Categoria: Geopolítica

  • Ucrânia pede ajuda à Otan contra a Rússia, que dá recado militar

    Ucrânia pede ajuda à Otan contra a Rússia, que dá recado militar

    Moscou diz que não quer conflito devido à crise no leste do vizinho, mas inspeciona tropas

    6.abr.2021 às 14h12

    Igor Gielow

    SÃO PAULO

    Em mais uma escalada na crise no leste da Ucrânia, o presidente do país disse que apenas sua admissão na aliança militar ocidental poderá encerrar a guerra que matou 13 mil pessoas desde 2014.

    Ao mesmo tempo, o ministro da Defesa da Rússia, país cuja movimentação de tropas na fronteira ucraniana gerou o atual alarme no Ocidente, determinou uma inspeção de preparo de combate das Forças Armadas de Vladimir Putin.

    Soldado ucraniano usa binóculos adaptados para observar linhas rebeldes perto de Donetsk
    Soldado ucraniano usa binóculos adaptados para observar linhas rebeldes perto de Donetsk – Serhii Takhmazov/Reuters

    São tambores de guerra usualmente rufados quando essas crises acontecem, mas dão a indicação do grau de tensão que registrou desde que a situação voltou a se deteriorar na região do Donbass.

    O presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, ligou nesta terça (6) para o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg.

    Após o telefonema, ele publicou no Twitter que a Ucrânia espera ser convidada neste ano a se unir ao Plano de Ação de Filiação da Otan. “A Otan é o único meio de acabar com a guerra no Donbass. O plano para a Ucrânia seria um sinal real para a Rússia”, escreveu.

    Nos últimos anos, a aliança ocidental tem dito que as Forças Armadas e o Estado ucraniano precisam de reformas antes de entrar no clube. “Reformas sozinhas não vão parar a Rússia”, escreveu Zelenski.

    Na verdade, o Ocidente não trouxe a Ucrânia para a Otan, ou para a União Europeia, porque sabe que isso incitaria uma reação mais forte da Rússia.

    A barra foi elevada por Putin em 2014, quando ele respondeu à derrubada de um governo pró-Kremlin em Kiev com a anexação da Crimeia e o apoio aos separatistas que iniciaram a guerra no Donbass —hoje ainda congelado, o conflito gestou duas repúblicas autônomas em torno das cidades de Donetsk e Lugansk.

    Na retórica, Stoltenberg afirmou em comunicado que a “Otan apoia firmemente a integridade territorial e a soberania da Ucrânia”. “Nós permanecemos comprometidos com nossa parceria próxima”, disse. O silêncio da Casa Branca, ao ser questionada por repórteres sobre a ideia, é mais eloquente.

    O presidente Joe Biden tem se notabilizado por uma retórica dura contra os russos e cobrou explicações para o envio de soldados, tanques e blindados para a fronteira e também para a Crimeia. Mas daí a acelerar a absorção da Ucrânia há uma distância.

    Zelenski, um comediante que chegou de forma improvável ao poder em 2019, tentava uma saída negociada com Putin. Como vem perdendo popularidade (pesquisa recente diz que só 22% votariam nele de novo), cedeu à pressão do establishment local e aderiu ao discurso de confronto.

    A inspeção determinada pelo ministro Serguei Choigu, por sua vez, também vem na linha de mostrar os dentes. O Kremlin já afirmou que não há nada de anormal no movimento de tropas e negou querer atacar a Ucrânia.

    Por outro lado, sinalizou que deseja comprometimento do Ocidente com os Acordos de Minsk, que em sua última versão de 2015 estabeleceram condições nas quais as repúblicas rebeldes ficam com Kiev, mas com grande autonomia.

    Os acordos foram copatrocinados pela Rússia e pelo Ocidente, mas a liderança ucraniana não os aceita por considerar que inviabilizam a integridade territorial do país.

    “Nós duvidamos muito que isso entrar na Otan vá ajudar a Ucrânia a resolver o seu problema doméstico. Do nosso ponto de vista, só vai piorar a situação. Filiar-se à Otan é inaceitável para que mora nas repúblicas”, disse Dmitri Peskov, o porta-voz do Kremlin.

    Veterano da guerra da União Soviética com o Afeganistão, na qual perdeu a visão de um olho, Nicolai hoje só vê vultos pela casa em Zaitseve, na Ucrânia
    eterano da guerra da União Soviética com o Afeganistão, na qual perdeu a visão de um olho, Nicolai hoje só vê vultos pela casa em Zaitseve, na Ucrânia Yan Boechat/Folhapress

    Após relativa calmaria desde 2015, o conflito voltou a esquentar neste ano. Houve escaramuças nos 500 km de fronteiras entre ucranianos e rebeldes, matando 23 soldados de Kiev e um número incerto de separatistas. No ano passado todo, morreram cerca de 50 pessoas em embates.

    Moram na região estimadas 3,8 milhões de pessoas, a maioria russa étnica, entre os 44,3 milhões de habitantes de toda a Ucrânia.

    Na cartilha geopolítica de Putin, o Ocidente traiu a Rússia após o fim da Guerra Fria, em 1991, expandido suas estruturas a leste em vez de ajudar a reconstrução do país que liderava a União Soviética.

    Com efeito, 11 países ex-comunistas foram absorvidos pela União Europeia desde então, e 14 pela Otan.

    Desde a guerra na Geórgia (2008), Putin vem deixando claro que o movimento teria de parar. Em 2014, deixou o Ocidente atônito ao anexar a Crimeia e incitar a revolta no Donbass.

    Em comum a esses três lugares é a existência de áreas com maioria étnica russa. Quando Putin famosamente disse que o fim da União Soviética era o maior desastre geopolítico do século 20, falava da perda de um cinturão de defesa em sua periferia e, nominalmente, citava os russos que ficaram nos novos países livres.

    Isso gera a crível desconfiança sobre as intenções russas. Se poucos analistas acreditam em uma guerra, é bom lembrar que toda vez em que Putin estava questionado, apostou em ações externas, como na própria Crimeia ou na Síria (2015).

    E o líder russo, que acaba de regulamentar a possibilidade tentar ficar no cargo até 2036, está no pior nível de popularidade de suas duas décadas de poder (ainda que na casa de confortáveis 60%).

    Em frente a monumento a mortos na Segunda Guerra, noiva e sargento da Marinha Russa dançam ao som de uma banda militar, tradição local
    Em frente a monumento a mortos na Segunda Guerra, noiva e sargento da Marinha Russa dançam ao som de uma banda militar, tradição local

    Ucrânia e Belarus, ditadura que apoia, são os principais anteparos entre suas fronteiras e as hostis nações da Otan no Leste Europeu. “Putin representa o que a elite russa pensa. Querem ser ocidentais, mas com a devida distância”, diz Konstantin Frolov, analista independente russo.

    A anexação do Donbass não é desejada pelo Kremlin pelo alto custo econômico embutido —na Crimeia, foram mais de US$ 5 bilhões em obras desde 2014. O que interessa a Putin é deixar a Ucrânia fora da Europa.

    Há ainda outras questões que podem disparar um conflito. Os ucranianos vêm cortando o abastecimento de água da Crimeia, que recebe 85% do que consome do seu antigo país. Nesta terça, Zelenski ordenou um treinamento especial de reservistas na região de fronteira dos dois territórios.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/04/ucrania-pede-ajuda-a-otan-contra-a-russia-que-da-recado-militar.shtml

    Questões

    1 – De que forma essa tensão se liga ao desmembramento da exURSS?

    2 – Explique o componente étnico que envolve a posse da península da Crimeia

    3 – No texto jornalístico é citado a OTAN.

    • Quando ela foi criada?
    • Explique um dos motivos de sua atual manutenção.

    Prof Luciano Mannarino

  • China dobra aposta em tecnologia

    China dobra aposta em tecnologia

    País mobiliza grandes investimentos para projetos de tecnologia em estágios iniciais

    1º.abr.2021 às 23h15

    Volumes fabulosos de recursos já foram investidos no desenvolvimento de semicondutores e, apesar disso, a China segue altamente dependente da importação desses insumos.

    Anos de expectativas frustradas incomodam o governo chinês. Não apenas porque isso evidencia a dificuldade de transformar desejos em realidade, mas também porque coloca a China numa posição vulnerável do ponto de vista tecnológico.

    Do total de semicondutores que consome, a China produz apenas 30% e importa o restante, numa proporção que há anos insiste em não se alterar.

    A China depende de chips para produzir outros bens, para exportar e para inovar. Produtores de carros chineses, por exemplo, importam 90% dos semicondutores de que necessitam.

    Um funcionário trabalha em uma fábrica de semicondutores em Nantong, na província de Jiangsu, leste da China
    Um funcionário trabalha em uma fábrica de semicondutores em Nantong, na província de Jiangsu, leste da China – 17.mar.2021/AFP

    Os EUA enxergaram na fragilidade chinesa uma oportunidade. Adotaram medidas para restringir suas exportações de semicondutores para a China. Foram além e criaram dificuldades para que empresas estrangeiras mesmo fora dos EUA vendessem, para a China, equipamentos e software para a produção de chips.

    Ainda que em escala menor, histórias parecidas se repetem em outras tecnologias. É extensa a lista de empresas chinesas proibidas de fazer negócios com firmas americanas. Com isso, limita-se o acesso chinês a certos insumos estratégicos.

    Qual a consequência do outro lado do mundo? O Estado-investidor chinês aumenta seu apetite pelo risco. Pequim passa a atuar como um “venture capitalist” —como argumentou Arthur Kroeber num webinário organizado pelo Cebri e Conselho Empresarial Brasil-China nesta semana.

    Claro, investimentos em política industrial, em tecnologia e mesmo em autossuficiência não são novidade na China. No entanto, agora Pequim mais que dobrou a aposta.

    O que há de novo são a ousadia na maneira de investir, o volume de recursos envolvidos na empreitada e a coerência estratégica da intervenção do Estado, segundo Kroeber.

    Pequim passa a mobilizar grandes investimentos em setores intensivos em tecnologia, especialmente para vários projetos em estágios iniciais —arriscados, mas potencialmente promissores.

    Como é típico do modelo de “venture capitalism”, nem todas as apostas vão se revelar acertadas. Mas, claro, a ideia é de que haja vencedores suficientes para compensar os investimentos que inevitavelmente fracassarão.

    Sede do gigante do varejo Alibaba em Hangzhou, província de Zhejiang
    Sede do gigante do varejo Alibaba em Hangzhou, província de Zhejiang Aly Song/Reuters

    Apesar de tudo, o sucesso não é garantido. As dificuldades normalmente associadas a política industrial estão presentes também na China. Há espaço para desperdício, favorecimentos, distorções e corrupção.

    Quando, no ano passado, Pequim definiu novos incentivos para o desenvolvimento de semicondutores, empresas de todos os tipos se aprontaram para pleitear benesses. O governo precisou agir para evitar abusos. Definiu três “nãos”. Empresas sem experiência, sem tecnologia e sem capital humano na área não deveriam se aventurar aí —não com recursos públicos.

    Se o intervencionismo estatal tem seus riscos, a lógica do relacionamento entre Estado e mercado na China, no entanto, sempre foi diferente. O setor público é visto sobretudo como parte de solução e não como o problema na economia.

    Ronaldo Lemos na Torre Pérola em Nanjing, China
    Ronaldo Lemos na Torre Pérola em Nanjing, China Bruno Prada

    Expressões como China Inc. e capitalismo de Estado, por exemplo, representam o esforço de capturar a essência deste modelo híbrido —e que também se transforma. Mas enquanto o resto do mundo aponta para as contradições, os chineses enxergam as sinergias da relação.

    Nas atuais circunstâncias, a dependência tecnológica da China e o ambiente internacional difícil para o país contribuem para a ousadia do Estado-investidor. Não por acaso o recém-adotado plano quinquenal prioriza autossuficiência tecnológica.

    Se fosse um investidor privado, a China de hoje teria perfil arrojado. O risco é alto, mas o retorno também pode ser. Em jogo, estão os rumos da competição tecnológica, econômica e geopolítica. Com bolsos mais fundos que no passado, Pequim está disposta a pagar para ver.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tatiana-prazeres/2021/04/china-dobra-aposta-em-tecnologia.shtml

    Questões.

    O que seria o “Capitalismo de Estado” implementado na China?

    Aponte contradições entre esse modelo e o modelo neoliberal.

    Num mundo cada vez mais competitivo, qual a importância da autossuficiência tecnológica?

    Quais são as medidas que os EUA vem adotando para dificultar o avanço da China nessa área?

    Prof Luciano Mannarino

  • Portugal precisa confrontar seu passado colonial, diz Conselho da Europa

    Portugal precisa confrontar seu passado colonial, diz Conselho da Europa

    Queixas de discriminação racial aumentaram 50% no país, que vai inaugurar memorial às vítimas da escravidão

    REUTERS

    24.mar.2021 às 16h58

    O Conselho da Europa, principal grupo de direitos humanos da União Europeia, afirmou nesta quarta-feira (24) que Portugal deve fazer mais para enfrentar seu passado colonial e seu papel no comércio de escravos e, assim, combater o racismo e a discriminação.

    O relatório surge num momento de acirramento do debate sobre o legado colonial no país —no começo do mês, a remoção dos brasões das ex-colônias de Portugal da chamada praça do Império, pretendida pela Câmara Municipal de Lisboa, gerou uma acalorada discussão e dividiu portugueses.

    Agora, o país também se prepara para inaugurar seu primeiro memorial às vítimas da escravidão, em Lisboa. O monumento —uma fileira de palmeiras pintadas de preto— foi desenhado pelo artista angolano Kiluanji Kia Henda, financiado pela Câmara e ficará no centro da capital.

    Monumento aos Descobrimentos, na região do Belém, é um dos principais cartões-postais de Lisboa
    Monumento aos Descobrimentos, na região de Belém, é um dos principais cartões-postais de Lisboa – Lalo de Almeida – 7.nov.2017/Folhapress

    O texto, assinado pela comissária para os Direitos Humanos, Dunja Mijatović, manifesta preocupação diante do aumento do número de crimes motivados por ódio racial, visando particularmente ciganos, afrodescendentes e estrangeiros no país.

    Do século 15 ao 19, as embarcações portuguesas transportaram cerca de 6 milhões de africanos escravizados através do Atlântico, cifra maior que a de qualquer outra nação. A era colonial, que viu países como Angola, Moçambique, Brasil, Cabo Verde e Timor Leste sujeitos ao domínio português, é frequentemente citada como motivo de orgulho. Atualmente, no entanto, a forma como a escravidão costuma ser abordada nas escolas tem sido questionada.

    “São necessários mais esforços para Portugal reconhecer as violações de direitos humanos no passado para combater os preconceitos racistas contra afrodescendentes, herdados de um passado colonial e do comércio de escravos”, disse o Conselho da Europa em seu relatório.

    Dia da Revolução dos Cravos na pandemia

    Homem dá um cravo a moradora de Benfica
    Homem dá um cravo a moradora de Benfica Patricia de Melo Moreira/AFP

    Em 2020, as queixas de discriminação racial aumentaram 50% no país, atingindo a marca de 655 denúncias. Segundo a secretária de Estado para a Igualdade, Rosa Monteiro, entretanto, esse número provavelmente está abaixo da taxa real de incidentes, uma vez que muitos casos não são registrados.

    “Nossa narrativa histórica é como uma ferida muito séria que não foi tratada adequadamente. E, para curá-la, temos que conversar sobre o que aconteceu”, disse Monteiro à agência de notícias Reuters, acrescentando que o governo está preparando um plano nacional de combate ao racismo.

    Episódios crescentes de racismo incluem uma passeata com referências ao movimento racista Ku Klux Klan, com máscara e tochas, em frente à sede da ONG SOS Racismo, em Lisboa, organizada pelo Resistência Nacional, grupo de extrema direita nacionalista. Esse mesmo grupo enviou emails com ameaças de morte a dirigentes de ONGs e a três deputadas de partidos de esquerda.

    Portugal planeja realizar, ainda neste ano, seu primeiro censo sobre origem étnica. Segundo dados do serviço de fronteira, havia, em 2019, cerca de 103 mil africanos oficialmente residentes no país. Os brasileiros lideram o ranking de maior comunidade de imigrantes, com 151 mil pessoas.

    Edgard Marcondes, 32, com a esposa Geisa, 32, e o filho Bento, 2, na Praia da Marinha, no Algarve, em Portugal. "Se eu fosse o Super-Homem, o racismo no Brasil seria minha kriptonita", diz
    Edgard Marcondes, 32, com a esposa Geisa, 32, e o filho Bento, 2, na Praia da Marinha, no Algarve, em Portugal. “Se eu fosse o Super-Homem, o racismo no Brasil seria minha kriptonita”, diz Arquivo pessoal

    O Conselho da Europa também expressou preocupação com o crescimento da direita populista no país, destacando o partido Chega, liderado pelo deputado André Ventura

    Amparando propostas como a castração química de pedófilos e a pena de morte, além da defesa de que não existe racismo em Portugal, o Chega conquistou não apenas o voto antissistema, mas também o de eleitores descontentes com o restante da direita no país.

    Ventura também fez comentários públicos contra Mamadou Ba, um dos principais ativistas do movimento antirracismo no país, que no mês passado foi alvo de uma petição pela sua deportação após chamar um oficial colonical, morto recentemente vítima de Covid-19, de sanguinário. Marcelino da Mata era o mais condecorado militar do exército português.

    “Não estamos tentando reescrever a história, estamos dizendo que a história que contamos hoje não é suficiente”, disse Ba em um protesto no domingo (22). “Queremos uma história que represente todos os portugueses.”​

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/03/portugal-precisa-confrontar-seu-passado-colonial-diz-conselho-da-europa.shtml

    Questões

    Aponte no texto reflexos das grandes navegações portuguesas na atualidade.

    Prof. Luciano Mannarino

  • Dez anos após Fukushima, energia nuclear cresce com China e crise climática

    Dez anos após Fukushima, energia nuclear cresce com China e crise climática

    Produção mundial voltou aos níveis anteriores ao desastre; ambientalistas defendem fontes renováveis

    11.mar.2021 às 8h00

    Igor Gielow

    SÃO PAULO

    Em março de 2011, quando o desastre da usina japonesa de Fukushima horrorizou o mundo, o futuro comercial da energia nuclear foi dado como no mínimo incerto.

    A Alemanha anunciou o fim de seu programa de usinas atômicas, o Japão desligou para revisão seus 33 reatores, 3 dos quais tiveram seus núcleos derretidos após o terremoto e tsunami devastadores, grupos ambientalistas se disseram enfim reconhecidos no seu pleito por um mundo sem energia nuclear.

    A usina nuclear japonesa de Fukushima Daiichi, que teve três reatores atingidos no tsunami de 2011
    A usina nuclear japonesa de Fukushima Daiichi, que teve três reatores atingidos no tsunami de 2011 – Kazuhiro Nogi/AFP

    Dez anos depois, após uma queda, a produção mundial de suas usinas nucleares voltou aos índices pré-Fukushima. São 2.750 TWh (terawatts-hora), ante 2.720 TWh em 2010.

    E a tendência é de crescimento, puxado pela necessidade do corte mundial de emissões de carbono e pelo ambicioso programa energético da China.

    Durante seu encontro legislativo anual, chamado de Duas Sessões, o governo de Xi Jinping estabeleceu uma meta de aumento de 27% de sua produção nuclear até 2025.

    Das 53 usinas em construção em todo mundo, segundo a Associação Nuclear Mundial, o maior contingente (11) é chinês. Em 2020, havia 441 reatores civis em operação no planeta.

    O plano é considerado central para a ambição chinesa de atingir o máximo de sua emissão de carbono em 2030 e ser um país neutro no quesito em 2060. O tombo da economia mundial com a pandemia é visto como uma oportunidade de rearranjar a casa no clima.

    É o país mais poluente do mundo, segundo dados da Agência Internacional de Energia em 2020, responsável por 28% do despejo mundial de CO₂ na atmosfera —os EUA vêm em segundo lugar, com 15%.

    É o preço de ter virado uma das fábricas do mundo: de 1990 para cá, a emissão de carbono cresceu 356% no país, a segunda maior economia do mundo, atrás dos EUA.

    Hoje, apenas 4,7% da eletricidade consumida na China têm origem nuclear, sendo que dois terços da energia do país vem do ultrapoluente carvão.

    A terra do presidente e ativista climático Joe Biden, por sua vez, tem 19,4% de sua eletricidade oriunda de 94 usinas nucleares, maior parque da Terra. A produção anual está estável desde 2010 e fechou 2019 em 830 THh.

    Nem todo mundo está feliz com o plano chinês. O grupo ambientalista Greenpeace advoga que o mundo deve focar energias renováveis, como a solar e a eólica, mas isso esbarra na intermitência natural delas e no custo ainda alto devido à baixa escala.

    Uma vez ligado e alimentado, um reator nuclear gera energia virtualmente eterna sem emitir CO₂. Claro, a extração e o processamento do urânio que usa como combustível entram na conta, mas é uma fração muito baixa em relação a outras fontes poluentes.

    Usando fontes abertas sobre mortalidade e acidentes relacionados a fontes poluentes, o site Our World in Data fez uma comparação acerca dos efeitos de matrizes energéticas sobre uma cidade europeia média, com cerca de 188 mil habitantes e com o perfil usual de consumo no continente.

    A cidade de Namie, na província de Fukushima (Japão), classificada como de difícil retorno devido à radiação após acidente nuclear causado por terremoto e tsunami
    A cidade de Namie, na província de Fukushima (Japão), classificada como de difícil retorno devido à radiação após acidente nuclear causado por terremoto e tsunami Rodrigo Sicuro/Folhapress

    Pelas contas, 25 pessoas morreriam prematuramente por ano devido ao carvão, 18 pelo petróleo, 3 por causa do gás. Demoraria 14 anos para alguém morrer devido à energia nuclear, 29 anos pela eólica, 42 pela hidroelétrica, e 53, pela solar.

    Ou seja, aplica-se às usinas nucleares e sua relação com o entorno basicamente a regra do avião: é um modo muito seguro de transporte, desde que você não esteja dentro de um quando ele cai.

    Em conversa com a Folha no ano passado, o diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, Rafael Grossi, apontou para essa contradição daqueles que demandam ação efetiva contra a mudança climática associada ao CO₂ na atmosfera.

    Para ele, a vantagem do nuclear é óbvia. Hoje, cerca de 10% da eletricidade consumida no mundo vêm de reatores nucleares, enquanto 38% vêm de carvão, 23% de gás natural, e 16%, de hidroelétricas. Alternativas (biomassa, solar e eólica) somam 7%.

    Já como fonte de energia para a economia, o petróleo segue imbatível com 31%, o carvão responde por 25%, e o gás, por 23%. O átomo fica com 4% do bolo, atrás de biomassa (7%) e hidroelétricas (6%). Vento e sol originam 3%.

    O caso alemão é exemplar do desafio colocado pelo temor de uma nova Fukushima —isso para não falar no pior acidente da história, em 1986, na usina de Tchernóbil (União Soviética, hoje Ucrânia). Em 2010, Berlim era a quinta maior geradora mundial de energia nuclear, com 140 TWh.

    Higashimatsushima, Província de Miyagi - 12.mar.11 / 3.mar.12
    Higashimatsushima, Província de Miyagi – 12.mar.11 / 3.mar.12 Reuters

    Em 2011, o país já havia decidido reduzir sua emissão de carbono. O acidente acelerou o processo de retirada da matriz nuclear, sob pressão da bancada verde no Parlamento, e o plano é desligar as seis usinas remanescentes em 2022.

    O problema é que a emissão de carbono se manteve relativamente estável, de 731 milhões de toneladas de CO₂ em 2011 para 677 milhões de toneladas em 2018, segundo a Agência Internacional de Energia.

    Curiosamente, países em que o movimento ambientalista é forte, como França e Suécia, têm alta dependência de energia nuclear: 71%, a maior do mundo, e 39%, respectivamente.

    País onde a tragédia de Fukushima ocorreu, o Japão vem religando suas usinas paulatinamente. Era o terceiro país em produção de energia atômica em 2010, com 286 TWh e 33 usinas. Em 2015, produziu apenas 4 TWh, quase quatro vezes menos que o Brasil e suas duas unidades em Angra dos Reis.

    Em 2019, último dado disponível, já havia subido para 70 TWh, tendo acionado nove de suas plantas nucleares.

    É um processo complicado, porque o trauma dos acidentes é altíssimo. Radiação é um subproduto perigosíssimo para lidar, e anos de construções com falhas de desenho (caso de Tchernóbil) ou em locais inadequados (Fukushima) colocam uma sombra permanente sobre a matriz nuclear.

    Na esteira de Tchernóbil, a segurança primária de reatores na antiga União Soviética foi melhorada, mas há lacunas. Enquanto nove unidades RBMK, iguais à que explodiu em 1986, ainda subsistem na Rússia, modelos de primeira e segunda geração VVER seguem pelo mundo.

    Um dos mais temidos por especialistas é o que equipa a planta de Metsamor, na Armênia. Numa região suscetível a terremotos devastadores, junto à capital Ierevan, ela quase foi alvo de forças azeris no conflito entre os países em 2020. Como fornece um terço da energia do país, deverá seguir onde está.

    Mulher presta homenagem às vítimas em cemitério de Kiev, na Ucrânia
    Mulher presta homenagem às vítimas em cemitério de Kiev, na Ucrânia Sergei Supinsky

    A questão dos resíduos é central, estatisticamente mais complexa do que a de acidentes em si. Lixo atômico é o combustível gasto pelos reatores, reciclável até certo ponto.

    No 14º Plano Quinquenal da China, revelado na reunião desta semana em Pequim, está inclusive previsto um trabalho específico em tecnologias que facilitem o reprocessamento do lixo.

    Os resíduos mais nocivos, o combustível gasto e não reciclável, precisa ser enterrado a centenas de metros por milênios. São um problema ambiental real, embora 99% do lixo seja de mais fácil manejo, como filtros, peças e roupas de proteção usadas.

    Por fim, mais intangível, há o preconceito que pode ser associado às tragédias e também às armas nucleares, que ocupam faixa semelhante no imaginário popular. Já os benefícios das aplicações médicas de isótopos radioativos, um terceiro ramo da energia nuclear, não costumam assustar tanto —exceto quando algo dá errado, como na exposição do césio-137 em Goiânia, em 1987.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/03/dez-anos-apos-fukushima-energia-nuclear-cresce-com-china-e-crise-climatica.shtml

  • América Latina e convergência de rendimentos: história de um fracasso?

    América Latina e convergência de rendimentos: história de um fracasso?

    EM13 CHS 206     Analisar a ocupação humana e a produção do espaço em diferentes tempos, aplicando os princípios de localização, distribuição, ordem, extensão, conexão, arranjos, casualidade, entre outros que contribuem para o raciocínio geográfico.

    3.mar.2021 às 18h22

    Carlos Andrés Brando: Historiador. Doutor em História Econômica, London School of Economics & Political Science. Pesquisador pós-doutorando na U. de los Andes e reitor da Faculdade de Economia da U. Jorge Tadeo Lozano.

    Uma ideia popular em economia sustenta que os países pobres tendem a crescer mais rapidamente do que os países ricos. Portanto, as economias do mundo acabam convergindo em seus níveis de renda. A vantagem mais importante que os retardatários têm é copiar os melhores padrões e práticas institucionais, tecnológicas e produtivas dos que estão à frente.

    Além disso, segundo a teoria, os pobres recebem grandes quantidades de capital dos ricos, o que significa que, apesar de investirem cada vez mais capital na formação de sua força de trabalho ou em suas indústrias, os retornos que obtêm com esses investimentos são cada vez menores.

    COMO É A TEORIA À LUZ DA HISTÓRIA?

    Após a Revolução Industrial Inglesa e o crescimento econômico moderno que ela gerou em meados do século 18, uma dúzia de países ocidentais atingiu níveis de renda semelhantes aos ingleses nos cem anos seguintes. Primeiro vieram a Holanda e a Bélgica. Depois França, Suíça, Dinamarca, Alemanha, Nova Zelândia, Austrália, Canadá e Argentina. No início do século passado, o grupo dos ricos foi completado pela Noruega e Suécia.

    Os Estados Unidos merecem uma menção especial, pois ultrapassaram a Inglaterra para se tornarem o país mais rico do mundo, o líder tecnológico e o poder político hegemônico global à beira da Primeira Guerra Mundial.

    Desde então, tem havido pouca convergência. Durante os chamados “anos dourados” do período pós-guerra, o crescimento econômico acelerado experimentado pela Áustria, Finlândia, Itália e Espanha os trouxe para o clube de elite. A Irlanda e Portugal somaram-se ao grupo recentemente.

    E A AMÉRICA LATINA?

    A região não tem sido completamente imune ao fenômeno. Entretanto, as experiências históricas de convergência têm sido amargas.

    A Argentina era uma das 12 economias mais prósperas do mundo durante o primeiro terço do século 20 e desde então começou um longo declínio gradual (relativo) de seu PIB per capita até os anos 2000. Foi superada pela Venezuela nos anos 1950, cuja economia cresceu rapidamente por mais duas décadas, apenas para sofrer uma grande retração e mais 30 anos de estagnação.

    Um frango chega a custar 14.600.000 Bs, pouco mais de R$ 8
    Um frango chega a custar 14.600.000 Bs na Venezuela, pouco mais de R$ 8 Carlos Garcia Rawlins/Reuters

    Assim, a Venezuela apresenta uma evolução de sua renda próxima à forma de um sino de distribuição normal. Evidentemente, em nenhum dos casos a convergência foi cimentada.

    Um século de convergência (ou divergência) na América Latina, anos 1920 - anos  2010
    Um século de convergência (ou divergência) na América Latina, anos 1920 – anos 2010 (Evolução do PIB real p/c, US$ de – Razões de países selecionados em relação aos Estados Unidos) – Reprodução

    Fonte: Elaboração própria a partir do Maddison Project Database (2020). G10+ (média do grupo de países ricos mencionados acima, dos quais Argentina e Venezuela fizeram parte temporariamente em diferentes décadas).

    Embora os casos do Chile e da Colômbia sejam semelhantes, já que ambos terminam suas trajetórias em níveis de renda muito próximos aos de seus pontos de partida um século atrás, o Chile fica marcadamente atrás do G10+ por 50 anos (1930 a 1970), e só começa a se recuperar na década de 1980. A Colômbia, entretanto, permaneceu praticamente estática desde a década de 1940, com uma reviravolta na última década.

    O Brasil é diferente. Mostra uma tendência ascendente apenas desacelerada pela crise da dívida dos anos 1980 e a subsequente “década perdida”. Em 100 anos, a renda dos brasileiros passou de representar pouco mais de 10% da renda dos Estados Unidos para 28%. A este ritmo, a convergência com o líder levará cerca de 300 anos.

    O SUCESSO DOS PAÍSES ASIÁTICOS

    O fracasso da América Latina em convergir é claro e contundente. Mas nem todos sofreram este destino. As experiências do Japão, Hong Kong, Singapura, Taiwan e Coreia do Sul (os “tigres” asiáticos) representam casos de convergência bem-sucedidos.

    Começando com o Japão nos anos 1960, e sucessivamente com diferenças de cerca de uma década entre os anos 1970 e 2000, os quatro casos restantes na ordem acima atingiram os níveis de renda do G10+. Enquanto o fizeram com taxas de crescimento diferentes, Hong Kong e Japão com taxas muito altas e a Coreia a um ritmo mais lento, todos eles alcançaram a terra prometida.

    Um século de convergência na Ásia Oriental, anos 1920 – anos 2010
    Um século de convergência na Ásia Oriental, anos 1920 – anos 2010 (Crescimento real do PIB p/c, US$ de 2011 – Razões de países selecionados em relação aos Estados Unidos) – Reprodução

    Fonte: Elaboração própria a partir do Maddison Project Database (2020). G10+ (média do grupo de países ricos mencionados acima, dos quais Argentina e Venezuela fizeram parte temporariamente em diferentes décadas).

    ONDE ESTÁ A DIFERENÇA?

    O fator decisivo para entender a razão das diferentes experiências nas duas regiões reside na natureza da integração com a economia internacional.

    Por um lado, a América Latina foi integrada através de exportações primárias. Ao longo do século, as matrizes de exportação das cinco economias foram dominadas por commodities: café, trigo, carne, borracha, lã, soja, cobre, nitrato, carvão e petróleo.

    Por outro lado, os “tigres” transformaram gradualmente suas matrizes, afastando-se da exportação de bens primários para se concentrarem no desenvolvimento das exportações de bens industriais (e serviços comerciais e financeiros em Singapura e Hong Kong).

    Os anos de rápido crescimento e convergência foram anos de dinamismo e consolidação em setores como o automotivo, máquinas de alta precisão, fibras sintéticas, plásticos, semicondutores, software de computador e produtos eletrônicos. Todos esses competindo nos mercados internacionais. Em outras palavras, estas economias deram um grande impulso à sua industrialização, redirecionando-a para a exportação.

    A industrialização das exportações estimulou a demanda por atividades domésticas ligadas à produção no exterior, gerou um trabalho formal cada vez mais qualificado, e permitiu que a acumulação de economias fosse recanalizada como investimento em infraestrutura e outros setores ávidos de recursos.

    Mas, acima de tudo, este compromisso de exportação exigiu a formação de um sistema tecnológico nacional capaz de inovação contínua, tanto nos produtos quanto nos processos de produção. Assim, empresas e trabalhadores asiáticos se tornaram mais produtivos e agregaram cada vez mais valor aos bens e serviços oferecidos. Como resultado, eles recebiam maiores rendimentos.

    Para ser justo, os latino-americanos conseguiram exportar produtos industriais. Mas eles o fizeram em proporções menores, na maioria das vezes regionalmente e episodicamente. Em vez de criar tecnologia em casa, ela foi importada e o círculo virtuoso foi rompido.

    As commodities traçaram outro caminho, com problemas estruturais antigos: vulnerabilidade externa, desvalorização da moeda, volatilidade do crescimento e escassez de estímulos e ligações com outras atividades.

    O mundo mudou e as notícias não são boas. As condições para saltar adiante são mais difíceis agora do que eram para os “tigres” há quatro ou cinco décadas. Os acordos comerciais bilaterais, as regras do jogo regulatório do comércio internacional e a ubiquidade dos direitos de propriedade intelectual reduziram significativamente o espaço para desenvolver o tipo de políticas industriais que os agora ricos implementaram quando procuraram sair da pobreza.

    A América Latina parece condenada a contribuir para as teorias da divergência.

    Tradução do espanhol por Maria Isabel Santos Lima

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/latinoamerica21/2021/03/america-latina-e-convergencia-de-rendimentos-historia-de-um-fracasso.shtml