Categoria: Migração

  • Haitianos em desespero veem EUA dobrarem esforços para deportar imigrantes

    Haitianos em desespero veem EUA dobrarem esforços para deportar imigrantes

    Governo Biden expulsa centenas por dia; de volta a um país em múltiplas crises, deportados têm poucas perspectivas

    22.set.2021 às 9h57Atualizado: 22.set.2021 às 19h43

    BAURU (SP)

    Enquanto os Estados Unidos se preparam para quase dobrar o volume de deportações em meio a um novo revés para o governo de Joe Biden, imigrantes haitianos entram em desespero ao serem forçados a voltar ao país mais pobre das Américas, envolto em múltiplas crises.

    No domingo (19) e na segunda-feira (20), centenas de migrantes foram expulsos do território americano em três voos para Porto Príncipe. Nesta terça (21), estavam programados mais quatro voos e, para os próximos dias, há a expectativa de até sete voos diários com destino à capital haitiana e a Cap-Haitien, a segunda maior cidade do país.

    Parte dos haitianos expulsos protagonizou cenas de pânico após desembarcar no aeroporto de Porto Príncipe. Um grupo de homens correu de volta em direção ao avião, e pelo menos um deles tentou voltar a bordo — obviamente, sem sucesso.

    Recém-chegados ao seu país de origem, esses grupos recebem uma pequena quantia em dinheiro, kits básicos de higiene e uma rápida avaliação médica. São, então, deixados à própria sorte.

    Imigrantes sob ponte na fronteira entre EUA e México em Del Rio, no Texas
    Imigrantes sob ponte na fronteira entre EUA e México em Del Rio, no Texas – John Moore – 21.set.21/Getty Images/AFP

    “Atravessamos nove países. No caminho, vimos muitos mortos. Dormimos na selva. E agora, terminou”, disse Belton (nome fictício) à agência de notícias AFP, acompanhado da esposa e de um filho de dois anos, em Porto Príncipe. A família suspira, sem ter a menor ideia do que fará para sobreviver.

    O governo do Haiti não tem “nem o costume nem a logística necessária” para lidar com o volume de migrantes, afirma o economista Etzer Emile. “Mas o pior é que não é prioritário para as autoridades. A prioridade é a divisão do bolo governamental para a próxima reorganização do gabinete de ministros”, diz, em referência ao premiê Ariel Henry, que assumiu o comando do país após o assassinato do presidente Jovenel Moïse — crime no qual o próprio Henry é suspeito de envolvimento.

    Ao jornal americano The Washington Post o chefe do escritório de migração do Haiti, Jean Negot Bonheur Delva, admitiu que o governo “não tinha os meios” para fornecer moradia ou outro tipo de assistência aos recém-chegados.

    “A precariedade e a insegurança vão aumentar exponencialmente. É uma crise a mais”, disse Delva, acrescentando que pediu, no nível individual, uma moratória nos voos de deportação americanos, mas que não sabia se o governo de Henry havia feito algum pedido oficial nesse sentido.

    Nos EUA, o governo Biden enfrenta uma pressão crescente. Quase 10 mil migrantes, principalmente haitianos, permanecem em condições cada vez piores no campo improvisado sob uma ponte que atravessa o rio da cidade de Del Rio, no estado do Texas, até Ciudad Acuña, no México. Autoridades americanas retiraram pelo menos 4.000 pessoas do local nos últimos dias para processamento em centros de detenção.

    Mesmo membros do Partido Democrata fizeram críticas à gestão da crise. Chuck Schumer, líder da maioria democrata no Senado, disse que a expulsão de imigrantes para o Haiti “desafia o bom senso” e expressou indignação com as táticas usadas pelos agentes de fronteira para controlar as multidões — no início da semana, oficiais montados a cavalo foram flagrados usando rédeas para ameaçar migrantes haitianos próximo à fronteira.

    A cavalo, agente de fronteira persegue migrantes que retornavam aos EUA após comprar comida no México
    A cavalo, agente de fronteira persegue migrantes que retornavam aos EUA após comprar comida no México Daniel Becerril/ReutersMAIS 

    A vice-presidente Kamala Harris descreveu a situação como complexa e disse que os EUA precisam “fazer muito mais” para atender às necessidades básicas da população do Haiti. “As pessoas querem ficar em casa, não querem sair, mas vão embora quando não podem satisfazer suas necessidades básicas.”

    Políticos republicanos, de olho nas eleições de meio de mandato em 2022, quando esperam retomar o controle do Congresso, foram ágeis em atribuir a responsabilidade pela crise no campo improvisado no Texas à pressão dos democratas para afrouxar algumas restrições à migração impostas durante o governo de Donald Trump.

    Em meio a esse cenário, uma das hipóteses aventadas pelos americanos é pedir auxílio para países como Brasil e Chile para receber parte dos migrantes haitianos. O tema foi tratado em reunião entre o secretário de Estado, Antony Blinken, e o chanceler brasileiro, Carlos França, após a Assembleia-Geral da ONU.

    No último fim de semana, o acampamento chegou a atingir o pico de 14 mil pessoas, segundo o Acnur, a agência da ONU para refugiados. Nesta terça, grupos no lado americano do rio ocuparam uma área de floresta, e algumas famílias construíram barracas improvisadas com galhos e folhas. Os relatos são de que a comida é escassa e que não há banheiros suficientes para todos.

    Do lado mexicano, o acampamento também tem crescido, e os migrantes têm recebido assistência de grupos como Cruz Vermelha e Médicos Sem Fronteiras, além de moradores de Ciudad Acuña.

    Imigrante haitiano dá banho em seu filho em acampamento improvisado em Del Rio, no Texas
    Imigrante haitiano dá banho em seu filho em acampamento improvisado em Del Rio, no Texas John Moore/Getty Images – 21.set.21/AFPMAIS

    Em entrevista à Reuters, Surreane Petit disse que ficar no México foi uma grande melhoria em comparação com o lado americano do campo. “Aqui o povo mexicano está ajudando muito. Lá estávamos com fome. Debaixo da ponte não havia ajuda, nenhuma ajuda.”

    Acompanhada do filho de três anos de idade, ela contou ter vivido os últimos cinco anos no Chile, mas que decidiu ir embora depois que os efeitos da pandemia no país a deixaram desempregada.

    Apesar do risco de ser deportado para o Haiti a qualquer momento, Carly Pierre, outro migrante, disse que ficou no acampamento, depois de vários anos morando no Brasil, porque ainda tem esperanças de entrar nos EUA junto com a esposa e dois filhos, de 3 e 5 anos.

    “Há os deportados e há as pessoas que vão conseguir entrar”, disse Pierre, com a roupa ainda molhada por ter atravessado o rio para comprar um refrigerante no lado mexicano.

    A expectativa não é completamente infundada. Segundo dois funcionários do governo Biden que falaram em anonimato à agência Associated Press, parte dos ocupantes do acampamento improvisado tem sido liberada em território americano sob a condição de comparecer a um escritório de imigração em 60 dias.

    A quantidade de pessoas liberadas nesses termos, assim como os critérios para esse tipo de prática, ainda não estão claros, mas, de acordo com os entrevistados, adultos solteiros são alvos preferenciais dos voos de deportação.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/09/haitianos-em-desespero-veem-eua-dobrarem-esforcos-para-deportar-imigrantes.shtml

    Questão

    1 Aponte fatores que tornam o Haiti um país de emigrantes.

    2 A questão dos imigrantes haitianos tem reflexos na disputa eleitoral nos EUA? Justifique.

    3 O que foi a MINUSTAH? Ela cumpriu plenamente seus objetivos?

    Formulário de Inscrição!!!!

    Prof Luciano Mannarino.

  • O aumento da migração extracontinental na América Latina

    O aumento da migração extracontinental na América Latina

    Não são poucos os que se instalam pelo esgotamento dos seus recursos ou como consequência de um processo de expulsão

    27.ago.2021 às 10h00

    Luisa Feline Freier

    A migração de pessoas de outros continentes –especialmente da África e da Ásia– mas também do Caribe é um fenômeno crescente na América Latina. E embora a maioria deles vá inicialmente para os Estados Unidos ou Canadá, não são poucos os que se instalam num país latino-americano, seja por opção, por necessidade devido ao esgotamento dos seus recursos, ou como consequência de um processo de expulsão.

    POR QUE E COMO CHEGAM OS MIGRANTES EXTRACONTINENTAIS À AMÉRICA LATINA?

    A migração extracontinental na América Latina é um fluxo misto, uma vez que migrantes com motivações diferentes convergem dentro do mesmo grupo. Em alguns casos, especialmente entre os migrantes subsaarianos e do Médio Oriente, as principais razões são a perseguição e a violência. Enquanto que aqueles que deixam os seus países por razões econômicas ou devido a catástrofes naturais vêm principalmente de países do Sul da Ásia e do Haiti. Mas existem outras razões para a migração extracontinental, tais como o reagrupamento familiar.

    A chegada à América Latina explica-se principalmente por fatores políticos, uma vez que, geograficamente, a Europa seria um destino mais próximo. Mas durante a primeira década do século 21, dois fenômenos notáveis ocorreram quase em paralelo: o aumento das restrições à entrada na Europa e a flexibilização dos requisitos de entrada na América Latina. Em particular, alguns países latino-americanos com governos de esquerda como a Argentina sob Néstor Kirchner (2003-2007), Equador sob Rafael Correa (2007-2017) e Brasil sob Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) relaxaram as suas políticas de migração, especialmente as políticas de vistos, e promoveram um discurso oficial centrado nos direitos humanos dos migrantes. Estas medidas de abertura, embora temporárias na maioria dos casos, revelaram-se atrativas para a população migrante extracontinental. Uma vez estabelecidos, os fluxos de pessoas de fora da região aumentaram de forma constante.

    As rotas de migração vão de sul à norte. Começam na América do Sul, onde migrantes extracontinentais entram através de países com requisitos de vistos menos exigentes, como o Equador ou o Brasil. Continuam para a América Central através da região de Darién, uma área florestal e de alto risco entre a Colômbia e o Panamá. Embora não existam estatísticas semelhantes às das mortes de migrantes no Mediterrâneo, estima-se que o Darién é uma das rotas migratórias mais perigosas do mundo, pois é uma selva espessa, com geografia hostil e a presença de grupos armados, o que também interrompe a rota da rodovia Pan-Americana. De acordo com a Unicef, o número de crianças que atravessam o Darién quintuplicou nos últimos cinco anos.

    Barraca com produtos da arte africana na feira do imigrante, ao lado da estação Santa Cruz da linha 5-lilás
    Barraca com produtos da arte africana na feira do imigrante, ao lado da estação Santa Cruz da linha 5-lilás li/Eduardo Anizelli/Folhapress

    Por fim, os migrantes fazem o seu percurso através da América Central e México para os Estados Unidos e Canadá. Esta longa e dispendiosa viagem é muitas vezes feita com a ajuda de contatos, sejam contrabandistas ou outros migrantes que conhecem a rota. É também comum alternar entre meios de transporte terrestres e aquáticos, tais como autocarros, carros particulares e barcos, ou viajar a pé. Toda a viagem pode demorar vários meses ou mesmo anos.

    QUE DESAFIOS ENFRENTAM OS MIGRANTES?

    Ao longo da viagem, os migrantes enfrentam uma série de desafios, tais como naufrágios, problemas de saúde causados pela exposição a condições meteorológicas extremas, e fraudes de contrabandistas durante o percurso. Além disso, a superlotação, a hostilidade das autoridades públicas e o colapso de alguns serviços nas zonas fronteiriças complicam ainda mais a situação dos migrantes.

    Como exemplo, entre fevereiro e março de 2021, centenas de migrantes africanos e haitianos que fugiam da crise sanitária e econômica no Brasil ficaram presos na Ponte de Integração na fronteira entre o Brasil e o Peru. Durante várias semanas, enfrentaram a fome, condições de higiene inadequadas, tratamento hostil por parte da polícia e a separação de algumas famílias.

    Entretanto, no final de Julho de 2021, mais de dez mil migrantes africanos, asiáticos e haitianos ficaram retidos na cidade de Necocli, no norte da Colômbia, à espera de transporte para o Panamá. Diante do colapso da cidade, sobrecarregada com alojamento, água e serviços de limpeza, o governo municipal declarou um estado de calamidade pública.

    A primeira barreira enfrentada pelos migrantes de fora do continente ao chegar aos países de trânsito ou de destino é frequentemente a regularização da sua estadia. O cruzamento irregular das fronteiras muitas vezes fecha as portas para uma posterior regularização. E quando decidem candidatar-se ao estatuto de refugiado, a taxa de respostas favoráveis aos seus pedidos é frequentemente baixa.

    Na Argentina, por exemplo, venezuelanos, senegaleses, cubanos, haitianos e dominicanos estão no topo da lista em termos do número de pedidos de refugiados. No entanto, entre 2016 e 2020, apenas 10 das 1.267 candidaturas de haitianos, 11 das 885 candidaturas de cubanos e nenhuma das 705 candidaturas de dominicanos foram aprovadas.

    As detenções e expulsões na América do Norte são a última grande preocupação dos migrantes em sua travessia. Camarões, a República Democrática do Congo e a Eritreia foram os três principais países africanos cujos nacionais foram detidos no México em 2018. E durante os últimos cinco anos, pessoas de mais de oitenta países africanos e asiáticos foram presas nos Estados Unidos depois de entrarem no país através do México.

    Além disso, as condições de vida nos centros de detenção do México são altamente questionáveis. As organizações de direitos humanos denunciaram a superlotação, os maus tratos e a falta de cuidados médicos. Um caso emblemático foi a morte do migrante haitiano Maxene Andre no Centro de Detenção de Migrantes Siglo 21; passaram-se dois anos desde então e o seu corpo ainda não foi entregue à sua família, nem as circunstâncias da sua morte foram totalmente esclarecidas.

    Ativistas da ONG SOS Mediterrâneo fazem protesto em Marselhas, na França
    Ativistas da ONG SOS Mediterrâneo fazem protesto em Marselhas, na França Clement Mahoudeau – 24.ago.2020/AFP

    Quando os migrantes chegam finalmente ao seu destino ou decidem instalar-se num país de trânsito, mesmo nos casos em que a regularização migratória é conquistada, enfrentam barreiras à sua inserção laboral e social. Muitos acabam em empregos informais e sazonais, tais como venda ambulante em tendas e praias na Argentina, ou com contratos temporários em fábricas no Brasil. Além disso, enfrentam dificuldades linguísticas no caso da população de língua não espanhola, e discriminação racial no caso da população afrodescendente.

    Em conclusão, é de salientar que este é um processo relativamente pouco estudado e de difícil mensuração, uma vez que representa frequentemente fluxos migratórios mistos e irregulares, especialmente durante a pandemia de Covid-19. Neste contexto, sob a perspectiva das políticas públicas, é necessário compreender não só os desafios que os migrantes extracontinentais enfrentam nos seus processos de trânsito, mas também no interior dos países de acolhimento.

    Professora do Departamento Acadêmico de Ciências Sociais e Políticas da Universidad del Pacífico do Peru e pesquisadora da CIUP. Doutora em ciência política pela London School of Economics and Political Science, LSE (Inglaterra).Soledad Castillo Jara

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/latinoamerica21/2021/08/o-aumento-da-migracao-extracontinental-na-america-latina.shtml

    Prof Luciano Mannarino

  • Juventude e fronteiras no Mercosul

    Juventude e fronteiras no Mercosul

    A transição para a vida adulta para os que vivem nas áreas fronteriças é particularmente complexa

    24.jun.2021 às 9h30

    Nahuel Oddone – Doutor em estudos internacionais (UPV/EHU) e chefe de Promoção e Intercâmbio de Políticas Sociais no Instituto Social do Mercosul (ISM)

    Em 2019, mais de 60 milhões de adolescentes e jovens de 10 a 24 anos viviam nos Estados membros do Mercosul, de acordo com estatísticas da Divisão de População das Nações Unidas.

    Na Argentina representavam 23,5%; no Brasil, 23,2%; no Paraguai, 28,5%; no Uruguai, 21,6%.

    Entretanto, nas localidades fronteiriças mais povoadas, essa média é significativamente maior, devido a uma colonização tardia do território, como no caso de Ciudad del Este (Paraguai), ou devido à atração da migração interna ou internacional, como em Foz de Iguaçu.

    A América Latina e o Caribe estão passando por um processo de transição demográfica acelerado.

    E, apesar dos diferentes estágios demográficos que os países da região estão experimentando, a região ainda tem uma janela de oportunidade conhecida como o “bônus demográfico”.

    DESAFIOS E OPORTUNIDADES

    A dimensão da fronteira é sem dúvida uma variável chave que influencia as condições e oportunidades de desenvolvimento para adolescentes e jovens.

    A transição para a vida adulta para aqueles que vivem nessas áreas é particularmente complexa.

    Em algumas áreas, foi detectada uma série de problemas sociais decorrentes da reprodução precoce, do abandono escolar e da dificuldade de acesso ao emprego, que muitas vezes ocorre no contexto de uma economia informal e, às vezes, ilícita.

    Todos esses fatores contribuem para perpetuar a transmissão intergeracional da pobreza e limitar as oportunidades de desenvolvimento.

    A falta de acesso a serviços básicos como saúde, educação e trabalho tem um impacto no bem-estar pessoal e coletivo e afeta os processos decisórios individuais.

    Na medida em que adolescentes e jovens aumentam sua autonomia progressiva e conseguem plena integração social, eles terão melhores condições para alcançar seu pleno potencial.

    Vila Thomaz Albornoz, território brasileiro reivindicado pelo Uruguai
    Vila Thomaz Albornoz, território brasileiro reivindicado pelo Uruguai Fábio Zanini/Folhapress
    A NECESSIDADE DE POLÍTICAS PÚBLICAS FOCALIZADAS

    Nesse contexto, há quatro fatores que demonstram a necessidade do desenho de políticas focalizadas que levem em conta o território fronteiriço e o ciclo de vida das pessoas que ali vivem.

    Primeiro, a cobertura de saúde de adolescentes e jovens é menor, com maior precariedade em comparação com as crianças ou com as pessoas idosas.

    Da mesma forma, aqueles jovens que tiveram cobertura de saúde por meio de seus pais tendem a perdê-la após os 18 anos de idade.

    Em segundo lugar, o abandono escolar tende a ser maior nos últimos anos do ensino médio, porque os jovens começam a trabalhar ou a ajudar em novas tarefas. Aqueles que conseguem terminar o ensino médio enfrentam maiores desafios para entrar na universidade.

    Há poucos (ou nenhum) programas que acompanhem a transição do ensino médio para a universidade.

    Enquanto na faixa etária de 15 a19 anos nas cidades fronteiriças de Posadas (Argentina), Encarnación (Paraguai), Santana do Livramento, Rivera (Uruguai), Concordia (Argentina) e Ciudad del Este (Paraguai) mais de 70% frequentam um estabelecimento de ensino, na faixa etária de 20 a 24 anos em quase todos os casos fica abaixo de 50%.

    Em terceiro lugar, há uma maior informalidade econômica.

    Na América Latina, a informalidade é de 54%, em média, segundo a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) e a OIT (Organização Internacional do Trabalho), mas essa porcentagem tende a aumentar substancialmente à medida que nos aproximamos das fronteiras.

    A atração de uma parte importante da força de trabalho jovem para empregos precários tem duas consequências principais.

    Por um lado, as pessoas que entram na economia informal tendem a permanecer nela, afetando a solidariedade dos sistemas de proteção social.

    Por outro lado, os homens jovens tendem a migrar da informalidade para a ilegalidade.

    Como consequência, há uma alta exposição de jovens fronteiriços a fazer parte de redes de contrabando e tráfico.

    Em quarto lugar, a população de mulheres na faixa etária de 20 a 24 anos que não estudam nem trabalham nas maiores cidades fronteiriças do Mercosul é significativa, chegando a 38,6% em Rivera. Na faixa etária seguinte, 25 a 29 anos, porcentagens semelhantes são observadas.

    As pesquisas sobre o “uso do tempo” geralmente escondem a carga de cuidados que as mulheres assumem dentro do lar (trabalho não remunerado), seja o cuidado de irmãos mais novos ou crianças, ou tarefas de limpeza doméstica, entre outros, afetando o desenvolvimento de seus projetos pessoais.

    Indígena da etnia pemón foge em trilha de mata para o Brasil carregando os filhos gêmeos
    Indígena da etnia pemón foge em trilha de mata para o Brasil carregando os filhos gêmeos Fabiano Maisonnave/Folhapress
    OS EFEITOS DA PANDEMIA

    A pandemia de Covid-19 teve um forte impacto nas fronteiras. O fechamento truncou a dinâmica social e o uso de serviços transfronteiriços.

    Além do fato de que o impacto tem sido diferencial por cidade, a incerteza tem “congelado” projetos de natureza mais individual.

    Os desafios impostos pela pandemia aumentaram a necessidade de maior investimento social, coordenação das ações nas fronteiras e garantia de coesão social a fim de contribuir para superar a interseccionalidade das lacunas que afetam suas populações.

    Dentro dessa estrutura, é provável que as mulheres jovens enfrentem novos desafios para conseguir uma maior e melhor participação na reativação econômica pós-Covid-19.

    Por isso, são necessárias intervenções específicas para garantir sua participação em programas de treinamento profissional e empreendedorismo, bem como a criação de novos espaços de cuidados que permitirão que mais mulheres com crianças se juntem à força de trabalho formal.

    Além das dificuldades envolvidas em habitar esses espaços, a dimensão da fronteira é uma oportunidade.

    A identidade fronteiriça de adolescentes e jovens é um valor diferencial que permite gerar projetos de vida intercultural mais associativos e respeitosos da diversidade.

    É também uma oportunidade para implementar novas formas de participação e inovação social que fortalecem sua capacidade de influenciar a agenda pública.

    O desenvolvimento de uma cidadania no Mercosul que realce o papel da juventude fronteiriça é fundamental para a sustentabilidade da integração regional.

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    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/latinoamerica21/2021/06/juventude-e-fronteiras-no-mercosul.shtml

    Questões

    1 O que seria o “bônus demográfico”? Cite um aspecto positivo ligado a ele.

    2. O que são “cidades gêmeas” ? Baseado no texto, aponte um exemplo.

    3 Explique a criação do Mercosul.

    4. Quais seriam as políticas públicas focalizadas que atenderiam as demandas da população jovem que vivem no território fronteiriço do Mercosul?

    4. Faça uma pequeno resumo (cinco linhas) sobre os aspectos que o texto aborda.

    América do Sul: um espaço migratório regional ‘quase perfeito

    Em cúpula, Lacalle Pou defende Mercosul sem alinhamento com EUA ou China..

    Prof Luciano Mannarino

  • As pontes do Acre existem e unirão a região mais dinâmica do Brasil ao Pacífico

    As pontes do Acre existem e unirão a região mais dinâmica do Brasil ao Pacífico

    Obra conectará a capital do Acre a outras capitais sem a necessidade de balsa

    7.mai.2021 às 10h57

    Pedro Silva Barros

    É economista. Trabalha no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea (Brasília). Foi Diretor de Assuntos Econômicos da União de Nações Sul-Americanas (Unasul). Doutor em Integração Latino-Americana pela USP.

    O Acre foi a última grande expansão territorial do Brasil. Comprado da Bolívia no início do século 20, faz fronteira também com o Peru. Nos últimos anos, foi comum em diferentes regiões do Brasil, a expressão “o Acre não existe”. Convertida em piadas e memes, refletia de forma pejorativa sua pequena população, economia de baixa complexidade, infraestrutura deficiente e, sobretudo, a ignorância de regiões decadentes que tem dificuldade de conhecer o próprio país.

    As notícias do Acre para o grande público brasileiro nos últimos anos se resumiram às suas constantes inundações e a nova rota de migração. Ambos os fenômenos têm relação direta com as pontes do estado, que terão novo protagonismo devido à profunda mudança geoeconômica que o Brasil está passando.

    Nesta sexta-feira (7) será inaugurada pelo presidente Bolsonaro a ponte do Abunã, em Rondônia. A obra de 1,9 km sobre o rio Madeira conectará pela primeira vez a capital do Acre a outras capitais do país sem a necessidade de balsa.

    Ponte do Madeira, na região do Abunã, em Rondônia, que liga o Acre por estrada – Pedro Devani / Secom

    A decisão de construí-la foi da presidenta Dilma Rousseff em 2014, durante uma cheia que deixou Rio Branco, capital do Acre, isolada das demais capitais do Brasil por 90 dias. A crítica situação para os acrianos naquele momento foi amenizada pelas pontes de Epitaciolândia e Assis Brasil. Inauguradas em 2004 e 2006, ligaram o Acre à Bolívia e ao Peru, respectivamente. Essas pontes construídas no governo Lula juntas com a pavimentação da BR-317 até Assis Brasil, realizada no governo Fernando Henrique Cardoso, garantiram o fornecimento de combustível peruano e alimentos bolivianos para os acreanos.

    DO SONHO À DESILUSÃO EM UMA DÉCADA

    Também foi o caminho para milhares de haitianos que migraram para o Brasil após o terremoto de Porto Príncipe em 2010. Eles chagavam depois de longas viagens. Partiam por via aérea para o Equador, com escala no Panamá. Depois seguiam por terra pelo Peru para ingressarem no Brasil via Acre. A avançada política migratória equatoriana e o bom desempenho econômico do Brasil tornavam essa rota atraente. Em 14 fevereiro de 2021, os estrangeiros na ponte binacional entre Assis Brasil e Iñapari foram novamente notícia.

    Quatrocentos deles, em sua maioria haitianos, mas também oriundos de países da costa oeste africana e de países indostânicos, que vieram de diferentes estados brasileiros após estadia de períodos variados no país. Devido à restrição de entrada de estrangeiros no Peru, em decorrência da pandemia da Covid-19, os migrantes foram impedidos de ingressar no país vizinho, a fim de continuar seus projetos migratórios. Bloquearam a ponte por vários dias. Deixaram o Brasil sem ver inaugurada a ponte do Abunã. Talvez pela desilusão com a crise de saúde pública ou o aumento do desemprego.

    Faltava pouco. No final do governo Michel Temer, em dezembro de 2018, 85% da ponte do Abunã já estava pronta e a expectativa era que a inauguração fosse em agosto de 2019. Após atrasos, aditivos e alguns adiamentos, e 117 anos depois do Tratado de Petrópolis que formalizou o acordo entre Brasil e Bolívia para que o Acre formasse parte do território brasileiro, este estado estará interconectado por estradas ao Atlântico. Tão importante quanto, Rondônia, sul do Amazonas e noroeste de Mato Grosso terão um caminho totalmente pavimentado ao Pacífico.

     Cheia do Rio Tarauacá, na cidade que leva o mesmo nome, no Acre
    Cheia do Rio Tarauacá, na cidade que leva o mesmo nome, no Acre Rafael Dias


    MARCHA PARA OESTE

    O Brasil caminha para Oeste na economia, na demografia e principalmente nas exportações. A atual fase dessa marcha é consequência do abandono industrial interno e da transição do centro dinâmico da economia mundial do Atlântico Norte à Ásia-Pacífico.

    Ao se isolar politicamente da América do Sul e desmontar o apoio estatal à internacionalização de suas empresas, o Brasil aprofundou a crise de seu setor industrial cambaleado pelo baixo crescimento interno. Não à toa, Brasil e Argentina foram os dois países cujo setor industrial mais perdeu peso relativo no mundo nos últimos cinco anos. O futuro produtivo do país parece não estar mais concentrado no Atlântico.

    Entre 2000 e 2010 todas as regiões do Brasil cresceram e as exportações per capita nominais se multiplicaram por mais de três, passando de US$ 324 para US$ 1.051. Em 2020, as exportações per capita do conjunto do Brasil haviam recuado para US$ 988. Mas o comportamento entre os estados é muito discrepante. São Paulo, líder em exportações industriais, exportava US$ 19 bilhões em 2000, atingiu US$ 59 bilhões em 2011 e regrediu a US$ 42 bilhões em 2020. Já Mato Grosso exportou US$ 1 bilhão em 2000 e US$ 18 bilhões em 2020, aumentando suas vendas externas concentradas no agronegócio ininterruptamente ano após ano.

    Nos últimos 20 anos, o comércio mundial triplicou seu valor nominal em dólares, as exportações da China multiplicaram seu valor por dez e as vendas externas de Mato Grosso aumentaram 18 vezes. Na proporção per capita, um mato-grossense exportou em média US$ 5.170 em 2020 enquanto um chinês exportou US$ 1.799.

    CUSTOS AMBIENTAIS

    A expansão da fronteira agrícola em direção ao norte e oeste veio acompanhada de altos custos ambientais e mudanças logísticas. Mato Grosso só esteve atrás do Pará em desmatamento nos últimos anos e parte significativa da produção agrícola do estado se dá em terras devastadas ilegalmente.

    A dinâmica tem sido desmatamento, aumento da exploração de madeira, seguida do crescimento da produção pecuária e, depois, da expansão das áreas de cultivo de grãos. Esse movimento avança em direção a Rondônia e ao Acre. Em 2000, Rondônia exportava apenas US$ 43 nominais per capita, sendo 90% madeira. Em 2020 foram US$ 764 por rondoniense, 52% só de carnes, 30% de soja e menos de 5% de madeira.

    Mas a saída pelos portos do Atlântico, cada vez mais longe da produção, tira competitividade da carne brasileira. A carne fresca e refrigerada tem um valor médio no mercado mundial 20% superior ao da carne congelada. O Brasil responde sozinho por 19,9% das exportações mundiais de carne congelada, mas apenas por 3,7% das carnes frescas e refrigeradas. As carnes de maior valor da fronteira ocidental brasileira serão muito mais competitivas nos mercados da Ásia-Pacífico se cruzarem os Andes por terra. Não apenas pelo custo, mas principalmente pelo tempo.

    CAMINHO MAIS CURTO

    Por vias pavimentadas, o distrito de Abunã, em Rondônia, está a 1.734 km do porto de Matarani, na costa do Pacífico peruano, e a 3.274 km do porto de Santos ou a 2.784 de Belém, Pará. Já a fronteiriça Assis Brasil, no Acre, está a 1.164 km de Matarani, 3.357 km de Belém e a 3.864 km de Santos. E Matarani está a alguns milhares de milhas náuticas mais próxima do Japão do que Santos ou Belém. Os dias economizados no trajeto pelos portos do Pacífico podem garantir acesso rápido de produtos refrigerados à Ásia, mercado que via Atlântico o Brasil só alcança em commodities e congelados. Para isso é necessário escala e logística.

    A saída pelo Pacífico pode ser o caminho para agregar mais valor às exportações do Centro-Oeste e, principalmente, da Amacro, acrônimo referente à área da que congrega o sul do Amazonas, o leste do Acre e o noroeste de Rondônia, próximos à tríplice fronteira entre Brasil, Bolívia e o Peru. O Acre está prestes a viver uma grande transformação, de magnitude similar a que ocorreu em Mato Grosso e que está em curso em Rondônia. O desafio é aprender rapidamente para evitar as externalidades negativas da expansão agrícola de Mato Grosso e do Matopiba (parte do Maranhão, Tocantins, Piauí e Oeste da Bahia), reforçar o uso organizado e consciente do solo e coibir a devastação ilegal.

    No caso do Matopiba, o conceito surgiu após a realidade econômica se impor com altos custos ambientais e aproveitamento limitado dos benefícios sociais do aumento da produção. Na Amacro é possível definir o modelo de desenvolvimento no início da nova realidade econômica e seu planejamento será mais satisfatório se incluir a conexão com o Pacífico.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/latinoamerica21/2021/05/as-pontes-do-acre-existem-e-unirao-a-regiao-mais-dinamica-do-brasil-ao-pacifico.shtml

    Questão

    1 O que o autor quer dizer quando afirma que o “futuro produtivo parece não estar mais concentrado no Atlântico”?

    2 O que são países indostânicos? Explique

    3 De que forma a pauta de exportação do Estado de Rondônia entre 2000 e 2020 caracteriza o avanço da fronteira agropecuária na região?

    4 A saída pelo pacífico vai agregar valor as nossas exportações no setor agropecuário? Justifique.

    5 Estabeleça diferenças entre a Amacro e a Matopiba!!

    ACRE. UMA BREVE HISTÓRIA

    NO AGRONEGÓCIO, PRESERVAÇÃO E PRODUÇÃO DEVEM ANDAR JUNTAS

    Prof Luciano Mannarino

  • Enviar arroz à África nunca vai conter a migração para a Europa, diz escritor de Gana

    Enviar arroz à África nunca vai conter a migração para a Europa, diz escritor de Gana

    Ousman Umar defende ampliar acesso digital aos jovens para resolver pobreza e conter deslocamentos

    10.abr.2021 às 23h15

    Rafael Balago

    SÃO PAULO

    Para o escritor e ativista Ousman Umar, o caminho para tirar a África da pobreza passa por empoderar os jovens, e não por doar toneladas de arroz e comida.

    Ele criou a Nasco Feeding Minds, ONG que busca ampliar o acesso dos jovens em Gana ao mundo digital, para que eles aprendam e pensem formas de melhorar a África. A educação também é caminho para evitar que eles caiam nas promessas de traficantes que tentam convencê-los a tentar ir para a Europa, em viagens arriscadas que incluem a travessia do deserto e do mar Mediterrâneo em condições precárias.

    O escritor ganês Ousman Umar, autor de "Viagem ao País dos Brancos"
    O escritor ganês Ousman Umar – Divulgação

    “Vivi cinco anos infernais tentando chegar à Europa e não quero que ninguém passe mais por isso”, diz Umar. Ele chegou à Espanha em 2005 e lançou dois livros sobre sua vida: “Viaje al País de Los Blancos”, em 2019, sobre sua travessia, e “Desde el País de los Blancos”, lançado no mês passado, no qual conta as dificuldades para se adaptar à Europa.

    Umar, 32, participou do festival virtual Viva Livro, que reuniu autores que escrevem sobre migração, e falou com a Folha por telefone, de Gana. Abaixo, os principais trechos da conversa.

    Como a pandemia tem afetado a migração da África para a Europa? 

    Barcos com imigrantes seguem chegando. Cada vez mais gente quer ir embora, especialmente fugindo de guerras como as da Síria e da Líbia. A situação econômica piorou no mundo inteiro, mas na África piorou mais, porque os países eram mais pobres e já tinham problemas que vinham de muito antes.

    Como está a pandemia em Gana? 

    Em geral, há menos gente contaminada e mortes por coronavírus do que no Ocidente. Estou em Gana agora, e a situação está dez vezes melhor do que em Barcelona. A África viveu muitas outras epidemias recentemente, enquanto a Europa não tinha uma há quase cem anos, então sabe como fazer uma gestão melhor. Há casos em que há uma UTI para cada 1 milhão de habitantes, e, já que não temos como curar, temos que evitar que a enfermidade chegue. Na África, a população é muito mais jovem, e o coronavírus traz mais danos aos maiores de 50 anos, o que também é um fator.

    Quais foram os momentos mais marcantes de sua jornada até a Europa? 

    Com nove anos, deixei meu povoado e fui trabalhar na cidade. Aos 13, comecei uma viagem que passou por oito países da África. Cruzei parte do Saara a pé. Começamos a viagem em 46 pessoas, e só seis chegaram ao final com vida.

    Na Líbia, cheguei sem dinheiro, sem celular e sem falar árabe. Chegava a uma cidade, trabalhava em qualquer coisa, que ninguém queria fazer, para juntar dinheiro e pagar um táxi até o povoado seguinte. Por isso, demorei cinco anos até chegar à Europa. Cinco anos infernais, cruéis. Por isso, decidi que ninguém merece viver o que vivi.

    Fui tentar atravessar o Mediterrâneo em 2005. Traficantes disseram que em 45 minutos chegaríamos ao paraíso. Na primeira tentativa, 180 pessoas morreram. Na segunda, fiquei 48 horas sentado em um barco, sem comer ou beber, sem saber nadar e com a agonia de pensar que poderia morrer a qualquer momento.

    Ao chegar em terra, o grupo corre pela praia e se espalha pelas dunas; a Espanha recebeu nos sete primeiros meses de 2017 17 mil migrantes, o dobro do que tinha recebido no mesmo período do ano passado, segundo o governo.
    Ao chegar em terra, o grupo corre pela praia e se espalha pelas dunas; a Espanha recebeu nos sete primeiros meses de 2017 17 mil migrantes, o dobro do que tinha recebido no mesmo período do ano passado, segundo o governo. Jon Nazca/Reuters

    E como foi depois de chegar à Espanha? 

    Consegui a autorização para poder entrar, mas onde viver? Fiquei dois meses dormindo na rua em Barcelona, sem que ninguém me olhasse na cara. Nem no deserto me senti tão só. Tive a sorte que uma família me acolheu. Na primeira noite que dormi em uma casa, chorei como uma criança. Me perguntava o que eu tinha feito de mal para merecer tanta tortura e crueldade. E aí percebi que tinha dois propósitos: dar voz aos companheiros que não conseguiram chegar com vida [à Europa] e evitar que novos jovens caiam nesta armadilha infernal.

    Como fazer isso? 

    Assumi minha responsabilidade, como se fosse o presidente do meu país. Usei o dinheiro que ganhei como mecânico de bicicletas, juntei com empréstimos e doações de alguns amigos e comprei 45 computadores, em 2012. Contratei dois professores em Gana, que atuavam em duas escolas com aulas para inclusão digital. Hoje atuamos em 30. E sem ajuda de nenhum governo, só de pessoas que ouvem nossa história.

    A caridade não vai mudar a África. Enviar toneladas de arroz não funciona e nunca vai funcionar. Faz-se isso há 60 anos e tudo segue igual. Tem que mudar a estratégia. Nossa ONG alimenta mentes. Chega de pensar só em estômagos. A única maneira de retirar a África da pobreza é empoderar as pessoas. Temos de alimentar as mentes dos jovens, que são ambiciosos e têm tantos anseios, para que eles mudem as coisas partindo de dentro.

    Nas últimas eleições de Gana, tivemos o candidato mais jovem a chegar ao Parlamento. Não gosto da política. Tanto faz se você pensa verde, vermelho ou amarelo. O que gosto é de ver o exemplo para que muitos jovens vejam que a África tem muito potencial.

    Como vê o efeito de movimentos de valorização dos negros, como o Black Lives Matter? 

    Estamos vivendo uma época de mudanças. Mas, embora haja intenções, as coisas vão muito lentas. Cheguei à Espanha em 2005, analfabeto. Em menos de dez anos, estava estudando na Universidade de Barcelona. Química, porque queria entender se a magia negra era verdade ou não. E eu era “o” negro da universidade. O único.

    Para os imigrantes que chegam à Espanha, não há outro caminho a não ser os piores trabalhos, como colher tomates no campos, sem contrato, porque a lei migratória criminaliza o imigrante. Sem documentos, só resta trabalhar em coisas que os espanhois não querem fazer.

    O ator Johnathan Majors na capa da QG americana de outubro; três personalidades negras estiveram na capa da revista neste ano
    O ator Johnathan Majors na capa da QG americana de outubro; três personalidades negras estiveram na capa da revista neste ano QG/Reprodução

    No ano passado, vieram 240 pessoas para Lleida, uma cidade na Catalunha, para colher maçãs. Como havia a questão do vírus, ninguém os acolheu, e eles ficaram dormindo em uma praça por duas semanas. Até que um deles fez um vídeo, contando a história, e postou no Facebook. Um jogador de futebol do Mônaco [Keita Baldé] viu o vídeo e se dispôs a pagar um hotel para que as pessoas deixassem de dormir na rua, como animais. Os hotéis estavam vazios, mas não quiseram alugar um quarto para essas pessoas, porque eram negras. Por outro lado, se morre um americano negro nos Estados Unidos, todo mundo posta “black lives matter” em seus perfis. Mas falta atuar de verdade. Isso realmente faz falta.


    RAIO-X

    Ousman Umar, 33
    Nascido em Gana, migrou para Espanha, onde se formou em relações públicas e marketing na Universidade de Barcelona. Escreveu dois livros, sobre sua travessia até a Europa e sobre as dificuldades de se adaptar à vida no continente. É fundador da ONG Nasco Feeding Minds, que busca ampliar o acesso de jovens em Gana ao mundo digital

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/04/enviar-arroz-a-africa-nunca-vai-conter-a-migracao-para-a-europa-diz-escritor-de-gana.shtml

    Prof Luciano Mannarino