Categoria: Geopolítica

  • Manifestantes protestam em Hong Kong em dia que marca um ano de atos pró-democracia (atividade)

    Manifestantes protestam em Hong Kong em dia que marca um ano de atos pró-democracia (atividade)

    9.jun.2020 às 17h34
    HONG KONG | REUTERS

    Nesta terça-feira (9), dia em que os atos pró-democracia em Hong Kong completam um ano, centenas de manifestantes se reuniram no centro do território semi-autônomo para protestar contra uma nova lei de segurança nacional aprovada por Pequim.

    A multidão desafiou a forte presença da polícia nas ruas e o veto do governo a aglomerações de mais de oito pessoas —uma medida de combate à epidemia do novo coronavírus. Agentes monitoravam centenas de pessoas que passavam pela área.

    Alguns dos presentes seguravam cartazes com os dizeres “não podemos respirar! Hong Kong livre!” e “vidas jovens importam”, um aceno aos protestos nos EUA desencadeados pela morte de George Floyd.

    Com celulares como lanternas, manifestantes pró-democracia marcham em Hong Kong
    Com celulares como lanternas, manifestantes pró-democracia marcham em Hong Kong – Tyrone Siu/Reuters

    No ano passado, nesta mesma data, mais de um milhão de manifestantes foram às ruas contra um projeto de lei que pretendia autorizar extradições para a China continental, onde os tribunais são controlados pelo Partido Comunista.

    A onda de protestos levou o governo a abandonar a proposta, mas o episódio deixou honcongueses alertas para tentativas de Pequim de sufocar as liberdades na ex-colônia britânica —um sentimento que alimentou meses de atos em que polícia e manifestantes entraram em confrontos.

    A chefe-executiva de Hong Kong, Carrie Lam, afirmou nesta terça que a cidade, que desfruta de um alto grau de autonomia desde o retorno ao domínio chinês, em 1997, não pode permitir mais caos.

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    “Todos nós podemos ver a dificuldade que passamos no ano passado e, devido a situações tão sérias, temos mais problemas para resolver”, disse Lam em uma entrevista coletiva semanal.

    Quase 9.000 pessoas, com idades entre 11 e 84 anos, foram detidas em protestos durante o último ano, informou a polícia na segunda (8). Mais de 600 foram denunciados por desordem pública.

    Ativistas, assim como muitos diplomatas e líderes empresariais, temem que leis de segurança nacional que abordem temas como subversão, secessão, traição e interferência estrangeira minem ainda mais as liberdades de Hong Kong, incluindo seu sistema jurídico independente.

    As regras também poderiam abrir a porta para que agências de inteligência de Pequim se instalem no território.

    Mais protestos estão planejados para os próximos dias, e líderes sindicais planejam fazer um referendo no domingo (14) sobre a realização de uma greve geral.

    As autoridades da China continental argumentam que as leis afetarão “um pequeno número de arruaceiros” que representam uma ameaça à segurança nacional. Elas também afirmam que as regras não limitarão liberdades ou prejudicarão investidores.

    O proeminente ativista pró-democracia Joshua Wong disse que o mundo testemunha “a deterioração da situação de Hong Kong, com Pequim aumentando a pressão sobre as liberdades da cidade”.

    “Tenho forte confiança de que teremos meios de resistir e desafiá-los”, escreveu o honconguês numa rede social. “Além disso, espero que o mundo possa tomar o lado de Hong Kong e proteger a cidade”.

    Washington disse que removeria o tratamento especial concedido pelas leis americanas ao território por considerar que Hong Kong não é mais suficientemente autônoma. A União Europeia, o Reino Unido e outros países manifestaram preocupação com a lei aprovada pelo Congresso chinês.

    Pequim, por sua vez, afirma que essa reação representa ingerência estrangeira em assuntos domésticos.

    Trabalho em grupo em sala de aula.

    Questões

    1. Os manifestantes usam a morte de George Floyd nos EUA como um elemento catalisador. Qual a relação que eles querem estabelecer?

    2. Qual a importância que Hong Kong tem para a China?

    3. Explique a soberania de de Hong Kong ao longo de todo Século XX.

    Prof Luciano Mannarino

  • Sob tensão com EUA, petroleiros iranianos chegam à Venezuela (atividade)

    Sob tensão com EUA, petroleiros iranianos chegam à Venezuela (atividade)

    REUTERS

     

    O primeiro dos cinco petroleiros enviados do Irã para a Venezuela chegou ao país sul-americano no início da noite deste sábado (23), apesar de uma autoridade americana ter avisado que Washington considerava alguma resposta à chegada das embarcações.

    Neste domingo (24), o ditador Nicolás Maduro agradeceu Teerã pelo envio dos navios, que trazem combutíveis para socorrer a falta de gasolina no país.

    “Venezuela e Irã querem paz, e temos o direito de fazer negócio entre nós livremente”, disse em transmissão na TV estatal.

    O petroleiro iraniano Grace 1, que foi apreendido por britânicos no ano passado em Gibraltar
    O petroleiro iraniano Grace 1, que foi apreendido por britânicos no ano passado em Gibraltar – Jorge Guerrero – 15.ago.19/AFP

    O líder do país disse ainda que as duas nações são “povos revolucionários que nunca vão se ajoelhar diante do império norte-americano”.

    Fortuna foi o primeiro navio a adentrar as águas venezuelanas às 19h40 deste sábado, no horário local (20h40 no horário de Brasília), após passar por Trinidad e Tobago, segundo o software que monitora o tráfego marítimo, Refinitiv Eikon.

    “Os navios da fraternal República Islâmica do Irã estão agora em nossa zona exclusiva econômica”, tuitou Tareck El Aissami, vice-presidente da Economia da Venezuela, recentemente nomeado ministro do Petróleo.

    A segunda embarcação, Floresta, chegou às águas do país também neste sábado, enquanto as demais ainda cruzam o oceano Atlântico.

    A televisão estatal mostrou imagens de um navio da marinha e de uma aeronave que se preparavam para ir ao encontro do petroleiro Fortuna.

    O ministro da Defesa havia prometido escolta militar assim que a flotilha alcançasse a zona exclusiva econômica venezuelana devido ao que autoridades locais classificaram como ameaças dos EUA.

    O Irã afirma que os EUA destacaram quatro navios de guerra e um avião de espionagem eletrônica para acompanhar e, possivelmente, interceptar seus petroleiros.

    Ainda sem comentários oficiais de uma possível resposta americana, a porta-voz do Departamento de Estado dos EUA disse neste domingo que o envio de socorro é “uma lembrança triste da má gestão desesperançosa de Maduro”.

    “Os venezuelanos precisam de eleições presidenciais livres e justas que levem a democracia e recuperação econômica, não tratados caros de Maduro com outro Estado pária.”

    Desde abril, Washington tem mantido exercícios navais regulares no Caribe, visando deixar o regime de Maduro sob pressão. O porta-voz do Pentágono afirmou que não tinha conhecimento de operação relacionada às embarcações, enquanto uma autoridade dos EUA disse que o país considerava tomar medidas em resposta a isso.

    Mais cedo no sábado, o presidente iraniano, Hasan Rouhani, alertou sobre medidas de retaliação contra os Estados Unidos se Washington causasse problemas para os petroleiros em direção à Venezuela, segundo uma agência de notícias do Irã.

    “Se nossos petroleiros do Caribe ou de qualquer lugar do mundo encontrarem problemas causados pelos americanos, eles também vão ter problemas”, disse Rouhani em uma conversa telefônica com o emir do Qatar. “O Irã nunca começará um conflito”, disse Rouhani. “Esperamos que os americanos não cometam um erro.”

    O chanceler do país, Javad Zarif, também alertou sobre uma possível retaliação em carta enviada à ONU (Organização das Nações Unidas), na qual afirmava que o Irã iria responder à altura de qualquer “ato de pirataria”.

    Zarif lembrou ainda que ambos os países estão sob sanção pelos EUA, mas nada os impede de fazer negócios entre si.

    O envio das embarcações é um socorro para a escassez de gasolina na Venezuela. Estima-se que os petroleiros levem cerca de 1,53 milhão de barris de gasolina e alquilato, segundo os dois governos e cálculos do site TankerTrackers.com. Os combustíveis são suficientes para um mês de consumo.

    Além de elevar a tensão externa, a ajuda iraniana gerou novas críticas da oposição da Venezuela. O país já foi um grande exportador de petróleo e hoje enfrenta uma grave crise econômica.

    “[O governo] está tentando transformar uma vergonha em uma vitória épica”, afirmou Oscar Rondero, legislador da Comissão de Energia da Assembleia Nacional, controlada pela oposição.

    Questões

    1. O que é a Zona Exclusiva Econômica?

    2. Por que o Irã e a Venezuela estão sob sansões dos EUA?

    3. Explique a criação da OPEP.

    4. Quais as implicações econômicas um país pode ter quando passa a ser considerado um “Estado Pária”?

    5. Considerando o principal produto produzido pela Venezuela a notícia apresenta um paradoxo? Justifique.

    Professor Luciano Mannarino.

    #geoverdade

  • A GEOPOLÍTICA DO PÓS GUERRA (vídeo e atividades)

    A GEOPOLÍTICA DO PÓS GUERRA (vídeo e atividades)

    Questões

    1 De que forma a guerra civil da Angola, após sua independência, se relaciona com o mundo Bipolar?

    2. Por que o Brasil não fez parte da Conferência de Bandung?

    3. Aponte um fator que dificulta a reunificação das Coreias na atualidade.

    4. Podemos considerar o Projeto Apolo como um programa Geopolítico? Justifique.

    5. De que forma a instalação de um regime ditatorial entre (1964/1985) aprofundou as contradições sociais no Brasil?

    6. O que foi a “Crise dos Mísseis”?

    7. Por que vários países europeus se tornaram socialistas após a 2 Guerra Mundial?

    8. Explique a desativação do Pacto de Varsóvia.

    9. Perestroika e a Glasnost são expressões que aparecem no processo de dissolução da ex. URSS.? Justifique.

    Trabalho em grupo em sala de aula.

    Tema 1

    Se não houvesse a bipolaridade haveria a instalação de regimes ditatoriais na América Latina ao longo das as décadas de 1960 e 1970?  Justifique. (a questão é apenas um exercício de reflexão)

    Tema 2

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    Prof Luciano Mannarino

    Veja também!!!

    FORMAÇÃO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO

    ECONOMIA DE ARQUIPÉLAGO (vídeo e atividades)

  • A Geografia do Oriente Médio (vídeo e atividades)

    A Geografia do Oriente Médio (vídeo e atividades)

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    1. O petróleo como fonte de riqueza e conflito
    O Oriente Médio possui algumas das maiores reservas de petróleo do mundo.
    Explique por que essa riqueza em petróleo, que poderia trazer prosperidade, também é uma das causas da instabilidade na região.
    um exemplo real conflito que envolveu a disputa por petróleo.

    2. Conflitos religiosos entre sunitas e xiitas
    Sunitas e xiitas são dois grandes grupos do islamismo e possuem diferenças religiosas e políticas.
    Explique como essa divisão contribui para conflitos dentro e entre países do Oriente Médio.
    um exemplo de país onde essa rivalidade causa instabilidade.

    3. Escassez de água e disputas entre países
    A água é um recurso escasso no Oriente Médio, e seu acesso é essencial para a vida e a agricultura.
    Explique como a falta de água pode provocar conflitos entre os países da região.
    Cite um exemplo de bacia hidrográfica ou rio disputado e comente os impactos disso para a população.

    4. O Oriente Médio em rotas comerciais estratégicas
    O Oriente Médio está localizado entre três continentes e possui rotas comerciais muito importantes, como o Canal de Suez e o Estreito de Ormuz.
    Explique por que o controle dessas rotas comerciais torna a região estratégica e desejada por várias potências.
    um exemplo de crise ou tensão internacional relacionada a essas rotas.

    5. O conflito entre judeus e palestinos
    Desde a criação do Estado de Israel, em 1948, judeus e palestinos vivem em conflito por território e reconhecimento político.
    Explique as principais causas desse conflito e por que ele ainda não foi resolvido.
    Comente os principais obstáculos para se chegar à paz entre israelenses e palestinos.

    Rio Jordão, Colinas de Golã, Israel e a Síria. (Atividade)

    Demanda por combustíveis fósseis mostra fragilidade das energias renováveis

    Era pós-petróleo redesenha o Oriente Médio

    Israel vai dobrar número de habitantes nas colinas de Golã, anuncia governo

    Israel concentra tropas na fronteira com Gaza em meio a foguetes do Hamas e conflitos internos

    Prof. Luciano Mannarino.

  • Crise do Clima “Ártico”

    Ártico

    Aquecimento de região polar impõe reforma no Cofre Global de Sementes

    Cofre Global de Sementes, localizado nos arredores de Longyearbyen, no arquipélago de Svalbard, Noruega – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    Marcelo Leite/Lalo de Almeida

    1.mai.2018 – 02h00

     

    LONGYEARBYEN 

    Frio e vento castigavam a encosta da montanha Platô (Platåberget, em norueguês), em frente ao aeroporto da cidade de Longyearbyen, na ilha Spitsbergen (Noruega). Os cantores do coral masculino Store Norske, porém, aguentaram firmes com seus macacões azuis e quepes brancos.

    Entoaram canções populares norueguesas debaixo de chuva, que nunca esteve no programa da cerimônia para comemorar o décimo aniversário do Cofre Global de Sementes.

    O ministro norueguês da Agricultura, Jon Georg Dale, duas dúzias de jornalistas e outro tanto de doadores de sementes ficaram molhados. Todos estavam preparados para neve, não para água, em pleno inverno ártico.

    Funcionário do Centro de Recursos Genéticos Nórdicos (NordGen) descarrega amostras de sementes para serem guardadas no Cofre Global de Sementes, nos arredores de Longyearbyen – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    O cofre e o aeroporto ficam a 5 km do centro de Longyearbyen, cidade mais ao norte do planeta. Os termômetros costumam marcar -15ºC nessa época, não os 3ºC positivos daquele 26 de fevereiro, incomuns no local do paralelo 78ºN, a meros 1.300 km do polo Norte.

    Cerca de 2.000 pessoas vivem na capital do arquipélago de Svalbard. E muitos turistas se dispõem a pagar R$ 600 por diária de hotel para ver a aurora boreal, passear em motos de neve e encontrar ursos polares ameaçados de extinção pelo aquecimento global –desde que munidos de uma espingarda, para o caso de o animal estar faminto.

    No dia seguinte, choveu de novo. Muita gente foi embora de Svalbard sem ver a aurora boreal. A água congelou no chão, e os turistas que permaneceram no arquipélago ficaram confinados em seus hotéis.

    A reportagem da Folha tinha reservado a data para alcançar geleiras distantes que se encontram em retração por força da mudança do clima. Com a chuva, só pôde registrar imagens de enxurradas e poças em Longyearbyen e ao longo da rodovia que leva às minas de carvão.

    Na manhã seguinte, foi possível fazer uma incursão na geleira Longyear, a menor no topo do vale em que se abriga a vila. Duas estacas fincadas na neve marcam a entrada de uma caverna de gelo que o derretimento aprofunda todo verão.

    Depois de cavar bastante, o guia Francisco “Chicco” Mattos encontrou a escada de acesso. Brasileiro apaixonado pelo Ártico, ele vive há 7 anos em Longyearbyen, onde trabalha com produção de documentários. De início, a fenda se parece com uma toca de animal, mas logo se revela uma basílica comprimida de gelo marmoreado pelos resíduos de rocha que tritura há séculos, ou milênios.

    Paisagem de Longyearbyen com água acumulada pelo derretimento de gelo, uma consequência de temperaturas acima do normal no Ártico – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    Foi uma semana atípica no Ártico. A região é a que mais tem esquentado no globo, ganhando pelo menos 4ºC nas últimas décadas, contra 1ºC no restante do planeta. No final de fevereiro, porém, o tempo batia recordes de esquisitice.

    No norte da Groenlândia, a estação Morris Jesup, uma das mais próximas do polo Norte, marcou mais de 60 horas de temperaturas positivas. O Ártico todo, segundo medições de satélite, esteve até 20ºC acima do normal. Em Svalbard, a média de fevereiro ficou 11ºC além do esperado.

    Não terá sido a primeira vez que uma reviravolta no tempo frustrou planos de humanos na cidade criada pelo americano John Munro Longyear em 1906. Mineiros de carvão, entretanto, tinham mais a temer com neve e avalanches, não com portas de carro imobilizadas pela chuva congelada.

    Acima, entrada de caverna de gelo que se aprofunda a cada ano pela ação de água corrente, no verão, com o degelo na geleira Longyear; abaixo, interior da caverna

    Acima, entrada de caverna de gelo que se aprofunda a cada ano pela ação de água corrente, no verão, com o degelo na geleira Longyear; abaixo, interior da caverna – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    A transformação climática do Ártico criou percalços para o Cofre Global de Sementes, construído dez anos atrás pelo governo da Noruega por US$ 9 milhões (cerca de R$ 15 milhões à época) como um seguro para enfrentar as consequências do aquecimento global na agricultura.

    Desde então, 1.059.646 amostras únicas de sementes já foram depositadas no local, as últimas 76 mil em 26 de fevereiro, no décimo aniversário da instalação. São duplicatas de sementes guardadas em 73 bancos doadores espalhados pelo mundo, como o do Cenargen (Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia) em Brasília.

    “Há desastres naturais, como o tsunami que golpeou um banco genético nas Filipinas e pôs a perder material muito importante. Perdemos bancos genéticos no Afeganistão e no Iraque”, justifica Marie Haga, diretora executiva da ONG Global Crop Trust, que toma conta do Cofre das Sementes. “É reconfortante saber que, caso as coisas deem errado, podemos ir a Svalbard, recuperar as sementes e recomeçar do zero.”

    A guerra civil na Síria inviabilizou uma importante coleção do Centro Internacional para Pesquisa em Agricultura de Áreas Secas (Icarda, na abreviação em inglês) na cidade de Aleppo. Com 92.430 duplicatas de Svalbard, a instituição pôde reconstituir o acervo no Líbano e em Marrocos, em 2015 (só a instituição que depositou as sementes pode sacá-las do banco gelado).

    “O problema mais básico da agricultura hoje em dia é que as sementes que nos alimentam não podem adaptar-se tão rápido à mudança do clima. As plantas e a humanidade se adaptaram ao mundo todo, mas isso levou dezenas de milhares de anos”, explica Haga.

    “Precisamos cruzar plantas que resistam a temperaturas mais altas, que tolerem salinidade mais alta no solo, que possam combater novas pragas e doenças. E essa diversidade de cultivares é a matéria-prima que usamos.”

    Um exemplo frequente do que se pode alcançar com cruzamentos de variedades é a soja, de clima temperado. Ela foi aclimatada pela Embrapa para cultivo no cerrado tropical e até na Amazônia equatorial.

    Uma única variedade comercial de trigo, como a “Veery”, desenvolvida nos anos 1980, resulta de 3.170 cruzamentos com 51 plantas oriundas de 26 países.

    Construir uma fortaleza gelada a fim de conservar diversidade para o futuro, 14 anos atrás, era uma ideia considerada maluca e talvez constrangedora para o governo norueguês, conta Cary Fowler, primeiro diretor do Crop Trust.

    Ele apresentou a proposta para o Ministério das Relações Exteriores em Oslo e ouviu de um jovem funcionário de alto escalão: “Dr. Fowler, o sr. está dizendo que esse é o recurso natural mais importante da Terra? E que Svalbard seria o melhor lugar da Terra para conservá-lo? Como poderíamos dizer não?”

    Svalbard pode ser o melhor local do mundo para guardar o tesouro, mas nem por isso está imune ao aquecimento global. A temperatura indicada para conservar sementes é -18ºC, e nada melhor, para economizar energia, do que usar um depósito numa montanha em que os termômetros variam entre -3ºC e -4ºC, mesmo durante o verão.

    Acima, porta coberta por gelo no Cofre Global de Sementes, em Longyearbyen; abaixo, funcionário da Nordgen manuseia caixas com amostras de sementes no interior do local – Lalo de Almeida/Folhapress
     

    Ao percorrer 130 m de túnel em ligeiro declive para alcançar a câmara frigorífica de 95 m², o visitante tem a sensação de que o interior da construção é mais quente que o exterior. Isso decorre da ausência de vento, mas também do fato de que a temperatura externa, em dias normais como o domingo (25/2), reservado para a equipe da Folha, estava vários graus mais negativa.

    Num ano típico, o cofre só é aberto três ou quatro vezes, quando há sementes para depositar. Na comemoração dos dez anos, houve mais de uma dúzia de aberturas, 11 delas para os times de reportagem credenciados. Um grupo por vez, acompanhado do pessoal do Centro de Recursos Genéticos Nórdicos (NordGen), que faz a zeladoria do cofre.

    Por razões de segurança, é proibido fotografar dentro do túnel escavado na rocha, mas foi possível constatar que existiam obras em curso. Svalbard se caracteriza pela presença do permafrost, o solo congelado de regiões de tundra, que não se recompôs como esperado em volta da célebre construção triangular que marca a entrada da fortaleza na encosta da Platåberget.

    O derretimento do permafrost representa um impacto do aquecimento global preocupante para os donos de imóveis em Longyearbyen, que correm o risco de vê-los afundar. No Cofre das Sementes, não causa problemas em suas três câmaras frias, cada uma com capacidade para 1,5 milhão de amostras, pois elas estão no meio de um maciço de pedra.

    Já o túnel apresentou infiltração de água desde os primeiros anos de funcionamento e agora será reconstruído para se tornar mais impermeável. A obra está orçada pelo governo norueguês em US$ 13 milhões (R$ 45 milhões), mais do que o valor investido na construção.

    O túnel será reforçado com concreto. Haverá novos recintos para abrigar equipamentos elétricos e de refrigeração capazes de manter a temperatura mesmo em caso de pane na energia elétrica. Os operadores do cofre asseguram que as sementes estocadas jamais estiveram em risco.

    As três câmaras ficam num grande átrio revestido de concreto que se abre ao final do túnel, com pé-direito de mais de 6 m, apelidado “catedral”. Há portas duplas de metal no nicho de entrada de cada uma, mas só a do meio está recoberta de cristais de gelo. É a única, por ora, refrigerada a -18ºC.

    Passaram dois anos até que se estabilizasse a temperatura desejada. Foi necessário que os compressores a diesel garantissem o resfriamento da camada de rocha em volta do compartimento, para evitar flutuações no frio de -18ºC. As equipes de reportagem tiveram só dez minutos de permanência na sala forte, para evitar que o calor corporal perturbasse o ambiente.

    Máquinas são usadas para reforma no Cofre Global de Sementes, em Longyearbyen

    Máquinas são usadas para reforma no Cofre Global de Sementes, em Longyearbyen – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    São meia dúzia de corredores com estantes de aço até o teto, cheias de caixas de plástico. Dentro delas ficam os envelopes de grossa folha de alumínio revestida de plástico em que se acondicionam as sementes, seladas com apenas 5% de umidade interna. Nessas condições, elas podem germinar até um século depois de guardadas. Os idealizadores do Cofre das Sementes defendem que localizá-lo em Svalbard foi a decisão correta e que a ilha de Spitsbergen permanece como o melhor lugar para ele.

    “O aquecimento global e seu efeito no permafrost é uma grande irritação, mas não uma ameaça [para as sementes]”, afirma Cary Fowler.

    “Não importa aonde você for no planeta para armazenar sementes, sempre terá de rebaixar a temperatura que a natureza lhe oferece. Não há lugar na Terra onde você possa chegar e sair facilmente que lhe garanta uma temperatura de -18ºC constantes.”

    “No interior da montanha ainda teremos por vários séculos -4ºC”, defende Marie Haga, do Crop Trust. “Há outras vantagens: politicamente é uma parte do mundo muito estável, sem terremotos nem vulcões. E a comunidade de Longyearbyen toma conta do cofre. Se pessoas com más intenções entrarem na cidade, todos saberão na hora.”

    O meteorologista Kim Holmén, diretor internacional do Instituto Polar Norueguês, observa paisagem em Longyearbyen, a cidade mais ao norte do planeta – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    “Quando contemplo geleiras que conheço há 30 anos, vejo que mudaram mais que minha mulher mudou”, lamenta o meteorologista Kim Holmén, diretor internacional do Instituto Polar Norueguês. Ele mora há nove anos em Longyearbyen e faz pesquisa em Svalbard há três décadas. Não economiza palavras para registrar a profunda transformação do Ártico.

    “Onde quer que eu olhe vejo mudanças óbvias. O fiorde ali fora da janela não está coberto de gelo. Nesta época do ano [fevereiro] costumava haver um metro, de fora a fora, e agora são águas abertas. A neve desaparece duas semanas antes na primavera”, diz.

    A espessura das geleiras diminui até 40 cm por ano. As temperaturas noturnas no inverno subiram dez graus nos últimos 30 anos, enquanto as do verão não subiram tanto, o que é consistente com os cálculos sobre como os humanos induzem a mudança do clima. “A lista é interminável.”

    A fauna local passa por mudança acentuada de perfil. Não são só os ursos polares que sofrem com o desaparecimento de gelo marinho usado como plataforma para emboscar focas.

    Tordas-anãs se veem forçadas a voar para o norte, em busca de copépodes com mais gordura armazenada em seu diminuto corpo de crustáceo. O bacalhau polar parte em busca de águas mais frias e placas de gelo em cujas frestas se abrigam os alevinos (filhotes). Outros peixes de águas mais quentes invadem o arquipélago, como a cavala, atrás da qual chegam novas espécies de pássaros, como o ganso-patola.

    No alto, capim brota em meio ao gelo nos arredores de Longyearbyen; no meio, paisagens com vegetação e água; acima, montes de carvão mineral na região do arquipélago de Svalbard – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    “O urso polar é um símbolo para todo o ecossistema, mas o bacalhau polar é parte dele, assim como a baleia beluga, os narvais e outras espécies que dependem do gelo marinho”, diz Holmén. “Há poucos de nós privilegiados o bastante para ver ursos polares em seu habitat natural. Muita gente acha que o mundo estará mais pobre se o urso polar desaparecer.”

    Algumas dessas pessoas, caso tenham recursos e coragem para enfrentar o frio, visitam Svalbard na esperança de contemplar o urso ameaçado. Circulam pela ilha de Spitsbergen em carros movidos a diesel e motos de neve que queimam gasolina.

    No caminho do aeroporto, a usina termelétrica consome a energia fóssil do carvão para aquecer hotéis e restaurantes –além de agravar o efeito estufa e alimentar os geradores que mantêm o Cofre das Sementes a -18ºC.

    Cidade de Longyearbyen, a mais ao norte do planeta, localizada no arquipélago de Svalbard, Noruega – Lalo de Almeida/Folhapress

     

    A Noruega paga pelo Cofre das Sementes, pôs US$ 1 bilhão (R$ 3,5 bilhões) à disposição do Fundo Amazônia para atividades que reduzam a pressão sobre a floresta brasileira e dá pesado incentivo fiscal para eletrificar sua frota de carros. No entanto, quase toda sua riqueza deriva do petróleo e do gás natural, que produz e exporta a partir do Mar do Norte.

    “Como um país rico que obtém renda de combustíveis fósseis, temos de mudar nossa economia, pois sabemos que a indústria de óleo e gás será menos importante no futuro”, concede Ola Elvestuen, ministro de Clima e Ambiente da Noruega.

    “Não é algo que possamos simplesmente desligar. Precisamos estar na vanguarda da redução de emissões, assumir responsabilidade pela nossa parte e pensar em como podemos tornar nossa economia mais diversificada.”

    “A indústria é parte da solução, não é inimiga. Você e eu somos parte do problema, eu e você somos parte da solução. Se não começarmos a fabricar e consumir produtos que requeiram menos petróleo, nada irá mudar”, pondera Kim Holmén, do Instituto Polar Norueguês.

     

    https://arte.folha.uol.com.br/ciencia/2018/crise-do-clima/artico/aquecimento-de-regiao-polar-impoe-reforma-no-cofre-global-de-sementes/