Categoria: Geopolítica

  • Cercado, Japão se afasta do pacifismo e acelera uso de armas ofensivas. (atividade)

    Cercado, Japão se afasta do pacifismo e acelera uso de armas ofensivas. (atividade)

    País descarta sistema de defesa antimíssil e admite empregar força vetada pela Constituição

     

    Igor Gielow
    SÃO PAULO

    Alarmado com a ascensão da China, uma Coreia do Norte imprevisível e a pouca confiança que Donald Trump inspira, o Japão deu mais um passo para retomar sua capacidade militar ofensiva.

    Na sexta (26), o Conselho Nacional de Segurança do país enterrou os planos para instalar em dois pontos de sua maior ilha, Honshu, o sistema antimísseis americano Aegis Ashore.

    A decisão decorre de revisão de custos e das queixas de moradores de cidades próximas, tornadas alvos óbvios, mas tem uma implicação estratégica maior.

    Carro de combate Tipo 16 atira durante exercício das Forças de Autodefesa do Japão em Gotemba, em maio
    Carro de combate Tipo 16 atira em exercício das Forças de Autodefesa em Gotemba, em maio – Charly Triballeau – 23.mai.2020/Pool via Reuters

    O primeiro-ministro Shinzo Abe afirmou que, como opção, o Japão estuda se armar com mísseis capazes de atacar bases de países inimigos antes que elas lancem seus foguetes.

    Assim, na prática Abe está dando uma interpretação criativa sobre o artigo 9 da Constituição japonesa, que proíbe o país de possuir armas ofensivas.

    A Carta é um legado da derrota do império na Segunda Guerra Mundial em 1945, tendo sido imposta pelos vencedores, os Estados Unidos.

    Ao longo da Guerra Fria, com a necessidade de conter a União Soviética no Pacífico, os japoneses foram se rearmando com apoio americano, apesar das limitações.

    “Desde então, a estratégia dos EUA é a de evitar a ascensão de poderes regionais. Um Japão capaz poderia minar a estrutura de alianças americana”, diz Phillip Orchard.

    Só que a última década, afirma esse analista da consultoria americana Geopolitical Futures, viu a discussão ser retomada com a ascensão da China e sua maior assertividade.

    Pequim tem investido em força naval e militarizou o mar do Sul da China, rota marítima vital e que os EUA querem livre, com bases.

    Já a ditadura de Kim Jong-un testa, periodicamente, mísseis com alcance de sobra para levar uma bomba nuclear ao Japão.

    Por fim, há rivalidades históricas diversas na região. Tóquio ainda não resolveu o status das ilhas Kurilas, disputadas com Moscou, e a relação com a Coreia do Sul é sempre tensa, por evocar a brutal ocupação japonesa de 1910 a 1945.

    O veto a possuir bombardeiros estratégicos, mísseis de longo alcance ou porta-aviões de ataque também marcou a psique nacional do pós-guerra.

    De um lado, o pacifismo floresceu fortemente na política, decorrente do trauma do conflito que viu as duas únicas bombas atômicas usadas em guerra explodirem no Japão.

    Por outro, organizações nacionalistas, a maioria de extrema direita, ganharam força.

    Abe é membro da maior delas, a Nippon Kaigi (conferência do Japão), e visitou várias vezes o polêmico santuário Yasukuni.

    Caças F-15 japoneses (centro) voam com dois bombardeiros B-1B (acima) e dois caças F-35 americanos sobre a região de Kyushu, Japão
    Caças F-15 japoneses (centro) voam com dois bombardeiros B-1B (acima) e dois caças F-35 americanos sobre a região de Kyushu, no Japão – Ministério da Defesa do Japão – 31.ago.2017/Reuters

    O templo xintoísta em Tóquio homenageia 2,5 milhões de japoneses mortos em combate, inclusive mais de mil criminosos de guerra condenados.

    O premiê, que passou pelo cargo de 2006 a 2007 e voltou ao poder em 2012, é a figura dominante da política japonesa.

    Ainda assim, sua defesa do rearmamento ofensivo do país é duramente combatida na Dieta (o Parlamento local), e não deverá ser diferente agora.

    O governo tenta se equilibrar entre as demandas. Apesar do militarismo de Abe e da necessidade de manter o arquipélago com acesso a rotas marítimas de suprimentos, no ano passado o Japão se recusou a participar de patrulhas com os americanos no estreito de Hormuz.

    Os EUA queriam ajuda do aliado para pressionar o Irã, com quem quase foram à guerra no começo deste ano, e garantir o fluxo de petroleiros pela região.

    O motivo: o artigo 9 veta qualquer projeção de poder fora de águas territoriais.

    Shinzo Abe e Donald Trump durante encontro bilateral na reunião do G7 em Biarritz (França), em 2019
    Shinzo Abe e Donald Trump durante encontro bilateral na reunião do G7 em Biarritz (França), em 2019 – Carlos Barria – 25.ago.2019/Reuters

    Ainda assim, a Marinha japonesa participa de exercícios com americanos e australianos com frequência, e sua Guarda Costeira tem operado no mar do Sul da China.

     

    Os três países e a Índia formam uma aliança informal chamada Quad, que envolve estrategicamente as saídas chinesas para o mar — e o comércio mundial é 90% marítimo.

    No fim de semana, japoneses fizeram manobras com os indianos no Oceano Índico, outra sinalização aos chineses: Pequim e Nova Déli se envolveram em uma escaramuça fronteiriça com mortos há duas semanas.

    A questão econômica pesou no caso do sistema antimísseis. O Aegis Ashore custaria US$ 4,1 bilhões (R$ 22 bilhões no câmbio desta segunda, 29) ao Japão, dos quais US$ 1,6 bilhão (R$ 8,6 bilhões) já foram pagos, e o país está em recessão devido à pandemia do novo coronavírus.

    Isso não obrigou, contudo, a revisão de outros projetos do plano quinquenal de defesa do Japão, lançado em 2019.

    Nele, o país pretende gastar US$ 244 bilhões (R$ 1,3 trilhão). Em 2019, o Japão teve o oitavo maior orçamento militar do mundo, US$ 48,6 bilhões (R$ 262 bilhões).

    EUA lideram com US$ 684,6 bilhões (R$ 3,7 trilhões), deixando a China em segundo com US$ 181,1 bilhões (R$ 978 bilhões), segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos.

    Um dos itens mais vistosos do pacote é a dupla de navios da classe Izumo, que estão sendo adaptados para receber a versão de decolagem vertical dos avançados caças americanos F-35. O Japão encomendou 45 desses aviões, capazes de lançar mísseis de longa distância.

    O programa, claro, é alvo de críticas da oposição, mas aos poucos vai tomando forma. Na semana passada foram iniciados os testes do oitavo destróier equipado com a versão naval do sistema antimíssil Aegis.

    Ele só não é visto como uma opção viável para o modelo terrestre porque seriam necessários ao menos três navios em ação 24 horas por dia.

    Fica bem mais barato comprar mísseis de cruzeiro de longo alcance, algo que começou a ser discretamente feito em 2017. Ou investir em mísseis balísticos, como Abe sugere.

    A negociação do americano com Kim, ora congelada, gerou sinais de alerta tanto em Tóquio quanto em Seul — que temem um desengajamento das obrigações americanas de defender os colegas.

    Até a eventual aquisição de armas nucleares, um tabu natural no Japão, foi discutida como meio de reforço de defesas.

    O país concentra o maior contingente americano no exterior, 55,6 mil soldados em 23 de bases.

    Trump já retirou forças da África, do Oriente Médio e, agora, da Europa.

    Se parece improvável que os EUA deixem os japoneses à mercê do colosso chinês, até pela Guerra Fria 2.0 entre Washington e Pequim, Tóquio não deve pagar para ver.

    “O país tem pouca alternativa senão assumir maior responsabilidade por seus interesses de longo prazo”, diz Orchard.

     

    Questões
    1. O texto especula que o Primeiro-ministro Shinzo Abe estaria fazendo uma interpretação criativa do Artigo 9 da Constituição japonesa.
    Por quê?
    2. Retirar tropas do Japão  é, sob o ponto de vista financeiro, duplamente rentável para os americanos.
    Por quê?
    3. Explique a forte presença americana no arquipélago japonês logo após a fim da 2 Grande Guerra.
    4. Explique o título da reportagem.
  • ONU pede que Israel mude plano ‘ilegal e perigoso’ de anexar terras da Cisjordânia (atividade)

    ONU pede que Israel mude plano ‘ilegal e perigoso’ de anexar terras da Cisjordânia (atividade)

    Comissão de Direitos Humanos se soma à oposição internacional contra proposta de Netanyahu e Trump

    GENEBRA e JERUSALÉM | AFP e REUTERS
    A Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, considera ilegal e perigoso o projeto israelense de anexação da Cisjordânia e destacou que as consequências “durarão décadas”.

    “A anexação é ilegal. Ponto final”, disse Bachelet, por meio de um comunicado nesta segunda-feira (29). “Qualquer anexação. De 30% ou de 5% da Cisjordânia.”

    A declaração de Bachelet se soma à oposição internacional que aumentou nas últimas semanas. Líderes palestinos, potências europeias e países árabes aliados a Israel são contra qualquer anexação de terras que as forças israelenses capturaram em 1967.

    Em janeiro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao lado do primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, apresentou seu projeto de resolução para o conflito israelense-palestino, partindo da situação atual e não, como acontecia até então, do direito internacional e das resoluções da ONU.

    Assentamento israelense de Maale Adumin, na Cisjordânia – Ilan Rosenberg – 29.jun.20/Reuters 

    O plano prevê a criação de um Estado palestino em um território restrito e fragmentado, assim como a anexação, por parte de Israel, de várias colônias e do Vale do Jordão, na Cisjordânia ocupada, um território palestino a 50 quilômetros de Gaza.

    A proposta —já rejeitada pela Autoridade Nacional Palestina (ANP) e por organizações internacionais e países europeus— pode entrar na pauta do governo a partir de quarta-feira (1°/7) e, depois, ser levada a votação no Knesset, o Parlamento de Israel.

    O projeto, entretanto, já provocou uma série de problemas geopolíticos e ameaça o novo governo de união nacional, formado a duras penas após um ano e três eleições no país.

    Bachelet disse que as “ondas expansivas da anexação durarão décadas e serão extremamente prejudiciais para Israel, assim como para os palestinos”, mas ressaltou que ainda há tempo de modificar a decisão.

    “Peço com insistência a Israel que escute seus próprios ex-funcionários e generais, assim como várias vozes no mundo, como advertência para não seguir por essa via perigosa.”

    O Ministério das Relações Exteriores de Israel acusou Bachelet de preconceito e disse, em resposta, que não surpreende que ela tenha feito suas observações antes de “qualquer decisão ser tomada”.

    Entretanto, de acordo com um porta-voz do Likud, partido de Netanyahu, o premiê israelense disse que as próximas etapas do projeto não dependem do apoio de Gantz.

    O líder do partido Azul e Branco não é totalmente contrário a algum tipo de extensão de lei israelense à Cisjordânia. Mas defende apenas uma anexação do Vale do Rio Jordão, que considera estratégica, e não um processo mais amplo, ao menos sem a contrapartida imediata da criação de um Estado palestino.

    Citado por um assessor a autoridades dos EUA nesta segunda, Gantz afirmou que a data prevista para o início das discussões no governo israelense —1º de julho— “não é sagrada”.

    O principal argumento para um possível adiamento é a crise causada pelo coronavírus em Israel.

    “O que não está relacionado ao corona vai esperar até o dia depois do vírus”, disse Gantz, que estima um cenário de crise por mais 18 meses.

     

     

    Questão

    1. Explique o início dos assentamentos de judeus na Cisjordânia.

    2. Qual a importância do controle do  Vale do Rio Jordão para Israel?

     

    Prof. Luciano Mannarino.

  • Ascensão da China embaralha negociações nucleares entre EUA e Rússia

    Ascensão da China embaralha negociações nucleares entre EUA e Rússia

    País asiático acha que não chegou a hora de sentar à mesa e, principalmente, de dividir a conta

     

    No início desta semana, EUA e Rússia aprontavam-se para negociações bilaterais sobre armas nucleares. A sala havia sido cuidadosamente preparada, com lugares dedicados às duas equipes negociadoras.

    De olho na cenografia, os americanos acrescentaram bandeiras da China à mesa, em frente a cadeiras vazias. Sob medida para uma foto e um recado via Twitter: a China precisa fazer parte desta negociação.

    EUA e Rússia assinaram em 2010 acordo que limita armas nucleares de longo alcance e permite inspeções mútuas. Se não for renovado, o acordo expira em fevereiro de 2021.

    Bandeiras chinesas colocadas pelos americanos na mesa de reunião com a Rússia sobre tratado nuclear
    Bandeiras chinesas colocadas pelos americanos na mesa de reunião com a Rússia sobre tratado nuclear – @USArmsControl no Twitter 

    Foi justamente para discutir a extensão do Novo Start (sigla em inglês para Tratado de Redução de Armas Estratégicas) que as partes se encontraram — sem grande progresso.

    Como a ambientação sugeria, a dificuldade de avançar, para os americanos, estava relacionada à parte que declinou o convite para a reunião.

    Apesar de ainda ser uma potência nuclear de médio porte, a China, com sofisticados mísseis intercontinentais, é vista pelos EUA como peça-chave no tabuleiro das negociações nucleares.

    Herança da Guerra Fria, o Novo Start teria envelhecido mal. Teria se tornado perigoso para os EUA, porque impõe limites a americanos e russos, deixando a China desimpedida.

    Além disso, o balanço do poderio militar hoje inclui mais elementos. Capacidades cibernéticas e armas antissatélites ganharam importância. Nessas duas frentes, a China está longe de ser um ator menor.

    Os russos tenderiam a renovar o Novo Start, mas os EUA resistem a avançar sem os chineses.

    Negociadores americanos entendem que, se renovarem o acordo rápido demais ou por muito tempo, tiram a pressão para que a China se junte a ele.

    Mas a realidade é que nem EUA nem Rússia querem limitar seus arsenais aos níveis dos da China. Os EUA têm 1.750 ogivas operacionais, os russos, 1.572 —e ambos têm muito mais em estoque.

    A China tem cerca de 300 no total. Os chineses não aceitariam congelar uma situação de tamanho desequilíbrio. Argumentam que as grandes potências nucleares — com 90% do arsenal do mundo — é que têm a responsabilidade principal pelo desarmamento.

    Ao mesmo tempo, o risco de o Novo Start expirar poderia servir de incentivo para a China se sentar à mesa de negociação. O fim do acordo acabaria com os limites auto-impostos por russos e americanos e reduziria a transparência relacionada aos seus arsenais.

    Sem que nenhum dos três jogadores possa ver as cartas dos demais, o risco é de que todos eles apostem no pior cenário, o que poderia desencadear uma nova corrida armamentista.

    Isso não interessaria à China, que, além de ter melhor destino para os seus recursos, sairia muito atrás numa reedição da disputa nesta área. Por ora, nada disso parece convencer Pequim a negociar.

    O perigo é de que, no esforço de trazer a China para a mesa de negociação, os americanos acabem por aniquilar décadas de resultados diplomáticos na área nuclear. Pior, não colocarão nada no lugar — e o vácuo aumenta a possibilidade de acidentes e erros de cálculo.

    Em 2019, os EUA abandonam o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, acusando a Rússia de descumprimento mas também de olho na China.

    Se o Novo Start caducar, será o fim do último acordo nuclear que ainda vincula EUA e Rússia.

    Para completar, os americanos abandonaram acordo nuclear com o Irã. O diálogo entre Kim Jong-un e Donald Trump não deu em nada. Muito recentemente, houve escaramuças sérias na fronteira entre China e Índia, duas potências nucleares.

    O fim do Novo Start colocará todos — inclusive a China — numa situação pior. Apesar disso, e mesmo querendo ser vista como um ator responsável, a China acha que não chegou a hora de sentar à mesa e, principalmente, de dividir a conta.

     

     

    Tatiana Prazeres

    Senior fellow na Universidade de Negócios Internacionais e Economia, em Pequim, foi secretária de comércio exterior e conselheira sênior do diretor-geral da OMC.

     

     

    Questões.

    1. O  Programa START é filho do fim Guerra Fria? Justifique.

    2. Quais são as preocupações de americanos e russos em relação a China?

    3. Segundo o texto, o que poderia gerar uma “nova corrida armamentista”?

    4. Aponte o elemento que tem aumentado a tensão entre a China e a Índia.

     

    Prof. Luciano Mannarino.

     

  • Coreia do Norte explode escritório diplomático que mantinha com Coreia do Sul (atividade)

    Coreia do Norte explode escritório diplomático que mantinha com Coreia do Sul (atividade)

    SEUL e SÃO PAULO | REUTERS

    A Coreia do Norte explodiu nesta terça (16) um escritório dedicado a facilitar as relações com a Coreia do Sul. O espaço, que ficava perto da fronteira entre os dois países, no lado norte, funcionava na prática como uma espécie de embaixada.

    O escritório, na cidade de Kaesong, estava fechado desde janeiro por causa da crise do coronavírus e foi “destruído tragicamente com uma explosão terrível”, segundo a agência estatal norte-coreana KCNA.

    Fumaça vista após explosão em Kaesong, em imagem tirada a partir de Paju, na Coreia do Sul – Yonhap/Reuters

    O ataque teria sido uma resposta ao lançamento de panfletos contra o governo norte-coreano, organizado por opositores que fugiram para o sul. A ditadura de Kim Jong-un chama esses desertores de “escória humana”.

    Segundo a KCNA, o escritório foi destruído para forçar “a escória humana, e aqueles que abrigaram a escória, a pagar por seus crimes”.

    Por meio de balões, para cruzar a fronteira pelo ar, ou em garrafas lançadas ao rio, grupos de norte-coreanos que deixaram o país lançam panfletos, comida, notas de US$ 1, mini rádios e pen drives com notícias e programas de TV sul-coreanos.

    A Coreia do Sul pediu que os desertores parem com essas ações e ameaçou processá-los, por considerar que a campanha amplia a tensão na fronteira e causa danos ambientais. Mesmo assim, dois grupos disseram que vão manter a prática.

    Um vídeo do governo sul-coreano mostrou a grande explosão que colocou abaixo o edifício de quatro andares que sediava o escritório diplomático. O incidente parece afetar também outro prédio ao lado, de 15 andares, usado como residência para funcionários sul-coreanos que trabalhavam ali.

    O escritório servia como uma embaixada para os dois países se comunicarem, e sua destruição dá um forte sinal de afastamento entre Pyongang e Seul após gestos de aproximação nos últimos anos.

    O local havia sido aberto em 2018, como parte de uma série de medidas de aproximação entre os dois países. A reforma do prédio custou US$ 8,6 milhões (R$ 43,8 milhões) à época, pagos pela Coreia do Sul.

    Os sul-coreanos usavam o segundo andar, e os norte-coreanos, o quarto. O terceiro sediava reuniões entre os dois lados. Em janeiro, havia 58 profissionais do Sul alocados ali.

    O conselho de segurança nacional da Coreia do Sul convocou uma reunião de emergência nesta terça e disse que o país dará uma resposta firme se o Norte seguir aumentando as tensões.

    Nesta terça, a mídia estatal do Norte publicou declarações de militares dizendo que estudam um plano de ação para retomar zonas que tinham sido desmilitarizadas em 2018.

    A destruição do escritório “quebra as expectativas de todos que esperam pelo desenvolvimento de relações inter-coreanas e a paz duradoura na península”, disse Kim You-geun, vice-conselheiro de segurança nacional da Coreia do Sul.

    “Estamos deixando claro que o Norte é inteiramente responsável por todas as consequências que isso pode causar”, acrescentou.

    O presidente sul-coreano, Moon Jae-in, pediu que o Norte mantenha o acordo de paz e volte ao diálogo. A Rússia solicitou que os dois lados contenham os ânimos e disse estar preocupada com a situação.

    Para Alexandre Uehara, membro do Núcleo de Estudos e Negócios Asiáticos da ESPM, a destruição do prédio é também “uma sinalização negativa que a Coreia do Norte dá à comunidade internacional, interrompendo as expectativas de construção de confiança nas relações do governo de Kim Jong-un” com outros países. ​

    Os vizinhos da península coreana passavam por uma desescalada de tensões desde 2018, quando os países chegaram a um acordo durante uma cúpula em Pyongyang. Desde então, entretanto, o Norte tem cortado por longos períodos sua comunicação com o Sul.

    A partir de 2018, Kim teve conversas diretas com o presidente dos EUA, Donald Trump, para buscar um acordo de paz entre os dois países.

    Trump queria reduzir o programa nuclear norte-coreano em troca do alívio de sanções econômicas, mas as conversas travaram no começo de 2019, quando um encontro no Vietnã terminou de forma abrupta.

    A crise entre as duas Coreias tem se intensificado nas últimas semanas, após uma onda de boatos de que o ditador Kim Jong-un estaria gravemente doente.

    Ele reapareceu após 20 dias ausente de eventos públicos, com uma marca no pulso e apresentando rigidez nas pernas, o que pode indicar que tenha passado por uma cirurgia.

    Pouco após a volta de Kim, houve uma troca de tiros na zona desmilitarizada na fronteira, no dia 2 de maio. Na semana passada, o Norte anunciou que a comunicação entre os dois países seria cortada.

    No sábado (13), a mídia estatal divulgou que Kim Yo-jong, irmã do ditador, havia ordenado uma ação contra o escritório. “Após muito tempo, uma trágica cena do inútil escritório conjunto Norte-Sul, completamente colapsado, será vista”, disse.

    CRONOLOGIA

    1945
    Após a Segunda Guerra, o Japão deixa a Coreia. Tropas soviéticas ocupam o norte da península, e soldados americanos controlam o sul.

    1948
    Sem acordo para a unificação, surgem dois governos: um comunista, ao norte, e outro capitalista, ao sul.

    1950
    Tropas do Norte avançam sobre o sul e começa uma guerra. O norte tem apoio da União Soviética e da China. O Sul recebe ajuda militar dos EUA.

    1953
    É firmado um armistício. Até hoje, não foi assinado um acordo de paz para encerrar formalmente o conflito.

    2011
    Kim Jong-un, neto do fundador da Coreia do Norte, assume o poder.

    abr. 2018
    Encontro entre o ditador Kim Jong-un e o presidente Moon Jae-in leva a medidas de aproximação. Os dois dizem concordar com a elaboração de um acordo de paz.

    fev.2019
    Reunião entre Trump e Kim, no Vietnã, termina de forma abrupta e sem acordo. EUA querem que Coreia do Norte reduza programa nuclear em troca da retirada de sanções.

    jun.2019
    Trump vai até a zona desmilitarizada, onde encontra Kim. Foi o primeiro presidente dos EUA a pisar em solo norte-coreano.

    15.abr.2020
    Kim não vai à celebração em homenagem ao avô. Rumores de que ele estaria muito doente ganham força.

    1º.mai
    Kim reaparece em público, mas se movimenta com alguma dificuldade.

    2.mai
    Troca de tiros na zona desmilitarizada entre o Norte e o Sul.

    16.jun
    Coreia do Norte explode escritório diplomático perto da fronteira.

     

     

    Prof. Luciano Mannarino.

  • Crise global desafia a principal iniciativa da política externa chinesa (atividade)

    Crise global desafia a principal iniciativa da política externa chinesa (atividade)

    11.jun.2020 às 23h15

    Em 2013, Xi Jinping anunciou o que viria chamar de “projeto do século” — uma iniciativa, estima-se, de pelo menos US$ 1 trilhão (R$ 4,98 trilhões) em infraestrutura ao redor do mundo.

    Eis que, pouco depois da largada, a Iniciativa do Cinturão e da Rota (ou BRI, sigla para Belt and Road Initiative) encontraria no caminho uma crise econômica de proporções colossais.

    Como a mudança de circunstâncias afeta a principal iniciativa da política externa chinesa sob Xi Jinping?

    Trabalhador de empresa chinesa de ferrovias atua em serviço para expandir capacidade de trens de carga entre a China e a Europa em Jinan, província de Shandong
    Trabalhador de empresa chinesa de ferrovias atua em serviço para expandir capacidade de trens de carga entre a China e a Europa em Jinan, província de Shandong – Wang Kai – 10.mai.20/Xinhua

    O que está em jogo para a China, que investiu capital político para obter apoio de mais de 130 países e que está investindo recursos financeiros em ferrovias, rodovias, portos, energia e conexão digital sob o selo da BRI?

    A realidade é que, com uma recessão iminente, muitos dos que recebem esses investimentos não terão condições de arcar com seus compromissos. Como Paquistão e Egito, vários outros recentemente pediram à China a renegociação de suas dívidas.

    Os financiamentos da BRI costumam contar com ativos importantes em garantia, como minas e portos, inclusive porque normalmente quem toma esses empréstimos tem risco de crédito alto. A China pode recorrer a essas garantias se necessário —mas com custo político alto neste momento de enormes dificuldades para países mais pobres.

    Em 2017, num episódio emblemático, os chineses assumiram por 99 anos o controle do porto de Hambantota, no Sri Lanka, quando o país não conseguiu honrar os compromissos financeiros.

    Pequim sabe que enfrenta uma dose de desconfiança em relação à BRI, mesmo que Hambantota tenha sido um episódio absolutamente isolado. Autoridades chinesas lembram que várias iniciativas avançam bem ou já foram concluídas com sucesso, como o caso da revitalização do Porto de Pireus, na Grécia.

    Com a recessão atingindo países parceiros, a China enfrenta decisões difíceis sobre a BRI.

    Se for flexível a ponto de perdoar as dívidas, enfrentará críticas internas. As finanças do país também estão sob pressão e, ademais, alguns sempre questionaram a aplicação desses recursos vultosos no exterior.

    Se for rigorosa no cumprimento dos acordos, estará sujeita, no plano externo, a acusações de comportamento econômico predatório. Além disso, colocará em xeque as boas relações com os países receptores dos investimentos, um objetivo chave da BRI.

    A China deve tomar o caminho do meio, equilibrando-se entre preocupações internas e externas, entre prioridades econômicas e políticas.

    Isso significa flexibilizar prazos e juros, mas sem chegar ao ponto de transformar empréstimo em doação. Também deve evitar a execução de garantias que levem à apropriação de ativos estrangeiros.

    É de se esperar que a China tire o pé do acelerador e aproveite a oportunidade para promover ajustes de rumo na BRI.

    Deve fazer uma depuração dos projetos, evitando os mais arriscados. Deve acentuar ênfase em projetos de infraestrutura digital e economia verde —uma inflexão que já buscava fazer. Dado o momento, acrescentará à iniciativa projetos na área da saúde, promovendo a “Rota da Seda da Saúde”.

    Desde seu lançamento, a BRI foi visto como um conceito vago, a começar pelo seu próprio nome.

    Pois como muito na China, ideias elásticas, com foco e regras flexíveis, permitem ajustes de rumo, conferem margem de ação para o governo.

    Esta é uma das horas em que a plasticidade da conceito do BRI mostra seu valor. Até porque suspender o projeto do século não é uma opção.

    Tatiana Prazeres

    Senior fellow na Universidade de Negócios Internacionais e Economia, em Pequim, foi secretária de comércio exterior e conselheira sênior do diretor-geral da OMC.

    Questões

    1. O que consiste a “diplomacia da armadilha da dívida” e como ela vem gerando uma desconfiança nos países que recebem vultosos empréstimos chineses para realizar obras de infraestrutura?

    2. Por que a China tem grande interesse em investir em portos, ferrovias, rodoviais em países que tem grande recursos naturais?