Categoria: ATIVIDADES

Modelos de atividades para a Sala de Aula (Geografia)

  • Sindicatos mantêm área plantada de coca sob controle na Bolívia

    CHAPARE, LA PAZ E YUNGAS (BOLÍVIA)

    Na parede, o emblema da folha de coca sobre o machado e o facão –eco do símbolo comunista da foice e do martelo– é o cartão de visitas da federação dos sindicatos de cocaleiros de Chimoré, no Chapare. No piso de cimento, milhares de folhas secam antes do ensaque. Até ali, o processo está dentro da lei, mas o destino final dificilmente será o consumo tradicional. A probabilidade maior é que vire pó.

    O cenário sugere descontrole, mas os números revelam o contrário. Há mais de uma década, quando um cocaleiro do Chapare chegou à presidência, a Bolívia adota uma estratégia nunca admitida oficialmente, mas que resultou na mais bem-sucedida experiência mundial de controle da produção de cocaína: a legalização do plantio destinado ao narcotráfico.

    A política foi comandada até há pouco por Evo Morales, que renunciou em outubro de 2019. Primeiro como líder dos produtores, ele enfrentou erradicações forçadas financiadas pelos EUA e tentativas frustradas de cultivos alternativos. Já presidente (2006-2019), expulsou a DEA (agência antidrogas norte-americana), delegou o controle dos cultivos aos sindicatos e elevou de 3.200 hectares para 7.700 hectares a área de coca permitida no Chapare, no centro do país.

    Elton Morán colhe folhas de coca em sua plantação próxima ao povoado de Huancané, na região dos Yungas – Lalo de Almeida/Folhapress

    Assim desmantelou-se a tutela norte-americana, baseada na erradicação agressiva dos plantios da Erythroxylum coca, cultivada nos Andes desde pelo menos 2.000 a.C. Foram mais de duas décadas de programas pouco eficientes de substituição de cultivos e de punições ao narcotráfico, estratégia que predomina nos outros dois países produtores do mundo, Colômbia e Peru.

    Do tripé, a Bolívia de Evo manteve a legislação com penas duras, sem legalização de consumo nem da maconha. Mas o discurso oficial passou a ser “coca sim, cocaína não”, com ênfase no uso tradicional presente em vários países sul-americanos, inclusive no Brasil –no noroeste amazônico, a folha é chamada de epadu.

    É fato que, além do crescimento populacional, a mastigação tradicional tem ganhado adeptos graças a novidades para melhorar o gosto amargo. A mais popular é a estévia, adoçante natural. Café e chocolate são outras opções.

    Mas o consumo tradicional está longe de absorver a produção. Números do próprio governo Evo indicam que mais de 90% da coca do Chapare não passa pelos dois mercados legais da folha, em Cochabamba e na capital, La Paz.

    Cocaleiros carregam sacos de folha de coca do lado de fora do mercado de Villa Fatima, na capital La Paz – Lalo de Almeida/Folhapress

    Esse desvio é de fácil constatação nas ruas, inclusive no Chapare, onde a coca vendida para a mastigação tradicional costuma ser trazida dos Yungas, região perto de La Paz onde a sagrada planta andina é cultivada há séculos.

    A folha de coca é um estimulante de potência média com alto poder nutritivo, fonte de calorias, proteínas, cálcio, ferro, vitamina A e outros nutrientes. Desde antes da invasão europeia faz parte da dieta de povos andinos e amazônicos.

    Já a cocaína, extraída da folha, foi isolada pela primeira vez em 1860, na Alemanha. Por décadas, foi usada legalmente na medicina e de forma recreativa, até passar a ser proibida em vários países, na primeira metade do século 20.

    A Bolívia é o principal fornecedor de cocaína do Brasil. Estudo de 2012 feito pela Polícia Federal revelou que 54,3% da cocaína que ingressa no país tem origem no Chapare ou nos Yungas. Em segundo lugar, aparece o Peru (38%).

    O Brasil é o segundo maior consumidor mundial de cloridrato de cocaína (pó), depois dos Estados Unidos, e provavelmente o maior consumidor de derivados de cocaína (como o crack), segundo relatório do Departamento de Estado dos EUA.

    Importante ponto de embarque para a Europa, o Brasil é o único país fronteiriço às três nações produtoras.

    A reportagem procurou a PF em Brasília sobre a entrada da cocaína boliviana, mas não obteve resposta.

    Diferentemente dos Yungas, o plantio intensivo da coca é recente no Chapare. O cultivo explodiu a partir dos anos 1980 por causa da demanda e da mão-de-obra disponível após a demissão e a migração em massa de mineiros do Altiplano, a maioria do povo quéchua. Atualmente, as federações representam cerca de 50 mil famílias.

    Cocaleira na trilha que dá acesso à sua plantação perto de Chimoré, na região do Chapare – Lalo de Almeida/Folhapress

    A legalização da coca no Chapare começou sob o governo Carlos Mesa, em 2004, após acordo com Morales. Desde então, uma família pode plantar no máximo um “cato”, correspondente a 1.600 m², ou duas quadras de futsal.

    O excedente está sujeito à “racionalização”. O controle de quem tem direito a um cato e de quem excedeu o limite é dos sindicatos e das federações. Cabe ao governo combater o cultivo em áreas não autorizadas, como parques nacionais e regiões fora do Chapare e dos Yungas.

    Não faltaram críticas ao que se fazia no Chapare, principalmente dos EUA. Opositores, como o ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga, previam que a coca financiaria um novo narcoestado, como ocorrera no início da década de 1980.

    Mas não foi o que ocorreu. Em 2008, quando Evo expulsou a DEA, a Bolívia tinha 25.400 hectares de coca. Onze anos depois, o país registrava superfície praticamente idêntica, 25.500 hectares.

    No mesmo período, a Colômbia, que adota uma linha dura e recebe ajuda média de US$ 400 milhões (mais de R$ 2,1 bilhões) por ano dos EUA, viu a área plantada saltar 90%, alcançando 154 mil hectares. É, de longe, o maior produtor de cocaína, seguida de Peru e Bolívia. Os números são da UNODC (Escritório da ONU contra Drogas e Crime).

    Plantações de coca nas montanhas da região dos Yungas – Lalo de Almeida/Folhapress

    Outra comparação favorável é o nível de violência. Na Bolívia, a taxa de homicídios é de 6 por 100 mil habitantes, uma das mais baixas da América Latina. Na Colômbia, a taxa chega a 25 por 100 mil habitantes, uma das mais altas da região. Já o Peru ocupa posição intermediária.

    “Não há cartéis [na Bolívia], como o de Cali ou de Sinaloa. Existem nexos com algumas organizações internacionais para transportar a droga, mas é uma delinquência boliviana, não tão agressiva como em outros países. E há um controle da polícia, das forças especiais”, diz o ex-diretor geral da Força Especial de Luta contra o Narcotráfico, general Luis Caballero, em La Paz, onde hoje é advogado.

    Em relatório do Departamento de Estado americano, a Bolívia e a Venezuela aparecem como os únicos países que “comprovadamente falharam” em cumprir obrigações internacionais de combate ao narcotráfico. Ao justificar a classificação, que gera sanções à Bolívia, o documento menciona o aumento da área legal de 12 mil hectares para 22 mil hectares, em 2017.

    A ampliação não tem respaldo técnico. Em 2013, levantamento financiado pela União Europeia concluiu que 14.700 hectares são suficientes para o consumo tradicional.

    “Claro que se trata de uma legalização ‘de facto’”, afirma o economista Roberto Laserna, que estuda a coca há mais de duas décadas. “Sabendo o destino dessa coca, foi permitido que ela seja produzida e comercializada. A ideia do governo era reprimir o narcotraficante e liberar o cocaleiro, mas obviamente há uma conexão direta entre ambos.

    Carregador leva sacos de folha de coca no mercado Villa Fatima, em La Paz – Lalo de Almeida/Folhapress

    Defensor da regularização da coca e da cocaína, o pesquisador do Ceres (Centro de Estudos da Realidade Econômica e Social), de Cochabamba, ressalva que o controle deveria ser incumbência do Estado. No Chapare, afirma, o resultado foi uma “republiqueta” controlada pelos sindicatos, em que camponeses têm pouco poder de decisão enquanto o narcotráfico cresce.

    “A solução ao problema da coca e da cocaína passa por alguma forma de legalização e regularização. E isso começa pelo controle da coca mediante permissões a produtores individuais. Isso é impossível de fazer agora pelo poder dos sindicatos, pela ausência do Estado e pela penetração que tem o narcotráfico nessa zona.”

    Com a experiência de quase 30 anos combatendo o tráfico em Cochabamba, o coronel da Polícia Nacional Rolando Raya afirma que, a partir do governo Evo Morales, a produção “se autodisciplinou”, enquanto o cato fez com que o dinheiro fosse compartilhado de forma homogênea.

    Polícia prepara queima de drogas apreendidas em montanhas no entorno de Cochabamba – Lalo de Almeida/Folhapress

    “Eles pensaram: ‘O que vai acontecer se produzirmos mais? Haverá intervenção. Então faremos uma política bem-sucedida. É legal ter o meu cato’. Ninguém cresceu mais do que tinha de crescer. É um narcotráfico disciplinado”, afirmou, em entrevista na sede do seu comando.

    Ex-integrante da FELCN, Raya afirma que, por outro lado, há maior penetração e pulverização do tráfico, que passou de grandes chefes para clãs familiares. “As fábricas [de cocaína] estão em toda a Bolívia”, diz o coronel, que vê uma crescente perda de controle territorial. “Se entramos, há morte. Nem o governo Morales conseguia entrar.”

    Posto policial depredado e abandonado em Villa Tunari, na região do Chapare, reduto eleitoral do ex-presidente Evo Morales – Lalo de Almeida/Folhapress

    Órfão aos 12 anos, Edgar Quispe migrou de Potosí ao Chapare nos anos 1980 para trabalhar nos cultivos de coca. Ele disse que, até o governo Gonzalo Sánchez de Lozada (2002-2003), o governo agia com violência para erradicar a coca. Já os cultivos alternativos, afirma, não funcionavam.

    “Não havia mercado. A única forma de sobreviver no trópico de Cochabamba era a coca”, conta Quispe durante encontro de mulheres cocaleiras em Chimoré, em um ginásio de esportes cercado de barro e apinhado de vendedores ambulantes de comida. Apesar do nome do evento, só homens discursaram no dia em que a reportagem lá esteve, antes da pandemia do coronavírus.

    Cocaleiros participam de congresso em um ginásio em Chimoré, na região do Chapare – Lalo de Almeida/Folhapress

    No passado, Quispe teve seu plantio erradicado à força. Sem alternativa, em 1992 migrou para a Argentina, onde ficou até 2001. Como resultado da repressão, explica Quispe, os cocaleiros começaram a formar o partido Movimento ao Socialismo, que passou a controlar as prefeituras do Chapare e, na eleição de 2005, levaria Evo ao poder. Com o ex-cocaleiro no poder, a dinâmica mudou. “Se há coca excedente, isso tem de ser anunciado, e a pessoa tem de permitir a entrada em seu sítio.”

    Hoje com 49 anos, ele cultiva coca legalmente. Com o dinheiro poupado na Argentina, comprou 25 hectares. A sua principal atividade é a criação de gado –tem 20 cabeças.

    Assim como outros cocaleiros, Quispe passou a viver em Chimoré, a 10 km de seu cato, cidade de comércio informal, casas simples e ruas de pavimentação mal-conservada.

    A renda da coca é razoável. Na federação, o saco da folha (23 kg) é comercializado por 1.200 bolivianos (R$ 730). Cada cato produz, em média, três sacos a cada três meses.

    Acima, sacos de folhas e abaixo, as folhas de coca no mercado de Chimoré, na região do Chapare – Lalo de Almeida/Folhapress

    A área dos plantios, antes acessível apenas após longas caminhadas, hoje está conectada por estradas de terra. Na região visitada pela Folha, o cocal ficava a cerca de 5 minutos a pé de uma via. Os cocaleiros trabalham ali durante o dia e à noite voltam à cidade.

    Para complementar a renda, os camponeses também trabalham para outros camponeses. Todo o plantio da coca é manual –o machado e o facão são usados para abrir a roça na floresta. Uma diária sai por 120 bolivianos (R$ 73).

    Ecoando o discurso de Evo, ninguém admite que a coca do Chapare vai principalmente para o narcotráfico. “Comercializamos nos nossos centros de armazenagem, despachamos à comercialização em nível departamental, em Cochabamba, e depois para o país. A coca é distribuída para o pijcheo [mastigação]”, afirma Leonardo Loza, um dos principais dirigentes do Chapare e filiado ao MAS.

    Leonardo Loza, lider cocaleiro, caminha por sua plantação de coca na zona rural de Chimoré – Lalo de Almeida/Folhapress

    A reportagem também visitou a região dos Yungas. Embora fique apenas a algumas dezenas de quilômetros de La Paz, a viagem é demorada devido às estradas precárias esculpidas nas serras que fazem a transição dos Andes para a Amazônia.

    Assim como no Chapare, não há sinais de riqueza ou de desigualdade. As casas, construídas sobre encostas íngremes, são simples, e os carros, velhos -a maioria circula sem placas, contrabandeados do Chile.

    Porém, ao contrário do Chapare, os principais líderes cocaleiros dos Yungas deixaram de apoiar Evo. Sempre latentes, as divergências se escancaram após a lei de 2017, que ampliou a área dos cultivos. A medida, afirmam os líderes, favoreceu o Chapare e legalizou produção que vai ao narcotráfico.

    Acima, cocaleira descansa no mercado Villa Fatima, em La Paz; abaixo, Pedro Antonio, filho de Elton Morán, descansa na sombra enquanto o pai trabalha na plantação – Lalo de Almeida/Folhapress

    Em meio ao rompimento com Evo, vários dirigentes acabaram presos, incluindo seu principal líder, Franklin Gutiérrez. Na recente crise política, ele apoiou os protestos que provocaram a queda do ex-presidente e depois se aproximou do governo interino. O país é governado pela direitista Jeanine Áñez. Por causa da pandemia, a nova eleição presidencial foi adiada de maio para setembro, depois para outubro.

    Entre os cocaleiros yunguenhos, no entanto, o ex-presidente guarda popularidade. É o caso de Elton Morán, 30. Morador do povoado de Huancané, ele aprendeu o ofício do pai e do avô.

    “A coca é a atividade que mais nos dá sustento”, diz o agricultor no meio do seu cocal. Ele começou a ajudar o pai com 12 anos e hoje divide a tarefa com a mulher, com quem tem dois filhos.

    “Evo Morales entrou quando eu estava no colégio. Meus pais se sentiam muito orgulhosos de que um camponês chegasse ao governo”, diz Morán, que aponta a substituição das paredes das casas do barro para o tijolo como uma das mudanças favoráveis do seu governo. “Muitos consideram que a sua entrada foi muito boa, e outros o rechaçam. Pessoalmente, vejo que foi bom. Daqui a cinco anos, já vamos saber quão bom foi Evo e também os que tanto o julgavam.”

    Mural com o rosto do ex-presidente Evo Morales em estrada no Chapare – Lalo de Almeida/Folhapress

    Coca, cocaína e Bolívia

    1859 O alemão Albert Niemann isola o alcaloide das folhas de coca, planta usada há séculos por indígenas. A descoberta é batizada de cocaína

    1862-1914 A cocaína passa a ser empregada em vários produtos, de anestésicos à primeira versão da Coca-Cola. O principal produtor é o Peru

    Décadas de 1910 e 1920 EUA e outros países passam a proibir a substância após descobertas de seu efeito nocivo. No Brasil, o veto é estabelecido via lei em 1921 -a primeira legislação do país sobre drogas.

    1961 Sob pressão norte-americana, a ONU aprova a Convenção Única Sobre Entorpecentes, que inclui a erradicação da planta de coca. Em 1973, sob ditadura militar, a Bolívia se compromete a acabar com o uso tradicional em 25 anos

    1971 O presidente americano Richard Nixon declara guerra às drogas. Ao longo da década, consumo de cocaína explode, e colombianos assumem o comando do tráfico

    1973 Nixon cria a DEA, agência antidrogas, com forte atuação na América do Sul

    1980 General García Meza assume o poder na Bolívia em golpe, em ação financiada pelo narcotráfico. Enquanto promove perseguição à esquerda, transforma o país em ditadura narcomilitar. Traficantes do país se aliam ao colombiano Pablo Escobar

    1988 Sob o presidente Victor Paz Estenssoro, a Bolívia é o único país a se opor à criminalização do uso tradicional da folha de coca em nova convenção da ONU. País estabelece limite de 12 mil hectares para plantio tradicional, mas endurece punição de pequenos infratores

    Década de 1990 Consumo de cocaína se espalha para outros países -incluindo o Brasil. Em 1993, Escobar é morto em Medellín. Na Bolívia, campanhas de erradicação forçada no Chapare enfrentam resistência dos cocaleiros, entre os quais Evo Morales

    2000 O presidente americano Bill Clinton aprova US$ 1,3 bilhão em ajuda à Colômbia

    2004 Após negociar com Morales, o presidente Carlos Mesa limita a produção a 1.600 m² por família no Chapare

    2006 Morales assume a presidência, mas mantém liderança das seis federações cocaleiras do Chapare

    2006-12 No México, presidente Felipe Calderón emprega dezenas de milhares de militares contra os cartéis que usam o país para levar cocaína aos EUA. Número de homicídios explode

    2013 Bolívia obtém vitória simbólica na ONU ao conseguir licença especial para o uso tradicional da coca

    2017 Morales amplia de 12 mil ha para 22 mil ha a área para plantio de coca, favorecendo principalmente Chapare. Líderes dos Yungas, área de cultivo ancestral, criticam mudança

    2019 ONU registra a maior produção de cocaína da história, de 1.976 toneladas em 2017. Explosão é puxada pela Colômbia

    2019 Morales renuncia à presidência em meio à crise política por sua insistência em se candidatar a um quarto mandato

    https://arte.folha.uol.com.br/mundo/2020/estado-alterado-as-politicas-para-drogas-pelo-mundo/bolivia/controle-da-area-cultivada/

  • Brasil aposta no enfrentamento armado, que vítima jovens e negros

    Thiago Amâncio

    Eduardo Anizelli

    Comunidade Cerro Corá, na zona sul do Rio, vista a partir do mirante Dona Marta – Eduardo Anizelli/Folhapress

    RIO DE JANEIRO

    Orelha tem 22 anos e várias marcas de tiro no braço. Segurou um fuzil pela primeira vez aos 13. Desde então ele já comandou algumas bocas de fumo no Rio de Janeiro e hoje é um dos que chefiam a operação em parte de uma favela da capital fluminense.

    É uma comunidade como tantas outras, com um centro comercial agitado que mais lembra uma cidade do interior. Carros de som anunciam promoções, motociclistas circulam sem capacete e as pessoas se cumprimentam indo e voltando do trabalho.

    Mais para o alto do morro, nas lajes e janelas de prédios improvisados de três e quatro andares, rapazes com pistolas na cintura trocam informações por rádios transmissores sobre tudo o que acontece no chão. Vivem na expectativa de ataques de um grupo rival ou de invasões da polícia. Eles próprios se definem como bandidos.

    Quando a reportagem chega e se identifica, eles passam mensagens e autorizam a subida. Orelha e Perverso, 26, recebem a equipe em uma sala. Têm o corpo marcado por tatuagens. Explicam que fazem parte da cadeia de tráfico de drogas da região. Outras pessoas acompanham a conversa.

    Estão armados e carregam granadas, mas não agem de maneira hostil. Aceitam posar para fotos, os rostos cobertos por camisetas. Dizem que podemos perguntar o que quisermos, desde que não fique registrado no texto de que favela são, e não revelam seus nomes verdadeiros.

    “Eu entrei para o crime porque minha família toda estava envolvida, primos, irmão. Não tinha como me espelhar em outras coisas”, diz Perverso.

    Orelha diz que começou pelo dinheiro e que hoje em dia gosta de ser traficante. “Já tive muito dinheiro e não saí até agora. É gostar de estar dessa forma aí, entendeu? Podem falar que não, mas nós, dessa forma, muitos [nos] respeitam. E nós estamos aí para não sermos oprimidos por ninguém, entendeu?”

    Os dois traficantes dizem que já foram presos por homicídio e que estão foragidos. Fazem parte de uma facção criminosa, com tentáculos em todo o país, que tem no tráfico de drogas sua principal fonte de renda.

    Dizem que a venda de substâncias ilícitas não vai acabar, quaisquer que sejam as tentativas da polícia. “Morre um, nasce outro”, diz Orelha, que afirma que não são eles os causadores da violência: “Se eles [policiais] não vierem aqui, nós não vamos até eles. Mas, se vierem, vai ter troca de tiro”.

    Os buracos das paredes dos becos do morro confirmam a ameaça. As estatísticas também. O Rio de Janeiro é um estado violento, com taxa de 37,6 homicídios a cada 100 mil habitantes, maior que a média nacional de 31,6.

    É o resultado de uma disputa das facções criminosas que brigam entre si pelo controle de territórios e mercados e com as polícias Civil e Militar –responsáveis por um terço dos assassinatos na cidade, segundo os dados oficiais.

    O Rio é uma espécie de microcosmo da violência nacional e emblema do fracasso do Estado brasileiro em lidar com as drogas ilegais ao privilegiar o enfrentamento e o encarceramento em massa.

    Na comemoração dos primeiros cem dias de seu governo, o presidente Jair Bolsonaro lançou a nova Política Nacional sobre Drogas com o então ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro. Apesar de envolver também os ministérios da Saúde, Cidadania e Família, o foco do texto é o combate ao crime organizado e as ações repressivas para reduzir a oferta de substâncias ilegais.

    O texto diz considerar a posição majoritariamente contrária da população brasileira quanto à legalização de drogas. Com efeito, pesquisa Datafolha de 2018 mostra que dois a cada três brasileiros se dizem contrários à liberação da maconha no país.

    A política destaca ainda a venda de bens apreendidos do tráfico de drogas (cujos leilões passaram dos R$ 92 milhões no primeiro semestre deste ano) e ações de inteligência com resultados elogiados por especialistas, como a operação Caixa Forte, deflagrada no fim de agosto, com mais de 400 mandados de prisão para desarticular o braço financeiro do PCC e bloquear mais de R$ 250 milhões, ou a operação Rei do Crime, do fim de setembro, que bloqueou R$ 730 milhões da facção.

    Movimento na Estrada da Gávea, na Favela da Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro – Eduardo Anizelli/Folhapress

    O governo federal tem atuado contra propostas de flexibilização. No começo de setembro, o ministro da Justiça, André Mendonça, encaminhou a deputados moção de repúdio ao projeto de lei 399/2015, que propõe legalizar o cultivo da cânabis no Brasil para uso medicinal e industrial.

    A carta destaca efeitos nocivos do uso crônico da maconha e diz que o consumo de drogas é grave problema de saúde pública com impactos nos espaços familiares e sociais. Afirma, por fim, que houve aumento do uso de cânabis em países que flexibilizaram o controle.

    Não é bem assim. Estudos da epidemiologista psiquiátrica brasileira Sílvia Saboia Martins, da Universidade Columbia (EUA), mostram que não houve alteração significativa no uso de maconha por adolescentes nos estados americanos onde ocorreu autorização para uso medicinal.

    Suas pesquisas tomam por base o detalhado Levantamento Nacional sobre Uso de Drogas e Saúde dos Estados Unidos (NSDUH, na sigla em inglês) e concluem que, mesmo onde se liberou o uso recreativo, houve aumento discreto de consumo só a partir dos 21 anos; entre adolescentes do sexo masculino, observou-se até mesmo um recuo.

    O professor da Universidade de São Paulo Leandro Piquet Carneiro, especialista em políticas públicas, diz que há duas coisas positivas na forma como o Brasil trata as drogas: um setor ativo de saúde pública, para tratar dependentes, e o fato de a legislação ser branda com os usuários.

    Para ele, enquanto vivermos em um regime de proibição de drogas, há pouca alternativa à resposta pela via da segurança pública.

    “Vivemos numa região produtora de cocaína, ao lado de três países produtores [Colômbia, Bolívia e Peru]. Isso tem impacto na disponibilidade da droga, por aqui, com o crack, com propagação de centros de consumo por todo o país, que tem um efeito criminogênico muito forte. Há também disputa por pontos de venda no varejo. O sistema internacional de proibição obriga os países a terem uma resposta pela [via da] segurança pública”, diz.

    Os traficantes Orelha, 22, e Perverso, 26, que assumem ter cometido homicídio e estar foragidos, mostram armas em favela no Rio – Eduardo Anizelli/Folhapress

    O delegado Orlando Zaccone, que estudou o tráfico em sua dissertação de mestrado e é autor do livro “Acionistas do Nada – Quem São os Traficantes de Drogas”, defende a legalização das drogas porque, em suas palavras, o tráfico é um crime sem vítimas.

    “O usuário não é vítima, porque ele é criminalizado, inclusive. A saúde pública está sendo ofendida muito mais com a proibição”, diz. “Não existe coisa que ofenda mais a saúde pública do que uma guerra.”

    A cabeleireira Raquel Sabino, 24, perdeu o pai, Sebastião Sabino da Silva, em um confronto que durou mais de uma semana no Jacarezinho, zona norte do Rio, em 2017. O feirante paraibano se mudara para o Rio para sustentar os 13 irmãos após perder o pai. Começou com uma barraca de batata frita, comprou outra de milho e foi ampliando o negócio até adquirir um depósito de bebidas, quando já tinha sete filhos.

    Raquel Sabino, moradora do Jacarezinho cujo pai, Sebastião Sabino, foi morto pela polícia – Eduardo Anizelli/Folhapress

    Em 2017, durante uma operação policial, ficou nervoso com o sumiço da filha mais nova, à época com 13 anos, e saiu a sua procura. Na rua, tomou três tiros da polícia: no pescoço, na boca e no coração.

    “Ele era tão forte que conseguiu ainda chegar à calçada e pedir resgate. Ficou uns 40 minutos mais ou menos agonizando, e os policiais falando que não iam deixar socorrê-lo porque ele era traficante [na versão da polícia]. Meu pai teve que ser carregado em cima de uma porta”, conta Raquel.

    Desde então ela sofre com síndrome do pânico e diz que se enrola nos lençóis sempre que há operações. “Eu luto muito para poder sair daqui. É horrível. Qualquer barulhinho já me assusto, me abaixo.”

    Viela da Favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio de Janeiro – Eduardo Anizelli/Folhapress

    No Jacarezinho, controlada pelo Comando Vermelho, a reportagem foi interpelada por um grupo de rapazes armados assim que entrou, perto de uma linha de trem de onde parte das dormentes dos trilhos foi arrancada e fincada na rua ao lado, para impedir o avanço de carros da polícia. Passantes carregam pistolas e fuzis nas ruas.

    A apreensão de armamento do tráfico é uma das justificativas para as operações policiais nessas comunidades. Com a pandemia da Covid-19, no entanto, elas foram limitadas pelo Supremo Tribunal Federal, que agora exige da polícia justificativa e comunicação ao Ministério Público como precondição para as incursões.

    Em manifestação ao STF, o governo do Rio criticou a medida, que disse criar “zona de proteção para as organizações criminosas de narcotraficantes e de milicianos, o que redundará, em poucos meses, no aumento recorde dos indicadores de criminalidade.”

    Jacarezinho é uma comunidade na zona norte do Rio mais fechada que outras favelas onde hoje até turistas são bem recebidos, como a Rocinha ou o Vidigal, na zona sul.

    O segurança Airã de Oliveira, 29, morador do Jacarezinho desde que nasceu, não nega que o crime seja violento. “Infelizmente, a gente cresceu com isso”, diz. Ele brinca com a reportagem quando passa diante de um açougue com galinhas vivas na porta. “Não gosto nem de ver animal sendo morto. Para quem já viu o que eu vi, é engraçado, né. Quando eu era criança, vi até jogo de futebol com cabeça de gente.”

    Oliveira conta que perdeu 21 amigos com quem cresceu, mortos pelo tráfico ou pela polícia. Também perdeu o pai, que era envolvido com o crime e foi morto por cúmplices. “Era uma vida que não queria para mim.”

    Airã de Oliveira, morador do Jacarezinho, cujo pai foi morto pelo crime – Eduardo Anizelli/Folhapress

    Com a polícia, porém, a relação é diferente. Há dois anos, um primo levou um tiro no pescoço dentro de casa, disparado por um policial que o confundiu com um traficante, e ficou paraplégico. “Eu não sei explicar por que têm tanta raiva da gente. Nós moradores não temos nada a ver com essa guerra, não é culpa nossa.”

    “A gente sai da favela e já é enquadrado, tem de abrir os braços, abrir as pernas para eles revistarem. Aquele sentimento de medo, de fazer um movimento errado, de ganhar um tiro”, desabafa. “Um negro de 1 metro e 90…”

    Negros são 75% das vítimas de homicídios no país, segundo o Atlas da Violência de 2020, apesar de representarem 56% da população. Enfrentam risco 2,7 vezes maior de serem mortos do que pessoas não negras.

    Com 750 mil pessoas encarceradas, segundo dados do ano passado do Departamento Penitenciário Nacional, o Brasil tem a terceira maior população encarcerada do mundo em números absolutos, atrás apenas dos EUA (2,1 milhões) e da China (1,7 milhão). No Brasil, são mais de 350 presos para cada 100 mil brasileiros, total que cresceu aceleradamente no último século .

    A explicação mais aceita para o fenômeno é a atual Lei de Drogas, de 2006, que paradoxalmente tentava reduzir o encarceramento de usuários impondo-lhes penas alternativas. Mas o texto não define uma quantidade objetiva de droga para classificar alguém como traficante, abrindo margem para que usuários sejam condenados por tráfico.

    Um recurso da Defensoria Pública de São Paulo pede que a criminalização da posse de drogas para uso pessoal seja considerada inconstitucional. Começou a ser examinado em 2015 e foi liberado para julgamento pelo ministro Alexandre de Moraes em 2018, mas até hoje não foi colocado na pauta do Supremo Tribunal Federal.

    O tráfico de drogas é o segundo crime com maior incidência nos presídios, correspondendo a uma a cada cinco prisões. Entre as mulheres, esse índice chega a 51%. A maior parte é de jovens (45% tem até 29 anos) e negros (67% da população carcerária). Hoje, 30% dos presos do país ainda não foram a julgamento.

    “Os dados disponíveis mostram que os presos não são os traficantes que se impõem tiranicamente sobre comunidades pelo uso da força, mas varejistas do comércio de substâncias ilícitas, que têm sido presos sem porte de arma, sem prática de violência e sem vínculo conhecido com facção”, diz o antropólogo e escritor Luiz Eduardo Soares.

    Isso acontece, em seu raciocínio, porque a Polícia Militar é pressionada a produzir, e entende isso por prisão. Como não pode fazer investigações, atribuição da Polícia Civil, procura fazer prisões em flagrante, muitas delas por tráfico de drogas. “Temos um filtro seletivo de cor, classe e território que é o da prisão em flagrante”, afirma.

    Policiais na entrada da Favela da Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro – Eduardo Anizelli/Folhapress

    Dentro da cadeia, o preso vai precisar se aliar a uma facção criminosa para sobreviver, e deverá lealdade a ela quando sair da prisão. “Nós estamos pavimentando uma carreira no crime, contratando violência futura.”

    O Rio de Janeiro tem hoje quatro principais grupos criminosos. O maior e mais conhecido deles é o Comando Vermelho, mas há também o Terceiro Comando Puro e o Amigos dos Amigos, além das milícias, que também fazem tráfico de drogas.

    As quadrilhas são chamadas de facções prisionais justamente por surgirem ou se fortalecerem dentro do sistema carcerário, como é o caso da paulista Primeiro Comando da Capital. As facções têm células em todo o país e associações no exterior para produção e escoamento internacional de drogas.

    Piquet Carneiro, da USP, diz concordar que as prisões fortalecem as facções criminosas. Mas, para ele, o encarceramento tem importante efeito dissuasório, por provocar um medo de ser preso entre pessoas que pensam em entrar para o crime, e incapacitante, por tirar bandidos da rua.

    Os moradores de favelas questionam as ações da polícia, mas não o tráfico. Para Maicon Almeida, 32, morador do Complexo do Alemão, não faz sentido comparar o Estado com o poder paralelo. “Eu não reclamo do tráfico porque aqui impera o tráfico, não tem como chegar e falar que não é pra fazer isso, não é pra fazer aquilo. O Estado eu posso e eu devo cobrar.”

    O Complexo do Alemão, onde Almeida vive, virou símbolo do sucesso e, em seguida, do fracasso da política de combate ao tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Dez anos atrás, após uma semana de ataques pela cidade, forças estaduais e nacionais ocuparam a favela, prenderam traficantes e fincaram uma bandeira nacional no alto do morro.

    “Eu olhava para um lado, via o tráfico. Na TV, a polícia chegando. E você no meio daquilo.”, conta Almeida, que já viu uma série de incursões policiais. A primeira de que se lembra foi em 1992, quando militares ocuparam a favela para garantir a segurança das autoridades que foram à conferência Eco-92. À época, exigiam até carteira de trabalho dos moradores que queriam passar pelo cerco.

    “Não é eficaz. Se fosse, já tinha acabado [o crime]. Nunca mudou, e não é assim que vai mudar”, diz ele. “Precisamos acabar com o tráfico de drogas. Tu olha pra cá, onde tem plantação de maconha aqui? Como chega arma? Criminalizam esse lugar, dizem que todo mundo aqui ou é bandido ou amigo de bandido ou tem parente bandido. Para grande parte da população todo mundo aqui é conivente com o tráfico. Mas ninguém é conivente com ninguém.”

    Maicon de Almeida, morador do Complexo do Alemão – Eduardo Anizelli/Folhapress

    A diferença de tratamento ficou patente quando Almeida estudava em Botafogo, na zona sul. Os colegas fumavam maconha perto de policiais sem qualquer pudor e não eram abordados.

    O delegado Zaccone, quando atuava em Jacarepaguá, zona oeste da cidade, fazia registros de quatro prisões em flagrante por tráfico de drogas por plantão. O território de sua delegacia abarcava favelas como a Cidade de Deus.

    “Fui transferido para a Barra da Tijuca, área nobre, e ficava até seis meses sem fazer nenhum flagrante. Você olhava os boletins de ocorrência e pensava que não havia tráfico de drogas na Barra. É lógico que isso não era verdade”, afirma.

    “O que você tem são políticas criminalizadoras e ações de segurança diferenciadas”, diz o policial. Se o objetivo da repressão policial é reduzir o consumo e a circulação das drogas e proteger a saúde pública, a política no país tem fracassado, afirma o delegado.

    “O espaço do pobre e o pobre são considerados o tempo inteiro como perigosos. O que legitima esse controle violento das favelas do Rio e das periferias do Brasil é a proibição à droga. Por esse aspecto, eu poderia dizer que a proibição tem resultados positivos para a manutenção dessa ordem desigual em nosso país.”

    Brendo Oliveira, 16, em sua casa no Complexo do Alemão – Eduardo Anizelli/Folhapress

    Brendo Oliveira, 16, negro e morador do Complexo do Alemão, sabe bem o que é isso. “A vida aqui é bem difícil, por conta de tiroteio. A gente está aí, tranquilão, crianças brincando, tem tiroteio, acerta morador, e você não sabe nem de onde vem”, diz ele.

    Oliveira perdeu o pai e um tio, traficantes, que morreram em trocas de tiros, mas está seguro de que não quer isso para si. “É morte ou cadeia. Eu sou totalmente diferente do meu pai. Minha vida é outra, judô, jiu-jítsu, futebol, arte, fotografar. “

    O jovem mora perto da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Fazendinha, prédio com buracos de bala nos vidros e placas de ferro para conter os projéteis. A instalação fica no alto de um morro, ao lado de uma estação do teleférico desativado.

    Quando criada, em 2012, a UPP ficava em uma área vibrante, movimentada pelos turistas que usavam o teleférico e enchiam os bares e a feira de artesanato local. Na estação havia uma clínica de saúde da família e projetos sociais, como aulas de judô para crianças nas quais Brendo começou a praticar a luta.

    Acima, vista do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro; abaixo, Laureana Sousa, a Mineira, com o marido, Galileu, e os filhos no Complexo do Alemão – Eduardo Anizelli/Folhapress

    O fechamento do teleférico em 2016 reduziu o movimento, e as atividades foram se encerrando aos poucos, até que a estação foi ocupada pela polícia e fechada ao público. A unidade passou a ser tudo menos pacificadora, desabafa Laureana Sousa, 34, mais conhecida como Mineira.

    Dona de um bar atrás da UPP, ela aponta a relação tensa da corporação com os moradores da região: “Sem a polícia aqui, os moradores sabem as regras do morro, o que pode e o que não pode, cada um faz sua parte e não tem violência. Você vive uma vida inteira tranquilo, porque bandido não bate na porta de morador. Agora, a polícia entra, invade, bagunça, humilha uma mãe de família”.

    “Os nossos governantes, hoje em dia, querem cancelar CPF, não importa de quem. Para eles, nossos filhos, dentro da comunidade, já são sementes do mal. A criança está crescendo pra virar bandido, então qualquer coisa que eles matarem dentro da favela está bom”, afirma.

    A repressão ao tráfico de drogas acaba concentrada na ponta do negócio, diz o delegado Zaccone, no varejo, onde o lucro é menor, e não na produção da droga ilícita. “O efeito disso é que esse mercado se mantém forte economicamente, e a gente tem uma quantidade imensa de jovens negros pobres encarcerados e mortos em ações policiais.”

    Na cidade do Rio de Janeiro, a polícia matou no ano passado 726 pessoas, 38% dos 1.913 habitantes que morreram de forma violenta na capital fluminense.

    O governo estadual do Rio de Janeiro não deu entrevista para esta reportagem, mas enviou nota afirmando que 81% das 1.413 favelas do estado sofrem com grupos ligados ao tráfico de drogas e 19% sofrem com a ação de milicianos.

    O governo calcula que haveria cerca de 40 criminosos em cada uma dessas favelas, chegando a estimativa de 56.620 criminosos em liberdade portando armas de fogo de grosso calibre e atuando para o tráfico de drogas ou grupos de milicianos em todo o estado.

    “É dentro dessa realidade que acontecem as operações realizadas pelas polícias Civil e Militar, que têm como principal objetivo localizar criminosos e apreender armas e drogas”, segue a nota. “Essas ações são pautadas por informações da área de inteligência e seguem protocolos rígidos de execução, sempre com a preocupação de preservar vidas.” O estado diz que o número de homicídios no último mês de agosto foi o menor desde 1991, assim como o consolidado de 2019.

    Os números do próprio governo mostram que entre junho –após a proibição pelo STF de operações violentas em comunidades sem justificativa prévia– e agosto (último dado disponível), 798 pessoas foram assassinadas no estado, ante 1.001 no mesmo período do ano passado. Uma redução de 20%, que ajudou a reverter a tendência de alta na letalidade policial em plena pandemia.

    Vista da cidade do Rio de Janeiro a partir do mirante Dona Marta – Eduardo Anizelli/Folhapress

    https://arte.folha.uol.com.br/mundo/2020/estado-alterado-as-politicas-para-drogas-pelo-mundo/brasil/efeitos-da-guerra-as-drogas/

  • Por que o Norte está na parte superior da maioria dos mapas do mundo?


    As explicações passam por questões religiosas, espirituais e políticas

    4.jun.2022 às 12h55

    POR JERRY BROTTON – DA BBC RÁDIO 4, SÉRIE ‘ONE DIRECTION’ *

    Poucas coisas parecem mais naturais do que os quatro pontos cardeais.

    Onde quer que você esteja no planeta, você pode ver o Sol nascendo no Leste e se pondo no Oeste. O zênite do sol identifica o Sul, enquanto outra estrela, a estrela polar, lhe dirá onde está o norte. Sem os pontos cardeais estaríamos perdidos. Mais do que pontos em um mapa ou bússola, são ideias poderosas com significados políticos, morais e culturais.

    Mapa do astrônomo e geógrafo grego Claudio Ptolomeo
    Mapa do astrônomo e geógrafo grego Claudio Ptolomeo – BBC News Brasil/Getty Images

    Mas por que o Norte acabou no topo da maioria dos mapas do mundo?

    Embora as quatro direções cardeais de uma bússola sejam definidas pelas realidades físicas do polo norte magnético (norte-sul) e do nascer e pôr do sol (leste-oeste), não há razão para o norte automaticamente receber essa “distinção”. O Sul e o Leste poderiam muito bem ocupar esse lugar, e o fizeram no passado.

    O Oeste no mapa

    Embora tenha dado origem a um dos conceitos mais poderosos e intangíveis – o Ocidente ou o mundo ocidental – as sociedades antigas recusavam-se a privilegiar o Ocidente como lugar onde o sol se punha.

    'Calypso's Grotto', Francis Danby, ca. 1843
    Para muitas culturas, o pôr do sol e o Oeste simbolizavam o fim da vida

    O pôr do sol personificava o fim da jornada da vida, antecipando a escuridão e o reino da morte, de modo que quase nenhuma cultura o escolheu como orientação sagrada para a oração, e menos ainda o colocou no topo de seus mapas. Ele era colocado na área inferior dos mapas, como no mapa-múndi de Hereford, um dos grandes mapas medievais, no qual ao olhar para baixo você chega ao oeste, onde o julgamento final espera por você.

    Essa posição está associada a uma sensação de fim, de prenúncio, de escuridão e decadência. E nas bordas do mapa estão as letras MORS, a palavra latina para “morte”. Mas se o Oeste estiver na parte de baixo dos mapas, o Leste estará na parte de cima.

    O Leste e o nascer do sol

    Na história dos pontos cardeais, tudo começa no Leste com o nascer do sol. O oriente tem sido desde tempos imemoriais um símbolo de nascimento, do início da jornada da vida. Oriente vem do latim oriens, aparecer, nascer. É a raiz do termo “orientação”, a principal forma de nos localizarmos no espaço.

    O leste foi definido em oposição ao oeste ao longo do eixo horizontal que precedia o norte-sul. No cristianismo primitivo, o Leste é a localização do paraíso, uma razão poderosa pela qual ele é posicionado no topo de muitos mapas-múndi.

    Mapa mundi de Hereford
    Mapa-múndi de Hereford, feito em 1300

    No mapa mundi de Hereford, abaixo de Cristo, sentado em um arco-íris, está o Jardim do Éden. Abaixo, a Torre de Babel e no centro, Jerusalém. Na parte inferior, a oeste, estão os pilares de Hércules, que podem ser interpretados como o fim dos tempos.

    Fora do mundo terrestre, nas bordas do mapa, o tempo terrestre termina e é substituído pelo eterno presente do céu, onde não há necessidade de pontos cardeais. E no canto inferior do mapa há uma figura saindo do quadro, olhando para o mundo que ele está deixando. A inscrição acima diz: “continue”.

    A figura parece sair desta vida, mas olha ansiosamente para o topo do mapa, para o leste, aquele lugar de renascimento, onde toda a vida começa. Este mapa-múndi foi feito em couro de bezerro por volta de 1300.

    Coberto por mais de 1.000 inscrições, ilustrações de labirintos e monstros, é uma vasta enciclopédia visual do conhecimento cristão e retrata a criação bíblica da humanidade. Por que foi criado permanece um mistério?

    Embora não seja um mapa convencional, pois ao invés de mostrar um caminho físico traça um caminho espiritual, é a prova de que os mapas poderiam ter o leste como norte.

    É que “a morada também tem a ver com identidade, que é uma declaração espiritual e teológica, não geográfica”, sublinha o historiador dos mapas islâmicos Yossef Rappaort.

    O Sul nos mapas do mundo islâmico

    A direção geográfica tem sido extremamente importante para o ritual na vida diária desde o início do Islã.

    Mapa-múndi de Al-Idrisi
    Mapa-múndi de Al-Idrisi, com o sul no topo
    Tabula Rogeriana
    Tábula Rogeriana, feita por Al-Idrisi para Roger II en 1154

    A “qibla” ou “quibla” é a direção sagrada da oração para Meca. À medida que mais tribos ao norte de Medina, a cidade onde o profeta Maomé viveu e ensinou, se converteram ao islamismo, o quibla se estabeleceu ao sul. “Isso impactou a maneira como eles viam o mundo, então fazia sentido que, escolhendo uma direção cardinal sobre as outras, eles escolhessem essa.” É por isso que a maioria dos mapas-múndi islâmicos posicionam o sul na parte superior.

    Um dos mapas mais famosos posicionando o sul na parte superior foi feito em 1154 por Al-Idrisi, que viveu na corte do rei normando cristão Roger 2º da Sicília, embora fosse muçulmano.

    “Nesses mapas, a Europa está na parte inferior e muitas vezes é muito menor do que estamos acostumados”, observa Rappaort. Embora não seja o foco desses mapas, o continente europeu tem um belo nome: “‘A diversão de quem anseia por viajar pelos horizontes’. Essa é a tradução literal”, diz o historiador.

    América Invertida
    “América Invertida”, obra do pintor uruguaio Joaquín Torres-García de 1943.

    Séculos depois, o Sul ressurgiu no topo, com obras como “América Invertida” do pintor uruguaio Joaquín Torres-García (1874-1949) e o icônico Mapa Corretivo Universal do Mundo de 1979 do australiano Stuart McArthur. MacArthur escreveu na legenda do mapa: “O Sul não vai mais chafurdar em um poço de insignificância carregando o Norte em seus ombros por pouco ou nenhum reconhecimento de seus esforços. Finalmente, o Sul emerge por cima.”

    Por que o Norte começou a aparecer no topo?

    O Norte é o mais contraditório dos pontos cardeais. É um lugar desolado e escuro. Um deserto congelado de exílio, punição e até morte. Monstros e demônios enchiam as regiões congeladas do norte dos mapas cristãos medievais. Mas é também uma região de beleza austera, gerando maravilha, revelação e, com a Estrela Polar, constância, até salvação.

    Mapa de estrelas
    ‘Se há algo que explica por que tendemos a colocar o norte no topo, acho que é o Polaris’ diz Felipe Fernández-Armesto, especialista em história da navegação e cartografia

    O Norte também é único entre os quatro pontos cardeais, devido ao polo físico do campo magnético da Terra. As correntes de convecção combinam a eletricidade com o núcleo planetário de ferro e níquel, criando um campo geomagnético que gira em torno do planeta e se espalha pelo espaço.

    No entanto, como não possuímos uma bússola neurológica interna, do ponto de vista científico, não temos um sentido inato do norte magnético. Então, por que ele acabou por padrão no topo do mapa-múndi é uma questão que ainda divide os historiadores. Sabemos por que os chineses o tinham ali, embora as primeiras bússolas chinesas apontassem para o sul, o que era considerado mais desejável do que o norte escuro. O imperador vivia no norte do país e sempre tinha que aparecer no topo do mapa, olhando seus súditos de cima para baixo.

    E os demais mapas com o Norte no topo?

    “Se há algo que explica por que tendemos a colocar o Norte no topo, acho que é o Polaris”, diz Felipe Fernández-Armesto, especialista em história da navegação e cartografia. “O verdadeiro salto para o norte veio com a expansão da navegação em alto mar. Essa estrela do norte foi absolutamente crítica para os navegadores se localizarem naqueles mares desconcertantes, onde não há características físicas para dizer onde você está.”

    El mapa del mundo de Gerardus Mercator, de 1569
    Mapa de Gerardus Mercator, de 1569

    Se for para apontarmos um momento decisivo para a fixação do norte no topo do mapa-múndi, seria 1569 e a publicação do cartógrafo flamengo Gerardus Mercator. Seu mapa, famoso por ser o primeiro a levar em conta a curvatura da Terra (embora não seja o primeiro a colocar o Norte no topo), foi projetado para ajudar os marinheiros a navegar pelo mundo, usando linhas de latitude e longitude para traçar um caminho reto.

    O Norte está no topo, mas não porque importasse mais, muito pelo contrário. Os Polos Norte e Sul projetam-se ao infinito e “não importava”, segundo Mercator, pois não havia interesse em navegar até eles. O mapa de Mercator tornou-se a cartografia padrão para fins náuticos. Na década de 1970, foi usado como base para mapear a superfície de Marte. O norte de Mercator havia triunfado mesmo em planetas distantes. Mas, de volta à Terra, pelo menos como ponto cardeal, essa posição já não é mais tão privilegiada.

    Mapas virtuais

    Nas últimas décadas, a maioria das pessoas carrega seu próprio atlas virtual no telefone. O ponto mais importante é aquele pequeno ponto azul em nossos aplicativos de mapa que seguimos sem muito cuidado com as direções da bússola ou o terreno pelo qual estamos nos movendo.

    GPS
    A localização dos pontos cardeais perdeu importância diante dos mapas virtuais que usamos nos aplicativos de celular

    “Com o mapeamento tradicional de mapas, trata-se de ter uma visão geral da área de interesse. Você se coloca mentalmente lá e navega usando as habilidades que aprendeu na infância”, explica Ed Parsons, tecnólogo espacial-chefe do Google.

    “No mapeamento online, os pontos cardeais são menos relevantes.” “Com o Google Maps, seu telefone sabe onde você está e o mapa que você vê é orientado de forma a te colocar no centro. É autocentrado. Você é o centro do mapa e a direção em que está viajando está à sua frente.” “A geração que cresceu com smartphones pode nunca saber como é estar perdido.”

    Alguns observadores temem, no entanto, que estejamos virtualmente conectados, mas ambientalmente separados do mundo físico, habitando um reino confuso de analfabetismo espacial. “As habilidades de orientação foram essenciais para a sobrevivência ao longo de nossa história evolutiva”, diz o jornalista científico Michael Bond.

    “A relação que você tem com a paisagem pela qual está viajando não se reduz a seguir um conjunto de instruções. Obter informações do lugar ao seu redor ajuda a construir um mapa cognitivo.” Pela primeira vez na história, podemos estar perdendo muitas das habilidades e ferramentas espaciais que nos sustentaram por milênios.

    Em outras palavras, podemos estar perdendo o Norte.

    https://www.bbc.com/portuguese/geral-61691283#:~:text=O%20norte%20est%C3%A1%20no%20topo,cartografia%20padr%C3%A3o%20para%20fins%20n%C3%A1uticos.

    Essa reportagem é uma adaptação de um episódio da série da BBC Radio 4 “One Direction”, do historiador e autor Jerry Brotton.

    Questões

    Compreensão Geral

    Qual é o motivo principal pelo qual o Norte acabou no topo da maioria dos mapas do mundo?

    Como as diferentes culturas históricas encaravam o Leste e o Oeste em seus mapas?

    De acordo com o texto, qual foi a principal mudança tecnológica que diminuiu a importância dos pontos cardeais nos mapas?

    Detalhamento Cultural e Histórico

    Por que o Leste foi tão importante em muitos mapas antigos, especialmente nos contextos cristãos?

    Qual é a razão apresentada no texto para a maioria dos mapas-múndi islâmicos posicionarem o Sul no topo?

    Como o mapa de Hereford reflete a visão medieval do mundo?

    Navegação e Cartografia

    Como a Estrela Polar influenciou a escolha do Norte como ponto de orientação principal nos mapas?

    Qual foi a contribuição de Gerardus Mercator para a cartografia, e como ela influenciou a preferência pelo Norte no topo dos mapas?

    Reflexão Crítica

    Por que o texto sugere que estamos “perdendo o Norte” na era dos mapas digitais e dos smartphones?

    De que maneira a mudança de mapas tradicionais para mapas virtuais pode impactar nossa relação com o mundo físico e nossa habilidade de orientação espacial?

    Análise de Impacto Cultural e Político

    Como os pontos cardeais, mais do que simples direções, possuem significados políticos, morais e culturais?

    Como a escolha de uma direção cardeal para o topo dos mapas pode refletir as perspectivas e valores de uma sociedade?

    Interpretação Contextual

    No texto, qual é o significado associado ao Oeste e como isso afetou sua posição nos mapas antigos?

    Por que o Sul ganhou destaque em obras como “América Invertida” de Joaquín Torres-García e o Mapa Corretivo Universal do Mundo de Stuart McArthur?

    Aplicação Prática

    Como a orientação pelos pontos cardeais foi essencial para a sobrevivência humana ao longo da história?

    Que lições podemos aprender ao refletir sobre como diferentes culturas e períodos históricos abordaram a orientação nos mapas?

    Conclusão e Pensamento Futuro

    Como podemos equilibrar o uso de tecnologias de navegação modernas com a preservação de nossas habilidades de orientação natural?

    O que você acha que o texto sugere sobre a importância de mantermos um senso de orientação no mundo físico, apesar dos avanços tecnológicos?

    Prof Luciano Mannarino

    Governo altera mapa do semiárido, inclui cidades do ES e exclui do Nordeste (EF06G03 – EF07GE02 – EF07GE09 – EM13CHS106)

    A formação do Território Brasileiro (EM13CHS204)

    Significado do nome de cada Bairro da Cidade do Rio de Janeiro.

  • O que sobra?

    O que sobra?

    Quando nos momentos vividos não encontramos ensinamentos e a vida se resume a satisfazer demandas de um corpo.

    O que sobra?

    Prof Luciano Mannarino

  • A superfície da Terra está subindo embaixo dos nossos pés

    Camada de gelo mostra sinais de derretimento a oeste do Alasca, em imagem feita em 4 de fevereiro de 2014 por satélites da Nasa. O estreito de Bering, coberto com gelo, se situa entre Alasca e Rússia Imagem: MODIS/Aqua/NASA Brian K. Sullivan 27/03/2015 18h07

    Brian K. Sullivan

    27/03/2015 18h07

    Nos EUA, nos últimos doze meses, houve alertas mais do que suficientes de como o clima pode afetar nossas vidas. A Califórnia está entrando no quarto ano de seca porque não teve neve suficiente. Boston está começando a emergir de uma quantidade recorde de neve. Quase todos os dias, voos são cancelados, crianças perdem aulas e pais enviam cheques às seguradoras para para se protegerem de inundações, furacões e tornados.

    No entanto, também existem impactos de longo prazo que a maioria das pessoas talvez não perceba. Por exemplo, se você mora no Canadá, no norte dos EUA ou em determinadas partes da Europa, o solo sob seus pés está subindo. E o motivo, de certo modo, é o clima.

    Mas não o clima no sentido da chuva de ontem ou do vento da semana passada. O fenômeno foi causado pelas neves que se acumularam e criaram enormes mantos de gelo que cobriram a terra na última Era do Gelo. OK, foi muita neve, por um longo período de tempo, mas a questão tem mais a ver com o clima do que simplesmente com as condições meteorológicas

    Independentemente da causa, a mudança é perceptível. “Podemos monitorá-la em tempo real”, disse Theresa Damiani, pesquisadora de geologia da Investigação Geodésica Nacional (NGS), da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA), em Camp Springs, Maryland.

    Compensação da Terra.

    O peso dos mantos de gelo, que tinham diversos quilômetros de espessura em alguns lugares, empurrou a superfície da Terra para baixo. Quando o gelo derreteu e recuou, o solo começou a subir novamente. A NOAA descreve o fenômeno como o que acontece quando um colchão velho volta ao formato original depois que uma pessoa se levanta de manhã. Quando os mantos de gelo começaram a recuar, ocorreu uma recuperação rápida em muitas regiões, que desacelerou ao longo dos séculos, disse Damiani.

    “O solo vem se recuperando e continua nisso”, disse Damiani. “Leva um período muito longo”.

    A superfície da Terra sobe cerca de 1 milímetro por mês no Canadá e aproximadamente a mesma quantidade ao longo de um ano nos EUA, disse ela. Para um lugar como a Baía de Hudson, no Canadá, as mudanças seriam visíveis ao longo da vida de uma pessoa, disse ela.

    “Se você construiu um atracadouro, parece que o oceano está baixando”, disse Damiani.

    Não é que o nível do oceano esteja caindo? É que a terra está voltando a subir.

    Ao calcular o aumento dos oceanos devido ao atual derretimento das geleiras e dos mantos de gelo, os pesquisadores precisam levar em consideração essas taxas de recuperação, de acordo com um relatório da NOAA publicado em dezembro de 2012. Área coberta É claro que a terra só está subindo nas áreas cobertas pelo manto de gelo. No hemisfério ocidental, essa região abrange quase todo o Canadá até a Nova Inglaterra, passando pelos Grandes Lagos e chegando à Região Centro-Oeste, às Grandes Planícies do norte e ao Noroeste do Pacífico.

    Além do limite dos lugares em que o gelo empurrou o solo para baixo, existem áreas onde a superfície está, na verdade, assentando-se mais abaixo. O que aconteceu aí é que o terreno na beira dos mantos de gelo se comportou como a geleia que se esparrama para fora de um sanduíche esmagado.

    As mudanças podem provocar pequenos terremotos, embora eles sejam muito fracos e passem despercebidos para a maioria das pessoas.

    O movimento é acompanhado por meio de satélites de posicionamento global e é utilizado para assegurar que os mapas continuem sendo exatos, disse Damiani. “A tarefa da minha agência, a NGS, é a de monitorar o formato do planeta”, disse Damiani. Os países escandinavos também monitoram a lenta taxa de recuperação da superfície ao longo dos últimos 14.000 anos, um ou dois séculos a mais ou a menos, desde que os mantos de gelo atingiram o auge na última Era do Gelo.

    A paciência é, sem dúvida, um dos requisitos para esse trabalho.

    https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2015/03/27/a-superficie-da-terra-esta-subindo-sob-seus-pes.htm

    Prof Luciano Mannarino

    Atividade em sala (pesquisar)

    Qual a relação entre a reportagem e os estudos de Isostasia Geológica?

    O que é Glacioisostasia?

    Relacione movimento eustático e epirogênese.

    Geologia/Geomorfologia

    Conceitos de Epirogênese e de Orogênese.

    Apresentação do Professor de Geologia…