Categoria: Questão Ambiental

  • Atafona, distrito do RJ que vem sendo engolido pelo mar, serve de alerta para erosão costeira

    Atafona, distrito do RJ que vem sendo engolido pelo mar, serve de alerta para erosão costeira

    13.nov.2021 às 23h15

    Ana Luiza Albuquerque Nicollas Witzel

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    Restos de uma casa na beira da praia em Atafona; nos períodos mais críticos, o mar chegou a avançar nove metros por ano Nicollas Witzel/Folhapress

    ATAFONA (RJ)

    Se os escafandristas imaginados por Chico Buarque explorassem o mar de Atafona, lá encontrariam fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos e vestígios de uma civilização que, em parte, deixou de existir. Assim como a cidade submersa narrada na música “Futuros Amantes”, o distrito de São João da Barra, no Norte Fluminense, e suas memórias têm sido engolidos pela água.

    Desde a década de 1960, o avanço do mar já causou a destruição de mais de 500 casas, desabrigando centenas de famílias. Dezenas de quarteirões foram para o fundo do oceano.

    Apegados a Atafona, muitos moradores já trocaram de residência algumas vezes para fugir do mar, sem nunca deixar a pequena comunidade. Para eles, as perdas afetivas são mais dolorosas do que as materiais: há lugares que marcaram suas vidas para os quais nunca poderão voltar.

    Distrito de Atafona, em São João da Barra, município do Norte Fluminense, sofre com a erosão costeira há 60 anos – Arquivo Pessoal/Eduardo Bulhões

    A erosão costeira é explicada por uma série de motivos, mas o principal é o assoreamento do rio Paraíba do Sul, que tem seu delta (tipo de foz em que o rio desemboca no mar por meio de vários canais) em Atafona.

    Com cerca de 7.000 habitantes, o distrito é uma espécie de laboratório das consequências da intervenção humana em um ecossistema. Isso porque o assoreamento do rio foi causado especialmente por desvios de água para abastecimento doméstico, industrial e agrícola em São Paulo e no Rio de Janeiro.

    Com menor volume, o Paraíba do Sul não consegue fazer frente ao mar e transportar sedimentos em quantidade suficiente para barrar o avanço das águas em Atafona. Também contribuem para o processo condições naturais, como a dinâmica das correntes marítimas e os fortes ventos na localidade.

    Atafona é apenas uma entre tantas regiões litorâneas que sofrem com a erosão costeira em todo o mundo. Diante das mudanças climáticas e do aumento no nível dos oceanos, o cenário pode piorar nas próximas décadas.

    O geógrafo Eduardo Bulhões, professor na UFF (Universidade Federal Fluminense), lembra que uma pesquisa identificou que somente 4% de todas as regiões litorâneas no mundo erodem em taxas superiores a cinco metros por ano. Atafona é um desses lugares. Nas áreas mais críticas, o mar avança cerca de seis metros por ano. Em alguns períodos, o avanço chegou a nove metros.

    “A erosão só se torna um problema quando há uma cidade instalada. Nesse contexto, Atafona talvez seja o principal ponto do país”, diz.

    O severo processo de erosão que ali ocorre contrasta com a tranquilidade do local, onde a vida se desenrola em um ritmo mais devagar, não se veem edifícios e não se ouvem buzinas. É comum que os moradores se conheçam. Foi assim que a reportagem chegou à casa da aposentada Sonia Ferreira, 77, uma referência na comunidade.

    Acostumados a passar verões em Atafona, Sonia e sua família compraram uma casa ali no fim da década de 1970. À época, alguns quarteirões separavam a construção da praia. Hoje, a residência está de frente para o mar.

    Pilares de antiga construção enterrados na areia da praia de Atafona, distrito do município de São João da Barra, localizado no Norte Fluminense
    Pilares de antiga construção enterrados na areia da praia de Atafona, distrito do município de São João da Barra, localizado no Norte Flumin Nicollas Witzel/Nicollas Witzel/Folhapress

    Em frente à casa de Sonia estão as ruínas do conhecido prédio do Julinho, o único que havia na região, derrubado pelas ondas em 2008. “Foi um impacto muito grande. A gente sempre tem aquela esperança de que não vai chegar na nossa casa”, diz.

    Quando o mar destruiu seu muro, em 2019, Sonia aceitou que precisava se mudar. A aposentada decidiu ir para uma pequena casa nos fundos do terreno e, aos poucos, vem retirando seus pertences.

    “Atafona era um lugar de férias, passeio, alegria. Perder isso é difícil. Você tem seus cantinhos na casa que te remetem a pessoas queridas. Esses cantinhos ficam perdidos na sua história.”

    O prédio do Julinho também é citado como uma das melhores memórias da empresária Camila Hissa, 31, filha dos fundadores do restaurante Ricardinho, o mais famoso em Atafona. “Era um lugar icônico, tinha o barzinho que vendia uma empada deliciosa com um cheiro peculiar. É o resumo da infância”, diz.​

    Seus pais fundaram o restaurante em 1978 e tiveram que mudá-lo de lugar três vezes para fugir do avanço do mar. “Quem é daqui aprendeu a conviver. Não é uma coisa que você se revolta e larga tudo, vai embora.”

    Camila relata que os restaurantes e pescadores foram muito impactados pelas dificuldades de navegação com o assoreamento do rio. Há cerca de três anos houve um período tão crítico que os barcos não conseguiam desembarcar o peixe em Atafona.

    O pescador Valcinei Bento, 52, lembra que nessa época os barcos só trabalhavam com a maré cheia. “Foi um inferno. A gente chegava na beira dos frigoríficos e era uma zona fantasma”, afirma.

    Apesar das perdas financeiras, Camila diz que as perdas emocionais são as piores. “Aquela história foi simplesmente apagada. Era uma época na qual a fotografia era muito cara. As fotos são raras”, afirma.

    No início do ano, um projeto interativo conhecido como Museu Ambulante levou para as ruas uma enorme bicicleta com fotografias antigas de Atafona. O acervo e a iniciativa foram desenvolvidos pela residência artística CasaDuna, fundada pela filósofa Julia Naidin e pelo artista plástico Fernando Codeço.

    Codeço diz que a reação da comunidade foi impressionante e que muitos moradores se identificaram nas fotos, quando ainda eram crianças. “As pessoas imediatamente se emocionavam, queriam contar histórias”, diz.

    Ele afirma que a CasaDuna quer contribuir para a produção de memória local e também discutir sobre a forma predatória com a qual lidamos com o meio ambiente. “Falar de Atafona é falar desse Brasil que está ruindo e de um processo civilizatório que precisa mudar.”

    Algumas das fotos que mais chamaram a atenção foram as da Ilha da Convivência, primeiro lugar atingido pelo avanço do mar. Ao longo de décadas, as famílias de pescadores que lá viviam foram obrigadas a deixar o local, onde hoje ninguém vive.

    Avanço do mar em Atafona, distrito de São João da Barra (RJ), já destruiu 500 casas e desabrigou centenas de famílias
    Avanço do mar em Atafona, distrito de São João da Barra (RJ), já destruiu 500 casas e desabrigou centenas de famílias Gilberto Pessanha/Arquivo pessoa

    Uma das últimas a abandonar a ilha, em setembro de 2008, Jamira Pedra Gomes, 58, resistiu por décadas, mesmo após perder duas casas. Ela lembra que no dia de sua saída acordou de madrugada com o mar batendo nas paredes. “Eu falei ‘me ajuda, Deus’. Espera esfriar minhas pernas, que não vou botar minhas pernas quentes do cobertor nessa água fria”, diz.

    Da 1h às 8h, Jamira carregou sozinha todos os seus pertences. No dia seguinte, as paredes caíram. Sua irmã, Janira Pedra Monteiro, 60, se mudou da ilha anos antes. Quando o mar entrou em sua casa, ela deixou que tudo fosse levado. “A gente fica cansada. O mar tinha tomado quatro casas minhas”, afirma.

    Décadas após a mudança, as irmãs voltaram de barco à ilha acompanhadas pela reportagem. Janira diz que sente falta de andar de canoa, pescar manjuba, pegar caranguejo e fazer redes de pesca. “Eu penso [na ilha], eu quase nem durmo de noite. Essa noite pensei tanto naquele lugar, nas pessoas que se foram.”

    Jamira se emociona ainda mais —chegando na ilha, chorou e apontou para o lugar onde foi dona de um bar. “Eu queria envelhecer lá. Eu gosto tanto que dá vontade de ficar”, diz.

    Ela conta que a saudade se transformou em uma depressão. “Eu vivo do trabalho. Gosto de estar andando com as pessoas, conversando, para me distrair.”

    Os distúrbios psíquicos são citados pelo psicólogo Leandro Viana como uma das consequências do processo erosivo na vida dos moradores.

    Finalizando uma tese de doutorado pela Uenf (Universidade Estadual do Norte Fluminense) sobre Atafona, ele afirma que muitos relatam sentir angústia e ansiedade por estarem sempre em alerta para o movimento do mar. Também causa sofrimento a espera por uma solução.

    “Os pescadores falam muito da Ilha da Convivência, um lugar de muita troca e solidariedade. Ao perder esse lugar, perdeu-se isso também”, diz.

    Nos últimos seis anos, foram realizadas audiências para tratar do tema com a sociedade civil, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública. Três soluções foram apresentadas, mas nenhuma saiu do papel.

    A resolução esbarra em ao menos três pontos: a falta de articulação entre os poderes municipal, estadual e federal, o custo das obras e a insegurança a respeito de seus efeitos ambientais. Em primeiro lugar, é preciso obter uma licença com o Inea (Instituto Estadual do Ambiente).

    “União, estados e municípios têm responsabilidade de zelar pelo ecossistema da praia. Como as responsabilidades e o interesse são difusos, ninguém se sente na obrigação de resolver. Por outro lado, qualquer obra de aumento da faixa de praia leva tempo”, afirma o geógrafo Eduardo Bulhões, autor de um dos projetos.

    A proposta de Bulhões envolve o engordamento artificial da praia para inverter o déficit de areia. Ele avalia que qualquer solução que se proponha como definitiva, com o uso de estruturas rígidas como os espigões, é enganosa.

    “Em todos os lugares onde se criaram proteções com estruturas foram gerados problemas adicionais, e todas as obras têm tempo de vida útil”, diz.

    O geógrafo afirma que uma das opções que podem ser adotadas é a de não fazer nada, mas que mesmo assim precisa haver um planejamento e informação da população. “Acho que em Atafona houve essa opção, de vários governos, e isso não é comunicado de forma eficiente.”

    O professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Gilberto Pessanha, que estuda o caso de Atafona há 20 anos, afirma que mesmo o engordamento artificial requer monitoramento das ondas e dos ventos. Isso envolve tecnologia, pessoal e mais recursos.

    “Existe uma dúvida porque há locais onde houve iniciativa de engordamento de praia e o processo erosivo voltou”, diz.

    Secretária de Meio Ambiente de São João da Barra, Marcela Toledo afirma que o impacto das obras ainda não foi amplamente estudado. Ela diz que o Inea indicou, em 2020, que nenhum dos projetos tem eficácia comprovada. De fato, o órgão citou questões a serem trabalhadas, mas nenhum deles foi avaliado negativamente.

    Em setembro deste ano, foi criada uma Câmara Técnica com a Prefeitura e entidades da sociedade para continuar discutindo a situação e pensar em possíveis soluções. Toledo defende, também, que as ações precisam passar pela União, que, de acordo com a Constituição Federal, é dona das praias.

    Em nota enviada à Folha, a Secretaria de Coordenação e Governança do Patrimônio da União afirma que os encaminhamentos necessários competem à administração municipal. O governo federal argumenta que o Estatuto das Cidades deu aos municípios a capacidade jurídica de gestão das superfícies das cidades.

    https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2021/11/atafona-distrito-do-rj-que-vem-sendo-engolido-pelo-mar-serve-de-alerta-para-erosao-costeira.shtm

    Avaliação

    Erosão Costeira e Suas Causas (4 pontos)
    a) O texto menciona que a erosão costeira em Atafona é causada principalmente pelo assoreamento do rio Paraíba do Sul. Explique como a intervenção humana contribuiu para o assoreamento e, consequentemente, para a erosão costeira. (2 pontos)


    b) Quais são as condições naturais que também contribuem para o processo de erosão em Atafona? Explique como essas condições se combinam com os fatores antrópicos para agravar a situação. (2 pontos)

    Impactos Ambientais e Sociais (3 pontos)
    a) Discuta os impactos sociais da erosão costeira em Atafona, considerando as perdas emocionais e materiais dos moradores, conforme descrito no texto. Como esses impactos estão diretamente ligados às mudanças ambientais na região? (1,5 pontos)


    b) O texto menciona o avanço do mar em Atafona e sua relação com as mudanças climáticas. Como o aumento no nível dos oceanos, associado às mudanças climáticas, pode afetar outras regiões costeiras no Brasil e no mundo? (1,5 pontos)

    Soluções e Desafios Ambientais (3 pontos)
    a) O geógrafo Eduardo Bulhões propõe o “engordamento artificial da praia” como uma possível solução para a erosão em Atafona. Quais são os potenciais benefícios e riscos dessa solução do ponto de vista ambiental? (2 pontos)


    b) O texto aponta a falta de articulação entre os poderes municipal, estadual e federal como um obstáculo para resolver o problema da erosão em Atafona. Como uma gestão ambiental integrada poderia ajudar a enfrentar os desafios ecológicos e sociais nessa e em outras regiões afetadas por problemas semelhantes? (1 ponto)

    Prof Luciano Mannarino

  • O que são mudanças climáticas e outras 14 perguntas para entender o fenômeno

    O que são mudanças climáticas e outras 14 perguntas para entender o fenômeno

    1. O que são as mudanças climáticas?

    O termo mudança climática é mais amplo do que aquecimento global, que se refere apenas ao aumento da temperatura.

    O que se chama de mudanças climáticas inclui temperatura, intensidade das chuvas e eventos climáticos extremos, como furacões e ondas de calor.

    O clima do planeta muda constantemente ao longo do tempo. A temperatura média global atualmente é de 15ºC, e evidências geológicas indicam que ela já foi bem mais alta e bem mais baixa no passado.

    No entanto, o período atual de aquecimento está ocorrendo mais rápido do que no passado. Cientistas temem que as flutuações naturais no clima têm sido superadas por um aquecimento rápido induzido pelo homem com sérias implicações para a estabilidade climática do planeta.

    Não há mais dúvida de que essas mudanças são devidas em grande parte à atividade humana, especificamente à emissão na atmosfera de grandes quantidades de gases do efeito estufa, como CO² e metano.

    Cidade sob o sol
    2018 foi o quarto ano mais quente desde que os registros de temperatura começaram, em 1850

    2. O que é o efeito estufa?

    Esse fenômeno se refere à maneira com que a atmosfera da Terra retém parte da energia do sol. A energia solar que reflete na superfície terrestre em direção ao espaço é absorvida pelos gases do efeito estufa e reemitida em todas as direções.

    Ela passa então a aquecer tanto zonas mais baixas da atmosfera quanto a superfície terrestre. Sem esse efeito, a Terra seria quase 30ºC mais fria, tornando o planeta hostil à vida.

    Cientistas afirmam que o homem está acrescentando ao efeito estufa natural gases resultantes da indústria e da agricultura (chamados também de emissões), levando a uma retenção maior da energia solar e aumentando a temperatura do planeta. Isso é o que costuma se chamar hoje de aquecimento global.

    O mais importante dos gases do efeito estufa, em termos de impacto no aquecimento, é o vapor d’água, mas suas concentrações apresentam mudanças pequenas que persistem na atmosfera apenas por alguns dias.

    O gás carbônico (CO₂), no entanto, persiste por muito mais tempo (levaria séculos para retornarmos aos níveis pré-industriais). Além disso, apenas uma parte do CO₂ pode ser absorvido por reservatórios naturais como os oceanos.

    A maioria das emissões humanas de gás carbônico são oriundas da queima de combustíveis fósseis. Quando florestas capazes de absorver CO₂ são derrubadas por madeireiras ou queimadas para serem transformadas em pasto, o carbono aprisionado ali também volta à atmosfera, contribuindo para o aquecimento global.

    Outros gases do efeito estufa, como o metano, também são emitidos em atividades humanas, mas a concentração deles é pequena em comparação à do dióxido de carbono.

    Desde o início da revolução industrial, em torno de 1750, os níveis de CO₂ aumentaram mais de 30% e os de metano, mais de 140%. A concentração de dióxido de carbono na atmosfera é hoje a mais alta em 800 mil anos, pelo menos.

    Urso polar nada no oceano
    As geleiras do Ártico diminuíram nos últimos anos

    3. Quais são as evidências do aquecimento global?

    Registros de temperaturas desde o século 19 mostram que a temperatura média da superfície da Terra cresceu 0,8ºC nos últimos cem anos. Quase 0,6ºC desse total ocorreu nas últimas três décadas.

    Os 20 anos mais quentes já registrados ocorreram nos últimos 22 anos, liderados pelo período entre 2015 e 2018.

    Ao redor do planeta, o nível médio do mar cresceu 3,6 mm por ano entre 2005 e 2015. A maior parte dessa mudança ocorre em razão da expansão térmica da água do mar. Com o aumento da temperatura dela, as moléculas se tornam menos densas, levando ao aumento do volume do oceano.

    Pessoas em meio a enchente em Moçambique
    Ciclones que atingiram a África nos últimos dois meses deixaram centenas de mortos

    Mas a redução da massa de gelo nos polos tem sido considerada o principal fator nessa tendência. A maioria das geleiras em regiões temperadas do mundo e ao longo da península da Antártida está diminuindo.

    Desde 1979, imagens de satélite mostram um declínio dramático na extensão de gelo no Ártico, a uma velocidade de 4% por década. Em 2012, essa faixa atingiu seu patamar mais baixo, que é 50% menor que a média entre 1979 e 2000.

    A camada de gelo na Groenlândia tem passado por um derretimento recorde nos últimos anos. Se todo esse gelo derreter, elevaria os níveis do mar em 6 metros.

    Dados de satélite mostram que a camada de gelo oeste da Antártida também está perdendo massa, e um estudo recente indicou que o lado leste da região, que não tem apresentado qualquer tendência de aquecimento ou resfriamento, pode ter começado a perder massa nos últimos anos.

    Mas cientistas não esperam mudanças drásticas. Em alguns lugares, a massa pode inclusive crescer, já que o aumento da temperatura pode levar à produção de mais neve.

    Os efeitos das mudanças climáticas também podem ser vistos na vegetação e nos pastos. Eles incluem mudanças nos ciclos de vida das plantas, como uma floração antecipada, e alterações nos territórios ocupados por animais.

    4. Quanto as temperaturas vão subir no futuro?

    Em uma ampla análise científica de 2013, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) previu uma série de cenários baseados na modelagem computacional. A maioria das simulações indica que a temperatura na superfície terrestre deve subir 1,5ºC até o fim do século 21, em relação a 1850.

    A Organização Meteorológica Mundial afirma que, caso a atual tendência de aquecimento se mantenha, as temperaturas podem subir de 3ºC a 5ºC até o fim do século.

    Um patamar de 2ºC tem sido considerado, há muito tempo, como a porta de entrada para um cenário mais perigoso. Recentemente, cientistas e formuladores de políticas públicas reviram a cifra e afirmaram que o aumento da temperatura não deveria passar de 1,5ºC.

    Média de aquecimento global projetada para 2100

    Ainda assim, um relatório do IPCC publicado em 2018 mostra que mesmo a meta de 1,5ºC exigiria “mudanças rápidas, amplas e sem precedentes em todos os aspectos da sociedade”.

    Mesmo com a redução drástica das emissões de gases que agravam o efeito estufa, cientistas afirmam que levaria décadas para retirá-los da atmosfera e por isso o impacto no clima continuaria por anos sobre grandes volumes de água e gelo.

    5. Como a mudança do clima vai nos afetar?

    Há vários graus de incerteza sobre o tamanho do impacto do aquecimento global. Mas as mudanças decorrentes dele podem levar à escassez de água doce, a uma transformação radical da capacidade global de produzir alimentos, além do aumento de mortes por inundações, tempestades, ondas de calor e seca.

    Isso ocorreria porque estima-se que as mudanças climáticas devem aumentar a frequência de eventos climáticos extremos, ainda que seja muito difícil associar qualquer evento isolado ao aquecimento do planeta como um todo.

    Cientistas preveem mais chuvas em geral, mas apontam um risco maior de seca em regiões afastadas do litoral. Tempestades e aumento do nível do mar devem levar também a mais inundações. Haveria, no entanto, alta variação desses fenômenos ao longo das regiões.

    Países mais pobres, que são menos preparados e equipados para lidar com mudanças bruscas, podem sofrer mais com as transformações.

    Há previsões também de extinção de animais e plantas incapazes de se adaptar à mudança rápida do habitat, e a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que a saúde de milhões de pessoas pode ser ameaçada pelo avanço da malária, de doenças transmitidas pela água e da desnutrição.

    Com o aumento do CO₂ emitido na atmosfera, há um avanço da captura desse gás pelos oceanos, o que torna a água mais ácida. Esse processo contínuo pode representar grandes problemas para os recifes de coral do mundo, pois as mudanças na química impedem que os corais formem um esqueleto calcificado, essencial para sua sobrevivência.

    Modelos gerados por computador são usados nos estudos das dinâmicas do clima terrestre e levam a projeções sobre mudanças de temperatura.

    Esses cenários variam em torno da “sensibilidade climática”, a exemplo do peso de cada elemento (como o CO₂) no aquecimento ou no resfriamento. E mostram diferenças no modo com que esses “feedbacks climáticos” podem ocorrer.

    O aquecimento global causará algumas mudanças que provavelmente levarão a mais aquecimento, como a liberação de grandes quantidades de metano dos gases de efeito estufa à medida que derrete o permafrost (solo permanentemente congelado encontrado principalmente no Ártico). Isso é conhecido como feedback positivo sobre o clima.

    Mas feedbacks negativos podem compensar o aquecimento. Vários “reservatórios” na Terra absorvem CO₂ como parte do ciclo do carbono – o processo pelo qual o carbono é trocado entre, por exemplo, os oceanos e a terra.

    A questão é: como eles vão se equilibrar?

    6. Que países são os maiores emissores de gases do efeito estufa?

    Os países que emitem mais gases de efeito estufa são, de longe, a China e os EUA. Juntos, eles são responsáveis por mais de 40% do total global de emissões, de acordo com dados de 2017 do Centro Comum de Pesquisa da Comissão Europeia e da Agência Holandesa de Avaliação Ambiental (PBL).

    A política ambiental dos EUA mudou sob o governo de Donald Trump, que adotou uma agenda pró-combustíveis fósseis.

    Os maiores emissores de gases de efeito estufa

    Depois de tomar posse, o presidente americano anunciou a retirada do país do Acordo de Paris, referente à mitigação das mudanças climáticas.

    Na ocasião, Trump disse que queria negociar um novo acordo “justo” que não prejudicasse as empresas e trabalhadores americanos.

    7. Quais são as maiores companhias poluidoras do mundo?

    Um estudo do instituto de pesquisas Climate Accountability Institute, com sede nos Estados Unidos, diz que um grupo de 20 empresas é responsável por mais de um terço das emissões de gases causadores do efeito estufa em todo o mundo desde 1965. A estatal brasileira Petrobras aparece na lista, na 20ª posição.

    Segundo a análise, as 20 empresas produtoras de petróleo, gás natural e carvão foram responsáveis por 480,16 bilhões de toneladas de dióxido de carbono e metano liberados na atmosfera nesse período.

    O montante representa 35% das emissões totais de combustíveis fósseis e cimento, que foram de 1,35 trilhão de toneladas.

    Esse cálculo é baseado na produção anual de petróleo, gás natural e carvão relatada pelas empresas, e leva em conta as emissões desde a extração até o uso final do combustível.

    A Petrobras disse, por meio de sua assessoria de imprensa, que tem buscado aplicar em suas operações “tecnologias que têm como consequência direta a redução da intensidade de carbono, com resultados significativos já alcançados”.

    Segundo comunicado da empresa, “desde 2008, já foram reinjetadas 9,8 milhões de toneladas de CO2 dos campos de pré-sal na Bacia de Santos”, e até 2025, “a companhia projeta reinjetar cerca de 40 milhões de toneladas de CO₂”.

    No processo de reinjeção, o CO₂ é separado do petróleo e do gás extraído do poço e reinjetado de volta, aumentando também a pressão interna — o que acaba por induzir uma produção maior.

    8. Qual é o impacto econômico das mudanças climáticas?

    No último século, as mudanças climáticas aumentaram a desigualdade entre as nações, puxando para baixo o crescimento econômico dos países mais pobres e aumentando a prosperidade de alguns dos países mais ricos do planeta, aponta um estudo da Universidade Stanford, na Califórnia.

    Segundo pesquisadores, o Brasil teria tido um crescimento 25% maior se não fossem os efeitos do aquecimento global.

    “Os dados históricos mostram claramente que as plantações são mais produtivas, e as pessoas são mais saudáveis e mais produtivas no trabalho quando as temperaturas não são nem tão quentes nem tão frias”, explica um dos autores da pesquisa, Marshal Burke, do Earth System Science, de Stanford.

    Indianos usando computador
    O aquecimento global prejudicou economias como a da Índia e de vários países da África, diz o estudo

    De acordo com a pesquisa, entre 1961 e 2010, todos os 18 países com emissões históricas que totalizam menos de 10 toneladas de dióxido de carbono per capita foram impactados negativamente pelo aquecimento global. Eles tiveram, em média, uma redução de 27% no PIB per capita comparado a um cenário sem alta nas temperaturas.

    Por outro lado, 14 dos 19 países cujas emissões ultrapassam 300 toneladas de dióxido de carbono per capita se beneficiaram do aquecimento global, tendo um crescimento médio adicional de 13% no PIB.

    9. O aquecimento global causa eventos climáticos extremos?

    Fenômenos climáticos se intensificaram em relação à média dos anos anteriores.

    As ondas de calor que atingiram a Europa em 2018 foram duas vezes mais prováveis ​​devido ao aquecimento global, de acordo com o consórcio World Weather Attribution (WWA).

    O aumento da temperatura na atmosfera e nos oceanos também está tornando furacões e tempestades mais intensos.

    “Podemos ver os traços das mudanças climáticas em todos os eventos extremos”, diz o cientista holandês Geert Jan van Oldenborgh, membro da WWA.

    É muito difícil provar que um evento específico foi “causado” pelas mudanças climáticas.

    Mas para o professor Michael Mann, da Universidade Estadual da Pensilvânia, perguntar se a mudança climática “causa” um evento específico é fazer a pergunta errada.

    “A questão relevante é a seguinte: as mudanças climáticas afetam esses eventos e os tornam mais extremos? E podemos dizer com bastante confiança que a resposta é positiva”.

    10. Quais são os impactos dessas mudanças nos oceanos?

    Os oceanos absorvem quase um terço das emissões de CO₂.

    Mas esse processo tem trazido um grande efeito indesejado – a diminuição do pH da água, tornando-a mais ácida.

    A chamada acidificação das águas oceânicas abala a fixação do carbonato de cálcio em conchas, ouriços do mar, ostras e outras espécies, causando o declínio de grupos sensíveis (a exemplo das estrelas do mar) e colocando em risco ecossistemas marinhos, como os recifes de coral. Estes são vitais à pesca por funcionarem como “berços” para peixes.

    Desse modo, o risco à descalcificação coloca toda a cadeia alimentar em perigo.

    11. As ondas de frio contradizem os indícios de aquecimento global?

    O clima é um panorama mais prolongado e completo dos padrões de tempo. Ele se refere às condições que prevalecem em uma região ou em toda a Terra, e pode ser estudado com uma análise das tendências históricas.

    Quando falam em clima, os cientistas estão se referindo à situação do planeta todo, ao longo do tempo. Ou seja, mesmo que esteja fazendo mais frio que a média em uma região específica, o mundo como um todo está, na média, mais quente – é isso que apontam centenas de estudos feitos por cientistas no mundo todo ao longo de décadas.

    Esse aquecimento da temperatura média da Terra – que cientistas creditam aos gases de efeitos estufa produzidos por ação humana – provoca eventos climáticos extremos, desde inundações na África até seca no Brasil, passando por invernos muito mais rigorosos na América do Norte.

    Gelo do mar Ártico diminuiu

    Em sua página na internet voltada para crianças, a Agência Espacial Americana (Nasa) explica que devemos esperar tempos frios mesmo que as temperaturas do planeta estejam aumentando de forma geral.

    “O caminho até um mundo mais quente terá muitos episódios de tempos extremamente quentes e extremamente frios”, diz o site da agência.

    Isso porque as mudanças climáticas incluem alterações na forma como correntes marítimas, correntes de vento e outros fenômenos meteorológicos funcionam ao redor do mundo, gerando eventos meteorológicos extremos – tanto de frio quanto de calor.

    12. O que é pegada de carbono?

    Trata-se da quantidade de carbono emitida por um indivíduo ou uma organização por um período determinado, ou emitida durante o processo de fabricação de um produto.

    Recentemente, a jovem ativista sueca Greta Thunberg realizou um giro pela Europa de trem para levar sua mensagem sobre a urgência de se enfrentar o que descreveu como a “crise existencial” das mudanças climáticas.

    Thunberg se recusou a viajar de avião sob o argumento de que queria reduzir sua pegada de carbono. Estima-se que, em uma viagem de trem, uma pessoa gera 15g de CO₂ por km. De avião, são 100g por km.

    13. E neutralidade de carbono?

    É um processo no qual as emissões de CO₂ são equivalentes a zero.

    A Costa Rica anunciou recentemente seus planos de atingir o “carbono zero” até 2050. Isso não significa, no entanto, que o país não emitirá gases do efeito estufa.

    Quando se fala de emissões líquidas equivalentes a zero, isso significa que o CO₂ lançado na atmosfera deve ser compensado pela absorção do carbono por outros métodos, com o plantio de florestas.

    14. A tecnologia pode ser usada para reverter ou frear esse processo?

    A geoengenharia é a área da tecnologia que poderia ser usada para deter ou mesmo reverter o aquecimento global. Entre os mecanismos estão, por exemplo, a captura do CO₂ da atmosfera e seu armazenamento de forma subterrânea.

    Há também tentativas como o lançamento de para-sóis para refletir a luz solar ou mesmo espelhos gigantes com o mesmo fim.

    Alguns cientistas alertam, no entanto, que estes itens são tecnologias de eficácia pouco comprovada.

    Outros afirmam que a geoengenharia será necessária ante a falta de medidas drásticas para reduzir as emissões de CO₂.

    15. Há um ponto em que a situação não terá mais volta?

    Os chamados mecanismos de retroalimentação podem ser positivos (aumentam o ritmo do aquecimento) ou negativos (desacelerando o processo).

    Um dos exemplos mais fortes de retroalimentação positiva é a chamada “Amplificação Ártica”, que explica por que as temperaturas têm, em média, aumentado mais no Ártico do que no resto do planeta.

    O gelo reflete a luz do sol, mas ao derreter surge o oceano escuro, que absorve essa radiação, esquenta e faz com que mais gelo derreta.

    Tendo em vista esses mecanismos de retroalimentação, há o que se chama de “ponto sem retorno”, ou seja, as mudanças climáticas ultrapassam o nível limítrofe em que será muito mais difícil detê-las ou revertê-las.

    Em outras palavras, o processo se agravaria por sua própria dinâmica interna, independente das ações que possam ser tomadas para reduzir a emissão de gases do efeito estufa.

    Línea

    https://www.bbc.com/portuguese/geral-50019998

    Prof Luciano Mannarino

  • Demanda por combustíveis fósseis mostra fragilidade das energias renováveis

    Demanda por combustíveis fósseis mostra fragilidade das energias renováveis

    Transição energética é o maior desafio da humanidade, mas poucos compreendem os sacrifícios para chegarmos lá

    19.out.2021 às 21h3

    Em seu recente livro, “How to Avoid a Climate Disaster” (Como evitar o desastre climático), Bill Gates define o “ágio verde” (“green premium”) como a diferença de custo entre fazer algo (produto, serviço ou atividade) da maneira tradicional (com emissão de carbono) e fazer o mesmo de forma limpa, “verde”.

    Organismos multilaterais e governos de países desenvolvidos têm forçado as empresas a implementar uma transição rápida para o mundo verde. Do lado privado, a mudança no comportamento do consumidor de países ricos e o ESG também contribuem na mesma direção.

    A transição energética – cuja meta é alcançar zero emissões líquidas em 2050–, é o maior desafio que a humanidade já teve, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). Poucos, no entanto, compreendem a magnitude dos sacrifícios necessários para chegarmos lá.

    Operações de extração de petróleo em Midland, nos Estados Unidos – Nick Oxford – 11.mai..2021/Reuters

    O ágio verde ainda é muito alto, e o encarecimento dos produtos frequentemente os torna inacessíveis para a população de mais baixa renda. A fabricação de aço mais limpo custa 30% mais caro, e o querosene de aviação mais limpo custa mais que o dobro que o tradicional.

    Os ambientalistas argumentam que este é um preço baixo a pagar para salvar a humanidade da catástrofe das mudanças climáticas. Mas não são os ambientalistas da ONU que pagam este “imposto verde”. Ao contrário dos pobres no Brasil e em países subdesenvolvidos, a população de países ricos pode se dar ao luxo de pagar mais caro.

    Neste ano, a volta à normalidade econômica em um cenário ainda com rupturas das cadeias de suprimento por conta da pandemia revelou a fragilidade da transição: irrompeu uma crise energética global. A crise elevou os preços do carvão, gás natural e petróleo, que por sua vez encarecem quase todos os produtos e aumentam o ágio verde. É o greenflation (inflação dos produtos verdes).

    A China tem sofrido com cortes de energia elétrica e racionamento; quase 150 mil empresas em Guangdong sofreram cortes em setembro. O crescimento econômico chinês, pujante no primeiro semestre, desacelerou significativamente neste terceiro trimestre, para 4,9%.

    A Europa está sob ameaça de apagões e diminuição de produção, em particular com a chegada do inverno. A crise hídrica no Brasil está conectada com a escassez de energia na Europa e Ásia. O Brasil tem importado uma quantidade recorde de gás natural liquefeito, contribuindo com a alta de preços internacionais e a alta nas tarifas de energia por aqui. Ironicamente, o mundo está no momento dependendo de mais combustíveis fósseis.

    A Aneel estipula três níveis de tarifas, conforme a produção de energia nas hidrelétricas do país. Os patamares de tarifa são denominados por cores: verde, amarelo e vermelho (que é dividido em nível 1 e 2)
    Aneel estipula três níveis de tarifas, conforme a produção de energia nas hidrelétricas do país. Os patamares de tarifa são denominados po Lucas Lacaz Ruiz/Folhapress

    Porém, a despeito dos aumentos de preços dos combustíveis fósseis, não há aumento correspondente na sua produção. Nos últimos dez anos, os investimentos em exploração e produção das maiores petroleiras caíram à metade e migraram para a transição para energia renovável.



    As energias solar e eólica são intermitentes e difíceis de armazenar. E são muito deficientes em uma métrica importante: o EROI (uma comparação entre energia economizada e energia utilizada). Por exemplo, é preciso muito alumínio, cobre e outros metais –que consomem muita energia em sua fabricação– para fabricar turbinas eólicas e painéis solares.

    Está claro que a transição rápida para a economia de baixo carbono será conturbada e pode não ocorrer no prazo almejado pelos organismos multilaterais. Quando se mexe na matriz energética, algo complexo e interdependente, de cima pra baixo, de forma brusca, aumenta o risco e a fragilidade do sistema. Isso ficou explicitado pela crise global. Enquanto não se superam os imensos desafios tecnológicos para energia renovável acessível, uma solução pode ser a energia nuclear.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helio-beltrao/2021/10/demanda-por-combustiveis-fosseis-mostra-fragilidade-das-energias-renovaveis.shtml

    Questões

    1 Quais são as críticas as fontes solar e eólica presente na reportagem?

    2 O que se entende como “ágio verde”?

    3 Por que a “transição energética” é o maior desafio que a humanidade tem diante de si?

    Energia insustentável

    Energia nuclear pode ser aliada contra a mudança climática?

    CLIMA E FATORES DO CLIMA (vídeo e atividades)

    Prof Luciano Mannarino

  • Com secas e degradação, Caatinga perdeu 40% de água original em 35 anos (EF07GE11)

    Com secas e degradação, Caatinga perdeu 40% de água original em 35 anos (EF07GE11)

    EF07GE11

    Caracterizar dinâmicas dos componentes físico-naturais no território nacional,
    bem como sua distribuição e biodiversidade (Florestas Tropicais, Cerrados, Caatingas, Campos
    Sulinos e Matas de Araucária).

    Carlos Madeiro Colaboração para o UOL, em Maceió

    07/10/2021 04h00

    O avanço da degradação ambiental, somado a um período de estiagens severas, levou o bioma da Caatinga a perder 40% de sua água de origem natural entre 1985 e 2020. O dado consta no estudo “Mapeamento Anual de Cobertura e Uso da Terra na Caatinga”, do projeto MapBiomas. Ao todo, foram 79 mil hectares de superfície de água a menos nesses 35 anos, o que equivale a uma área de 96 mil campos de futebol oficiais.

    Carro-pipa capta água em rio em Santa Bárbara (BA)  - Fernando Vivas - 21.out.2016/Folhapress
    Com secas e degradação, Caatinga perdeu 40% de água original em 35 anos Carro-pipa capta água em rio em Santa Bárbara (BA) Imagem: Fernando Vivas – 21.out.2016/Folhapress

    A água natural de um bioma se constitui, especialmente, pelas bacias de rios e açudes já existentes na região. A redução de água no bioma foi compensada, em partes, pela construção de fontes artificiais, como os reservatórios de hidrelétricas. Somando todas as formas encontrada na superfície, o estudo apontou para 922 mil hectares de extensão média da água mapeada em 2020 (menos 8,27% no período de 35 anos).

    Onde está a água de superfície na Caatinga:

    Hidrelétricas – 304.994 hectares (42,7% do total)

    Reservatórios – 211.556 hectares (29,6%)

    Natural – 196.365 hectares (27,5%)

    Mineração – 1.584 hectares (0,2%)

    Caatinga é um bioma que ocupa 844 mil km² do Nordeste e do norte de Minas Gerais, cobrindo 10,1% do território brasileiro. Nele, moram 27 milhões de brasileiros em 1.210 cidades —entre elas, uma capital: Fortaleza. Segundo Washington Franca Rocha, coordenador da equipe de Caatinga do MapBiomas, a perda natural só não causou maiores estragos porque houve uma série de ações públicas recentes. “A gente verificou que, a partir de 2004, houve um investimento em construção de açudes, reservatórios, em infraestrutura hídrica para se armazenar água. Não tivemos uma crise hídrica mais grave por conta dessas ações”, afirma.

    Menos vegetação, menos água.

    A perda de água tem relação direta com a perda de cobertura vegetal. A área remanescente de vegetação nativa, entre 1985 e 2020, por exemplo, caiu 10%. Dos dez municípios que mais perderam essa vegetação natural no período, oito ficam na Bahia.

    Mapa de áreas degradas cresceu em 35 anos - Reprodução/MapBiomas - Reprodução/MapBiomas
    Mapa de áreas degradadas cresceu em 35 anos Imagem: Reprodução/MapBiomas Nesses 35 anos, foram ao menos 15 milhões de hectares de vegetação primária suprimidas

    “O que sustenta o bioma é a vegetação que retém água, não permitindo que ela, de forma acentuada, vá parar no oceano. Se você tira essa cobertura vegetal de forma acelerada, o que vai acontecer é que áreas mais expostas, sem cobertura, tendem a ficar secas”, explica.

    Isso acende um alerta a essas ameaças ao bioma. Reforça a condição de que o bioma está se tornando ainda mais seco. Tivemos uma redução contínua, não cíclica, como a gente consegue mostrar em um período de 35 anos. Algo está acontecendo na região que está se sobrepondo e causando a perda de água.Washington Franca Rocha, do MapBiomas Segundo Rodrigo Vasconcelos, da UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana) e da equipe do MapBiomas Caatinga, a queda começou a se acentuar a partir de 2009. “Hoje, uma minoria [da água superficial] é natural, o que indica a necessidade de novas —e manutenção das atuais— políticas públicas para dar sustentabilidades a estados e municípios”, afirma. O que fica claro, ao longo da série temporal, é que o bioma vem apresentando uma perda de água. Isso merece destaque quando avaliamos que essa redução ocorre em todas as bacias. Há uma forte tendência de diminuição em termos de área mapeada. Rodrigo Vasconcelos, da UEFS e do MapBiomas.

    Rio São Francisco “seca”

    Em 35 anos, o maior reservatório do Nordeste: o rio São Francisco, perdeu 30.679 hectares de superfície com água —o que corresponde a 4,16% do volume total. O pesquisador Humberto Barbosa, coordenador do Lapis (Laboratório de Processamento de Imagens de Satélite), da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), publicou um artigo –junto com outros pesquisadores, em 23 de setembro– em que aponta a degradação ambiental acelerando e causando danos na bacia.

    “Nos últimos anos, toda aquela área do São Francisco vem enfrentando degradação, com a mudança no uso e ocupação do solo, que inclui a conversão de terras para a agricultura, em detrimento da vegetação nativa. Os períodos secos são relativamente comuns no rio São Francisco, mas há uma crescente preocupação sobre a capacidade de esse rio responder a esses eventos de secas”, conta. 2019:

    Sertania - Leo Caldas/Folhapress - Leo Caldas/Folhapress
    Agricultores de Sertânia (PE) buscam água ao lado de canal seco da transposição do São Francisco Imagem: Leo Caldas/Folhapress

    Barbosa diz que isso ocorre em razão da tendência das secas se tornarem mais frequentes e extremas, devido aos efeitos da mudança climática. O semiárido brasileiro é a região do Brasil mais afetada pela mudança climática. Simulações de modelos climáticos indicam possibilidade de redução de cerca de 40% das chuvas na região ainda neste século. A região já conta com 13% do seu território em processo de desertificação. Humberto Barbosa, Lapis/Ufal Segundo ele, as grandes secas que afetaram o rio São Francisco estiveram historicamente mais concentradas na região do Baixo São Francisco (entre Alagoas e Sergipe). “Mas, de acordo com a nossa pesquisa, há sinais de condições crescentes de seca nas demais áreas da bacia, como é o caso do Alto e Médio São Francisco”, explica, lembrando que, nessas áreas, estão localizadas as usinas hidrelétricas de Três Marias (MG), Sobradinho (BA) e Luiz Gonzaga (PE), além de importantes áreas agrícolas”, revela.

    Vista de satélite da barragem de Sobradinho (BA): perdas afetam o rio São Francisco - Planet Scope/Lapis/Ufal - Planet Scope/Lapis/Ufal
    Vista de satélite da barragem de Sobradinho (BA): perdas afetam o rio São Francisco Imagem: Planet Scope/Lapis/Ufa

    Com a maior escassez de água, Barbosa ainda aponta para uma tendência de acirramento nas disputas pelo seu uso. “A avaliação dos impactos de eventos intensos de seca na bacia do rio São Francisco é fundamental para desenvolver estratégias adequadas de adaptação e mitigação desses conflitos”, pontua.

    https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2021/10/07/com-secas-e-degradacao-caatinga-perdeu-40-de-agua-original-em-35-anos.htm

    Questões.

    Prof Luciano Mannarino

    Vegetação

    Domínio Caatinga

    Crise do Clima “Nordeste”

  • NATURE: O gelo do mar Ártico atinge o mínimo de 2021

    NATURE: O gelo do mar Ártico atinge o mínimo de 2021

    A cobertura mínima de gelo neste verão foi a décima segunda menor de todos os tempos – e os cientistas alertam que a tendência de longo prazo de encolhimento continua.

    Tosin Thompson

    Um urso polar está em blocos de gelo no Canal Britânico, no arquipélago de Franz Josef Land, em 16 de agosto de 2021.
    Animais do Ártico, como os ursos polares, dependem do gelo marinho. Embora a extensão mínima anual deste ano tenha sido relativamente alta, a cobertura de gelo está diminuindo com o aumento das temperaturas globais. Crédito: Ekaterina Anismova / AFP via Getty

    O gelo marinho do Ártico ultrapassou sua extensão mínima neste ano, diminuindo para 4,72 milhões de quilômetros quadrados em 16 de setembro, informou o Centro Nacional de Dados sobre Neve e Gelo (NSIDC) dos Estados Unidos.

    Devido a um verão ártico frio e nublado, o mínimo anual deste ano foi o mais alto desde 2014 – o gelo cobriu quase 1 milhão de quilômetros quadrados a mais do que a extensão do ano passado de 3,82 milhões de quilômetros quadrados, que foi o segundo menor já observado (consulte ‘Cobertura de gelo ‘). Mas ainda é a décima segunda menor extensão de gelo marinho em quase 43 anos de registros de satélite, e os cientistas dizem que a tendência de longo prazo é para uma cobertura de gelo mais baixa.

    “Mesmo com o aquecimento global e a tendência geral de queda no gelo marinho, ainda há variabilidade natural”, diz Walt Meier, um cientista pesquisador sênior do NSIDC, que trabalha na Universidade do Colorado em Boulder.

    COBERTURA DE GELO.  O gráfico que mostra a extensão mínima do gelo marinho do Ártico está diminuindo em cerca de 13% por década.
    Fonte: NSIDC

    A extensão mínima do gelo marinho do Ártico está diminuindo a uma taxa de 13,1% por década. “Incluindo este ano, os últimos 15 anos tiveram as 15 extensões árticas mínimas mais baixas já registradas”, diz Meier. A menor extensão mínima já registrada foi estabelecida em 2012, depois que uma tempestade muito forte acelerou a perda de gelo fino que já estava à beira do derretimento.

    “A média de todos os anos está diminuindo constantemente, enquanto a temperatura média global está aumentando”, diz Steven Amstrup, cientista-chefe da Polar Bears International em Bozeman, Montana. Ele acrescenta que, embora possa haver maior extensão de gelo marinho em um determinado ano, a frequência de anos de gelo “ruim” com uma extensão mínima de gelo marinho está aumentando. “Melhores anos de gelo são cada vez mais anômalos na tendência de longo prazo”, diz Amstrup.

    Um verão fresco

    As regiões árticas experimentaram uma temporada de verão mais fria e nublada do que o normal neste ano, o que foi parcialmente causado por padrões de baixa pressão atmosférica no hemisfério norte. Arctic 2.0: O que acontecerá depois que todo o gelo desaparecer?

    Em junho e julho, a fraca pressão baixa no Ártico central impediu que ventos mais quentes do sul fossem atraídos para a área. Isso manteve o ar frio e impediu que parte do gelo derretesse. A baixa pressão também causa a formação de nuvens, que bloqueiam a luz solar. Isso pode retardar ainda mais o derretimento.

    Em agosto, o sistema de baixa pressão mudou para o norte dos mares Beaufort e Chukchi, no Alasca, produzindo temperaturas do ar de 2 a 3 ° C abaixo da média. E os ventos de inverno do ano passado empurraram gelo mais velho e mais espesso em ambos os mares. “Então, no início do verão, o gelo estava mais espesso do que nos últimos anos, e isso o tornou um pouco mais resistente”, diz Meier. “No entanto, também é provável que haja um aspecto da mudança climática”, acrescenta. “Em geral, há menos gelo antigo e a cobertura de gelo é mais fina. Gelo mais fino é mais facilmente empurrado pelos ventos e correntes ”.

    Um aumento transitório no gelo marinho pode criar melhores condições para as espécies que usam o gelo para caçar, diz Amstrup. “Mas é essa tendência descendente do mar de gelo, causada por uma frequência crescente de anos de gelo ruim, que determina o destino final dos ursos polares e de outros animais selvagens dependentes do gelo marinho.”

    https://doi.org/10.1038/d41586-021-02649-6

    Tradutor automático

    Prof Luciano Mannarino

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