Autoridades espanholas elevaram para o nível amarelo o alerta de erupção do vulcão Cumbre Vieja, localizado na ilha de La Palma, na costa do continente africano. Segundo pesquisadores, o vulcão poderia provocar um tsunami que atingiria todas as Américas, com maior impacto sobre os litorais das regiões Norte e Nordeste do Brasil. A informação da elevação de nível do vulcão foi dada pelo portal MetSul Meteorologia e confirmada pelo A informação da elevação de nível do vulcão foi dada pelo portal MetSul Meteorologia e confirmada pelo UOL.
Vulcão em La Palma, na Espanha, fica a 4,4 mil km de São Luís
O vulcão está adormecido há décadas e começou a dar sinais de atividade moderada nos últimos dias. “Ele não estava dando sinais de erupção, mas agora ele chegou a um segundo nível. São quatro níveis de alerta. Ele pode vir a ter uma erupção, mas não significa que essa erupção vai gerar um tsunami, mas é uma possibilidade, mesmo que mínima”, explica o pesquisador do Instituto de Ciências do Mar da UFC (Universidade Federal do Ceará), Carlo Teixeira.
A hipótese de que um tsunami poderia ser causado pela erupção do Cumbre Vieja já foi confirmada em várias pesquisas sobre o tema. “Existem diversos estudos já publicados sobre essa possibilidade de tsunami. É uma hipótese real, e ela aconteceria caso houvesse uma erupção explosiva”, conta Carlos Teixeira. Segundo análise feita em estudo produzido no Departamento de Geologia da UFPR (Universidade Federal do Paraná) a Ilha de La Palma fica a 4.462 km de São Luís. “Estima-se que a próxima erupção poderá desestabilizar a encosta da ilha devido a fatores como declividade do vulcão, volume de material mobilizado, fatores climáticos e principalmente, a uma zona de fraqueza existente que facilitará a ocorrência do movimento de massa”, afirma pesquisa feita na UFPR do geólogo Mauro Gustavo Resse Filho, que pesquisou o tema e publicou TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) em 2017.
“Este movimento por sua vez, poderá ser capaz de gerar um tsunami que percorrerá distâncias transatlânticas e que atingirá o praticamente todos os países banhados pelo oceano Atlântico. A partir da modelagem de tal evento, obteve-se a informação que toda a costa brasileira será afetada”
Mauro Resse Filho
Riscos
Carlos Teixeira diz que não há motivo para preocupação no momento. “Se essa possibilidade de erupção ocorrer, não significa que vai ser explosiva; se for, não quer dizer que vai chegar aqui com ondas de oito, dez metros; pode chegar aqui bem menor”, explica.
“A pergunta que a gente faz é: será que o Brasil —e não só o Brasil, porque ele pode chegar no Caribe e nos EUA— está preparado para um evento desses?”
Segundo o site Metsul, a região de La Palma enfrenta um aumento significativo nos movimentos sísmicos desde sábado, “acompanhando a tendência de alta desde 2017 e ganhou maior força desde 2020”. “Nos últimos dias, além de aumentar o volume de movimentos sísmicos, sua intensidade aumentou com abalos que tiveram magnitude superior a 3. A profundidade dos epicentros também diminuiu, em média, de 30 para 12 quilômetros. Só ontem foram mais de 100 tremores e um teve profundidade de apenas 4 quilômetros”, informa.
As reduções de dióxido de carbono são fundamentais, mas o último relatório do IPCC destaca os benefícios de fazer cortes em outros gases de efeito estufa também.
As operações de petróleo e gás – como o Campo de Petróleo de Inglewood, em Los Angeles, Califórnia – são uma fonte chave de metano. Crédito: Cidadãos do Planeta/Imagens de Educação/Universal Images Group/Getty
Não há dúvida que é necessário eliminar combustíveis fósseis e parar a liberação de dióxido de carbono na atmosfera para evitar os efeitos dolorosos do aquecimento global. O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) não deixa dúvidas sobre isso. Mas o CO2 não é o único gás de efeito estufa. O painel climático também destaca o problema — e a oportunidade — representado pelo metano, que contribuiu com até 0,5 °C de aquecimento desde os tempos pré-industriais, perdendo apenas para o CO2.
O metano é o principal componente do gás natural, cuja popularidade como fonte relativamente limpa de energia fóssil aumentou mais de 50% nas últimas duas décadas. Os combustíveis fósseis ajudaram a aumentar as concentrações atmosféricas de metano, que mais do que dobraram desde os tempos pré-industriais, de cerca de 700 partes por bilhão em volume para quase 1.900 p.p.b. em 2020.
O metano é preocupante porque tem um impacto maior sobre o clima. O gás compõe uma pequena fração da nossa atmosfera — os níveis de CO2 são mais de 200 vezes maiores. O metano é cerca de 80 vezes mais poderoso que o CO2 na captura de calor na atmosfera terrestre. Ele também quebra muito mais rapidamente do que o CO2, com uma vida média de cerca de uma década, em comparação com séculos para CO2. Isso significa que a redução das emissões de metano poderia proporcionar um alívio a curto prazo, enquanto governos e empresas negociam a transição mais difícil dos combustíveis fósseis para a energia limpa.
Em um esforço para reduzir as emissões de metano, os cientistas têm investigado duas questões ligadas. Primeiro, quais são as principais fontes de metano? Segundo, onde estão os piores infratores? A pecuária é a maior fonte, responsável por 31% do total global, segundo Ilissa Ocko, do Fundo de Defesa Ambiental (FED) sem fins lucrativos da cidade de Nova York e seus colegas. As operações de petróleo e gás ocupam o segundo lugar, com 26%. Outras fontes incluem aterros sanitários, minas de carvão, pastos de arroz e estações de tratamento de água.
Reduzir o metano da pecuária representa um desafio particular. As pessoas poderiam comer menos carne, mas convencer as pessoas a mudar sua dieta raramente é simples. Além disso, o consumo de carne está aumentando em países de baixa e média renda — em linha com o aumento da renda. Deve ser mais fácil conter as emissões de outros setores. Em muitos casos, fazê-lo não custaria nada — e poderia até ser lucrativo.
As emissões globais de metano podem ser reduzidas em 57% até 2030 usando tecnologias existentes, relatam Ocko e seus colegas. E quase um quarto do total global de metano poderia ser eliminado sem custo líquido. A indústria de petróleo e gás poderia fazer a maior diferença aqui, tendo tanto a infraestrutura quanto o incentivo para minimizar as perdas de metano: mais metano em seus oleodutos significa mais receita. Em outros setores, os operadores de aterros sanitários, minas de carvão e estações de tratamento de águas residuais poderiam capturar o gás e usá-lo para gerar eletricidade. E os produtores de arroz poderiam minimizar as emissões com melhores práticas de irrigação e manejo do solo. Se essas medidas forem implementadas em todo o mundo, os aumentos projetados do aquecimento global poderiam ser reduzidos em 0,25 °C até 2050 e 0,5 °C até 2100, segundo o estudo. Esses são números significativos considerando que o mundo já aqueceu 1,1 °C, e os líderes globais se comprometeram a limitar o total a 1,5-2 °C.
O principal problema é identificar precisamente de onde vêm as emissões de metano. Há mais de uma década, pesquisadores monitoraram o metano a partir de pesquisas de aeronaves usando sensores infravermelhos que podem detectar gases na luz solar refletidos da Terra2. Hoje, os satélites fazem parte desse esforço de monitoramento. Pesquisas mostram que um número relativamente pequeno de “super-emissores” são responsáveis por uma parcela significativa das emissões de metano, particularmente na indústria de petróleo e gás.
A capacidade de identificar grandes fontes de metano está pronta para avançar nos próximos dois anos. Em 2022, o FED lançará um satélite projetado para identificar emissões em grandes faixas de terra. A Carbon Mapper, uma parceria sem fins lucrativos que inclui o Laboratório de Propulsão a Jato da NASA e a empresa Planet, com sede em São Francisco, seguirá em 2023 com dois protótipos de satélites projetados para rastrear metano e CO2 na escala de instalações individuais.
Em março, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e a Comissão Europeia lançaram o Observatório Internacional de Emissões de Metano para ajudar a coordenar esses esforços e ajudar os formuladores de políticas e empresas a agir. O observatório também terá acesso a estoques estimados de emissões de governos e indústrias. Cerca de 70 produtores de petróleo e gás, incluindo gigantes como Shell e BP, se comprometeram a estabelecer metas claras de redução de emissões e reportar emissões sob uma iniciativa liderada pela Climate & Clean Air Coalition, uma iniciativa internacional que envolve governos, organizações sem fins lucrativos, empresas e outros. Este trabalho também ajudará a informar novos compromissos de redução de metano que serão feitos na conferência climática da ONU em Glasgow, Reino Unido, em novembro.
O mundo continuará aquecendo enquanto o CO2 estiver sendo bombeado para a atmosfera. Mas reduzir as emissões de metano e outros gases poderosos do efeito estufa pode reduzir a picada. É por isso que governos e empresas devem aproveitar a oportunidade, ganhando um pouco mais de tempo para a humanidade fazer o que precisa ser feito.
Há 30 anos, Boris Ieltsin resistiu a golpe contra perestroika e acelerou desintegração soviética
6.ago.2021 às 23h15
Temor e incerteza dominavam o auditório principal do Parlamento russo. Lá, instalou-se o epicentro da resistência ao golpe de Estado arquitetado para eliminar a perestroika e levar a URSS de volta à ortodoxia soviética. Depois de ouvir discursos em defesa das reformas, abandonei o prédio, em busca de mais notícias sobre aquele 19 de agosto de 1991, há exatos 30 anos.
Na rua, diante da cena golpista clássica, avistei tanques de guerra. Fui, de imediato, surpreendido por uma multidão cruzando a porta do Parlamento, em marcha resoluta. Identifiquei na aglomeração, entre guarda-costas e apoiadores, o líder russo e ultrarreformista Boris Ieltsin.
Segui a turba. Ieltsin subiu num blindado enviado pelos golpistas. O tanquista, atordoado, aceitou o aperto de mão do líder russo. A máquina de guerra virou palanque, e o timoneiro da resistência discursou: “A reação não passará!”.
O então presidente da Rússia, Boris Ieltsin, participa de uma coletiva de imprensa em Bonn, na Alemanha – Viktor Korotayev – 9.jun.98/Reuters
Proféticas as palavras ielstinistas. Em apenas três dias, o golpe orquestrado por comunistas ortodoxos desmoronou, junto com o plano de afastar, do Kremlin, Mikhail Gorbatchov, pai da perestroika.
Concebida para salvar a URSS da onda separatista a rasgar o império criado por Vladimir Lênin a partir de 1917, a intentona produziu o efeito contrário. Seu fracasso acelerou tendências nacionalistas e contribuiu de forma decisiva para a desintegração soviética.
A imagem de Ieltsin sobre o tanque, numa ousadia a desnortear golpistas esperando a resignação de um homo sovieticus, galvanizou a resistência. Transformou-se em ícone do momento histórico e da irrefreável ascensão do ieltsinismo.
Ieltsin governava a Rússia, a maior das 15 repúblicas (na prática, províncias) da URSS e rivalizava com o presidente Gorbatchov, a quem criticava pela lentidão das reformas. Ambicionava chegar ao Kremlin e desafiava o governo central, apoiando a drenagem de poder para autoridades regionais.
A vitória em agosto de 1991 fez a balança política pender decisivamente para Ieltsin. Quatro meses depois, ao lado de mais dois líderes regionais, da Ucrânia e de Belarus, o mandachuva russo anunciou ignorar o poder central, ocupado por Gorbatchov, e proclamou o fim da URSS. O mapa-múndi passou a desenhar 15 países independentes onde antes havia um império vermelho.
Exaltado no Ocidente pelo papel no descarte da Guerra Fria, Gorbatchov enfrentava no plano doméstico formidável processo de corrosão política. A perestroika havia trazido liberdades inéditas, mas também a maior crise econômica desde a Segunda Guerra Mundial.
A Perestroika e Glasnost
A Perestroika (do russo, ‘reconstrução’) foi, junto a Glasnost (‘transparência’), a principal plataforma política de Mikhail Gorbatchov. As medidas visavam a democratização da União Soviética e a abertura para a economia de mercado A
A falência do modelo soviético alimentou tendências separatistas pelo gigantesco país, a se estender da fronteira com a Polônia até os mares do Alasca. E culpava-se Gorbatchov pela debacle econômica.
O patriarca das reformas navegava entre pressões dos separatistas e de um establishment conservador empenhado em manter o império intacto. Comunistas refratários às reformas viram na aventura golpista uma saída derradeira, mas erraram o cálculo ao ignorarem a capacidade de Ieltsin de mobilizar forças contra a conspiração de estilo brejnevista.
Quando cheguei ao escritório, após testemunhar a cena histórica de Ieltsin sobre o tanque, liguei a TV. Peguei a leitura dos comunicados oficiais dos conspiradores e, em seguida, um programa monótono a mostrar uma “União Soviética feliz”.
Os autores do complô achavam viver ainda nos anos 1960, quando um golpe conservador liderado por Leonid Brejnev derrubou Nikita Khruschov. Os tempos, no entanto, eram outros. E até mesmo a URSS deixou de existir.
Não são poucos os que se instalam pelo esgotamento dos seus recursos ou como consequência de um processo de expulsão
27.ago.2021 às 10h00
Luisa Feline Freier
A migração de pessoas de outros continentes –especialmente da África e da Ásia– mas também do Caribe é um fenômeno crescente na América Latina. E embora a maioria deles vá inicialmente para os Estados Unidos ou Canadá, não são poucos os que se instalam num país latino-americano, seja por opção, por necessidade devido ao esgotamento dos seus recursos, ou como consequência de um processo de expulsão.
POR QUE E COMO CHEGAM OS MIGRANTES EXTRACONTINENTAIS À AMÉRICA LATINA?
A migração extracontinental na América Latina é um fluxo misto, uma vez que migrantes com motivações diferentes convergem dentro do mesmo grupo. Em alguns casos, especialmente entre os migrantes subsaarianos e do Médio Oriente, as principais razões são a perseguição e a violência. Enquanto que aqueles que deixam os seus países por razões econômicas ou devido a catástrofes naturais vêm principalmente de países do Sul da Ásia e do Haiti. Mas existem outras razões para a migração extracontinental, tais como o reagrupamento familiar.
A chegada à América Latina explica-se principalmente por fatores políticos, uma vez que, geograficamente, a Europa seria um destino mais próximo. Mas durante a primeira década do século 21, dois fenômenos notáveis ocorreram quase em paralelo: o aumento das restrições à entrada na Europa e a flexibilização dos requisitos de entrada na América Latina. Em particular, alguns países latino-americanos com governos de esquerda como a Argentina sob Néstor Kirchner (2003-2007), Equador sob Rafael Correa (2007-2017) e Brasil sob Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) relaxaram as suas políticas de migração, especialmente as políticas de vistos, e promoveram um discurso oficial centrado nos direitos humanos dos migrantes. Estas medidas de abertura, embora temporárias na maioria dos casos, revelaram-se atrativas para a população migrante extracontinental. Uma vez estabelecidos, os fluxos de pessoas de fora da região aumentaram de forma constante.
As rotas de migração vão de sul à norte. Começam na América do Sul, onde migrantes extracontinentais entram através de países com requisitos de vistos menos exigentes, como o Equador ou o Brasil. Continuam para a América Central através da região de Darién, uma área florestal e de alto risco entre a Colômbia e o Panamá. Embora não existam estatísticas semelhantes às das mortes de migrantes no Mediterrâneo, estima-se que o Darién é uma das rotas migratórias mais perigosas do mundo, pois é uma selva espessa, com geografia hostil e a presença de grupos armados, o que também interrompe a rota da rodovia Pan-Americana. De acordo com a Unicef, o número de crianças que atravessam o Darién quintuplicou nos últimos cinco anos.
Barraca com produtos da arte africana na feira do imigrante, ao lado da estação Santa Cruz da linha 5-lilás li/Eduardo Anizelli/Folhapress
Por fim, os migrantes fazem o seu percurso através da América Central e México para os Estados Unidos e Canadá. Esta longa e dispendiosa viagem é muitas vezes feita com a ajuda de contatos, sejam contrabandistas ou outros migrantes que conhecem a rota. É também comum alternar entre meios de transporte terrestres e aquáticos, tais como autocarros, carros particulares e barcos, ou viajar a pé. Toda a viagem pode demorar vários meses ou mesmo anos.
QUE DESAFIOS ENFRENTAM OS MIGRANTES?
Ao longo da viagem, os migrantes enfrentam uma série de desafios, tais como naufrágios, problemas de saúde causados pela exposição a condições meteorológicas extremas, e fraudes de contrabandistas durante o percurso. Além disso, a superlotação, a hostilidade das autoridades públicas e o colapso de alguns serviços nas zonas fronteiriças complicam ainda mais a situação dos migrantes.
Como exemplo, entre fevereiro e março de 2021, centenas de migrantes africanos e haitianos que fugiam da crise sanitária e econômica no Brasil ficaram presos na Ponte de Integração na fronteira entre o Brasil e o Peru. Durante várias semanas, enfrentaram a fome, condições de higiene inadequadas, tratamento hostil por parte da polícia e a separação de algumas famílias.
Entretanto, no final de Julho de 2021, mais de dez mil migrantes africanos, asiáticos e haitianos ficaram retidos na cidade de Necocli, no norte da Colômbia, à espera de transporte para o Panamá. Diante do colapso da cidade, sobrecarregada com alojamento, água e serviços de limpeza, o governo municipal declarou um estado de calamidade pública.
A primeira barreira enfrentada pelos migrantes de fora do continente ao chegar aos países de trânsito ou de destino é frequentemente a regularização da sua estadia. O cruzamento irregular das fronteiras muitas vezes fecha as portas para uma posterior regularização. E quando decidem candidatar-se ao estatuto de refugiado, a taxa de respostas favoráveis aos seus pedidos é frequentemente baixa.
Na Argentina, por exemplo, venezuelanos, senegaleses, cubanos, haitianos e dominicanos estão no topo da lista em termos do número de pedidos de refugiados. No entanto, entre 2016 e 2020, apenas 10 das 1.267 candidaturas de haitianos, 11 das 885 candidaturas de cubanos e nenhuma das 705 candidaturas de dominicanos foram aprovadas.
As detenções e expulsões na América do Norte são a última grande preocupação dos migrantes em sua travessia. Camarões, a República Democrática do Congo e a Eritreia foram os três principais países africanos cujos nacionais foram detidos no México em 2018. E durante os últimos cinco anos, pessoas de mais de oitenta países africanos e asiáticos foram presas nos Estados Unidos depois de entrarem no país através do México.
Além disso, as condições de vida nos centros de detenção do México são altamente questionáveis. As organizações de direitos humanos denunciaram a superlotação, os maus tratos e a falta de cuidados médicos. Um caso emblemático foi a morte do migrante haitiano Maxene Andre no Centro de Detenção de Migrantes Siglo 21; passaram-se dois anos desde então e o seu corpo ainda não foi entregue à sua família, nem as circunstâncias da sua morte foram totalmente esclarecidas.
Ativistas da ONG SOS Mediterrâneo fazem protesto em Marselhas, na França Clement Mahoudeau – 24.ago.2020/AFP
Quando os migrantes chegam finalmente ao seu destino ou decidem instalar-se num país de trânsito, mesmo nos casos em que a regularização migratória é conquistada, enfrentam barreiras à sua inserção laboral e social. Muitos acabam em empregos informais e sazonais, tais como venda ambulante em tendas e praias na Argentina, ou com contratos temporários em fábricas no Brasil. Além disso, enfrentam dificuldades linguísticas no caso da população de língua não espanhola, e discriminação racial no caso da população afrodescendente.
Em conclusão, é de salientar que este é um processo relativamente pouco estudado e de difícil mensuração, uma vez que representa frequentemente fluxos migratórios mistos e irregulares, especialmente durante a pandemia de Covid-19. Neste contexto, sob a perspectiva das políticas públicas, é necessário compreender não só os desafios que os migrantes extracontinentais enfrentam nos seus processos de trânsito, mas também no interior dos países de acolhimento.
Professora do Departamento Acadêmico de Ciências Sociais e Políticas da Universidad del Pacífico do Peru e pesquisadora da CIUP. Doutora em ciência política pela London School of Economics and Political Science, LSE (Inglaterra).Soledad Castillo Jara
O terremoto no Haiti este mês destruiu muitos edifícios, como a Igreja Santa Ana em Chardonnières, mostrada aqui. Crédito: Reginald Louissaint Jr/AFP via Getty
Uma rede de sismômetros baratos, instalados em salas de estar, jardins e locais de trabalho em todo o Haiti, está ajudando os cientistas a desvendar o funcionamento interno do terremoto de magnitude 7,2 que devastou a parte sudoeste da nação caribenha este mês. O esforço de ciência comunitária foi lançado após o último grande terremoto do país — um tremor de magnitude 7 em 2010 que matou mais de 100.000 pessoas — e desde então ajudou a revelar detalhes sobre a atividade sísmica do Haiti.
Em um país cujas estações oficiais de monitoramento sísmico às vezes estão offline por causa de recursos limitados, o projeto de sismologia comunitária fornece dados muito necessários. Neste momento, a rede está detectando choques posteriores que continuam a chacoalhar a região. Seus sismômetros alimentam dados em um sistema que exibe as localizações e magnitudes dos terremotos haitianos em um portal baseado na Web em tempo real.
“Não são equipamentos profissionais, e há muitas limitações”, diz Dominique Boisson, geóloga da Universidade Estadual do Haiti em Porto Príncipe, que ajuda a administrar a rede. Mas “alguns resultados são muito bons”.
Trabalho difícil
Fonte da publicação: C.S. Prentice et al.Natural Geosci. 3, 789-793 (2010)/Ayiti-Terremotos
A rede ressalta o quão longe a sismologia no Haiti chegou em 11 anos. Quando o terremoto de 2010 atingiu perto de Porto Príncipe, o país não tinha sismólogos e apenas uma estação oficial de monitoramento sísmico, diz Boisson. Agora, há vários sismólogos profissionais,além de 7 estações na rede nacional oficial, que é operada pelo Bureau of Mines and Energy do Haiti, e 15 na rede de ciência comunitária.
Poucos dias após o grande terremoto de 14 de agosto, equipes de cientistas e técnicos estavam dirigindo em direção ao seu epicentro, carregando sismômetros e outros instrumentos para medir como o solo estava se movendo. Monitorar a Terra com instrumentos científicos imediatamente após um terremoto permite que os pesquisadores entendam melhor por que o terremoto ocorreu e o risco sísmico futuro. Em 2010, levou semanas após o terremoto para pesquisadores estrangeiros voarem para o Haiti e implantarem instrumentos.
Este ano, muitas dessas equipes estrangeiras estão proibidas de viajar para o Haiti por causa das restrições do COVID-19 e da instabilidade política após o assassinato em julho do presidente do Haiti, Jovenel Moïse. Em vez disso, o trabalho está sendo liderado por sismólogos haitianos, como Steeve Symithe, também da Universidade Estadual, que, antes de entrar em campo, estava transmitindo apresentações no Facebook Live sobre a ciência do terremoto para o público haitiano.
Os tremores de 2010 e 2021 aconteceram na zona de falha do Jardim Enriquillo-Plantain, um emaranhado de fraturas na crosta terrestre onde as placas tectônicas norte-americanas e caribenhas deslizam umas pelas outras. Ele vai de oeste a leste ao longo da península sul do Haiti. O terremoto de 2010 ocorreu por uma falha até então desconhecida naquela zona. O epicentro do terremoto de 2021 fica a cerca de 100 quilômetros a oeste, na província de Nippes.
Pelo menos 2.100 pessoas morreram no terremoto de 14 de agosto, embora a contagem total ainda não tenha sido contabilizada. O Serviço Geológico dos EUA estima que pode ter havido mais de 10.000 mortes. Muitos sobreviventes suportaram ventos fortes e chuva de uma tempestade tropical enquanto tentavam se abrigar do lado de fora. Os cientistas a caminho da área passaram a noite em seus carros enquanto a chuva caía, amolecendo o chão e gerando deslizamentos de terra à medida que os choques posteriores sacudiam o chão, diz Boisson à Nature. “Foi muito difícil” para eles, diz ele.
Sismologia DIY
O desafio de fazer trabalho de campo no Haiti ajudou a inspirar a criação do projeto de sismologia comunitária em 2019. Foi quando Eric Calais, um sismólogo da École Normale Supérieure, em Paris, que estuda os terremotos do Haiti há anos, aconteceu em uma empresa que vende estações sísmicas para hobbyists. Procurando maneiras de contornar os dados intermitentes da rede nacional haitiana, ele usou o dinheiro sobrando de uma bolsa para comprar algumas estações. Conhecidos como Shakes de Framboesa, eles contêm pequenos acelerômetros que detectam quando o chão treme e enviam essas informações para serem processadas e misturadas com as de outras estações.
Mapas de risco de terremotos apontam as áreas mais vulneráveis do mundo
Essas estações de US$ 500 não são tão sofisticadas quanto as estações de monitoramento oficiais do Haiti de US$ 50.000. “Mas quando se trata de localizar tremores, determinar magnitude, fazer sismologia básica — eles são realmente excelentes”, diz Calais. E por estarem nas casas e locais de trabalho das pessoas, elas têm mais frequência uma fonte constante de energia e acesso confiável à Internet. A equipe, que inclui Calais, Boisson, Symithe e muitos outros, recrutou pessoas para sediar as estações. Boisson tinha um em seu jardim até a semana passada, quando o desmontou para aproximá-lo do epicentro do terremoto de 14 de agosto. O anfitrião que tinha o Shake de Framboesa mais próximo do epicentro ficou descontente por sua estação estar offline durante o terremoto; ele imediatamente correu para fora e cobriu seu plano de Internet, diz Calais, e a estação logo voltou a funcionar.
Financiados por apoiadores internacionais, Calais e seus colegas mantiveram a rede de 15 estações em funcionamento por dois anos; eles pretendem em breve aumentar para 50 ou mais estações. As redes de sismologia comunitária surgiram em outros lugares do mundo, mas a rede haitiana é única no fornecimento de dados em uma área onde poucos dados sísmicos são coletados de outra forma, diz Calais.
Os dados de sismologia da comunidade haitiana alimentam um sistema experimental nacional chamado Ayiti-Séismes, que está hospedado em um site administrado pela Universidade Côte d’Azur em Nice, França. Ayiti-Séismes também retira dados de estações sísmicas oficiais no Haiti, bem como de países próximos, incluindo República Dominicana e Cuba. O resultado é um mapa em tempo real de choques posteriores cobrindo o sudoeste do Haiti em tons de vermelho e laranja. “A rede está viva e bem”, diz Susan Hough, sismóloga do Serviço Geológico dos EUA em Pasadena, Califórnia, que trabalha no Haiti há muitos anos, inclusive após o terremoto de 2010.
Risco futuro
O epicentro do terremoto é bastante próximo de terremotos ocorridos em 1952 e 1953, que provavelmente estavam entre magnitude 5 e 6, diz Calais. Em termos de risco futuro, a zona de falha do Jardim Enriquillo-Plantain ainda pode produzir outro grande terremoto. “Nesta área, não podemos dizer que acabou”, diz Boisson. Alguns especulam que o terremoto de 2010 contribuiu para o recente, transferindo o estresse para a região que acabou de se romper — e que o risco sísmico permanece alto em Porto Príncipe e em grande parte da zona de falha do Jardim Enriquillo-Plantain.
Inteligência artificial prega previsões de terremotos pós-choques
Boisson observa que muitos cientistas têm se preocupado com uma região geológica diferente no norte do Haiti, conhecida como zona de falha septentrional; desencadeou um grande terremoto em 1842. “Depois de 2010, pensamos que seria essa falha” que causaria terremotos futuros, diz ele. “E então foi no sul novamente.”
Cerca de 600 choques posteriores foram detectados do terremoto de 14 de agosto até agora — em comparação com cerca de 10 no mesmo período após o terremoto de 2010, embora houvesse, sem dúvida, mais que não foram detectados, diz Calais. “Agora temos informações muito fortes sobre não apenas onde ocorreu o terremoto [de 14 de agosto], mas também quão grande foi a ruptura, em que direção a falha estava mergulhando”, acrescenta. “Isso é essencial” para entender por que o terremoto ocorreu e o que esperar no futuro.