Banda Kino, que simboliza a era da perestroika, vai se reunir 30 anos após morte de seu líder
2.out.2020 às 22h00
O vídeo preencheu a tela do computador. Ecoaram guitarras e sons do rock da perestroika. O clipe notificava o adiamento, para 2021, do show com o reencontro de remanescentes da banda Kino, cerca de 30 anos após a morte de seu líder, Viktor Tsoi.
Motivo da mudança na agenda: a pandemia.
Criada em 1982, a roqueira Kino (cinema, em russo) simboliza a era das reformas de Mikhail Gorbatchov. A morte precoce de Tsoi, em acidente automobilístico, ceifou produção musical responsável por refletir, com precisão artística, angústias e dificuldades da população soviética.
Turistas tiram foto em frente à imagem de Viktor Tsoi em um muro de Moscou – Alexander Nemenov-17.ago.20/AFP
As últimas semanas me ofereceram alusões aos anos 1980 e 1990, talhados pela queda do Muro de Berlim, pelo fim da Guerra Fria e pela desintegração da URSS. Lembrei-me de Tsoi e ouvi Gorbatchov.
Após chegar ao Kremlin, em 1985, Gorbatchov deslanchou reformas batizadas de glasnost, para o campo político, e de perestroika, arquitetada para revitalizar a moribunda economia planificada.
As iniciativas carregavam o objetivo de modernizar e salvar o partido comunista, mas fracassaram. Escancararam a inviabilidade do sistema, aprofundaram a crise econômica e aceleraram o desmonte do regime.
Gorbatchov, embora malsucedido na estratégia doméstica, gravou seu nome de maneira indelével na história do século 20, ao garantir o fim da Guerra Fria e ao defender a cooperação global. Foi agraciado com o Nobel da Paz, em 1990.
Do alto de seus 89 anos, o pai da glasnost se pronunciou recentemente sobre a crise na Belarus, ex-república soviética onde manifestações exigem a renúncia do ditador Aleksandr Lukachenko. Gorbatchov sinalizou apoio aos atos pró-democracia e pediu uma solução interna, sem ingerência estrangeira.
Testemunha do fim da divisão geopolítica do continente europeu nos anos 1980, Gorbatchov advertiu sobre os riscos de a crise bielorrussa corroer ainda mais as relações entre a Rússia, fiadora de Lukashenko, e a União Europeia, interessada na mudança de regime em Minsk.
A opinião de Gorbatchov e sons do grupo Kino se mesclaram em minha mente. A música “Peremen” (mudanças, em russo), composta e celebrizada pelo vocalista Viktor Tsoi, transformou-se em trilha sonora de atos pró-democracia na Belarus, repetindo tradição iniciada há cerca de três décadas, após o surgimento da principal banda da história do rock soviético.
A contestação embalou a carreira de Tsoi. Rotulado pela ortodoxia vermelha como “movimento contrarrevolucionário”, o rock na era Gorbatchov canalizava a indignação dos jovens com o pântano burocrático e autoritário do decrépito sistema soviético.
50 dias de protesto na Belarus
Manifestante usa máscara da principal candidata de oposição a Lukachenko na eleição presidencial, que ocorreu em agosto Tut.by/AFP/
Em 1987, o cinema oficial da perestroika lançou “Assa”, retrato da debacle soviética. A cena final é antológica. Nela, Tsoi conversa com a funcionária de um restaurante estatal responsável pelos trâmites para sua apresentação noturna aos comensais.
A burocrata, em clássico estilo dos tempos brejnevistas, atormenta o imberbe cantor com pedidos de certificados e autorizações. Tsoi perde a paciência, deixa a interlocutora falando sozinha e junta-se à banda, para entoar, num cântico às reformas, “Peremen”. Sobem então os letreiros finais.
A canção voltou à política em 1991, quando comunistas ortodoxos, num golpe de Estado fracassado, tentaram eliminar a perestroika. Adversários do golpismo usavam alto-falantes no centro de Moscou para espalhar acordes de “Peremen”.
Tsoi, no entanto, não testemunhou aquele momento. Havia morrido em 15 de agosto de 1990.
O filho, Alexander, planejava reunir, em 2020, os remanescentes da banda. Mas as mensagens do inconformismo de Tsoi voltarão aos palcos apenas no próximo ano.Jaime Spitzcovsky
Jornalista, foi correspondente da Folha em Moscou e Pequim.
Questão
1. Qual foi o contexto político da criação música “Peremen” da Banda Kino e por que hoje ela se torna a “trilha sonora de atos pró-democracia na Belarus”?
2. O que seriam “tempos brejnevistas” e como eles se relacionam com a Glasnost e a perestroika?
3. Por que “Gorbatchov, embora malsucedido na estratégia doméstica, gravou seu nome de maneira indelével na história do século 20”?
Russo atua com contenção e evita apoio ao aliado igual ao dado pela Turquia a Baku
30.set.2020 às 9h32
SÃO PAULO
Igor Gielow
A Armênia descartou uma mediação russa no conflito com o Azerbaijão, que entrou no quarto dia com alguns dos combates mais duros entre os dois países nesta crise.
“Não é muito apropriado falar de uma reunião entre Armênia, Azerbaijão e Rússia enquanto há hostilidades intensas”, disse nesta quarta (30) a jornalistas russos o premiê Nikol Pashinyan.
Azeri chora sobre caixão de soldado que teria sido morto em combate, no distrito de Beylagan – Tofik Babaiev/AFP
A frase veio um dia depois de ele conversar ao telefone com o presidente russo, Vladimir Putin, pela segunda vez desde domingo, quando os ataques começaram na disputada região de Nagorno-Karabakh.
Ela explicita o incômodo com a posição de cautela do Kremlin em relação a seus aliados armênios, que contrasta com os tambores de guerras tocados na Turquia de Recep Tayyip Erdogan para estimular seus protegidos azeris.
“Estamos juntos com o Azerbaijão na mesa de negociação e no campo de batalha. Essas não são palavras vazias”, disse também nesta quarta à agência turca Andalu o chanceler do país, Mevlut Cavusoglu.
Os motivos de Putin são claros. Primeiro, ele não quer antagonizar-se explicitamente com Erdogan, com quem divide parcerias e rivalidades, para não abrir uma frente de turbulência em sua fronteira sul ao mesmo tempo em que lida com a crise no flanco oeste, na sua turbulenta aliada Belarus.
Segundo, Putin não gosta de Pashinyan, que chegou ao poder em 2018 após a queda de um amigo pessoal e aliado, Serzh Sargsyan. Moscou, diferentemente do que ocorreu por exemplo na Ucrânia em 2014, manteve boas relações com a Armênia, mas há desconfiança mútua.
Tensão entre Armênia e Azerbaijão escala com novos conflitos
Imagem mostra suposta destruição de tanques de guerra do Azerbaijão por forças Armênias HANDOUT/Ministério de Defesa da Armênia – 27.set.2020/AFP
No fim da tarde, em Moscou, o Ministério das Relações Exteriores reafirmou que quer sediar conversas entre os chanceleres armênio e azeri sobre a crise.
Analistas russos veem o movimento de Putin como uma forma de aumentar a dependência dos armênios caso a crise escale ainda mais.
Afinal de contas, Moscou tem uma base militar grande, equipada com tanques, baterias antiaéreas e 18 caças MiG-29 em Gyumri, leste armênio. Herança dos tempos em que toda a região fazia parte da União Soviética, o local abriga 3.000 soldados.
Moscou e Ierevan têm um pacto militar segundo o qual os russos se comprometem a proteger os armênios de agressões externas, mas Pashinyan afirmou que não lançará mão disso agora.
Além disso, o armênio ligou nesta manhã para o presidente do Irã, Hassan Rouhani, para falar sobre a crise e o papel da Turquia.
Teerã apoia tacitamente Ierevan, por sua rivalidade com os turcos e por temer separatismo de sua grande minoria azeri, cerca de 25% da população. Mas mantém laços com o Azerbaijão, país também de maioria muçulmana xiita.
Enquanto isso, o conflito aumentou em intensidade nessa quarta. Em Nagorno-Karabakh, os armênios étnicos que governam o encrave em território azeri lançaram uma contra-ofensiva para buscar recuperar áreas perdidas desde o domingo.
Segundo os ministérios da Defesa de ambos os países, os engajamentos ocorreram ao longo de toda a Linha de Contato, a fronteira do cessar-fogo de 1994 que suspendeu precariamente dois anos de guerra entre Armênia e Azerbaijão sobre o controle da região.
Destroços do que seria um jato Su-25 derrubado na terça-feira na Armênia – Armenian Unified Infocenter/via Reuters
Como é a praxe desde o começo do conflito, as informações são contraditórias e alimentadas por relatos esparsos de redes sociais —mais eficazes e loquazes na Armênia, enquanto os azeris seguem a cartilha autocrática de seu líder, Ilham Aliyev.
Baku afirmou ter destruído uma bateria antiaérea S-300, de fabricação russa, do Exército da Armênia que teria sido colocada em Martuni, em Nagorno-Karabakh.
Já Ierevan divulgou fotos do que considera prova da interferência turca no conflito, os destroços de um jato Su-25 que foi abatido na terça segundo os armênios pelo disparo de um F-16 de Ancara em espaço aéreo azeri. A Turquia nega.
Os relatos de F-16 turcos na região seguiram nesta quarta. Segundo o Ministério da Defesa em Baku, os ataques armênios foram neutralizados, e o número de tanques destruídos somou 130 desde domingo.
O governo de Aliyev também disse que mais sete civis azeris foram feridos por bombardeios de artilharia armênia fora de Nagorno-Karabakh, o que Ierevan nega.
Com tudo isso, o número de vítimas do conflito segue nebuloso, na casa de cem mortos e centenas de feridos. Imagens divulgadas na mídia estatal azeri mostravam soldados em caixões, mas não há um número oficial de baixas.
Baku disse ter “neutralizado” 2.300 soldados separatistas em Karabakh, enquanto o governo local falava em 84 mortes até a terça.
A região, chamada de República de Astrakh por Ierevan, era uma área autônoma do Azerbaijão soviético, de maioria armênia. Nos anos 20, antes de virar ditador da União Soviética, o georgiano Josef Stálin cuidou da divisão territorial do Cáucaso sob domínio comunista.
Num paralelo com o cuidado de Putin agora, Stálin manteve Kharabak nominalmente dentro da área comandada por Baku para aplacar os turcos, que formavam então sua república das cinzas do Império Otomano derrotado na Primeira Guerra Mundial.
Como o presidente russo, o futuro ditador queria estabilizar uma das mais importantes regiões da nascente União Soviética, historicamente suscetível a invasões.
Nos últimos 20 anos, as culturas agrícolas voltadas para exportação, como soja e milho, cresceram exponencialmente, enquanto as plantações de itens da cesta básica, como arroz e feijão, tiveram expressivas reduções de área. Essa mudança no perfil da agricultura brasileira ajuda a explicar as recentes altas no preço dos alimentos, de acordo com especialistas.
Nos anos 2000, o arroz ocupava 3,2 milhões hectares de área plantada no Brasil; a estimativa para a safra atual é de 1,6 milhão de hectares, metade do que era plantado. Já a soja, que ocupava 13,9 milhões de hectares há duas décadas, atingiu 36,9 milhões de hectares neste ano, expansão de 165%. O mesmo acontece nas culturas do feijão (redução de 76,5%) e do milho (alta de 143%), segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Expansão das exportações agrícolas
“A partir de 2000, as exportações de soja e milho começaram a deslanchar”, observa o pesquisador da Embrapa Elisio Contini.
Para o coordenador do índice de preços da FGV, André Braz, a atratividade do mercado externo provoca uma mudança no comportamento do produtor brasileiro, que acaba dando preferência às commodities.
O incentivo para produzir arroz e feijão não é grande. O espaço para exportação de milho e soja é maior, remunera mais e, com a desvalorização do real, acaba sendo ainda mais vantajoso. No momento em que outras culturas pagam menos, é natural que o uso da terra seja voltado às commodities. André Braz, coordenador do índice de preços da FGV
O especialista não vê risco de desabastecimento, mas considera que a alta de preços de produtos da cesta básica é uma tendência que deve continuar. Isto somado à situação econômica do país é preocupante, segundo Braz.
O maior risco, numa recessão, é a falta de emprego. Ainda que o preço dos produtos suba, se você tem renda, consegue driblar o aumento. Se não tem renda, a qualquer nível de preço, o produto fica caro. André Braz, coordenador do índice de preços da FGV
Produtor do RS trocou arroz por soja
Na região da Campanha Gaúcha, o produtor Paulo Lederes plantava 1.500 hectares de arroz há quinze anos. Quando iniciou a produção de soja, foi deixando paulatinamente a rizicultura. Em 2005, passou a produzir mais soja que arroz e, nesta safra, está plantando 900 hectares de soja e um décimo (150 hectares) do que plantava de arroz.
Em razão dos altos custos de produção, baixos preços das safras e problemas de crédito, migramos para a soja. Paulo Lederes, produtor agrícola de São Gabriel (RS)
“A soja não tem volta, cada ano cresce de dez a quinze hectares na região”, diz o produtor de São Gabriel (RS).
O município está plantando 21 mil hectares de arroz (30% a menos do que no ano passado) e 140 mil hectares de soja neste ano, seguindo uma tendência que tem sido averiguada nos últimos anos, de crescimento de uma cultura sobre a outra.
Soja oferece vantagens financeiras ao produtor
Lederes lembra que, nos últimos anos, sete indústrias de soja chegaram à região, financiando a cultura.
A soja tem a venda garantida através de preços fixados no mercado futuro (Bolsa de Chicago), além da troca de parte da produção pelos insumos necessários ao plantio (sementes, fertilizantes e defensivos).
No caso do arroz, os produtores conseguem, no máximo, um empréstimo das indústrias, com preço negociado entre ambos, mas sem poder usufruir da garantia do preço futuro de uma Bolsa de commodities para a época da colheita.
O arroz não tem garantia de preço, vale bem menos a pena. Paulo Lederes, produtor agrícola de São Gabriel (RS)
Mais de 60% da soja e 30% do milho produzidos no Brasil são exportados, principalmente para a China, puxando as vendas internacionais do agronegócio brasileiro. Desde janeiro do ano passado, 60 novos mercados foram abertos para os produtos agrícolas brasileiros.
“A rentabilidade da soja aumentou muito com as exportações para a China. As indústrias passaram a remunerar melhor o produtor”, comenta Lederes.
Menos feijão no Paraná
À frente da produção de sementes de feijão feita por vinte cooperados no Oeste do Paraná, o produtor Airton Cittolin, de Cascavel (PR), observa que os 28 municípios paranaenses devem produzir 30% a menos do grão nesta safra.
A produção vai diminuir porque o preço da soja e do milho subiu muito. O feijão é uma cultura que oscila muito de preço, então o pessoal opta pelas culturas mais seguras. Airton Cittolin, produtor agrícola de Cascavel (PR)
Embora as sacas de feijão preto e carioca estejam valendo R$ 250 e R$ 280, enquanto a da soja seja vendida a R$ 120, a garantia de venda da soja ainda compensa mais o produtor do que o feijão.
A soja tem liquidez na hora, muitos lugares que recebem –é dólar na mão. Já o feijão tem pouco comprador, depende muito da qualidade e só paga em 30 dias. Airton Cittolin, produtor agrícola de Cascavel (PR)
O economista Marcelo Garrido, do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Agricultura do Paraná, informa que, em dez anos, a área plantada de feijão encolheu 92% no Paraná. No mesmo período, a soja cresceu 3,9%, para 995 mil hectares: “Para o Paraná, é uma expansão considerável porque não temos terra nova para plantio — a área agrícola está esgotada”.
Garrido observa que o movimento se repete em boa parte do país. “Nos últimos anos, a soja tem ganhado muita área em cima das culturas menores, em função de preço e liquidez. A soja é a cultura com mais rentabilidade, não depende do mercado interno. O feijão depende do mercado interno e é muito sensível ao clima”, compara.
Área caiu, mas produtividade aumentou
“Existe, de fato, uma substituição de culturas no Brasil. O Rio Grande do Sul perdeu muita área de arroz e foi para a soja, entre outras culturas. No arroz, em específico, a área decresceu 41% em dez anos, mas a produtividade aumentou 38%, compensando a queda. O consumo de arroz caiu 6%, enquanto a produção cresceu 5% nos últimos cinco anos”, pondera o superintendente de gestão de oferta da Conab, Alan dos Santos.
O especialista observa um movimento parecido com o feijão, que teve queda de 27% na área plantada nos últimos dez anos, mas crescimento de 18% na produtividade —queda de 13% na produção. Em uma década, o consumo do grão caiu de 3,6 milhões para 3,2 milhões de toneladas no Brasil. “São produtos básicos da alimentação brasileira, complementares, e seguiram tendências parecidas”, observa Santos.
Falta política pública para segurança alimentar?
Os especialistas afirmam que não existe risco para a segurança alimentar —uma responsabilidade da Secretaria de Política Agrícola, do Ministério da Agricultura (Mapa), que não se manifestou até a publicação da reportagem.
O maior desastre seria faltar produto. Mas isso, a meu ver, não vai acontecer. Elisio Contini, pesquisador da Embrapa
Segundo ele, o governo trabalha com estoques estratégicos, taxas de importação menores, incentivos à produção e oferta de crédito para garantir o abastecimento interno.
A política agrícola estimula a oferta de bens básicos, como o arroz e feijão. Isso tem garantido a oferta nacional. Houve crises de preço em 2011 e 2018, e a política de preço mínimo garantiu a permanência de produtores na cultura –para evitar a substituição de culturas e dependência externa. Alan dos Santos, superintendente de gestão de oferta da Conab
Há 30 anos no setor privado, o analista Carlos Cogo, que já trabalhou na Conab, discorda dos colegas do setor público.
O Brasil não tem política agrícola. O Brasil tem bombeiro que vai lá e apaga fogo quando tem um problema grave, como aconteceu agora no caso do arroz. Carlos Cogo, ex-Conab e diretor da Carlos Cogo Consultoria Agroeconômica
Ele lembra que o governo decidiu zerar as tarifas de importação do arroz quando os preços da saca já haviam batido R$ 40 nos supermercados.
Cogo lembra que há muito tempo a política de estoques públicos, empregada quando falta produto ou os preços estão muito baixos, vem sendo abandonada pelo governo. “A Conab não tem mais estoque público já faz um tempo, só tem estoque residual de milho. Não tem mais nada de trigo e arroz. Por isso não houve intervenção com leilões de estoques no caso do arroz”, observa.
O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Santa Catarina (Faesc/Senar-SC), José Zeferino Pedrozo, lembra que, apesar da alta no preço do arroz neste ano, a cultura vem causando prejuízos há muitas safras para os produtores, agravados pela ausência de instrumentos de política agrícola.
É justo assinalar que os arrozeiros amargaram muitos anos de prejuízos e que os ganhos deste ano não repõem as perdas do passado. Zeferino Pedrozo, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Santa Catarina
“Aqui em Santa Catarina se fala em manter os dois mercados, nacional e internacional”, relativiza o presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias de Santa Catarina (Fecoagro-SC), Ivan Ramos, à frente de dez cooperativas e o frigorífico Aurora. “Houve uma diminuição na área plantada de arroz, nos últimos anos, em função de preço. O pessoal está migrando bastante para fruticultura”, comenta o representante.
1. As culturas de exportações têm um papel fundamental em nossa balança comercial? Justifique.
2. Qual a importância da Embrapa na produção de alimentos no Brasil? (pesquisa)
3. De que forma é possível aumentar a produtividade sem avançar sobre novas áreas agrícolas?
4. O Brasil é um dos principais exportadores de alimentos do mundo, no entanto vem apresentando problemas de abastecimento interno. Explique essa contradição.
5. Aponte impactos ambientais ligados a produção agropecuária brasileira.
Sem meios financeiros próprios, sem poder e armas, a ONU será o que os países membros querem que ela seja
Rubens Ricupero
Se não existisse, a ONU teria de ser inventada. Ela garantiu ao mundo 75 anos sem nova guerra mundial, sem que a bomba atômica voltasse a ser utilizada contra a população civil como em Hiroshima. Teve flexibilidade para acomodar a ascensão meteórica da China, inclusive seu ingresso como membro permanente do Conselho de Segurança.
Sem a ONU, é difícil imaginar que a dissolução da União Soviética ou o fim do apartheid na África do Sul teriam ocorrido sem um banho de sangue, embora outras razões tivessem concorrido para isso.
Fundada por 51 membros originais, ela tem hoje 193 integrantes. É a primeira vez na história da humanidade que uma organização internacional atinge a universalidade. Boa parte dos membros adicionais eram colônias, cujo processo de independência na Ásia, África, Oriente Médio e Caribe constituiu uma das maiores realizações da ONU.
Bandeiras hasteadas em frente à sede da ONU, em Nova York – Wang Ying – 15.set.20/Xinhua
Deve-se em boa parte ao esforço de liderança da ONU os avanços nos quatro principais vetores da evolução da consciência moral da humanidade: os direitos humanos, o meio ambiente, a igualdade entre mulheres e homens e a promoção do desenvolvimento para “todos os homens e o homem como um todo”.
São centenas as convenções negociadas no contexto da ONU para garantir direitos, minorias, proteger crianças, migrantes, pessoas com deficiência, proibir guerras, agressões, tortura, discriminação social, lutar contra o aquecimento global. Graças à ONU dispomos das Metas de Desenvolvimento Sustentável que definem com datas e cifras as principais aspirações humanas.
Quantos milhões de pessoas teriam perecido sem o trabalho da ONU para refugiados, o fornecimento de alimentos em zonas de fome, a assistência às crianças feita pela Unicef, a reconstrução após desastres naturais, após o genocídio do Camboja, as operações de paz após as guerras civis no Congo, Sudão, Haiti, na Palestina?
Como se poderia combater pandemias sem a Organização Mundial da Saúde? Assegurar direitos a trabalhadores e sindicatos sem a Organização Internacional do Trabalho? Evitar a proliferação de armas nucleares sem a Agência Internacional de Energia Atômica? Ou o combate a drogas e crime organizado sem a organização da ONU em Viena?
O mais próximo a que chegamos de um parlamento mundial é o fornecido pela ONU e suas agências especializadas. É nele que desafios e ameaças globais são enfrentados pelo processo democrático de tomada de decisão e adoção de normas. Isso é o que chamamos de um sistema baseado em regras, isto é, regido pelo direito, não pela força.
Sem meios financeiros próprios, sem poder e armas, a ONU será o que os países membros querem que ela seja. Quando as grandes potências tentam usar a ONU como instrumento de seus interesses, ela acaba paralisada como no terrível genocídio de Ruanda.
A ONU pode e deve ser aperfeiçoada no sentido de mais democracia, igualdade e independência em relação à rivalidade dos grandes. Só assim atingiremos em 2045 um século de paz garantida pela Carta das Nações Unidas.
José Sarney, primeiro civil a presidir o país após a ditadura militar, discursa na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, em 1988 Marc Cardwell/AFP
Rubens Ricupero foi secretário-geral da UNCTAD em Genebra e subsecretário-geral da ONU de 1995 a 2004
Questões
1. Avaliando nossa atual realidade, você concorda com o título do texto? Justifique.
2. Por que o número de países integrantes aumentou muito após a Segunda Guerra Mundial?
3. O autor enfatiza no segundo parágrafo o papel da ONU em dois grandes fatos históricos. Faça um breve comentário sobre cada um deles.
4. Tanto o logo da ONU como o local onde se encontra o prédio da Assembleia Geral é motivo te intensos debates. Por quê?
5. Fale sobre o papel do Brasil na MINUSTAH. (pesquisa)
6. “Sem meios financeiros próprios, sem poder e armas, a ONU será o que os países membros querem que ela seja” Analise a afirmativa do autor.
Na parede, o emblema da folha de coca sobre o machado e o facão –eco do símbolo comunista da foice e do martelo– é o cartão de visitas da federação dos sindicatos de cocaleiros de Chimoré, no Chaparei. No piso de cimento, milhares de folhas secam antes do ensaque. Até ali, o processo está dentro da lei, mas o destino final dificilmente será o consumo tradicional. A probabilidade maior é que vire pó.
O cenário sugere descontrole, mas os números revelam o contrário. Há mais de uma década, quando um cocaleiro do Chapare chegou à presidência, a Bolívia adota uma estratégia nunca admitida oficialmente, mas que resultou na mais bem-sucedida experiência mundial de controle da produção de cocaína: a legalização do plantio destinado ao narcotráfico.
A política foi comandada até há pouco por Evo Morales, que renunciou em outubro de 2019. Primeiro como líder dos produtores, ele enfrentou erradicações forçadas financiadas pelos EUA e tentativas frustradas de cultivos alternativos. Já presidente (2006-2019), expulsou a DEA (agência antidrogas norte-americana), delegou o controle dos cultivos aos sindicatos e elevou de 3.200 hectares para 7.700 hectares a área de coca permitida no Chapare, no centro do país.
Assim desmantelou-se a tutela norte-americana, baseada na erradicação agressiva dos plantios da Erythroxylum coca, cultivada nos Andes desde pelo menos 2.000 a.C. Foram mais de duas décadas de programas pouco eficientes de substituição de cultivos e de punições ao narcotráfico, estratégia que predomina nos outros dois países produtores do mundo, Colômbia e Peru.
Do tripé, a Bolívia de Evo manteve a legislação com penas duras, sem legalização de consumo nem da maconha. Mas o discurso oficial passou a ser “coca sim, cocaína não”, com ênfase no uso tradicional presente em vários países sul-americanos, inclusive no Brasil –no noroeste amazônico, a folha é chamada de epadu.
É fato que, além do crescimento populacional, a mastigação tradicional tem ganhado adeptos graças a novidades para melhorar o gosto amargo. A mais popular é a estévia, adoçante natural. Café e chocolate são outras opções.
Mas o consumo tradicional está longe de absorver a produção. Números do próprio governo Evo indicam que mais de 90% da coca do Chapare não passa pelos dois mercados legais da folha, em Cochabamba e na capital, La Paz.
Cocaleiros carregam sacos de folha de coca do lado de fora do mercado de Villa Fatima, na capital La Paz – Lalo de Almeida/Folhapress
Esse desvio é de fácil constatação nas ruas, inclusive no Chapare, onde a coca vendida para a mastigação tradicional costuma ser trazida dos Yungas, região perto de La Paz onde a sagrada planta andina é cultivada há séculos.
A folha de coca é um estimulante de potência média com alto poder nutritivo, fonte de calorias, proteínas, cálcio, ferro, vitamina A e outros nutrientes. Desde antes da invasão europeia faz parte da dieta de povos andinos e amazônicos.
Já a cocaína, extraída da folha, foi isolada pela primeira vez em 1860, na Alemanha. Por décadas, foi usada legalmente na medicina e de forma recreativa, até passar a ser proibida em vários países, na primeira metade do século 20.
A Bolívia é o principal fornecedor de cocaína do Brasil. Estudo de 2012 feito pela Polícia Federal revelou que 54,3% da cocaína que ingressa no país tem origem no Chapare ou nos Yungas. Em segundo lugar, aparece o Peru (38%).
O Brasil é o segundo maior consumidor mundial de cloridrato de cocaína (pó), depois dos Estados Unidos, e provavelmente o maior consumidor de derivados de cocaína (como o crack), segundo relatório do Departamento de Estado dos EUA.
Importante ponto de embarque para a Europa, o Brasil é o único país fronteiriço às três nações produtoras. A reportagem procurou a PF em Brasília sobre a entrada da cocaína boliviana, mas não obteve resposta.
Diferentemente dos Yungas, o plantio intensivo da coca é recente no Chapare. O cultivo explodiu a partir do anos 1980 por causa da demanda e da mão-de-obra disponível após a demissão e a migração em massa de mineiros do Altiplano, a maioria do povo quéchua. Atualmente, as federações representam cerca de 50 mil famílias.
Cocaleira na trilha que dá acesso à sua plantação perto de Chimoré, na região do Chapare – Lalo de Almeida/Folhapress
A legalização da coca no Chapare começou sob o governo Carlos Mesa, em 2004, após acordo com Morales. Desde então, uma família pode plantar no máximo um “cato”, correspondente a 1.600 m², ou duas quadras de futsal.
O excedente está sujeito à “racionalização”. O controle de quem tem direito a um cato e de quem excedeu o limite é dos sindicatos e das federações. Cabe ao governo combater o cultivo em áreas não autorizadas, como parques nacionais e regiões fora do Chapare e dos Yungas.
Não faltaram críticas ao que se fazia no Chapare, principalmente dos EUA. Opositores, como o ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga, previam que a coca financiaria um novo narcoestado, como ocorrera no início da década de 1980.
Mas não foi o que ocorreu. Em 2008, quando Evo expulsou a DEA, a Bolívia tinha 25.400 hectares de coca. Onze anos depois, o país registrava superfície praticamente idêntica, 25.500 hectares.
No mesmo período, a Colômbia, que adota uma linha dura e recebe ajuda média de US$ 400 milhões (mais de R$ 2,1 bilhões) por ano dos EUA, viu a área plantada saltar 90%, alcançando 154 mil hectares. É, de longe, o maior produtor de cocaína, seguida de Peru e Bolívia. Os números são da UNODC (Escritório da ONU contra Drogas e Crime).
Plantações de coca nas montanhas da região dos Yungas – Lalo de Almeida/Folhapress
Outra comparação favorável é o nível de violência. Na Bolívia, a taxa de homicídios é de 6 por 100 mil habitantes, uma das mais baixas da América Latina. Na Colômbia, a taxa chega a 25 por 100 mil habitantes, uma das mais altas da região. Já o Peru ocupa posição intermediária.
“Não há cartéis [na Bolívia], como o de Cali ou de Sinaloa. Existem nexos com algumas organizações internacionais para transportar a droga, mas é uma delinquência boliviana, não tão agressiva como em outros países. E há um controle da polícia, das forças especiais”, diz o ex-diretor geral da Força Especial de Luta contra o Narcotráfico, general Luis Caballero, em La Paz, onde hoje é advogado.
Em relatório do Departamento de Estado americano, a Bolívia e a Venezuela aparecem como os únicos países que “comprovadamente falharam” em cumprir obrigações internacionais de combate ao narcotráfico. Ao justificar a classificação, que gera sanções à Bolívia, o documento menciona o aumento da área legal de 12 mil hectares para 22 mil hectares, em 2017.
A ampliação não tem respaldo técnico. Em 2013, levantamento financiado pela União Europeia concluiu que 14.700 hectares são suficientes para o consumo tradicional.
“Claro que se trata de uma legalização ‘de facto’”, afirma o economista Roberto Laserna, que estuda a coca há mais de duas décadas. “Sabendo o destino dessa coca, foi permitido que ela seja produzida e comercializada. A ideia do governo era reprimir o narcotraficante e liberar o cocaleiro, mas obviamente há uma conexão direta entre ambos.
Carregador leva sacos de folha de coca no mercado Villa Fatima, em La Paz – Lalo de Almeida/Folhapress
Defensor da regularização da coca e da cocaína, o pesquisador do Ceres (Centro de Estudos da Realidade Econômica e Social), de Cochabamba, ressalva que o controle deveria ser incumbência do Estado. No Chapare, afirma, o resultado foi uma “republiqueta” controlada pelos sindicatos, em que camponeses têm pouco poder de decisão enquanto o narcotráfico cresce.
“A solução ao problema da coca e da cocaína passa por alguma forma de legalização e regularização. E isso começa pelo controle da coca mediante permissões a produtores individuais. Isso é impossível de fazer agora pelo poder dos sindicatos, pela ausência do Estado e pela penetração que tem o narcotráfico nessa zona.”
Com a experiência de quase 30 anos combatendo o tráfico em Cochabamba, o coronel da Polícia Nacional Rolando Raya afirma que, a partir do governo Evo Morales, a produção “se autodisciplinou”, enquanto o cato fez com que o dinheiro fosse compartilhado de forma homogênea.
Polícia prepara queima de drogas apreendidas em montanhas no entorno de Cochabamba – Lalo de Almeida/Folhapress
“Eles pensaram: ‘O que vai acontecer se produzirmos mais? Haverá intervenção. Então faremos uma política bem-sucedida. É legal ter o meu cato’. Ninguém cresceu mais do que tinha de crescer. É um narcotráfico disciplinado”, afirmou, em entrevista na sede do seu comando.
Ex-integrante da FELCN, Raya afirma que, por outro lado, há maior penetração e pulverização do tráfico, que passou de grandes chefes para clãs familiares. “As fábricas [de cocaína] estão em toda a Bolívia”, diz o coronel, que vê uma crescente perda de controle territorial. “Se entramos, há morte. Nem o governo Morales conseguia entrar.”
Posto policial depredado e abandonado em Villa Tunari, na região do Chapare, reduto eleitoral do ex-presidente Evo Morales – Lalo de Almeida/Folhapress
Órfão aos 12 anos, Edgar Quispe migrou de Potosí ao Chapare nos anos 1980 para trabalhar nos cultivos de coca. Ele disse que, até o governo Gonzalo Sánchez de Lozada (2002-2003), o governo agia com violência para erradicar a coca. Já os cultivos alternativos, afirma, não funcionavam.
“Não havia mercado. A única forma de sobreviver no trópico de Cochabamba era a coca”, conta Quispe durante encontro de mulheres cocaleiras em Chimoré, em um ginásio de esportes cercado de barro e apinhado de vendedores ambulantes de comida. Apesar do nome do evento, só homens discursaram no dia em que a reportagem lá esteve, antes da pandemia do coronavírus.
Cocaleiros participam de congresso em um ginásio em Chimoré, na região do Chapare – Lalo de Almeida/Folhapress
No passado, Quispe teve seu plantio erradicado à força. Sem alternativa, em 1992 migrou para a Argentina, onde ficou até 2001. Como resultado da repressão, explica Quispe, os cocaleiros começaram a formar o partido Movimento ao Socialismo, que passou a controlar as prefeituras do Chapare e, na eleição de 2005, levaria Evo ao poder. Com o ex-cocaleiro no poder, a dinâmica mudou. “Se há coca excedente, isso tem de ser anunciado, e a pessoa tem de permitir a entrada em seu sítio.”
Hoje com 49 anos, ele cultiva coca legalmente. Com o dinheiro poupado na Argentina, comprou 25 hectares. A sua principal atividade é a criação de gado –tem 20 cabeças.
Assim como outros cocaleiros, Quispe passou a viver em Chimoré, a 10 km de seu cato, cidade de comércio informal, casas simples e ruas de pavimentação mal conservada.
A renda da coca é razoável. Na federação, o saco da folha (23 kg) é comercializado por 1.200 bolivianos (R$ 730). Cada cato produz, em média, três sacos a cada três meses.
Acima, sacos de folhas e abaixo, as folhas de coca no mercado de Chimoré, na região do Chapare – Lalo de Almeida/Folhapress
A área dos plantios, antes acessível apenas após longas caminhadas, hoje está conectada por estradas de terra. Na região visitada pela Folha, o cocal ficava a cerca de 5 minutos a pé de uma via. Os cocaleiros trabalham ali durante o dia e à noite voltam à cidade.
Para complementar a renda, os camponeses também trabalham para outros camponeses. Todo o plantio da coca é manual –o machado e o facão são usados para abrir a roça na floresta. Uma diária sai por 120 bolivianos (R$ 73).
Ecoando o discurso de Evo, ninguém admite que a coca do Chapare vai principalmente para o narcotráfico. “Comercializamos nos nossos centros de armazenagem, despachamos à comercialização em nível departamental, em Cochabamba, e depois para o país. A coca é distribuída para o pijcheo [mastigação]”, afirma Leonardo Loza, um dos principais dirigentes do Chapare e filiado ao MAS.
Leonardo Loza, lider cocaleiro, caminha por sua plantação de coca na zona rural de Chimoré – Lalo de Almeida/Folhapress
A reportagem também visitou a região dos Yungas. Embora fique apenas a algumas dezenas de quilômetros de La Paz, a viagem é demorada devido às estradas precárias esculpidas nas serras que fazem a transição dos Andes para a Amazônia.
Assim como no Chapare, não há sinais de riqueza ou de desigualdade. As casas, construídas sobre encostas íngremes, são simples, e os carros, velhos -a maioria circula sem placas, contrabandeados do Chile.
Porém, ao contrário do Chapare, os principais líderes cocaleiros dos Yungas deixaram de apoiar Evo. Sempre latentes, as divergências se escancaram após a lei de 2017, que ampliou a área dos cultivos. A medida, afirmam os líderes, favoreceu o Chapare e legalizou produção que vai ao narcotráfico.
Acima, cocaleira descansa no mercado Villa Fatima, em La Paz; abaixo, Pedro Antonio, filho de Elton Morán, descansa na sombra enquanto o pai trabalha na plantação – Lalo de Almeida/Folhapress
Em meio ao rompimento com Evo, vários dirigentes acabaram presos, incluindo seu principal líder, Franklin Gutiérrez. Na recente crise política, ele apoiou os protestos que provocaram a queda do ex-presidente e depois se aproximou do governo interino. O país é governado pela direitista Jeanine Áñez. Por causa da pandemia, a nova eleição presidencial foi adiada de maio para setembro, depois para outubro.
Entre os cocaleiros yunguenhos, no entanto, o ex-presidente guarda popularidade. É o caso de Elton Morán, 30. Morador do povoado de Huancané, ele aprendeu o ofício do pai e do avô.
“A coca é a atividade que mais nos dá sustento”, diz o agricultor no meio do seu cocal. Ele começou a ajudar o pai com 12 anos e hoje divide a tarefa com a mulher, com quem tem dois filhos.
“Evo Morales entrou quando eu estava no colégio. Meus pais se sentiam muito orgulhosos de que um camponês chegasse ao governo”, diz Morán, que aponta a substituição das paredes das casas do barro para o tijolo como uma das mudanças favoráveis do seu governo. “Muitos consideram que a sua entrada foi muito boa, e outros o rechaçam. Pessoalmente, vejo que foi bom. Daqui a cinco anos, já vamos saber quão bom foi Evo e também os que tanto o julgavam.”
Mural com o rosto do ex-presidente Evo Morales em estrada no Chapare – Lalo de Almeida/Folhapress
Coca, cocaína e Bolívia
1859 O alemão Albert Niemann isola o alcaloide das folhas de coca, planta usada há séculos por indígenas. A descoberta é batizada de cocaína
1862-1914 A cocaína passa a ser empregada em vários produtos, de anestésicos à primeira versão da Coca-Cola. O principal produtor é o Peru
Décadas de 1910 e 1920 EUA e outros países passam a proibir a substância após descobertas de seu efeito nocivo. No Brasil, o veto é estabelecido via lei em 1921 -a primeira legislação do país sobre drogas.
1961 Sob pressão norte-americana, a ONU aprova a Convenção Única Sobre Entorpecentes, que inclui a erradicação da planta de coca. Em 1973, sob ditadura militar, a Bolívia se compromete a acabar com o uso tradicional em 25 anos
1971 O presidente americano Richard Nixon declara guerra às drogas. Ao longo da década, consumo de cocaína explode, e colombianos assumem o comando do tráfico
1973 Nixon cria a DEA, agência antidrogas, com forte atuação na América do Sul
1980 General García Meza assume o poder na Bolívia em golpe, em ação financiada pelo narcotráfico. Enquanto promove perseguição à esquerda, transforma o país em ditadura narcomilitar. Traficantes do país se aliam ao colombiano Pablo Escobar
1988 Sob o presidente Victor Paz Estenssoro, a Bolívia é o único país a se opor à criminalização do uso tradicional da folha de coca em nova convenção da ONU. País estabelece limite de 12 mil hectares para plantio tradicional, mas endurece punição de pequenos infratores
Década de 1990 Consumo de cocaína se espalha para outros países -incluindo o Brasil. Em 1993, Escobar é morto em Medellín. Na Bolívia, campanhas de erradicação forçada no Chapare enfrentam resistência dos cocaleiros, entre os quais Evo Morales
2000 O presidente americano Bill Clinton aprova US$ 1,3 bilhão em ajuda à Colômbia
2004 Após negociar com Morales, o presidente Carlos Mesa limita a produção a 1.600 m² por família no Chapare
2006 Morales assume a presidência, mas mantém liderança das seis federações cocaleiras do Chapare
2006-12 No México, presidente Felipe Calderón emprega dezenas de milhares de militares contra os cartéis que usam o país para levar cocaína aos EUA. Número de homicídios explode
2013 Bolívia obtém vitória simbólica na ONU ao conseguir licença especial para o uso tradicional da coca
2017 Morales amplia de 12 mil ha para 22 mil ha a área para plantio de coca, favorecendo principalmente Chapare. Líderes dos Yungas, área de cultivo ancestral, criticam mudança
2019 ONU registra a maior produção de cocaína da história, de 1.976 toneladas em 2017. Explosão é puxada pela Colômbia
2019 Morales renuncia à presidência em meio a crise política por sua insistência em se candidatar a um quarto mandato.