Categoria: MEMÓRIAS DO LUGAR

Textos e reflexões com base no espaço vivido!

  • Uma noite para não dormir

    Uma noite para não dormir

              Era normal uma tempestade de verão no final da tarde – nos anos de 1970 o tempo era mais previsível, porém naquele dia a chuva caiu no início da noite. As chuvas convectivas (como é chamada pelos cientistas) são efêmeras. Como um orgasmo da natureza elas tem início, meio e fim . Essa veio acompanhada de ventos tão fortes que vários bairros ficaram sem luz. Foi terrível, porém ela foi se esvaindo até descortinar um lindo céu estrelado.

             Um imenso clarão começou a despontar no horizonte atrás do morro e aos poucos ele foi se erguendo e iluminando pessoas, casas, prédios e automóveis ao ponto de projetar suas sombras sobre o chão. Era linda lua cheia e o apagão  potencializou o seu brilho e tornou a noite espetacular.

             Estava na casa de um amigo no alto da rua, fiquei impedido de sair devido à chuva. Me despedi e desci a rua caminhando lentamente. Fui cumprimentando vizinhos e amigos que tinham colocado cadeiras sobre as calcadas, pois foram libertados da escravidão da televisão, para conversar sob aquele segundo “sol”. Uma brisa leve soprava ao longo de árvores prateadas e espalhava o doce cheiro e frescor de  mangas verdes. Uma noite para não dormir. Sim, eu estava feliz!

    Dezembro de 1987.

    (memórias do lugar)

    PROFESSOR LUCIANO MANNARINO

    ezgif.com-video-to-gif (2)

  • O novo venceu!

    O novo venceu!

                 Era um senhor de hábitos conservadores, rígido e disciplinador. Sempre impedia excessos. Não podia gritar palavrões durante uma partida de futebol, coibia namoros, reprimia pichações na parede, exigia que a porta do condomínio ficasse fechada, etc.

                Sua gestão como síndico foi conturbada e não suportando a pressão, se desligou e voltou a ser um morador recluso e só era visto quando, trajando um terno cinza, ia levar a filha autista para o culto evangélico dominical. Passou a sofrer gracejos e piadas de todos que o detestavam, mas com extrema polidez sempre ignorou. Até que um dia se mudou e nunca mais foi visto.

           – Isso significa nossa vitória contra essa gente velha e arrogante. Eles precisam entender que o mundo é outro.

                 Disse um amigo, quando soubemos que Seu Antônio havia ido embora.

            Quanto ao prédio? Bom, ele  se tornou um ponto de encontro de desajustados, pichações apareceram, muitas garotas engravidaram sob suas pilastras e até de madrugada havia partidas de futebol. Vários moradores também se mudaram – inclusive a minha namorada. O belo condomínio, com suas luzes, pessoas e jardins se transformou num lugar abandonado.

                    O novo havia vencido!

    (memórias do lugar)

     

    Luciano Mannarino

    ezgif.com-video-to-gif (2)

  • Meu avô e a enxada!

    Meu avô e a enxada!

    – Acabei de chegar da casa do seu avô. Ele quer falar com você.

    – O vovô? O que ele quer? O que eu fiz pai?  Respondi quase sem voz.

    – Sei lá. Ele te espera amanhã. 8 horas!

    Meus avós, pertenciam a um fluxo migratório de italianos que vieram para o Brasil pouco antes da 2 Guerra Mundial – talvez se eles ficassem por lá eu não estaria aqui escrevendo isso. Meu avô, patriarca dos “Mannarinos”, era um homem de poucas palavras e de semblante sério.

    Será que foi porque eu corri na frente dele no último domingo? A culpa foi da minha Rose (minha prima), pois ela me empurrou e nesse caso ela deveria ser chamada também, ou pode ser que ele tenha sentido falta de alguns cachos de uva no seu pomar, e nesse caso, a culpa é da Rose também, pois a ideia foi dela. Pensei!

    Foi uma noite longa e no dia seguinte, logo após a um amargo café, fui em direção ao meu martírio – a casa dos meus avós fica próxima.

    Chorei, enxuguei minhas lágrimas, ergui minha cabeça e resolvi enfrentar o maior problema pessoal nos meus 11 anos de vida. Entrei na casa de meus avós pela cozinha.

    – Seu avô te espera no pomar!

     Disse minha avó. Sem nenhuma piedade.

    – Sua benção minha avó.

     Consegui dizer.

    É uma tradição na nossa família pedir a benção dos mais velhos. Isso vale para avós, pais e tios. Fui em direção a parte dos fundos da casa. O pomar era um local onde meu avô passava quase todo dia cuidando de árvores frutíferas – algumas de origem europeia como uva e maçã, de plantas ornamentais, além de criar patos, galinhas e coelhos. Era sua “Itália” e somente em datas especiais, recebia para visita de todos. Isso me deixou mais apreensivo ainda, pois sabia que era um local sagrado para ele.

    Maldita Rosemeire! Malditas uvas. (pensei)

    Cheguei de mansinho. Meu avô estava sentado dando milho para as galinhas. Esperei alguns segundos. Não sabia como agir.

    – Sua benção vô!

    Não sei como consegui falar aquilo. Ele olhou para trás e disse.

    – Deus te abençoe! Te chamei aqui porque vou te ensinar a plantar. Use essa enxada.

    Peguei a enxada, devia ter sido feita sob medida, pois seu cabo era menor e me sentei para ouvir sua explicação. Perplexo assisti meu avô, com muito humor, falando dos tempos de garoto na Itália, da vida no campo, das dificuldades, e depois emendou uma fantástica aula de cultivo de plantas e criação de animais.

    Falou da importância de arar a terra.  Explicou a forma   correta de usar a ponta da enxada – podemos fazer sulcos diferentes na terra com ela, falou de técnicas de irrigação, tipos de solos, momento de plantio etc. Enfim foi uma manhã repleta de ensinamentos. No final, me disse com aquele forte sotaque italiano.

    – A enxada é sua e não esqueça: Você deve trabalhar a sua terra. Só assim os frutos virão!

    Fui embora depois de pedir novamente sua benção.   Cheguei em casa aliviado.

    Rose, perdão! (falei baixinho)

    Deixei a enxada num canto do meu quintal. Nunca a usei para nada. Até que ela enferrujou e se perdeu.

    Os anos se passaram, me encontrava sem rumo em minha vida, resolvi me confortar no velho pomar do meu avô. Queria respostas e observando a enorme mangueira que plantamos juntos. Me questionei.

    – Eram mais de 10 netos, por que ele resolveu me ensinar a plantar?  Enquanto olhava o vento dobrando os galhos da velha árvore e uma frase veio a minha mente nesse momento.

    “Só assim os frutos virão”

    A minha terra eram meus projetos, meus sonhos. As coisas só ocorreriam na minha vida se eu tomasse as rédeas dela nas mãos. Ninguém faria nada por mim!!!

    Depois disso resolvi voltar a estudar. Após alguns anos prestei vestibular e foi aprovado em duas universidades públicas. Escolhi o magistério e me sinto muito feliz com a decisão. Hoje eu tenho uma enorme paixão pelo cultivo de plantas e penso terminar meus dias num belo pomar.

    Obrigado vô Fernando!

    A história é quase verdadeira.  

    A ideia de roubar as uvas sempre foi minha!!!!

    (memórias do lugar)

    Com medo de uma bronca, aprendi com meu avô a plantar e descobri que meus sonhos eram minha “terra”. Percebi que os frutos só viriam se eu mesmo os cultivasse.

    Luciano Mannarino

  • Como eu sei que estou envelhecendo?

    Como eu sei que estou envelhecendo?

            Achava que era um sinal de envelhecimento sentir um ar melancólico ao observar novas gerações conversando na  esquina da rua onde eu  e meus  amigos nos  reuníamos  quase todas as noites para conversar.

            Hoje vejo que isso não era um sinal de envelhecimento.

           Envelheci quando eu passo na mesma esquina, e olho as  pessoas conversando e isso  não significa absolutamente nada…

    (memórias do lugar)

    Luciano Mannarino

    ezgif.com-video-to-gif (2)

  • Apanhamos menos da vida…

    Apanhamos menos da vida…

             Meu barbeiro “oficial” avisou que não trabalharia nos próximos dois meses para resolver problemas pessoais. Sempre resistir entra num salão de “meninas”  – por puro preconceito, mas não tinha jeito meu cabelo estava enorme. Tomei coragem, entrei e constrangido aguardei.

    – Seu vez meu filho!

    Disse a senhora enquanto ajeitava a confortável cadeira.

    – Seu cabelo tem um lindo grisalho!

    Completou.

              Achei que o foi um comentário “protocolar”, pois ela sabia que eu era um novo cliente e com certeza estava querendo me conquistar. Como sou fiel, tudo que dissesse não faria diferença, pois não largaria meu barbeiro, mas achei não deveria deixar de dizer algo.

    – É sinal da idade!!!

     Respondi lacônico.

    – E é uma boa idade meu filho…

    Disse ela quase que imediatamente e antes que eu a questionasse, pois havia franzido a minha  testa, completou olhando para o espelho.

    – …Apanhamos menos da vida!!! Não é verdade???

              Sorrindo concordei. Ganhou um amigo e um fiel cliente e acho que ela deveria cobrar muito mais pelo vasto conhecimento que ela despeja sobre quem deixa seus cabelos sob suas habilidosas tesouras.

     

    PROFESSOR LUCIANO MANNARINO

    ezgif.com-video-to-gif (2)