Categoria: ATIVIDADES

Modelos de atividades para a Sala de Aula (Geografia)

  • Proporção da população brasileira que vive próxima do litoral diminui, mas segue sendo maioria

    Proporção da população brasileira que vive próxima do litoral diminui, mas segue sendo maioria

    Censo aponta que proporção de quem mora no interior aumentou

    21.mar.2024 às 10h00

    Lucas Lacerda

    SÃO PAULO

    Mais da metade da população brasileira —203,1 milhões de pessoas, segundo o Censo Demográfico 2022— está espremida numa faixa de 150 km a partir do litoral. Já nas fronteiras do Brasil, o número, embora tenha crescido, representa uma parcela de 4,6% dos habitantes.

    É o que mostram os dados de setores censitários publicados nesta quinta-feira (21) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Essas unidades territoriais agrupam domicílios em um local, urbano ou rural, que será mapeado pelos recenseadores.

    Foi dessa forma que o IBGE calculou as quantidades da população morando a até 150 km do litoral ou da fronteira, sobrando, assim, o contingente populacional do interior.

    movimentação de pessoas em tarde no pelourinho, com rua larga e imóveis antigos conservados
    Turistas no Largo do Pelourinho, em Salvador (BA); a capital perdeu população entre 2010 e 2022, segundo o Censo – Rafaela Araújo – 21.mai.2023/Folhapress

    Comparados aos resultados do Censo 2010, os números continuaram praticamente os mesmos, com uma queda de 1% no litoral, apesar do aumento de 5 milhões de habitantes verificado em 2022, que chegou a 111.277.361 pessoas.

    Já a porção fronteiriça, com 9.416.714 habitantes, continua com 4,6% da população, e todo o contingente entre as duas faixas, no interior, soma 83.157.078 pessoas (41%).

    Mas o crescimento da população, maior no Centro-Oeste do país do que a média nacional, significa que a população pode estar se interiorizando. Esse movimento não vai superar o contingente do Sudeste, mas pode até passar o Sul em algumas décadas.

    É o que diz o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, pesquisador aposentado do IBGE. Para ele, a causa é a atração econômica do agronegócio e o peso do setor primário nas exportações do país.

    “Esse peso está no Centro-Oeste. Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Esse movimento é acompanhado pelo crescimento da população, que vai para onde há emprego e renda.”

    Desde a colonização, o Brasil passou por diferentes momentos de ocupação do interior do território, que começou espalhada pelo litoral. “Dizia-se que os portugueses se limitavam a arranhar a costa do Brasil como caranguejos”, afirma Eustáquio.

    Entre as corridas por borracha, as marchas para o oeste do país e a construção de Brasília, os diferentes governos do país foram ao interior sob o pretexto de ocupar para proteger e integrar o país. Ainda, a ditadura militar pretendeu conquistar a Amazônia patrocinando a construção de estradas como a Transamazônica (BR-230) e a BR-163 (Cuiabá-Santarém).

    Com a perda do peso da indústria no PIB (Produto Interno Bruto) do país, segundo Eustáquio, o país consolidou o movimento de reprimarização da economia. “O setor que mais cresce, exporta e gera divisas não é a indústria, concentrada em São Paulo.”

    Segundo o professor do Instituto de Geografia da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) Vitor de Pieri, as mudanças na economia também explicam mudanças nos fluxos de migração nas grandes capitais. “Há um movimento de pessoas saindo de cidades como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, migrando para o centro do país.”

    Junto com emprego, Pieri também aponta uma busca por mais qualidade de vida em regiões de interior. “Mais contato com natureza e até para trabalhar com produção primária, o que chamamos de neo-rurais.”

    Ele aponta que a indústria também começou a se interiorizar no país a partir dos anos 1960 e 1970. “É uma deseconomia de aglomeração, conceito do Milton Santos. Por causa de fatores como trânsito, alto valor do metro quadrado, insegurança e os incentivos fiscais no interior, as indústrias migraram.”

    Com 11.451.245 de habitantes, São Paulo encabeça a lista das maiores cidades do Brasil, de acordo com o Censo de 2022 do IBGE

    Com 11.451.245 de habitantes, São Paulo encabeça a lista das maiores cidades do Brasil, de acordo com o Censo de 2022 do IBGE Rivaldo Gomes/FolhapressMAIS 

    Para Eustáquio, embora não seja possível que o Centro-Oeste supere o Sudeste em termos absolutos de população, a região pode superar o Sul, e deve continuar a crescer no país nas próximas décadas, tornando o Brasil mais interiorizado e urbanizado.Mas o pesquisador diz que ainda é preciso aguardar os dados de migração do Censo, que podem ajudar a explicar por que capitais como Salvador (BA) perderam população entre 2010 e 2022.

    https://arte.folha.uol.com.br/cotidiano/2024/03/21/censo22-litoral-fronteira/censo22-litoral-fronteira-1-desktop.png?t=1710979804835

  • Café cultivado ao redor de cratera vulcânica entre SP e MG leva prêmios e recordes

    Café cultivado ao redor de cratera vulcânica entre SP e MG leva prêmios e recordes

    BOTELHOS (MG) e SÃO SEBASTIÃO DA GRAMA (SP)

    Uma região entre o sul de Minas Gerais e o nordeste de São Paulo tem chamado atenção por cultivar cafés que produzem bebidas com notas sensoriais complexas e muito valorizadas.

    Localizadas no entorno de uma cratera de vulcão extinto há milhões de anos, as fazendas dessa área têm conquistado prêmios e concursos de qualidade, o que chamou atenção para aquilo que a diferencia das demais regiões produtoras de café do Brasil: o solo vulcânico.

    Ainda faltam estudos mais aprofundados para explicar com precisão as razões de a região produzir cafés de tamanha qualidade, mas hipóteses apontam para o fato de que o diferencial está mesmo na combinação da altitude com o solo vulcânico.

    Entenda o que tem feito os cafés dessa região ganharem tanto reconhecimento
    Lucena/FolhapressMAIS

    Como se sabe, o café da espécie arábica demanda grandes altitudes para produzir bons frutos. Nessa região, os cafezais ficam situados nas elevações criadas naturalmente no entorno da caldeira vulcânica.

    Isso resulta em bebidas com sabor doce e a acidez cítrica, segundo o pesquisador Leandro Carlos Paiva, do Instituto Federal do Sul de Minas Gerais.

    “Terras mais altas são mais frias à noite, e de dia ainda mantêm uma temperatura quente o suficiente para manter um desenvolvimento adequado do café. E nas noites frias, o café respira mais e produz mais ácido cítrico. Então existe um balanço entre a acidez e a doçura, e o café é muito equilibrado, muito encorpado, muito doce, porém com equilíbrio perfeito de acidez”, diz.

    Outra razão reside nas propriedades do solo em si. “Ele não é considerado um vulcão extinto; é uma caldeira vulcânica que se formou, mas não explodiu. Então nosso solo não é aquele solo de basalto. É um solo de formação vulcânica, mas tem uma formação rochosa muito diversificada, porque é uma elevação que veio de baixo para cima, do magma. Então tem uma complexidade de solos muito maior”, afirma Paiva.

    É claro que o sabor final do café depende de inúmeros fatores, como a variedade, a altitude, o processamento pós-colheita, a torra etc. Mas, de modo geral, um café da região vulcânica remete a sabores de frutas amarelas, caramelo e chocolate, com corpo sedoso e acidez cítrica e intensa.

    No ano passado, um café da região bateu recorde de preço. Cultivado pela Orfeu em São Sebastião da Grama (a cerca de 250 km de São Paulo), os grãos da variedade gesha cultivados a 1.570 metros de altitude foram vendidos pelo equivalente a R$ 84,5 mil por saca de 60 kg –ou cerca de R$ 1.410,00 por quilo. Foi o maior valor já pago em leilão por um café de processamento natural brasileiro.

    O sucesso obtido pelos cafeicultores tem atraído outras culturas e empresas para a região. A própria Orfeu começou a cultivar oliveiras e, com isso, produz azeites que já conquistaram prêmios internacionais. Investidores chineses começaram a testar o plantio de avocado, e o resultado tem agradado.

    Para agregar valor ao café, os fazendeiros decidiram se associar, a fim de delimitar a área que de fato está situada no terroir vulcânico. Ao todo, a chamada região vulcânica abrange 12 municípios, sendo oito em Minas –Andradas, Bandeira do Sul, Botelhos, Cabo Verde, Caldas, Campestre, Ibitiúra de Minas e Poços de Caldas– e quatro em São Paulo –Águas da Prata, Caconde, Divinolândia e São Sebastião da Grama.

    Agora associados, os produtores pretendem pleitear junto ao INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) o reconhecimento da denominação de origem –selo que designa um produto cujas qualidades se devam ao meio geográfico, como o que ocorre na Europa com o espumante da região de Champagne, na França, ou os queijos parmigiano reggiano, na Itália.

    O jornalista viajou a convite da Orfeu.

    https://www1.folha.uol.com.br/blogs/cafe-na-prensa/2024/03/cafe-cultivado-ao-redor-de-cratera-vulcanica-entre-sp-e-mg-leva-premios-e-recordes.shtml

    Questões (pesquisa em sala)

    1 Por que o territ´´ório brasileiro apresenta um grande número de “vulções extintos”? (2 pontos)

    2 Explique a fertilidade dos solos próximos as regiões vulcânicas. (2 pontos)

    3. Como se forma o solo de texa roxa? (2 ponto)

    4 Aponte as qualidades do meio geográfico da região do texto que levam os produtores pleitiarem o selo de ‘denominação de origem”? (2 pontos)

    5. Aponte diferenças entre uma Caldeira Vulcânca e uma Cratera Vulcânica? (2 pontos)

    Prof Luciano Mannarino

  • Dados do Censo revelam lugares onde ninguém mora no Brasil

    Informações inéditas localizam a população de forma mais precisa e ajudam a embasar políticas públicas, diz IBGE

    2.fev.2024 às 10h00Atualizado: 2.fev.2024 às 13h10

    Lucas LacerdaDiana YukariGustavo Queirolo

    SÃO PAULO

    Para contar os 203,1 milhões de habitantes do Brasil, as equipes do Censo Demográfico do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) percorreram todas as regiões do país e fizeram entrevistas em 111,1 milhões de endereços. Enquanto o Sudeste é a região mais povoada, o mapa também revela áreas onde não há ocupação, concentradas no Norte, especialmente no oeste de Roraima e em grande parte do Amazonas.

    É o que revelam as coordenadas geográficas do Censo, divulgadas nesta sexta-feira (2). As informações partem de microdados coletados em cada endereço visitado pelos recenseadores.

    agentes do censo estão de costas, paradas em frente a um portão, usam equipamentos e coletes onde é possível ver a sigla IBGE escrita
    Agentes do Censo, do IBGE, durante visita – Helena Pontes – 5.jan.2023/Agência IBGE Notícias

    Esta é a primeira vez que o Censo tem seu cadastro de endereços totalmente referenciado geograficamente. A imensa maioria das localidades foi verificada, enquanto 747 mil endereços (0,7% do total) tiveram suas coordenadas estimadas a partir de correções de dados e informações de levantamentos anteriores.

    Essas informações, segundo os técnicos do IBGE, servem para responder a questionamentos sobre onde está a população brasileira, agora de forma mais precisa, e para embasar políticas públicas.

    As coordenadas geográficas proporcionaram um avanço no detalhamento do local em relação às grades estatísticas, por exemplo. Introduzidas no Censo Demográfico de 2010, as grades chegavam a células com 200 metros na área urbana e 1 km na área rural e permitiam a visualização de grupos de domicílios e estabelecimentos. As coordenadas, por sua vez, conseguem diferenciar cada endereço de uma rua.

    Cada coordenada geográfica corresponde a um endereço visitado pelos agentes responsáveis pelo recenseamento, que pode ser um domicílio ou estabelecimento —comercial, religioso, de saúde ou de educação, por exemplo.

    Partes da Serra da Cantareira, em São Paulo, por exemplo, não têm nenhum morador, já que são cobertas por floresta ou água.

    Essas informações, quando cruzadas ao levantamento de população, revelam curiosidades como as 18 cidades que tinham, em 2022, mais domicílios do que habitantes, como Matinhos (PR) e Mangaratiba (RJ), que ficam muito mais cheios aos fins de semana e durante as férias. O município que encabeça essa lista é Arroio do Sal, no litoral norte do Rio Grande do Sul, com 11,1 mil habitantes e 18,9 mil domicílios.

    Os dados também permitem traçar a relação entre o número de estabelecimentos e o número de moradores de determinada cidade. São José do Ribamar (a 30 km de São Luís), no Maranhão, tinha no ano passado a menor presença de estabelecimentos de saúde do país: 1 endereço do tipo para cada grupo de 3.176 habitantes.

    Embu das Artes, na Grande São Paulo, vem logo em seguida, com 1 estabelecimento de saúde para cada 3.020 pessoas. Em relação a estabelecimentos religiosos, o destaque fica com cidades da região metropolitana do Rio de Janeiro, como Itaboraí (a 52 km da capital fluminense), onde os dados Censo 2022 indicam que há 1 endereço religioso para cada grupo de 157 pessoas —é a maior presença desse tipo de estabelecimento entre os municípios com mais de 200 mil habitantes.

    CRITÉRIOS PRÓPRIOS DO IBGE

    É importante ressaltar que esses dados não têm relação com os cadastros dos ministérios da Saúde ou da Educação. Os critérios de classificação do IBGE são próprios —estabelecimentos de saúde, por exemplo, incluem hospitais, postos de saúde e outras unidades de atendimento, públicas ou privadas. Consultórios médicos, diz o IBGE, não entram nessa categoria –são registrados em outras finalidades na pesquisa

    “Por ser um microdado, permite a análise a um nível muito detalhado”, disse Eduardo Luís Teixeira Baptista, gerente do Cadastro de Endereços do IBGE, durante a apresentação do material à imprensa.

    Um exemplo é a sobreposição dos dados coletados por recenseadores em cada domicílio da Vila Sahy, a área mais atingida pelo temporal que deixou 64 mortos em São Sebastião (SP) no ano passado, com as informações de um mapeamento da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), empresa pública vinculada ao Ministério de Minas e Energia.

    Esse cruzamento de dados, segundo o IBGE, indica 144 domicílios localizados na área de médio risco e 199 domicílios na área de risco alto. O mesmo uso vale para identificar a distância de domicílios de estações de metrô e equipamentos e serviços públicos diversos, dizem os técnicos.

  • Terremoto de 6,5 graus atinge Acre; não houve danos

    Magnitude do sismo ainda pode ser revisada; confirmação fará do tremor o maior já registrado no país

    21.jan.2024 às 14h49

    Leonardo Augusto

    BELO HORIZONTE

    Um terremoto de 6,5 graus na escala Richter foi registrado no início da noite deste sábado (20) em Tarauacá (AC), a 409 km da capital Rio Branco. A intensidade do tremor, se confirmada, coloca o sismo como o maior já ocorrido no país.

    O terremoto foi notado às 18h31 pela RSBR (Rede Sismográfica Brasileira) e, apesar da intensidade, não há registro de danos. Até este sábado, o tremor mais forte ocorrido no Brasil havia sido de 6,2 graus em 1955, quando um tremor atingiu a região da Serra do Tombador, no Mato Grosso.

    Terremoto
    Tremor registrou 6,5 graus na escala Richter – Reprodução/Rede Sismográfica Brasileira no Facebook

    A RSBR informou que a magnitude exata, o epicentro e a profundidade do terremoto poderão ser revisados nas próximas horas à medida que os sismólogos revisarem os dados e refinarem seus cálculos. O Serviço Geológico dos Estados Unidos detectou o mesmo tremor, mas com intensidade maior, de 6,6.

    Segundo o professor George Sand, do departamento do Centro de Sismologia da USP (Universidade de São Paulo), esse tipo de diferença entre as medidas de um e outro serviço são comuns devido ao número de equipamentos que acompanham os tremores.

    A ausência danos no Acre, conforme explica o professor, é porque o terremoto foi muito profundo. Segundo informações da RSBR, o sismo ocorreu a 628 km de profundidade.

    A região é conhecida pela ocorrência de sismos profundos por ser uma área de encontro entre duas placas tectônicas, a Sul-Americana e a Nazca.

    “Geralmente ninguém nota esse tipo de terremoto. Nós é que os identificamos e informamos à população”, diz o professor, referindo-se aos centros de acompanhamento de tremores.

    Segundo a RSBR, a força dos terremotos naquela região pode ser atenuada pela profundidade em que ocorrem.

    https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2024/01/terremoto-de-65-graus-atinge-acre-nao-houve-danos.shtml

    Questões

    Explique por que, apesar da magnitude elevada do terremoto em Tarauacá, não houve registro de danos na região.

    Compare a ocorrência do terremoto em Tarauacá com o sismo de 1955 na Serra do Tombador. O que faz com que o tremor de 2024 seja potencialmente mais significativo?

    Analise a relação entre a profundidade dos terremotos e a percepção de seus efeitos na superfície, utilizando o caso de Tarauacá como exemplo.

    Quais são as implicações geológicas do encontro entre as placas tectônicas Sul-Americana e Nazca para a região do Acre?

    Por que há uma diferença nas medições da magnitude do terremoto entre a RSBR e o Serviço Geológico dos Estados Unidos? O que isso revela sobre as tecnologias e metodologias utilizadas?

    Discuta a importância da Rede Sismográfica Brasileira na identificação e no monitoramento de sismos no Brasil.

    Explique como a profundidade de 628 km pode ter atenuado os efeitos destrutivos do terremoto de Tarauacá.

    Como o conhecimento sismológico pode ajudar na prevenção de desastres, mesmo em regiões com baixa percepção de terremotos, como o Brasil?

    O que torna o Brasil um país de baixa sismicidade, e por que eventos como o de Tarauacá são considerados raros?

    Analise a importância de revisões e refinamentos de dados após a ocorrência de um sismo para entender melhor a sua magnitude, epicentro e impactos.

    Prof Luciano Mannarino

    Por que é tão difícil prever um grande terremoto como o que atingiu a Turquia?

    TIPOS DE ROCHAS E CICLO DAS ROCHAS (vídeo e atividades)

    NATURE: Sismômetros domésticos fornecem dados cruciais sobre o terremoto do Haiti

  • Andes fizeram da Amazônia um refúgio e berçário de novas espécies

    Carlos Fioravanti

    REVISTA PESQUISA FAPESP

    Em 2017, o geólogo Roberto Ventura Santos, da Universidade de Brasília (UnB), e sua equipe passaram quatro dias em uma piscina de plástico, montada em um hotel em Puerto Maldonado, cidade com 40 mil moradores a leste do Peru.

    Com a ajuda dos funcionários do hotel, eles esvaziavam na piscina os sacos de terra coletada de até 80 metros de profundidade às margens do rio Huallaga, um dos formadores do Amazonas. Em seguida, enchiam grandes peneiras com os sedimentos que flutuavam e separavam os que pudessem conter um mineral marrom e muito resistente, o zircão. Nas semanas seguintes, nos equipamentos dos laboratórios da UnB, registraram a proporção entre os elementos químicos (principalmente urânio e chumbo) e definiram a idade e a origem das 46 amostras do também chamado silicato de zircônio.

    Desse modo, eles ampliaram para 65 milhões de anos o conhecimento sobre a história geológica e ambiental da Amazônia –até então os estudos minuciosos como esse chegavam a até 20 milhões de anos atrás– e contribuíram para detalhar os mecanismos de geração da riqueza biológica da Amazônia, estimada em 40 mil espécies de plantas, 2.500 de peixes e 425 de mamíferos.

    Em um artigo publicado em abril na Journal of South American Earth Sciences, o grupo de Santos reforçou a importância da cordilheira dos Andes na formação das estruturas geológicas da Amazônia, que por sua vez determinaram sua riqueza biológica, e acrescentou uma variável nova: a água do mar, com os organismos que carrega, pode ter vindo também do sul e não apenas do norte, como já se sabia, e deve ter ocorrido milhões de anos depois.

    Os botos-cor-de-rosa indicam que a água do mar já ocupou o interior da Amazônia
    Os botos-cor-de-rosa indicam que a água do mar já ocupou o interior da Amazônia Hoorn, C. et al. Annual Review of Earth and Planetary Sciences (2023)MAIS 

    A datação do zircão indicou que, há cerca de 60 milhões de anos, quando a cordilheira dos Andes apenas começava a subir, água e organismos do Atlântico Sul, por meio do rio da Prata, podem ter chegado a terras hoje cobertas por floresta na região de Madre de Dios, no Peru, próxima à divisa com Rondônia.

    Segundo Santos, polens encontrados em meio aos sedimentos desenterrados no Peru reforçam a origem comum da Amazônia e do Pantanal, que também teria se formado como resultado da elevação dos Andes. Uma das espécies identificadas por meio do pólen é da família das araucárias, plantas hoje típicas do clima frio do Sul do país.

    Formados por 104 montanhas com 4.000 metros de altitude média e 8.000 quilômetros de extensão, do norte da Colômbia ao sul da Argentina, os Andes ainda regem o funcionamento e a biodiversidade da maior parte da bacia amazônica de dois modos distintos.

    As nascentes na cordilheira e sua contínua erosão fornecem água e sedimentos (terra e areia) que alimentam os rios a oeste da Amazônia. O menor volume de água que chega das montanhas pode ter contribuído para a intensa seca deste ano na região, geralmente atribuída apenas à redução de chuvas decorrente do El Niño.

    De acordo com um estudo de pesquisadores do Peru e do Brasil publicado em abril de 2022 na Remote Sensing, em resposta ao aquecimento global, a área das geleiras do norte dos Andes sofreu uma redução de 2.429 km² para 1.409 km² (42%) de 1990 a 2020, assim fornecendo menos água para os rios.

    “Ainda hoje cerca de 80% dos sedimentos levados pelos rios da Amazônia até o mar vêm dos Andes”, diz o geólogo Maurício Parra, do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGc-USP), também autor de estudos nessa área. “Ao longo de 60 milhões de anos, os sedimentos que vieram dos Andes formaram camadas com espessuras decrescentes, de 2 km de profundidade a oeste da Amazônia e 800 m na ilha de Marajó, a leste.”

    Além disso, os Andes influenciam o clima na região ao barrar a umidade que vem do Atlântico e volta sobre a floresta, aumentando a quantidade de chuva. “O clima em Lima, no Peru, é muito seco, porque a massa de ar úmido não chega até lá”, comenta Santos.

    UM IMENSO PANTANAL

    “O soerguimento dos Andes não foi contínuo, mas por pulsos”, observa a geóloga Michele Andriolli Custódio, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

    Segundo a pesquisadora, as montanhas reorganizavam a paisagem à medida que cresciam. Ao levantarem um dos lados dos terrenos inundados pela água que vinha do mar do Caribe, forçaram os rios que ainda desaguavam aos pés dos Andes a correrem para leste, na direção do Atlântico. A inversão do sentido dos rios, por sua vez, uniu áreas e populações que antes viviam isoladas ou, inversamente, separou as que viviam juntas, criando-se assim condições para a formação de novas espécies de plantas e animais.

    “Como a rede de drenagem atual só foi estabelecida entre 10 milhões e 9 milhões de anos, a maior parte do tempo os rios corriam para oeste, o sentido inverso do que conhecemos hoje”, comenta o biólogo Carlos D’Apolito, da Universidade Federal do Acre (Ufac), coautor de um estudo sobre as antigas redes de drenagens na região publicado em julho na Sedimentary Geology.

    “Os Andes geraram um grande espaço rebaixado a oeste da Amazônia, que virou um pantanal de dimensões continentais, provavelmente com lagos gigantes”, diz ele. “Ali viviam jacarés, tartarugas e peixes, todos enormes. Entre as plantas, os buritizais eram certamente os mais comuns, porque crescem em áreas alagadas, o que não faltava entre cerca de 20 milhões e 7 milhões de anos.” Fósseis de conchas marinhas ainda hoje encontrados às margens do rio Solimões e de seus afluentes testemunham a ocupação do mar, que recuou e hoje está a mais de mil km dali.

    “Grande parte das espécies de plantas e animais que vivem na Amazônia hoje surgiu nos últimos 5 milhões de anos, apesar de estarem inseridas em famílias muito antigas, que já estavam na Amazônia há cerca de 60 milhões de anos”

    Lúcia Lohmann (botânica)

    Os botos-cor-de-rosa (Inia geoffrensis), os peixes-boi (Tricherchus inunguis) e as arraias (Potamotrygon spp.), que ainda vivem nos rios da região, reforçam a ideia de que o interior da floresta já foi coberto por água salgada. Antigas populações dessas espécies podem ter sido aprisionadas com o fechamento das conexões com o mar. Ao longo de gerações, adaptaram-se ao novo ambiente e se diferenciaram dos parentes marinhos.

    “Grande parte das espécies de plantas e animais que vivem na Amazônia hoje surgiu nos últimos 5 milhões de anos, apesar de estarem inseridas em famílias muito antigas, que já estavam na Amazônia há cerca de 60 milhões de anos”, comenta a botânica Lúcia Lohmann, da USP e da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos. Segundo a pesquisadora, as respostas das plantas às mudanças ambientais indicam que a Amazônia é tanto um refúgio quanto um berçário de biodiversidade.

    Em 2016, Lohmann coordenou a coleta de 10 espécies de plantas que cresciam às margens dos rios Negro e Branco, ao norte de Manaus. As análises genéticas mostraram que os rios podem ter efeitos diferentes sobre a formação de novas espécies, a chamada especiação: o Negro, por ser mais antigo e largo, favoreceu a diferenciação genética de espécies que cresciam em suas margens, enquanto o Branco, mais jovem e estreito, não apresentou um impacto relevante na diferenciação das espécies de plantas examinadas, embora possa ter favorecido a diversificação de populações de aves e primatas.

    Não há regras simples. Os rios como barreiras e a variação de altitude ou de temperatura podem favorecer a formação de novas espécies para alguns grupos de plantas e animais, mas não para outros. “Os mesmos fatores podem desencadear processos evolutivos diferentes, impactando a história biogeográfica e de diversificação de organismos amazônicos de formas variadas”, diz ela.

    Uma análise de polens e de genes de plantas mostrou as relações profundas entre geologia e biodiversidade, refletida nas formas da floresta, que se apresentava ora mais fechada, ora mais aberta, ao longo dos últimos 23 milhões de anos. “Os períodos de maior soerguimento dos Andes corresponderam aos de maior diversificação para vários grupos de plantas”, comenta Lohmann, uma das coordenadoras de uma síntese sobre a história de formação da vegetação amazônica ao longo desse período, publicada em maio na Annual Review of Earth and Planetary Sciences.

    De acordo com esse trabalho, uma floresta contínua que ocupava quase toda a América do Sul foi dividida há cerca de 30 milhões de anos por uma área de clima seco, formando a oeste o que seria a Amazônia e a leste a mata atlântica. Em seguida ocorreram mudanças na estrutura e composição da floresta. Por exemplo: entre 23 milhões e 16 milhões de anos atrás a Amazônia abrigava uma ampla diversidade de formas de vegetação, desde manguezais até florestas de terra firme, em um ambiente estuarino, no qual a água do mar e a dos rios se misturavam.

    Os polens encontrados nos sedimentos às margens dos rios indicam que pelo menos 48 famílias de plantas já viviam na Amazônia nesse momento. O número de famílias cresceu para 79 entre 16 milhões e 12 milhões de anos atrás; depois caiu para 25 entre 12 milhões e 6 milhões, resultando em uma floresta aberta, que voltou a expandir-se entre 5 milhões e 2 milhões de anos atrás, levando a 117 famílias.

    “Ao longo de milhares de anos, a vegetação da Amazônia se adaptou a mudanças geoclimáticas muito maiores do que imaginávamos. Talvez seja por isso que tantas espécies de lá que chegaram ao cerrado, à mata atlântica e às florestas da América Central conseguiram sobreviver em ambientes tão diversos”, diz ela. “A história da vegetação amazônica nos ensina como espécies se adaptaram a mudanças climáticas numa escala de milhões de anos, uma informação crucial nos dias de hoje.”

    Mas nem tudo está bem. Em um artigo de janeiro de 2023 na Science, Lohmann e outros pesquisadores do Brasil, dos Estados Unidos e de outros países examinaram o impacto de 11 tipos de mudanças de origem humana, como a expansão urbana e agrícola, e 21 naturais, como a elevação dos Andes e o afastamento da América do Sul e da África.

    De acordo com essa análise, as mudanças de origem humana estão ocorrendo mais rapidamente do que a capacidade de as plantas se adaptarem aos novos ambientes. Se não for detida, essa desproporção pode levar, entre outros efeitos, à redução da quantidade de chuva que abastece as áreas agrícolas do Centro-Oeste e Sudeste do Brasil.

    https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2024/01/andes-fizeram-da-amazonia-um-refugio-e-bercario-de-novas-especies.shtml

    Questões

    1) Retire do texto o elemento que contribui para fundamentar o famoso estudo de Charles Darwin.

    2 Como se deu o “soerguimento dos Andes”?

    3 De que forma o estudo faz uma alerta ao agronegócio brasileiro?

    4) Explique a aridez do clima da capital do Peru.

    Prof Luciano Mannarino