Categoria: Questão Ambiental

  • JURANDYR ROSS: OS TRÊS BRASIS

    JURANDYR ROSS: OS TRÊS BRASIS

    Geógrafo paulista propõe uma síntese das três realidades ambientais, sociais e econômicas do país. (foto – Léo Ramos Chaves)

    Jurandyr Ross

    Idade 73 anos
    Especialidade Geomorfologia
    Instituição Universidade de São Paulo (USP)
    Formação Graduação em Geografia (1972), mestrado (1982) e doutorado (1987) pela USP
    Produção 45 artigos e 8 livros

    Por Carlos Fioravanti

    No escritório de seu apartamento, entre paredes cobertas de mapas, o geógrafo Jurandyr Luciano Sanches Ross redescobriu o Brasil à medida que examinava dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com colegas de outros estados. O que emergiu foram na verdade três Brasis: o que denominaram o Brasil da natureza, com grandes áreas verdes; o do semiárido, no sertão nordestino; e o de maior atividade econômica, ligada principalmente à agropecuária. “Provavelmente esse é meu último grande trabalho”, diz ele, aos 73 anos.

    Especialista em geomorfologia, estudo das formas de relevo e suas origens, Ross lançou na década de 1980 um mapa do relevo brasileiro. Elaborado com base nas informações do Projeto RadamBrasil, que ele integrou, seu trabalho sucedeu as versões dos geógrafos Aroldo de Azevedo (1910-1974), de 1949, e Aziz Ab’Saber (1924-2012), da década de 1960.

    Nascido em Promissão, noroeste paulista, e crescido em Rolândia, no Paraná, mudou-se para São Paulo na década de 1960. Viúvo, duas filhas (uma engenheira eletrônica e outra dentista), três netos, ele concedeu a entrevista a seguir por videoconferência em fevereiro.

    Mapas resultantes do projeto de pesquisa sobre ordenamento territorial no Brasil coordenado por Ross

    Em que você está trabalhando?
    Coordeno um projeto de três anos para estudar o ordenamento territorial do Brasil, o modo pelo qual o território do país está organizado. Esse trabalho, com financiamento do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], envolve minha equipe do Laboratório de Geomorfologia da USP, colegas da Universidade Estadual de Londrina, das universidades federais da Paraíba e de Uberlândia e um sociólogo do Ministério da Economia. Já produzimos muitos dados e adquirimos uma noção mais clara de quem somos nós, sob a perspectiva de uso do território nacional.

    O Brasil tem plano de ordenamento territorial?
    Tivemos a partir de 1993, em consequência da Rio-92, que levou a uma política de Estado e à criação do Ministério do Meio Ambiente, de unidades de conservação, principalmente na Amazônia, dos zoneamentos ecológico-econômicos em alguns estados e regiões, dos planos de gestão de recursos hídricos e dos planos diretores municipais, até 2002. Então começou outra política territorial e o Ministério do Meio Ambiente se tornou periférico. O ordenamento deixou de ser algo importante.

    E por que é importante?
    Porque ajuda a não serem feitas coisas erradas no uso e ocupação das terras. A primeira tarefa de um plano de ordenamento territorial é entender as áreas mais ou menos favoráveis para agricultura ou pecuária e as que não devem ser mexidas ou convertidas em agricultura ou pecuária. Dizem que o Brasil não precisa desmatar, e não precisa mesmo, porque tem muita terra subaproveitada. Mas que terras são essas, onde estão, com que tipo de relevo e de solo? Tem de saber se é favorável a algum uso econômico ou não. A ocupação do território brasileiro é espontânea, feita por quem compra e incorpora as terras. Andei por Parauapebas, no leste do Pará. Só se vê pastagem e nada de árvore. Quase ninguém deixou os 50% da área com vegetação nativa e as matas ciliares, obrigatórias por lei; agora a reserva legal é 80% da área. Participei da finalização do plano de zoneamento ecológico de Rondônia, que terminou em 2000. Ficaram definidas em torno de 10 áreas para diferentes tipos de ocupação ou preservação, mas o plano se perdeu ou não foi aplicado adequadamente. Hoje resta muito pouco de floresta, só mesmo em unidade de conservação. A maior parte do estado foi ocupada com café, banana, cacau e principalmente pasto.

    O que estão vendo agora?
    Focamos no Brasil rural e examinamos a agricultura, silvicultura, pecuária e mineração. Pensamos em fazer um levantamento das condições atuais do uso e da ocupação da terra, com base nos dados estatísticos do IBGE na escala municipal e os mapas do MapaBiomas Brasil [organização não governamental que acompanha as mudanças da cobertura da vegetação nativa e do uso do solo no país] sobre desmatamento e outras questões ambientais. Os mapas representam os 5.570 municípios brasileiros. Por exemplo, conseguimos ver por onde a soja caminha, desde que começou a ser cultivada no Rio Grande do Sul e em São Paulo nas primeiras décadas do século XX. Agora já está no Maranhão e no Piauí, quase chegando ao mar. A cana-de-açúcar está em São Paulo, mas também no Triângulo Mineiro, em Goiás e no noroeste do Paraná.

    E no Nordeste?
    A cana não está mais tão forte em Pernambuco, mas em Alagoas. Os tabuleiros de Pernambuco não são planos e grandes como os de Alagoas. A mecanização do plantio e corte da cana precisa de relevo plano. O relevo é fundamental na agricultura tanto quanto o solo e o clima, por conta da mecanização. Em outro mapa, ao examinar o PIB dos municípios por atividade econômica predominante, vimos que na Amazônia e sobretudo no semiárido a principal renda é o dinheiro público enviado às prefeituras e a pessoas, por meio das aposentadorias, do Bolsa Família e de outros benefícios sociais. Há dois anos estive no sertão do Ceará e fiquei assustado. Porque os jovens em grande parte saíram e continuam saindo do campo, ficando na zona rural principalmente os mais velhos, que recebem aposentadoria rural ou Bolsa Família, cuidam dos animais e fazem pequenas roças de feijão, milho e mandioca. Já o PIB per capita é mais alto na região Sudeste, sem o norte de Minas, como resultado do agronegócio, da atividade industrial e dos serviços. Estou mostrando esses mapas, originais, para falar do que chamamos de três Brasis, ou unidades de ordenamento territorial, que nossas análises revelaram.

    Quais são os três Brasis que vocês propõem?
    Um é o da natureza, outro do semiárido e o terceiro, o economicamente produtivo. O primeiro tem extensa área de terras preservadas e grande biodiversidade, mas é permanentemente ameaçado por causa da expansão, principalmente da pecuária. A área cobre a Amazônia, o Pantanal, o rio Araguaia e a faixa costeira, com a serra do Mar. Em situação oposta está o semiárido. Não é o Nordeste todo, mas uma área de restrição climática muito forte. Enquanto a ocupação na Amazônia é de baixa densidade e receptora de migrantes, o semiárido é o resultado de 500 anos de ocupação com êxodo de população. Quando a cana ocupou o litoral, o semiárido foi tomado com a pecuária. Existe hoje lá um esvaziamento ou estagnação demográfica. O terceiro Brasil é essencialmente o da produção agropecuária e atividades industriais com destaque para agroindústrias e indústrias sucroenergéticas, concentrada no Centro-Oeste, oeste da Bahia, do Maranhão, do Piauí, do sul e leste da região Norte, toda a região Sudeste e Sul e a faixa costeira brasileira, desde o Nordeste oriental até o Rio Grande do Sul. É o Brasil que gera mais empregos e renda nos três segmentos da economia: indústria, agropecuária e serviços.

    O que chamamos de três Brasis são realidades muito diferentes, que exigem abordagens distintas

    O que você pensou vendo essas diferenças?
    São realidades completamente diferentes, em biodiversidade, geodiversidade, que revelam problemas estruturais e exigem abordagens distintas. No semiárido, uma área de esvaziamento ou estagnação demográfica, temos de questionar: “Vamos deixar todo mundo ir embora e pronto?”. O ideal é que se comece a gerar mais renda e emprego, com uma economia mais dinâmica.

    E a Amazônia?
    Em 2019, fui dar um curso em Parintins, a leste de Manaus. Depois saímos de barco. Em um dos pontos em que paramos vivia uma família com a casa no terraço do rio. Perguntei para o homem da casa, devia ter uns 60 anos, do que ele vivia. Ele respondeu: “Ainda tenho algumas vacas, que comem o capim da várzea. Tiro leite, faço queijo e vendo o bezerro”. Ele tinha reduzido o número de vacas porque estava dando mais atenção a uma roça de guaraná na floresta, em sistema agroflorestal. Ele vendia a R$ 15 o quilograma da semente de guaraná, um valor três vezes mais alto que o do quilograma do bezerro. “E eu trabalho muito menos que com as vacas”, ele falou. “Porque praticamente é só manter a área limpa e colher as sementes.” A floresta tem solução, que não pode ser derrubar árvore para plantar pasto.

    O que vocês pretendem fazer com esses mapas?
    Vamos terminar o relatório, que já está com 900 páginas de mapas e textos. Queremos discutir essas informações com colegas da universidade, com gente do governo, com políticos, com o máximo de pessoas, de qualquer área. Queremos que essas informações sejam úteis para o país.

    Mapas resultantes do projeto de pesquisa sobre ordenamento territorial no Brasil coordenado por Ross

    Esse é o grande trabalho da sua carreira?
    Provavelmente é o meu último grande trabalho. Os outros foram o mapa de relevo do Brasil, na década de 1980, o mapa geomorfológico do estado de São Paulo, no final dos anos 1990 [ver Pesquisa FAPESP n° 35], com financiamento da FAPESP, e o mapa geomorfológico da América do Sul, concluído em 2019 [ver Pesquisa FAPESP n° 246]. Fiz muitas orientações tecnocientíficas em projetos de zoneamento ecológico-econômico, que determinam as áreas a serem ocupadas com atividades econômicas e as que devem ser preservadas, no litoral do Paraná e nos estados do Paraná e de Mato Grosso, na bacia do Alto Paraguai e no Tocantins.

    Por que resolveu fazer o mapa de relevo do Brasil?
    Quando estava no curso de geografia, dei aula em escolas e ficava agoniado quando tinha de ensinar coisas ultrapassadas sobre o relevo brasileiro. Eu já conhecia uma parte do Brasil. Nas férias de janeiro, saía com algum amigo e viajávamos de carona em caminhão. Fomos até a Argentina, Uruguai, sul do Brasil, Goiás e Mato Grosso, para o Pantanal, depois para o Nordeste. Terminei a graduação e resolvi fazer mestrado em geomorfologia. Na metade do mestrado, surgiu a possibilidade de fazer geomorfologia para o RadamBrasil. Foi onde eu me firmei profissionalmente como geógrafo.

    O que era o projeto Radam?
    O Radam foi um grande levantamento dos recursos naturais, entre os quais o do relevo brasileiro, que começou em 1970. Fui trabalhar para o Ministério de Minas e Energia, que administrava o projeto através do DNPM [Departamento Nacional de Produção Mineral]. Enquanto o Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais] usava imagens de satélites, o Radam produzia os mapeamentos temáticos de geologia, geomorfologia, solos, vegetação e clima usando imagens de radar, mais fáceis de trabalhar porque as micro-ondas do radar atravessam as nuvens, que assim não atrapalham o levantamento. O trabalho começou pela Amazônia e por isso se chamava projeto Radam, de Radar da Amazônia, depois é que virou RadamBrasil. Nessa época o governo era muito cobrado porque não se conhecia direito o território e precisava mapear os recursos naturais. Eu morava com minha família em Goiânia e trabalhei no Radam de 1977 até 1983, na região centro-oeste e sul da Amazônia.

    Dei aula em escolas e ficava agoniado quando tinha de ensinar coisas ultrapassadas sobre o relevo

    Como era o trabalho de campo?
    Tínhamos as imagens de radar, com um pouco menos de 1 metro de comprimento, feitas por sobrevoos de avião, que mostravam basicamente as rugosidades do relevo. Íamos a campo para identificar as formas de relevo, a geologia, os tipos de solo e de vegetação. Viajávamos por terra, com uma Ford Willys, ou com avião bimotor em voo baixo, a 200 metros de altitude, fazendo ziguezague sobre a área objeto do mapeamento. As saídas eram longas, de 25 a 30 dias, tínhamos de dormir em rede, em barraca ou em hotelzinho de beira de estrada. Acampar ou amarrar a rede, era uma delícia, eu adorava. Fotografávamos tanto em terra como no ar, com helicóptero e avião, usávamos aqueles gravadores grandões, depois transcrevíamos e detalhávamos os mapas. Trabalhei em três grandes áreas em Goiás e no atual Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Triângulo Mineiro. Cada área era coberta com 16 folhas de imagens de radar. Cada folha, no corte internacional ao milionésimo, na escala de 1 para 1 milhão, tinha 16 mapas na escala 1 para 250 mil, portanto 48 mapas nessas três áreas, para cada tema de pesquisa.

    Por que você resolveu sair do Radam e entrar na USP?
    Meu orientador do mestrado e doutorado, Adilson Avansi de Abreu, me alertou para o fato de que o Radam acabaria um dia e que eu deveria terminar o mestrado e buscar outro trabalho. Segui o conselho dele e terminei. Depois ele me avisou de um concurso na USP, para preencher a vaga do Ab’Saber, que tinha se aposentado. Comecei na USP em janeiro de 1983 e aos poucos vi o que poderia fazer. Refiz meu projeto de doutorado para aproveitar o material do Radam e examinar uma província serrana interessante, próxima a Cuiabá. Ao mesmo tempo comecei a dar aulas para a graduação. Montei uma disciplina extracurricular para os alunos interessados em imagem de radar. O laboratório de geomorfologia do Departamento de Geografia da USP tinha o acervo completo das imagens do Radam, que o Ab’Saber havia pedido antes de se aposentar. Essas aulas viraram uma disciplina optativa e me estimularam a fazer duas coisas, que me tomaram os 10 anos seguintes. A primeira foi a síntese do relevo brasileiro e a segunda o mapa geomorfológico do estado de São Paulo, os dois com base em imagens de radar e nos relatórios do RadamBrasil. Ambos foram praticamente uma continuidade do que se fazia no Radam, agora no Laboratório de Geomorfologia do Departamento de Geografia da USP.

    Em seu mapa de relevo do Brasil, quais as inovações em relação ao que Aroldo de Azevedo e Ab’Saber tinham feito?
    Eram enfoques diferentes. Aroldo de Azevedo valorizou as diferenças de altitudes do relevo e fez um mapa apenas com planaltos e planícies, foi um desenho, uma figura de ilustração. Ab’Saber fez o mapa dos chamados domínios morfoclimáticos, unindo vegetação e relevo. Eu explorei as macroformas. Uma das inovações foi a incorporação das depressões, os corredores rebaixados entre os planaltos, já conhecidas desde a década de 1930, só não haviam sido ainda mapeadas. O RadamBrasil identificou as depressões, de Norte a Sul. Trabalhei nisso por três anos e o mapa saiu em 1989, publicado na Revista do Departamento de Geografia, aqui da USP, em 1990.

    Ross entre gêiseres nos Andes 2015 (Acervo pessoal)

    Quando o apresentou aos seus colegas?
    Um ano antes no simpósio de geografia física no Rio de Janeiro, em 1989. Estavam lá ex-colegas do Radam, que havia sido extinto quatro anos antes. Havia umas 300 pessoas assistindo, os congressos ainda eram pequenos e todos viam tudo. Depois da apresentação, meu ex-chefe perguntou: “Mas de onde você tirou esses conceitos de morfoestrutura e morfoescultura?”. Falei que vinha do meu aprendizado do doutorado, seguindo um conceito de alemães e russos que trabalham o relevo com duas perspectivas, a estrutural, que vem de dentro para fora, como os movimentos tectônicos, e a escultural, de fora para dentro, como o desgaste erosivo. E ele: “Legal, gostei”. O mapa chegou ao público não especializado por meio de reportagens nas revistas Nova Escola e Veja. Depois saiu no livro Geografia do Brasil (Edusp, 1996), que coordenei, e as editoras começaram a incorporá-lo em livros didáticos.

    Você também foi consultor para a construção de hidrelétricas nos rios Xingu, Madeira, Iguaçu e Uruguai. Como foi essa experiência?
    Foi no final da década de 1980, quando começou a aplicação dos EIA-Rimas [estudos e relatórios de impacto ambiental] e havia um plano nacional da Eletrobras para implantar hidrelétricas, até 2010, em todos os rios da Amazônia oriental, porque os do lado ocidental não têm caimento suficiente. O Projeto Radam já tinha indicado algumas possibilidades. Fui chamado para ensinar ex-alunos e estagiários que trabalhavam nas empresas contratadas a usar imagens de radar para fazer mapeamento e análise geomorfológica. Eu ajudava nos mapas e relatórios.

    As saídas do Radam eram longas, de 25 a 30 dias, tínhamos de dormir em rede. Uma delícia, eu adorava

    Se você pudesse entrar agora em um helicóptero e o piloto perguntasse “vamos para onde?”, que lugares escolheria para revisitar ou conhecer?
    Vou ser pragmático, estou precisando fazer um sobrevoo na Chapada Diamantina, na Bahia. Nunca estive lá e estou orientando um doutorado sobre essa região. É um lugar muito interessante porque entre os relevos montanhosos há superfícies baixas e planas, com um clima de transição do Cerrado para a Caatinga, solo fértil e uma intensa agricultura irrigada. Tenho muita curiosidade de conhecer esse lugar.

    Você conhece todos os estados brasileiros?
    Sim, embora não conheça todos inteiros. Já fui de Macapá até Oiapoque por estrada; de Boa Vista, Roraima, até Pacaraima, na divisa da Venezuela. Em maio de 2019 quase morri subindo a serra do Caparaó, na divisa de Minas Gerais com Espírito Santo. Durante a pandemia só tenho ido a uma casa que tenho em Boituva. Espero recomeçar a viajar assim que tiver tomado a vacina contra a Covid-19.

    https://revistapesquisa.fapesp.br/autor/fioravanti/

    Questões

    Aqui estão algumas questões bem elaboradas sobre o texto:

    Sobre a trajetória de Jurandyr Luciano Sanches Ross:

      Como a experiência de Ross no Projeto RadamBrasil influenciou sua carreira como geógrafo? Cite exemplos específicos de como esse projeto contribuiu para seu desenvolvimento profissional.

      Divisão do território brasileiro:

        O conceito dos “três Brasis” é central no trabalho de Ross. Explique como ele define essas três divisões e discuta a importância de cada uma para o entendimento do ordenamento territorial do Brasil.

        Planejamento territorial e sustentabilidade:

          Por que, segundo Ross, o planejamento territorial é importante para o Brasil? Quais são os principais desafios enfrentados na implementação de um ordenamento territorial adequado?

          Impactos da agricultura e pecuária no Brasil:

            Como a expansão da agricultura, particularmente a soja e a cana-de-açúcar, afeta diferentes regiões do Brasil, de acordo com o relato de Ross? Analise a importância do relevo na mecanização da agricultura.

            Mudanças sociais e econômicas no semiárido nordestino:

              O que Ross identificou como principais mudanças demográficas e econômicas no semiárido? Como essas transformações afetam a população e a estrutura econômica da região?

              Amazônia e sustentabilidade:

                Ross menciona uma experiência pessoal em Parintins, onde um agricultor passou a focar no cultivo de guaraná em vez da criação de gado. Como essa mudança reflete o potencial da Amazônia para uma economia sustentável? Quais são as principais lições que podem ser extraídas dessa história?

                Contribuições científicas de Ross:

                  Além do mapa de relevo do Brasil, Ross menciona outros projetos importantes que marcaram sua carreira. Escolha um desses projetos e explique sua relevância para o estudo da geomorfologia no Brasil.

                  Geografia física e relevância das macroformas:

                    Qual foi a principal inovação introduzida por Ross em seu mapa de relevo do Brasil em comparação aos trabalhos anteriores de Aroldo de Azevedo e Aziz Ab’Saber? Como a inclusão das depressões no mapa contribui para um melhor entendimento do relevo brasileiro?

                    Relação entre geografia e políticas públicas:

                      Como o trabalho de Ross pode influenciar políticas públicas no Brasil, especialmente em relação à ocupação do solo e à preservação ambiental? Dê exemplos de como mapas e zoneamentos ecológico-econômicos podem ser utilizados em decisões governamentais.

                      A importância dos dados do IBGE e MapaBiomas:

                      Ross utiliza dados do IBGE e do MapaBiomas em seu trabalho. Qual é a importância desses dados para a análise e compreensão do uso e ocupação do território brasileiro?

                        Essas questões abordam tanto os aspectos técnicos da carreira de Ross quanto as implicações de suas pesquisas no contexto social e ambiental do Brasil.

                        Prof Luciano Mannarino

                        A formação do Território Brasileiro (EM13CHS204)

                      1. Dez anos após Fukushima, energia nuclear cresce com China e crise climática

                        Dez anos após Fukushima, energia nuclear cresce com China e crise climática

                        Produção mundial voltou aos níveis anteriores ao desastre; ambientalistas defendem fontes renováveis

                        11.mar.2021 às 8h00

                        Igor Gielow

                        SÃO PAULO

                        Em março de 2011, quando o desastre da usina japonesa de Fukushima horrorizou o mundo, o futuro comercial da energia nuclear foi dado como no mínimo incerto.

                        A Alemanha anunciou o fim de seu programa de usinas atômicas, o Japão desligou para revisão seus 33 reatores, 3 dos quais tiveram seus núcleos derretidos após o terremoto e tsunami devastadores, grupos ambientalistas se disseram enfim reconhecidos no seu pleito por um mundo sem energia nuclear.

                        A usina nuclear japonesa de Fukushima Daiichi, que teve três reatores atingidos no tsunami de 2011
                        A usina nuclear japonesa de Fukushima Daiichi, que teve três reatores atingidos no tsunami de 2011 – Kazuhiro Nogi/AFP

                        Dez anos depois, após uma queda, a produção mundial de suas usinas nucleares voltou aos índices pré-Fukushima. São 2.750 TWh (terawatts-hora), ante 2.720 TWh em 2010.

                        E a tendência é de crescimento, puxado pela necessidade do corte mundial de emissões de carbono e pelo ambicioso programa energético da China.

                        Durante seu encontro legislativo anual, chamado de Duas Sessões, o governo de Xi Jinping estabeleceu uma meta de aumento de 27% de sua produção nuclear até 2025.

                        Das 53 usinas em construção em todo mundo, segundo a Associação Nuclear Mundial, o maior contingente (11) é chinês. Em 2020, havia 441 reatores civis em operação no planeta.

                        O plano é considerado central para a ambição chinesa de atingir o máximo de sua emissão de carbono em 2030 e ser um país neutro no quesito em 2060. O tombo da economia mundial com a pandemia é visto como uma oportunidade de rearranjar a casa no clima.

                        É o país mais poluente do mundo, segundo dados da Agência Internacional de Energia em 2020, responsável por 28% do despejo mundial de CO₂ na atmosfera —os EUA vêm em segundo lugar, com 15%.

                        É o preço de ter virado uma das fábricas do mundo: de 1990 para cá, a emissão de carbono cresceu 356% no país, a segunda maior economia do mundo, atrás dos EUA.

                        Hoje, apenas 4,7% da eletricidade consumida na China têm origem nuclear, sendo que dois terços da energia do país vem do ultrapoluente carvão.

                        A terra do presidente e ativista climático Joe Biden, por sua vez, tem 19,4% de sua eletricidade oriunda de 94 usinas nucleares, maior parque da Terra. A produção anual está estável desde 2010 e fechou 2019 em 830 THh.

                        Nem todo mundo está feliz com o plano chinês. O grupo ambientalista Greenpeace advoga que o mundo deve focar energias renováveis, como a solar e a eólica, mas isso esbarra na intermitência natural delas e no custo ainda alto devido à baixa escala.

                        Uma vez ligado e alimentado, um reator nuclear gera energia virtualmente eterna sem emitir CO₂. Claro, a extração e o processamento do urânio que usa como combustível entram na conta, mas é uma fração muito baixa em relação a outras fontes poluentes.

                        Usando fontes abertas sobre mortalidade e acidentes relacionados a fontes poluentes, o site Our World in Data fez uma comparação acerca dos efeitos de matrizes energéticas sobre uma cidade europeia média, com cerca de 188 mil habitantes e com o perfil usual de consumo no continente.

                        A cidade de Namie, na província de Fukushima (Japão), classificada como de difícil retorno devido à radiação após acidente nuclear causado por terremoto e tsunami
                        A cidade de Namie, na província de Fukushima (Japão), classificada como de difícil retorno devido à radiação após acidente nuclear causado por terremoto e tsunami Rodrigo Sicuro/Folhapress

                        Pelas contas, 25 pessoas morreriam prematuramente por ano devido ao carvão, 18 pelo petróleo, 3 por causa do gás. Demoraria 14 anos para alguém morrer devido à energia nuclear, 29 anos pela eólica, 42 pela hidroelétrica, e 53, pela solar.

                        Ou seja, aplica-se às usinas nucleares e sua relação com o entorno basicamente a regra do avião: é um modo muito seguro de transporte, desde que você não esteja dentro de um quando ele cai.

                        Em conversa com a Folha no ano passado, o diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, Rafael Grossi, apontou para essa contradição daqueles que demandam ação efetiva contra a mudança climática associada ao CO₂ na atmosfera.

                        Para ele, a vantagem do nuclear é óbvia. Hoje, cerca de 10% da eletricidade consumida no mundo vêm de reatores nucleares, enquanto 38% vêm de carvão, 23% de gás natural, e 16%, de hidroelétricas. Alternativas (biomassa, solar e eólica) somam 7%.

                        Já como fonte de energia para a economia, o petróleo segue imbatível com 31%, o carvão responde por 25%, e o gás, por 23%. O átomo fica com 4% do bolo, atrás de biomassa (7%) e hidroelétricas (6%). Vento e sol originam 3%.

                        O caso alemão é exemplar do desafio colocado pelo temor de uma nova Fukushima —isso para não falar no pior acidente da história, em 1986, na usina de Tchernóbil (União Soviética, hoje Ucrânia). Em 2010, Berlim era a quinta maior geradora mundial de energia nuclear, com 140 TWh.

                        Higashimatsushima, Província de Miyagi - 12.mar.11 / 3.mar.12
                        Higashimatsushima, Província de Miyagi – 12.mar.11 / 3.mar.12 Reuters

                        Em 2011, o país já havia decidido reduzir sua emissão de carbono. O acidente acelerou o processo de retirada da matriz nuclear, sob pressão da bancada verde no Parlamento, e o plano é desligar as seis usinas remanescentes em 2022.

                        O problema é que a emissão de carbono se manteve relativamente estável, de 731 milhões de toneladas de CO₂ em 2011 para 677 milhões de toneladas em 2018, segundo a Agência Internacional de Energia.

                        Curiosamente, países em que o movimento ambientalista é forte, como França e Suécia, têm alta dependência de energia nuclear: 71%, a maior do mundo, e 39%, respectivamente.

                        País onde a tragédia de Fukushima ocorreu, o Japão vem religando suas usinas paulatinamente. Era o terceiro país em produção de energia atômica em 2010, com 286 TWh e 33 usinas. Em 2015, produziu apenas 4 TWh, quase quatro vezes menos que o Brasil e suas duas unidades em Angra dos Reis.

                        Em 2019, último dado disponível, já havia subido para 70 TWh, tendo acionado nove de suas plantas nucleares.

                        É um processo complicado, porque o trauma dos acidentes é altíssimo. Radiação é um subproduto perigosíssimo para lidar, e anos de construções com falhas de desenho (caso de Tchernóbil) ou em locais inadequados (Fukushima) colocam uma sombra permanente sobre a matriz nuclear.

                        Na esteira de Tchernóbil, a segurança primária de reatores na antiga União Soviética foi melhorada, mas há lacunas. Enquanto nove unidades RBMK, iguais à que explodiu em 1986, ainda subsistem na Rússia, modelos de primeira e segunda geração VVER seguem pelo mundo.

                        Um dos mais temidos por especialistas é o que equipa a planta de Metsamor, na Armênia. Numa região suscetível a terremotos devastadores, junto à capital Ierevan, ela quase foi alvo de forças azeris no conflito entre os países em 2020. Como fornece um terço da energia do país, deverá seguir onde está.

                        Mulher presta homenagem às vítimas em cemitério de Kiev, na Ucrânia
                        Mulher presta homenagem às vítimas em cemitério de Kiev, na Ucrânia Sergei Supinsky

                        A questão dos resíduos é central, estatisticamente mais complexa do que a de acidentes em si. Lixo atômico é o combustível gasto pelos reatores, reciclável até certo ponto.

                        No 14º Plano Quinquenal da China, revelado na reunião desta semana em Pequim, está inclusive previsto um trabalho específico em tecnologias que facilitem o reprocessamento do lixo.

                        Os resíduos mais nocivos, o combustível gasto e não reciclável, precisa ser enterrado a centenas de metros por milênios. São um problema ambiental real, embora 99% do lixo seja de mais fácil manejo, como filtros, peças e roupas de proteção usadas.

                        Por fim, mais intangível, há o preconceito que pode ser associado às tragédias e também às armas nucleares, que ocupam faixa semelhante no imaginário popular. Já os benefícios das aplicações médicas de isótopos radioativos, um terceiro ramo da energia nuclear, não costumam assustar tanto —exceto quando algo dá errado, como na exposição do césio-137 em Goiânia, em 1987.

                        https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/03/dez-anos-apos-fukushima-energia-nuclear-cresce-com-china-e-crise-climatica.shtml

                      2. Circulação no Oceano Atlântico atinge o menor nível em mil anos e pode levar tempestade, seca e ondas de calor para a Europa

                        Circulação no Oceano Atlântico atinge o menor nível em mil anos e pode levar tempestade, seca e ondas de calor para a Europa

                        Sistema que transporta água da Corrente do Golfo para Hemisfério Norte pode perder estabilidade diante do aquecimento global

                        O Globo26/02/2021 – 04:30

                        RIO — Um sistema de circulação oceânica que transporta água quente da superfície da Corrente do Golfo para o Atlântico Norte está no seu ponto mais baixo dos últimos mil anos. A Europa, nesta situação, está mais sujeita a fenômenos extremos, como tempestades, secas e aumento das ondas de calor. Cidades da Costa Leste dos Estados Unidos, como Nova York e Washington, poderiam sofrer com o aumento do nível do mar.

                        Mulher se protege de ondas em Auderville, na França, em 2018: a Tempestade Eleanor provocou ventos de até 155 km/h e forçou o fechamento da Torre Eiffel Foto: CHARLY TRIBALLEAU/AFP
                        Mulher se protege de ondas em Auderville, na França, em 2018: a Tempestade Eleanor provocou ventos de até 155 km/h e forçou o fechamento da Torre Eiffel Foto: CHARLY TRIBALLEAU/AFP

                        Conhecido como Circulação Meridional de Capotamento do Atlântico (Apoc, na sigla em inglês), o sistema pode ser reduzido em cerca de 34% a 45% até o final do século, o que o aproxima de um “ponto de inflexão”, ou seja, em que perderá totalmente a estabilidade. O panorama foi retratado em uma pesquisa publicada esta quinta-feira na revista Nature Geoscience.

                        — Em um período de 20 a 30 anos, é provável que este sistema enfraqueça ainda mais, e isso inevitavelmente influenciará nosso clima, então veríamos um aumento nas tempestades e ondas de calor na Europa e no nível do mar na Costa Leste dos EUA — descreveu o climatologista Stefan Rahmstorf, do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático, ao jornal britânico Guardian.

                        Rahmstorf e cientistas das universidades Maynooth (Irlanda) e College London (Reino Unido) estudaram sedimentos de gelo da Groenlândia, que revelam padrões climáticos de outros períodos geológicos, e concluíram que o atual enfraquecimento da Apoc não foi visto pelo menos nos últimos mil anos.

                        No Atlântico Norte, a água quente que vem do Golfo e do Norte do Brasil esfria e se torna mais salgada até afundar ao norte da Islândia, que extrai mais água quente do Caribe. Essa circulação é acompanhada por ventos que também ajudam a trazer clima ameno e úmido para a Irlanda, Reino Unido e outras partes da Europa Ocidental. O enfraquecimento deste sistema, segundo cientistas, é resultado do aquecimento global.

                        — Corremos o risco de desencadear (um ponto de inflexão) neste século, e a circulação diminuiria no próximo século. Não podemos ter nem sequer 10% de chances de que isso aconteça, isso seria inaceitável. Precisamos parar o aquecimento global — explicou Rahmstorf ao Guardian.

                        https://oglobo.globo.com/sociedade/um-so-planeta/circulacao-no-oceano-atlantico-atinge-menor-nivel-em-mil-anos-pode-levar-tempestade-seca-ondas-de-calor-para-europa-24900047

                        Questões

                        1. Qual papel das correntes marinhas na regularidade do Clima Mundial?

                        2.Explique as temperaturas mais amenas do Litoral Oeste da Europa Ocidental em relação aos padrões climáticos da Europa Oriental.

                        Prof Luciano Mannarino

                      3. Antes da avalanche no Himalaia, Índia ignorou alertas sobre riscos

                        Antes da avalanche no Himalaia, Índia ignorou alertas sobre riscos

                        Cientistas avisaram que ecossistema estava fragilizado demais para suportar grandes projetos de desenvolvimento

                        9.fev.2021 às 23h15

                        NOVA DÉLI | THE NEW YORK TIMES

                        Muito antes de as inundações chegarem, arrastando centenas de pessoas e destruindo pontes e barragens recém-construídas, os sinais de perigo já estavam claros.

                        A cordilheira do Himalaia vem esquentando em velocidade alarmante há anos, derretendo gelo contido por milênios em geleiras, no solo e nas rochas e elevando o risco de enchentes e deslizamentos de terra devastadores.

                        Cientistas avisaram que os moradores das proximidades corriam risco e que o ecossistema da região estava fragilizado demais para suportar grandes projetos de desenvolvimento.

                        O governo indiano, porém, passou por cima das objeções de especialistas e dos protestos da população local, explodindo rochas e construindo hidrelétricas em áreas voláteis como aquela onde ocorreu a avalanche no domingo (7), no estado de Uttarakhand, no norte do país.

                        Enchente no vilarejo de Chamoli, em Uttarakhand, na Índia – Reuters

                        Autoridades informaram na segunda (8) que foram recuperados os corpos de 26 vítimas, enquanto as buscas por quase 200 desaparecidos continuam. Uma enxurrada de água e destroços desceu pelos vales montanhosos íngremes do rio Rishiganga, aniquilando tudo em seu caminho. As vítimas eram, em sua maioria, operários nas obras de hidrelétricas.

                        Moradores de vilarejos disseram que as autoridades responsáveis pelos projetos de desenvolvimento da região não os prepararam para o que estava por vir, difundindo um falso senso de confiança de que não aconteceria nada.

                        “O governo não ofereceu ao vilarejo nenhum programa ou treinamento para administrar um desastre”, disse Bhawan Singh Rana, chefe do vilarejo de Raini, um dos mais que sofreu os maiores impactos. “Nosso vilarejo está em cima de rochas. Nosso medo é que elas possam deslizar a qualquer momento.”

                        As forças de segurança direcionaram seus esforços para um túnel onde 30 pessoas estariam presas, e alimentos foram lançados pelo ar para 13 vilarejos cujas estradas de acesso foram bloqueadas e onde há 2.500 pessoas isoladas.

                        Vista do local onde membros da Força Nacional conduziram a operação de resgate, depois que a geleira se rompeu
                        Vista do local onde membros da Força Nacional conduziram a operação de resgate, depois que a geleira se rompeu – Anushree Fadnavis/Reuters

                        A devastação das inundações em Uttarakhand voltou a chamar a atenção para o frágil ecossistema do Himalaia, onde milhões de pessoas estão sentindo o impacto do aquecimento global.

                        O Banco Mundial avisou que a mudança climática pode prejudicar gravemente as condições de vida de até 800 milhões de pessoas no sul da Ásia. Mas os efeitos já estão sendo sentidos, frequentemente de modo letal, em grandes extensões na cordilheira do Himalaia, do Butão ao Afeganistão.

                        A região tem cerca de 15 mil geleiras, e elas estão recuando entre 30 e 60 metros por década. O gelo derretido expande ou cria milhares de lagos glaciais que podem romper repentinamente a barreira de gelo e os escombros rochosos que as contêm, provocando inundações catastróficas.

                        Grande número de lagos glaciais no Nepal, Butão, Índia e Paquistão já foi classificado como um perigo iminente pela entidade intergovernamental Centro Internacional de Desenvolvimento Montanhoso Integrado.

                        O Nepal é especialmente vulnerável ao problema; a mudança climática vem forçando vilarejos inteiros no país a migrar para terras mais baixas para poderem sobreviver à crise hídrica crescente. Inundações imprevistas e mortíferas vêm ocorrendo com mais frequência, algumas delas causadas pelo rompimento de barreiras de lagos glaciais.

                        Cientistas já lançaram avisos reiterados de que a construção de projetos de desenvolvimento na região é uma aposta de alto risco, com potencial para agravar a situação.

                        Ravi Chopra, diretor do Instituto de Ciência Popular, em Uttarakhand, disse que um grupo de especialistas criado pelo governo em 2012 recomendou que não fossem construídas barragens na bacia de Alaknanda-Bhagirathi, que abrange o rio Rishiganga.

                        Chopra fez parte de um comitê de cientistas nomeados pela Suprema Corte da Índia em 2014 e que também desaconselhou a construção de barragens na chamada “zona paraglacial”, que ele descreveu como uma área em que o chão do vale fica a mais de 2.100 metros acima do nível do mar.

                        “Mas o governo optou por construir as barragens mesmo assim”, ele disse. As duas hidrelétricas atingidas pela inundação do domingo foram construídas nessa zona. Uma delas foi completamente destruída e a outra, gravemente danificada.

                        O Everest, no Nepal, é a montanha mais alta do mundo e já foi escalado por mais de 2.000 pessoas
                        Everest recebe uma maratona em 29 de maio de 2014
                        Everest recebe uma maratona em 29 de maio de 2014 Himex – 29.mai.2014

                        O cientista D.P. Dobhal, ex-funcionário do Instituto Wadia de Geologia do Himalaia, pertencente ao governo, disse: “Quando construímos projetos no Himalaia como hidrelétricas, estradas ou ferrovias, os dados de estudos das geleiras nunca são incluídos ou levados em conta nos relatórios detalhados dos projetos”.

                        O governo está construindo mais de 800 km de rodovias em Uttarkhand para melhorar o acesso a vários importantes templos hindus, apesar das objeções de ambientalistas ao desmatamento maciço necessário, que pode acelerar a erosão e aumentar a possibilidade de deslizamentos de terra.

                        Um comitê nomeado pela Suprema Corte da Índia e chefiado por Chopra concluiu no ano passado que, ao construir a rodovia com largura de 10 metros, o governo contrariou a recomendação de seus próprios especialistas do ministério dos Transportes.

                        O governo argumentou que uma rodovia mais larga garante mais dividendos econômicos e é necessária para o potencial envio de equipamentos militares de grande porte para a fronteira disputada com a China.

                        Quando a Suprema Corte decidiu que a rodovia não poderia passar de 5,5 metros de largura, centenas de hectares de floresta e dezenas de milhares de árvores já haviam sido derrubadas, segundo reportagem do site de notícias indiano The Scroll.

                        “Quando você tem especialistas de seu próprio ministério lhe dizendo que as estradas na região do Himalaia não podem ter uma superfície asfaltada de mais de 5,5 metros de largura, e então você passa por cima das recomendações deles, é um problema sério”, disse Chopra. “A não ser que os tribunais estudem a possibilidade de punir e responsabilizar autoridades pessoalmente, acho que a situação não vai mudar.”

                        Trivendra Singh Ranwat, ministro chefe de Uttarakhand, disse que as inundações não devem ser vistas como “razão para construir uma narrativa antidesenvolvimentista”.

                        Bandeiras budistas de oração no acampamento-base de Annapurna, no Nepal; o guia de montanha e fotógrafo Edson Vandeira, 29, visitou o país pela primeira vez entre abril e maio desse ano
                        Bandeiras budistas de oração no acampamento-base de Annapurna, no Nepal; o guia de montanha e fotógrafo Edson Vandeira, 29, visitou o país pela primeira vez entre abril e maio desse ano Edson Vandeira

                        “Reitero o compromisso de nosso governo em desenvolver as montanhas de Uttarakhand de maneira sustentável”, disse Rawat no Twitter. “Faremos tudo e passaremos por cima de todos os obstáculos para garantir que essa meta seja alcançada.”

                        O vilarejo de Reini ficava em uma das áreas mais atingidas no domingo, quando a hidrelétrica de Rishiganga, de 13 megawatts, foi totalmente destruída. Depois da enxurrada, cem dos 150 moradores do povoado passaram a noite ao relento.

                        “Não dormimos nas nossas casas, temendo que venha mais água, que as rochas sejam deslocadas, que alguma coisa mais perigosa aconteça”, disse Rana, o chefe do vilarejo. “Levamos nossas cobertas para a floresta, fizemos algumas fogueiras e passamos a noite assim.”

                        Nos anos 1970 a área foi palco de um protesto ambientalista contra o desmatamento, algo que estampou as manchetes dos noticiários. Manifestantes, muitas delas mulheres, abraçavam árvores para impedir que fossem derrubadas. O movimento ficou conhecido como “chipko”, ou abraço.

                        Rana disse que os moradores da vila também fizeram protestos contra a construção da hidrelétrica de Rishiganga, que começou a gerar eletricidade no ano passado. Chegaram a mover ações judiciais, mas isso não surtiu efeito. Eles temiam que a explosão de rochas provocasse deslizamentos de terra com efeitos fatais.

                        “Ouvíamos explosões e víamos as rochas se movendo”, disse. “Quando esta hidrelétrica estava sendo construída, metade de nosso vilarejo foi levado num deslizamento. Pedimos para ser transferidos para outro local. O governo disse que faria isso, mas não aconteceu nada.”

                        Tradução de Clara Allain

                        https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/02/antes-da-avalanche-no-himalaia-india-ignorou-alertas-sobre-riscos.shtml

                        Prof Luciano Mannarino

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                      4. Como o desmatamento na Amazônia levou Cantareira a nível pré-crise hídrica.

                        Bruno Kelly/Reuters Lucas Borges Teixeira

                        São Paulo 04/01/2021 04h00

                        O Sistema Cantareira, principal rede de abastecimento da Grande São Paulo, está com um índice de armazenamento de água em 35,6% —o menor volume registrado no período desde dezembro 2013, mês que antecedeu a crise hídrica. Índices abaixo dos 40% acionam estado de alerta segundo a ANA (Agência Nacional das Águas). O sistema está assim desde outubro. A causa? Tem chovido menos do que a média histórica na região na região durante todo o ano. Para um geólogo ouvido pelo UOL, não há perigo imediato de desabastecimento, mas é preciso economizar e focar no problema estrutural: o principal culpado da baixa umidade é o crescente desmatamento na Amazônia.

                        Agentes do Ibama checam tora de madeira, durante apreensão realizada pela "Operação Onda Verde", em Apuí (AM) - Bruno Kelly/Reuters
                        Agentes do Ibama checam tora de madeira, durante apreensão realizada pela ‘Operação Onda Verde’, em Apuí (AM)Imagem: Bruno Kelly/Reuters

                        Segundo dados da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), só em três dos 12 meses de 2020 choveu mais do que a média histórica e, em dezembro, a quantidade está próxima. A maioria deles teve situação crítica. Em abril, início da estiagem, choveu apenas 2,2 mm dos 86,6 mm esperados para o período. “Não tem chovido o suficiente, e de onde vem a chuva que abastece a região? Da Amazônia. Não só o Cantareira está com esse déficit, como outros reservatórios importantes no país. Não é uma questão esporádica”, afirma o geólogo Pedro Côrtes, professor da USP (Universidade de São Paulo)

                        Essa relação de causa e efeito é apontada no relatório “O futuro climático da Amazônia”, publicado em 2014 pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Segundo o texto, o desmatamento na região altera os padrões de pressão em todo o interior do Brasil e pode causar o declínio dos ventos carregados de umidade que vem do oceano para o continente. Sem a floresta, a chuva na região poderia cessar por completo. Isso se dá porque a floresta funciona como uma bomba d’água que “puxa” a umidade dos oceanos. Cada árvore amazônica de grande porte pode evaporar mais de mil litros de água por dia —o que leva, ao todo, a cerca de 20 bilhões de toneladas de água por dia (20 trilhões de litros)

                        “Você tira árvores de raízes longas e troca por capim, de raízes curtas, que não tem a capacidade de drenagem para atingir os aquíferos profundos da região [amazônica]”, explica Côrtes. “Isso reduz a umidade da atmosfera e os ventos continuam soprando [para o sul], mas cada vez mais secos.” Em um estudo publicado na revista “Nature” em 1989, pesquisadores britânicos fizeram esta simulação e trocavam a mata nativa da Amazônia por pastagem. “A resposta simulada do clima local foi dominada por um ciclo hidrológico enfraquecido, com menos precipitações e evaporações e um aumento na temperatura da superfície”, diz o texto. Outro alerta foi dado em 2006, em um e aumento na temperatura da superfície”, diz o texto. Outro alerta foi dado em 2006, em um estudo do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) sobre o desmatamento na região. “As cidades principais do Brasil já estão no limite de abastecimento de água, e qualquer redução significativa de transporte de vapor de água da Amazônia teria sérias consequências sociais”, diz o texto do biólogo Philip Fearnside. Isso impacta em especial o interior do Brasil, regiões de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, entre outras, que não recebem as frentes frias vindas do Oceano Atlântico por causa das serras Neste ano, teve a seca sem precedentes no Pantanal. De onde vem a água do Pantanal? Da Amazônia”, aponta Côrtes. “No Sul, não conseguem perceber tanto este efeito porque as principais fontes de abastecimento de água vêm das frentes frias do sul do continente.”

                        Desmatamento bate recordes em 2020

                        De acordo com o Inpe, 2020 tornou-se o ano com maior taxa de desmatamento na Amazônia Legal desde 2008, com a derrubada de mais de 11,1 mil km² de área verde entre agosto de 2019 e julho deste ano – um aumento de 9,5% em relação ao mesmo período anterior. Na série histórica, o acompanhamento via satélite mostra que o desmatamento passou a cair em 2004, quando desceu de 27,8 mil km² para 19 mil km² no ano. A partir de 2019, no governo Jair Bolsonaro (sem partido), voltou a passar dos 10 mil km².

                        O ritmo só aumenta. Mês passado foi o novembro com maior desmatamento nos últimos dez anos na região, com a derrubada de 484 km² de área verde, aumento de 23% em comparação com o ano passado, segundo o SAD (Sistema de Alerta de Desmatamento), do Imazon. “Esse modelo de desmatamento na Amazônia está completando 50 anos, começou na década de 70, com a [rodovia] Transamazônica, e já não há mais justificativa para sua manutenção. Há trabalhos científicos do final dos anos 1980 que já alertavam que poderia gerar impactos ambientais, inclusive com redução do volume de chuvas. Hoje, estamos colhendo as consequências.”

                        Reserva da represa Jaguari/Jacareí, do Sistema Cantareira, durante a crise hídrica, em setembro de 2015 - Luis Moura/Estadão Conteúdo - Luis Moura/Estadão Conteúdo
                        Reserva da represa Jaguari/Jacareí, do Sistema Cantareira, durante a crise hídrica, em setembro de 201…

                        Situação é preocupante, mas risco não é imediato

                        O Sistema Cantareira abastece aproximadamente 46% da população da Região Metropolitana de São Paulo (cerca de 9,8 milhões de pessoas), segundo a ANA. Ele atende as zonas norte e central e parte das zonas leste e oeste da capital e mais dez cidades da Grande São Paulo. Côrtes afirma que a situação é “preocupante”, mas o risco de desabastecimento não é imediato. Neste mês, com a retomada das chuvas, o sistema vem aumentando a capacidade desde o dia 6 de dezembro, quando chegou a 31,3%. Abaixo dos 30%, já é considerada reserva técnica.

                        “Uma nova crise hídrica vai depender do comportamento do clima a partir do outono [de 2021]. Agora é esperado que chova mais, como tem chovido, mas não vai ser suficiente para reverter essa situação para que chegue a níveis confortáveis”, afirma o geólogo. Ao UOL, a Sabesp informou que o Cantareira hoje faz parte de um sistema integrado com seis reservatórios que abastece a região metropolitana, com ligações que não existiam na crise hídrica de 2014. Até terça (29), o sistema operava com 46,2% de sua capacidade total.

                        https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2021/01/04/desmatamento-amazonia-sistema-cantareira-chuvas.htm

                        Trabalho em grupo!!!

                        1) De que forma a reportagem demostra a importância dos “Rios Voadores”?

                        Prof Luciano Mannarino.