Categoria: MEMÓRIAS DO LUGAR

Textos e reflexões com base no espaço vivido!

  • Preço da Guerra!

             Sentou-se no meio fio e com um olhar perdido fitou as pessoas que passavam, sacou uma pequena colher da velha calça e começou a cavar entre um dos paralelepípedos da rua e com uma destreza incomum logo o pequeno pedaço de rocha já estava totalmente solto, no entanto, colocou toda a areia de volta. Guardou a colher amassada e riu. “Tristeza isso que aconteceu com ele” Falei como esperasse uma confirmação do Seu Américo. “Sim, é verdade. O Otávio foi meu amigo de infância! A guerra foi terrível para ele”. “Alguns não conseguem mais voltar dela. Ficam perdidos para sempre. É muita dor”. Justifiquei tamanha insanidade. Seu Américo não disse nada e depois de uma longa pausa para acender seu cigarro de palha, foi visceral “Acho que todos deveriam voltar dilacerados de uma guerra. Penso que um ser humano que passa por essa experiência não deveria voltar a ser a mesma pessoa. Desconfio daqueles que voltam emocionalmente saudáveis. É paradoxal pensar assim meu filho, sei disso. Todos precisam voltar loucos para que acreditemos na natureza humana”. Definitivamente o velho Américo era a reencarnação do Buda!

    (parte do livro que estou escrevendo “memórias do lugar”)

    Prof. Luciano Mannarino

     

  • Rugas!

    Rugas!

              “Bom dia Seu Américo? Disse a bela senhora quando passou por nós . “Bom dia Dona Carmela” prontamente respondeu o velho Américo tentando disfarçar uma admiração. Não pude ficar calado. “Taí Seu Américo, que tal o Sr. juntar as escovas de dentes com a Dona Carmela? Ela é viúva e parece gostar do Sr. Bom, mas teria que melhorar essa sua cara de uva passa. Né? Existem cremes para disfarçar essas rugas. Sabia?” Ele me olhou sorrindo e após uma pequena pausa filosofou. “Precisamos enxergar o mundo sentindo-as em nossa face. Se somos oprimidos por elas iniciamos uma batalha contra sua natureza. Se as aceitamos nos libertamos, pois entendemos seu significado. Quanto elas chegarem…aceite-as meu filho”

              Era um sábio ancião, uma das pessoas mais generosas e inteligentes que tive o prazer de conviver.

    (memórias do lugar)

    Prof. Luciano Mannarino

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  • Morte de uma lembrança!

    Morte de uma lembrança!

              Embora todos fizessem esforços para que eu lembrasse daquele momento, mas eu não conseguia. “Você estava com uma camisa listrada” disse um amigo! “Foi você que insistiu para ir” Disse outro. Não adiantava. Aquilo foi totalmente apagado da minha memória.   Era como se eu não tivesse lá – Pensei comigo.  Triste me afastei, olhei para pedreira no fundo da rua – Sempre fazia isso quando estava angustiado. Deixei-os saboreando aqueles doces momentos e fui para casa.

                “O esquecimento completo de uma lembrança é uma espécie de morte!” –  Filosofei pouco depois de olhar mais uma vez para pedreira e bater o portão. Talvez o filme da Seção da Tarde me consolasse.

     

    (parte do livro que estou escrevendo “memórias do lugar”)

    Prof. Luciano Mannarino.

     

  • Arcos Íris.

    Arcos Íris.

    Arco-Íris

    — Vejam uma das mais belas ilusões óticas da natureza: um arco-íris. Ele está lá, mas só podemos enxergá-lo de uma determinada perspectiva. Ele existe e não existe ao mesmo tempo.

    A professora de ciências abriu as janelas da sala, deixando o cheiro da chuva entrar. As gotas ainda escorriam pelo vidro, e o ar abafado contrastava com a brisa fria que vinha de fora.

      — A perspectiva é essencial para contemplar esse fenômeno — continuou ela. — Assim como muitas coisas na vida, só o vemos quando estamos na posição certa.

    Essa ideia me acompanhou durante todo o caminho de volta para casa.

    “Quantas coisas maravilhosas existem ao nosso redor sem que as percebamos? 

    A chuva voltou a cair quando cheguei em casa estava completamente ensopado.

    — Você vai acabar pegando um resfriado! Fique aqui, vou pegar uma toalha para te secar. O lanche está na mesa.

    Minha mãe sempre teve sete cores.

    (parte do livro que estou escrevendo “memórias do lugar”)

    Prof Luciano Mannarino

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  • O último jogo…

    O último jogo…

    A parte da rua onde as partidas eram realizadas com seus buracos no chão, calçadas irregulares, paralelepípedos, postes, pessoas e carros que passam etc., torna o futebol um jogo peculiar – quem já esteve de cara para o gol e foi obrigado parar a bola para uma kombi passar sabe o que estou falando.

    É nesse pequeno universo que sentimentos e aptidões são desenvolvidos e exercitados. A rivalidade, a solidariedade, o oportunismo, a superação, o esforço, a vitória, a derrota, enfim turbilhões de emoções que cada jogo oferece – Acredito que seja possível conhecer muito sobre nós mesmos e sobre as pessoas durante um simples jogo de futebol. 

    É uma escola, no entanto, no meu caso, teve um fim melancólico. É que no final da rua onde vivi começaram a construir um condomínio de seis prédios com dez andares cada um. Sabíamos que isso poderia afetar nossas partidas, porém continuávamos a jogar mesmo com passagem constante de caminhões.

    Mas na semana seguinte, após a entrega das chaves dos apartamentos, tudo mudou. O quarto automóvel que passou, com alguns minutos de jogo, descortinou o obvio: Havíamos perdido nosso “campo” de futebol. Ficou inviável.

    Olhamos uns para os outros e resignados, sem dizer uma palavra, cada um foi para sua casa e nunca mais voltamos a jogar na rua. Fiquei sozinho com a bola sobre meu pé refletindo sobre a perda do meu laboratório de sentimentos até que uma buzina e uma bronca interromperam minha melancolia.

    “Sai da rua seu maluco! Quer morrer???”

    (memórias do lugar)

    Professor Luciano Mannarino

    Pensamentos

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