Categoria: Urbanização

  • Clima urbano merece atenção redobrada

    Clima urbano merece atenção redobrada

    Novo padrão vai mudar a vida nas cidades, que precisam se adaptar

    Ressaca intensa na Ponta da Praia, em Santos (SP) Guilherme Dionizio/Folhapress

    15.dez.2020 às 18h0

    Março de 2019. Na grande São Paulo, principalmente entre a zona sul da capital e a região dos municípios de São Bernardo, Diadema e São Caetano, ao menos 12 pessoas perderam a vida por causa de um forte temporal. No bairro do Jabaquara choveu exatos 109,5 mm. O que significa dizer que a chuva encheria quase 11 centímetros da altura de um cubo de 1 metro quadrado em menos de uma hora.

    A equação é simples: os grandes temporais vão ser cada vez mais frequentes neste século por causa do aquecimento global; mas, como isso parece ser obra divina para os governantes, as cidades, caso não se prepararem adequadamente, vão acumular tragédias.

    Termômetro de rua mostra o calor na cidade de São Paulo no primeiro dia de outubro de 2020 – Roberto Casimiro /Fotoarena/Folhapress

    A ciência mostra que as tempestades com mais de 100 mm em poucas horas estão aumentando em São Paulo. A memória de quem vive na Grande São Paulo há mais de 50 anos indica que antes as chuvas torrenciais não eram tão comuns assim. E ela está correta. Não se trata de nostalgia dos tempos da infância ou adolescência. Números analisados pelo IAG (Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas) da USP (Universidade de São Paulo) reforçam a percepção dos moradores de meia idade e dos idosos.

    Para os cientistas, chuvas superiores a 40 mm já são fortes o suficiente para causar algum tipo de transtorno para a cidade, como alagamentos. Entre 1970 e 1979, mostram os dados, São Paulo teve o registro de 50 eventos com essas características.

    Entre 2000 e 2009 foram 70 chuvas fortes anotadas pela estação meteorológica da USP, que fica perto do zoológico da cidade. Mesmo com o aumento da nota de corte, a tendência de eventos mais frequentes continua. No mesmo período, ocorreram cinco tempestades com mais de 80 mm nos anos 1970 contra nove chuvas tropicais no início do século.

    Temporal provoca alagamentos em Contagem (MG), no dia 5 de dezembro de 2020 – Willian Augusto/Futura Press/Folhapress

    O novo cenário urbano que surge, mesmo nas pequenas e médias cidades, ainda não vem sendo tratado como prioridade, apesar de alguns avanços terem também ocorrido, afirma Gabriela Di Giulio, pesquisadora da Escola de Saúde Pública da USP. “Mesmo com uma agenda adaptativa, entendendo a adaptação como processos de ajustamentos para antever impactos adversos das mudanças climáticas, os avanços no país têm sido lentos. Nossos estudos sobre adaptação nos municípios paulistas e em algumas capitais brasileiras, incluindo São Paulo, mostram que há importantes entraves que dificultam o processo de respostas adaptativas às alterações climáticas”, afirma a pesquisadora em saúde pública e meio ambiente da USP.

    Segundo Gabriela, o que mais chama a atenção, em nível local, é a dificuldade que as gestões públicas apresentam de atrelar políticas urbanas às estratégias adaptativas. “Essas dificuldades estão presentes tanto nos municípios de pequeno e médio porte como também nas grandes cidades, ainda que estas reúnam condições que poderiam, teoricamente, facilitar o avanço nas ações climáticas, como instituições de pesquisa que produzem conhecimento técnico-científico sobre as mudanças climáticas, os impactos e as possibilidades de respostas.

    VONTADE POLÍTICA

    No âmbito do Projeto CiAdapta, o grupo de pesquisa da USP em conjunto com outras instituições do país, investigou a realidade de seis grandes capitais: São Paulo, Natal, Porto Alegre, Vitória, Manaus e Curitiba. O diagnóstico é que a falta de vontade política ou comprometimento dos governantes com a adaptação das cidades a um novo cenário global não são os únicos problemas. “Práticas administrativas, descompasso entre a escala das questões urbanas e a extensão da autoridade do governo local, pressões do setor privado e fiscalização inadequada também são aspectos com os maiores níveis de impacto sobre a adaptação nas cidades brasileiras estudadas”, diz Gabriela.

    Segundo ela, embora estes gargalos encontrados pelos pesquisadores não sejam barreiras específicas das mudanças climáticas, quando combinados, eles produzem e pioram os entraves para o avanço da adaptação urbana em nível local. “Eles tendem a causar atrasos e dificultar a implementação de importantes ações atreladas às questões climáticas, como ampliação de infraestrutura verde, ponderação entre o adensamento necessário e a expansão urbana, mobilidade e questões de eficiência energética nos padrões construtivos”, afirma.

    A solução do problema, diz a cientista da USP, passa por enquadrar a mudança climática como um problema local, que afeta a todos, e também por compreender as cidades enquanto arenas estratégicas para ação. “É necessário ter a integração dos diferentes setores para lidar com a transversalidade das questões climáticas e, sobretudo, ter comprometimento político, inclusive, para lidar com as pressões exercidas por grupos que ainda resistem às ações públicas e coletivas em detrimento de seus interesses privados.”

    https://estudio.folha.uol.com.br/hora-de-esfriar-o-planeta/2020/12/clima-urbano-merece-atencao-redobrada.shtml

    Prof. Luciano Mannarino

  • Mudanças precipitadas pela pandemia ameaçam futuro das megacidades

    Mudanças precipitadas pela pandemia ameaçam futuro das megacidades

    Na contramão do quanto mais gente melhor, crise pode valorizar cidades médias como próximas da escala humana

     

    SÃO PAULO

    Fuga temporária de grandes centros urbanos em busca de endereços rurais ou suburbanos, maiores e mais próximos da natureza. Disparada na venda de bicicletas em vários países do mundo. Fechamento de lojas e escritórios na esteira da imposição do teletrabalho e da digitalização do comércio.

    Essas e outras mudanças precipitadas pela pandemia colocaram em xeque o futuro das megacidades, cuja densidade populacional, antes motor de contextos vibrantes, diversos e criativos, virou fator de risco diante da fácil propagação do coronavírus.

    Cena registrada na Cidade do México, uma das 19 megalópoles registradas no projeto Hipercidades – Tuca Vieira/Folhapress

     

    Estranhamente silenciosas, sem trânsito e menos poluídas, boa parte das grandes cidades globais perdeu, desde o início da pandemia, o apelo das experiências sociais, econômicas e culturais atreladas a territórios adensados.

    “A pandemia interrompeu a rotina de bilhões de pessoas que residem em cidades e mudou tudo o que tomávamos como dado: trabalhar em um escritório, fazer compras numa loja, comer num restaurante. Impôs grandes desafios ao mesmo tempo em que apresenta oportunidades sem precedentes de uma virada que permita deixar de lado os erros que desgastaram as cidades”, avalia Janette Sadik-Khan, ex-secretária de Transportes de Nova York, na gestão de Michael Bloomberg.

    “Podemos restaurar nossas cidades para que sejam mais acessíveis, evitando a poluição e o desperdício”, diz a urbanista, que já participou do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento, cuja edição deste ano tem como tema “Reinvenção do humano”.

    “O trânsito de São Paulo diminuiu 50% durante a pandemia no horário de pico das manhãs de terça-feira. E é possível enxergar, nessas faixas vazias, o projeto da cidade que se quer como resposta e recuperação da crise.”

    Para ela, essa cidade do futuro tem mais espaço para caminhadas, bicicletas e encontros, que podem se traduzir em novos negócios.

    Mais ciclovias e maiores áreas com restrição ao tráfego de veículos automotores não são propostas novas, mas sua implementação foi acelerada desde a pandemia em cidades como Milão, Berlim, Barcelona, Lisboa e Bogotá.

    Sadik-Khan ressalta que a alta do desemprego aliada à falta de acessibilidade por ineficiências dos sistemas de transporte, sejam ônibus, trens, bicicletas ou mesmo calçadões, compõem um cenário sombrio para a recuperação das cidades só passível de reversão por meio de investimentos.

    Até a eclosão da pandemia, as cidades abrigavam 55% da população do planeta e produziam mais de 80% do PIB global. Ao escancarar desigualdades, a Covid-19 jogou luz sobre a situação de centenas de milhões de trabalhadores urbanos.

    “O trabalhador médio das grandes cidades é aquele que, na pandemia, não pode transpor sua atividade para o teletrabalho. Além de ser mal pago, de ter de trabalhar muito duro e de não contar com o reconhecimento de boa parte da sociedade, ele sofre com condições de deslocamento da ordem de horas por dia”, destaca a socióloga holandesa Saskia Sassen, professora da Universidade Columbia.

    Para ela, a vida em megalópoles se tornou um fardo para a maior parte das pessoas, e abandoná-la já era uma tendência para uma pequena parcela de seus habitantes mesmo antes da pandemia.

    Estudo do Instituto Brookings apontou que as três grandes megalópoles dos EUA, Nova York, Los Angeles e Chicago, viram suas populações diminuírem nos últimos anos.

    Entre as prováveis causas, o alto valor dos aluguéis e o fato de os trabalhos de baixa qualificação, descontados os custos de vida, terem remuneração semelhante em outras localidades com mais qualidade de vida.

    “Nossas cidades são grandes demais, e já insistimos nelas demais. Quem paga o preço não são as elites, mas o grosso de trabalhadores que têm de madrugar para chegar ao trabalho e que são invisíveis ao planejamento urbano, porque quem pensa e escreve sobre cidades não vive as dificuldades dessa realidade”, critica Sassen, cujo livro mais recente, “Expulsões: Brutalidade e Complexidade na Economia Global” (Paz e Terra), classifica esses processos como mais radicais que o da mera exclusão.

    “Trata-se de uma injustiça desnecessária porque beneficia empresas de alto padrão cujos executivos podem viver onde quiserem, mas escolhem grandes cidades globais e sua preferência é dominante”, avalia.

    “Mas a pandemia acabou com a fantasia que as elites nos venderam de que a vida nas cidades é o que existe de melhor. É um completo nonsense dizer que precisamos viver em grandes cidades para fazermos parte da comunidade global. Essa fantasia acabou!”, decreta ela.

    “Cedo ou tarde, teremos de reconhecer que precisamos não de uma São Paulo ou de uma Nova York, mas de múltiplas cidades médias, onde grandes firmas terão de se instalar. Elas são o bom futuro da humanidade.”

    Para Sassen, o engajamento de novas gerações com a questão ambiental também deve favorecer a vida fora das megacidades —nome dado a aglomerações urbanas com mais de 10 milhões de habitantes. Elas foram exploradas pelo fotógrafo Tuca Vieira no projeto Hipercidades, em que viajou por 19 delas. Duas das imagens registradas por ele ilustram esta reportagem.

    “O que pude ver é que não se pode pensar essas cidades separadamente das desigualdades sociais e das mudanças climáticas”, avalia ele, que hoje faz doutorado na área.

    “Como hoje a maioria da população do mundo vive em cidades, e portanto consome a partir delas, as cidades se tornaram o maior motor de transformações do planeta.”

    O urbanista e economista colombiano Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá responsável por reformas inclusivas em transporte e equipamentos públicos, diz não acreditar em mudanças drásticas no destino das grandes cidades no futuro próximo, a não ser na percepção de dois fatores: a importância do contato com o verde e do acesso a tecnologias de comunicação.

    “Cidades são produtivas, e nunca ninguém conseguiu frear seu crescimento de maneira artificial”, diz ele, citando a experiência frustrada da China em conter a migração interna e o crescimento das cidades com passaportes internos.

    “Como cada vez mais as pessoas vivem sós, como na Escandinávia e nos bairros ricos de Bogotá, elas necessitam mais do que nunca do contato com mais pessoas que a experiência urbana proporciona.”

    Se a aglomeração parece arriscada no curto prazo por conta do novo vírus, a desaglomeração pode ser pior, mas para o meio ambiente, como aponta Philip Yang, fundador do Urbem (Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole).

    “Entre 2001 e 2030, teremos três vezes mais superfície urbana do que no ano 2000, o que cria uma fricção das cidades com zonas agrícolas e áreas de proteção florestal e de mananciais de produção de água”, explica ele, citando pesquisa da geógrafa Karen Seto, da Universidade Yale.

    Yang avalia que a pandemia escancarou as assimetrias sociais das cidades, evidenciando a geografia como maior fator de risco da Covid-19, e que grandes cidades do Brasil, como do mundo em desenvolvimento, têm como desafio zerar o déficit educacional e de saneamento básico.

    “Sem resolver um problema do século 19 fica difícil encarar os desafios do século 21.”

     

     

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/08/mudancas-precipitadas-pela-pandemia-ameacam-futuro-das-megacidades.shtml
  • Segregação Socioespacial

    Segregação Socioespacial

    No caso de São Paulo, a pobreza urbana não é só uma questão de nível, ou índice, mas também de concentração espacial e social, envolvendo desigualdade, separação e homogeneidade espacial. Esse problema também está ligado às políticas públicas, que deveriam ser criadas para melhorar a situação dessas pessoas. O problema não é novo, nem está ausente das cidades norte-americanas e europeias. A literatura da área de Ciências Sociais acumulou um conhecimento considerável não apenas sobre os antigos processos de segregação que marcaram cidades como Nova York e Detroit, mas também sobre as dinâmicas de novas formas de segregação e pobreza urbana (Harloe et al., 1992; Marcuse, 1996; Logan et al., 1992)8 que levaram a novas formas de protesto urbano (Jencks, 1993)9. Embora a questão da desigualdade e da falta de equidade na distribuição dos benefícios da urbanização esteja presente no debate internacional, há uma forte ênfase na questão da separação entre grupos sociais e da homogeneidade social das várias partes da cidade, estruturada especialmente pela etnia e pela raça.

    Geralmente, a segregação nas cidades brasileiras é semelhante, com a pobreza tendendo a ser altamente concentrada em termos espaciais. No entanto, no Brasil a ênfase da literatura sempre esteve mais na existência de desigualdades e injustiças na distribuição da renda e dos serviços públicos do que na separação dos grupos sociais. Esses dois elementos estão obviamente associados empiricamente, assim como se imbricam nos processos que produzem o espaço urbano, mas enquanto na literatura internacional há forte ênfase na questão da análise da homogeneidade de cada espaço em particular, no caso nacional essa dimensão está praticamente ausente, sendo o foco centrado nas desigualdades. Por outro lado, parece muito mais difícil combater a pobreza por meio das políticas públicas no Brasil, visto que a pobreza acumulada é enorme e os processos que a reproduzem estão mesclados com vários aspectos de reprodução social10.

    UNESCO realiza seminário em Nova York sobre soluções brasileiras para  combater a pobreza urbana – ONU Brasil

    Uma importante consequência social da fusão entre desigualdade e a segregação é o forte efeito cumulativo dos riscos sociais e ambientais em alguns pontos críticos que chamamos de “hiperperiferias” (Torres e Marques, 2001). Na verdade, o nível dos problemas sociais e ambientais de determinadas áreas é impressionante, superpondo, em termos espaciais (e sociais), os piores indicadores socioeconômicos, com riscos de enchentes e deslizamentos de terra, um ambiente intensamente poluído e serviços sociais (quando os há) extremamente ineficientes (Torres, 1997)11.

    Embora a presença de populações pobres nas periferias e favelas não esteja em discussão, as causas de sua concentração espacial são objeto de debate. A literatura brasileira na área geralmente enfatiza três diferentes grupos de causas para esse padrão de urbanização:

    – o mercado de trabalho e a estrutura social – para essa literatura, a segregação urbana é uma consequência do mercado de trabalho, como nos trabalhos resenhados por Valladares e Coelho (1987). Para eles, a natureza da estrutura social brasileira e seu mercado de trabalho, bem como as recentes transformações pelas quais passaram, explicariam os padrões de alta segregação e as baixíssimas condições de vida nas periferias. A pobreza urbana no Brasil não seria um mero problema de integração na sociedade industrial moderna, mas um traço estrutural da economia capitalista dos países em desenvolvimento;

    – a dinâmica do mercado imobiliário e da produção de moradias – alguns autores enfatizam os incorporadores e suas estratégias. De acordo com essa linha de raciocínio, a estrutura urbana seria explicada em grande parte por esses atores, que teriam o poder de controlar as melhores localizações, especular com a terra desocupada e lucrar com mudanças na utilização das propriedades e suas redondezas (Ribeiro, 1997)13. Outros autores concentram-se no modo como o mercado imobiliário aloca grupos sociais e atividades econômicas por meio de mecanismos microeconômicos de valorização da terra; esses fatores promovem a segregação dos mais pobres por meio da competição pelo uso da terra (Smolka, 1987 e Abramo, 1994);

    – políticas estatais – um outro grupo de autores focaliza o poder regulador do Estado sobre o território. De acordo com essas análises, o Estado pode manter privilégios e excluir uma parte significativa da cidade dos benefícios da urbanização por meio da legislação sobre a construção civil e o uso do solo (Rolnik, 1997 e Néri, 2002). Um elemento central aqui seria o zoneamento, que “congelaria” os benefícios da urbanização em determinadas partes da cidade habitadas pelos grupos mais ricos, ao mesmo tempo em que permite vários tipos de padrões de uso e de construção no restante da cidade. Outros estudos apontam padrões de segregação promovidos ou incrementados pela ação direta do Estado (Fix, 2001; Marques e Bichir, 2001; Vetter, 1975 e Vetter et al., 1981); aqui, as causas seriam o aumento do valor da terra em certas partes da cidade, resultante de investimentos públicos ou de obras públicas, os quais podem expulsar alguns grupos sociais ou substituí-los por outros (Vetter, 1975 e Vetter et al., 1981), ou mesmo a ação direta do Estado deslocando compulsoriamente populações de baixa renda (Fix, 2001).

    É muito provável que os três processos descritos acima ocorram simultaneamente. É verdade que famílias localizadas na base da estrutura social tendem a viver em condições mais precárias e a ter escolhas muito limitadas, especialmente na sociedade brasileira, onde a ascensão social é restrita. Mas também é verdade que o mercado imobiliário está estruturado em torno de ofertas de uso e locação do solo, e que a maioria da população não pode pagar quase nada para morar. Essas pessoas tendem a ser empurradas para lugares sem serviços públicos e com quase nenhuma renda diferencial. No entanto, também é verdade que o Estado pode incrementar esses processos, ou mesmo causar ou multiplicar a segregação e a produção de desigualdades de maneira direta e concentrada.

    http://www.revistaedugeo.com.br/ojs/index.php/revistaedugeo/article/view/747

    Questões

    Analise a relação entre desigualdade e segregação urbana em São Paulo. Como a fusão desses dois fatores contribui para a formação das “hiperperiferias” mencionadas no texto?

    Explique como o mercado de trabalho e a estrutura social contribuem para a segregação urbana no Brasil. Quais são as características específicas do mercado de trabalho brasileiro que agravam esse problema?

    Discuta o papel do mercado imobiliário na produção e manutenção da segregação urbana. Como as estratégias dos incorporadores imobiliários afetam a distribuição espacial das diferentes classes sociais nas cidades brasileiras?

    Avalie como as políticas estatais podem intensificar os processos de segregação e desigualdade urbana. De que maneiras o Estado, direta ou indiretamente, contribui para a exclusão de grupos sociais dos benefícios da urbanização?

    Compare a abordagem da literatura internacional sobre segregação urbana com a abordagem brasileira. Por que a questão da homogeneidade social e da separação entre grupos é mais enfatizada no contexto internacional do que no Brasil?

    Discuta como os três grupos de causas da segregação urbana apresentados no texto (mercado de trabalho e estrutura social, mercado imobiliário, e políticas estatais) podem atuar de forma simultânea e interconectada para agravar a situação da pobreza urbana.

    Considerando as diferentes causas da segregação urbana mencionadas no texto, proponha possíveis soluções ou políticas públicas que poderiam ser implementadas para mitigar esses problemas nas cidades brasileiras.

    Analise o impacto da concentração espacial da pobreza em São Paulo em relação aos riscos sociais e ambientais. Como esses riscos se acumulam nas “hiperperiferias” e quais são as possíveis consequências para as populações que vivem nessas áreas?

    Reflita sobre como a dinâmica da segregação urbana e da desigualdade se manifestam em outras grandes cidades ao redor do mundo. Como essas dinâmicas podem ser semelhantes ou diferentes das encontradas em São Paulo?

    Explore a importância da discussão sobre homogeneidade social na literatura internacional. De que maneira a inclusão dessa discussão no contexto brasileiro poderia contribuir para um entendimento mais profundo das desigualdades urbanas no país?

      Prof Luciano Mannarino.

    1. O debate sobre periferia, segregação e pobreza urbana (atividade)

      O debate sobre periferia, segregação e pobreza urbana (atividade)

      Desde os anos de 1970, a sociologia brasileira tem analisado intensamente a pobreza urbana. Espaços urbanos ocupados por esses grupos sociais foram caracterizados como “periferias” – espaços socialmente homogêneos, esquecidos pelas políticas estatais, e localizados tipicamente nas extremidades da área metropolitana. Tais espaços são constituídos predominantemente em um loteamento irregular ou ilegal de grandes propriedades, sem o cumprimento das exigências para a aprovação do assentamento no município.

      A maioria das casas desses locais é “autoconstruída”. Essa solução de moradia tornou-se predominante em São Paulo, embora as favelas (uma outra solução de moradia tradicional para os pobres) também estivessem presentes.

      Supunha-se que a configuração urbana geral fosse radial-concêntrica em sua geometria (Abreu, 1987; Brasileiro, 1976), com um pronunciado declínio do valor das terras, das atividades econômicas e das condições de vida a partir do centro em direção à periferia da cidade (Bonduki e Rolnik, 1982; Villaça, 1999; e Taschner e Bógus, 2000).

      Em outras palavras, seria possível argumentar que esse modo de entender a forma urbana seria “dual”, contrastando fortemente o centro rico com as periferias muito pobres e com piores serviços públicos. Entretanto, essas características de homogeneidade e localização das periferias têm sido ultimamente questionadas de vários modos:

      – o surgimento de vários novos empreendimentos urbanos fechados na zona oeste da Região Metropolitana, tradicionalmente ocupada pelos pobres (Caldeira, 2000); com isso, desfaz-se a geometria radial-concêntrica e ocorre um aumento significativo da heterogeneidade social nessa região, embora a ocupação desses condomínios tenda a produzir enclaves sem quase nenhum contato entre os grupos sociais;

      – um processo de disseminação da pobreza e de pobres por toda a cidade, que levou ao desenvolvimento de uma nova onda de favelas, marcada por múltiplas invasões de porções muito pequenas de terra não ocupadas pela urbanização, tais como pequenos espaços entre pontes e margens de rios ou linhas de trem. 

      – um novo fator de mudança gerado pelo Estado, que se tornou cada vez mais presente nas periferias, levando a um significativo aumento de vários indicadores sociais, especialmente os relacionados ao acesso a serviços públicos. Esse fato pode ser em parte explicado pela intensa pressão dos movimentos sociais urbanos durante o processo de mobilização política que marcou a sociedade brasileira na década de 1980. Entretanto, essas periferias foram também objeto de várias políticas dinamizadas pelo aparelho estatal durante as décadas de 1980 e 1990, como demonstram os estudos de Marques (2000) e Watson (1992), É muito provável que os dois processos tenham reforçado um ao outro (Marques e Bichir, 2001).

      Em relação aos indicadores sanitários, toda essa transformação significou quase uma universalização, até o ano 2000, do fornecimento de água e coleta de lixo nas mais importantes cidades brasileiras. No entanto, o mesmo não se aplica à rede de esgotos. Em outras palavras, os movimentos sociais e as políticas públicas introduziram importantes transformações nas periferias, exigindo uma reconsideração de antigos modelos analíticos que descreviam e investigavam essas concentrações populacionais nas décadas de 1970 e 1980. A proposição desse novo arcabouço conceitual é uma tarefa intelectual que ainda precisa ser realizada.

      Favela, lugar dos esquecidos - Jornal O Globo

      Os serviços e investimentos estatais, no entanto, não foram suficientes para elevar as condições de vida da população de baixa renda ao padrão das outras partes das cidades (Marques e Bichir, 2001). Isso se deve em parte ao tamanho do deficit entre essas condições de vida e um verdadeiro acesso a serviços e infra-estrutura, e também à qualidade dos serviços e equipamentos recentemente implantados pelo governo nessas áreas.

      Na grande maioria dos casos, as obras realizadas ali eram (e ainda são) de baixa qualidade. Assim, as melhorias públicas feitas nessas áreas não eram finalizadas e tendiam a deteriorar-se, pois a lógica sistêmica da infra-estrutura urbana não era respeitada.

      Em vários aspectos, esses processos contribuíram para a diferenciação dos grupos sociais urbanos pobres e seus territórios, fazendo das periferias (bem como das favelas) um fenômeno cada vez mais heterogêneo. Essa dimensão introduziu novos desafios conceituais e analíticos visto que, ao contrário dos anos de 1970, a simples classificação de um espaço como periferia já não nos permite prever os conteúdos sociais associados à moradia no local. Embora o desenvolvimento de um novo quadro conceitual seja uma tarefa complexa e necessariamente coletiva, esperamos que os elementos enfocados nas próximas seções apontem nesta direção.

      http://www.revistaedugeo.com.br/ojs/index.php/revistaedugeo/article/view/747

      Questões (sala de aula)

      1. Por que a homogeneidade e localização das periferias tem sido ultimamente questionada? Apresente exemplos utilizando o espaço urbano da Cidade do Rio de Janeiro.

      2. O que são “periferias” dentro de um espaço urbano?

      3. O Estado pode melhorar a condição de vida das populações que moram nas periferias das grandes metrópoles? Exemplifique.

      4. o que são casas “autoconstruída” ?

      5. O que é migração pendular? (pesquisa)

      Prof. Luciano Mannarino.

    2. ÁFRICA – Tiroteio de trabalhadores no Zimbábue por dono de mina chinês mostra abusos ‘sistêmicos’.

      O assassinato de dois trabalhadores do Zimbábue por um encarregado chinês mostra o abuso “sistemático e generalizado” que os habitantes locais enfrentam nas operações de mineração chinesas, diz a Sociedade de Direito Ambiental do Zimbábue (ZELA).

      Em uma declaração juramentada, a polícia disse que Zhang Xuen atirou em um funcionário cinco vezes e feriu outro na mina que ele administra na província de Gweru, no centro do Zimbábue, durante uma briga com trabalhadores com salários pendentes.
      Zhang foi acusado de tentativa de assassinato, disse o porta-voz da polícia do Zimbábue, Paul Nyathi.
      De acordo com relatos da mídia local , Zhang não apresentou um argumento porque não havia intérprete aprovado no tribunal. Ele continuará sob custódia até 7 de julho, segundo o relatório.
      O tiroteio aconteceu na manhã de domingo, quando o mineiro Kenneth Tachiona confrontou Zhang depois que ele supostamente se recusou a pagar seu salário em dólares americanos, conforme combinado, de acordo com a declaração.
      Tachiona atacou Zhang, que então sacou a arma, atirando no trabalhador três vezes na coxa direita e duas vezes na esquerda, de acordo com a declaração.
      A polícia disse que Zhang disparou outro tiro contra os trabalhadores e uma das balas roçou o queixo de um membro da equipe. Os trabalhadores feridos estão sendo tratados em um hospital particular.

      Gweru na província de Midland, no Zimbábue.
      Gweru na província de Midland, no Zimbábue.

      A Embaixada da China no Zimbábue descreveu o tiroteio como um incidente isolado e disse que apoiava uma investigação aberta e transparente das autoridades locais.
      “Quaisquer atos ilegais possíveis e pessoas que violam a lei não devem ser protegidos. China e Zimbábue têm uma amizade e cooperação de longa data. Apelamos a todos os lados relevantes compromissos  para salvaguardar o bom senso”, disse a Embaixada da China em comunicado. Twitter.
      O Ministério das Relações Exteriores da China disse à CNN: “No geral, as empresas chinesas no Zimbábue operaram seus negócios de acordo com as leis e regulamentos locais, e fizeram contribuições positivas para o desenvolvimento econômico e social do Zimbábue.
      “Respeitamos o tratamento do caso no Zimbábue de acordo com a lei, mas, ao mesmo tempo, esperamos que o Zimbábue proteja a segurança, bem como os direitos e interesses legítimos dos cidadãos chineses. Existe uma amizade tradicional entre os dois países e acreditamos que ambos os lados o farão. ser capaz de lidar adequadamente com este caso “.

      Condições perigosas

      A China é o maior investidor estrangeiro do Zimbábue, com interesses significativos no setor extrativo do país.
      No ano passado, a empresa chinesa Tsignchan assinou um acordo de US $ 2 bilhões com o Ministério de Minas do Zimbábue para extrair cromo, minério de ferro, níquel e carvão, recursos vitais para a China.
      Pelo menos 10.000 chineses estão no Zimbábue e muitos estão trabalhando nos setores de mineração, telecomunicações e construção do país em uma base contratual, de acordo com um relatório da Brookings Institution de 2016 .
      Mas a presença deles no país às vezes tem sido controversa.
      As minas chinesas no país e as operações de mineração estaduais foram perseguidas com alegações de violações dos direitos humanos e más medidas de segurança para os funcionários.
      Em abril passado, trabalhadores de outra operação de mineração chinesa na província reclamaram de serem mal pagos e trabalharem sem roupas de proteção.
      Vários casos de mineradoras chinesas que se recusam a pagar salários ou fornecer a seus trabalhadores roupas de proteção, especialmente durante a pandemia de Covid-19, estão atualmente sendo investigados pela ZELA, de acordo com o vice-diretor Shamiso Mutisi.
      “Tornou-se um padrão e um sistema. Temos casos em que as mineradoras são abusadas, espancadas e discriminadas pelas mineradoras chinesas”, disse Mutisi.
      Em um comunicado divulgado na quarta-feira, a ZELA disse que os habitantes de algumas minas de propriedade chinesa geralmente operam condições “perigosas, severas e com risco de vida” , sendo mal pagos por seu tempo.
      O tiroteio de domingo é outra razão para o governo repensar seus compromissos políticos e econômicos com a China, disse o grupo.
      “Em muitas partes da África, incluindo o Zimbábue, os investidores chineses de mineração exibiram uma história de padrões ruins de segurança, saúde, meio ambiente, trabalho e direitos humanos”, afirmou o comunicado.
      A CNN entrou em contato com o Ministério das Relações Exteriores da China para comentar.

      24 corpos recuperados de mina de ouro inundada no Zimbábue
      24 corpos recuperados de mina de ouro inundada no Zimbábue
      A comunidade chinesa em Gweru se distanciou do incidente recente e prometeu pagar as contas médicas dos trabalhadores feridos e apoiar suas famílias ao lidar com o problema.

      A comunidade chinesa disse em comunicado que o incidente não reflete o comportamento de seus membros, e eles contrataram a empresa para compensar os trabalhadores.
      “Esperamos sinceramente que nossa amizade e cooperação entre os dois países e dois povos não sejam manchadas por esse incidente isolado, que não reflete o comportamento de todos nós como comunidade chinesa”, dizia o comunicado.
      (tradutor automático)
      https://edition.cnn.com/2020/06/27/africa/zimbabwe-mine-shooting-intl/index.html
      Questões
      1. Explique o interesse econômico da China na África.
      Prof. Luciano Mannarino