A cobertura mínima de gelo neste verão foi a décima segunda menor de todos os tempos – e os cientistas alertam que a tendência de longo prazo de encolhimento continua.
Animais do Ártico, como os ursos polares, dependem do gelo marinho. Embora a extensão mínima anual deste ano tenha sido relativamente alta, a cobertura de gelo está diminuindo com o aumento das temperaturas globais. Crédito: Ekaterina Anismova / AFP via Getty
O gelo marinho do Ártico ultrapassou sua extensão mínima neste ano, diminuindo para 4,72 milhões de quilômetros quadrados em 16 de setembro, informou o Centro Nacional de Dados sobre Neve e Gelo (NSIDC) dos Estados Unidos.
Devido a um verão ártico frio e nublado, o mínimo anual deste ano foi o mais alto desde 2014 – o gelo cobriu quase 1 milhão de quilômetros quadrados a mais do que a extensão do ano passado de 3,82 milhões de quilômetros quadrados, que foi o segundo menor já observado (consulte ‘Cobertura de gelo ‘). Mas ainda é a décima segunda menor extensão de gelo marinho em quase 43 anos de registros de satélite, e os cientistas dizem que a tendência de longo prazo é para uma cobertura de gelo mais baixa.
“Mesmo com o aquecimento global e a tendência geral de queda no gelo marinho, ainda há variabilidade natural”, diz Walt Meier, um cientista pesquisador sênior do NSIDC, que trabalha na Universidade do Colorado em Boulder.
Fonte: NSIDC
A extensão mínima do gelo marinho do Ártico está diminuindo a uma taxa de 13,1% por década. “Incluindo este ano, os últimos 15 anos tiveram as 15 extensões árticas mínimas mais baixas já registradas”, diz Meier. A menor extensão mínima já registrada foi estabelecida em 2012, depois que uma tempestade muito forte acelerou a perda de gelo fino que já estava à beira do derretimento.
“A média de todos os anos está diminuindo constantemente, enquanto a temperatura média global está aumentando”, diz Steven Amstrup, cientista-chefe da Polar Bears International em Bozeman, Montana. Ele acrescenta que, embora possa haver maior extensão de gelo marinho em um determinado ano, a frequência de anos de gelo “ruim” com uma extensão mínima de gelo marinho está aumentando. “Melhores anos de gelo são cada vez mais anômalos na tendência de longo prazo”, diz Amstrup.
Um verão fresco
As regiões árticas experimentaram uma temporada de verão mais fria e nublada do que o normal neste ano, o que foi parcialmente causado por padrões de baixa pressão atmosférica no hemisfério norte. Arctic 2.0: O que acontecerá depois que todo o gelo desaparecer?
Em junho e julho, a fraca pressão baixa no Ártico central impediu que ventos mais quentes do sul fossem atraídos para a área. Isso manteve o ar frio e impediu que parte do gelo derretesse. A baixa pressão também causa a formação de nuvens, que bloqueiam a luz solar. Isso pode retardar ainda mais o derretimento.
Em agosto, o sistema de baixa pressão mudou para o norte dos mares Beaufort e Chukchi, no Alasca, produzindo temperaturas do ar de 2 a 3 ° C abaixo da média. E os ventos de inverno do ano passado empurraram gelo mais velho e mais espesso em ambos os mares. “Então, no início do verão, o gelo estava mais espesso do que nos últimos anos, e isso o tornou um pouco mais resistente”, diz Meier. “No entanto, também é provável que haja um aspecto da mudança climática”, acrescenta. “Em geral, há menos gelo antigo e a cobertura de gelo é mais fina. Gelo mais fino é mais facilmente empurrado pelos ventos e correntes ”.
Um aumento transitório no gelo marinho pode criar melhores condições para as espécies que usam o gelo para caçar, diz Amstrup. “Mas é essa tendência descendente do mar de gelo, causada por uma frequência crescente de anos de gelo ruim, que determina o destino final dos ursos polares e de outros animais selvagens dependentes do gelo marinho.”
Estudo analisa impacto da pandemia em 29 países e cita que Brasil pode ter perdas ainda maiores
27.set.2021 às 18h01
BAURU (SP)
O impacto da pandemia de Covid-19 nos índices de mortalidade alcançou em 2020 uma magnitude não testemunhada desde a Segunda Guerra Mundial, na Europa Ocidental, ou desde a dissolução da União Soviética, na Europa Oriental.
As conclusões são de um estudo publicado neste domingo (26) no International Journal of Epidemiology e conduzido por um grupo de pesquisadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e da Universidade do Sul da Dinamarca.
O levantamento conclui ainda que a expectativa de vida ao nascer caiu, de 2019 para 2020, em 27 dos 29 países analisados —os dados são de 27 nações europeias, além de EUA e Chile; o Brasil não entrou na análise. Os grupos em que houve maior redução são os de homens americanos e lituanos (queda de 2,2 e 1,7 anos, respectivamente).
Homem que recebeu diagnóstico de Covid-19 internado no Centro do Departamento de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital San Filippo Neri, em Roma, na Itália – Alberto Lingria – 19.mar.21/Xinhua
Quedas de mais de um ano também foram registradas nas expectativas de vida em homens de 11 países e em mulheres de 8, afirma o relatório.
Para dimensionar a gravidade dessa redução, os pesquisadores explicam que esse grupo de nações levou, em média, 5,6 anos para elevar a expectativa de vida de sua população em um ano —progresso que a pandemia de coronavírus eliminou ao longo de 2020 apenas.
Ainda segundo o levantamento, mulheres de 15 países e homens de 10 terminaram o ano passado com uma expectativa de vida menor do que a registrada em 2015.
A expectativa de vida ao nascer é uma das métricas mais usadas para analisar a saúde e a longevidade de determinada população.
O índice se refere à média de anos que uma amostra de recém-nascidos viveria se estivesse sujeita aos índices de mortalidade vigentes no momento da medição. Embora não deva ser interpretado como previsão ou projeção da duração da vida em âmbito individual, ele permite a identificação de padrões nos índices de mortalidade.
Ativistas da ONG Rio de Paz, entidade de defesa dos direitos humanos, abrem covas na praia de Copacabana para chamar a atenção para as morte Pilar Olivares/Reuters
No contexto da Covid-19, explicam os pesquisadores, a expectativa de vida ao nascer permite comparar “impactos cumulativos da pandemia com choques de mortalidade no passado e tendências recentes em diferentes países”.
Assim, é possível analisar, por exemplo, os efeitos diretos e indiretos do coronavírus nos estudos populacionais. Segundo o relatório, a queda nos índices dos países avaliados se explica, entre outros motivos, pela maior mortalidade da Covid entre homens e pessoas com idade mais avançada –justamente os dois grupos que vinham puxando a curva da expectativa de vida para cima nos últimos anos.
Como efeitos indiretos da pandemia, os pesquisadores destacam o aumento do número de mortes por outras causas, devido a adiamentos e atrasos de tratamentos de doenças cardiovasculares e de câncer, por exemplo, com a sobrecarga de hospitais. Por outro lado, há indícios de que medidas de restrição do contágio, como lockdowns, tenham diminuído o número de mortes por acidentes nas estradas.
O estudo toma como base de comparação dados demográficos registrados entre 2015 e 2019. Todos os grupos analisados sofreram queda na expectativa de vida e em uma dimensão que anula quase todos os ganhos dos cinco anos anteriores, com exceção das mulheres na Finlândia e de pessoas de ambos os sexos na Dinamarca
Os países escandinavos fogem à tendência constatada no estudo devido, segundo os pesquisadores, a “intervenções precoces não farmacêuticas, juntamente com um sistema de saúde robusto”.
O fato de os EUA apresentarem resultado tão negativo pode ser explicado por algumas hipóteses levantadas no relatório. Uma delas é a de que, apesar de ter uma população mais jovem, o país apresenta maior índice de comorbidades entre pessoas com menos de 60 anos.
“Outros fatores, como aqueles ligados ao racismo estrutural e à desigualdade no acesso ao sistema de saúde entre a população economicamente ativa, podem ajudar a explicar o aumento da mortalidade”, diz o estudo. São citados artigos científicos que apontam que populações socialmente desfavorecidas nos EUA, como negros e latinos, tiveram perdas em expectativa de vida três vezes maiores do que a média nacional.
O médico Daniel Lewis, que ficou hospitalizado por um mês com Covid Erin Schaff -7.abr.2021
Apesar de não integrar a análise, o Brasil é citado nas conclusões do relatório, ao lado do México, como nação emergente “devastada pela pandemia”, onde as perdas em expectativa de vida podem ser ainda maiores do que as demais mencionadas.
Os autores observam ainda que, devido à falta de informações “completas e confiáveis”, somente dois países de fora da Europa — EUA e Chile — puderam ser objeto de análise. Nos demais, “os verdadeiros impactos da pandemia na mortalidade podem nunca ser totalmente conhecidos”.
Concreto que serpenteia por terras palestinas freou homens-bomba, mas afastou prospecto de paz
DIOGO BERCITO E LALO DE ALMEIDA
ENVIADOS ESPECIAIS A ISRAEL E CISJORDÂNIA
4.set.2017 – 02h00
Umm Judah, 64, se esqueceu de muitas coisas. Entre elas, a palavra que moldou os anos mais recentes de sua vida: “muro”.
Professora aposentada, a palestina vive nas cercanias de Belém diante de uma barreira de concreto de oito metros de altura.
É esse o horizonte à sua porta, que a separa da terra que cultivou por décadas e das lembranças dos filhos iluminados pelos faróis e satisfeitos com os figos recém-colhidos.
“É como uma venda”, diz à Folha. “Como se nos arrancassem os olhos.”
Durante a entrevista, ela aponta a construção mais de uma vez por não se lembrar de como chamá-la, mesmo em seu árabe nativo.
A professora aposentada palestina Umm Judah, 64, que vive diante de um muro de oito metros de altura; barreira a separa da terra que cultivou por décadas (Lalo de Almeida/Folhapress)
O muro diante de sua casa é um trecho da barreira de 764 quilômetros que Israel ergue desde 2002 para se separar dos territórios palestinos da Cisjordânia, onde estão cidades como Belém e Ramallah. A maior parte é cerca, e o concreto é usado nas áreas urbanas. Faltam os últimos 194 quilômetros da construção.
A barreira tem impacto brutal nas vidas de pessoas como Umm Judah. Mas israelenses de diferentes orientações políticas concordam, por outro lado, que existia a necessidade urgente de erguê-la.
As memórias da Segunda Intifada ainda estão frescas. Cerca de 3.000 palestinos e 1.000 israelenses morreram entre 2000 e 2005 durante o levante palestino contra a ocupação israelense. Os palestinos enviavam homens-bomba; os israelenses revidavam com tanques.
Muro erguido por Israel desde 2002 para se separar dos territórios palestinos da Cisjordânia; dos 764 quilômetros planejados para a barreira, 570 estão prontos (Lalo de Almeida/Folhapress)
O israelense Ury Vainsecher, 71, se recorda bem. Ele já vivia em Kfar Saba, cidade a um quilômetro do muro, no caminho para a palestina Qalqilya.
“Quando meus filhos eram menores, eu os levava a todos os lugares de carro. Tinha medo de que tomassem o ônibus”, diz. “Entre eu ser vítima de uma explosão e uma palestina viver rodeada por muro, prefiro vê-la cercada.”
Vainsecher perdeu um amigo em um atentado. O filho de um vizinho morreu em outro ataque, e um conhecido que estava em uma pizzaria de Jerusalém alvo dos terroristas, também
O trecho da barreira diante da casa de Umm Judah é um dos mais recentes.
Um ano atrás, a palestina caminhava dois ou três minutos até seu pomar para passar o dia sob as oliveiras enrolando folhas de uva. Hoje ela precisa dirigir por 40 minutos para alcançar o outro lado.
“Mas o muro ajudou os israelenses. Estão relaxados.”
Judeus diante de muro próximos ao Túmulo de Raquel em Belém, na Cisjordânia, local considerado sagrado pela religião judaica (Lalo de Almeida/Folhapress)
A fricção causada pela barreira na vida de palestinos como Umm Judah envenena a possibilidade de haver paz entre os dois povos em breve.
O projeto foi questionado desde a concepção por figuras como Yossi Beilin, arquiteto dos Acordos de Oslo (as negociações de 1993 que levaram à divisão da Cisjordânia em diferentes áreas de controle).
Se não tivessem sido interrompidos pelo assassinato do premiê israelense Yitzhak Rabin por um ultranacionalista em 1995, tais acordos poderiam ter encerrado o conflito.
“Era claro que os palestinos seriam humilhados pela construção do muro”, diz Beilin, em Tel Aviv.
“Mas não foi feito por malícia, e houve esforços para que eles não sofressem, ainda que esses esforços não tenham sido suficientes”, afirma, citando uma série de apelos às cortes israelenses –seis deles com sucesso– para mudar a rota da barreira.
Muros, diz Beilin, “não são fotogênicos”.
Grafites e pichações no muro da Cisjordânia; entre as figuras retratadas há o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e forças policiais (Lalo de Almeida/Folhapress)
“São muito difíceis de explicar. A barreira virou um símbolo de como colocamos os palestinos em uma prisão. É a vida deles, e eles se perguntam por que têm que pagar esse preço.” Não apenas por terem sido separados da terra que cultivavam, mas também porque a sua liberdade de ir e vir foi drasticamente reduzida.
A Folha acompanhou a passagem de trabalhadores palestinos rumo a Israel em dois postos de controle militar, em Belém e em Ramallah.
Às 5h, a fila já transbordava dos corredores metálicos que lembram um curral, os ratos passando pelo chão imundo. Ansiosos, alguns trabalhadores escalavam as grades e formavam uma fila paralela no alto, como equilibristas distópicos.
O ritual é cotidiano para milhares. “Tornamos a vida de muitos palestinos terrível”, afirma Beilin. “Mas reduzimos o número de mortes, e é difícil dizer que isso tenha sido errado.”
Trabalhadores palestinos em fila para atravessar posto de controle israelense em Belém, na Cisjordânia; alguns escalam as grades, formando uma fila paralela no ar (Lalo de Almeida/Folhapress)
Não é errado, do ponto de vista legal, que um país construa muros em seus limites.
Mas a divisão entre Israel e os territórios palestinos não é uma fronteira convencional porque, afinal, não existe um Estado palestino. A divisa costuma ser a chamada Linha Verde, que marca as fronteiras anteriores a 1967, ano da Guerra dos Seis Dias, quando Israel tomou a Cisjordânia.
Vem daí mais uma complicação desta história, vivida diariamente por Umm Judah: de cada 6,5 quilômetros da barreira, 5,5 foram construídos dentro da Cisjordânia e, portanto, fora da fronteira. Em alguns trechos, o muro está 18 quilômetros distante de onde teoricamente deveria serpentear.
A explicação de um tenente-coronel do Exército israelense que não pôde se identificar é a de que o trajeto foi adaptado às necessidades de segurança. Em algumas ocasiões o muro precisava passar em cima de uma colina, e não embaixo, por exemplo.
“Nossa experiência nos tribunais é sempre a mesma”, afirma a advogada palestina Dalia Qumsiyeh, que representa Umm Judah.
“O governo israelense usa a palavra mágica, ‘segurança’, e aprova assim os seus planos”, diz. “Mas, antes de falar em segurança, pensem na senhora que não consegue entrar em sua terra.”
Ou no palestino Hani Amer, 60, que vive na região noroeste da Cisjordânia, sobre a linha em que o governo israelense queria ter construído o muro.
Ele se recusou a deixar sua casa, a barreira a contornou, e ele foi cercado em seu terreno de 1.000 m² pelo concreto, o arame farpado e pelas cercas de segurança.
O palestino Hani Amer, 60, abre portão para entrar em sua propriedade no povoado de Masha, na Cisjordânia; ele se recusou a deixar sua casa e a barreira a contornou (Lalo de Almeida/Folhapress)
A poucos passos dali, está o assentamento israelense de Elkana, razão para as preocupações.
“Disseram que ou eu saía daqui ou ficaria isolado. Quis ficar, a despeito de todas as dificuldades, porque é a minha casa”, diz, sentado em um balanço no jardim. À sua frente, está o muro.
Por algum tempo, Amer precisou pedir que os soldados israelenses abrissem o portão da sua propriedade toda vez que queria sair.
“Receber visitas era um inferno. Uma punição coletiva.” Com a pressão de organizações humanitárias, o agricultor teve uma pequena vitória: recebeu a chave para uma portinhola no muro, pela qual hoje passa.
Ao receber a Folha em sua casa, Amer se agacha atrás de um carro, para que a polícia israelense não o veja –ele teme ser punido por receber a imprensa e falar de sua vida. Poderiam, por exemplo, lhe tirar a chave da portinhola.
“Tive tantos problemas que já nem consigo me lembrar de todos”, diz, antes de relatar alguns.
Quando seu filho de três anos engatinhou por baixo da cerca, por exemplo, a mãe não teve permissão para cruzar a barreira e buscá-lo. A criança foi encontrada do outro lado e trazida de volta.
“Eu fui até os soldados e lhes disse: Vocês não são humanos. Vocês viram meu filho e não fizeram nada.”
Ao ser lembrado que Israel ergueu o muro para garantir a segurança do país, Amer diz que “o que garante a segurança é a justiça”. “Quando você distingue entre dois irmãos, não tem segurança. Imagine entre dois povos.”
A barreira rompeu em diversas regiões do país o contato, ainda que limitado, que havia entre palestinos e israelenses.
Barricadas em um rua compartilhada por árabes e judeus em Hebron, na Cisjordânia; abaixo e à esquerda, abrigo anti-terrorismo no povoado israelense de Tzur Yigal, em Israel (Lalo de Almeida/Folhapress)
Amer vive próximo de Qalqilya, onde israelenses costumavam fazer compras antes da Segunda Intifada.
O local é próximo também de Tzur Yigal, onde vive o israelense-uruguaio Eran Landau, 64. “Minha casa foi erguida por uma família palestina”, diz. “Tenho amigos do outro lado, apesar de ter lutado contra eles”, afirma.
“O muro nos inquieta, mas ou você cuida da sua família, ou não. Quero viver bem, e quero que minha filha viva bem. Se ela puder ir para a discoteca sem riscos, não me importo com o que dizem.”
Landau é membro de uma força-tarefa voluntária para a segurança de Tzur Yigal, e guarda armas, um capacete e uma máscara de gás dentro de uma sala à prova de explosões. “Tenho um fuzil M16 para viajar. Poderiam me atacar a qualquer momento com um coquetel molotov.”
Policiais israelenses patrulham bairro árabe na Cidade Antiga de Jerusalem, em Jerusalém Oriental (Lalo de Almeida/Folhapress)
O recém-eleito prefeito de Belém, Anton Salman, discorda da avaliação. “Não acho que seja questão de segurança. É confisco de terra”, diz diante do muro que divide sua cidade. Ele perdeu parte de suas propriedades, isoladas do outro lado da barreira.
Os desvios em relação à Linha Verde engoliram 9,4% da Cisjordânia, um processo monitorado pelo israelense Dror Etkes, diretor da ONG Kerem Navot. “Fiscalizamos como Israel toma terras na Cisjordânia para dar aos colonos israelenses”, diz –os colonos são os israelenses que vivem dentro da Cisjordânia.
“A barreira foi construída para permitir que os assentamentos crescessem. Há uma correlação entre a presença de colonos e da barreira.”
Para o ex-soldado israelense Avner Gvaryahu, 32, é preciso entender a barreira como parte de um sistema mais amplo, que envolve o projeto dos assentamentos. “O governo quer minimizar o número de palestinos aqui.”
Crianças palestinas jogam pedra e insultam soldados israelenses que estão do outro lado de muro em Ramallah, na Cisjordânia (Lalo de Almeida/Folhapress)
Gvaryahu é o líder da organização Breaking the Silence, que compila testemunhos de soldados israelenses sobre a violência da ocupação da Cisjordânia. Ele foi paraquedista, período durante o qual recebia ordens diretas de colonos.
“O objetivo do sistema é proteger os israelenses, mas ninguém protege os palestinos”, diz Gvaryahu. “Nunca haverá uma sensação real de segurança até que os palestinos tenham respeito e dignidade.”
Ao redor dos muros e cercas, há zonas-tampão às quais o acesso de palestinos é restrito por razões de segurança.
“Em algumas áreas entre barreiras é possível ver como surgiu uma nova vida selvagem”, diz Etkes, e aponta para um grupo de veados, que cruzam diante do carro da reportagem e se esgueiram por debaixo do arame farpado rumo à terra de que agora são na prática os donos.
Palestina acompanhada da filha pede esmola na fila de posto de controle em Qalandia, na Cisjordânia (Lalo de Almeida/Folhapress)
Umm Judah teme que esse seja o futuro de seu pomar, do outro lado do muro, caso o governo israelense decida que ela já não pode mais cruzar o controle militar. “Sinto como se tivesse perdido alguém da minha família. Roubaram a minha felicidade”, ela afirma, e chora.
Depois, sobe em uma rua do vilarejo, alta o suficiente para enxergar por cima do muro. Vê seu pomar inacessível –damascos, pêssegos, peras, alecrim– e lamenta: “Vou morrer aqui”.
Governo Biden expulsa centenas por dia; de volta a um país em múltiplas crises, deportados têm poucas perspectivas
22.set.2021 às 9h57Atualizado: 22.set.2021 às 19h43
BAURU (SP)
Enquanto os Estados Unidos se preparam para quase dobrar o volume de deportações em meio a um novo revés para o governo de Joe Biden, imigrantes haitianos entram em desespero ao serem forçados a voltar ao país mais pobre das Américas, envolto em múltiplas crises.
No domingo (19) e na segunda-feira (20), centenas de migrantes foram expulsos do território americano em três voos para Porto Príncipe. Nesta terça (21), estavam programados mais quatro voos e, para os próximos dias, há a expectativa de até sete voos diários com destino à capital haitiana e a Cap-Haitien, a segunda maior cidade do país.
Parte dos haitianos expulsos protagonizou cenas de pânico após desembarcar no aeroporto de Porto Príncipe. Um grupo de homens correu de volta em direção ao avião, e pelo menos um deles tentou voltar a bordo — obviamente, sem sucesso.
Recém-chegados ao seu país de origem, esses grupos recebem uma pequena quantia em dinheiro, kits básicos de higiene e uma rápida avaliação médica. São, então, deixados à própria sorte.
Imigrantes sob ponte na fronteira entre EUA e México em Del Rio, no Texas – John Moore – 21.set.21/Getty Images/AFP
“Atravessamos nove países. No caminho, vimos muitos mortos. Dormimos na selva. E agora, terminou”, disse Belton (nome fictício) à agência de notícias AFP, acompanhado da esposa e de um filho de dois anos, em Porto Príncipe. A família suspira, sem ter a menor ideia do que fará para sobreviver.
O governo do Haiti não tem “nem o costume nem a logística necessária” para lidar com o volume de migrantes, afirma o economista Etzer Emile. “Mas o pior é que não é prioritário para as autoridades. A prioridade é a divisão do bolo governamental para a próxima reorganização do gabinete de ministros”, diz, em referência ao premiê Ariel Henry, que assumiu o comando do país após o assassinato do presidente Jovenel Moïse — crime no qual o próprio Henry é suspeito de envolvimento.
Ao jornal americano The Washington Post o chefe do escritório de migração do Haiti, Jean Negot Bonheur Delva, admitiu que o governo “não tinha os meios” para fornecer moradia ou outro tipo de assistência aos recém-chegados.
“A precariedade e a insegurança vão aumentar exponencialmente. É uma crise a mais”, disse Delva, acrescentando que pediu, no nível individual, uma moratória nos voos de deportação americanos, mas que não sabia se o governo de Henry havia feito algum pedido oficial nesse sentido.
Nos EUA, o governo Biden enfrenta uma pressão crescente. Quase 10 mil migrantes, principalmente haitianos, permanecem em condições cada vez piores no campo improvisado sob uma ponte que atravessa o rio da cidade de Del Rio, no estado do Texas, até Ciudad Acuña, no México. Autoridades americanas retiraram pelo menos 4.000 pessoas do local nos últimos dias para processamento em centros de detenção.
Mesmo membros do Partido Democrata fizeram críticas à gestão da crise. Chuck Schumer, líder da maioria democrata no Senado, disse que a expulsão de imigrantes para o Haiti “desafia o bom senso” e expressou indignação com as táticas usadas pelos agentes de fronteira para controlar as multidões — no início da semana, oficiais montados a cavalo foram flagrados usando rédeas para ameaçar migrantes haitianos próximo à fronteira.
A cavalo, agente de fronteira persegue migrantes que retornavam aos EUA após comprar comida no México Daniel Becerril/ReutersMAIS
A vice-presidente Kamala Harris descreveu a situação como complexa e disse que os EUA precisam “fazer muito mais” para atender às necessidades básicas da população do Haiti. “As pessoas querem ficar em casa, não querem sair, mas vão embora quando não podem satisfazer suas necessidades básicas.”
Políticos republicanos, de olho nas eleições de meio de mandato em 2022, quando esperam retomar o controle do Congresso, foram ágeis em atribuir a responsabilidade pela crise no campo improvisado no Texas à pressão dos democratas para afrouxar algumas restrições à migração impostas durante o governo de Donald Trump.
Em meio a esse cenário, uma das hipóteses aventadas pelos americanos é pedir auxílio para países como Brasil e Chile para receber parte dos migrantes haitianos. O tema foi tratado em reunião entre o secretário de Estado, Antony Blinken, e o chanceler brasileiro, Carlos França, após a Assembleia-Geral da ONU.
No último fim de semana, o acampamento chegou a atingir o pico de 14 mil pessoas, segundo o Acnur, a agência da ONU para refugiados. Nesta terça, grupos no lado americano do rio ocuparam uma área de floresta, e algumas famílias construíram barracas improvisadas com galhos e folhas. Os relatos são de que a comida é escassa e que não há banheiros suficientes para todos.
Do lado mexicano, o acampamento também tem crescido, e os migrantes têm recebido assistência de grupos como Cruz Vermelha e Médicos Sem Fronteiras, além de moradores de Ciudad Acuña.
Imigrante haitiano dá banho em seu filho em acampamento improvisado em Del Rio, no Texas John Moore/Getty Images – 21.set.21/AFPMAIS
Em entrevista à Reuters, Surreane Petit disse que ficar no México foi uma grande melhoria em comparação com o lado americano do campo. “Aqui o povo mexicano está ajudando muito. Lá estávamos com fome. Debaixo da ponte não havia ajuda, nenhuma ajuda.”
Acompanhada do filho de três anos de idade, ela contou ter vivido os últimos cinco anos no Chile, mas que decidiu ir embora depois que os efeitos da pandemia no país a deixaram desempregada.
Apesar do risco de ser deportado para o Haiti a qualquer momento, Carly Pierre, outro migrante, disse que ficou no acampamento, depois de vários anos morando no Brasil, porque ainda tem esperanças de entrar nos EUA junto com a esposa e dois filhos, de 3 e 5 anos.
“Há os deportados e há as pessoas que vão conseguir entrar”, disse Pierre, com a roupa ainda molhada por ter atravessado o rio para comprar um refrigerante no lado mexicano.
A expectativa não é completamente infundada. Segundo dois funcionários do governo Biden que falaram em anonimato à agência Associated Press, parte dos ocupantes do acampamento improvisado tem sido liberada em território americano sob a condição de comparecer a um escritório de imigração em 60 dias.
A quantidade de pessoas liberadas nesses termos, assim como os critérios para esse tipo de prática, ainda não estão claros, mas, de acordo com os entrevistados, adultos solteiros são alvos preferenciais dos voos de deportação.