Publicado on-line em 5 jan 2021 – Atualizado em 15 mar 2021
Sujeitas a um desgaste incessante, lentamente elas avançam para o interior do continente e, em milhões de anos, podem formar uma vasta planície litorânea
O pico Dedo de Deus, ao centro, na serra do Mar, que já esteve unida à serra da Mantiqueira, formando uma cordilheira única – Carlos Perez Couto/WikiMedia Commons
A identificação das taxas de desgaste das rochas nos últimos 100 mil anos esclareceu um pouco mais do passado e do que poderá ocorrer no futuro da paisagem das serras do Mar e da Mantiqueira, nas regiões do Sudeste e Sul.
Depois de examinar a movimentação do relevo por meio da abundância de elementos químicos em minerais coletados em 24 pontos da região, o geógrafo Daniel Souza, do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP), concluiu que as rochas dos morros do município de Ubatuba, no litoral norte paulista, apresentam a maior taxa de erosão na região.
Isso significa que perderam até 100 metros (m) de altura por milhão de anos, o equivalente a 1 centímetro a cada 100 anos – o desgaste da cordilheira dos Andes é dez vezes maior. Como o efeito é cumulativo, a praia tende a se ampliar lentamente em direção ao interior. Em milhões de anos, a planície costeira poderá ser tão larga quanto a do município de Santos, também no litoral paulista.
“A erosão das rochas das serras diminuiu, mas nas escarpas litorâneas nas bordas das serras continua tão intensa quanto há milhões de anos”, observou Souza. Escarpa é uma inclinação abrupta na borda de uma região plana, enquanto serra é uma estrutura que geralmente se assemelha a um prisma alongado. As análises do geógrafo indicaram que a erosão é mais intensa na serra do Mar, por causa das chuvas constantes, do que na Mantiqueira. “Os rios e as chuvas estão corroendo as bordas dos planaltos e ampliando as escarpas”, concluiu.
Descrito em outubro de 2020 na Journal of South American Earth Sciences, o trabalho de Souza reforçou as evidências sobre o recuo das escarpas litorâneas em 10 quilômetros (km) a cada 10 milhões de anos e delineia o que pode acontecer daqui a milhões de anos: o avanço das escarpas para o interior e a ampliação das planícies costeiras, além da transformação de regiões serranas em vastos planaltos, a não ser que outros movimentos da superfície terrestre façam as serras empinarem novamente ou criem outras.
Durante seu doutorado, realizado no Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) sob orientação do geólogo Peter Hackspacher, Souza aplicou duas técnicas para analisar os movimentos do relevo na região serrana.
A primeira é a termocronologia, que registra a variação da temperatura das rochas no interior do planeta ao longo do tempo, de acordo com a taxa de decaimento (perda de massa) de seus elementos químicos – quanto menor a temperatura, mais próximo à superfície está a rocha.
Por meio dessa metodologia ele examinou a proporção de urânio, tório, samário e hélio de seis amostras de granitos e gnaisses, às quais somou análises de 130 pontos da região feitas desde a década de 1990 por Hackspacher e outros pesquisadores do Brasil e do exterior.
A outra técnica é a medição de isótopos do elemento químico berílio (10Be), formado pela interação de quartzo com raios cósmicos que chegam do espaço – quanto mais berílio 10, menor a erosão. Isótopos são variantes de um elemento químico que diferem na quantidade de nêutrons.
Souza apresentou as análises de suas 18 amostras de sedimentos coletados em areia do fundo de rios em abril de 2019 na Geomorphology e as complementou com as 26 do geógrafo André Salgado, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), descritas em fevereiro de 2016 na revista Journal of South American Earth Sciences.
Juntos, esses trabalhos detalham a história das serras do Mar e da Mantiqueira, moldadas por incessantes movimentos da superfície e pela erosão causada por rios e pelo clima, principalmente a chuva.
Um dos resultados da separação dos continentes, iniciada cerca de 130 milhões de anos atrás, as serras litorâneas do Sudeste e Sul constituíram inicialmente uma elevação única. Depois cresceram um pouco mais, atingindo 4 mil m de altitude, o dobro da Pedra da Mina, o ponto mais alto da região hoje, e se afastaram, formando o vale do Paraíba (ver infográfico).
Hackspacher enumera três consequências dessa movimentação. A primeira é a formação das reservas de petróleo nas bacias sedimentares de Santos e de Campos, no litoral dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. A segunda é o desvio de rios. “O soerguimento das serras bloqueou o curso do rio Paraíba, que se separou do Tietê e começou a correr para o mar”, exemplifica. A terceira é a separação de comunidades de animais e plantas, favorecendo a formação de novas espécies.
“Estamos apenas confirmando e detalhando, com técnicas modernas, as conclusões de Fernando Almeida [1916-2013]”, reconhece Hackspacker. Engenheiro carioca que se voltou à geologia, Almeida começou na década de 1950 a examinar a região serrana do estado de São Paulo, propondo hipóteses para a sua formação, como a separação das serras.
“Essa região é um exemplo fascinante de movimentação tectônica intraplaca, como ocorre em poucos lugares do mundo”, diz o geólogo Claudio Riccomini, do IEE-USP e do Instituto de Geociências da USP, que estuda a região desde os anos 1980.
“Além do clima”, diz ele, “há uma forte influência dos movimentos tectônicos, mesmo nos últimos 20 mil anos, na modelagem e na erosão do relevo”. Um estudo de que ele participou, publicado em maio de 2018 na Journal of Seismology, registrou mais de 20 falhas geológicas potencialmente ativas na região.
Geógrafo paulista propõe uma síntese das três realidades ambientais, sociais e econômicas do país. (foto – Léo Ramos Chaves)
Jurandyr Ross
Idade 73 anos Especialidade Geomorfologia Instituição Universidade de São Paulo (USP) Formação Graduação em Geografia (1972), mestrado (1982) e doutorado (1987) pela USP Produção 45 artigos e 8 livros
Por Carlos Fioravanti
No escritório de seu apartamento, entre paredes cobertas de mapas, o geógrafo Jurandyr Luciano Sanches Ross redescobriu o Brasil à medida que examinava dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com colegas de outros estados. O que emergiu foram na verdade três Brasis: o que denominaram o Brasil da natureza, com grandes áreas verdes; o do semiárido, no sertão nordestino; e o de maior atividade econômica, ligada principalmente à agropecuária. “Provavelmente esse é meu último grande trabalho”, diz ele, aos 73 anos.
Especialista em geomorfologia, estudo das formas de relevo e suas origens, Ross lançou na década de 1980 um mapa do relevo brasileiro. Elaborado com base nas informações do Projeto RadamBrasil, que ele integrou, seu trabalho sucedeu as versões dos geógrafos Aroldo de Azevedo (1910-1974), de 1949, e Aziz Ab’Saber (1924-2012), da década de 1960.
Nascido em Promissão, noroeste paulista, e crescido em Rolândia, no Paraná, mudou-se para São Paulo na década de 1960. Viúvo, duas filhas (uma engenheira eletrônica e outra dentista), três netos, ele concedeu a entrevista a seguir por videoconferência em fevereiro.
Em que você está trabalhando? Coordeno um projeto de três anos para estudar o ordenamento territorial do Brasil, o modo pelo qual o território do país está organizado. Esse trabalho, com financiamento do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], envolve minha equipe do Laboratório de Geomorfologia da USP, colegas da Universidade Estadual de Londrina, das universidades federais da Paraíba e de Uberlândia e um sociólogo do Ministério da Economia. Já produzimos muitos dados e adquirimos uma noção mais clara de quem somos nós, sob a perspectiva de uso do território nacional.
O Brasil tem plano de ordenamento territorial? Tivemos a partir de 1993, em consequência da Rio-92, que levou a uma política de Estado e à criação do Ministério do Meio Ambiente, de unidades de conservação, principalmente na Amazônia, dos zoneamentos ecológico-econômicos em alguns estados e regiões, dos planos de gestão de recursos hídricos e dos planos diretores municipais, até 2002. Então começou outra política territorial e o Ministério do Meio Ambiente se tornou periférico. O ordenamento deixou de ser algo importante.
E por que é importante? Porque ajuda a não serem feitas coisas erradas no uso e ocupação das terras. A primeira tarefa de um plano de ordenamento territorial é entender as áreas mais ou menos favoráveis para agricultura ou pecuária e as que não devem ser mexidas ou convertidas em agricultura ou pecuária. Dizem que o Brasil não precisa desmatar, e não precisa mesmo, porque tem muita terra subaproveitada. Mas que terras são essas, onde estão, com que tipo de relevo e de solo? Tem de saber se é favorável a algum uso econômico ou não. A ocupação do território brasileiro é espontânea, feita por quem compra e incorpora as terras. Andei por Parauapebas, no leste do Pará. Só se vê pastagem e nada de árvore. Quase ninguém deixou os 50% da área com vegetação nativa e as matas ciliares, obrigatórias por lei; agora a reserva legal é 80% da área. Participei da finalização do plano de zoneamento ecológico de Rondônia, que terminou em 2000. Ficaram definidas em torno de 10 áreas para diferentes tipos de ocupação ou preservação, mas o plano se perdeu ou não foi aplicado adequadamente. Hoje resta muito pouco de floresta, só mesmo em unidade de conservação. A maior parte do estado foi ocupada com café, banana, cacau e principalmente pasto.
O que estão vendo agora? Focamos no Brasil rural e examinamos a agricultura, silvicultura, pecuária e mineração. Pensamos em fazer um levantamento das condições atuais do uso e da ocupação da terra, com base nos dados estatísticos do IBGE na escala municipal e os mapas do MapaBiomas Brasil [organização não governamental que acompanha as mudanças da cobertura da vegetação nativa e do uso do solo no país] sobre desmatamento e outras questões ambientais. Os mapas representam os 5.570 municípios brasileiros. Por exemplo, conseguimos ver por onde a soja caminha, desde que começou a ser cultivada no Rio Grande do Sul e em São Paulo nas primeiras décadas do século XX. Agora já está no Maranhão e no Piauí, quase chegando ao mar. A cana-de-açúcar está em São Paulo, mas também no Triângulo Mineiro, em Goiás e no noroeste do Paraná.
E no Nordeste? A cana não está mais tão forte em Pernambuco, mas em Alagoas. Os tabuleiros de Pernambuco não são planos e grandes como os de Alagoas. A mecanização do plantio e corte da cana precisa de relevo plano. O relevo é fundamental na agricultura tanto quanto o solo e o clima, por conta da mecanização. Em outro mapa, ao examinar o PIB dos municípios por atividade econômica predominante, vimos que na Amazônia e sobretudo no semiárido a principal renda é o dinheiro público enviado às prefeituras e a pessoas, por meio das aposentadorias, do Bolsa Família e de outros benefícios sociais. Há dois anos estive no sertão do Ceará e fiquei assustado. Porque os jovens em grande parte saíram e continuam saindo do campo, ficando na zona rural principalmente os mais velhos, que recebem aposentadoria rural ou Bolsa Família, cuidam dos animais e fazem pequenas roças de feijão, milho e mandioca. Já o PIB per capita é mais alto na região Sudeste, sem o norte de Minas, como resultado do agronegócio, da atividade industrial e dos serviços. Estou mostrando esses mapas, originais, para falar do que chamamos de três Brasis, ou unidades de ordenamento territorial, que nossas análises revelaram.
Quais são os três Brasis que vocês propõem? Um é o da natureza, outro do semiárido e o terceiro, o economicamente produtivo. O primeiro tem extensa área de terras preservadas e grande biodiversidade, mas é permanentemente ameaçado por causa da expansão, principalmente da pecuária. A área cobre a Amazônia, o Pantanal, o rio Araguaia e a faixa costeira, com a serra do Mar. Em situação oposta está o semiárido. Não é o Nordeste todo, mas uma área de restrição climática muito forte. Enquanto a ocupação na Amazônia é de baixa densidade e receptora de migrantes, o semiárido é o resultado de 500 anos de ocupação com êxodo de população. Quando a cana ocupou o litoral, o semiárido foi tomado com a pecuária. Existe hoje lá um esvaziamento ou estagnação demográfica. O terceiro Brasil é essencialmente o da produção agropecuária e atividades industriais com destaque para agroindústrias e indústrias sucroenergéticas, concentrada no Centro-Oeste, oeste da Bahia, do Maranhão, do Piauí, do sul e leste da região Norte, toda a região Sudeste e Sul e a faixa costeira brasileira, desde o Nordeste oriental até o Rio Grande do Sul. É o Brasil que gera mais empregos e renda nos três segmentos da economia: indústria, agropecuária e serviços.
O que chamamos de três Brasis são realidades muito diferentes, que exigem abordagens distintas
O que você pensou vendo essas diferenças? São realidades completamente diferentes, em biodiversidade, geodiversidade, que revelam problemas estruturais e exigem abordagens distintas. No semiárido, uma área de esvaziamento ou estagnação demográfica, temos de questionar: “Vamos deixar todo mundo ir embora e pronto?”. O ideal é que se comece a gerar mais renda e emprego, com uma economia mais dinâmica.
E a Amazônia? Em 2019, fui dar um curso em Parintins, a leste de Manaus. Depois saímos de barco. Em um dos pontos em que paramos vivia uma família com a casa no terraço do rio. Perguntei para o homem da casa, devia ter uns 60 anos, do que ele vivia. Ele respondeu: “Ainda tenho algumas vacas, que comem o capim da várzea. Tiro leite, faço queijo e vendo o bezerro”. Ele tinha reduzido o número de vacas porque estava dando mais atenção a uma roça de guaraná na floresta, em sistema agroflorestal. Ele vendia a R$ 15 o quilograma da semente de guaraná, um valor três vezes mais alto que o do quilograma do bezerro. “E eu trabalho muito menos que com as vacas”, ele falou. “Porque praticamente é só manter a área limpa e colher as sementes.” A floresta tem solução, que não pode ser derrubar árvore para plantar pasto.
O que vocês pretendem fazer com esses mapas? Vamos terminar o relatório, que já está com 900 páginas de mapas e textos. Queremos discutir essas informações com colegas da universidade, com gente do governo, com políticos, com o máximo de pessoas, de qualquer área. Queremos que essas informações sejam úteis para o país.
Esse é o grande trabalho da sua carreira? Provavelmente é o meu último grande trabalho. Os outros foram o mapa de relevo do Brasil, na década de 1980, o mapa geomorfológico do estado de São Paulo, no final dos anos 1990 [ver Pesquisa FAPESP n° 35], com financiamento da FAPESP, e o mapa geomorfológico da América do Sul, concluído em 2019 [ver Pesquisa FAPESP n° 246]. Fiz muitas orientações tecnocientíficas em projetos de zoneamento ecológico-econômico, que determinam as áreas a serem ocupadas com atividades econômicas e as que devem ser preservadas, no litoral do Paraná e nos estados do Paraná e de Mato Grosso, na bacia do Alto Paraguai e no Tocantins.
Por que resolveu fazer o mapa de relevo do Brasil? Quando estava no curso de geografia, dei aula em escolas e ficava agoniado quando tinha de ensinar coisas ultrapassadas sobre o relevo brasileiro. Eu já conhecia uma parte do Brasil. Nas férias de janeiro, saía com algum amigo e viajávamos de carona em caminhão. Fomos até a Argentina, Uruguai, sul do Brasil, Goiás e Mato Grosso, para o Pantanal, depois para o Nordeste. Terminei a graduação e resolvi fazer mestrado em geomorfologia. Na metade do mestrado, surgiu a possibilidade de fazer geomorfologia para o RadamBrasil. Foi onde eu me firmei profissionalmente como geógrafo.
O que era o projeto Radam? O Radam foi um grande levantamento dos recursos naturais, entre os quais o do relevo brasileiro, que começou em 1970. Fui trabalhar para o Ministério de Minas e Energia, que administrava o projeto através do DNPM [Departamento Nacional de Produção Mineral]. Enquanto o Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais] usava imagens de satélites, o Radam produzia os mapeamentos temáticos de geologia, geomorfologia, solos, vegetação e clima usando imagens de radar, mais fáceis de trabalhar porque as micro-ondas do radar atravessam as nuvens, que assim não atrapalham o levantamento. O trabalho começou pela Amazônia e por isso se chamava projeto Radam, de Radar da Amazônia, depois é que virou RadamBrasil. Nessa época o governo era muito cobrado porque não se conhecia direito o território e precisava mapear os recursos naturais. Eu morava com minha família em Goiânia e trabalhei no Radam de 1977 até 1983, na região centro-oeste e sul da Amazônia.
Dei aula em escolas e ficava agoniado quando tinha de ensinar coisas ultrapassadas sobre o relevo
Como era o trabalho de campo? Tínhamos as imagens de radar, com um pouco menos de 1 metro de comprimento, feitas por sobrevoos de avião, que mostravam basicamente as rugosidades do relevo. Íamos a campo para identificar as formas de relevo, a geologia, os tipos de solo e de vegetação. Viajávamos por terra, com uma Ford Willys, ou com avião bimotor em voo baixo, a 200 metros de altitude, fazendo ziguezague sobre a área objeto do mapeamento. As saídas eram longas, de 25 a 30 dias, tínhamos de dormir em rede, em barraca ou em hotelzinho de beira de estrada. Acampar ou amarrar a rede, era uma delícia, eu adorava. Fotografávamos tanto em terra como no ar, com helicóptero e avião, usávamos aqueles gravadores grandões, depois transcrevíamos e detalhávamos os mapas. Trabalhei em três grandes áreas em Goiás e no atual Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Triângulo Mineiro. Cada área era coberta com 16 folhas de imagens de radar. Cada folha, no corte internacional ao milionésimo, na escala de 1 para 1 milhão, tinha 16 mapas na escala 1 para 250 mil, portanto 48 mapas nessas três áreas, para cada tema de pesquisa.
Por que você resolveu sair do Radam e entrar na USP? Meu orientador do mestrado e doutorado, Adilson Avansi de Abreu, me alertou para o fato de que o Radam acabaria um dia e que eu deveria terminar o mestrado e buscar outro trabalho. Segui o conselho dele e terminei. Depois ele me avisou de um concurso na USP, para preencher a vaga do Ab’Saber, que tinha se aposentado. Comecei na USP em janeiro de 1983 e aos poucos vi o que poderia fazer. Refiz meu projeto de doutorado para aproveitar o material do Radam e examinar uma província serrana interessante, próxima a Cuiabá. Ao mesmo tempo comecei a dar aulas para a graduação. Montei uma disciplina extracurricular para os alunos interessados em imagem de radar. O laboratório de geomorfologia do Departamento de Geografia da USP tinha o acervo completo das imagens do Radam, que o Ab’Saber havia pedido antes de se aposentar. Essas aulas viraram uma disciplina optativa e me estimularam a fazer duas coisas, que me tomaram os 10 anos seguintes. A primeira foi a síntese do relevo brasileiro e a segunda o mapa geomorfológico do estado de São Paulo, os dois com base em imagens de radar e nos relatórios do RadamBrasil. Ambos foram praticamente uma continuidade do que se fazia no Radam, agora no Laboratório de Geomorfologia do Departamento de Geografia da USP.
Em seu mapa de relevo do Brasil, quais as inovações em relação ao que Aroldo de Azevedo e Ab’Saber tinham feito? Eram enfoques diferentes. Aroldo de Azevedo valorizou as diferenças de altitudes do relevo e fez um mapa apenas com planaltos e planícies, foi um desenho, uma figura de ilustração. Ab’Saber fez o mapa dos chamados domínios morfoclimáticos, unindo vegetação e relevo. Eu explorei as macroformas. Uma das inovações foi a incorporação das depressões, os corredores rebaixados entre os planaltos, já conhecidas desde a década de 1930, só não haviam sido ainda mapeadas. O RadamBrasil identificou as depressões, de Norte a Sul. Trabalhei nisso por três anos e o mapa saiu em 1989, publicado na Revista do Departamento de Geografia, aqui da USP, em 1990.
Ross entre gêiseres nos Andes 2015 (Acervo pessoal)
Quando o apresentou aos seus colegas? Um ano antes no simpósio de geografia física no Rio de Janeiro, em 1989. Estavam lá ex-colegas do Radam, que havia sido extinto quatro anos antes. Havia umas 300 pessoas assistindo, os congressos ainda eram pequenos e todos viam tudo. Depois da apresentação, meu ex-chefe perguntou: “Mas de onde você tirou esses conceitos de morfoestrutura e morfoescultura?”. Falei que vinha do meu aprendizado do doutorado, seguindo um conceito de alemães e russos que trabalham o relevo com duas perspectivas, a estrutural, que vem de dentro para fora, como os movimentos tectônicos, e a escultural, de fora para dentro, como o desgaste erosivo. E ele: “Legal, gostei”. O mapa chegou ao público não especializado por meio de reportagens nas revistas Nova Escola e Veja. Depois saiu no livro Geografia do Brasil (Edusp, 1996), que coordenei, e as editoras começaram a incorporá-lo em livros didáticos.
Você também foi consultor para a construção de hidrelétricas nos rios Xingu, Madeira, Iguaçu e Uruguai. Como foi essa experiência? Foi no final da década de 1980, quando começou a aplicação dos EIA-Rimas [estudos e relatórios de impacto ambiental] e havia um plano nacional da Eletrobras para implantar hidrelétricas, até 2010, em todos os rios da Amazônia oriental, porque os do lado ocidental não têm caimento suficiente. O Projeto Radam já tinha indicado algumas possibilidades. Fui chamado para ensinar ex-alunos e estagiários que trabalhavam nas empresas contratadas a usar imagens de radar para fazer mapeamento e análise geomorfológica. Eu ajudava nos mapas e relatórios.
As saídas do Radam eram longas, de 25 a 30 dias, tínhamos de dormir em rede. Uma delícia, eu adorava
Se você pudesse entrar agora em um helicóptero e o piloto perguntasse “vamos para onde?”, que lugares escolheria para revisitar ou conhecer? Vou ser pragmático, estou precisando fazer um sobrevoo na Chapada Diamantina, na Bahia. Nunca estive lá e estou orientando um doutorado sobre essa região. É um lugar muito interessante porque entre os relevos montanhosos há superfícies baixas e planas, com um clima de transição do Cerrado para a Caatinga, solo fértil e uma intensa agricultura irrigada. Tenho muita curiosidade de conhecer esse lugar.
Você conhece todos os estados brasileiros? Sim, embora não conheça todos inteiros. Já fui de Macapá até Oiapoque por estrada; de Boa Vista, Roraima, até Pacaraima, na divisa da Venezuela. Em maio de 2019 quase morri subindo a serra do Caparaó, na divisa de Minas Gerais com Espírito Santo. Durante a pandemia só tenho ido a uma casa que tenho em Boituva. Espero recomeçar a viajar assim que tiver tomado a vacina contra a Covid-19.
Aqui estão algumas questões bem elaboradas sobre o texto:
Sobre a trajetória de Jurandyr Luciano Sanches Ross:
Como a experiência de Ross no Projeto RadamBrasil influenciou sua carreira como geógrafo? Cite exemplos específicos de como esse projeto contribuiu para seu desenvolvimento profissional.
Divisão do território brasileiro:
O conceito dos “três Brasis” é central no trabalho de Ross. Explique como ele define essas três divisões e discuta a importância de cada uma para o entendimento do ordenamento territorial do Brasil.
Planejamento territorial e sustentabilidade:
Por que, segundo Ross, o planejamento territorial é importante para o Brasil? Quais são os principais desafios enfrentados na implementação de um ordenamento territorial adequado?
Impactos da agricultura e pecuária no Brasil:
Como a expansão da agricultura, particularmente a soja e a cana-de-açúcar, afeta diferentes regiões do Brasil, de acordo com o relato de Ross? Analise a importância do relevo na mecanização da agricultura.
Mudanças sociais e econômicas no semiárido nordestino:
O que Ross identificou como principais mudanças demográficas e econômicas no semiárido? Como essas transformações afetam a população e a estrutura econômica da região?
Amazônia e sustentabilidade:
Ross menciona uma experiência pessoal em Parintins, onde um agricultor passou a focar no cultivo de guaraná em vez da criação de gado. Como essa mudança reflete o potencial da Amazônia para uma economia sustentável? Quais são as principais lições que podem ser extraídas dessa história?
Contribuições científicas de Ross:
Além do mapa de relevo do Brasil, Ross menciona outros projetos importantes que marcaram sua carreira. Escolha um desses projetos e explique sua relevância para o estudo da geomorfologia no Brasil.
Geografia física e relevância das macroformas:
Qual foi a principal inovação introduzida por Ross em seu mapa de relevo do Brasil em comparação aos trabalhos anteriores de Aroldo de Azevedo e Aziz Ab’Saber? Como a inclusão das depressões no mapa contribui para um melhor entendimento do relevo brasileiro?
Relação entre geografia e políticas públicas:
Como o trabalho de Ross pode influenciar políticas públicas no Brasil, especialmente em relação à ocupação do solo e à preservação ambiental? Dê exemplos de como mapas e zoneamentos ecológico-econômicos podem ser utilizados em decisões governamentais.
A importância dos dados do IBGE e MapaBiomas:
Ross utiliza dados do IBGE e do MapaBiomas em seu trabalho. Qual é a importância desses dados para a análise e compreensão do uso e ocupação do território brasileiro?
Essas questões abordam tanto os aspectos técnicos da carreira de Ross quanto as implicações de suas pesquisas no contexto social e ambiental do Brasil.
Moradores de parte do litoral que haviam sido evacuados já podem voltar para casa
4.mar.2021 às 19h12Atualizado: 4.mar.2021 às 21h49
WELLINGTON (NOVA ZELÂNDIA) REUTERS e AFP
A Nova Zelândia cancelou um alarme de tsunami após três terremotos atingirem o paísnesta quinta-feira (3, sexta-feira, 4, no horário local).
Milhares de pessoas na costa leste da Ilha Norte da Nova Zelândia deixaram suas casas e foram evacuadas para um terreno mais alto, mas a agência de gerenciamento de emergência nacional confirmou na noite desta quinta que a ameaça já havia passado e que os moradores poderiam retornar às suas casas.
Nenhum dano foi registrado. O primeiro tremor, de magnitude 7.2, atingiu o norte do país, foi sentido por mais de 60 mil pessoas e provocou o primeiro alerta de tsunami —que foi retirado mais tarde.
Depois vieram outros, de 7.4 e de 8.0 —o último foi registrado às 8h28 locais (16h28 em Brasília), a 1.033 km da costa, segundo o Serviço Geológico dos EUA.
Moradores se reúnem em área mais alta de Whangarei, após alerta de tsunami na Nova Zelândia – Skykiwi/Xinhua
O centro de alerta para tsunamis do Pacífico informou que é possível que haja ondas na Nova Zelândia, em Tonga, em Samoa Americana e em Fiji.
“Moradores das zonas costeiras devem partir imediatamente para a área elevada mais próxima, fora de todas as zonas de evacuação e terra adentro. NÃO FIQUE EM CASA”, pediu no Twitter a agência neozelandesa de gestão de emergências.
“Espero que todos estejam bem, especialmente na Costa Leste, que sentiu a força total do terremoto”, escreveu no Instagram a primeira-ministra, Jacinda Ardern.
Os terremotos deixaram o Chile em “estado de precaução”. Segundo o Onemi (Escritório Nacional de Emergência do Ministério do Interior e Segurança Pública), isso significa que existe a possibilidade de um “tsunami menor”, que poderia atingir a costa do país nesta madrugada.
Socorristas carregam corpo de vítima de tsunami na praia de Tanjung Lesung, na Indonésia Antara Foto/Reuters
O departamento responsável na Marinha do Peru emitiu alerta de tsunami após um dos tremores na Nova Zelândia.
Os neozelandeses estão habituados com os terremotos devido à posição geográfica do país, situado na região conhecida como Círculo de Fogo do Pacífico, marcada por intensa atividade sísmica e vulcânica.
De acordo com o GeoNet, a Nova Zelândia tem cerca de 20 mil terremotos por ano, embora nem todos sejam percebidos pela população.
Em 2011, um terremoto de magnitude 6,3 causou 185 mortes na cidade de Christchurch. Em 2016, houve duas mortes e prejuízos bilionários após um terremoto de magnitude 7,8 na cidade de Kaikoura.
Também nesta quinta, um terremoto de magnitude 5.7 atingiu o centro Grécia, segundo o Centro Sismológico Europeu do Mediterrâneo (EMSC), que localizou o epicentro a 17 km a oeste da cidade de Tyrnavos.
Segundo o serviço de bombeiros, o tremor causou danos am casas antigas e um pequeno deslizamento de rochas em uma região com um complexo de mosteiros, mas não houve relatos de mortes ou pessoas feridas.
As autoridades gregas montaram tendas e alugaram hotéis nas cidades próximas de Trikala e Larissa para quem optou por ficar fora de casa por motivos de segurança.
O abalo aconteceu um dia após um outro terremoto de magnitude 6 ter atingido a mesma área. Na quarta-feira, o abalo fez com que a população saísse de suas casas, e danificou casas e carros em vilarejos próximos.
Cientistas avisaram que ecossistema estava fragilizado demais para suportar grandes projetos de desenvolvimento
9.fev.2021 às 23h15
NOVA DÉLI | THE NEW YORK TIMES
Muito antes de as inundações chegarem, arrastando centenas de pessoas e destruindo pontes e barragens recém-construídas, os sinais de perigo já estavam claros.
A cordilheira do Himalaia vem esquentando em velocidade alarmante há anos, derretendo gelo contido por milênios em geleiras, no solo e nas rochas e elevando o risco de enchentes e deslizamentos de terra devastadores.
Cientistas avisaram que os moradores das proximidades corriam risco e que o ecossistema da região estava fragilizado demais para suportar grandes projetos de desenvolvimento.
O governo indiano, porém, passou por cima das objeções de especialistas e dos protestos da população local, explodindo rochas e construindo hidrelétricas em áreas voláteis como aquela onde ocorreu a avalanche no domingo (7), no estado de Uttarakhand, no norte do país.
Enchente no vilarejo de Chamoli, em Uttarakhand, na Índia – Reuters
Autoridades informaram na segunda (8) que foram recuperados os corpos de 26 vítimas, enquanto as buscas por quase 200 desaparecidos continuam. Uma enxurrada de água e destroços desceu pelos vales montanhosos íngremes do rio Rishiganga, aniquilando tudo em seu caminho. As vítimas eram, em sua maioria, operários nas obras de hidrelétricas.
Moradores de vilarejos disseram que as autoridades responsáveis pelos projetos de desenvolvimento da região não os prepararam para o que estava por vir, difundindo um falso senso de confiança de que não aconteceria nada.
“O governo não ofereceu ao vilarejo nenhum programa ou treinamento para administrar um desastre”, disse Bhawan Singh Rana, chefe do vilarejo de Raini, um dos mais que sofreu os maiores impactos. “Nosso vilarejo está em cima de rochas. Nosso medo é que elas possam deslizar a qualquer momento.”
As forças de segurança direcionaram seus esforços para um túnel onde 30 pessoas estariam presas, e alimentos foram lançados pelo ar para 13 vilarejos cujas estradas de acesso foram bloqueadas e onde há 2.500 pessoas isoladas.
Vista do local onde membros da Força Nacional conduziram a operação de resgate, depois que a geleira se rompeu – Anushree Fadnavis/Reuters
A devastação das inundações em Uttarakhand voltou a chamar a atenção para o frágil ecossistema do Himalaia, onde milhões de pessoas estão sentindo o impacto do aquecimento global.
O Banco Mundial avisou que a mudança climática pode prejudicar gravemente as condições de vida de até 800 milhões de pessoas no sul da Ásia. Mas os efeitos já estão sendo sentidos, frequentemente de modo letal, em grandes extensões na cordilheira do Himalaia, do Butão ao Afeganistão.
A região tem cerca de 15 mil geleiras, e elas estão recuando entre 30 e 60 metros por década. O gelo derretido expande ou cria milhares de lagos glaciais que podem romper repentinamente a barreira de gelo e os escombros rochosos que as contêm, provocando inundações catastróficas.
Grande número de lagos glaciais no Nepal, Butão, Índia e Paquistão já foi classificado como um perigo iminente pela entidade intergovernamental Centro Internacional de Desenvolvimento Montanhoso Integrado.
O Nepal é especialmente vulnerável ao problema; a mudança climática vem forçando vilarejos inteiros no país a migrar para terras mais baixas para poderem sobreviver à crise hídrica crescente. Inundações imprevistas e mortíferas vêm ocorrendo com mais frequência, algumas delas causadas pelo rompimento de barreiras de lagos glaciais.
Cientistas já lançaram avisos reiterados de que a construção de projetos de desenvolvimento na região é uma aposta de alto risco, com potencial para agravar a situação.
Ravi Chopra, diretor do Instituto de Ciência Popular, em Uttarakhand, disse que um grupo de especialistas criado pelo governo em 2012 recomendou que não fossem construídas barragens na bacia de Alaknanda-Bhagirathi, que abrange o rio Rishiganga.
Chopra fez parte de um comitê de cientistas nomeados pela Suprema Corte da Índia em 2014 e que também desaconselhou a construção de barragens na chamada “zona paraglacial”, que ele descreveu como uma área em que o chão do vale fica a mais de 2.100 metros acima do nível do mar.
“Mas o governo optou por construir as barragens mesmo assim”, ele disse. As duas hidrelétricas atingidas pela inundação do domingo foram construídas nessa zona. Uma delas foi completamente destruída e a outra, gravemente danificada.
Everest recebe uma maratona em 29 de maio de 2014 Himex – 29.mai.2014
O cientista D.P. Dobhal, ex-funcionário do Instituto Wadia de Geologia do Himalaia, pertencente ao governo, disse: “Quando construímos projetos no Himalaia como hidrelétricas, estradas ou ferrovias, os dados de estudos das geleiras nunca são incluídos ou levados em conta nos relatórios detalhados dos projetos”.
O governo está construindo mais de 800 km de rodovias em Uttarkhand para melhorar o acesso a vários importantes templos hindus, apesar das objeções de ambientalistas ao desmatamento maciço necessário, que pode acelerar a erosão e aumentar a possibilidade de deslizamentos de terra.
Um comitê nomeado pela Suprema Corte da Índia e chefiado por Chopra concluiu no ano passado que, ao construir a rodovia com largura de 10 metros, o governo contrariou a recomendação de seus próprios especialistas do ministério dos Transportes.
O governo argumentou que uma rodovia mais larga garante mais dividendos econômicos e é necessária para o potencial envio de equipamentos militares de grande porte para a fronteira disputada com a China.
Quando a Suprema Corte decidiu que a rodovia não poderia passar de 5,5 metros de largura, centenas de hectares de floresta e dezenas de milhares de árvores já haviam sido derrubadas, segundo reportagem do site de notícias indiano The Scroll.
“Quando você tem especialistas de seu próprio ministério lhe dizendo que as estradas na região do Himalaia não podem ter uma superfície asfaltada de mais de 5,5 metros de largura, e então você passa por cima das recomendações deles, é um problema sério”, disse Chopra. “A não ser que os tribunais estudem a possibilidade de punir e responsabilizar autoridades pessoalmente, acho que a situação não vai mudar.”
Trivendra Singh Ranwat, ministro chefe de Uttarakhand, disse que as inundações não devem ser vistas como “razão para construir uma narrativa antidesenvolvimentista”.
Bandeiras budistas de oração no acampamento-base de Annapurna, no Nepal; o guia de montanha e fotógrafo Edson Vandeira, 29, visitou o país pela primeira vez entre abril e maio desse ano Edson Vandeira
“Reitero o compromisso de nosso governo em desenvolver as montanhas de Uttarakhand de maneira sustentável”, disse Rawat no Twitter. “Faremos tudo e passaremos por cima de todos os obstáculos para garantir que essa meta seja alcançada.”
O vilarejo de Reini ficava em uma das áreas mais atingidas no domingo, quando a hidrelétrica de Rishiganga, de 13 megawatts, foi totalmente destruída. Depois da enxurrada, cem dos 150 moradores do povoado passaram a noite ao relento.
“Não dormimos nas nossas casas, temendo que venha mais água, que as rochas sejam deslocadas, que alguma coisa mais perigosa aconteça”, disse Rana, o chefe do vilarejo. “Levamos nossas cobertas para a floresta, fizemos algumas fogueiras e passamos a noite assim.”
Nos anos 1970 a área foi palco de um protesto ambientalista contra o desmatamento, algo que estampou as manchetes dos noticiários. Manifestantes, muitas delas mulheres, abraçavam árvores para impedir que fossem derrubadas. O movimento ficou conhecido como “chipko”, ou abraço.
Rana disse que os moradores da vila também fizeram protestos contra a construção da hidrelétrica de Rishiganga, que começou a gerar eletricidade no ano passado. Chegaram a mover ações judiciais, mas isso não surtiu efeito. Eles temiam que a explosão de rochas provocasse deslizamentos de terra com efeitos fatais.
“Ouvíamos explosões e víamos as rochas se movendo”, disse. “Quando esta hidrelétrica estava sendo construída, metade de nosso vilarejo foi levado num deslizamento. Pedimos para ser transferidos para outro local. O governo disse que faria isso, mas não aconteceu nada.”
Terra tremeu em cidades do Recôncavo Baiano, Baixo-sul e em alguns bairros de Salvador
João Pedro Pitombo
30.ago.2020 às 12h47
SALVADOR
Tremores de terra causaram pequenas avarias em imóveis e assustaram moradores na manhã deste domingo (30) em cidades do Recôncavo Baiano, Baixo-sul do estado e até em alguns bairros de Salvador.
O Laboratório de Sismologia da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) registrou um tremor de 4.6 graus na escala Richter na cidade de Mutuípe (169 km da capital).
Já o Centro Sismológico da USP registrou tremores de 4.2 e 3.7 graus nas cidades de Amargosa e São Miguel das Matas, ambas no Recôncavo Baiano.
“Foi um susto para todo mundo. Aqui na cidade, registramos três tremores em sequência”, afirma o prefeito de Amargosa, Júlio Pinheiro (PT), que diz que não houve registro de feridos, nem de danos físicos de maior proporção na cidade.
A prefeitura recebeu relatos de imóveis que ficaram com rachaduras nas paredes. Equipes da Defesa Civil e da Guarda Municipal foram encaminhadas ao local das ocorrências para avaliar os estragos.
Também houve registro de rachaduras em casas na cidade de São Miguel das Matas, que fica próximo a Amargosa.
O técnico agrícola Elizeu Ribeiro, 31, que mora em um sítio na zona rural da cidade, teve uma das paredes de sua casa danificada pelo tremores. Uma rachadura de mais de dois metros se abriu na parede do imóvel, que é antigo e foi construído com tijolos de adobe.
“Eu estava dormindo ainda, quando ouvi um barulho parecendo uma trovoada e senti a terra tremendo. Não sabia se corria ou permanecia na cama. Mas não demorou 40 segundos e passou”, afirma. Ele conta que foram dois tremores na região, separados por um tempo de cerca de 15 minutos.
Em Aratuípe, também no Recôncavo, o tremor derrubou parte de um muro que já estava em mau estado de conservação, em uma área em torno de uma torre de telefonia.
Também houve relatos de pequenos tremores em pelo menos 13 bairros de Salvador, incluindo bairros centrais como Garcia, Lapinha, Barris e bairros mais ao norte da cidade como Cajazeiras e Pituaçu. De acordo com a Defesa Civil municipal, não há registro de feridos ou danos materiais.
Professor da UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), o geólogo Carlos Uchôa explica que, assim como outras regiões do Nordeste, o recôncavo baiano é uma área propensa a registrar pequenos tremores de terra.
“É uma região que constantemente registra sismos de baixa magnitude. A maioria é imperceptível, mas alguns podem chegar ao ponto de assustar as pessoas, como aconteceu desta vez”, afirma o professor.
Os terremotos acontecem porque a região possui falhas geológicas formadas há milhões de anos. O acúmulo de energia provoca o deslocamento de blocos rochosos, fazendo com que esta energia seja liberada em pequenos terremotos. Em geral, o epicentro fica em uma profundidade baixa – desta vez, foi a 10 km da superfície.
Os tremores, explica Uchôa, não tem relação com os limites de placas tectônicas, que ficam em uma superfície mais profunda. O território brasileiro fica em cima de uma única placa tectônica, a Sul-Americana. Por isso, o país não registra terremotos de grande intensidade.
Explique o que são falhas geológicas e como elas podem provocar tremores de terra, como os registrados no Recôncavo Baiano.
Analise as possíveis consequências sociais e econômicas de pequenos tremores de terra em regiões com construções antigas, como mencionado no caso da casa de tijolos de adobe.
Discuta por que o Brasil, apesar de estar em uma única placa tectônica, pode registrar tremores de terra. Como isso se relaciona com a escala dos tremores no país?
Avalie as medidas preventivas e de resposta rápida que podem ser adotadas pelas prefeituras e órgãos como a Defesa Civil em regiões propensas a tremores de terra.
Aponte as diferenças entre os tremores de terra ocorridos no Recôncavo Baiano e terremotos de grande magnitude que acontecem em regiões de limites de placas tectônicas.
Com base nas informações do geólogo Carlos Uchôa, explique por que a maioria dos tremores de terra no Recôncavo Baiano é imperceptível para os moradores. O que fez esse evento ser diferente?
Considere os relatos dos moradores durante os tremores de terra na Bahia. Como as percepções pessoais podem influenciar a compreensão e a reação da população em situações de abalos sísmicos?
Discuta a importância do monitoramento sismológico em áreas propensas a tremores de terra, mesmo quando estes são de baixa magnitude. Como essas informações podem auxiliar na prevenção de desastres?
Explique como a liberação de energia em falhas geológicas pode causar deslocamento de blocos rochosos, resultando em tremores de terra. Qual é a relação entre a profundidade do epicentro e a intensidade sentida na superfície?
Analise a atuação da mídia e das redes sociais na divulgação de informações sobre eventos sísmicos, como os tremores de terra na Bahia. Qual é o papel da comunicação em situações como essa?