impactos socioambientais ligados a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.

    Prof Luciano Mannarino