Sexta economia do mundo passará a ter voz própria em temas comerciais
Ao ler as manchetes da semana, talvez você tenha respirado aliviado com a notícia de que o brexit foi consumado e que o Reino Unido finalmente saiu da União Europeia na virada do 31 de janeiro. Pensou que a novela havia terminado? Longe disso.
Mas a parte mais interessante começa agora. A sexta economia do mundo passará a ter voz própria em temas comerciais, com implicações significativas para a configuração da governança do comércio internacional. Independentemente da opinião que se tenha sobre o brexit, seria difícil negar que suas consequências são importantes.
‘Festa do brexit’ comemora saída do Reino Unido da UE em clima de Réveillon
Apoiadores do brexit na festa em Londres; Reino Unido é o primeiro dos 28 países a sair do bloco desde sua criação, em 1958DANIEL LEAL-OLIVAS/AFP
Definir os novos termos do relacionamento entre o Reino Unido e União Europeia é a prioridade para ambos. Hoje, um entendimento transitório mantém basicamente tudo como está até o fim do ano. E define 31 de dezembro como data limite para um acordo definitivo.
A parceria entre os dois lados da Mancha deve incluir, por exemplo, cooperação em política externa, defesa e segurança e, naturalmente, em temas econômico-comerciais. Nessa área, questões regulatórias causarão controvérsia e marcarão as conversas. Os europeus insistirão na ideia de competição justa, antecipando que os britânicos venham a adotar um ambiente de pouca regulação e impostos baixos, modelo apelidado de Cingapura do Tâmisa.
Em paralelo às negociações com os europeus, o Reino Unido tenta estabelecer sua própria rede de acordos comerciais mundo afora. Pretende, em três anos, concluir entendimentos que cubram 80% do seu comércio exterior. Já realizou consultas públicas para ouvir os interessados a respeito de um acordo abrangente com os EUA. Manifestou, entre outros, interesse em se juntar à Parceria Transpacífica Abrangente, que inclui 11 países sobretudo na Ásia.
A atuação solo do Reino Unido altera o panorama das negociações comerciais. A necessidade de o país contar com seus próprios acordos faz todos os demais repensarem suas estratégias e prioridades negociadoras. Isso vale para o Brasil e o Mercosul também.
O fato de o Reino Unido agora estar, digamos, no mercado, afeta também a própria atuação externa da União Europeia. O bloco tem ampla rede de acordos comerciais, mas não tem um com os EUA, que já estão dialogando com Londres. EUA e Reino Unido podem, em conjunto, vir a definir determinados padrões em detrimento de interesses europeus.
Finalmente, o Reino Unido passa a ter voz própria na Organização Mundial do Comércio e promete ser um defensor vocal do livre-comércio e do multilateralismo. Pode vir a ser uma força importante a favor de reformas de que a Organização necessita. O país, como nenhum outro, precisará de uma OMC forte. Se não conseguir fechar um acordo com a União Europeia, dependerá das regras da OMC para dar previsibilidade ao seu comércio com o bloco.
Está aberta a temporada dos jogos em vários planos, de negociações comerciais que ocorrem em paralelo e que se comunicam. Longe de ser um assunto entre União Europeia e Reino Unido, os desdobramentos do Brexit afetam o mundo todo. A parte mais importante da saga começa agora, em que os demais jogadores entram em campo.
Tatiana Prazeres
Senior fellow na Universidade de Negócios Internacionais e Economia, em Pequim, foi secretária de comércio exterior e conselheira sênior do diretor-geral da OMC.
Questões (responder em grupo na sala de aula)
Ensino Médio (3 ano)
1) O que significa a expressão “brexit”?
2) Explique o contexto histórico da criação da União Européia.
3) Qual o papel da O.M.C no comércio global e por que …”Finalmente, o Reino Unido passa a ter voz própria”…nessa Instituição?
4) Por que os europeus temem que Londres se torne uma “Cingapura do Tâmisa”?
5) Aponte pontos negativos para economia do Reino Unido no desligamento da União Européia.
Muro da Vergonha separa indígenas de ‘gringos’ em Lima
Dez quilômetros de barreira de concreto que cortam os morros da capital peruana resumem o abismo social e étnico no país
FABIANO MAISONNAVE E AVENER PRADO
21.ago.2017 – 02h00
Caso pudesse caminhar até a mansão onde trabalha de ajudante geral, Esteban Arimana levaria cinco minutos desde a porta da sua casa. Em vez disso, passa cerca de duas horas por dia dentro de ônibus lotados pelas vias congestionadas de Lima.
A distância entre as casas vizinhas é imposta pelo Muro da Vergonha, como ficaram conhecidos os dez quilômetros de barreiras que serpenteiam os morros da capital peruana. Erguido a partir de meados dos anos 1980, a sua função é separar as áreas urbanizadas dos “povoados jovens”, o eufemismo local para designar favelas.
“Se abrissem uma porta, seria bom”, diz Arimana, que vive com a mulher e três filhos, o mais velho de 14 anos, ao lado do muro de concreto de três metros coberto por arame farpado. “Mas, porque estamos na pobreza, é muito difícil sermos ouvidos.”
Muro coberto por arame farpado separa as áreas urbanizadas dos “povoados jovens”, o eufemismo local para designar favelas, em Lima, no Peru (Avener Prado/Folhapress)
A família é uma típica moradora de Pamplona Alta, conjunto de favelas com 96 mil pessoas erguida em um morro com o mesmo nome. Como a ampla maioria dos que vivem ali, os Arimana são migrantes de origem indígena do altiplano peruano.
O casebre de paredes de compensado foi erguido por eles mesmos sobre o terreno acidentado. Não tem água encanada. O banheiro, do lado de fora, é apenas um buraco. Uma moradia ali sai, no máximo, por US$ 15 mil (R$ 47 mil).
Internamente, Pamplona Alta está subdividida pela altura. Quanto mais perto do cume e dos muros, mais precária a situação das moradias, muitas delas erguidas sobre um aterro feito de pneus.
As dezenas de quilômetros de ruas não pavimentadas foram esculpidas na pedra pelos próprios moradores. O método: novamente usando pneus, eles incendeiam a base das grandes rochas, que racham com a temperatura alta e em seguida são esmigalhadas a marteladas.
O ajudante geral Esteban Arimana, morador de Pamplona Alta, que leva duas horas para chegar na mansão onde trabalha em Las Casuarinas (Avener Prado/Folhapress)
Nas zonas mais baixas, onde já houve regularização das posses e há água encanada, alguns moradores criaram versões locais de condomínios privados. Para evitar roubos às casas, muitos fecharam as ruas por conta própria, usando cancelas atadas a correntes com cadeados.
Em uma dessas áreas mais antigas, um vigia cuidava, em uma guarita sobre o muro, para que ninguém cruzasse para o lado rico. A metros dele, uma mensagem feita por moradores do lado pobre: “Não se aceitam maconheiros, ladrões, membros de gangue, traficantes etc. Sob sanção da justiça comunitária.”
Arimana mora há dez anos em uma das áreas não regularizadas. Poucos metros acima, o muro de três metros marca o limite com o condomínio Las Casuarinas, onde o acesso, controlado por seguranças e câmeras no pé do morro, só é permitido a residentes e seus convidados.
Com vista privilegiada de Lima, há mansões à venda ali por até US$ 4,5 milhões (cerca de R$ 14 milhões).
É num desses casarões que ele trabalha, fazendo a segurança e pequenos consertos. “Profissão mesmo, não tenho. Pode ser em obra, em qualquer trabalho que apareça.” Ao contrário do metro quadrado das casas, a água é mais cara no lado de Arimana, que precisa recorrer a caminhões-pipa privados.
Enquanto em Pamplona Alta, estocada em tonéis de plástico, sai por cerca de US$ 9 (R$ 29) por metro cúbico, no asfalto o preço da água que sai da torneira varia de US$ 0,3 a US$ 1,5, dependendo da faixa de consumo. Ou seja, os mais pobres pagam em média dez vezes o valor pago pelos ricos.
“Daquele lado, todos têm piscina, enquanto nós sofremos com a falta de água”, compara Arimana para afirmar que a desigualdade no Peru está piorando.
Rotina na Pamplona Alta, conjunto de favelas com 96 mil pessoas; no vídeo, grupo de igreja pentecostal se apresenta na comunidade (Avener Prado/Folhapress)
Chamados de “gringos” pelos vizinhos pobres em alusão à pele mais clara decorrente da origem europeia, os moradores de Las Casuarinas costumam argumentar que o muro foi erguido por razões de segurança e para conter as invasões de terra.
Os residentes incluem o renomado chef e empresário Gastón Acurio, que tem uma das casas mais próximas ao muro. Filho de um senador e educado em Paris, ele é apontado como principal responsável pela popularização da culinária peruana no mundo.
Por e-mail, Acurio diz que discorda do muro, mas não quis explicar o motivo. Ele afirma que planeja abrir, em 2019, sua segunda escola de culinária em Pamplona Alta voltada para alunos pobres –a primeira, aberta em outra zona empobrecida da cidade, ensina cerca de 300 jovens.
“Tentamos, como empresários e família, atuar diretamente para que o Peru consiga terminar rápido e para sempre com todas as divisões econômicas, sociais, culturais e físicas que nos têm desonrado por séculos”, escreveu.
Arquiteto e cartunista, Carlín atribui o muro e as grades onipresentes em Lima ao desemprego e à desigualdade racial prevalentes no país.
“O pior racismo é aquele que as pessoas dizem que não existe”, diz Carlín, cujos desenhos criticando Lima foram reunidas no livro “Errar es Urbano”. “Somos um dos países mais racistas.”
Residências de classe média alta no distrito de Santiago de Surco, em Lima, próximo a muro que divide região pobre de rica (Avener Prado/Folhapress)
Como ocorre em outros países latino-americanos, o crescimento da população de Lima se deu principalmente pela expansão dos “povados jovens”, antigamente chamados de “barriadas”.
Em 1961, 17% viviam em favelas limenhas. No censo mais recente, de 2007, esse número chegou a 4,1 milhões, o equivalente a 40% da população limenha, segundo dados coletados pelo sociólogo Julio Calderón no livro “La Ciudad Ilegal”.
Além de procurar melhores oportunidades econômicas, milhares deles vieram a Lima nos anos 1980 e 1990 fugindo do conflito interno desencadeado pela guerrilha maoísta Sendero Luminoso, concentrada principalmente nos Andes.
A construção do Muro da Vergonha seguiu o mesmo ritmo de ampliação das favelas. O primeiro trecho foi erguido em 1985 pelo Colégio Imaculada Conceição, administrado pelos jesuítas (a mesma ordem do papa Francisco).
Na época, a escola disse que a intenção da obra – executada sem que houvesse licença prévia– era impedir que as invasões se aproximassem da instituição. Atualmente, além dos muros da escola, de Las Casuarinas e de outros condomínios privados, há também um trecho erguido e vigiado pelo poder público.
Muro que separa região pobre de rica em Lima, no Peru; barreiras que serpenteiam os morros de Lima somam 10 km de extensão (Avener Prado/Folhapress)
La Molina, uma das 43 municipalidades de Lima, construiu uma barreira de pedras e arame farpado no limite com Pamplona Alta, que pertence ao município de San Juan de Miraflores. O muro é um pouco mais baixo do que o dos condomínios privados e conta com um ponto de passagem, onde há um posto de controle da guarda municipal de La Molina.
O acesso é usado diariamente por moradores de Pamplona Alta que trabalham em La Molina, que tem bairros de classe média e alta. A descida é feita por pequenos caminhos pelo morro íngreme –ao contrário do lado pobre, não há escadas.
“Da fronteira de La Molina para dentro é um desastre”, afirma Dionisio Chirinos, que voltava de um dia de trabalho, acompanhado pelo filho de adolescente, cujo joelho sangrava. “Como você viu, o meu filho acabou de machucar a perna.”
Dionisio Chirinos caminha por morro íngreme usado por moradores de Pamplona Alta que trabalham em La Molina (Avener Prado/Folhapress)
Pouco antes, a reportagem encontrou o único morador da zona mais rica que se aventurava por Pamplona Alta. Residente em La Molina, o estudante Julio Díaz havia escalado a montanha para se exercitar. Apesar de não ter receio de visitar a zona, disse ser favorável ao muro.
“O muro é necessário para limitar as invasões. Há muito tráfico de terrenos. Pessoas mal intencionadas se apoderam de tudo, loteiam e vendem aos mais necessitados. Mas, como vemos aqui, há livre trânsito de pessoas.”
Procurada, a assessoria de imprensa de La Molina se limitou a informar que a construção da barreira serve para proteger o meio ambiente de mais invasões, mas não atendeu ao pedido de entrevista com um porta-voz da municipalidade.
Na parte mais alta do morro, a cerca de dez minutos de Pamplona Alta, está uma das invasões mais recentes, convenientemente batizada de Valle Escondido.
Crianças jogam vôlei no Valle Escondido, a cerca de dez minutos de Pamplona Alta (Avener Prado/Folhapress)
Ali, sem luz nem água e sob constantes ventos gelados, as famílias se dividiram em dois grupos pelo controle da região, gerando um ambiente de desconfiança.
Um dos moradores, que falou sob a condição do anonimato por causa do clima tenso, explicou a ausência do muro: “Aqui é tão íngreme que não conseguimos caminhar até lá embaixo.”
Expectativa e ressentimento atormentam quem fica para trás
Sombra da barreira que começou a ser erguida nos anos 90 encobre debate migratório e preocupa quem a cruza; enrijecimento político já se faz sentir
FABIANO MAISONNAVE E LALO DE ALMEIDA
26.jun.2017 – 02h00
O muro que Donald Trump prometeu construir na campanha ainda não saiu do papel. Mas os mexicanos já são obrigados a conviver há décadas com as barreiras deixadas por Barack Obama, George W. Bush e Bill Clinton.
A separação física com o vizinho pobre do sul tem sido uma política de Estado desde que Clinton ergueu os primeiros trechos, em 1993, reaproveitando sucata trazida da Guerra do Golfo. Já são 1.046 km de barreiras separando os dois países, incluindo as grades de 4,6 metros contratadas pelo correligionário Obama.
Mexicanos brincam em praia de Tijuana, que faz fronteira com San Diego, dos EUA; ao fundo, cerca divide as duas cidades (Lalo de Almeida/Folhapress)
Via de regra, o muro costuma crescer de altura à medida que se aproxima das regiões mais povoadas. Separa cidades, como as duas Nogales, a mexicana e a norte-americana. Diminui ou desaparece nas áreas mais inóspitas, onde caminhadas de dias ao longo da barreira natural do deserto produzem mortes diárias.
O muro não é apenas físico. Os mexicanos também se ressentem do endurecimento da vigilância e das leis imigratórias, sobretudo após a ataques do 11 de Setembro, em 2001. As promessas feitas por Trump de mais repressão a imigrantes irregulares são mais questão de intensidade do que mudança de rumo.
“Trump nos assusta e traz incertezas, mas é preciso recordar que Obama também foi um presidente muito cruel e rude com os imigrantes. Fez as ‘redadas’ [grandes operações de captura de imigrantes ilegais], as deportações em massa, as separações de famílias, os centros de detenção. Foi ele quem fez esse muro aqui e quem mais deportou na história dos EUA. Nunca disse nada, mas fez muito”, afirma o padre Javier Calvillo, 47, diretor da Casa do Migrante de Ciudad Juárez, sua cidade natal.
Cerca divide praia nas cidades de Tijuana, no México, e San Diego, nos EUA; próximo à barreira, lado mexicano é mais agitado do que vizinho (Lalo de Almeida/Folhapress)
“O meu maior medo é o muro que Trump pode construir nas mentes e nos corações dos americanos e até dos mexicanos que estão lá. É o muro mais perigoso: vem o racismo, vem o apontar de dedos. Em El Paso, as pessoas têm medo de ir à escola, ao trabalho. É um ambiente de pânico e terror”, completou.
Mesmo no governo Trump, o muro de Obama continua avançando na região de Ciudad Juárez, substituindo uma antiga cerca baixa de tela, facilmente transponível.
As obras estão agora em Puerto de Anapra, bairro de ruas de areia e casas sem acabamento a cerca de 30 minutos do centro de Juárez, cidade de cerca de 1,5 milhão de habitantes que já foi a mais violenta do mundo devido a disputas territoriais entre cartéis de narcotráfico.
Detalhes das barreiras que separam o México dos Estados Unidos; muro costuma crescer de altura à medida que se aproxima das regiões mais povoadas (Lalo de Almeida/Folhapress)
Anapra é habitado principalmente por funcionários das “maquiladoras”, grandes fábricas, na maioria norte-americanas, que se instalam em território mexicano em busca de mão de obra barata. Apenas em Juárez, essas empresas mantêm cerca de 300 mil operários.
O ritmo de construção é rápido. A cada 30 minutos, uma nova chapa da grade de 1,5 metro de extensão é erguida por um guindaste, encaixada na base de concreto e soldada com outra chapa por operários, a maioria mexicanos.
“Não gosto de trabalhar aqui, mas tenho de alimentar a família”, diz um deles, que se identificou como Marcos e trabalha para uma fornecedora de cimento. Ele explica que os pais moram em Juárez, mas que a visita é cada vez mais difícil devido à segurança rígida –costuma levar cerca de duas horas para cruzar a ponte fronteiriça.
As sobras da obra viraram uma fonte de renda extra para os moradores. Carregando um longo pedaço de cano de aço em um dos ombros, a operária Fabiola Vellez, 31, disse que a peça vale 50 pesos (US$ 2,80, ou R$ 9,30).
Trata-se de um pequeno reforço do salário de mil pesos (US$ 56, ou R$ 190) que recebe por semana em uma fábrica de cabos automobilísticos. A poucos metros, no Texas, o salário mínimo semanal está em US$ 290, o quíntuplo.
Apesar da fonte extra de renda, Vellez não está feliz: “Em dezembro, ‘la migra’ (Patrulha da Fronteira dos EUA) lançou brinquedos por cima da cerca. Com o muro, não será mais possível”, lamentou.
O muro também atrai crianças, que pedem dólares e doces através da cerca. Mais ousado, um adolescente demonstrou à reportagem que conseguia escalar até o topo do novo muro em poucos segundos, para irritação de um operário, que prometeu chamar a mãe e recebeu em resposta uma saraivada de xingamentos em espanhol.
Muro é construído na fronteira de Puerto de Anapra, bairro a cerca de 30 minutos do centro de Juárez, no México; durante as obras, garoto tenta escalar muro e irrita operários (Lalo de Almeida/Folhapress)
O muro venceu José Hector Nevarez, 33. Detido e deportado pela primeira vez em 2010, no governo Obama, tentou voltar aos EUA duas vezes e foi capturado pela Patrulha da Fronteira nas duas.
Resignado, decidiu reunir a família no México, que Hector havia deixado quando tinha 15 anos. Vieram a mulher, Gabriela, 32, e os filhos, Emiliano, 12, e Azul, 7.
O muro impôs uma divisão na família. Num drama que se repete com frequência cada vez maior, os pais são mexicanos, mas os filhos possuem cidadania norte-americana por terem nascido lá.
Para eles e centenas de outras famílias de deportados, a solução foi morar no povoado de Puerto Palomas, (157 km a oeste de Juárez). Todo dia, enquanto os pais trabalham no lado mexicano, os filhos atravessam a fronteira para ir às escolas norte-americanas do Novo México.
“Os EUA são o seu país. Em seu momento, vão ter um emprego lá, ter uma vida social lá”, diz Hector, que nos EUA trabalhou na construção civil e como motorista. “Queremos que façam a sua vida lá. E, obviamente, se tivermos a oportunidade de lá visitarmos, tudo bem, mas vivendo não.”
A rotina familiar começa às 6h, quando a temperatura costuma oscilar em um dígito. Primeiro, ele leva Emiliano até o posto fronteiriço. Ao lado do filho, caminha por alguns metros em território americano até a entrada do posto de controle imigratório. “Se quiserem, podem me prender aqui onde estamos.”
Ao lado de outros pais deportados, Hector observa Emiliano entrar em um dos cinco ônibus amarelos enfileirados do outro lado da aduana. Uma hora mais tarde, ele repete a rotina com Azul.
Na volta da escola, é a vez de Gabriela esperar os filhos na saída do posto de controle mexicano, onde as mochilas precisam passar por uma máquina de raio-X.
Crianças brincam em escola da mexicana Puerto Paloma; ao fundo, cerca divide o México dos EUA (Lalo de Almeida/Folhapress)
O muro traz perigos. O cuidado do casal em levar os filhos pessoalmente até a entrada do posto fronteiriço tem um motivo: evitar que as crianças sejam usadas por narcotraficantes para driblar a vigilância americana.
“Lamentavelmente, vivemos em um país onde existe todo tipo de criminalidade. Há casos de meninos usados como mulas e detidos pela imigração. Estamos sempre atentos para que não levem nada mais do que o material escolar em suas mochilas.”
O muro também gera dinheiro. Hector trabalha no tradicional restaurante Pink, a poucos passos da fronteira e popular entre norte-americanos que cruzam para Palomas em busca de dentistas e oculistas mexicanos que cobram uma fração do que custaria nos EUA.
Em casa, Gabriela complementa a renda dando banho em cachorros. Os clientes são americanos, que entregam e pegam os bichos de estimação nos poucos metros de zona neutra entre os dois postos fronteiriços.
O muro cria rotinas estranhas. Nos cinco anos em Palomas, o casal nunca foi à escola dos filhos -por Skype, viram a formatura do ensino fundamental de Emiliano e conversam com os professores. “Mas nos sentimos muitos sortudos, [estudar nos EUA] é um privilégio que nem todos podem ter”, diz Hector.
Sobre Trump, ele tem dúvidas: “Ele está dizendo o que as pessoas querem ouvir. Está dizendo que ele vai fazer um muro enorme, bonito e grandioso, mas não vai acontecer. É só um falastrão.”
A 680 km a oeste de Juárez, Caborca é a última parada para vários centro-americanos antes de se arriscar no deserto onde o muro ainda não alcançou. Ali, quase todos os dias, dezenas desembarcam da “Bestia”, apelido dado a qualquer um dos trens que atravessam o México e são usados pelos imigrantes para se aproximar da fronteira, em viagem clandestina e perigosa.
Vizinho à estação de trem, uma Casa de Migrante abrigava 57 imigrantes em meados de abril, a grande maioria hondurenhos. No grupo, predominantemente masculino, muitos já haviam sido deportados dos EUA, mas preferem se arriscar de novo no país de Trump a viver nos pobres e violentos países centro-americanos, sobretudo Honduras, El Salvador e Guatemala.
Imigrante descansa em abrigo a 680 km a oeste da mexicana Juárez, na última parada antes de se arriscar no deserto (Lalo de Almeida/Folhapress)
Ao contrário de Juárez, as instalações são precárias. A maioria dormia do lado de fora da casa acanhada, em cima de tapetes e sob o teto de lona, apesar da madrugada fria do deserto. O acúmulo de lixo deixava seu odor no ar.
Os relatos revelam uma viagem perigosa. Um diz que foi obrigado a beber a própria urina durante a caminhada que durou cinco dias, sem sucesso. Outro teve de voltar após infecção provocada por picadas de carrapatos.
Driblar o muro é caro e perigoso. Há dois preços cobrados pelos coiotes. São cerca de US$ 8 mil (R$ 26 mil) para a travessia, mas o valor pode cair pela metade se o imigrante levar uma mochila com drogas até os EUA.
Imigrantes descansam e lavam roupa em abrigo em Caborca, no México, na rota para atravessar a fronteira com os EUA (Lalo de Almeida/Folhapress)
Um dos poucos que se aventuravam pela primeira vez, o salvadorenho Emir (nome fictício), 30, levou 45 dias até chegar a Caborca. Diz ter viajado em 15 trens. “Foi difícil, há situações de que não vou esquecer nunca. Conheci uma menina que perdeu a perna subindo no trem.”
À espera do momento certo para se arriscar no deserto, Emir não teme a linha dura de Trump: “Não existe um presidente dos Estados Unidos que não tenha deportado pessoas”.
O muro tem frestas. A lógica é parecida à de uma visita na prisão: todos os dias, alguma família se reúne entre as grades “padrão Obama” que separam Nogales, México, de Nogales, Estados Unidos. Trocam comida, presentes, notícias, conversam, cantam e tentam se tocar.
No terreno inclinado de chão batido, a faxineira Aída Laurean, 47, no lado mexicano, passou das 11h30 às 18h30 ao lado da filha Sofia, no lado americano.
As duas se separaram quando Aria não quis perder o funeral da mãe, no México, mesmo sabendo que não conseguiria voltar aos EUA.
Chegou a tempo para o enterro, mas ficou sete anos sem ver a filha.
Família se reúne entre as grades que separa Nogales, do México, de Nogales, dos Estados Unidos; lógica é parecida à de uma visita na prisão (Lalo de Almeida/Folhapress)
O muro assusta. Sofia, atendente de telemarketing, só se arriscou a se aproximar dele depois que começou a transitar o documento para a residência, ao qual tem direito por ter se casado há pouco com um mexicano-americano. Enquanto o processo não ficar pronto, porém, ela não pode deixar os EUA.
Sobre Trump, Aída apenas brinca: “O comentário é que ele quer fazer um muro novo. Que seja bem baixinho para que eu possa pular.
Como o texto caracteriza a continuidade das políticas de construção de barreiras na fronteira EUA-México entre os governos de Clinton, Bush, Obama e Trump? Quais são as semelhanças e diferenças?
Explique o impacto do muro, tanto físico quanto simbólico, sobre as vidas dos mexicanos e imigrantes. Como isso afeta suas rotinas e suas relações familiares?
Qual é o argumento do padre Javier Calvillo sobre a postura de Obama em relação aos imigrantes? Como isso contradiz a percepção comum sobre o governo Obama?
Como o muro influencia as questões econômicas e de trabalho na fronteira, especialmente para os operários mexicanos como Marcos e Fabiola?
De que maneira o muro é usado como ferramenta de repressão e controle, mas também se torna um meio de subsistência para alguns dos habitantes da fronteira?
Segundo o texto, quais são os desafios enfrentados por famílias como a de Hector, que têm pais mexicanos e filhos com cidadania norte-americana? Como o muro impacta suas vidas diárias e expectativas para o futuro?
A construção de barreiras físicas pode ser vista como uma metáfora para outras formas de separação. Como o padre Calvillo aborda o conceito de ‘muros nas mentes e corações’? Qual seria o impacto de tal muro?
O texto apresenta relatos de imigrantes que se arriscam em travessias perigosas. Quais são os maiores desafios enfrentados por eles e como o muro contribui para a intensificação desses perigos?
Como o texto explora o papel do narcotráfico na fronteira? De que maneira as crianças são envolvidas nesse cenário, e como as famílias tentam proteger seus filhos desse perigo?
Em sua opinião, qual é o principal objetivo do texto ao narrar as experiências das pessoas afetadas pelo muro? Que mensagem o autor tenta transmitir sobre o impacto dessa política nas vidas humanas?
Barreira construída para trazer segurança aparta vidas e memórias
Concreto que serpenteia por terras palestinas freou homens-bomba, mas afastou prospecto de paz
DIOGO BERCITO E LALO DE ALMEIDA
4.set.2017 – 02h00
Umm Judah, 64, se esqueceu de muitas coisas. Entre elas, a palavra que moldou os anos mais recentes de sua vida: “muro”.
Professora aposentada, a palestina vive nas cercanias de Belém diante de uma barreira de concreto de oito metros de altura.
É esse o horizonte à sua porta, que a separa da terra que cultivou por décadas e das lembranças dos filhos iluminados pelos faróis e satisfeitos com os figos recém-colhidos.
“É como uma venda”, diz à Folha. “Como se nos arrancassem os olhos.”
Durante a entrevista, ela aponta a construção mais de uma vez por não se lembrar de como chamá-la, mesmo em seu árabe nativo.
A professora aposentada palestina Umm Judah, 64, que vive diante de um muro de oito metros de altura; barreira a separa da terra que cultivou por décadas (Lalo de Almeida/Folhapress)
O muro diante de sua casa é um trecho da barreira de 764 quilômetros que Israel ergue desde 2002 para se separar dos territórios palestinos da Cisjordânia, onde estão cidades como Belém e Ramallah. A maior parte é cerca, e o concreto é usado nas áreas urbanas. Faltam os últimos 194 quilômetros da construção.
A barreira tem impacto brutal nas vidas de pessoas como Umm Judah. Mas israelenses de diferentes orientações políticas concordam, por outro lado, que existia a necessidade urgente de erguê-la.
As memórias da Segunda Intifada ainda estão frescas. Cerca de 3.000 palestinos e 1.000 israelenses morreram entre 2000 e 2005 durante o levante palestino contra a ocupação israelense. Os palestinos enviavam homens-bomba; os israelenses revidavam com tanques.
Muro erguido por Israel desde 2002 para se separar dos territórios palestinos da Cisjordânia; dos 764 quilômetros planejados para a barreira, 570 estão prontos (Lalo de Almeida/Folhapress)
O israelense Ury Vainsecher, 71, se recorda bem. Ele já vivia em Kfar Saba, cidade a um quilômetro do muro, no caminho para a palestina Qalqilya.
“Quando meus filhos eram menores, eu os levava a todos os lugares de carro. Tinha medo de que tomassem o ônibus”, diz. “Entre eu ser vítima de uma explosão e uma palestina viver rodeada por muro, prefiro vê-la cercada.”
Vainsecher perdeu um amigo em um atentado. O filho de um vizinho morreu em outro ataque, e um conhecido que estava em uma pizzaria de Jerusalém alvo dos terroristas, também.
O trecho da barreira diante da casa de Umm Judah é um dos mais recentes.
Um ano atrás, a palestina caminhava dois ou três minutos até seu pomar para passar o dia sob as oliveiras enrolando folhas de uva. Hoje ela precisa dirigir por 40 minutos para alcançar o outro lado.
“Mas o muro ajudou os israelenses. Estão relaxados.”
Judeus diante de muro próximos ao Túmulo de Raquel em Belém, na Cisjordânia, local considerado sagrado pela religião judaica (Lalo de Almeida/Folhapress)
A fricção causada pela barreira na vida de palestinos como Umm Judah envenena a possibilidade de haver paz entre os dois povos em breve.
O projeto foi questionado desde a concepção por figuras como Yossi Beilin, arquiteto dos Acordos de Oslo (as negociações de 1993 que levaram à divisão da Cisjordânia em diferentes áreas de controle).
Se não tivessem sido interrompidos pelo assassinato do premiê israelense Yitzhak Rabin por um ultranacionalista em 1995, tais acordos poderiam ter encerrado o conflito.
“Era claro que os palestinos seriam humilhados pela construção do muro”, diz Beilin, em Tel Aviv.
“Mas não foi feito por malícia, e houve esforços para que eles não sofressem, ainda que esses esforços não tenham sido suficientes”, afirma, citando uma série de apelos às cortes israelenses –seis deles com sucesso– para mudar a rota da barreira.
Muros, diz Beilin, “não são fotogênicos”.
Grafites e pichações no muro da Cisjordânia; entre as figuras retratadas há o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e forças policiais (Lalo de Almeida/Folhapress)
“São muito difíceis de explicar. A barreira virou um símbolo de como colocamos os palestinos em uma prisão. É a vida deles, e eles se perguntam por que têm que pagar esse preço.” Não apenas por terem sido separados da terra que cultivavam, mas também porque a sua liberdade de ir e vir foi drasticamente reduzida.
A Folha acompanhou a passagem de trabalhadores palestinos rumo a Israel em dois postos de controle militar, em Belém e em Ramallah.
Às 5h, a fila já transbordava dos corredores metálicos que lembram um curral, os ratos passando pelo chão imundo. Ansiosos, alguns trabalhadores escalavam as grades e formavam uma fila paralela no alto, como equilibristas distópicos.
O ritual é cotidiano para milhares. “Tornamos a vida de muitos palestinos terrível”, afirma Beilin. “Mas reduzimos o número de mortes, e é difícil dizer que isso tenha sido errado.”
Trabalhadores palestinos em fila para atravessar posto de controle israelense em Belém, na Cisjordânia; alguns escalam as grades, formando uma fila paralela no ar (Lalo de Almeida/Folhapress)
Não é errado, do ponto de vista legal, que um país construa muros em seus limites.
Mas a divisão entre Israel e os territórios palestinos não é uma fronteira convencional porque, afinal, não existe um Estado palestino. A divisa costuma ser a chamada Linha Verde, que marca as fronteiras anteriores a 1967, ano da Guerra dos Seis Dias, quando Israel tomou a Cisjordânia.
Vem daí mais uma complicação desta história, vivida diariamente por Umm Judah: de cada 6,5 quilômetros da barreira, 5,5 foram construídos dentro da Cisjordânia e, portanto, fora da fronteira. Em alguns trechos, o muro está 18 quilômetros distante de onde teoricamente deveria serpentear.
A explicação de um tenente-coronel do Exército israelense que não pôde se identificar é a de que o trajeto foi adaptado às necessidades de segurança. Em algumas ocasiões o muro precisava passar em cima de uma colina, e não embaixo, por exemplo.
“Nossa experiência nos tribunais é sempre a mesma”, afirma a advogada palestina Dalia Qumsiyeh, que representa Umm Judah.
“O governo israelense usa a palavra mágica, ‘segurança’, e aprova assim os seus planos”, diz. “Mas, antes de falar em segurança, pensem na senhora que não consegue entrar em sua terra.”
Ou no palestino Hani Amer, 60, que vive na região noroeste da Cisjordânia, sobre a linha em que o governo israelense queria ter construído o muro.
Ele se recusou a deixar sua casa, a barreira a contornou, e ele foi cercado em seu terreno de 1.000 m² pelo concreto, o arame farpado e pelas cercas de segurança.
O palestino Hani Amer, 60, abre portão para entrar em sua propriedade no povoado de Masha, na Cisjordânia; ele se recusou a deixar sua casa e a barreira a contornou (Lalo de Almeida/Folhapress)
A poucos passos dali, está o assentamento israelense de Elkana, razão para as preocupações.
“Disseram que ou eu saía daqui ou ficaria isolado. Quis ficar, a despeito de todas as dificuldades, porque é a minha casa”, diz, sentado em um balanço no jardim. À sua frente, está o muro.
Por algum tempo, Amer precisou pedir que os soldados israelenses abrissem o portão da sua propriedade toda vez que queria sair.
“Receber visitas era um inferno. Uma punição coletiva.” Com a pressão de organizações humanitárias, o agricultor teve uma pequena vitória: recebeu a chave para uma portinhola no muro, pela qual hoje passa.
Ao receber a Folha em sua casa, Amer se agacha atrás de um carro, para que a polícia israelense não o veja –ele teme ser punido por receber a imprensa e falar de sua vida. Poderiam, por exemplo, lhe tirar a chave da portinhola.
“Tive tantos problemas que já nem consigo me lembrar de todos”, diz, antes de relatar alguns.
Quando seu filho de três anos engatinhou por baixo da cerca, por exemplo, a mãe não teve permissão para cruzar a barreira e buscá-lo. A criança foi encontrada do outro lado e trazida de volta.
“Eu fui até os soldados e lhes disse: Vocês não são humanos. Vocês viram meu filho e não fizeram nada.”
Ao ser lembrado que Israel ergueu o muro para garantir a segurança do país, Amer diz que “o que garante a segurança é a justiça”. “Quando você distingue entre dois irmãos, não tem segurança. Imagine entre dois povos.”
A barreira rompeu em diversas regiões do país o contato, ainda que limitado, que havia entre palestinos e israelenses.
Barricadas em um rua compartilhada por árabes e judeus em Hebron, na Cisjordânia; abaixo e à esquerda, abrigo anti-terrorismo no povoado israelense de Tzur Yigal, em Israel (Lalo de Almeida/Folhapress)
Amer vive próximo de Qalqilya, onde israelenses costumavam fazer compras antes da Segunda Intifada.
O local é próximo também de Tzur Yigal, onde vive o israelense-uruguaio Eran Landau, 64. “Minha casa foi erguida por uma família palestina”, diz. “Tenho amigos do outro lado, apesar de ter lutado contra eles”, afirma.
“O muro nos inquieta, mas ou você cuida da sua família, ou não. Quero viver bem, e quero que minha filha viva bem. Se ela puder ir para a discoteca sem riscos, não me importo com o que dizem.”
Landau é membro de uma força-tarefa voluntária para a segurança de Tzur Yigal, e guarda armas, um capacete e uma máscara de gás dentro de uma sala à prova de explosões. “Tenho um fuzil M16 para viajar. Poderiam me atacar a qualquer momento com um coquetel molotov.”
Policiais israelenses patrulham bairro árabe na Cidade Antiga de Jerusalem, em Jerusalém Oriental (Lalo de Almeida/Folhapress)
O recém-eleito prefeito de Belém, Anton Salman, discorda da avaliação. “Não acho que seja questão de segurança. É confisco de terra”, diz diante do muro que divide sua cidade. Ele perdeu parte de suas propriedades, isoladas do outro lado da barreira.
Os desvios em relação à Linha Verde engoliram 9,4% da Cisjordânia, um processo monitorado pelo israelense Dror Etkes, diretor da ONG Kerem Navot. “Fiscalizamos como Israel toma terras na Cisjordânia para dar aos colonos israelenses”, diz –os colonos são os israelenses que vivem dentro da Cisjordânia.
“A barreira foi construída para permitir que os assentamentos crescessem. Há uma correlação entre a presença de colonos e da barreira.”
Para o ex-soldado israelense Avner Gvaryahu, 32, é preciso entender a barreira como parte de um sistema mais amplo, que envolve o projeto dos assentamentos. “O governo quer minimizar o número de palestinos aqui.”
Crianças palestinas jogam pedra e insultam soldados israelenses que estão do outro lado de muro em Ramallah, na Cisjordânia (Lalo de Almeida/Folhapress)
Gvaryahu é o líder da organização Breaking the Silence, que compila testemunhos de soldados israelenses sobre a violência da ocupação da Cisjordânia. Ele foi paraquedista, período durante o qual recebia ordens diretas de colonos.
“O objetivo do sistema é proteger os israelenses, mas ninguém protege os palestinos”, diz Gvaryahu. “Nunca haverá uma sensação real de segurança até que os palestinos tenham respeito e dignidade.”
Ao redor dos muros e cercas, há zonas-tampão às quais o acesso de palestinos é restrito por razões de segurança.
“Em algumas áreas entre barreiras é possível ver como surgiu uma nova vida selvagem”, diz Etkes, e aponta para um grupo de veados, que cruzam diante do carro da reportagem e se esgueiram por debaixo do arame farpado rumo à terra de que agora são na prática os donos.
Palestina acompanhada da filha pede esmola na fila de posto de controle em Qalandia, na Cisjordânia (Lalo de Almeida/Folhapress)
Umm Judah teme que esse seja o futuro de seu pomar, do outro lado do muro, caso o governo israelense decida que ela já não pode mais cruzar o controle militar. “Sinto como se tivesse perdido alguém da minha família. Roubaram a minha felicidade”, ela afirma, e chora.
Depois, sobe em uma rua do vilarejo, alta o suficiente para enxergar por cima do muro. Vê seu pomar inacessível –damascos, pêssegos, peras, alecrim– e lamenta: “Vou morrer aqui”.
Na porta da Europa, tentar entrar é ciclo de perpétua incerteza
Política anti-imigrantes de premiê húngaro deixa no limbo, no mato e na neve milhares de retirantes e refugiados vindos da África, Ásia e Oriente Médio
PATRICIA CAMPOS MELLO E LALO DE ALMEIDA
07.ago.2017 – 02h00
Duas cercas paralelas, de quatro metros de altura, estendem-se ao longo dos 175 quilômetros de fronteira entre a Sérvia e a Hungria para impedir a entrada de refugiados e migrantes.
A primeira é uma cerca simples de arame farpado, construída em setembro de 2015. A segunda, uma barreira de alta tecnologia, ficou pronta em março deste ano. É equipada com sensores elétricos que dão choques leves em quem tenta passar e avisam aos guardas a localização exata do intruso.
Tem câmeras com visão noturna e sensores térmicos que detectam a aproximação de pessoas. E alto-falantes que advertem em três línguas, inglês, árabe e farsi : “Alerta, você está na fronteira da Hungria, que é propriedade do governo húngaro; se você danificar a cerca, cruzar ilegalmente ou tentar atravessar, estará cometendo um crime”.
Cercas paralelas que estendem-se ao longo dos 175 quilômetros de fronteira entre a Sérvia e a Hungria para impedir a entrada de refugiados e migrantes (Lalo de Almeida/Folhapress)
Apesar da parafernália, milhares de sírios, afegãos, paquistaneses e iraquianos não desistem do que batizaram de “the game”, o jogo –a tentativa de cruzar ilegalmente a fronteira em busca de uma vida melhor na União Europeia.
Durante semanas, os migrantes ficam escondidos em grupos de dez a 30 pessoas no mato, em locais chamados de “the jungle”, a selva, esperando a hora de cruzar. Quando o traficante de pessoas liga de madrugada, os grupos correm para a fronteira.
A tática é se dividir: 30 pessoas entram de um lado, 20 de outro. A polícia não consegue pegar todos de uma vez e alguns conseguem entrar.
A primeira cerca foi construída pelo nacionalista Viktor Orban, o primeiro-ministro da Hungria, no pico da crise dos refugiados. Na época, uma multidão de mais de mil pessoas por dia tentava entrar na Hungria. O número caiu muito, mas ainda há 50 pessoas tentando atravessar diariamente de forma ilegal.
O paquistanês Rana Muzzafar Sabir, 28, já tentou cruzar 11 vezes da Sérvia para a Hungria. Na última, há um mês, policiais húngaros o pegaram já dentro do território da Hungria e o espancaram. Chutaram seu olho e quebraram seu nariz, ele conta. Depois, o deportaram para a Sérvia. Ele não foi para o hospital porque tem medo de a polícia aparecer.
Os Médicos sem Fronteiras (MSF) atenderam 106 pessoas vítimas de violência da polícia de fronteira húngara de janeiro de 2016 a fevereiro de 2017. Na maioria dos casos, os migrantes tinham marcas de espancamentos, mordidas de cachorro e tiveram ossos quebrados. No inverno, refugiados relatam que os policiais despejavam água fria em suas roupas e os deixavam por horas na neve, a temperaturas abaixo de -10 °C.
Sabir saiu de sua casa, em Lahore, há oito meses. Passou por Irã, Turquia, Bulgária e Sérvia. “Estou cansado, mas continuo determinado”, diz Sabir, da “selva” onde se esconde, nos arredores de Subotica, na Sérvia. Ele e mais dez paquistaneses acampam no local, onde há muito lixo espalhado, cobertores no chão e uma barraca.
Acima, Rana Sabir (o segundo da esq. para a dir.) e outros refugiados paquistaneses preparam refeição com alimentos doados por uma ONG em acampamento escondido chamado de “jungle” (Lalo de Almeida/Folhapress)
Numa grade de jipe que virou grelha, os refugiados assam pão chiapati e cozinham frango ao curry com mantimentos trazidos por uma ONG. Carregam os celulares em postos de gasolina e vivem à base de energéticos.
Muitos deles aprenderam o pouco de inglês que sabem no caminho, assistindo a vídeos no YouTube e ouvindo música no celular.
Para despistar, a cada noite eles dormem em um lugar diferente, muitas vezes dentro de vagões abandonados de trem. Voltam para “a selva” para cozinhar e esperar o chamado do coiote, que cobra 2.500 euros (R$ 9.200) pela travessia da Sérvia até a Áustria, através da Hungria.
Normalmente, só pagam se conseguirem chegar, mas alguns traficantes pedem uma “entrada” não reembolsável.
”Às vezes fico muito deprimido, não me acostumo com essa vida”, diz Sabir, que tem um MBA em finanças e trabalhava como contador na Pepsi em Lahore. Ele deixou o Paquistão porque começou a ser perseguido pelo grupo terrorista Lashkar-e-Taiba. “E quando cheguei aqui chamavam a gente de terrorista.”
O afegão Hameedullah Suleiman, 18, já tentou cruzar seis vezes. Aluno exemplar, cursava faculdade de engenharia aeronáutica no Paquistão com bolsa de estudos, mas os pais exigiram que retornasse para seu vilarejo no sul do Afeganistão.
“Se voltasse, teria que parar de estudar para trabalhar com meus irmãos na terra, sem falar no Taleban, que matou muita gente que conheço”, diz ele, que vive na “selva” há um mês. ”Às vezes penso: o que está acontecendo com a minha vida?”
Suleiman quer ir para Londres, onde mora um tio seu.
Existem cerca de 6.000 refugiados encalhados na Sérvia, esperando para entrar na União Europeia.
Muitos vivem nos campos de refugiados e estão em listas de espera para entrar na Hungria, onde terão o pedido de refúgio analisado. Mas a espera pode levar dois anos, e muitos jamais conseguirão refúgio. Então, tentam cruzar ilegalmente.
No campo de Obrenovac, no subúrbio de Belgrado, vivem 950 homens solteiros, sendo 250 menores de idade.
Segundo Mirjana Ivanovic-Milenkovski, porta-voz do Acnur, a agência de refugiados da ONU, na Sérvia, 1 em cada 4 refugiados hoje na Sérvia é menor de idade, muitas vezes desacompanhado.
Em Obrenovac, passam o tempo jogando críquete ou navegando na internet em seus celulares. Usam o campo de dormitório. Depois de uns dias lá voltam para a “selva”, para tentar cruzar para Croácia ou Hungria.
Imigrantes em campos de refugiados na Sérvia esperam para entrar na Hungria, onde seus pedidos de refúgio são analisados (Lalo de Almeida/Folhapress)
Em 2015, passaram mais de 400 mil migrantes pela Hungria, a porta para a UE, em seu caminho para países como Alemanha e Suécia, mais amigáveis a refugiados.
Após a construção da cerca, o aumento do patrulhamento nas águas turcas e o acordo entre UE e Turquia para remanejar ao país euroasiático os que chegassem à Grécia, assinado em março de 2016, o número despencou.
No entanto, muitos refugiados ficaram encalhados em campos na Grécia (mais de 60 mil) e na Sérvia (mais de 6.000).
Boa parte dos sírios e iraquianos que vieram naquela época conseguiram ser acolhidos como refugiados pela UE.
Sobraram cidadãos de países que têm mais dificuldade em receber esse status, como Paquistão, Bangladesh e Afeganistão, e os poucos que continuam a chegar.
“A maioria não tem nenhuma perspectiva de entrar legalmente; a lista de espera tem milhares de pessoas, mas a Hungria só está admitindo oito por dia para a área de trânsito, enquanto têm seus processos analisados. Mesmo assim, após examinarem o processo, a maioria não conseguirá refúgio”, diz Stephane Moissaing, chefe da missão do MSF na Sérvia.
“Nós todos sabemos que isso não é uma crise de refugiados. Dos que estão vindo, 95% são migrantes econômicos, não são perseguidos, mas querem uma vida melhor”, diz Zoltan Kovacs, porta-voz do primeiro-ministro húngaro Viktor Orban.
À esquerda, policial húngaro que está sendo preparado para trabalhar na área que divide Sérvia e Hungria; à direita, o afegão Hameedullah Suleiman, 18, que já tentou cruzar a fronteira seis vezes (Lalo de Almeida/Folhapress)
“Todos querem o estilo de vida europeu, e as fronteiras abertas passam a mensagem de que é isso possível; a Europa não pode assumir a responsabilidade por todos.”
Para Robert Molnar, prefeito da cidade fronteiriça de Kubhekhaza, que se opõe a Orban, argumentar que a Hungria não deve receber migrantes econômicos é egoísta.
“Cerca de 10% da população húngara é imigrante econômica, saiu do país em busca de oportunidades –então esses húngaros têm o direito de buscar uma vida melhor e os migrantes que vêm para cá fazer o mesmo não têm?”, diz.
Desde 2012, Orban, que chama os migrantes de “cavalo de Tróia do terrorismo”, vem implementando uma política anti-imigração. O governo lançou uma campanha com outdoors em que se lia: “Se você vier para a Hungria, não tome os empregos dos húngaros” e “Se você vier para a Hungria, você precisa respeitar nossa cultura”.
Policiais húngaros que estão sendo treinados para trabalhar na fronteira entre Sérvia e Hungria fazem exercícios (Lalo de Almeida/Folhapress)
Orban baixou leis autorizando o confinamento em centros de detenção dos refugiados que estão com processo em análise. Os centros são contêineres cercados por arame farpado onde refugiados vivem por meses, e foram criticados pelo Acnur e pela UE.
Além disso, Orban criou uma divisão policial chamada Caçadores de Fronteiras e quer recrutar 3.000 pessoas.
A cerca teve grande apoio da população. Imre Csonka, agricultor em Horgos, na fronteira com a Sérvia, lembra-se do dia em que milhares de refugiados e migrantes pisaram em sua plantação de crisântemos, em 2015.
“Eles destruíram todo meu trabalho”, diz. “A cerca era necessária, a polícia sozinha não estava dando conta de deter toda essa gente”, afirma Csonka enquanto passa o trator em suas terras, a poucos metros da cerca.
Segundo o governo húngaro, o gasto com a cerca, policiamento, áreas de trânsito e campanhas soma 1 bilhão de euros.
“A Hungria não deveria receber um só migrante”, diz o caminhoneiro Attila Szegedi, 45, que fazia parte de uma milícia privada de defesa das fronteiras. “O Islã é incompatível com a nossa cultura”, diz.
Para ele, a cerca foi uma boa medida, mas o governo não é duro o suficiente nas punições contra aqueles que entram ilegalmente no país.
“Queremos que as pessoas vejam o que tem ocorrido na Alemanha, na França e na Suécia por causa dos migrantes, há uma onda de crimes, violência contra mulheres”, diz.
“Não negamos que existam problemas de segurança, mas o governo exagera e assusta as pessoas”, diz o sociólogo Mark Kékesi, fundador da ONG Migration Aid (ajuda à migração), em Szeged.
“A legitimidade do governo de Orban depende disso, o pensamento do eleitor é: ‘eles podem ser corruptos, mas defendem nosso país dessas pessoas que querem roubar nossos empregos e estuprar nossas filhas’.”
Para o ativista Tibor Varga, 61, da Eastern Europe Outreach, a crise da migração é complexa e não será resolvida apenas com cercas.
“Pense na seguinte situação: você acolhe em sua casa uma família sem teto de dez pessoas. Como você foi boa e os ajudou, eles chamam outras duas famílias com dez pessoas cada e pedem que você também as acolha”, diz ele, que trabalha há sete anos com refugiados na Sérvia.
“O que você vai fazer? Você tem capacidade para ajudar todo esse pessoal? Não existem respostas simples.”
Imigrante lê em campo de refugiados na Sérvia enquanto espera por chance para entrar na Hungria (Lalo de Almeida/Folhapress)
Alguns dias depois do encontro com a Folha na “selva”, o paquistanês Sabir tentou cruzar a fronteira pela 12ª vez e foi bem sucedido.
Ele andou durante quatro dias para atravessar a Hungria, sem comer nada, só bebendo água. Foi se orientando pelo GPS no celular, mas, quando acabou a bateria, trocou o Google Maps pelo instinto. Está agora em um campo de refugiados na Áustria. De lá, vai para a França, onde quer morar.
O afegão Hameed também cruzou alguns dias após o encontro com a reportagem, mas foi pego por policiais húngaros. Deportado, voltou para um campo de refugiados em Belgrado e pretende tentar cruzar em breve. Desta vez, pela Croácia.