Categoria: Geopolítica

  • China rejeita Guerra Fria 2.0 e diz que está pronta para negociar com os EUA

    China rejeita Guerra Fria 2.0 e diz que está pronta para negociar com os EUA

    Chanceler chinês afirma que país asiático não é ‘antiga União Soviética’

    7.ago.2020 à 0h32

    SÃO PAULO

    Em longa entrevista à agência de notícias Xinhua na quarta-feira (5), o ministro de Relações Exteriores da China, Wang Yi, rejeitou a ideia de uma Guerra Fria 2.0 com os EUA.

    “A China de hoje não é a antiga União Soviética e não tem intenção de se tornar outros EUA”, disse ele.

    Wang Yi, ministro de Relações Exteriores da China, durante entrevista à agência Xinhua, em Pequim
    Wang Yi, ministro de Relações Exteriores da China, durante entrevista à agência Xinhua, em Pequim – Zhai Jianlan – 5.ago.20/Xinhua

    A entrevista ao veículo chinês ocorre em um momento de tensão nas relações entre os dois países.

    Nos últimos meses, Washington subiu o tom em relação ao país oriental, culpando-o pela pandemia do novo coronavírus, criticando a repressão de Pequim aos protestos em Hong Kong e ameaçando impor restrições a companhias chinesas de tecnologia que operam no país.

    Segundo Wang, há políticos americanos que são tendenciosos e hostis em relação à China e estão usando seu poder para obstruir as relações entre os dois países.

    Na entrevista, o tom do chanceler foi o de estabelecer pontes, e ele se colocou à disposição para encontros com os EUA “em qualquer nível, sobre qualquer assunto”, para tentar evitar mais conflitos entre as duas principais economias do mundo.

    “Se a cooperação entre a China e os EUA fosse injusta e não recíproca, como poderia ter continuado por várias décadas? Como os laços entre a China e os EUA teriam percorrido esse longo caminho?”, questionou Wang.

    Descrevendo a conduta de Washington em relação ao país como impulsiva, o chanceler instou os EUA a “estabelecerem um diálogo de igual para igual”.

    “Nós exortamos os Estados Unidos a parar de agir com arrogância e preconceito”, disse.

    Uma das críticas de Wang foi à decisão do presidente americano, Donald Trump, de retirar o país da OMS (Organização Mundial da Saúde) durante a pandemia do coronavírus. “O governo atual deixou mais tratados internacionais do que qualquer um antes dele.”

    “O verdadeiro desafio para a ordem internacional é o fato de que os EUA, o país mais forte do mundo, colocam seus próprios interesses acima de todo o resto”, disse.

    Trump anunciou o rompimento com o órgão de saúde em maio. Os EUA são os maiores doadores da OMS —em 2019, o país desembolsou US$ 400 milhões (R$ 2,06 bilhões), equivalentes a cerca de 15% do orçamento da organização sediada em Genebra.

    À época, o americano disse que os pagamentos seriam direcionados a outras entidades de saúde pública.

    No capítulo mais recente da crise diplomática entre as duas potências, Pequim ordenou o fechamento do consulado americano em Chengdu, no sudoeste do país.

    Foi o cumprimento de uma promessa de retaliação anunciada assim que Washington mandou fechar o consulado chinês em Houston, no estado do Texas.

    “Todas as desculpas para o fechamento apresentadas pelos EUA não passam de invenções para difamar a China, e nenhuma delas é apoiada por qualquer evidência ou resiste a escrutínio”, disse Wang.

    “A China não tem intenção de lutar uma ‘guerra diplomática’ contra os Estados Unidos”, acrescentou.

    Washington tem acusado Pequim de ser responsável pela disseminação do novo coronavírus —o vírus foi detectado pela primeira vez na cidade de Wuhan. Também têm usado o cerco da China a Hong Kong para criticar o país asiático no campo dos direitos humanos.

    No mês passado, a Casa Branca determinou o encerramento da política de tratamento econômico especial dado à ex-colônia britânica em resposta à imposição chinesa de uma lei de segurança nacional que erodiu grande parte das liberdades do território semiautônomo.

    Os EUA também têm apoiado os manifestantes anti-Pequim —Hong Kong vive uma onda de protestos desde junho de 2019.

    Protestos em Hong Kong após aprovação de nova lei de segurança nacional

    Polícia detém manifestante com base na nova lei de segurança nacional em Hong Kong
    Polícia detém manifestante com base na nova lei de segurança nacional em Hong Kong Dale de la Rey – 1º.jul.20/AFP

    No início da entrevista à Xinhua, o chanceler relembrou a visita histórica de Richard Nixon à China em 1972, que marcou a retomada de relações diplomáticas entre os dois países, e disse que as diferenças sociais entre as potências não afetaram a coexistência pacífica no passado e não deveriam afetar relações no futuro.

    “Não é necessário nem possível que um país mude o outro. Deveríamos, em vez disso, respeitar a escolha feita de forma independente pelos povos de cada lado”, afirmou Wang. “O socialismo com características chinesas serve a China e tem o firme apoio da população.”

    O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, já afirmou que o Partido Comunista Chinês é uma “ameaça para a humanidade” e pediu que o povo chinês “mudasse o partido”, aumentando especulações de que uma estratégia de mudança de regime poderia ser aplicada ao país oriental.

    “A China continuará a promover o desenvolvimento e o progresso para atender as expectativas de seu povo e fazer novas e maiores contribuições à humanidade”, disse o chanceler.

    “Qualquer pessoa que tentar atrapalhar esse processo encontrará o fracasso.”

    Questões

    1 Explique o significado do título da notícia.

    2. Analise o contexto geopolítico da visita histórica de Richard Nixon à China em 1972.

    3. Por que Hong Kong vive um ambiente de protestos contra o governo Chinês desde junho de 2019?

    4. O que seria o “socialismo com características chinesas”? Exemplifique.

    Prof. Luciano Mannarino.

  • Após explosão de Beirute, centenário do Grande Líbano é marcado por pessimismo

    Após explosão de Beirute, centenário do Grande Líbano é marcado por pessimismo

    .Diogo Bercito

    Esta terça-feira (1º) marca o centenário da proclamação do Estado do Grande Líbano, o antecessor histórico da atual República Libanesa. Parte da população, no entanto, enxerga poucas razões para celebrar a data. Esse aniversário, afinal, chega menos de um mês depois da explosão de 4 de agosto no porto de Beirute, que deixou 180 mortos, 6.000 feridos e devastou uma parte extensa da cidade mediterrânea.

    Para muitos, a explosão no porto é mais uma das consequências da maneira com que o Estado foi criado em 1º de setembro de 1920. O Império Otomano havia sido derrotado na Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918) e, como consequência, seu território foi desmembrado e distribuído entre potências europeias. A França tomou o controle do que são hoje a Síria e o Líbano. O Grande Líbano, criado em 1920, virou a República Libanesa em 1926. O Líbano declarou a sua independência em 1943 e as tropas francesas finalmente recuaram dali em 1946.

    Uma das principais críticas a como o Líbano foi criado nos anos 1920 é o fato de que o país foi recortado dentro do que era até então a região da Grande Síria. Havia precedentes históricos — o Monte Líbano, por exemplo, tinha alguma autonomia nas últimas décadas do Império Otomano. Mas as fronteiras foram traçadas pela França de modo a satisfazer suas próprias ambições coloniais, tentando fazer com que o Líbano fosse um enclave cristão no Oriente Médio. Assim, parte da população cristã celebrou a declaração do Grande Líbano em 1920, enquanto muçulmanos ressentiram ter sido separados do que se tornaram a Síria e a Palestina. “As pessoas foram dormir um dia pensando que eram sírios ou otomanos e acordaram no dia seguinte e se viram em um Estado libanês”, afirmou à Reuters Salah Tizani.

    O Líbano foi organizado, em seguida, em um sistema político confessional. Isso significa que cada grupo religioso ganhou direitos políticos específicos. Por exemplo, o presidente é sempre um cristão maronita, enquanto o premiê é muçulmano sunita e o líder do Parlamento é muçulmano xiita. Essa separação levou a frequentes embates no país, abrindo espaço para a guerra civil travada de 1975 a 1990, que deixou cerca de 150 mil mortos e 17 mil desaparecidos.

    O Estado criado em 1920 foi cimentado de maneira a permitir a corrupção de sua liderança política e o sectarismo. Segundo as avaliações preliminares, o descaso das autoridades está relacionado a como nitrato de amônio foi armazenado de maneira perigosa no porto de Beirute — resultando na explosão em agosto.

    “Você vive entre uma guerra e outra, e você reconstrói e então tudo é destruído e você reconstrói mais uma vez”, disse à agência Reuters o diretor de teatro Nidal al-Achkar. “É por isso que perdi a esperança.”

    Prof. Luciano Mannarino

  • Crise multinível na América Latina está mais complexa

    Crise multinível na América Latina está mais complexa

    Incidência de atores extrarregionais faz da região um campo de conflitos e lutas geopolíticas e geoeconômicas
    Andrés Serbin
    LATINOAMÉRICA21

    O ano de 2019 foi um annus horribilis para a América Latina. Junto com uma acentuada desaceleração e um crescimento econômico magro que alcançou apenas 0,1%, a região experimentou uma multiplicação de mobilizações e protestos sociais que afetaram tanto os governos de esquerda quanto os de direita, em um contexto de uma reconfiguração –através de eleições– do mapa político da região.

    Mas o ano 2020 trouxe a pandemia, que, apesar das diferenças nacionais, aprofundou algumas das tendências e semelhanças existentes e acentuou algumas características estruturais que constituem o pano de fundo dos múltiplos desafios que a região enfrentará para entrar em uma fase de pós-pandemia.

    Funcionários carregam caixão em cemitério em Santiago, capital do Chile, durante a pandemia de coronavírus
    Funcionários carregam caixão em cemitério em Santiago, capital do Chile, durante a pandemia de coronavírus – Claudio Reyes – 5.ago.2020/AFP

    A Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) antecipou que, como consequência da pandemia, se produzirá a pior recessão da história da região, com uma contração do PIB de 5,3% em 2020 e o aumento do índice de pobreza de 30,3% para 34,7%. O Banco Mundial mostrou que a contração poderia chegar a mais de 7%, como parte da pior crise da região desde 1901.

    Sob o título genérico de Informe Iberoamérica 2020, um documento recente apresentado pela Fundación Alternativas de Madrid aponta os maus momentos que a região atravessa e atravessaria.

    O relatório aponta algumas dessas características, como a desigualdade pré-existente que afeta a estabilidade política da região, o aumento das demandas e expectativas associadas aos avanços sociais dos anos anteriores, que respondem a lutas redistributivas, e demandas por melhores políticas públicas por parte de diversos setores sociais.

    O relatório também destaca que esse é o pior desempenho econômico dos últimos 60 anos, o que agrava os problemas estruturais da região associados à baixa diversificação produtiva e à excessiva dependência de matérias-primas (e a demanda da China pelas mesmas).

    Essa situação é agravada por uma crise de representação que marca retrocessos democráticos associados tanto a baixos níveis de confiança nas instituições políticas quanto ao desencanto (e consequente deslegitimação) em relação à capacidade das elites políticas e das lideranças existentes de atender às demandas dos cidadãos.

    A rivalidade entre os Estados Unidos e a China não é o único eixo desse processo. A crescente incidência de atores extrarregionais faz da América Latina e do Caribe, apesar de sua aparente natureza periférica, um campo de conflitos e lutas geopolíticas e geoeconômicas que tornam sua inserção internacional mais complexa. Além dessas duas potências, Rússia, Irã, Turquia e, mais recentemente, a Índia estão fazendo incursões na região, além dos tradicionais laços com a União Europeia e o Japão.

    Três fatores adicionais –eventualmente relacionados entre si– tendem a tornar a crise multinível na região ainda mais complexa.

    Primeiro, existe a corrupção das elites que tende a permear diferentes níveis das respectivas sociedades. Há o reaparecimento dos militares como um ator político, processo que ameaça as instituições democráticas já enfraquecidas e dá origem a várias modalidades autoritárias. E a expansão do crime organizado em suas múltiplas encarnações, do tráfico de drogas ao tráfico humano.

    Nesse contexto, ao desafio de lidar com a pandemia se somam obstáculos difíceis.

    Os países devem enfrentar a recessão e a crise econômica que afetam tanto os setores mais vulneráveis quanto a sociedade como um todo.

    A resiliência da democracia e de suas instituições enfraquecidas deve ser reforçada através da promoção de estratégias e políticas públicas que demanda a cidadania.

    E, finalmente, uma coordenação regional mais eficiente deve ser desenvolvida para enfrentar os desafios globais e para promover a inserção internacional com maiores graus de autonomia e de diversificação.

    Desafios do mau momento que exigem acordos sociais complexos e sofisticados e consensos regionais, em uma América Latina devastada pela pandemia, mas também pela polarização social e política e pela atomização regional.

    Andrés Serbin é cientista político, presidente-executivo da Coordenação Regional de Pesquisa Econômica e Social (Cries), membro pleno do Conselho Argentino de Relações Internacionais (Cari) e ex-diretor de Assuntos Caribenhos do Sistema Econômico Latino-Americano (Sela).
    http://www.latinoamerica21.com, um projeto plural que dissemina diferentes visões da América Latina.

     

    Prof Luciano Mannarino.

  • Na esteira global, países africanos mudam nomes de lugares que homenageiam colonialistas

    Na esteira global, países africanos mudam nomes de lugares que homenageiam colonialistas

    Movimento que questiona monumentos já existia no continente e ganha força com Black Lives Matter
    Adriano Maneo
    BRASÍLIA

    O movimento global que pede a retirada de monumentos em homenagem a figuras ligadas ao passado colonial, desencadeado pelos atos antirracistas após a morte de George Floyd, impulsionou propostas para alterar nomes de locais e estátuas que celebram exploradores, monarcas e opressores na África.

    Após as manifestações, que começaram nos Estados Unidos e se espalharam por todo o mundo, Uganda, Quênia e Senegal já mudaram ou têm propostas para trocar o nome até mesmo de locais muito conhecidos, como o Lago Vitória, um dos maiores do planeta.

    Localizado entre Quênia, Tanzânia e Uganda, o lago foi batizado em homenagem à rainha Vitória, em 1850, por John Speke, oficial do Exército britânico que buscava encontrar a nascente do rio Nilo.

    Pescadores preparam redes na ilha Mimingo, no Lago Vitória, na fronteira entre Quênia e Uganda – Yasuyoshi Chiba – 5.out.18/AFP

    Incomodados com a memória da presença britânica que transformou o Quênia em uma colônia entre 1920 e 1963, os advogados Wambugu Wanjohi e Kariuki Karanja entregaram uma petição à Assembleia Nacional do país no final de julho para pedir que nomes de locais em homenagem à época do império sejam substituídos por outros “que reflitam a identidade cultural do povo queniano ou de heróis do país”.

    A petição também pede a retirada ou substituição de toda a “iconografia que promova a opressão do povo queniano” e a revisão do currículo escolar, “especialmente a história da ocupação colonial e a luta pela independência, para glorificar, em vez dos opressores, o povo queniano que lutou contra a opressão”.

    Segundo Wanjohi, apesar de os povos nativos estarem nesses locais até hoje, as crianças são ensinadas nas escolas há anos que os lugares foram descobertos por europeus.

    Entre os nomes dados por nativos ao Lago Vitória estão Nnalubaale, na língua luganda, Nyanza, em algumas línguas bantu, e Namlolwe, no dialeto dholuo, no Quênia.

    Na vizinha Uganda, um protetorado britânico de 1894 a 1962, movimento similar acontece.

    Uma petição online com mais de 5.500 assinaturas pela renomeação de ruas e de outros monumentos do país foi entregue pelo advogado Apollo Makubuya ao primeiro-ministro Ruhakana Rugunda e à presidente da Câmara do país, Rebecca Kadaga.

    O advogado Apollo Makubuya entrega petição para a mudança de nomes e monumentos de Uganda à presidente da Câmara do país, Rebecca Kadaga
    O advogado Apollo Makubuya entrega petição para a mudança de nomes e monumentos de Uganda à presidente da Câmara do país, Rebecca Kadaga – Reprodução – 26.jul.2020/Parlamento de Uganda

    Assim como no pedido queniano, a solicitação ugandesa, subscrita por parlamentares e juristas de renome do país, também sugere a reforma do currículo escolar e a instituição de uma regulamentação para fazer a troca de nomes a partir de discussões com a sociedade civil.

    O pleito ainda estimula a produção de pesquisas e publicações sobre a história da criação de Uganda e do período colonial britânico, para “apoiar o trabalho do Conselho de Direitos Humanos da ONU em busca da responsabilização e de reparação às vítimas de décadas de opressão e exploração colonial”.

    No ato de entrega, Makubuya afirmou que “a iconografia colonial ofende direitos e liberdades fundamentais de grupos e indivíduos contra tratamento cruel, desumano e degradante” e que ela “reforça e celebra uma cultura de supremacia colonial, dominação e impunidade”.

    Mas a posição não é unânime. Quando o jornal ugandês The Observer publicou reportagem sobre a iniciativa, leitores defenderam que o país trate ruas e monumentos como um museu a céu aberto.

    “Não sejamos mesquinhos. Só porque o sr. M7 [apelido do ditador de Uganda, Yoweri Museveni, no poder desde 1986] foi um bárbaro, por exemplo, a próxima administração deveria retirar todas placas e pedras fundamentais das instalações inauguradas por ele?”, escreveu um leitor.

    “Espero que o sr. Makubuya não esteja pensando em demolir o principal prédio da Universidade Makerere, o Livingstone Hall, […] porque foi construído pelos colonialistas britânicos.”

    Para outro leitor, o movimento é uma “loucura”, e os defensores das ações, não tão diferentes “dos loucos do Estado Islâmico que usaram martelos e destruíram ruínas de uma antiga civilização no Oriente Médio”.

    “Seguindo a linha de pensamento desses homens, por que não destruir também as imagens e relíquias de reis ugandeses que vendiam seus súditos para comprar armas?”

    OS DESCOBRIDORES AFRICANOS

    A petição de Makubuya foi inspirada em outra, de Milton Allimadi, professor ugandês de história africana na Universidade da Cidade de Nova York. Allimadi ficou conhecido em 2019 após “descobrir” um rio em Londres. Em visita à cidade, tirou uma foto em frente ao Tâmisa, um dos símbolo da capital inglesa.

    africa
    “Descobri o rio que vocês veem atrás de mim, aqui em Londres. Não sei como os nativos o chamam, mas darei um nome apropriado: rio Gulu”, escreveu, batizando o Tâmisa com o nome de sua cidade natal.

    “Descobri o rio que vocês veem atrás de mim, aqui em Londres. Não sei como os nativos o chamam, mas darei um nome apropriado: rio Gulu”, escreveu, batizando o Tâmisa com o nome de sua cidade natal.

    “Assim como o sir Samuel Baker [explorador britânico], agora vocês podem me chamar de sir Milton… Aquele que descobriu o rio Gulu”, afirmou ele. Colegas e admiradores passaram a chamá-lo de “sir”.

    Em poucos dias, o post viralizou, dando início a um movimento de “descoberta” de outros monumentos por africanos ou afrodescendentes pela Europa e pelos EUA.

    “Uma pessoa certamente não acredita que vale muito se considera que a história e a cultura dos outros são superiores à sua própria”, diz o professor, em entrevista à Folha.

    “Muito antes de países como os Estados Unidos existirem, já havia culturas avançadas na África, incluindo Egito, Núbia [atual Sudão], Aksum [partes da atual Etiópia] e Etiópia”, lembra.

    “Até mais recentemente, no século 12, as artes em bronze do Benin e dos Yorubá são evidências dos altos níveis culturais, mas muitos africanos perderam a confiança, porque a única história que são ensinados é de subjugação na forma de escravidão e colonialismo.”

    Marcada pela história profundamente ligada ao tráfico de escravos, a Ilha de Gorée, no Senegal —ex-colônia francesa—, era um dos principais portos de comércio de cativos na África.

    A 20 minutos de balsa da capital Dacar, Gorée hoje é ponto turístico, patrimônio mundial da humanidade e música na voz de Gilberto Gil. Mas a principal praça da ilha que recebe muitos turistas diariamente acabou levando um nome que dividiu opiniões.

    Financiada pela União Europeia, foi inaugurada em 1998 como European Square (praça europeia). No mês passado, no entanto, impulsionado pelo movimento global contra o racismo, o Conselho Municipal decidiu alterar o nome do local para Freedom Square (Praça da Liberdade).

    Segundo Doudou Dia, presidente da comissão de turismo da ilha e coordenador científico da comissão da Praça da Liberdade, Gorée tenta se posicionar como um lugar onde existe diálogo intercultural e civilizado em um mundo marcado por intolerância e crises de identidade.

    “Acima de tudo, esses eventos sublinharam a profunda divisão racial que continua a fraturar a humanidade dando espaço a medo, incertezas e humilhações”, afirma Dia.

    “Esse é um espaço de humanidade, para celebrar liberdade, valores de dignidade e honra. A praça está próxima da Casa de Escravos, e em respeito a essa memória o Conselho Municipal organizou encontros e decidiu mudar o nome, em resposta aos atos de racismo e violência pelo mundo.”

    A discussão sobre mudanças no legado colonial em países africanos não é nova e se renova quando há impulsos, como os atos pela morte de Floyd, e em alguns momentos as mudanças se materializam.

    As capitais de Moçambique, Maputo, e Zimbábue, Harare —para citar exemplos das inúmeras mudanças de nomes ocorridos em diversos países na África pós-colonial—, chamavam-se Lourenço Marques e Salysbury, até os países tornarem-se independentes de Portugal e Reino Unido, respectivamente.

    O próprio Zimbábue é um nome recente. Antes da independência, em 1980, o país cujo nome significa casa de pedra na língua nativa shona, chamava-se Rodésia, em homenagem ao imperialista inglês Cecil Rhodes, que teve papel central na dominação britânica das nações do sul do continente.

    Rhodes foi também alvo de revolta em um movimento que começou na Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, em 2015, e se espalhou por outros países, dentro e fora da África, com o nome de “Rhodes Must Fall” (Rhodes deve cair).

    Após um estudante jogar excrementos na cabeça de uma estátua do explorador no campus da instituição, uma série de protestos exigindo a retirada do monumento deu margem ao surgimento de outras pautas, como o racismo institucional da universidade e o acesso à educação no país.

    Rhodes, afinal, caiu, e nomes de outras instalações da universidade mudaram ao longo dos últimos anos.

    Movimento Rhodes Must Fall chegou à Universidade Oxford em 2015, e voltou à tona neste ano, em Londres – Adrian Dennis – 9.jun.2020/AFP

    Em 2016, uma figura vista por muitos como um símbolo da não violência gerou debates acalorados na Universidade de Gana, em Acra.

    Na iminência de uma visita do então presidente indiano Pranab Mukherjee, uma estátua de Mahatma Gandhi, líder pacifista e um dos responsáveis pelo movimento de independência da Índia, foi instalada no campus sem qualquer aviso ou discussão.

    Quando Obadele Kambon, pesquisador de línguas africanas da universidade, descobriu a novidade, enviou um email para a comunidade acadêmica revelando o surpreendente passado racista do ícone global.

    “Com a nova estátua de Gandhi atrás da Biblioteca Balme, penso que isso seja do interesse de vocês”, escreveu Kambon. “Espero que, na morte, ele não se oponha tanto a ser associado com africanos como aparentemente fazia enquanto vivo”, continuou.

    Na sequência, deixou referências a 58 frases racistas de Gandhi, nas quais chamava africanos de “selvagens” e “kaffir” —termo pejorativo para africanos negros— e elogiava o apartheid sul-africano.

    Depois, o professor criou uma petição online e o movimento Gandhi Must Fall (Gandhi precisa cair). Quando reuniu 1.500 assinaturas, entregou o pedido à universidade, que prometeu retirar a estátua.

    “Situamos o movimento Gandhi Must Fall no contexto dos movimentos Black Lives Matter que já estavam ocorrendo naquela época e somamos forças com o movimento Rhodes Must Fall”, lembra Kambon.

    A estátua, entretanto, foi retirada apenas dois anos depois, entre idas e vindas.

    Estátua de Mahatma Gandhi, na praça Gandhi, em Joanesburgo, na África do Sul – Siphiwe Sibeko – 11.jun.2020/Reuters

    Kambon diz compreender a existência do debate para definir o que deve ser retirado e o que deve ser mantido, mas ressalta que, após pesquisas como a que fez sobre Gandhi demonstrarem um histórico de racismo e opressão, é preferível que essas imagens sejam “substituídas por outras que sejam potentes e inspiradoras para as pessoas que vivam naquele local”.

    “Caso coloquem uma estátua de alguém que eu, como pesquisador, posso provar que se referia a nós como animais, vou exigir que ela seja retirada.”

    Segundo o professor, as pessoas olham a história como um passado ao qual não pertencem. Em vez disso, diz ele, elas deveriam encará-la como algo que estamos fazendo todos os dias.

    “Quando entendermos isso, podemos registrar em uma placa que ali existia uma estátua dessa pessoa, mas que, finalmente, o povo negro teve bom senso. Seria um registro de que acordamos e que somos pessoas sensíveis, com dignidade e respeito próprio.”

    Questões.
    1. Qual o objetivo do movimento “Rhodes must fall”?
    É possível estabelecer  relações  como o movimento “Black Lives Matter”? Justifique.
    2. Aponte influências da Europa  que ainda estão presentes nos países africanos mesmo após a emancipação política. Exemplifique.
    Prof Luciano Mannarino.
  • Cantor nigeriano é condenado a pena de morte por blasfêmia contra Maomé

    Cantor nigeriano é condenado a pena de morte por blasfêmia contra Maomé

    Yahaya Sharif-Aminu, 22, foi julgado por tribunal que aplica lei islâmica
    SÃO PAULO

    Um músico do estado de Kano, no norte da Nigéria, foi condenado à morte por enforcamento sob a acusação de ter blasfemado o profeta Maomé, segundo a BBC Nigéria.

    Yahaya Sharif-Aminu, 22, foi julgado por uma alta corte regida pela sharia, a lei islâmica. Estados do norte do país são de maioria muçulmana, e, por isso, usam tanto leis seculares quanto a religiosa —mas esta aplica-se apenas aos que seguem o islã.

    Muçulmanos rezam em mesquita em Lagos, na Nigéria
    Muçulmanos rezam em mesquita em Lagos, na Nigéria – Pius Utomi Ekpei – 7.ago.20/AFP

    Desde que a pena de morte foi reintroduzida na Nigéria, em 1999, apenas uma decisão do tipo foi cumprida: em 2002, um homem foi enforcado por ter matado uma mulher e seus dois filhos durante um assalto, de acordo com o serviço britânico de notícias.

    Sharif-Aminu compôs a música em março e a compartilhou por meio de um aplicativo de mensagens. A canção foi considerada ilegal por retratar de forma elogiosa um imã (líder religioso muçulmano) da irmandade Tijaniya, à qual Sharif-Aminu pertence, colocando-o acima do profeta Maomé.

    Antes do episódio, o compositor gospel era pouco conhecido fora de sua irmandade. Segundo a BBC, Sharif-Aminu não negou as acusações. Ele pode recorrer da decisão.

     

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/08/cantor-nigeriano-e-condenado-a-morte-por-blasfemia.shtml

     

    Trabalho em grupo (sala de aula)

    O processo de islamização do continente africano  tem uma dimensão territorial. É possível identificar isso no texto jornalístico?

    Justifique!

     

     

    Prof. Luciano Mannarino.