Categoria: Questão Ambiental

  • A maioria dos rios e riachos seca todos os anos

    A maioria dos rios e riachos seca todos os anos

    Um modelo dos rios e riachos do mundo foi desenvolvido para prever quais desses cursos d’água fluem durante todo o ano e quais secam. A análise mostra que os rios e riachos que secam são onipresentes em todo o mundo.

    Kristin L. Jaeger

    As águas correntes dos rios de superfície e riachos transportam com eficiência sedimentos, matéria orgânica e nutrientes, entre outras coisas, das encostas e áreas terrestres para lagos a jusante, reservatórios e o oceano. Ao longo do caminho, rios e riachos (doravante denominados coletivamente como riachos) fornecem recursos importantes para nossas comunidades e sustentam ecossistemas ricos e complexos. Riachos não perenes, que não fluem o ano todo, são cruciais neste contexto. 

    No entanto, como os riachos não perenes são fontes menos confiáveis ​​de água de superfície do que os perenes, eles são menos bem estudados do que seus correspondentes perenes. Escrevendo na Nature , Messager et al .  forneça uma estimativa muito necessária da proporção total da rede de stream do mundo, por extensão, que não é perene – e descubra que a maioria se enquadra nesta categoria.

    Messager e colegas combinaram dados de fluxo de rios de locais ao redor do mundo com informações que descrevem a hidrologia, clima, geografia física e cobertura da terra nesses locais, para modelar a probabilidade de que a água não flua por pelo menos um dia por ano. Eles então expandiram suas previsões para todos os segmentos de riachos registrados em um banco de dados de rede de riachos global (RiverATLAS) 

    Os autores relatam que 51-60% dos riachos do mundo não fluem por pelo menos um dia por ano, e que 44-53% do comprimento global do rio fica seco por pelo menos um mês (cerca de 30 dias) a cada ano. Sua modelagem mostra que riachos não perenes ocorrem em todos os climas e biomas em todos os continentes.  O modelo também mostra que 95% da rede de riachos em regiões quentes e secas – que representam 10% da massa terrestre global – seca a cada ano (Fig. 1). Surpreendentemente, até mesmo segmentos de grandes rios, como o rio Níger na África Ocidental, estão previstos para secar nessas regiões áridas. 

    A vasta prevalência de riachos não perenes em tais locais destaca como até mesmo riachos que não fluem continuamente afetam substancialmente a disponibilidade e a qualidade da água. Os resultados enfatizam a necessidade de mapas mais detalhados de fluxos perenes e não perenes em escalas regionais e locais, e de estudos adicionais de como os riachos não perenes afetam a disponibilidade e qualidade geral da água.

    Um canguru é visto no leito seco do rio Darling em 18 de fevereiro de 2020 em Louth, Austrália.
    Figura 1 | O seco Darling River em New South Wales, Austrália, fevereiro de 2020. A análise de Messager e colegas 1 mostra que a maioria dos rios e riachos secam por pelo menos um dia por ano, incluindo seções dos principais rios em regiões áridas. Crédito: Mark Evans / Getty

    Pequenos riachos de cabeceira (aqueles que não têm afluentes) representam 70–80% do comprimento do rio em todo o mundo, semelhante à maneira como o comprimento coletivo dos dedos de uma pessoa é muito maior do que o comprimento da palma da mão. O modelo de Messager e colegas de trabalho prevê que, mesmo nas regiões mais úmidas, como a bacia do rio Amazonas e partes da África central e sudeste da Ásia, até 35% desses córregos das cabeceiras param de fluir em algum momento do ano. 

    No entanto, deve-se notar que os riachos de cabeceira são monitorados por relativamente poucos medidores de riacho, que tendem a estar localizados em rios perenes maiores a jusante. O modelo pode, portanto, fornecer estimativas altamente incertas para as regiões a montante das redes de fluxo.

    A falta de dados de fluxo de água é um problema comum para a modelagem de fluxos de cabeceira e, portanto, esforços de coleta de dados estão sendo implementados para preencher essa lacuna de conhecimento. Por exemplo, a França desenvolveu a rede Observatoire National des Étiages (ONDE), que complementa a rede de medição de fluxo nacional, mas se concentra em fluxos de cabeceira. No entanto, esses programas são caros e requerem um investimento considerável de recursos. Os rios europeus estão fragmentados por muito mais barreiras do que o registrado

    Medidores de fluxo também são escassos para fluxos não perenes em geral. Na análise de Messager e colegas, por exemplo, não havia medidores em riachos não perenes na Argentina; apenas um na Nova Zelândia; e 10 no Noroeste do Pacífico dos Estados Unidos, em uma rede de 250 medidores. Para melhorar os modelos que mapeiam fluxos perenes e não perenes, observações de campo de baixo custo serão necessárias, juntamente com o desenvolvimento de tecnologia de sensoriamento remoto de alta resolução que detecta frequentemente – ou pelo menos prevê – o fluxo de superfície em fluxos.

    A análise de Messager e colegas de trabalho fornece uma confirmação quantitativa robusta da onipresença dos rios não perenes. Seus resultados indicam a necessidade de uma mudança fundamental nos campos de ciência e gestão de rios e riachos, nos quais riachos não perenes foram amplamente negligenciados. Em regiões áridas, a predominância de riachos não perenes pode ser um grande impulsionador da disponibilidade e qualidade da água. 

    E em áreas onde os serviços desenvolvidos por humanos não estão prontamente disponíveis, os serviços ecossistêmicos, como água corrente em riachos, são usados ​​para atender às necessidades básicas e irão, em parte, determinar o bem-estar e a prosperidade das pessoas nessa área. As novas descobertas, portanto, apontam para a necessidade de contabilidade global de ambos os riachos perenes e não perenes.

    Além disso, mudanças na distribuição dos riachos podem ter impactos de longo alcance nos ciclos do carbono e biogeoquímicos em escalas globais e continentais, e na sobrevivência de organismos que vivem nos riachos, incluindo muitas espécies ameaçadas de extinção. Uma referência global da prevalência de riachos perenes e não perenes é, portanto, crucial para avaliar os efeitos de futuras mudanças em sua distribuição associadas às mudanças climáticas e do uso da terra. Finalmente, modelos regionais e locais de riachos são necessários, bem como melhores dados para cabeceiras e porções não perenes da rede de riachos, para aumentar ainda mais o valor dos modelos globais.

    Nature 594 , 335-336 (2021)

    https://www.nature.com/articles/d41586-021-01528-4

    Um texto da renomada Nature

    Prof Luciano Mannarino

    O que é uma Bacia Hidrográfica?

    Em Tocantins, ‘caixa-d’água do Brasil’, desmate ameaça rios

    Bacia do Paraná já sente efeitos da seca sobre agronegócio e geração de energia

  • Bacia do Paraná já sente efeitos da seca sobre agronegócio e geração de energia

    Bacia do Paraná já sente efeitos da seca sobre agronegócio e geração de energia

    Disputa com setor elétrico pode parar hidrovia e acentuar conflitos com usuários da água para produção de alimentos

    6.jun.2021 às 23h15Atualizado: 7.jun.2021 às 9h26

    Nicola Pamplona Eduardo Anizelli

    TURAMA (MG), APARECIDA DO TABOADO (MS) e ILHA SOLTEIRA (SP)

    De pé sobre a terra avermelhada que um dia foi o lago da hidrelétrica Água Vermelha, na divisa de São Paulo com Minas Gerais, o aposentado José Carlos Jesus, 57, dá a dimensão da crise: “Aqui onde nós estamos nem dá pé quando o reservatório está cheio”.

    Cerca de cem metros o separam de seu rancho, onde ele vive hoje “escondido da pandemia”. A casa simples foi construída à beira da represa, mas o lago agora começa bem mais abaixo, o que o obrigou a esticar uma mangueira de 250 metros para captar água.

    Com apenas 7,7% de sua capacidade de armazenamento de energia, o reservatório da usina de Água Vermelha é um retrato da crise hídrica que assusta o país e vem levando o governo a anunciar medidas emergenciais para tentar evitar o racionamento de energia.

    Baixo nível do reservatório deixa à mostra antiga estrada submersa pela hidrelétrica Água Vermelha, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais. Folhapress

    Em um de seus braços, o ribeirão Pádua Diniz, em Indiaporã (SP), a água desceu tanto que deixou à mostra a velha estrada de terra alagada há mais de 40 anos, quando o reservatório foi criado. Resta apenas uma pequena lagoa, formada pelas poucas chuvas do verão, embaixo da ponte da estrada nova.

    “Já vim aqui de barco e, só ali embaixo da ponte, pegamos mais de 100 corvinas”, relembra a funcionária pública Aparecida Batista dos Reis, 53, enquanto tentava pescar no que restou do ribeirão na tarde de quarta (2).

    A situação é mais preocupante pela manutenção dos baixos níveis mesmo após o fim do chamado período chuvoso, quando os reservatórios deveriam estar cheios de água para garantir a travessia do inverno mais seco.

    E traz de volta o fantasma de 2015, quando a seca foi tão severa que o tráfego na hidrovia Tietê-Paraná teve que ser interrompido por falta de calado para a passagem dos comboios que levam grãos do Centro-Oeste para São Paulo.

    “Nem em 2015 o rio esteve assim”, reclama o empresário Jonzelito Luiz Pereira, 59, dono de uma fazenda e de uma pousada ao lado da barragem, em Iturama (MG). “Os poços [de água subterrânea] já estão secando. Era para começar a secar em outubro.”

    Água Vermelha é a última das 12 hidrelétricas do rio Grande, que nasce na serra da Mantiqueira e forma o rio Paraná após se juntar com o rio Paranaíba, na divisa entre São Paulo e Mato Grosso do Sul.

    Juntos, os três rios são responsáveis por dois terços da capacidade de armazenamento de energia do subsistema energético Sudeste/Centro-Oeste, considerado a principal caixa-d’água do setor elétrico brasileiro por concentrar represas de usinas importantes.

    Assim, a região está no foco do esforço do governo para tentar evitar o racionamento. Na semana passada, a ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento) declarou emergência hídrica na bacia, abrindo a porta para medidas mais drásticas, como limitar a captação de água nos rios.

    A abundância de água faz da região um importante polo do agronegócio, com fazendas de gado e cana-de-açúcar se estendendo até onde a vista alcança, e uma forte produção piscicultora, apontada como segunda maior criadoura de tilápias do Brasil.

    A seca já vem produzindo estragos na atividade local, com o atraso na colheita de cana e a piora nas condições dos pastos. Os produtores temem que a disputa com o setor elétrico inviabilize os negócios, o que deve acirrar conflitos pelo uso da água nos próximos meses.

    “Se eu tiver que parar de irrigar, perco toda a produção”, diz Edvaldo Costa Mello, proprietário da Fazenda Costa Mello, produtora de cítricos que tem uma área de plantio de limões logo abaixo da barragem de Água Vermelha.

    A sua propriedade fica às margens do rio Grande, mas já no reservatório da hidrelétrica Ilha Solteira, no rio Paraná. É a maior hidrelétrica da caixa-d’água, com capacidade para produzir 3.444 MW, e seu lago se estende para os dois rios que formam o Paraná.

    O reservatório é usado pela hidrovia Tietê-Paraná. Por isso, há um esforço contínuo para manter um volume de água suficiente para permitir a passagem dos comboios, que dependem de uma cota mínima de 325 metros acima do nível do mar, volume observado hoje.

    Mesmo assim, o gigantesco lago de 1.200 quilômetros quadrados (quase o tamanho da cidade de São Paulo) está agora com menos da metade de sua capacidade de armazenamento. Já é possível encontrar grandes áreas secas em alguns de seus braços, como o córrego do Cigano, em Três Fronteiras (SP).

    O presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Paranaíba, Breno Esteves Lasmar, defende que a importância da região para a economia e a possibilidade de paralisação da hidrovia devem ser consideradas na gestão dos reservatórios. “[A redução do nível] vai ter impacto muito grande sobre toda a economia nacional.”

    O impacto local sobre a geração de emprego e renda também pode ser considerável, diz Fernando Carmo, assistente agropecuário da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável da Secretaria de Agricultura de São Paulo.

    O governo estadual calcula que a piscicultura no entorno do lago de Ilha Solteira gere cerca de 5.000 empregos diretos e indiretos. A hidrovia seria responsável por outros três mil empregos, que ficaram suspensos durante a paralisação de 2015.

    A crise hídrica pega os produtores locais já enfrentando aumento de custos pela escalada nas cotações internacionais das commodities, já que rações são baseadas em soja e milho. Pereira, de Iturama, decidiu vender metade das 120 cabeças de gado que tinha para economizar na ração.

    “Há um complicador na manutenção dos pastos para o gado”, diz o presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Aparecida do Taboado (MS), Eduardo Sanchez. “A planta sofre estresse hídrico, tem que fazer um trabalho mais custoso, de tratar o gado no coxo.”

    Na piscicultura, que chegou a fechar 40% das unidades na crise de 2015, os custos elevados podem inviabilizar investimentos para adaptação a níveis mais baixos do lago, diz Carmo. “O custo da ração está altíssimo, e muita gente pode parar de produzir por não ter como investir para deslocar os tanques.”

    “Se baixar mais, vai dar problema”, confirma Akemi More, da Piscicultura More, uma pequena empresa familiar que produz em espelho-d’água cedido pela União no rio Paranaíba. “O rio já está como se fosse na seca”, reforça seu irmão e sócio Sandro More. Com a crise, venderam na semana passada 15 dos 93 tanques que tinham.

    Nível de água baixo no lago da hidrelétrica Água Vermelha, em Iturama, interior do estado de Minas Gerais.
    Nível de água baixo no lago da hidrelétrica Água Vermelha, em Iturama, interior do estado de Minas Gerais. Eduardo Anizelli/Folhapress

    Os produtores locais confiam na manutenção da cota mínima para garantir o tráfego na hidrovia, mas na semana passada o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) divulgou relatório considerando a flexibilização para 319 metros em junho para reforçar a recuperação dos reservatórios.

    O operador quer reduzir as vazões obrigatórias nas hidrelétricas das partes altas dos rios Grande e Paranaíba para segurar água nos reservatórios de cabeceira. A energia gerada pelas vazões mínimas pode ser substituída agora por usinas eólicas no Nordeste, que está em plena estação de ventos.

    Em 2014, a redução da cota do reservatório de Ilha Solteira se transformou em uma guerra judicial, que culminou com a suspensão da geração de energia na hidrelétrica após liminar concedida a associações de piscicultores da região.

    Hoje, os produtores confiam que a proximidade do setor com o governo federal pode ajudar a evitar maiores impactos, diz Assis Henrique, diretor administrativo da Global Peixes, que produz tilápias e tem uma unidade de reprodução em tanques em diferentes pontos do lago.

    Especialistas no setor elétrico dizem entender a preocupação com a economia local, mas afirmam que os bilionários custos da crise energética que encarecem a conta de todos os brasileiros são relevantes no debate sobre a gestão das águas.

    A expectativa é que o brasileiro passe 2021 pagando taxa extra para bancar as usinas térmicas, que pressionarão também os reajustes das tarifas das distribuidoras ao longo dos próximos anos. Um racionamento de energia, no momento, é considerado improvável.

    É consenso entre os especialistas que a crise é estrutural e precisa de soluções de longo prazo. “São questões como mudança da ocupação do solo, mudança climática, aspectos de desenvolvimento econômico que levam à supressão de vegetação”, diz Lasmar. “Onde não há floresta, não há água.”

    Segundo o Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), a bacia do rio Paraná vem enfrentando chuvas abaixo da média há 22 anos e a situação se agravou a partir de fevereiro de 2019, quando recebeu os piores volumes desde o início dos anos 1980.

    “Em termos de vazão, pode-se concluir que a porção alta da bacia do rio Paraná enfrenta uma situação que pode ser classificada como severa e excepcional desde 2014” diz.

    Roberto Kishinami, coordenador sênior do Instituto Clima e Sociedade, defende que o agronegócio da região deve buscar tecnologias mais eficientes de irrigação, como o gotejamento usado no Centro-Oeste. “Aqui [em São Paulo] se usa muito pivô central, que é como jogar água de mangueira.”

    No Brasil, em média, 50% da água captada nos rios brasileiros é usada para irrigação, diz a ANA. Um aumento na tarifa de captação de água, que é regulada pelos estados, poderia levar à busca por maior eficiência, considera Kishinami.

    O ex-presidente do ONS Luiz Eduardo Barata lembra que, a cada crise hídrica, autoridades falam em recuperação de mananciais e matas ciliares, as florestas às margens dos rios, mas as propostas raramente vão adiante.

    Ele defende mudanças no modelo do setor elétrico para permitir a contratação de mais energias renováveis, como solar e eólica, para garantir a recuperação dos reservatórios a seus níveis máximos, o que não ocorre há muito tempo —a última vez em que eles superaram os 80% de capacidade foi em abril de 2011.

    “Hoje, estamos enchendo o tanque até a metade e rodando até cair na reserva”, compara. “Mas seria melhor andar de tanque cheio e abastecer quando chega na metade. O custo é o mesmo e o risco, menor.”

    https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2021/06/bacia-do-parana-ja-sente-efeitos-da-seca-sobre-agronegocio-e-geracao-de-energia.shtml

    Questões

    1 Em que contexto político foi criado a ANA e quais são suas funções?

    2 Qual a importância das matas ciliares para a manutenção da vazão de um rio?

    3 Aponte os diversos usos de um rio presentes no texto jornalístico.

    4 Por que a Bacia do Rio Paraná apresenta um grande potencial instalado na produção de energia hidrelétrica?

    5 Explique como se obtém energia elétrica a partir de um rio.

    6 Quais são os impactos socio-ambientais ligados a produção de energia hidrelétrica.

    7 O que é uma Bacia Hidrográfica?

    Prof Luciano Mannarino

  • Novos estudos analisam destruição da camada de ozônio e seu impacto na saúde humana

    Novos estudos analisam destruição da camada de ozônio e seu impacto na saúde humana

    Pesquisas na Nature mostram redução na produção de CFCs, e estudo brasileiro aponta que a camada mais fina aumenta danos no DNA

    10.fev.2021 às 13h08Atualizado: 10.fev.2021 às 16h06

    Gabriel Alves

    SÃO PAULO

    Camada de ozônio não é um dos tópicos ambientais mais comentados hoje em dia, mas isso não significa que ela tenha sido esquecida ou que esteja tudo bem, pelo contrário. Cientistas ainda se esforçam para dimensionar o prejuízo provocado pela ação humana.

    Dois artigos publicados nesta quarta (10) na revista Nature, inclusive, apontam o declínio na produção de moléculas responsáveis pela destruição da camada de ozônio, como o triclorofluorometano, também conhecido como CFC-11, usado no processo de fabricação de espumas.

    Apenas entre 2018 e 2019, a redução nas emissões foi de 18 mil toneladas, o que representava 26% do total. A medida, feita por meio da análise de gases da atmosfera, foi aferida em locais remotos, distantes de grandes centros poluidores.

    A conclusão do trabalho, comandado por cientistas da Noaa (agência americana responsável pelo monitoramento atmosférico e oceânico) e de outras instituições, é que o rápido declínio só foi possível porque deve haver uma grande produção de CFC-11 não reportada e consequente emissão desses gases.

    A esperança é que, se mantido o declínio das emissões, e a produção irregular não aumentar, a agressão à camada de ozônio pode estacionar, favorecendo sua regeneração.

    Uma outra análise, publicada na mesma edição mostra uma redução importante na produção do CFC-11 na porção leste da China. O estudo contou com medidas feitas na própria China, no Japão e na Coreia do Sul, além de análise da dinâmica atmosférica do continente asiático.

    A diminuição foi de cerca de 10 mil toneladas ao ano, entre 2014 e 2017, chegando a 5.000 toneladas em 2019. Essa redução equivale a 60% do declínio nas emissões globais dos poluentes no mesmo período.
    Apesar da estimativa de ainda existir um grande banco de CFC-11, ou seja, gás aprisionado em dutos e espumas, ainda não liberado para a atmosfera, os autores atribuem a melhora nas emissões às políticas do governo chinês e às ações da indústria do país. Desse trabalho participaram cientistas da Coreia do Sul, Reino Unido, Japão, Suíça, China, EUA e Austrália.

    Quanto ao impacto da destruição da camada de ozônio nas diversas formas de vida que habitam a Terra —a humana, inclusive —, o professor da USP Carlos Menck foi em uma expedição para a Antártida no final de 2017 para estudar como a perda da camada atinge o DNA. Só recentemente os resultados foram publicados na revista Photochemistry and Photobiology.

    O experimento consistia em expor uma espécie de cápsula gelatinosa contendo DNA ao sol no continente gelado, enquanto outra cápsula, a controle, era protegida com uma folha de papel alumínio. Esse gel é chamado de “dosímetro de lesões de DNA” e permite que experimentos aconteçam fora do laboratório.

    Pode parecer simples, mas houve desafios no processo, além do clima gelado.

    O buraco na camada de ozônio na Antártica no ano 2000
    O buraco na camada de ozônio na Antártida no ano 2000 – Nasa

    Um deles foram as skuas, aves migratórias que costumam passear nos arredores da Estação Antártica Comandante Ferraz, a base brasileira no continente. “São como galinhas grandes, mas elas voam”, diz Menck. E o problema é que elas tentaram roubar o material dos experimentos do cientista. “Tentei pregar com fita crepe numa pedra, mas não se passaram nem 15 minutos e lá estava a skua de novo.”

    Aconselhado por um colega, bolou uma engenhoca: adaptou o dosímetro em cima de um rodo que encontrou dando sopa na base brasileira. Fincou o cabo na neve e usou a parte de baixo como suporte.

    Oficialmente, no artigo científico, trata-se de um “tilted support”, ou suporte angulado, que até facilitou a tarefa, já que para acompanhar o sol bastava girar o aparato.

    O ozônio é um gás altamente instável, formado por três átomos de oxigênio (o oxigênio molecular, que respiramos, é composto de dois átomos) localizado principalmente na estratosfera, numa altitude de cerca de 15 km ou maior.

    Esse ozônio forma uma espécie de nuvem dispersa, que tem por característica evitar a incidência de raios ultravioleta, especialmente do tipo C, os mais intensos, e também do B na superfície terrestre. Curiosamente, se aglutinados, esses átomos formariam uma camada de apenas cerca de 3 mm (ou 300 DU, unidades Dobson), o que revela a tal fragilidade.

    (Também existe ozônio na troposfera, a camada da atmosfera na qual estamos imersos, mas aí ela está associada principalmente à poluição nas grandes cidades, e causa prejuízos à saúde.

    Durante a primavera antártica, a camada de ozônio pode chegar ao que seria equivalente a menos de 1 mm (100 DU). Quando o valor está abaixo de 220 UD (o equivalente a 2,2 mm), já se considera que há um buraco. E quem fica abaixo do buraco pode sofrer com a severidade da radiação solar.

    “Mesmo sem o buraco, havia uma irradiação muito forte. E nossos experimentos já mostraram uma correlação entre a espessura da camada de ozônio e lesões no DNA, especialmente pela ação de ultravioleta do tipo B [que deixa de ser bloqueado pela camada]”, conta Menck.

    Lesões e mutações no DNA estão entre os principais fatores para a ocorrência de cânceres. Em última análise, a vida terrestre poderia ser extinta sem a proteção fornecida pela camada de ozônio.

    Em 20 de setembro de 2020, o buraco chegou ao tamanho de 25 milhões de quilômetros quadrados, quase o dobro da área de todo o continente antártico e maior até mesmo que a área da Rússia, o maior país em extensão territorial, segundo dados da Nasa.

    Desde as negociações que levaram os países a assinar o Protocolo de Montreal, no final da década de 1980, foram reduzidas as emissões dos chamados CFCs (clorofluorcarbonos), gases usando em aplicações como refrigeração e em aerossóis e que aceleram a degradação do ozônio, e a camada estratosférica se estabilizou.

    A expectativa é que, se tudo der certo, a recuperação aos níveis anteriores a 1980 demore entre 60 a 100 anos, relata Paulo Artaxo, professor da USP e estudioso da física atmosférica.

    Desde meados da década passada, porém, houve uma desaceleração do progresso por causa de uma emissão remanescente de gases que destroem a camada de ozônio. Segundo pesquisadores do MIT e das Universidades de Sussex e do Estado do Colorado defendem em artigo publicado em 2020 na revista Nature Communications, apesar do sucesso obtido até então, é hora de atualizar as políticas de proteção à camada de ozônio, e não mais nos vangloriarmos de uma conquista do século passado.

    https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2021/02/novos-estudos-analisam-destruicao-da-camada-de-ozonio-e-seu-impacto-na-saude-humana.shtml

    Questões

    1 Caracterize as principais camadas da atmosfera.

    2 O que é a “camada” de ozônio?

    3 Qual a importância do ozônio para vida em nosso planeta?

    4 O que foi o Protocolo de Montreal? Analise seus desdobramentos.

    Antártica: O Continente dos Extremos

    Nova estação antártica brasileira será inaugurada oito anos após o incêndio (atividade)

    Prof Luciano Mannarino

  • Aquecimento profundo

    Aquecimento profundo

    Sensores instalados a até 4,7 mil metros abaixo da superfície registram aumento de temperatura em regiões abissais do Atlântico SulTrecho do Atlântico Sul próximo à Argentina (à esq.) e ao Uruguai (acima), onde foram feitas as medições

    Ricardo Zorzetto

    Edição 300 fev 2021

    Começam a surgir evidências robustas de que está em curso um fenômeno que oceanógrafos e estudiosos do clima temiam: o aquecimento das águas profundas dos oceanos. De 2009 a 2019, a temperatura em regiões abissais do Atlântico, situadas a mais de 4 mil metros (m) abaixo da superfície, tornou-se de 0,02 a 0,04 grau Celsius (°C) mais quente.

    Essa elevação sutil, mas extremamente relevante, foi registrada por um grupo internacional de pesquisadores e apresentada em um artigo publicado em setembro de 2020 na revista Geophysical Research Letters. Para os especialistas, uma das causas mais prováveis do aumento de temperatura dos mares, onde está armazenada 97% de toda a água do planeta, são as mudanças no clima decorrentes da emissão de gases de efeito estufa associada à atividade humana, que já tornaram a atmosfera cerca de 1 °C mais quente do que era em 1900.

    “Temos agora sinais consistentes de que a elevação da temperatura média da atmosfera está gerando reflexos nas profundezas dos oceanos”, afirma o oceanógrafo brasileiro Edmo Campos, da Universidade de São Paulo (USP), um dos autores do estudo, realizado em parceria com colaboradores da Administração Nacional Atmosférica e Oceânica (Noaa), dos Estados Unidos, e da Universidade de Buenos Aires, na Argentina. “Lentamente, eles estão esquentando”, diz Campos.

    No trabalho, os pesquisadores analisaram dados do que provavelmente é a mais longa série de medições contínuas já feitas em regiões abissais dos oceanos ao sul do equador. Durante pelo menos uma década, sensores localizados em quatro pontos no fundo do Atlântico registraram a temperatura da água de hora em hora. Instalados em 2009 em uma expedição feita com o navio hidroceanográfico Cruzeiro do Sul, da Marinha do Brasil, os equipamentos estão a profundidades que variam de 1.360 m a 4.757 m.

    Eles e outros instalados posteriormente, alguns deles com apoio da FAPESP, assentam-se a 1 m do assoalho oceânico ao longo do paralelo 34,5° Sul, linha imaginária que circunda o globo e passa próximo ao município do Chuí, no Rio Grande do Sul, e à Cidade do Cabo, na África do Sul. Entrevista: Edmo Campos00:00 / 22:10

    Os oceanógrafos consideram a coleta de dados ao longo desse paralelo fundamental para se conhecer como as alterações na temperatura da atmosfera afetam a zona abissal do Atlântico – essas mudanças de temperatura a grandes profundidades, por sua vez, podem provocar alterações drásticas no clima do planeta. É que, por essa latitude, a profundidades superiores a 4 mil m, passam as águas gélidas (com temperatura da ordem de 0,1 °C) provenientes da Antártida, que fluem para o norte e se espalham pelo fundo do oceano.

    Essas águas antárticas funcionam como um dos raros pontos de conexão direta entre a atmosfera e as partes mais profundas dos oceanos. Nas regiões tropicais do planeta, o ar é mais quente do que a água e transfere calor para as camadas mais superficiais dos mares (até mil m de profundidade). Próximo aos polos, porém, a situação se inverte: o ar é bem mais frio do que a água e extrai calor dela. Esse fenômeno ocorre, por exemplo, em uma região do oceano Austral chamada mar de Weddell, ao redor do qual estão instaladas várias estações de pesquisa antárticas – entre elas, a brasileira.

    As águas superficiais do mar de Weddell perdem calor para a atmosfera, tornam-se mais densas e afundam. Ao submergir, mergulham sob uma camada intermediária de águas relativamente mais quentes e avançam ao ritmo de algumas centenas de quilômetros por ano rumo ao hemisfério Norte. Como quase não há variação térmica a grandes profundidades, a temperatura medida próximo ao assoalho oceânico no paralelo 34,5° é praticamente a mesma da água que afundou na vizinhança da Antártida. O problema é que, com o aumento da temperatura média da atmosfera, o degelo nas regiões polares vem aumentando e a água parece estar submergindo ligeiramente mais quente.

    Em viagem realizada em 2016 com o navio Puerto Deseado, pesquisadores preparam sonda para ser ancorada no fundo do oceano-Alberto Piola / Universidade de Buenos Aires

    Um aumento de poucos centésimos na temperatura da água em regiões abissais pode parecer irrisório, mas não é. A água é uma das substâncias da natureza que exige maior quantidade de energia para se aquecer. “A energia necessária para promover um aumento de centésimos de grau na água no fundo do oceano provocaria uma elevação da ordem de graus na atmosfera”, conta o oceanógrafo. Além disso, as regiões profundas do Atlântico armazenam um volume de água gigantesco.

    “Essas pequenas alterações podem causar efeitos significativos na circulação global do oceano e, consequentemente, na forma como o calor é absorvido e redistribuído pelas diversas regiões do planeta”, explica Campos, que também é pesquisador na Universidade Americana de Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos, e foi um dos coautores do capítulo 3 do 5º Relatório de Avaliação do Clima do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas, apresentado em 2014.

    Havia tempos se suspeitava de que os oceanos estivessem aquecendo. Medições feitas nas últimas quatro décadas por instrumentos transportados por navios, capazes de registrar a temperatura ao longo de toda a coluna de água, ou, mais recentemente, aferições da temperatura das camadas mais superficiais dos mares feitas por satélites ou flotilhas de boias, já indicavam uma tendência de elevação. Esses dados, no entanto, geravam alguma desconfiança porque as medições nem sempre eram feitas nos mesmos pontos ou realizadas com intervalos de tempo suficientemente longos.

    “As medições infrequentes deixavam dúvida”, relata o oceanógrafo argentino Alberto Piola, da Universidade de Buenos Aires e do Serviço de Hidrografia Naval da Argentina, um dos coautores do estudo. “Os novos dados permitem confirmar que a tendência de aquecimento nesses 10 anos é robusta e semelhante à observada em levantamentos anteriores, sugerindo que se trata de uma resposta ao aquecimento global”, afirma.

    Para o meteorologista Pedro Leite da Silva Dias, diretor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, que não colaborou nessa pesquisa, as medições realizadas hora a hora no fundo do oceano eliminam a possibilidade de que a mudança de temperatura observada seja decorrente de uma amostragem inadequada, que poderia falsear os dados. “O aumento medido nesse estudo é compatível com o que se espera que o aquecimento global cause”, conta Dias, que participou da elaboração do 4º relatório de avaliação do IPCC, em 2007. “Se a causa fossem ciclos naturais de variação da temperatura, a magnitude da elevação seria menor”, explica.

    O mapa mostra a localização de sensores (círculos alaranjados) atualmente em funcionamento, instalados a diferentes profundidades e distâncias da costa

    O ritmo com que esse aumento de temperatura se manifestou nas regiões abissais do Atlântico chegou a surpreender alguns especialistas. O efeito do aquecimento global estava mais bem caracterizado nas camadas superficiais do oceano. Em um estudo publicado em julho de 2020 na revista Nature Climate Change, os oceanógrafos Gregory Johnson e John Lyman, ambos do Noaa, ao analisar dados obtidos desde 1968 por diferentes estratégias de observação, constataram que as águas superficiais de 53% a 79% dos oceanos apresentavam tendência de aumento de temperatura.

    “Com o trabalho da Geophysical Research Letters, fica registrado que esse aquecimento está atingindo o fundo do oceano e é um processo mais rápido do que se imaginava”, comenta o oceanógrafo José Henrique Muelbert, da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), especialista em interações entre organismos marinhos e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Mar Centro de Oceanografia Integrado (INCT-Mar COI). “Até então, essas regiões profundas do oceano eram consideradas muito estáveis.”

    Os pesquisadores afirmam que ainda é necessário mais tempo de observação contínua nas águas abissais do paralelo 34,5° Sul – e também em mais locais do Atlântico e em outros oceanos – para se caracterizar melhor esse aquecimento e confirmar se, de fato, ele é decorrente das mudanças climáticas associadas à ação humana. Mesmo assim, eles receiam que o aumento de temperatura das águas profundas possa produzir efeitos de curto e de longo prazo. “De imediato, haveria o risco de aumento no nível do mar, que pode ser pequeno, mas torna mais vulneráveis as populações vivendo em ilhas e áreas costeiras”, diz Piola. Ele também menciona que esse aquecimento pode afetar a reprodução de organismos marinhos, uma vez que ovos e larvas são muito mais sensíveis às condições do ambiente do que os indivíduos adultos.

    Mantido por longos períodos, o aquecimento poderia até ter impacto sobre o clima do planeta. Aquecidas pela radiação solar na região tropical, as águas superficiais do Atlântico transportam calor para o hemisfério Norte, aumentando a temperatura da atmosfera próximo ao Ártico e permitindo a ocorrência de um clima mais ameno na Europa – ao perder calor, essas águas submergem e retornam para o sul em uma camada intermediária, mais fria. “Caso o aquecimento do oceano enfraqueça essa circulação, após dezenas ou centenas de anos, poderia haver alterações drásticas no clima”, afirma Campos. Registros paleoclimáticos sugerem que essa circulação estava enfraquecida nas últimas glaciações, quando geleiras cobriram boa parte do hemisfério Norte do planeta.

    Prof Luciano Mannarino

  • Energia insustentável

    Energia insustentável

    POLÍTICAS PÚBLICAS 

    Para além do investimento financeiro, estudiosos veem no alto custo social e ambiental empecilho para expansão hidrelétrica na Amazônia

    Operário trabalha na construção de casa de força da hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira (PA), em 2013 Lalo de Almeida / Folhapress

    Domingos Zaparolli

    Edição 284
    out. 2019

    A Bacia Amazônica, que em território brasileiro ocupa 3,8 milhões de quilômetros quadrados em sete estados e responde por mais de 60% de toda a disponibilidade hídrica do país, é considerada a área com maior potencial para a expansão da geração hidrelétrica no Plano Nacional de Energia (PNE) elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia. Estudos recentes sobre os impactos socioambientais da construção de hidrelétricas na região e a capacidade de essas usinas gerarem os resultados pretendidos ao longo de sua vida útil, porém, sugerem cautela.

    “As hidrelétricas amazônicas só são economicamente competitivas com outras fontes de energia se não são computados os custos sociais e ambientais, os custos de sua eventual remoção, se o cálculo é feito com base no custo da energia instalada e não na energia efetivamente produzida, e se não são considerados os custos de uma justa compensação, que são transferidos para a sociedade”, afirma Emilio Moran, professor de antropologia, geografia e ciências ambientais na Universidade Estadual de Michigan (MSU), nos Estados Unidos, e na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Moran coordenou equipe multidisciplinar formada por professores e pesquisadores das áreas da saúde, geografia, antropologia, economia agrícola e ambiental da Unicamp, da MSU, das universidades federais do Pará (UFPA), Rio Grande do Sul (UFRGS) e Santa Catarina (UFSC), e da suíça St. Gallen. Eles foram a campo no sudoeste do Pará com o objetivo de avaliar os impactos socioambientais gerados pela construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu. Os resultados foram divulgados no final de agosto, em evento realizado em São Paulo.

    A pesquisa constatou que a usina hidrelétrica gerou danos para a biodiversidade pesqueira local e para a população de Altamira e Vitória do Xingu, cidades paraenses vizinhas à obra. Aumento do custo de vida, queda na renda de ribeirinhos e agricultores familiares, diminuição da pesca, piora em indicadores da saúde, saneamento deficitário e aumento da violência são alguns dos danos observados. “O que ocorreu em Belo Monte era previsível, já havia ocorrido antes em outros projetos hidrelétricos. Só demonstra que o Estado continua permitindo os mesmos erros que cometia há 40 anos”, diz Moran, referindo-se aos impactos socioambientais registrados nos anos 1970 e 1980 na construção das usinas hidrelétricas de Tucuruí, no rio Tocantins, e Balbina, no rio Uatumã, afluente do Amazonas, e não devidamente considerados na construção de Belo Monte.

    O Plano Nacional de Energia foi lançado em 2006 e recebeu sua atualização mais recente em 2018. Contém previsões de consumo e o mapeamento de oportunidades de expansão da oferta energética até 2050. Segundo o documento, dependendo da expansão econômica do país, a demanda por energia deverá crescer a um ritmo de 1,4% a 2,2% ao ano, no período. O potencial hidrelétrico brasileiro foi calculado em 176 mil megawatts (MW). Destes, 108 mil MW já estão disponíveis ou sendo providenciados em outras construções. Entre os demais 68 mil MW inventariados, 52 mil MW correspondem a projetos que envolvem a construção de usinas de médio e grande porte. Desse total, 64%, ou 33 mil MW, são previstos na Bacia Amazônica.

    Cotidiano fluvial: botijão de gás é transportado em barcoMaíra Fainguelernt

    Conhecedor da região Amazônica, onde trabalha desde 1978 como pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), e convidado do evento, o biólogo norte-americano Philip Martin Fearnside, um dos ganhadores do Prêmio Nobel da Paz em 2007 como membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), diz que o potencial hidrelétrico da Bacia Amazônica está superdimensionado e que os investimentos não trarão os resultados esperados. “Não estão considerando, por exemplo, os efeitos do aquecimento global que reduz as precipitações pluviométricas e consequentemente o fluxo de água nos rios”, alega.

    Fearnside cita um estudo realizado em 2015 pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), do governo federal, intitulado “Brasil 2040”, no qual são projetadas as consequências do aquecimento global para o clima do país. Para a região Amazônica, a projeção indica diminuição substancial das chuvas refletindo no volume de água dos rios e na capacidade de geração de hidreletricidade. Os impactos deverão ser diferentes para cada bacia hídrica. Nos cenários projetados, a capacidade de geração em Belo Monte, por exemplo, poderá ser reduzida entre 20% e 55%.

    A hidreletricidade é tida pela indústria do setor e por alguns especialistas como uma forma limpa de energia por não utilizar fontes fósseis como combustível. Fearnside considera essa percepção equivocada, principalmente em relação às hidrelétricas instaladas em regiões de floresta. “Há emissão de gases de efeito estufa em quantidades substanciais”, afirma. Estudos realizados pelo cientista indicam que os primeiros anos de atividade de uma hidrelétrica concentram grande emissão de dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O). Segundo ele, o tempo que uma hidrelétrica leva para gerar benefícios, reduzindo a emissão de gases de efeito estufa, é medido em décadas e varia de acordo com a localização, o tamanho e o perfil da área ocupada pela barragem. Em Belo Monte, com a primeira barragem planejada rio acima, o pesquisador estima que pode demorar 40 anos.

    Mãe e filha lavam roupas no rioMaíra Fainguelernt

    Dependência do rio Xingu
    O complexo hidrelétrico de Belo Monte é formado por duas casas de força, ou seja, são duas usinas, que somam 24 turbinas, totalizando uma capacidade instalada de 11,2 mil MW, que deverá ser alcançada no último trimestre deste ano com a entrada em funcionamento das quatro últimas turbinas. Com isso, a hidrelétrica passará a ocupar o posto de terceira maior do mundo em capacidade instalada. Mas não em produção efetiva. Em Belo Monte, a oferta de energia firme, aquela que pode ser assegurada, limita-se a 4,4 mil MW em média. A produção efetiva depende da vazão do rio Xingu. Nos meses de seca na região, entre junho e outubro, sua capacidade de geração é bastante reduzida.

    Belo Monte é uma usina a fio d’água, ou seja, seu reservatório foi projetado para permitir uma regularização do fluxo de água para poucos dias de operação e não para todo o período seco. Por isso, seu reservatório é quase três vezes menor do que o necessário em uma usina tradicional. Mesmo assim, soma 478 km² em duas represas interligadas por um canal de derivação com 20 km de extensão.

    Em janeiro de 2011, quando as obras em Belo Monte foram iniciadas, a hidrelétrica foi orçada em R$ 16 bilhões. Em julho último, o Ministério de Minas e Energia estimou em R$ 42 bilhões seu custo total. A usina pertence a Norte Energia S.A., que tem a estatal Eletrobras como principal acionista, detentora de 49,98% das ações. Os investimentos – na ordem de 80% – tiveram financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

    Miquéias Calvi, professor da Faculdade de Engenharia Florestal da UFPA, é morador de Altamira há 30 anos. Acompanhou de perto todo o processo de comunicação promovido pelo governo federal e o grupo Norte Energia para o convencimento da população local. Ele relata que foi estabelecida uma narrativa muito convincente de como a usina seria a condutora do desenvolvimento regional, com geração de emprego, renda para o produtor rural e para os comerciantes locais, além de melhorias na oferta de serviços públicos de saúde, saneamento, distribuição de água potável, segurança e moradia. “Conquistaram um apoio grande à obra, que hoje quase não existe mais”, afirma.

    Emilio Moran resume a percepção atual da população local em uma frase, repetida inúmeras vezes aos pesquisadores envolvidos no projeto sobre os impactos socioambientais de Belo Monte: “Bom para o Brasil, péssimo para nós”. Os resultados do estudo apresentam as razões da mudança da opinião pública. Antes de Belo Monte, a cidade de Altamira abrigava 75 mil moradores. Dois anos depois do início das obras, já eram quase 150 mil. A construção da usina chegou a gerar 50 mil empregos diretos e indiretos, contingente que foi diminuindo à medida que etapas da obra foram vencidas. Em 2018 a população estimada era de 113 mil habitantes.

    A movimentação demográfica teve consequências, inclusive na saúde da população. Márcia Grisotti, chefe do Departamento de Sociologia e Ciência Política da UFSC, estuda os impactos de Belo Monte e destaca o aumento dos registros de sífilis em gestantes da cidade de Altamira, que passou de um caso para cada mil crianças nascidas em 2010 para 15 casos, em 2015. A violência aumentou. Em 2015, a cidade conquistou o indesejável título de a mais violenta do Brasil. Segundo dados do Ministério da Saúde, foram 124,6 homicídios para cada 100 mil habitantes. Cinco anos antes, a taxa era de 60,9 homicídios para cada 100 mil habitantes. Também houve crescimento no número de suicídios e de mortes por acidente de trânsito. “As medidas compensatórias relacionadas à saúde se restringiram à instalação de equipamentos médicos e sanitários, sem acompanhamento dos indicadores nem definição de uma estratégia para mitigar problemas que poderiam ter sido evitados”, diz Grisotti.

    Belo Monte será a terceira maior do mundo em capacidade instalada, mas não em produção efetiva

    A construção da barragem de Belo Monte e as mudanças no nível de água do Xingu exigiram o deslocamento de 22 mil pessoas que viviam às margens do rio. Essa população foi realocada em cinco Reassentamentos Urbanos Coletivos (RUCs) na periferia de Altamira. Não sem problemas, observa o professor do curso de desenvolvimento regional da UFRGS Guillaume Leturcq. “Pessoas que obtinham sua subsistência do Xingu foram assentadas em vilas distantes a 3 ou 4 quilômetros do rio”, conta. “Não lhes foi oferecida a oportunidade de transferência para localidades onde poderiam manter seu modo de vida.” Muitas das novas casas já foram abandonadas ou vendidas.

    O adensamento populacional gerou problemas sanitários. Até 2012, o abastecimento de água de 86% da população era feito por intermédio de poços e o esgoto de 90% das casas era destinado para fossas sépticas. De acordo com Cristina Gauthier, da MSU, a Norte Energia melhorou a infraestrutura de saneamento de Altamira, mas não o suficiente para o crescimento populacional que a cidade enfrentou. Resultado: o uso de poços e fossas segue sendo comum no lugar.  “Com o adensamento geográfico, o número de poços e fossas é maior do que antes da construção da usina. Um número maior de fossas impacta a qualidade de água subterrânea do lugar”, diz Gauthier. Em amostra realizada em 30 casas, a pesquisadora constatou que apenas seis poços possuíam água sem contaminantes fecais na época da seca e sete no período chuvoso. Procurada, a Norte Energia não comentou os resultados das pesquisas.

    Nem mesmo ribeirinhos que vivem em áreas mais distantes da usina e não precisaram abandonar suas casas ficaram imunes. Moradores da comunidade a jusante de Vila Nova, que soma 156 famílias, relatam que hoje precisam de seis dias para obter a mesma quantidade de peixes que antes pescavam em dois. Além disso, os peixes são menores e há dificuldade em comercializá-los. “Em Altamira é possível comprar peixes de outras regiões do Pará e de Santa Catarina. Apenas um supermercado vendia peixe local em 2015”, diz Miquéias Calvi.

    Removido da casa onde vivia por causa da construção da hidrelétrica, morador desmancha palafita em área próxima ao igarapé AltamiraLalo de Almeida / Folhapress

    Calvi investigou os impactos de Belo Monte na produção rural na região de Altamira. “A promessa era de que o aumento da população e da demanda por alimentos iria beneficiar o produtor local”, observa. No entanto, três anos após o início da obra, 60% dos agricultores familiares haviam abandonado suas lavouras temporárias. Os cultivos de arroz, feijão, milho e mandioca caíram de 40 mil hectares em 2011 para 20 mil hectares em 2017.

    Emilio Moran acredita que muitos dos problemas constatados na pesquisa poderiam ter sido evitados se o licenciamento da usina tivesse sido precedido de um adequado Estudo de Impacto Ambiental e o respectivo Relatório de Impacto Ambiental (EIA-Rima). Para isso, e como determina a legislação brasileira, seria necessário estudar antecipadamente a região, em seus aspectos físicos e humanos, e ouvir as comunidades locais. Órgãos públicos como o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), avalia Moran, também deveriam ter “capacidade e vontade política” para negar licenças, se constatado que determinado empreendimento não atende as obrigações da legislação brasileira e as recomendações do relatório de impacto social e ambiental.  “Isso nunca ocorre no Brasil”, lamenta. “Os estudos são feitos, mas as obras começam sem a resolução dos problemas apontados nos estudos.”

    O físico José Goldemberg, do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEA-USP) e ex-secretário nacional do Meio Ambiente e de Ciência e Tecnologia, concorda apenas parcialmente com as críticas. Segundo ele, muitos dos impactos socioambientais de Belo Monte poderiam, de fato, ter sido evitados e a empresa deveria ser responsabilizada pelos danos gerados. No entanto, Belo Monte, pondera, não pode ser julgada apenas pelos danos sociais, mas também pelos benefícios gerados para o abastecimento energético de todo o país.

    Em sua opinião, as hidrelétricas na Bacia Amazônica devem ser avaliadas caso a caso, levando em consideração sua viabilidade diante dos custos de mitigar os impactos socioambientais e diante dos possíveis efeitos das mudanças climáticas, mas não devem ser descartadas a priori. “O Brasil precisa expandir sua produção de eletricidade e uma hidrelétrica, entre as opções que garantem geração firme, constitui alternativa melhor do que as usinas que utilizam combustíveis fósseis e do que as nucleares”, avalia.

    Questões

    Por que a vazão do rio Xingu oscila ao longo do ano e de que forma isso afeta a produção de energia hidrelétrica?

    A produção energia elétrica através de uma hidrelétrica é considerada uma fonte limpa? Justifique.

    Explique o papel do Estado brasileiro na produção de energia elétrica?

    Aponte os impactos socioambientais ligados a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.

    Prof Luciano Mannarino