Categoria: Geopolítica

  • Realismo geopolítico fala mais alto na relação entre EUA e Arábia Saudita

    Realismo geopolítico fala mais alto na relação entre EUA e Arábia Saudita

    Apesar de prometer foco em direitos humanos, Biden não pune príncipe saudita por assassinato de jornalista

    1º.mar.2021 às 23h15

    Patrícia Campos Mello

    SÃO PAULO

    Durante a campanha eleitoral, o então candidato Joe Biden prometeu linha dura com o governo da Arábia Saudita, que era queridinho do então presidente Donald Trump. Em um governo Biden, disse o democrata, os sauditas envolvidos no assassinato e esquartejamento do jornalista saudita Jamal Khashoggi dentro do consulado saudita em Istambul, em 2018, iriam “pagar por isso”, e os EUA fariam deles “os párias que realmente são”.

    Na sexta-feira (26), a CIA divulgou um relatório que responsabiliza pessoalmente o príncipe Mohammed bin Salman, conhecido pela sigla MbS, por ter ordenado o assassinato de Khashoggi. E o que aconteceu? O Departamento do Tesouro impôs sanções contra o antigo vice-chefe da inteligência saudita, Ahmed al-Asiri, e contra a Força de Intervenção Rápida da monarquia saudita, que se reportava diretamente ao príncipe e “cuidava” de dissidentes. Além disso, vetaram vistos para 76 pessoas que sequestravam jornalistas e dissidentes no exterior e os levavam para serem presos em solo saudita. Já MbS saiu incólume e, se quiser, pode até passar as férias na Disney.

    O príncipe saudita, Mohammed bin Salman, participa de evento em Riad
    O príncipe saudita, Mohammed bin Salman, participa de evento em Riad – Bandar al-Jaloud – 27.fev.21/AFP

    Frente à promessa de Biden de fazer uma reviravolta na política externa americana, tornando os direitos humanos uma prioridade, as imposições da realpolitik falaram mais alto.

    “Achamos que existem maneiras mais eficientes de garantir que isso [assassinato de Khashoggi] não aconteça novamente, enquanto mantemos espaço para trabalhar em conjunto com os sauditas em áreas em que há entendimento mútuo, e há interesses nacionais para os EUA. Isso é diplomacia”, disse a secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, no domingo (28), após intensa pressão de legisladores democratas e ativistas para uma ação mais enérgica contra MbS.

    O governo Biden criou expectativas ao dizer que haveria mais anúncios sobre o caso na segunda-feira (1º). No entanto, um porta-voz do Departamento de Estado limitou-se a afirmar que o governo americano está “focado no comportamento futuro” da Arábia Saudita e simplesmente instou Riad a melhorar sua atuação em direitos humanos e acabar com a “força de elite” que matou Khashoggi.

    O presidente Joe Biden faz uma aposta arriscada: quer limpar sua barra com o público doméstico, que exige atitudes contra MbS, sem implodir o relacionamento com o príncipe saudita, que é quem realmente manda na monarquia do Golfo.

    Em diplomatiquês, a Casa Branca afirma que o objetivo seria recalibrar a relação com a Arábia Saudita, mas sem causar uma ruptura.

    Parte da recalibragem seria a decisão do governo Biden de vetar vendas de armas para ações de ataque dos sauditas na guerra do Iêmen. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes mataram milhares de civis usando armamentos vendidos pelos americanos, na tentativa de derrubar os rebeldes houthis, financiados pelo Irã, o arqui-inimigo de Riad. Biden também cancelou vendas que haviam sido autorizadas por Trump. Mas deixou claro que continuaria a vender armamentos para que a Arábia Saudita possa se defender do Irã e dos aliados do país xiita.

    Em sua primeira ligação para o governo saudita, Biden falou com o rei Salman, e o governo afirmou que o monarca é que seria interlocutor do presidente americano, e não MbS. Trump oferecia a MbS uma linha direta com a Casa Branca, via seu genro, Jared Kushner. Além disso, o democrata designou um diplomata como enviado especial para a guerra do Iêmen, para tentar por fim ao conflito que se arrasta desde 2015 e já matou 230 mil pessoas.

    Entidades de direitos humanos, jornalistas, legisladores democratas e até John Brennan, ex-diretor da CIA no governo Obama, criticaram duramente a decisão de Biden de não impor sanções contra MbS.

    “Dizer que o príncipe regente MbS foi o responsável pelo horrendo assassinato de Jamal Khashoggi não é suficiente para responsabilizá-lo. O governo Biden precisa fazer muito mais. Para começar, vetar encontros com autoridades americanas e visitas aos EUA”, escreveu Brennan no Twitter.

    Capa do relatório de inteligência da CIA sobre assassinato do jornalista Jamal Khashoggi
    Capa do relatório de inteligência da CIA sobre assassinato do jornalista Jamal Khashoggi

    Em artigo nesta segunda-feira, Fred Ryan, publisher do Washington Post, que era empregador de Khashoggi, disse que Biden havia dado um “passe livre para um assassinato”.

    Os EUA já sancionaram chefes de Estado ou governo antes: Nicolás Maduro, ditador da Venezuela; Kim Jong-un, ditador da Coreia do Norte, e Bashar al-Assad, da Síria. Mas nenhum desses países tem o poder de estabilizar —ou mergulhar no caos— o mercado de petróleo mundial. Por mais que o aumento de produção nos EUA tenha reduzido, e muito, a dependência do reino, a Arábia Saudita ainda tem o poder de reduzir significativamente sua produção, algo que a maioria dos outros produtores não tem.

    Além disso, impor sanções contra MbS é, na realidade, cortar relações com o reino saudita por um longo período. O rei Salman tem 85 anos e a saúde frágil. O príncipe de 35 anos é quem governa de facto e deve se manter no poder por muitos anos.

    O democrata quer preservar alguma boa vontade dos sauditas. Biden precisa do apoio da Arábia Saudita em operações antiterrorismo e para gerenciar o equilíbrio no Oriente Médio. E ele já vai gerar insatisfação no reino do Golfo ao tentar ressuscitar o acordo nuclear com o Irã, sabotado por Trump. O governo saudita é forte opositor do acordo, desde que foi instituído, no governo Obama. Além disso, o rei Salman vem intensificando os laços com a Rússia e a China, os inimigos estratégicos dos EUA.

    Trump justificava a insistência em vender armas para os sauditas, mesmo após oposição do Congresso, como uma questão econômica. De fato, o intercâmbio comercial entre os dois países é significativo —foi de US$ 38 bilhões em 2019 (R$ 214 bi, nesta segunda), e os sauditas são grandes compradores de armamentos.

    Mas esse é apenas um pedaço da história. A aliança estratégica entre os EUA e a Arábia Saudita vem de longe, foi firmada 76 anos atrás, entre o presidente Franklin Delano Roosevelt e o avô de MbS, rei Abdulaziz. Os EUA garantiriam acesso ao petróleo saudita, e, em troca, protegeriam a Arábia Saudita de ameaças estrangeiras, como o Irã.

    Desde sempre, eram países muito diferentes: uma democracia que, pelo menos no papel, é comprometida com direitos humanos e liberdade de expressão, e uma monarquia absolutista que reprime dissidentes e opositores. Ao longo da história, muitas vezes, os EUA tiveram de fechar os olhos para violações de direitos humanos, quando a geopolítica era mais importante. Aparentemente, é isso que vai acontecer, de novo.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/03/realismo-geopolitico-fala-mais-alto-na-relacao-entre-eua-e-arabia-saudita.shtml

    Trabalho em Grupo (sala de aula)

    Após a leitura do texto jornalístico, explique o significado de seu título.

    Prof Luciano Mannario

  • Fabricantes americanos enfrentam escassez de aço, alta dos preços

    Fabricantes americanos enfrentam escassez de aço, alta dos preços

    EM13CHS202     Analisar e avaliar os impactos das tecnologias na estruturação e nas dinâmicas de grupos, povos e sociedades contemporâneos (fluxos populacionais, financeiros, de mercadorias, de informações, de valores éticos e culturais etc.), bem como suas interferências nas decisões políticas, sociais, ambientais, econômicas e culturais.

    Por Rajesh Kumar Singh

    6 MIN DE LEITURA

    CHICAGO (Reuters) – Uma fabricante de peças aeroespaciais da Califórnia está lutando para adquirir aço laminado a frio, enquanto uma fabricante de peças automotivas e de eletrodomésticos em Indiana não consegue garantir suprimentos adicionais de aço laminado a quente das usinas.

    Ambas as empresas e muitas outras estão sendo atingidas por uma nova rodada de interrupções na indústria siderúrgica dos EUA. O fornecimento de aço está escasso nos Estados Unidos e os preços estão subindo. Os pedidos não atendidos de aço no último trimestre estavam no nível mais alto em cinco anos, enquanto os estoques estavam perto de uma baixa de 3-1 / 2 anos, de acordo com dados do Census Bureau. O preço de referência para o aço laminado a quente atingiu US $ 1.176 / t este mês, seu nível mais alto em pelo menos 13 anos.

    Os preços em alta estão elevando os custos e reduzindo os lucros dos fabricantes consumidores de aço, provocando uma nova rodada de pedidos para acabar com as tarifas do ex-presidente Donald Trump.

    “Nossos membros têm relatado que nunca viram tamanho caos no mercado de aço”, disse Paul Nathanson, diretor executivo da Coalition of American Metal Manufacturers and Users.

    O grupo, que representa mais de 30.000 empresas no setor de manufatura e cadeias de abastecimento downstream, este mês pediu ao presidente Joe Biden para encerrar as tarifas de metais de Trump.

    As siderúrgicas domésticas que paralisaram fornos no ano passado em meio a temores de uma prolongada desaceleração econômica induzida por uma pandemia têm demorado a aumentar a produção, apesar da recuperação na demanda por carros e caminhões, eletrodomésticos e outros produtos de aço. As taxas de utilização da capacidade nas siderúrgicas – uma medida de quão totalmente a capacidade de produção está sendo usada – subiu para 75% depois de cair para 56% no segundo trimestre de 2020, mas ainda está bem abaixo de 82% em fevereiro passado.

    Os embarques de aço estão crescendo, mas ainda abaixo dos níveis do ano passado.

    UM MERCADO DE AÇO JUSTO

    A produtora de aço Steel Dynamics disse no mês passado que não pode obter chapas laminadas suficientes nem mesmo para suas próprias operações internas.

    “É muito frustrante”, disse Hale Foote, presidente da Scandic Springs, fabricante de peças aeroespaciais com sede na Califórnia. “Estou procurando um ótimo negócio … mas não tenho nenhum suprimento de material.”

    A Scandic Springs enfrenta o risco de perder um contrato anual de US $ 1 milhão, pois não consegue encontrar um fornecedor doméstico pronto para fornecer 240.000 libras de aço laminado a frio.

    A Stone City Products, sediada em Indiana, que fornece componentes para empresas automotivas e de eletrodomésticos, também sofre forte pressão para adquirir 2 milhões de toneladas de aço laminado a quente por ano para um novo projeto.

    A empresa teve uma reviravolta dramática nos negócios após a queda da pandemia no segundo trimestre de 2020, quando os pedidos despencaram 50%. Sua carteira de pedidos está agora 25% acima dos níveis pré-pandêmicos. Apresentação de slides (4 imagens)

    Para acompanhar, ela está operando suas fábricas sete dias por semana e aumentou o número de funcionários em 40%. Mas o aço que costumava ser entregue em oito semanas no ano passado agora leva de 12 a 16 semanas. As fábricas não estão aceitando solicitações de compras adicionais.

    “Temos estado a braços com muitas exigências do cliente”, disse Stewart Rariden, o presidente da empresa.

    Os preços domésticos do aço subiram mais de 160% desde agosto passado, deixando os consumidores de aço em um dilema – absorver ou repassar o aumento no custo.

    “Teremos sorte se atingirmos esse preço”, disse Stuart Speyer, presidente da Tennsco, com sede no Tennessee. Os custos do aço para fabricantes de armários, estantes e armários aumentaram 98% nos últimos seis meses.

    A Whirlpool disse no mês passado que o aumento nos custos do aço reduziria 150 pontos-base de seu lucro este ano. A fabricante de equipamentos agrícolas AGCO e a fabricante de guindastes Terex anunciaram aumentos de preços para compensar os custos de material.

    Em sua pesquisa “instantânea” com gerentes de compras de fevereiro, o índice de preços pagos da IHS Markit pelas fábricas foi o mais alto desde 2011 e seu indicador de preços recebidos por produtos acabados foi o mais alto desde 2008.

    A alta nos preços do aço ocorre em um momento em que a expectativa de estímulo fiscal adicional e uma implementação mais rápida da vacina alimenta o temor de uma pressão inflacionária generalizada.

    No entanto, legisladores como o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, e a secretária do Tesouro, Janet Yellen, não prevêem um aumento prolongado e generalizado nos preços em breve, com o desemprego nos EUA ainda bem acima dos níveis pré-pandêmicos e mais de 18 milhões de americanos recebendo algum tipo de auxílio-desemprego do governo.

    AÇO AMERICANO VERSUS IMPORTADO

    Os preços recordes, entretanto, estão se tornando uma bonança para os produtores de aço. As ações das siderúrgicas americanas subiram 65% desde agosto passado. Uma análise da agência de classificação Fitch mostra que as siderúrgicas americanas tiveram uma margem de lucro de 45% em janeiro. A Nucor espera registrar o maior lucro de todos os tempos no primeiro trimestre.

    A indústria do aço e grupos sindicais no mês passado instaram Biden a manter as tarifas do aço em vigor, chamando-as de “essenciais” para a indústria doméstica. As produtoras de aço estão enfrentando seus próprios custos mais altos após o aumento nos preços da sucata e do minério de ferro.

    Os preços do aço nos EUA estão 68% mais altos do que o preço do mercado global e quase o dobro dos da China, mesmo com os preços na China e na Europa acima de 80% em relação às baixas induzidas pela pandemia.

    A diferença de preço é tão grande que, mesmo com uma tarifa de 25%, seria mais barato importar do que comprar das usinas domésticas. Os Estados Unidos importaram 18% de suas necessidades de aço no ano passado.

    Desafios logísticos, como escassez de contêineres e escasso fornecimento no exterior, estão mantendo as importações sob controle. Mas alguns distribuidores esperam que as importações aumentem até junho, se o mercado doméstico continuar apertado.

    A incerteza sobre as perspectivas tarifárias é um fator que mantém o controle sobre a produção doméstica de aço.

    Angela Reed, executiva da distribuidora de aço Reibus International, de Atlanta, disse que uma revisão esperada das restrições de importação está atrasando um aumento na produção e um aumento nos estoques, já que a redução das restrições provavelmente reduzirá os preços domésticos.

    “(As pessoas) estão tentando se certificar de que não se preocupem com nenhuma das coisas mais caras”, disse Reed.

    Reportagem de Rajesh Kumar Singh; Edição de Andrea Ricci

    https://www.reuters.com/article/us-usa-economy-steel-insight/u-s-manufacturers-grapple-with-steel-shortages-soaring-prices-idUSKBN2AN0YQ

    Questão

    A reportagem descortina uma grande tensão existente no comércio global que acaba se tornando um grande debate no âmbito da OMC. Analise.

    INDÚSTRIA E SEUS FATORES LOCACIONAIS (vídeo e atividades)

    Prof. Luciano Mannarino.

  • Indústria de chips dos EUA pede que administração Biden financie fábricas

    Indústria de chips dos EUA pede que administração Biden financie fábricas

    Pandemia levou a distorção na cadeia produtiva, que paralisou produções da Ford Motor e General Motors

    11.fev.2021 às 15h13

    REUTERS

    Um grupo de empresas de chips dos EUA enviou nesta quinta-feira (11) uma carta ao presidente Joe Biden pedindo “financiamento substancial para incentivos à fabricação de semicondutores” como parte de seus planos de recuperação econômica e infraestrutura.

    Os presidentes-executivos das principais empresas americanas, entre elas Intel, Qualcomm, Micron Technology e Advanced Micro Devices, assinaram a carta.

    Isso ocorre no momento em que uma escassez global de chips paralisou as linhas de fábrica da Ford Motor e General Motors, com executivos das montadoras prevendo perda de bilhões de lucros. O estoque apertado de chips tornou ainda mais difícil para os consumidores comprar consoles de jogos populares, como o Xbox, da Microsoft, e o Playstation, da Sony.

    Linha de produção da montadora de caminhões Mercedes-Benz em São Bernardo do Campo, grande São Paulo – Bruno Santos – 18.mai.2020/Folhapress

    Os chips que faltam são fabricados principalmente em países como Taiwan e Coreia do Sul, que passaram a dominar o setor. A carta, enviada pela Semiconductor Industry Association, dizia que a participação dos Estados Unidos na fabricação de semicondutores caiu de 37% em 1990 para 12% hoje.

    “Isso ocorre principalmente porque os governos de nossos concorrentes globais oferecem incentivos e subsídios significativos para atrair novas instalações de fabricação de semicondutores, enquanto os Estados Unidos não”, disse o grupo.

    O Congresso autorizou no ano passado subsídios para fabricação de chips e pesquisa de semicondutores, mas os parlamentares ainda precisam decidir quanto financiamento fornecer. O grupo de chips dos EUA instou Biden a fornecer esse financiamento na forma de doações ou créditos fiscais.

    “Trabalhando com o Congresso, sua administração agora tem uma oportunidade histórica de financiar essas iniciativas para torná-las realidade”, escreveu o grupo. “Acreditamos que uma ação ousada é necessária para enfrentar os desafios que enfrentamos. Os custos da inação são altos.

    https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2021/02/industria-de-chips-dos-eua-pede-que-administracao-biden-financie-fabricas.shtml

    INDÚSTRIA E SEUS FATORES LOCACIONAIS (vídeo e atividades)

  • Antártica: O Continente dos Extremos

    Antártica: O Continente dos Extremos

    Excelente documentário sobre a Antártica.

    História, Geopolítica e a Biogeografia foram trabalhados de maneira didática o que permite uma ampla utilização em diversos ramos do conhecimento.

    Bom material para Ensino Fundamental e Médio.

    Nova estação antártica brasileira será inaugurada oito anos após o incêndio (atividade)

  • Rússia, China e Índia lideram projeção geopolítica com a vacina (atividade)

    Rússia, China e Índia lideram projeção geopolítica com a vacina (atividade)


    Países mais ricos, por sua vez, buscam imunizar suas populações para reativar economia

    3.fev.2021 às 23h15

    Igor Gielow

    SÃO PAULO

    Enquanto EUA e Europa tentam imunizar suas populações mais rapidamente do que cresce a taxa de mutações do novo coronavírus, Rússia, China e Índia apostam na projeção geopolítica da vacina.

    As três potências, que integram o moribundo grupo Brics com Brasil e África do Sul, têm feito movimentos de expansão de sua influência a partir da oferta de imunizantes, em especial a países em desenvolvimento.

    Enfermeira boliviana recebe dose da Sputnik V russa em hospital de La Paz
    Enfermeira boliviana recebe dose da Sputnik V russa em hospital de La Paz – Jorge Bernal/AFP

    Os russos tiveram uma semana de boas notícias, com sua contestada Sputnik V sendo chancelada pela comunidade científica a partir da publicação de seus dados preliminares de fase 3 na prestigiosa revista britânica The Lancet.

    Isso abriu as portas para a chanceler alemã, Angela Merkel, dizer que se o imunizante for aprovado para uso na Europa, ela ajudaria Vladimir Putin a fazê-lo na Alemanha —resolvendo um dos gargalos da Sputnik V.

    Além disso, a aprovação para uso emergencial e fabricação no Brasil avançaram consideravelmente. Nesta quarta (3), México e Nicarágua elevaram para 18 os países que já deram aval para a vacina, 6 deles na América Latina.

    Para Putin, o prestígio é peça central, ainda mais no momento em que a pressão ocidental acerca da prisão do opositor Alexei Navalni cresce exponencialmente.

    De quebra, alguns negócios típicos dos russos podem avançar ao mesmo tempo.

    Na Argentina, que vacinou 0,88% de sua população desde a virada do ano com a Sputnik V, o embaixador da Rússia ofertou, segundo relatos, a venda de caças Su-30 ou MiG-29 para a Força Aérea local, que voa em estado miserável.

    Na mão inversa, compradores recente de caças russos como Egito e Argélia usaram os canais azeitados para receber o fármaco de Moscou.

    FRANÇA - Enfermeira injeta uma dose da vacina Pfizer-BioNTech Covid-19 em um membro da equipe médica de Hospital na cidade de Lyon
    FRANÇA – Enfermeira injeta uma dose da vacina Pfizer-BioNTech Covid-19 em um membro da equipe médica de Hospital na cidade de Lyon Jeff Pachoud/AFP

    Na quarta, desembarcaram na África do Sul 1 milhão de doses da vacina indiana Covishield, a versão sob licença do fármaco da AstraZeneca/Universidade de Oxford.

    Embora ela seja entregue pelo consórcio da Organização Mundial da Saúde Covax, que ajuda países mais pobres, é uma bandeira fincada pelo maior produtor de vacinas do mundo no continente mais desprezado pelos fabricantes.

    Com isso, Nova Déli entra na disputa com o maior ator externo na África, Pequim.

    O presidente Xi Jinping já prometeu ajudar 38 países com dificuldades na pandemia, com foco no continente, para o qual destinou US$ 2 bilhões para imunizantes.

    A África do Sul, onde uma nova variante mais transmissível do Sars-CoV-2 assusta cientistas, encomendou 12 milhões de doses ao consórcio.

    Vai precisar de mais: isso supre menos de 10% de sua população, lembrando sempre que são vacinas que necessitam de duas inoculações.

    Segundo a União Africana, os países da região já reservaram 400 milhões de doses na Índia, ante 270 milhões de farmacêuticas ocidentais. O Covax deverá entregar 700 milhões, de diversos produtores.​

    Também nesta quarta a China aplicou um golpe contra os indianos, rivais econômicos com quem quase foram às vias de fato em uma escaramuça fronteiriça em 2020.

    Pequim anunciou a entrega de lotes doados de vacinas chinesas para o Paquistão, seu aliado e maior inimigo da Índia, que já era cliente da estatal Sinopharm.

    As atitudes desses colegas de Brics contrastam com a estratégia de países ricos, de assegurar para si o maior número de doses possível.

    Há lógica geopolítica também: eles precisam conter a pandemia para reativar fluxos econômicos e manter estabilidade social, tão importantes quanto influência externa.

    Segundo o monitor de contratos para entrega de vacinas da agência Bloomberg, que conta 110 acordos oficiais, nada menos do que 40% dos 8,57 bilhões de doses negociadas estão nas mãos de EUA, União Europeia, Reino Unido, Japão e Canadá, que somam 13% da população mundial.

    Os canadenses reservaram uma cobertura vacinal três vezes maior do que a necessária.

    Os dados são só referências. Há vacinas com problemas crescentes de aceitação, inclusive a campeã de contratos (3 bilhões de doses), a da AstraZeneca/Universidade de Oxford.

    Índia começa a vacinação contra a Covid-19

    Indiana tem seu dedo marcado para registrar que já foi vacinada contra a Covid em hospital de Hyderabad
    Indiana tem seu dedo marcado para registrar que já foi vacinada contra a Covid em hospital de Hyderabad Noah Seelam/AFP

    Além isso, não há informações confiáveis acerca de quantas vacinas estarão disponíveis para China e Índia, os dois países mais populosos do mundo, com 1,44 bilhão e 1,38 bilhão, respectivamente.

    A Índia quer vacinar 300 milhões até agosto. Até aqui, só inoculou 0,29% da população.

    Mas o país, que produz 60% das vacinas do mundo, será uma grande fábrica de imunizantes ocidentais vendidos para terceiros, também.

    Já a China, que usa três de suas vacinas no programa emergencial desde julho passado, também está empenhada em parcerias externas.

    Um dos casos mais conhecidos é o da Coronavac, feita em parceria com o Butantan e cuja disponibilidade forçou o até então negacionista Jair Bolsonaro a adotá-la.

    Esses são efeitos secundários dessa disputa geopolítica: sob risco de ficar sem insumos chineses, Bolsonaro mudou sua postura crítica à ditadura chinesa e até deve aceitar a presença da Huawei como fornecedora de redes 5G.

    Mas tanto no caso chinês como no indiano, há considerações de política interna a fazer, como o episódio em que Nova Déli segurou uma carga de 2 milhões de doses para o Brasil da vacina de Oxford no começo de sua campanha.

    Outro ponto é de imagem: a China controlou a pandemia de forma eficaz, antes da vacina, enquanto os EUA caíram no caos e lideram o ranking da tragédia.

    Mas os americanos estão vacinando em alta velocidade relativa: 10% dos moradores já receberam ao menos uma dose, e 2%, duas. A China, até por ser quatro vezes mais populosa, só vacinou 1,7%.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/02/russia-china-e-india-lideram-projecao-geopolitica-com-a-vacina.shtml

    Questões

    Por que o segundo parágrafo menciona a expressão moribundo quando se refere ao BRICS?

    Qual o litígio de fronteira foi motivo do aumento da tensão entre chineses e indianos em 2020?

    A dependência de insumos chineses para produção de vacinas no Brasil tornou nossa política externa mais pragmática.? Justifique.

    Coreias do Norte e do Sul restabelecem comunicação encerrada há dois meses

    Cercado, Japão se afasta do pacifismo e acelera uso de armas ofensivas. (atividade)

    Prof Luciano Mannarino