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  • Brasil foca em soja e milho para exportação, e arroz e feijão perdem espaço…

    Brasil foca em soja e milho para exportação, e arroz e feijão perdem espaço…

    Bruno Cirillo

    Colaboração para o UOL, em São Paulo

    Atualizada em 27/09/2020 07h10

    Nos últimos 20 anos, as culturas agrícolas voltadas para exportação, como soja e milho, cresceram exponencialmente, enquanto as plantações de itens da cesta básica, como arroz e feijão, tiveram expressivas reduções de área. Essa mudança no perfil da agricultura brasileira ajuda a explicar as recentes altas no preço dos alimentos, de acordo com especialistas.

    Nos anos 2000, o arroz ocupava 3,2 milhões hectares de área plantada no Brasil; a estimativa para a safra atual é de 1,6 milhão de hectares, metade do que era plantado. Já a soja, que ocupava 13,9 milhões de hectares há duas décadas, atingiu 36,9 milhões de hectares neste ano, expansão de 165%. O mesmo acontece nas culturas do feijão (redução de 76,5%) e do milho (alta de 143%), segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

    Expansão das exportações agrícolas

    “A partir de 2000, as exportações de soja e milho começaram a deslanchar”, observa o pesquisador da Embrapa Elisio Contini.

    Para o coordenador do índice de preços da FGV, André Braz, a atratividade do mercado externo provoca uma mudança no comportamento do produtor brasileiro, que acaba dando preferência às commodities.

    O incentivo para produzir arroz e feijão não é grande. O espaço para exportação de milho e soja é maior, remunera mais e, com a desvalorização do real, acaba sendo ainda mais vantajoso. No momento em que outras culturas pagam menos, é natural que o uso da terra seja voltado às commodities.
    André Braz, coordenador do índice de preços da FGV

    O especialista não vê risco de desabastecimento, mas considera que a alta de preços de produtos da cesta básica é uma tendência que deve continuar. Isto somado à situação econômica do país é preocupante, segundo Braz.

    O maior risco, numa recessão, é a falta de emprego. Ainda que o preço dos produtos suba, se você tem renda, consegue driblar o aumento. Se não tem renda, a qualquer nível de preço, o produto fica caro.
    André Braz, coordenador do índice de preços da FGV

    Produtor do RS trocou arroz por soja

    Na região da Campanha Gaúcha, o produtor Paulo Lederes plantava 1.500 hectares de arroz há quinze anos. Quando iniciou a produção de soja, foi deixando paulatinamente a rizicultura. Em 2005, passou a produzir mais soja que arroz e, nesta safra, está plantando 900 hectares de soja e um décimo (150 hectares) do que plantava de arroz.

    Em razão dos altos custos de produção, baixos preços das safras e problemas de crédito, migramos para a soja.
    Paulo Lederes, produtor agrícola de São Gabriel (RS)

    “A soja não tem volta, cada ano cresce de dez a quinze hectares na região”, diz o produtor de São Gabriel (RS).

    O município está plantando 21 mil hectares de arroz (30% a menos do que no ano passado) e 140 mil hectares de soja neste ano, seguindo uma tendência que tem sido averiguada nos últimos anos, de crescimento de uma cultura sobre a outra.

    Soja oferece vantagens financeiras ao produtor

    Lederes lembra que, nos últimos anos, sete indústrias de soja chegaram à região, financiando a cultura.

    A soja tem a venda garantida através de preços fixados no mercado futuro (Bolsa de Chicago), além da troca de parte da produção pelos insumos necessários ao plantio (sementes, fertilizantes e defensivos).

    No caso do arroz, os produtores conseguem, no máximo, um empréstimo das indústrias, com preço negociado entre ambos, mas sem poder usufruir da garantia do preço futuro de uma Bolsa de commodities para a época da colheita.

    O arroz não tem garantia de preço, vale bem menos a pena.
    Paulo Lederes, produtor agrícola de São Gabriel (RS)

    Mais de 60% da soja e 30% do milho produzidos no Brasil são exportados, principalmente para a China, puxando as vendas internacionais do agronegócio brasileiro. Desde janeiro do ano passado, 60 novos mercados foram abertos para os produtos agrícolas brasileiros.

    “A rentabilidade da soja aumentou muito com as exportações para a China. As indústrias passaram a remunerar melhor o produtor”, comenta Lederes.

    Menos feijão no Paraná

    À frente da produção de sementes de feijão feita por vinte cooperados no Oeste do Paraná, o produtor Airton Cittolin, de Cascavel (PR), observa que os 28 municípios paranaenses devem produzir 30% a menos do grão nesta safra.

    A produção vai diminuir porque o preço da soja e do milho subiu muito. O feijão é uma cultura que oscila muito de preço, então o pessoal opta pelas culturas mais seguras.
    Airton Cittolin, produtor agrícola de Cascavel (PR)

    Embora as sacas de feijão preto e carioca estejam valendo R$ 250 e R$ 280, enquanto a da soja seja vendida a R$ 120, a garantia de venda da soja ainda compensa mais o produtor do que o feijão.

    A soja tem liquidez na hora, muitos lugares que recebem –é dólar na mão. Já o feijão tem pouco comprador, depende muito da qualidade e só paga em 30 dias.
    Airton Cittolin, produtor agrícola de Cascavel (PR)

    O economista Marcelo Garrido, do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Agricultura do Paraná, informa que, em dez anos, a área plantada de feijão encolheu 92% no Paraná. No mesmo período, a soja cresceu 3,9%, para 995 mil hectares: “Para o Paraná, é uma expansão considerável porque não temos terra nova para plantio — a área agrícola está esgotada”.

    Garrido observa que o movimento se repete em boa parte do país. “Nos últimos anos, a soja tem ganhado muita área em cima das culturas menores, em função de preço e liquidez. A soja é a cultura com mais rentabilidade, não depende do mercado interno. O feijão depende do mercado interno e é muito sensível ao clima”, compara.

    Área caiu, mas produtividade aumentou

    “Existe, de fato, uma substituição de culturas no Brasil. O Rio Grande do Sul perdeu muita área de arroz e foi para a soja, entre outras culturas. No arroz, em específico, a área decresceu 41% em dez anos, mas a produtividade aumentou 38%, compensando a queda. O consumo de arroz caiu 6%, enquanto a produção cresceu 5% nos últimos cinco anos”, pondera o superintendente de gestão de oferta da Conab, Alan dos Santos.

    O especialista observa um movimento parecido com o feijão, que teve queda de 27% na área plantada nos últimos dez anos, mas crescimento de 18% na produtividade —queda de 13% na produção. Em uma década, o consumo do grão caiu de 3,6 milhões para 3,2 milhões de toneladas no Brasil. “São produtos básicos da alimentação brasileira, complementares, e seguiram tendências parecidas”, observa Santos.

    Falta política pública para segurança alimentar?

    Os especialistas afirmam que não existe risco para a segurança alimentar —uma responsabilidade da Secretaria de Política Agrícola, do Ministério da Agricultura (Mapa), que não se manifestou até a publicação da reportagem.

    O maior desastre seria faltar produto. Mas isso, a meu ver, não vai acontecer.
    Elisio Contini, pesquisador da Embrapa

    Segundo ele, o governo trabalha com estoques estratégicos, taxas de importação menores, incentivos à produção e oferta de crédito para garantir o abastecimento interno.

    A política agrícola estimula a oferta de bens básicos, como o arroz e feijão. Isso tem garantido a oferta nacional. Houve crises de preço em 2011 e 2018, e a política de preço mínimo garantiu a permanência de produtores na cultura –para evitar a substituição de culturas e dependência externa.
    Alan dos Santos, superintendente de gestão de oferta da Conab

    Há 30 anos no setor privado, o analista Carlos Cogo, que já trabalhou na Conab, discorda dos colegas do setor público.

    O Brasil não tem política agrícola. O Brasil tem bombeiro que vai lá e apaga fogo quando tem um problema grave, como aconteceu agora no caso do arroz.
    Carlos Cogo, ex-Conab e diretor da Carlos Cogo Consultoria Agroeconômica

    Ele lembra que o governo decidiu zerar as tarifas de importação do arroz quando os preços da saca já haviam batido R$ 40 nos supermercados.

    Cogo lembra que há muito tempo a política de estoques públicos, empregada quando falta produto ou os preços estão muito baixos, vem sendo abandonada pelo governo. “A Conab não tem mais estoque público já faz um tempo, só tem estoque residual de milho. Não tem mais nada de trigo e arroz. Por isso não houve intervenção com leilões de estoques no caso do arroz”, observa.

    O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Santa Catarina (Faesc/Senar-SC), José Zeferino Pedrozo, lembra que, apesar da alta no preço do arroz neste ano, a cultura vem causando prejuízos há muitas safras para os produtores, agravados pela ausência de instrumentos de política agrícola.

    É justo assinalar que os arrozeiros amargaram muitos anos de prejuízos e que os ganhos deste ano não repõem as perdas do passado.
    Zeferino Pedrozo, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Santa Catarina

    “Aqui em Santa Catarina se fala em manter os dois mercados, nacional e internacional”, relativiza o presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias de Santa Catarina (Fecoagro-SC), Ivan Ramos, à frente de dez cooperativas e o frigorífico Aurora. “Houve uma diminuição na área plantada de arroz, nos últimos anos, em função de preço. O pessoal está migrando bastante para fruticultura”, comenta o representante.

    https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/09/27/alimentos-commodities-seguranca-alimentar-brasil.htm

    Questões

    1. As culturas de exportações têm um papel fundamental em nossa balança comercial? Justifique.

    2. Qual a importância da Embrapa na produção de alimentos no Brasil? (pesquisa)

    3. De que forma é possível aumentar a produtividade sem avançar sobre novas áreas agrícolas?

    4. O Brasil é um dos principais exportadores de alimentos do mundo, no entanto vem apresentando problemas de abastecimento interno. Explique essa contradição.

    5. Aponte impactos ambientais ligados a produção agropecuária brasileira.

    Professor Luciano Mannarino.

  • A organização indispensável

    A organização indispensável

    Sem meios financeiros próprios, sem poder e armas, a ONU será o que os países membros querem que ela seja

    Rubens Ricupero

    Se não existisse, a ONU teria de ser inventada. Ela garantiu ao mundo 75 anos sem nova guerra mundial, sem que a bomba atômica voltasse a ser utilizada contra a população civil como em Hiroshima. Teve flexibilidade para acomodar a ascensão meteórica da China, inclusive seu ingresso como membro permanente do Conselho de Segurança.

    Sem a ONU, é difícil imaginar que a dissolução da União Soviética ou o fim do apartheid na África do Sul teriam ocorrido sem um banho de sangue, embora outras razões tivessem concorrido para isso.

    Fundada por 51 membros originais, ela tem hoje 193 integrantes. É a primeira vez na história da humanidade que uma organização internacional atinge a universalidade. Boa parte dos membros adicionais eram colônias, cujo processo de independência na Ásia, África, Oriente Médio e Caribe constituiu uma das maiores realizações da ONU.

    Bandeiras hasteadas em frente à sede da ONU, em Nova York
    Bandeiras hasteadas em frente à sede da ONU, em Nova York – Wang Ying – 15.set.20/Xinhua

    Deve-se em boa parte ao esforço de liderança da ONU os avanços nos quatro principais vetores da evolução da consciência moral da humanidade: os direitos humanos, o meio ambiente, a igualdade entre mulheres e homens e a promoção do desenvolvimento para “todos os homens e o homem como um todo”.

    São centenas as convenções negociadas no contexto da ONU para garantir direitos, minorias, proteger crianças, migrantes, pessoas com deficiência, proibir guerras, agressões, tortura, discriminação social, lutar contra o aquecimento global. Graças à ONU dispomos das Metas de Desenvolvimento Sustentável que definem com datas e cifras as principais aspirações humanas.

    Quantos milhões de pessoas teriam perecido sem o trabalho da ONU para refugiados, o fornecimento de alimentos em zonas de fome, a assistência às crianças feita pela Unicef, a reconstrução após desastres naturais, após o genocídio do Camboja, as operações de paz após as guerras civis no Congo, Sudão, Haiti, na Palestina?

    Como se poderia combater pandemias sem a Organização Mundial da Saúde? Assegurar direitos a trabalhadores e sindicatos sem a Organização Internacional do Trabalho? Evitar a proliferação de armas nucleares sem a Agência Internacional de Energia Atômica? Ou o combate a drogas e crime organizado sem a organização da ONU em Viena?

    O mais próximo a que chegamos de um parlamento mundial é o fornecido pela ONU e suas agências especializadas. É nele que desafios e ameaças globais são enfrentados pelo processo democrático de tomada de decisão e adoção de normas. Isso é o que chamamos de um sistema baseado em regras, isto é, regido pelo direito, não pela força.

    Sem meios financeiros próprios, sem poder e armas, a ONU será o que os países membros querem que ela seja. Quando as grandes potências tentam usar a ONU como instrumento de seus interesses, ela acaba paralisada como no terrível genocídio de Ruanda.

    A ONU pode e deve ser aperfeiçoada no sentido de mais democracia, igualdade e independência em relação à rivalidade dos grandes. Só assim atingiremos em 2045 um século de paz garantida pela Carta das Nações Unidas.

    José Sarney, primeiro civil a presidir o país após a ditadura militar, discursa na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, em 1988
    José Sarney, primeiro civil a presidir o país após a ditadura militar, discursa na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, em 1988 Marc Cardwell/AFP

    Rubens Ricupero foi secretário-geral da UNCTAD em Genebra e subsecretário-geral da ONU de 1995 a 2004

    Questões

    1. Avaliando nossa atual realidade, você concorda com o título do texto? Justifique.

    2. Por que o número de países integrantes aumentou muito após a Segunda Guerra Mundial?

    3. O autor enfatiza no segundo parágrafo o papel da ONU em dois grandes fatos históricos. Faça um breve comentário sobre cada um deles.

    4. Tanto o logo da ONU como o local onde se encontra o prédio da Assembleia Geral é motivo te intensos debates. Por quê?

    5. Fale sobre o papel do Brasil na MINUSTAH. (pesquisa)

    6. “Sem meios financeiros próprios, sem poder e armas, a ONU será o que os países membros querem que ela seja” Analise a afirmativa do autor.

    Professor Luciano Mannarino

  • Sindicatos mantêm área plantada de coca sob controle na Bolívia

    Sindicatos mantêm área plantada de coca sob controle na Bolívia

    Atualizado em: 07.set.2020 às 23h15

    Fabiano Maisonnave/Lalo de Almeida

    CHAPARE, LA PAZ E YUNGAS (BOLÍVIA)

    Na parede, o emblema da folha de coca sobre o machado e o facão –eco do símbolo comunista da foice e do martelo– é o cartão de visitas da federação dos sindicatos de cocaleiros de Chimoré, no Chaparei. No piso de cimento, milhares de folhas secam antes do ensaque. Até ali, o processo está dentro da lei, mas o destino final dificilmente será o consumo tradicional. A probabilidade maior é que vire pó.

    O cenário sugere descontrole, mas os números revelam o contrário. Há mais de uma década, quando um cocaleiro do Chapare chegou à presidência, a Bolívia adota uma estratégia nunca admitida oficialmente, mas que resultou na mais bem-sucedida experiência mundial de controle da produção de cocaína: a legalização do plantio destinado ao narcotráfico.

    A política foi comandada até há pouco por Evo Morales, que renunciou em outubro de 2019. Primeiro como líder dos produtores, ele enfrentou erradicações forçadas financiadas pelos EUA e tentativas frustradas de cultivos alternativos. Já presidente (2006-2019), expulsou a DEA (agência antidrogas norte-americana), delegou o controle dos cultivos aos sindicatos e elevou de 3.200 hectares para 7.700 hectares a área de coca permitida no Chapare, no centro do país.

    Assim desmantelou-se a tutela norte-americana, baseada na erradicação agressiva dos plantios da Erythroxylum coca, cultivada nos Andes desde pelo menos 2.000 a.C. Foram mais de duas décadas de programas pouco eficientes de substituição de cultivos e de punições ao narcotráfico, estratégia que predomina nos outros dois países produtores do mundo, Colômbia e Peru.

    Do tripé, a Bolívia de Evo manteve a legislação com penas duras, sem legalização de consumo nem da maconha. Mas o discurso oficial passou a ser “coca sim, cocaína não”, com ênfase no uso tradicional presente em vários países sul-americanos, inclusive no Brasil –no noroeste amazônico, a folha é chamada de epadu.

    É fato que, além do crescimento populacional, a mastigação tradicional tem ganhado adeptos graças a novidades para melhorar o gosto amargo. A mais popular é a estévia, adoçante natural. Café e chocolate são outras opções.

    Mas o consumo tradicional está longe de absorver a produção. Números do próprio governo Evo indicam que mais de 90% da coca do Chapare não passa pelos dois mercados legais da folha, em Cochabamba e na capital, La Paz.

    Cocaleiros carregam sacos de folha de coca do lado de fora do mercado de Villa Fatima, na capital La Paz
    Cocaleiros carregam sacos de folha de coca do lado de fora do mercado de Villa Fatima, na capital La Paz – Lalo de Almeida/Folhapress

    Esse desvio é de fácil constatação nas ruas, inclusive no Chapare, onde a coca vendida para a mastigação tradicional costuma ser trazida dos Yungas, região perto de La Paz onde a sagrada planta andina é cultivada há séculos.

    A folha de coca é um estimulante de potência média com alto poder nutritivo, fonte de calorias, proteínas, cálcio, ferro, vitamina A e outros nutrientes. Desde antes da invasão europeia faz parte da dieta de povos andinos e amazônicos.

    Já a cocaína, extraída da folha, foi isolada pela primeira vez em 1860, na Alemanha. Por décadas, foi usada legalmente na medicina e de forma recreativa, até passar a ser proibida em vários países, na primeira metade do século 20.

    A Bolívia é o principal fornecedor de cocaína do Brasil. Estudo de 2012 feito pela Polícia Federal revelou que 54,3% da cocaína que ingressa no país tem origem no Chapare ou nos Yungas. Em segundo lugar, aparece o Peru (38%).

    O Brasil é o segundo maior consumidor mundial de cloridrato de cocaína (pó), depois dos Estados Unidos, e provavelmente o maior consumidor de derivados de cocaína (como o crack), segundo relatório do Departamento de Estado dos EUA.

    Importante ponto de embarque para a Europa, o Brasil é o único país fronteiriço às três nações produtoras. A reportagem procurou a PF em Brasília sobre a entrada da cocaína boliviana, mas não obteve resposta.

    Diferentemente dos Yungas, o plantio intensivo da coca é recente no Chapare. O cultivo explodiu a partir do anos 1980 por causa da demanda e da mão-de-obra disponível após a demissão e a migração em massa de mineiros do Altiplano, a maioria do povo quéchua. Atualmente, as federações representam cerca de 50 mil famílias.

    Cocaleira na trilha que dá acesso à sua plantação perto de Chimoré, na região do Chapare
    Cocaleira na trilha que dá acesso à sua plantação perto de Chimoré, na região do Chapare – Lalo de Almeida/Folhapress

    A legalização da coca no Chapare começou sob o governo Carlos Mesa, em 2004, após acordo com Morales. Desde então, uma família pode plantar no máximo um “cato”, correspondente a 1.600 m², ou duas quadras de futsal.

    O excedente está sujeito à “racionalização”. O controle de quem tem direito a um cato e de quem excedeu o limite é dos sindicatos e das federações. Cabe ao governo combater o cultivo em áreas não autorizadas, como parques nacionais e regiões fora do Chapare e dos Yungas.

    Não faltaram críticas ao que se fazia no Chapare, principalmente dos EUA. Opositores, como o ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga, previam que a coca financiaria um novo narcoestado, como ocorrera no início da década de 1980.

    Mas não foi o que ocorreu. Em 2008, quando Evo expulsou a DEA, a Bolívia tinha 25.400 hectares de coca. Onze anos depois, o país registrava superfície praticamente idêntica, 25.500 hectares.

    No mesmo período, a Colômbia, que adota uma linha dura e recebe ajuda média de US$ 400 milhões (mais de R$ 2,1 bilhões) por ano dos EUA, viu a área plantada saltar 90%, alcançando 154 mil hectares. É, de longe, o maior produtor de cocaína, seguida de Peru e Bolívia. Os números são da UNODC (Escritório da ONU contra Drogas e Crime).

    Plantações de coca nas montanhas da região dos Yungas
    Plantações de coca nas montanhas da região dos Yungas – Lalo de Almeida/Folhapress

    Outra comparação favorável é o nível de violência. Na Bolívia, a taxa de homicídios é de 6 por 100 mil habitantes, uma das mais baixas da América Latina. Na Colômbia, a taxa chega a 25 por 100 mil habitantes, uma das mais altas da região. Já o Peru ocupa posição intermediária.

    “Não há cartéis [na Bolívia], como o de Cali ou de Sinaloa. Existem nexos com algumas organizações internacionais para transportar a droga, mas é uma delinquência boliviana, não tão agressiva como em outros países. E há um controle da polícia, das forças especiais”, diz o ex-diretor geral da Força Especial de Luta contra o Narcotráfico, general Luis Caballero, em La Paz, onde hoje é advogado.

    Em relatório do Departamento de Estado americano, a Bolívia e a Venezuela aparecem como os únicos países que “comprovadamente falharam” em cumprir obrigações internacionais de combate ao narcotráfico. Ao justificar a classificação, que gera sanções à Bolívia, o documento menciona o aumento da área legal de 12 mil hectares para 22 mil hectares, em 2017.

    A ampliação não tem respaldo técnico. Em 2013, levantamento financiado pela União Europeia concluiu que 14.700 hectares são suficientes para o consumo tradicional.

    “Claro que se trata de uma legalização ‘de facto’”, afirma o economista Roberto Laserna, que estuda a coca há mais de duas décadas. “Sabendo o destino dessa coca, foi permitido que ela seja produzida e comercializada. A ideia do governo era reprimir o narcotraficante e liberar o cocaleiro, mas obviamente há uma conexão direta entre ambos.

    Carregador leva sacos de folha de coca no mercado Villa Fatima, em La Paz
    Carregador leva sacos de folha de coca no mercado Villa Fatima, em La Paz – Lalo de Almeida/Folhapress

    Defensor da regularização da coca e da cocaína, o pesquisador do Ceres (Centro de Estudos da Realidade Econômica e Social), de Cochabamba, ressalva que o controle deveria ser incumbência do Estado. No Chapare, afirma, o resultado foi uma “republiqueta” controlada pelos sindicatos, em que camponeses têm pouco poder de decisão enquanto o narcotráfico cresce.

    “A solução ao problema da coca e da cocaína passa por alguma forma de legalização e regularização. E isso começa pelo controle da coca mediante permissões a produtores individuais. Isso é impossível de fazer agora pelo poder dos sindicatos, pela ausência do Estado e pela penetração que tem o narcotráfico nessa zona.”

    Com a experiência de quase 30 anos combatendo o tráfico em Cochabamba, o coronel da Polícia Nacional Rolando Raya afirma que, a partir do governo Evo Morales, a produção “se autodisciplinou”, enquanto o cato fez com que o dinheiro fosse compartilhado de forma homogênea.

    Polícia prepara queima de drogas apreendidas em montanhas no entorno de Cochabamba
    Polícia prepara queima de drogas apreendidas em montanhas no entorno de Cochabamba – Lalo de Almeida/Folhapress

    “Eles pensaram: ‘O que vai acontecer se produzirmos mais? Haverá intervenção. Então faremos uma política bem-sucedida. É legal ter o meu cato’. Ninguém cresceu mais do que tinha de crescer. É um narcotráfico disciplinado”, afirmou, em entrevista na sede do seu comando.

    Ex-integrante da FELCN, Raya afirma que, por outro lado, há maior penetração e pulverização do tráfico, que passou de grandes chefes para clãs familiares. “As fábricas [de cocaína] estão em toda a Bolívia”, diz o coronel, que vê uma crescente perda de controle territorial. “Se entramos, há morte. Nem o governo Morales conseguia entrar.”

    Posto policial depredado e abandonado em Villa Tunari, na região do Chapare, reduto eleitoral do ex-presidente Evo Morales
    Posto policial depredado e abandonado em Villa Tunari, na região do Chapare, reduto eleitoral do ex-presidente Evo Morales – Lalo de Almeida/Folhapress

    Órfão aos 12 anos, Edgar Quispe migrou de Potosí ao Chapare nos anos 1980 para trabalhar nos cultivos de coca. Ele disse que, até o governo Gonzalo Sánchez de Lozada (2002-2003), o governo agia com violência para erradicar a coca. Já os cultivos alternativos, afirma, não funcionavam.

    “Não havia mercado. A única forma de sobreviver no trópico de Cochabamba era a coca”, conta Quispe durante encontro de mulheres cocaleiras em Chimoré, em um ginásio de esportes cercado de barro e apinhado de vendedores ambulantes de comida. Apesar do nome do evento, só homens discursaram no dia em que a reportagem lá esteve, antes da pandemia do coronavírus.

    Cocaleiros participam de congresso em um ginásio em Chimoré, na região do Chapare
    Cocaleiros participam de congresso em um ginásio em Chimoré, na região do Chapare – Lalo de Almeida/Folhapress

    No passado, Quispe teve seu plantio erradicado à força. Sem alternativa, em 1992 migrou para a Argentina, onde ficou até 2001. Como resultado da repressão, explica Quispe, os cocaleiros começaram a formar o partido Movimento ao Socialismo, que passou a controlar as prefeituras do Chapare e, na eleição de 2005, levaria Evo ao poder. Com o ex-cocaleiro no poder, a dinâmica mudou. “Se há coca excedente, isso tem de ser anunciado, e a pessoa tem de permitir a entrada em seu sítio.”

    Hoje com 49 anos, ele cultiva coca legalmente. Com o dinheiro poupado na Argentina, comprou 25 hectares. A sua principal atividade é a criação de gado –tem 20 cabeças.

    Assim como outros cocaleiros, Quispe passou a viver em Chimoré, a 10 km de seu cato, cidade de comércio informal, casas simples e ruas de pavimentação mal conservada.

    A renda da coca é razoável. Na federação, o saco da folha (23 kg) é comercializado por 1.200 bolivianos (R$ 730). Cada cato produz, em média, três sacos a cada três meses.

    Sacos de folha de coca em mercado em Chimoré, na região do Chapare
    Folhas de coca no mercado em Chimoré, na região do Chapare
    Acima, sacos de folhas e abaixo, as folhas de coca no mercado de Chimoré, na região do Chapare – Lalo de Almeida/Folhapress

    A área dos plantios, antes acessível apenas após longas caminhadas, hoje está conectada por estradas de terra. Na região visitada pela Folha, o cocal ficava a cerca de 5 minutos a pé de uma via. Os cocaleiros trabalham ali durante o dia e à noite voltam à cidade.

    Para complementar a renda, os camponeses também trabalham para outros camponeses. Todo o plantio da coca é manual –o machado e o facão são usados para abrir a roça na floresta. Uma diária sai por 120 bolivianos (R$ 73).

    Ecoando o discurso de Evo, ninguém admite que a coca do Chapare vai principalmente para o narcotráfico. “Comercializamos nos nossos centros de armazenagem, despachamos à comercialização em nível departamental, em Cochabamba, e depois para o país. A coca é distribuída para o pijcheo [mastigação]”, afirma Leonardo Loza, um dos principais dirigentes do Chapare e filiado ao MAS.

    Leonardo Loza, lider cocaleiro, caminha por sua plantação de coca na zona rural de Chimoré
    Leonardo Loza, lider cocaleiro, caminha por sua plantação de coca na zona rural de Chimoré – Lalo de Almeida/Folhapress

    A reportagem também visitou a região dos Yungas. Embora fique apenas a algumas dezenas de quilômetros de La Paz, a viagem é demorada devido às estradas precárias esculpidas nas serras que fazem a transição dos Andes para a Amazônia.

    Assim como no Chapare, não há sinais de riqueza ou de desigualdade. As casas, construídas sobre encostas íngremes, são simples, e os carros, velhos -a maioria circula sem placas, contrabandeados do Chile.

    Porém, ao contrário do Chapare, os principais líderes cocaleiros dos Yungas deixaram de apoiar Evo. Sempre latentes, as divergências se escancaram após a lei de 2017, que ampliou a área dos cultivos. A medida, afirmam os líderes, favoreceu o Chapare e legalizou produção que vai ao narcotráfico.

    Cocaleira descansa no mercado Villa Fatima, em La Paz
    Pedro Antonio, filho de Elton Morán, descansa na sombra enquanto o pai trabalha na plantação
    Acima, cocaleira descansa no mercado Villa Fatima, em La Paz; abaixo, Pedro Antonio, filho de Elton Morán, descansa na sombra enquanto o pai trabalha na plantação – Lalo de Almeida/Folhapress

    Em meio ao rompimento com Evo, vários dirigentes acabaram presos, incluindo seu principal líder, Franklin Gutiérrez. Na recente crise política, ele apoiou os protestos que provocaram a queda do ex-presidente e depois se aproximou do governo interino. O país é governado pela direitista Jeanine Áñez. Por causa da pandemia, a nova eleição presidencial foi adiada de maio para setembro, depois para outubro.

    Entre os cocaleiros yunguenhos, no entanto, o ex-presidente guarda popularidade. É o caso de Elton Morán, 30. Morador do povoado de Huancané, ele aprendeu o ofício do pai e do avô.

    “A coca é a atividade que mais nos dá sustento”, diz o agricultor no meio do seu cocal. Ele começou a ajudar o pai com 12 anos e hoje divide a tarefa com a mulher, com quem tem dois filhos.

    “Evo Morales entrou quando eu estava no colégio. Meus pais se sentiam muito orgulhosos de que um camponês chegasse ao governo”, diz Morán, que aponta a substituição das paredes das casas do barro para o tijolo como uma das mudanças favoráveis do seu governo. “Muitos consideram que a sua entrada foi muito boa, e outros o rechaçam. Pessoalmente, vejo que foi bom. Daqui a cinco anos, já vamos saber quão bom foi Evo e também os que tanto o julgavam.”

    Mural com o rosto do ex-presidente Evo Morales em estrada no Chapare
    Mural com o rosto do ex-presidente Evo Morales em estrada no Chapare – Lalo de Almeida/Folhapress

    Coca, cocaína e Bolívia

    1859 O alemão Albert Niemann isola o alcaloide das folhas de coca, planta usada há séculos por indígenas. A descoberta é batizada de cocaína

    1862-1914 A cocaína passa a ser empregada em vários produtos, de anestésicos à primeira versão da Coca-Cola. O principal produtor é o Peru

    Décadas de 1910 e 1920 EUA e outros países passam a proibir a substância após descobertas de seu efeito nocivo. No Brasil, o veto é estabelecido via lei em 1921 -a primeira legislação do país sobre drogas.

    1961 Sob pressão norte-americana, a ONU aprova a Convenção Única Sobre Entorpecentes, que inclui a erradicação da planta de coca. Em 1973, sob ditadura militar, a Bolívia se compromete a acabar com o uso tradicional em 25 anos

    1971 O presidente americano Richard Nixon declara guerra às drogas. Ao longo da década, consumo de cocaína explode, e colombianos assumem o comando do tráfico

    1973 Nixon cria a DEA, agência antidrogas, com forte atuação na América do Sul

    1980 General García Meza assume o poder na Bolívia em golpe, em ação financiada pelo narcotráfico. Enquanto promove perseguição à esquerda, transforma o país em ditadura narcomilitar. Traficantes do país se aliam ao colombiano Pablo Escobar

    1988 Sob o presidente Victor Paz Estenssoro, a Bolívia é o único país a se opor à criminalização do uso tradicional da folha de coca em nova convenção da ONU. País estabelece limite de 12 mil hectares para plantio tradicional, mas endurece punição de pequenos infratores

    Década de 1990 Consumo de cocaína se espalha para outros países -incluindo o Brasil. Em 1993, Escobar é morto em Medellín. Na Bolívia, campanhas de erradicação forçada no Chapare enfrentam resistência dos cocaleiros, entre os quais Evo Morales

    2000 O presidente americano Bill Clinton aprova US$ 1,3 bilhão em ajuda à Colômbia

    2004 Após negociar com Morales, o presidente Carlos Mesa limita a produção a 1.600 m² por família no Chapare

    2006 Morales assume a presidência, mas mantém liderança das seis federações cocaleiras do Chapare

    2006-12 No México, presidente Felipe Calderón emprega dezenas de milhares de militares contra os cartéis que usam o país para levar cocaína aos EUA. Número de homicídios explode

    2013 Bolívia obtém vitória simbólica na ONU ao conseguir licença especial para o uso tradicional da coca

    2017 Morales amplia de 12 mil ha para 22 mil ha a área para plantio de coca, favorecendo principalmente Chapare. Líderes dos Yungas, área de cultivo ancestral, criticam mudança

    2019 ONU registra a maior produção de cocaína da história, de 1.976 toneladas em 2017. Explosão é puxada pela Colômbia

    2019 Morales renuncia à presidência em meio a crise política por sua insistência em se candidatar a um quarto mandato.

    https://arte.folha.uol.com.br/mundo/2020/estado-alterado-as-politicas-para-drogas-pelo-mundo/bolivia/controle-da-area-cultivada/

    Questões

    1.

    Professor Luciano Mannarino

  • Em visita à Califórnia, Trump minimiza preocupações com mudanças climáticas

    Em visita à Califórnia, Trump minimiza preocupações com mudanças climáticas

    Presidente culpa gestão florestal dos estados democratas da Costa Oeste americana

    14.set.2020 às 18h34

    WILMINGTON e MCLELLAN PARK | REUTERS

    As queimadas que se espalham pela Costa Oeste dos Estados Unidos entraram de vez na pauta das eleições presidenciais do país, cuja votação está marcada para dia 3 de novembro.

    Em visita à Califórnia, o presidente e candidato à reeleição, Donald Trump, minimizou o papel das mudanças climáticas nos maiores incêndios já registrados na história do estado e afirmou que a culpa é da ineficiência da gestão florestal, em uma tentativa de responsabilizar os governo democratas da Califórnia, do Oregon e de Washington.

    “Quando as árvores caem, após um curto período de tempo elas ficam muito secas, como um fósforo”, disse Trump, nesta segunda-feira (14), ao desembarcar no estado. Para o republicano, no entanto, muitos outros países não enfrentam problemas como esse.

    O presidente dos EUA, Donald Trump, participa de reunião sobre as queimadas na Costa Oeste dos EUA, em McLellan Park, na Califórnia – Jonathan Ernst/Reuters

    Ele, que vinha sendo criticado por se calar sobre as queimadas, participou de uma entrevista coletiva ao lado do governador da Califórnia, Gavin Newson, na qual ouviu agradecimentos do democrata pela ajuda federal no combate ao fogo, ainda que tenha sido questionado sobre sua posição negacionista.

    “Nós viemos, humildemente, de uma perspectiva em que seguimos a ciência, e é evidente que a mudança climática é real e está exacerbando isto”, disse Newson em referência às queimadas na Costa Oeste.

    O governador afirmou que, de fato, o manejo florestal pode e deve ser melhorado, mas lembrou o presidente que 57% da área de floresta da Califórnia está sob controle do governo federal.

    Escorregador de playground ficou derretido após incêndios passarem por Fresno, na Califórnia
    Escorregador de playground ficou derretido após incêndios passarem por Fresno, na Califórnia Josh Edelson/AFP

    Durante sua gestão, Trump retirou os EUA do Acordo de Paris, a principal iniciativa global para frear as mudanças climáticas, enquanto seu adversário na corrida pela Casa Branca, Joe Biden, põe o assunto entre as maiores crises que o país enfrenta. Os incêndios, diz ele, ilustram sua posição.

    Nesta segunda, Biden —que tem sido atacado por republicanos por não ter visitado as áreas devastadas— chamou Trump de “incendiário climático” em um discurso em Delaware. “Se tivermos mais quatro anos do negacionismo climático de Trump, quantos subúrbios serão incendiados pelas queimadas?”, questionou.

    Os moradores dessas áreas têm sido explorados por Trump nas últimas semanas. Em oposição à proposta de habitação de Biden e às tensões causadas pelos protestos antirracismo, o presidente passou a dizer que fará de tudo para impedir a construção de moradias mais baratas próximas a subúrbios, regiões que concentram a classe média americana.

    O candidato democrata à Presidência dos EUA, Joe Biden, discursa em Delaware sobre as queimadas na Costa Oeste dos EUA – Drew Angerer/AFP

    Os incêndios florestais avançam sobre estados da Costa Oeste dos EUA em meio a uma intensa onda de calor. Focos de chamas na região são comuns nesta época do ano devido ao clima seco, mas o fogo registrado até agora parece não ter precedentes —e o pico da temporada de incêndios ainda não chegou.

    As queimadas mataram ao menos 24 pessoas, causaram a destruição de centenas de imóveis e forçaram centenas de milhares a deixarem suas casas. Uma seca crônica e ventos fortes alimentam o fogo que se espalha do estado de Washington, na fronteira com o Canadá, até a cidade californiana de San Diego, na divisa com o México. Ainda é impossível avaliar a verdadeira extensão da destruição.

    Cientistas acreditam que o aumento da intensidade dos incêndios está relacionado ao aquecimento global, que torna as temporadas de chuva e de seca mais extremas. No último final de semana, as temperaturas na parte oeste do vale de San Fernando, na Califórnia, chegaram a 49ºC.

    Na Califórnia, uma série de 37 incêndios tornou-se oficialmente a maior da história do estado ao destruir uma área de 190 mil hectares. Em Washington, o governador Jay Inslee, também do Partido Democrata, afirmou que as chamas consumiram 200 mil hectares.

    Caminhão de bombeiros queimado no Oregon, durante incêndios florestais na Costa Oeste dos EUA – Shannon Stapleton/Reuters

    Imagens de drones mostram centenas de casas reduzidas a cinzas em comunidades ao sul do Oregon. Em mais de 12 comunidades, equipes de busca e resgate vasculharam residências destruídas em busca de restos humanos.

    Após quatro dias de muito calor e ventania no estado, o fim de semana teve ventos mais leves e clima mais ameno, ajudando as equipes a avançar contra o fogo. Na sexta-feira (11), um homem foi preso acusado de iniciar as queimadas que destruíram cidades inteiras no Oregon.

    A polícia do estado também alerta a população contra posts em redes sociais com afirmações falsas, segundo as quais as queimadas foram iniciadas por antifascistas ou militantes de extrema direita.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/09/em-visita-a-california-trump-minimiza-preocupacoes-com-mudancas-climaticas.shtml

    Questões

    1. Há um componente político presente no combate aos incêndios na Califórnia? Justifique.

    2. Por que esses eventos sempre acontecem nessa época do ano (momento da reportagem)?

    3. O que é o “negacionismo climático” e de que forma ele se relaciona com a postura americana em relação ao Acordo de Paris.

    Professor Luciano Mannarino

  • As ondas!

    As ondas!

    Ondas

    Ontem eu fui a um velório de um parente.
    Não, não morreu de covid!!!
    Bom, detesto velório embora seja um evento em que você possa rever parentes e amigos.
    Depois das condolências e cumprimentos formais me retirei para pensar sobre a vida, sempre faço isso nesses momentos, até que fui abordado por uma mulher que anunciou que a cerimônia budista iria começar.

    Conheço um pouco do budismo, sei que se trata de uma forma diferente de perceber o que somos e o que fazemos por aqui.
    Resolvi me aproximar.
    Foram vários cânticos em tibetano seguidos de toques numa bacia dourada!
    Uma outra senhora teve o cuidado de dizer para os leigos o que estava acontecendo.
    Ela falou que eles estavam pedindo para que o espírito da pessoa que nos deixou pudesse voltar para perto da gente.
    Seria bom para todos.

    Até que um senhor tomou a palavra e com uma voz serena e pausada revelou que viver é como estar numa praia onde a todo momento somos assolados por ondas.
    As ondas têm um começo, um apogeu e um fim.
    Existem ondas individuais e coletivas e elas são de todos os tamanhos e intensidades.
    Alguém poderia perguntar por que a praia não poderia ter sempre águas calmas?
    Ele disse que isso teria sentido.

    Pois as ondas, em toda sua plenitude, permitem os grandes ensinamentos sobre a vida e o que somos.

    Prenda a respiração que a próxima é grande!!!

    Luciano Mannarino é Professor de Geografia e finalmente percebeu que sempre viveu no Havaí!