Tag: textos de jornal para geografia

  • ‘Sovietistão’ equilibra história e relato de viagem em ex-nações soviéticas

    ‘Sovietistão’ equilibra história e relato de viagem em ex-nações soviéticas

    4.jun.2021 às 20h00

    Carlos Graieb SÃO PAULO

    Rota da seda. Gás e petróleo. Herança soviética. O Mar de Aral que está secando. Ditadores malucos. Rapto de esposas. Estepe. Montanhas. Para mim (e acredito que para um imenso número de pessoas), a Ásia Central era isso até a semana passada: informação fragmentada e sem ordem. A leitura de “Sovietistão”, da escritora e antropóloga norueguesa Erika Fatland, pôs fim a essa bagunça.

    O livro é produto de oito meses de estadia nos cinco Estados centro-asiáticos que foram parte da União Soviética até 1991 e hoje existem de forma independente: Cazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Quirguistão e Tadjiquistão.

    Mulher segura bandeira da antiga União Soviética durante manifestação para comemorar o 151º aniversário denascimento do líder comunista Vladmir Lenin no Quirguistão
    Mulher segura bandeira da antiga União Soviética durante manifestação para comemorar o 151º aniversário de nascimento do líder comunista Vladmir Lenin no Quirguistão – Viacheslav Oseledko – 22.abr.2021/AFP

    Como as melhores narrativas de viagem, esta consegue equilibrar perspectiva histórica e testemunho pessoal com grande habilidade. Assim, cada um dos cinco países se separa da massa indistinta dos “istãos”, que tiveram as diferenças aplainadas pelo regime soviético, e emerge com seu passado, suas etnias, suas paisagens e suas peculiaridades sociais e políticas delineados de maneira clara.

    As distinções são necessárias, pois, como observa Fatland, os cinco países são “notavelmente dissimilares”. Enquanto mais de 80% do Turcomenistão é tomado pelo deserto, o Tadjiquistão é 90% montanhas. Enquanto o Cazaquistão nada em dinheiro, graças às suas reservas de gás, o Quirguistão depende em boa parte dos recursos enviados do exterior por gente que emigrou.

    Se o Turcomenistão é uma ditadura tão fechada quanto a Coreia do Norte (os dois países, aliás, insistem que não tiveram nenhum caso de Covid-19 graças à sabedoria de seus governantes) e talvez ainda mais bizarra, o Quirguistão tem votações democráticas e já depôs dois presidentes.

    As páginas em que Fatland expõe acontecimentos já distantes no tempo nunca são áridas. É assim, por exemplo, com sua explanação do “Grande Jogo”, a disputa entre os impérios britânico e russo que desenhou e redesenhou várias vezes o mapa da Ásia Central no século 19.

    É assim também com sua análise histórica das empreitadas soviéticas que provocaram devastação ambiental. A autora visitou a região de Semipalatinsk, no Cazaquistão, onde o regime de Moscou realizou a maioria de seus testes nucleares no século 20. Esteve, igualmente, nos extremos norte e sul do antigo Mar de Aral, que teve sua água roubada por grandes obras de irrigação na era soviética.

    Se a pesquisa dá estrutura ao livro, as experiências de Fatland lhe dão cor. A sorte a ajudou no Turcomenistão: depois de esperar horas debaixo do sol por uma corrida de cavalos que, todo mundo já sabia, teria o ditador Gurbanguly Berdymukhamedov como vencedor, ela o viu se estatelar no chão na linha de chegada.

    Depois da igreja, 1975
    Depois da igreja, 1975 Antanas Sutkus

    No Tadjiquistão, ela participa de um casamento em uma aldeia remota e dedica belas páginas descritivas à cerimônia e à paisagem. E atenção, fãs de Borat: no Quirguistão, e não no Cazaquistão do intrépido jornalista do cinema, ela explora a prática do rapto de esposas entrevistando mulheres que se resignaram a ela —e uma que se rebelou.

    Aquilo que Fatland não oferece é uma análise geopolítica mais ampla, que ponha os cinco países da Ásia Central em relação às potências econômicas e militares vizinhas, ou de outros continentes. A região está ensanduichada entre Rússia e China, mas apenas a ligação com a primeira recebe alguma atenção.

    A maneira como o Sovietistão se encaixa nos planos econômicos e políticos da China nem é arranhada, embora seja o fator mais importante para o seu futuro. Para quem quiser acrescentar essa peça ao quebra-cabeças, sugiro a leitura de “As Novas Rotas da Seda”, de Peter Frankopan, que tem edição portuguesa.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/06/sovietistao-equilibra-historia-e-relato-de-viagem-em-ex-nacoes-sovieticas.shtm

    Questões

    De que forma os ventos da “perestroika” e da “glasnost” se ligam ao título do texto jornalístico?

    Caracterizes cada um dos países da Ásia Central.

    O texto cita um grande impacto ambiental nessa região. Explique por que isso vem ocorrendo.

    Por que, no penúltimo parágrafo, o autor recorreu a uma palavra pouco usada para demostrar a situação geopolítica da região?

    Prof Luciano Mannarino

  • Para conter crise demográfica, China autorizará 3 filhos por família

    Para conter crise demográfica, China autorizará 3 filhos por família

    Decisão é resposta a envelhecimento rápido da população mostrado por censo

    31.mai.2021 às 7h27

    PEQUIM | AFP e REUTERS

    A China anunciou nesta segunda (31) que vai autorizar a cada casal ter até três filhos, acabando com o limite de dois ainda em vigor. A decisão foi tomada poucas semanas após a divulgação dos resultados do último censo, que apontou expressiva queda da taxa de natalidade no país mais populoso do mundo.

    “Em resposta ao envelhecimento da população (…) os casais serão autorizados a ter três filhos”, informou a agência estatal Xinhua, ao relatar as conclusões de uma reunião do gabinete político do Partido Comunista comandada pelo líder Xi Jinping.

    Médico examina recém-nascido em maternidade da China
    Médico examina recém-nascido em maternidade da China – 25.abr.21/ AFP

    Xi disse que a mudança será acompanhada por “medidas de apoio conduzidas para melhorar a estrutura populacional do país, alcançando a estratégia de lidar ativamente com uma população em envelhecimento”. Entre as medidas, citou a redução dos custos de educação, o aumento do financiamento habitacional, a garantia dos interesses legais de mulheres que trabalham e a repressão aos dotes “estratosféricos”. Afirmou ainda que o país vai educar os jovens “para o casamento e o amor”.

    ​Até o ano passado, quem tinha um terceiro filho precisava pagar uma multa de 130 mil yuans (R$ 106,5 mil), de acordo com uma advertência governamental na cidade de Weihai.

    No dia 11 de maio, os resultados do censo realizado em 2020 revelaram um envelhecimento mais rápido que o esperado da população chinesa e o menor crescimento populacional em décadas. A China continental tinha 1,411 bilhão de habitantes em 2020, 72 milhões a mais do que em 2010. O crescimento anual médio entre 2011 e 2020, entretanto, foi de 0,53%, o menor ao menos desde a década de 1950. Na década anterior (2001-2010), essa taxa havia sido de 0,57%. ​

    Os dados mostraram uma taxa de fecundidade de 1,3 filho por mulher em 2020, em sintonia com sociedades em processo de envelhecimento, como Japão e Itália. No ano passado, marcado pela pandemia de Covid, o número de nascimentos no país caiu a 12 milhões, contra 14,65 milhões em 2019.

    A taxa de natalidade em 2019 (10,48 por 1.000) já estava no menor nível desde a fundação da China comunista, em 1949. Assim, em 2016, depois de mais de três décadas da “política do filho único”, a China flexibilizou as regras e permitiu o segundo filho.

    Mas a nova política não foi suficiente para estimular a taxa de natalidade, em queda livre devido a vários motivos, incluindo a redução no número de casamentos, o aumento do custo da moradia e da educação e, também, a decisão das mulheres de adiar os planos de gravidez para privilegiar a carreira profissional.

    Estudo publicado neste ano por cientistas da Universidade de Hangzhou mostrou que a política de dois filhos encorajou casais ricos e foi “menos sensível à carga financeira de criar uma criança”, levando a um aumento nos custos com educação e cuidados infantis e desencorajando pais de primeira viagem.

    A Xinhua fez uma enquete na rede social Weibo, questionando se a população estava pronta para a política dos três filhos. Cerca de 29 mil dos 31 mil que responderam afirmaram que “nunca pensariam nisso”. O restante escolheu as opções “estou pronto e querendo muito isso”, “está nos meus planos” ou “estou na dúvida e há muito a considerar”. A pesquisa foi posteriormente removida. “Estou pronto para ter três filhos se você me der 5 milhões de yuans [o equivalente a R$ 4 milhões]”, postou um usuário.

    ​No outro extremo da pirâmide, o censo mostrou que a China tinha mais de 264 milhões de pessoas com mais de 60 anos em 2020. O grupo de pessoas com mais de 60 anos constitui agora 18,7% do total da população, um aumento de 5,44 pontos percentuais na comparação com o levantamento de 2010.

    Do outro lado, a população em idade ativa (15 a 59 anos) representa 63,35% do total, uma queda de 6,79 pontos na comparação com a década anterior. Demógrafos advertiram que o país pode registrar o mesmo fenômeno de Japão e Coreia do Sul, com excesso de idosos em comparação à população jovem e ativa no mercado de trabalho, uma preocupação que levou o Parlamento chinês, em março, a aprovar um plano para aumentar progressivamente a idade de aposentadoria durante os próximos cinco anos.

    ​POLÍTICA DO FILHO ÚNICO IMPEDIU NASCIMENTO DE 400 MILHÕES

    No começo dos anos 1950, a China tinha cerca de 540 milhões de habitantes e, em menos de 30 anos, dobrou a população, atingindo 1 bilhão no começo da década de 1980.

    Em seguida, com uma política rígida de controle de natalidade, que permitia apenas um filho por casal em muitos casos, o crescimento populacional foi contido. Estima-se que a medida tenha impedido o nascimento de cerca de 400 milhões de pessoas desde sua aplicação, a partir de 1979.

    Casais que descumpriam as restrições estavam sujeitos a penas como pagamento de multas e perda de emprego, e havia denúncias de medidas mais duras, como esterilizações e abortos forçados.

    Em 2015, o regime suspendeu a política do filho único e passou a estimular que cada família tenha dois filhos. A decisão, porém, não aumentou a taxa de natalidade, o que levou a pedidos do fim do limite de duas crianças por família. A meta estabelecida em 2016 era superar 1,42 bilhão de habitantes em 2020.

    Pelos dados do último censo, a China conseguiu atenuar o desequilíbrio entre sexos induzido pela preferência tradicional por meninos e que, às vezes, leva à eliminação de fetos do sexo feminino. Assim, o país registrou o nascimento de 111,3 meninos para cada 100 meninas, uma proporção em queda de 6,8 pontos percentuais na comparação com 2010.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/05/china-anuncia-que-vai-autorizar-até-tres-filhos-por-familia.shtml

    Questões

    1 Por que a China implementou um rígido controle da natalidade no final da década de 1970?

    2 Explique a importância do Censo Populacional para um país.

    3 De que forma o controle da natalidade na China causou um desequilíbrio de gênero em sua população?

    4 Por que o envelhecimento da população é motivo de preocupação nos países?

    5 Os custos na criação de filhos são motivos para queda da natalidade no Brasil? Justifique.

    Veja também…

    DEMOGRAFIA E TEORIA DA TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA.

    População da China tem menor crescimento em décadas e atinge 1,41 bilhão

    Prof Luciano Mannarino

  • O descendente do homem!

    O descendente do homem!

    Imagem Embutida

    Agustín Fuentes

    21 de maio de 2021:
    Vol. 372, Issue 6544, pp. 769
    DOI: 10.1126 / science.abj4606

    Em 1871, Charles Darwin abordou “o maior e mais interessante problema para o naturalista … a descendência do homem”. Desafiando o status quo, Darwin implantou a seleção natural e sexual, e recentemente adotou a “sobrevivência do mais apto”, produzindo cenários para o surgimento da humanidade. Ele explorou histórias evolutivas, anatomia, habilidades mentais, capacidades culturais, raça e diferenças de sexo. Algumas conclusões foram inovadoras e perspicazes. Seu reconhecimento de que as diferenças entre humanos e outros animais eram de grau, não de tipo, foi o pioneiro. Seu foco em cooperação, aprendizado social e cultura cumulativa continua sendo o centro dos estudos evolutivos humanos. No entanto, algumas das outras afirmações de Darwin estavam tristemente e perigosamente erradas. “Descida” é um texto para aprender, mas não para venerar.

    Darwin viu os humanos como parte do mundo natural, animais que evoluíram (descendem) de primatas ancestrais de acordo com processos e padrões semelhantes para toda a vida. Para Darwin, para conhecer o corpo e a mente humanos, devemos conhecer outros animais e sua (e nossa) descendência com modificação através das linhagens e do tempo. Mas, apesar desses quadros ideais e algumas inferências inovadoras, “Descent” é frequentemente problemático, preconceituoso e prejudicial. Darwin pensou que estava contando com dados, objetividade e pensamento científico para descrever os resultados da evolução humana. Mas durante grande parte do livro, ele não foi. “Descent”, como muitos dos tomos científicos da época de Darwin, oferece uma visão racista e sexista da humanidade.

    Darwin retratou os povos indígenas das Américas e da Austrália como menos do que os europeus em capacidade e comportamento. Os povos do continente africano foram consistentemente referidos como cognitivamente dépauperados, menos capazes e de uma posição inferior do que outras raças. Essas afirmações são confusas porque em “Descent” Darwin ofereceu a refutação da seleção natural como o processo de diferenciação das raças, observando que os traços usados ​​para caracterizá-las pareciam não funcionais em relação à capacidade de sucesso. Como cientista, isso deveria tê-lo feito hesitar, mas ele ainda, sem base, afirmava diferenças evolutivas entre as raças. Ele foi além de simples classificações raciais, oferecendo justificativas para o imperialismo, o colonialismo e o genocídio por meio da “sobrevivência do mais apto”. Isso também é confuso, dada a postura robusta de Darwin contra a escravidão.

    Em “Descent”, Darwin identificou as mulheres como menos capazes do que os homens (brancos), muitas vezes semelhantes às “raças inferiores”. Ele descreveu o homem como mais corajoso, enérgico, inventivo e inteligente, invocando a seleção natural e sexual como justificativa, apesar da falta de dados concretos e avaliação biológica. Suas afirmações inflexíveis sobre a centralidade masculina e a passividade da mulher nos processos evolutivos, para os humanos e em todo o mundo animal, ressoam tanto na misoginia vitoriana quanto na contemporânea.

    Na própria vida de Darwin, ele aprendeu com um naturalista sul-americano descendente de africanos, John Edmonstone, em Edimburgo, e teve relações substantivas com os fueguinos a bordo do HMS Beagle. Sua filha Henrietta foi uma das principais editoras de “Descent”. Darwin foi um cientista perspicaz cujas visões sobre raça e sexo deveriam ter sido mais influenciadas por dados e sua própria experiência de vida. Mas as crenças racistas e sexistas de Darwin, ecoando as visões de colegas científicos e de sua sociedade, foram poderosos mediadores de sua percepção da realidade.

    Hoje, os alunos aprendem que Darwin é o “pai da teoria da evolução”, um cientista gênio. Eles também deveriam aprender Darwin como um homem inglês com preconceitos prejudiciais e infundados que distorceram sua visão dos dados e da experiência. Racistas, sexistas e supremacistas brancos, alguns deles acadêmicos, usam conceitos e afirmações “validadas” por sua presença em “Descent” como suporte para crenças errôneas, e o público aceita muito disso sem crítica.

    “The Descent of Man” é um dos livros mais influentes na história da ciência evolutiva humana. Podemos agradecer a Darwin pelos insights importantes, mas devemos lutar contra suas afirmações infundadas e prejudiciais. Refletindo sobre “Descent” hoje, pode-se olhar para os dados que demonstram inequivocamente que a raça não é uma descrição válida da variação biológica humana, que não há coerência biológica para os cérebros “masculino” e “feminino” ou qualquer simplicidade nos padrões biológicos relacionados ao gênero e sexo, e que a “sobrevivência do mais apto” não representa com precisão a dinâmica dos processos evolutivos. A comunidade científica pode rejeitar o legado de preconceitos e danos nas ciências evolutivas, reconhecendo e agindo sobre a necessidade de diversas vozes e tornando as práticas inclusivas centrais para a investigação evolucionária. No fim.

    (tradução automática)

    http://www.sciencemag.org/about/science-licenses-journal-article-reuse

    Questões

    O autor identifica o racismo e o sexismo na obra de Darwin? Justifique.

    De que forma “Descent” foi apropriado para justificar o Imperialismo Europeu na África?

    Prof Luciano Mannarino

  • Novos estudos analisam destruição da camada de ozônio e seu impacto na saúde humana

    Novos estudos analisam destruição da camada de ozônio e seu impacto na saúde humana

    Pesquisas na Nature mostram redução na produção de CFCs, e estudo brasileiro aponta que a camada mais fina aumenta danos no DNA

    10.fev.2021 às 13h08Atualizado: 10.fev.2021 às 16h06

    Gabriel Alves

    SÃO PAULO

    Camada de ozônio não é um dos tópicos ambientais mais comentados hoje em dia, mas isso não significa que ela tenha sido esquecida ou que esteja tudo bem, pelo contrário. Cientistas ainda se esforçam para dimensionar o prejuízo provocado pela ação humana.

    Dois artigos publicados nesta quarta (10) na revista Nature, inclusive, apontam o declínio na produção de moléculas responsáveis pela destruição da camada de ozônio, como o triclorofluorometano, também conhecido como CFC-11, usado no processo de fabricação de espumas.

    Apenas entre 2018 e 2019, a redução nas emissões foi de 18 mil toneladas, o que representava 26% do total. A medida, feita por meio da análise de gases da atmosfera, foi aferida em locais remotos, distantes de grandes centros poluidores.

    A conclusão do trabalho, comandado por cientistas da Noaa (agência americana responsável pelo monitoramento atmosférico e oceânico) e de outras instituições, é que o rápido declínio só foi possível porque deve haver uma grande produção de CFC-11 não reportada e consequente emissão desses gases.

    A esperança é que, se mantido o declínio das emissões, e a produção irregular não aumentar, a agressão à camada de ozônio pode estacionar, favorecendo sua regeneração.

    Uma outra análise, publicada na mesma edição mostra uma redução importante na produção do CFC-11 na porção leste da China. O estudo contou com medidas feitas na própria China, no Japão e na Coreia do Sul, além de análise da dinâmica atmosférica do continente asiático.

    A diminuição foi de cerca de 10 mil toneladas ao ano, entre 2014 e 2017, chegando a 5.000 toneladas em 2019. Essa redução equivale a 60% do declínio nas emissões globais dos poluentes no mesmo período.
    Apesar da estimativa de ainda existir um grande banco de CFC-11, ou seja, gás aprisionado em dutos e espumas, ainda não liberado para a atmosfera, os autores atribuem a melhora nas emissões às políticas do governo chinês e às ações da indústria do país. Desse trabalho participaram cientistas da Coreia do Sul, Reino Unido, Japão, Suíça, China, EUA e Austrália.

    Quanto ao impacto da destruição da camada de ozônio nas diversas formas de vida que habitam a Terra —a humana, inclusive —, o professor da USP Carlos Menck foi em uma expedição para a Antártida no final de 2017 para estudar como a perda da camada atinge o DNA. Só recentemente os resultados foram publicados na revista Photochemistry and Photobiology.

    O experimento consistia em expor uma espécie de cápsula gelatinosa contendo DNA ao sol no continente gelado, enquanto outra cápsula, a controle, era protegida com uma folha de papel alumínio. Esse gel é chamado de “dosímetro de lesões de DNA” e permite que experimentos aconteçam fora do laboratório.

    Pode parecer simples, mas houve desafios no processo, além do clima gelado.

    O buraco na camada de ozônio na Antártica no ano 2000
    O buraco na camada de ozônio na Antártida no ano 2000 – Nasa

    Um deles foram as skuas, aves migratórias que costumam passear nos arredores da Estação Antártica Comandante Ferraz, a base brasileira no continente. “São como galinhas grandes, mas elas voam”, diz Menck. E o problema é que elas tentaram roubar o material dos experimentos do cientista. “Tentei pregar com fita crepe numa pedra, mas não se passaram nem 15 minutos e lá estava a skua de novo.”

    Aconselhado por um colega, bolou uma engenhoca: adaptou o dosímetro em cima de um rodo que encontrou dando sopa na base brasileira. Fincou o cabo na neve e usou a parte de baixo como suporte.

    Oficialmente, no artigo científico, trata-se de um “tilted support”, ou suporte angulado, que até facilitou a tarefa, já que para acompanhar o sol bastava girar o aparato.

    O ozônio é um gás altamente instável, formado por três átomos de oxigênio (o oxigênio molecular, que respiramos, é composto de dois átomos) localizado principalmente na estratosfera, numa altitude de cerca de 15 km ou maior.

    Esse ozônio forma uma espécie de nuvem dispersa, que tem por característica evitar a incidência de raios ultravioleta, especialmente do tipo C, os mais intensos, e também do B na superfície terrestre. Curiosamente, se aglutinados, esses átomos formariam uma camada de apenas cerca de 3 mm (ou 300 DU, unidades Dobson), o que revela a tal fragilidade.

    (Também existe ozônio na troposfera, a camada da atmosfera na qual estamos imersos, mas aí ela está associada principalmente à poluição nas grandes cidades, e causa prejuízos à saúde.

    Durante a primavera antártica, a camada de ozônio pode chegar ao que seria equivalente a menos de 1 mm (100 DU). Quando o valor está abaixo de 220 UD (o equivalente a 2,2 mm), já se considera que há um buraco. E quem fica abaixo do buraco pode sofrer com a severidade da radiação solar.

    “Mesmo sem o buraco, havia uma irradiação muito forte. E nossos experimentos já mostraram uma correlação entre a espessura da camada de ozônio e lesões no DNA, especialmente pela ação de ultravioleta do tipo B [que deixa de ser bloqueado pela camada]”, conta Menck.

    Lesões e mutações no DNA estão entre os principais fatores para a ocorrência de cânceres. Em última análise, a vida terrestre poderia ser extinta sem a proteção fornecida pela camada de ozônio.

    Em 20 de setembro de 2020, o buraco chegou ao tamanho de 25 milhões de quilômetros quadrados, quase o dobro da área de todo o continente antártico e maior até mesmo que a área da Rússia, o maior país em extensão territorial, segundo dados da Nasa.

    Desde as negociações que levaram os países a assinar o Protocolo de Montreal, no final da década de 1980, foram reduzidas as emissões dos chamados CFCs (clorofluorcarbonos), gases usando em aplicações como refrigeração e em aerossóis e que aceleram a degradação do ozônio, e a camada estratosférica se estabilizou.

    A expectativa é que, se tudo der certo, a recuperação aos níveis anteriores a 1980 demore entre 60 a 100 anos, relata Paulo Artaxo, professor da USP e estudioso da física atmosférica.

    Desde meados da década passada, porém, houve uma desaceleração do progresso por causa de uma emissão remanescente de gases que destroem a camada de ozônio. Segundo pesquisadores do MIT e das Universidades de Sussex e do Estado do Colorado defendem em artigo publicado em 2020 na revista Nature Communications, apesar do sucesso obtido até então, é hora de atualizar as políticas de proteção à camada de ozônio, e não mais nos vangloriarmos de uma conquista do século passado.

    https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2021/02/novos-estudos-analisam-destruicao-da-camada-de-ozonio-e-seu-impacto-na-saude-humana.shtml

    Questões

    1 Caracterize as principais camadas da atmosfera.

    2 O que é a “camada” de ozônio?

    3 Qual a importância do ozônio para vida em nosso planeta?

    4 O que foi o Protocolo de Montreal? Analise seus desdobramentos.

    Antártica: O Continente dos Extremos

    Nova estação antártica brasileira será inaugurada oito anos após o incêndio (atividade)

    Prof Luciano Mannarino

  • Projetos ferroviários de R$ 40 bilhões disputam grãos de Mato Grosso

    Projetos ferroviários de R$ 40 bilhões disputam grãos de Mato Grosso

    Competição por pioneirismo é foco de embates entre empreendedores e governo

    17.mai.2021 às 23h15

    Nicola Pamplona

    RIO DE JANEIRO

    Com perspectiva de dobrar a produção de grãos nos próximos anos, o agronegócio de Mato Grosso é hoje disputado por três bilionários projetos ferroviários que, para o governo, podem revolucionar a logística de transportes da produção agrícola do país.

    Juntos, os projetos demandariam ao menos R$ 40 bilhões em investimentos, para adicionar quase 2.000 quilômetros à malha ferroviária do país. O mais adiantado é o menor deles, a Fico (Ferrovia de Integração do Centro-Oeste), que será construída pela Vale.

    O governo aposta suas fichas no mais complexo, a Ferrogrão, que liga Sinop (MT) aos portos de Miritituba e Santarém, no Pará, que enfrenta resistências no Ministério Público e críticas de especialistas que temem o risco de despejo de dinheiro público nas obras.

    Trem da ALL, atual Rumo Logística, passando pela malha da MRS, próximo da Estação Evangelista de Souza, no bairro Emburá, extremo sul da cidade de São Paulo – Eduardo Anizelli/Folhapress

    A expectativa é licitar a ferrovia ainda este ano, mas a meta depende de derrubada de liminar do STF (Supremo Tribunal Federal) que suspendeu a alteração de limites da Floresta Nacional do Jamanxim (PA) para a passagem dos trilhos.

    Em outra frente, a Rumo Logística tenta convencer o governo que tem direito a construir um ramal expandindo sua malha de Rondonópolis (MT), onde já atua, até Lucas do Rio Verde (MT) para transportar a produção do estado até o porto de Santos.

    Atualmente, a Rumo já opera no transporte de grãos de Mato Grosso por meio de seu terminal em Rondonópolis, mas a maior parte da produção agrícola local é transportada ainda por caminhões, modal ineficiente para esse tipo de carga e as longas distâncias que percorre.

    Com a pavimentação do trecho norte da BR-163, que tem traçado parecido ao da Ferrogrão, os produtores locais já comemoram redução de 20% no custo de transporte, mas são entusiastas da perspectiva de maior economia com os projetos ferroviários

    “Se não tivermos concorrência entre os modais de transporte, o frete sempre será caro”, diz o presidente da Aprosoja (Associação dos Produtores de Soja), Antônio Galvan. “O modal rodoviário hoje está superado, só utilizamos porque é o único que temos.”

    Galvan diz ver demanda para os três projetos, mas o temor de que a competição inviabilize investimentos bilionários é foco de embates entre empreendedores e o governo, tornados públicos no fim de abril pelo ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas.

    Em evento com empresários do setor de construção do Maranhão, o ministro disse que questionamentos ambientais sobre a Ferrogrão são “cortina de fumaça” patrocinada por interesses econômicos contra o projeto.

    “Eu vou lá, patrocino uma ONG, pego um indígena, boto debaixo do braço, vou lá na Redação do jornal para dar o pau, dizer que a ferrovia é ruim”, afirmou, acusando operadores de ferrovias que cobrariam hoje frete equivalente ao ferroviário para transportar os grãos.

    Freitas não citou nomes, mas a crítica foi dirigida à Rumo, única empresa que presta o serviço atualmente e apontada como a principal concorrente da Ferrogrão. A companhia, de fato, tem atuado nos bastidores para viabilizar seu projeto antes.

    A empresa não dá entrevista sobre o assunto. Junto ao governo, defende que o contrato de concessão da malha que opera permite a expansão rumo ao norte de Mato Grosso. O governo alega que essa cláusula foi extinta e tenta empurrar o projeto para viabilizar a ferrovia para o Pará.

    A Rumo dependeria, portanto, de aprovação de projeto de lei que altera o marco legal do setor ferroviário e permite a construção de ferrovias por autorização e não pelo modelo de concessão, que prevê concorrência pública.

    O Ministério da Infraestrutura deixa claro que a Ferrogrão é sua prioridade na área de transporte e, nos bastidores, a Rumo acusa o governo de atrasar seu projeto para viabilizar o projeto concorrente.

    Presidente da República, Jair Bolsonaro, ao lado do ex-presidente Fernando Collor de Melo e de Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, durante cerimonia, em Maceió/AL, para a entrega de 500 unidades habitacionais
    Presidente da República, Jair Bolsonaro, ao lado do ex-presidente Fernando Collor de Melo e de Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, durante cerimonia, em Maceió/AL, para a entrega de 500 unidades habitacionais Alan Santos/Alan Santos – 13.mai.21/PR

    O modelo de concessão da Ferrogrão prevê, inclusive, a criação de um fundo com recursos de concessões de outras ferrovias para bancar imprevistos, entre eles a entrada em operação do ramal da Rumo antes de 2045. Isto é, se a empresa acelerar seu projeto, o fundo teria que bancar parte da receita da outra ferrovia.

    Para críticos da obra, como o economista Cláudio Frischtak, da consultoria Inter.B, essa possibilidade é um sinal de que o projeto tem riscos de não parar de pé sem aporte de dinheiro público — o que o Ministério da Infraestrutura afirma que não ocorrerá.

    Como é uma ferrovia ponta a ponta, sem terminais intermediários, a Ferrogrão só poderá entrar em operação quando estiver totalmente concluída, o que está previsto para 2030. Para garantir o pagamento do financiamento, precisa de ao menos 20 milhões de toneladas nos primeiros anos.

    A Rumo alega que seu projeto corre menos risco porque começa a gerar receita assim que o primeiro trecho do novo ramal for concluído, uma vez que a ligação restante com o porto de Santos já é operacional.

    A terceira ferrovia projetada para chegar a Mato Grosso, a Fico, foi incluída como contrapartida à renovação de concessões ferroviárias da Vale. A mineradora ficará responsável pelas obras e, quando concluído, o trecho deve ser concedido ​em leilão.

    A princípio, ela ligará Mato Grosso à Ferrovia Norte-Sul, abrindo uma nova alternativa logística para escoamento da produção do Centro-Oeste pelo Maranhão. Caso o governo consiga concluir também a Fiol (Ferrovia de Integração Oeste-Leste), a Fico ganha conexão com o porto de Ilhéus (BA).

    Marcassa diz que as projeções de crescimento da produção de grãos no Centro-Oeste permitem a coexistência dos três projetos. A Ferrogrão prevê 40 milhões de toneladas e a expansão da Rumo, outras 40 milhões. A Fico terá capacidade inicial de 10 milhões.

    O Imea (Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária) projeta já para 2030 uma produção de cerca de 120 milhões de toneladas de soja e milho. Incluindo o arroz, Galvan fala em 150 milhões, dobrando a capacidade de produção atual.

    “Ainda tem a carga de retorno”, acrescenta a secretária de Fomento, Planejamento e Parcerias do Ministério da Infraestrutura, Natália Marcassa. “A Malha Norte sobe com Coca-Cola e fralda descartável para o MT, tem carga de fertilizante para Ferrogrão… Hoje todo esse centro é alimentado por caminhão em carga geral.”

    “E tem todo o restante, algodão, pecuária, congelados… Depois vai aparecer minério e outras coisas”, afirma Galvan. “Com certeza essas três ferrovias vão ter que ser ampliadas no futuro.”

    https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2021/05/projetos-ferroviarios-de-r-40-bilhoes-disputam-graos-de-mato-grosso.shtml

    Questões

    1.Aponte a importância do modal ferroviário no aumento da nossa competitividade no setor agropecuário.

    2.Caracterize cada um dos grandes biomas brasileiros que a malha ferroviária ferrogrão atravessará.

    3 Por que o Centro Oeste se tornou um celeiro agrícola nas últimas décadas?

    4 Aponte uma vantagem dos portos do norte em relação aos portos do sudeste na exportação de grãos.

    Prof. Luciano Mannarino