Médias históricas de precipitação já não servem para planejar drenagem; impermeabilização, canalização de rios e piscinões fazem parte do problema, não da solução
São Paulo, depois de Belo Horizonte e uma centena de municípios mineiros, fluminenses e capixabas, além do Reino Unido e boa parte da Europa Ocidental, estão debaixo d’água.
A península antártica, onde fica a base brasileira, registrou 18,3ºC positivos, recorde de temperatura. Suas geleiras continentais escorrem para o mar em velocidade nunca vista, como na Groenlândia.
A Austrália está em chamas. O desmatamento da floresta amazônica dobrou em janeiro, um mês em que as derrubadas são raras porque chove demais. O presidente Jair Bolsonaro e seus amigos ruralistas dizem que querem desenvolver a Amazônia e integrar os índios, mas colaboram para aniquilá-los.
Já se torna ocioso repetir que os desastres se encaixam à perfeição nas predições dos climatologistas quanto a eventos extremos decorrentes do aquecimento global turbinado pelo homem.
Entretanto, os refratários ao óbvio e os já convencidos sofrem todos as mesmas consequências. Não faltam razões para que se unam em cobrar do poder público ações mais consequentes de adaptação.
Na cidade de São Paulo, por exemplo, há 17 grandes intervenções em andamento, mas 14 delas estão atrasadas. O prefeito Bruno Covas (PSDB), cuja administração está no poder há três anos (foi vice de João Doria, atual governador tucano), culpa a gestão de Fernando Haddad (PT).
Acusa os petistas de iniciar obras sem projeto executivo. O PT diz que é mentira. Enquanto eles se entregam à discussão pueril, paulistanos se afundam em águas fétidas, carros boiam como joguetes, milhões de horas de trabalho se perdem em congestionamentos cinematográficos.
Covas, Doria e Haddad vão também culpar São Pedro? Resmungarão que choveu demais, como nunca antes, à moda do prefeito de BH e do governador de Minas?
Chuva causa alagamento na região da Ponte da Casa Verde em São Paulo (SP), nesta manhã de segunda-feira (10) – Romerito Pontes/Futura Press/Folhapress
Pois os dois problemas são precisamente esses dois: cairão chuvas cada vez mais intensas, como avisam há décadas pesquisadores do clima, e governantes continuarão tentando tirar o corpo fora e insistirão em obras erradas em sua concepção.
Predominam dois tipos básico de intervenção: canalizar córregos e rios e construir piscinões. Fundamentam-se, ambos, na pretensão equivocada de domar as águas, confinando-as em fortalezas de concreto até que sejam despejadas no canal principal de escoamento, rios como o Tietê e o Pinheiros paulistanos.
Ambos se inundaram nesta segunda-feira (10). Quando isso acontece, inverte-se o fluxo das águas retidas em tubulações, que saem pelos pontos de captação nos bueiros e bocas de lobo. Focos de alagamento se multiplicam às centenas, destruindo patrimônio dos moradores e comerciantes mais pobres.
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Alagamentos param SP após madrugada chuvosa
Alagamento no bairro da Bara Funda, em São PauloJairo Marques/Folhapress
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Uma das razões está nos projetos, que se baseiam em estimativas das ocorrências máximas de precipitação no passado. Ora, caíram sobre São Paulo 100 mm no intervalo de menos de 24 horas, cerca de um terço de tudo que choveu no mês de fevereiro todo em 2019. Em partes de BH haviam sido 170 mm em três horas.
Em outras palavras, médias históricas não servem mais para planejar a rede de drenagem. Não faz sentido continuar insistindo em represar águas, pois os engenheiros não têm chance de vencer essa luta com a mudança do clima.
Está na hora de rever os pressupostos e chamar urbanistas, climatologistas e ambientalistas para a mesa de discussão. Em lugar de construir mais pistas nas avenidas marginais, aumentando a impermeabilização do solo, que tal devolver as áreas de várzea para os rios e parar de aprisioná-los com cimento?
Empreiteiros e motoristas de carros ficarão descontentes com a mudança de mentalidade, porque terão menos oportunidades para ganhar dinheiro, com ou sem corrupção no primeiro caso, ou para escapar de transportes públicos, no segundo.
A alternativa para eles –para todos nós– é seguir aprisionados dentro de carros, emitindo gases do efeito estufa pelo escapamento, praguejando contra o trânsito e os céus, torcendo para não ser arrastado na enxurrada.
À beira da estrada, a pobreza se esconde e o crime prospera
Milhões passam diante da Vila Esperança, seus desempregados e seu esgoto aberto, mas, graças à gestora da rodovia dos Imigrantes, não a veem.
24.jul.2017 – 02h00
Duas vezes por semana, a dentista Mariana Salgado, 39, passa de carro ao lado do muro de concreto que foi construído na altura do quilômetro 58,5 da rodovia dos Imigrantes, em Cubatão (SP). Quando ela está se aproximando, fica nervosa, acha que alguém vai aparecer de repente, com uma arma na mão. “Não faço a menor ideia do que tem atrás desse muro”, diz a dentista, que mora em Santos e atende em São Paulo às terças e quintas-feiras. “Só sei que duas amigas minhas foram assaltadas aí.”
Assim como Mariana, centenas de milhares de paulistas de classe média descem para o litoral pela Imigrantes, onde o pedágio é de R$ 25,60, e não sabem o que existe atrás daquele muro de 3 metros de altura, 25 centímetros de espessura e 1 quilômetro de extensão, construído pela Ecovias em maio de 2016.
O muro separa os turistas dos cerca de 25 mil habitantes de Vila Esperança, favela onde 12% da população não tem nenhuma renda, 14% ganham até um salário mínimo, e todos despejam seu esgoto no rio que deságua nas praias frequentadas pelos paulistas de classe média.
Só nesse trecho de um quilômetro, houve sete assaltos em 2015, um assalto e um latrocínio em 2016 e um assalto e uma tentativa em 2017, diz a polícia rodoviária. Segundo a Ecovias, o objetivo do muro é “melhorar as condições de segurança pública da rodovia”.
Crianças brincam em Kombi abandonada debaixo de viaduto da rodovia dos Imigrantes na comunidade de Vila Esperança, em Cubatão (Lalo de Almeida/Folhapress)
O trecho também recebeu reforço na iluminação, e foram instaladas novas câmeras para utilização pela polícia. A favela é controlada pelo tráfico de drogas. O murou pegou os moradores de Vila Esperança de surpresa. De um dia para o outro, começou a construção. Ninguém avisou.
“Esse muro aí, é para proteger os turistas, né? Mas e a gente? Era por lá que a gente passava para vender na pista”, diz a potiguar Luzia Gonçalves da Silva, 54. Para ela, a barreira só atrapalhou. Luzia vendia água, refrigerante, biscoito de polvilho e salgadinho sabor bacon na pista. Da janela de casa, via a estrada -se estivesse congestionada, ela comemorava.
Enchia o isopor de mercadorias e ajeitava no carrinho de mão. Chegou a virar noite vendendo na pista, em engarrafamento de Ano Novo. Luzia foi obrigada a desistir do trabalho de ambulante. Por causa do muro, o caminho até a estrada ficou mais longo, e ela não aguenta puxar o carrinho pesado na lama. De qualquer jeito, nem adianta chegar lá, porque o guarda manda voltar.
Abriu então o Bar da Sofrência embaixo do viaduto no bairro e vende a dose de pinga a R$ 2 e a de conhaque a R$ 2,50. “Mas o movimento está fraco. Quem vai comprar se ninguém tem emprego e os bêbados só pedem fiado?”
Luzia migrou do Rio Grande do Norte para Cubatão aos 13 anos, no auge do “milagre econômico” da ditadura militar. Naquela época, várias indústrias se instalavam na cidade. Ela foi trabalhar na feira em Vila Parisi, bairro de baixa renda que ficou conhecido como o coração do Vale da Morte depois que 37 crianças nasceram sem cérebro, por causa da alta concentração de poluição.
Sebastião Ribeiro, chamado de Zumbi, batizou de “muro da vergonha” a barreira de concreto construída pela Ecovias. “Quando não sabem o que fazer, constroem um muro e acham que resolveram o problema”, diz.
“São mais de 20 mil moradores pagando pelo que uns poucos fizeram.”
Vila Esperança nasceu em 1972, com o início da construção da rodovia dos Imigrantes. Parte dos operários que trabalhavam nas obras da estrada construiu seus barracos ou palafitas no mangue, que é área de proteção ambiental.
Zumbi veio do Maranhão em 1980 e se instalou em um barraco com a mãe e seis irmãos. Nos anos 90, com a crise econômica, a população da favela explodiu porque muita gente no polo industrial perdeu o emprego e acabou na invasão.
O maranhense, que hoje tem 47 anos, cresceu vendendo água mineral e cocada na Imigrantes com a mãe. Formou-se em Direito aos 44 e hoje é o principal líder comunitário de Vila Esperança, além de ser secretário de assistência Social de Cubatão. Fundou uma ONG que troca material de reciclagem por uma moeda chamada “mangue”, que pode ser usada na lojinha da organização e em estabelecimentos locais.
Segundo Zumbi, a comunidade também tem seu muro do orgulho, que foi construído pela ALL Logística (atualmente Rumo) para separar a ferrovia da favela e, assim, evitar acidentes.
Quando duplicou a estrada de ferro, a Rumo se comprometeu com algumas medidas compensatórias para conseguir a licença ambiental. Asfaltou a via principal, construiu passarelas, reformou a ONG e equipou uma sala de informática com 18 computadores. Além disso, o muro de 3,5 quilômetros vai sendo aos poucos grafitado por moradores de Vila Esperança, que aprendem com o grafiteiro Tuim, de uma favela próxima.
“Qualquer obra cria transtorno para a população, por isso fizemos uma aproximação com a comunidade e identificamos projetos existentes para mitigar impactos da duplicação da ferrovia”, diz Silvia Mari Azuma, coordenadora de licenciamento ambiental da Rumo.
A Ecovias diz que sua responsabilidade se limita à ampliação, conservação, manutenção e operação das rodovias. “Assuntos relacionados à comunidade são de responsabilidade do poder público”, afirma a empresa. De fato, segundo a Artesp, agência regulatória de transporte do Estado, a construção do muro não exigia licença ambiental, portanto não houve medidas de compensação.
Isso não amansa os críticos. “Em pleno século 21, construíram um muro de apartheid para isolar os pobres”, diz o prefeito de Cubatão, Ademário Oliveira. “Deviam ter investido o dinheiro em moradia, água e saneamento na comunidade.” A Ecovias gastou R$ 14,4 milhões com o muro e as outras medidas de segurança.
Moradores da Vila Esperança, em Cubatão, fazem grafite em muro que separa a comunidade de linhas do trem (Lalo de Almeida/Folhapress)
Para a vasta maioria da população que não tem nenhuma esperança de sair da Vila, o muro não faz diferença. “Não tenho nem o que falar sobre esse muro aí, para mim tanto faz como tanto fez”, diz Carlos Alexandre Vieira de Lima, o Xambito, 23.
Às 15h de uma segunda-feira, o campinho de futebol sob o viaduto de Vila Esperança está lotado de jovens descalços disputando o clássico Dois Poste contra Santa Cruz. Ninguém tem emprego. Xambito é um deles. “Antes tinha bico de pedreiro, R$ 60 reais o dia mais o rango, e na feira era R$ 50 no sábado, R$ 50 no domingo e trazia uns legumes. Agora não tem nada.”
A mãe de Xambito é viciada em crack. Ficou três anos presa depois de tentar assassinar o marido alcoólatra colocando chumbinho (veneno de rato) no café dele. A irmã de Xambito também é viciada em crack e se prostitui. O pai dele matou um homem, está preso e não vê Xambito há mais de 15 anos.
“Minha mãe nunca trabalhou; pedra, cachaça e pó acabaram com a vida dela. Quando eu falo com ela não sai mais nenhuma lágrima, entreguei na mão de Deus”, diz ele. “Se a senhora visse, a pele da minha mãe está meio branca, meio preta, aconteceu alguma coisa, está feia demais a minha mãe, a pedra acaba com a pessoa.”
Gato ao lado de palafita construída sobre mangue na comunidade de Vila Esperança, em Cubatão (Lalo de Almeida/Folhapress)
Xambito precisa pagar pensão para seu filho de três anos, mas não quer voltar para a “vida errada”, como diz. “Eu tinha uns 16 anos quando entrei na vida louca. Quando a gente arrumava um trabalho, saía, aí quando nós estávamos na “precisão” de um dinheiro, entrava de novo na vida errada”, conta.
“Essa vida errada aí, biqueira [ponto de vendas de drogas], tráfico, só tem dois caminhos: cadeia ou morte; não quero nenhum desses dois, quero ver meu filho crescer, botar ele pra jogar bola, pra estudar”, diz Xambito, que anda pela favela com uma caixinha de som tocando o sertanejo Felipe Araújo. Ele está correndo atrás de um “serviço fichado” (registrado). Já foi várias vezes aos pátios das fábricas em Cubatão, mas diz que aparecem dez vagas para 500 pessoas. “Só com ajuda de Deus para ser chamado, é muita gente desempregada.”
Na Vila, apenas 24% dos moradores concluíram o ensino médio. Xambito parou no quinto ano e já tentou voltar a estudar várias vezes. “É preciso ter força, né, porque chega dois meses, três meses, fica cansativo; começo a fumar maconha, fico boladão e volto para casa.”
Fumar, jogar bola e tomar emprestado o wi-fi do barraco vizinho para entrar no WhatsApp e no Facebook –é esse o dia a dia de Xambito e da maioria de seus amigos em Vila Esperança. “Queria mudar minha vida, está difícil pra caramba.” Ele já tentou a religião. “Já fiquei dois, três meses indo à igreja, louvava tremendamente, mas somos falhos, né, parei de ir e entrei de novo nas paradas.”
Na comunidade de Vila Esperança, operários que trabalhavam nas obras da rodovia dos Imigrantes construíram barracos ou palafitas sobre o mangue (Lalo de Almeida/Folhapress)
No lado pobre do muro, oportunidade é coisa rara. “A gente acorda e fica pensando, caramba, e agora, como eu vou arrumar dinheiro, eu vou roubar? O que eu vou fazer? Eu penso nisso, em roubar, não posso falar que não penso. Mas sei que, se fizer isso, posso voltar ou não voltar pra casa.”
Xambito diz que não quer sucumbir à vida errada. Mas a tentação é grande. “Na vida errada, a gente sai com um dinheirinho legal, mano.” No dia 27 de maio de 2016, o estudante Reinaldo Lima de Souza, 17, morreu na altura do quilômetro 59 da Imigrantes. Durante uma tentativa de roubo, Reinaldo foi atingido por uma pedra no rosto que atravessou o para-brisa do carro onde ele estava.
O muro de concreto de três metros de altura construído pela Ecovias já estava lá, isolando Vila Esperança.
1. Quais foram as principais características do muro construído pela Ecovias na Rodovia dos Imigrantes e qual foi o objetivo oficial declarado pela empresa para a sua construção?
2. De que maneira a construção do muro afetou a economia informal dos moradores de Vila Esperança?
3. O muro realmente contribuiu para a redução da criminalidade na região? Justifique sua resposta com base nas informações do texto.
4. Como a construção do muro pode ser interpretada como uma forma de segregação social? Cite exemplos do texto.
5. Segundo o texto, qual é a posição da Ecovias em relação às responsabilidades sociais e ambientais? Como isso reflete nas ações da empresa?
6. Quais são os problemas ambientais enfrentados pela comunidade de Vila Esperança, conforme mencionado no texto?
7. Como a falta de consulta à comunidade local durante a construção do muro impactou os moradores de Vila Esperança?
8. De que forma os moradores de Vila Esperança utilizam o grafite como forma de resistência e expressão cultural?
9. Considerando os impactos descritos no texto, quais medidas poderiam ser adotadas para promover um desenvolvimento mais sustentável e inclusivo na região?
10. Compare a situação de Vila Esperança com outro caso de construção de barreiras urbanas no Brasil ou no mundo. Quais semelhanças e diferenças você identifica?
Cidade busca impedir que pessoas mais pobres tenham de deixar bairros com alta procura
Melissa Eddy
BERLIM | THE NEW YORK TIMES
Os preços dos aluguéis de mais de 1,5 milhão de apartamentos em Berlim serão congelados ou reduzidos por cinco anos, graças a uma nova legislação que visa frear uma alta recente dos aluguéis que vem expulsando moradores mais velhos ou de renda mais baixa.
Aprovada por legisladores na quinta-feira (30/1) e prevista para entrar em vigor em março, a medida é uma tentativa do governo de esquerda berlinense de barrar o processo de gentrificação de uma cidade que ficou famosa por seu cenário criativo, mas está sentindo a pressão de investidores imobiliários e de projetos de infraestrutura.
Bonecos e cartazes de protesto contra a alta do preço dos aluguéis em Berlim – Hannibal Hanschke – 23.fev.2019/Reuters
“Criamos um instrumento que vai sustar o movimento ascendente absurdo dos preços pelos próximos cinco anos”, anunciou Katrin Lompscher, senadora responsável pelo desenvolvimento e vida urbana de Berlim, em coletiva de imprensa na sexta-feira. “Cabe aos políticos criar as condições básicas para permitir que pessoas de renda mais baixa e de classe média continuem a poder viver em Berlim.”
Viver em imóvel alugado é mais comum na Alemanha do que em casa própria; mais de metade dos habitantes do país aluga o imóvel em que vive. Apenas 18% dos 3 milhões de habitantes de Berlim têm casa ou apartamento próprio.
A nova lei não permite que a maioria dos aluguéis na cidade custe mais do que em 2019 e limita o valor que pode ser cobrado, com base na condição do imóvel e suas instalações.
Críticos da medida dizem que ela vai dificultar o crescimento muito necessário do mercado imobiliário e afastar empresas dispostas a construir unidades habitacionais de custo acessível numa cidade que, conhecida nos anos 1990 por seu cenário “pobre, mas sexy” de festas e clubes, desde então tornou-se uma capital europeia que passa por transformações velozes.
Empresários do setor imobiliário e membros do partido conservador da chanceler Angela Merkel ameaçaram contestar a lei. Segundo eles, a medida viola a constituição alemã, que estipula que os aluguéis são determinados pelo governo federal.
“O teto imposto aos aluguéis equivale a uma desapropriação. É uma catástrofe para o mercado imobiliário berlinense”, disse Jürgen Michael Schick, presidente da Associação Imobiliária da Alemanha. Desde que a medida que impõe um teto aos aluguéis foi proposta pela prefeitura de Berlim, no ano passado, a entidade vem avisando sobre seus potenciais efeitos negativos.
Berlim
Antena de TV na praça Alexander Platz, o ponto mais alto da cidade de BerlimFabio Schivartche/Folhapress
“Limitar e reduzir a receita obtida de aluguéis vai gerar incerteza para investidores e desencorajar os investimentos no setor”, disse Schick.
Para Lompscher, o objetivo não é sustar o crescimento do parque habitacional, mas reduzir a pressão financeira sobre os inquilinos enquanto empreendedores imobiliários e autoridades municipais facilitam a construção de mais unidades habitacionais. Berlim, capital da Alemanha, tem planos para construir mais de 60 mil apartamentos adicionais nos próximos anos, disse a senadora, muitos dos quais serão imóveis de preço mais acessível.
Após a queda do Muro de Berlim, em 1989, a cidade reunificada se viu com um excedente de apartamentos, muitos dos quais de propriedade do estado. Em um esforço para gerar recursos urgentemente necessários para custear a reunificação de Berlim oriental e ocidental, muitos imóveis foram privatizados.
Investidores imobiliários estrangeiros não demoraram a entender o potencial de crescimento que havia em Berlim – onde os aluguéis ainda custam significativamente menos que em Londres, Paris ou Roma— e começaram a comprar e reformar apartamentos. Também começaram a cobrar aluguéis mais altos.
Ao mesmo tempo a população de Berlim continuou a crescer. Entre 2012 e 2017 a cidade ganhou 250 mil habitantes a mais, segundo cifras oficiais.
Esse conjunto de fatores levou a uma alta nos preços dos aluguéis, especialmente nos bairros mais procurados. Em 2017, Berlim foi a única grande cidade do mundo em que os preços dos imóveis subiram mais de 20% em relação ao ano anterior, e os aluguéis acompanharam essa alta.
“Três milhões de inquilinos em Berlim vão se beneficiar da medida”, disse Iris Spranger, porta-voz para assuntos habitacionais em Berlim do SPD, um dos partidos governistas que aprovou a lei.
“Após uma fase prolongada de aumentos galopantes, os aluguéis agora serão congelados”, ela disse. “É mais do que necessário.”
‘Se a água bruta está cada vez mais poluída, vai chegar em um ponto que você não vai conseguir tratar’, destacou engenheiro sanitarista da Uerj. Imagens aéreas mostram o problema.
Por Diego Haidar, RJ1
Um especialista em engenharia sanitária sobrevoou na manhã desta quinta-feira (9) os principais mananciais que fornecem água para a Estação do Guandu, responsável pelo abastecimento de grande parte do Rio. Ele alertou para o problema do aumento da poluição e como isso pode comprometer a qualidade da água que chega à capital fluminense.
Em Barra do Piraí, o Rio Paraíba do Sul, de onde vem 90% da água do Rio Guandu, a aparência é barrenta.
“Essa água indica altíssima poluição. A gente vê, bem claramente, o alto grau de degradação da bacia, com ocupação das faixas marginais, desmatamento. A água vai passando pelas cidades e você vê as manchas de poluição entrando no rio. E lamentavelmente esta é a água que estamos bebendo”, destacou Adacto Ottoni, professor e engenheiro sanitarista da Uerj.
O Instituto Estadual do Ambiente (Inea) informou que a ocupação do solo e a gestão do esgotamento sanitário é de competência dos municípios.
Água barrenta no Rio Paraíba do Sul, no RJ — Foto: Reprodução/ TV Globo
No Rio Guandu, a água represada antes do tratamento não possui condições melhores. Há sinais de esgoto e lixo lançados na água.
O Rio Ipiranga, que é um dos que deságuam na lagoa do Rio Guandu, também tem uma coloração que indica problemas. “É esgoto bruto, olha a cor preta”.
O mesmo problema foi encontrado na água vinda do Rio Queimados.
“É a entrada de esgoto com muita matéria orgânica, e a gente vê também, como consequência disso, a coloração altamente esverdeada dessa lagoa, pois esse esgoto se transforma em alimento para as algas”, ressaltou Ottoni.
Água represada do Rio Guandu antes do tratamento — Foto: Reprodução/ TV Globo
Imagens aéreas mostram bastante lixo no leito dos rios. Os micro-organismos presentes na água, por causa dos detritos, comprometem a qualidade que chega à captação da Cedae.
“Tem que pegar aquela água bruta e transformar em água potável. O problema é que, se a água bruta está cada vez mais poluída, vai chegar em um ponto que você não vai consegui tratar”, disse o professor.
Sobre os problemas recentes na qualidade da água que chega às casas do Rio de Janeiro, o especialista pede transparência e cuidado.
“Pode ter havido várias coisas e só vamos saber com um monitoramento preciso e diagnóstico preciso para comprovar para a sociedade que a água realmente está segura”, finalizou.
RIO – Uma bandeira do Brasil ficou jogada no chão da sala de aula vazia. Nas paredes, restaram um “a-e-i-o-u” recortado em cartolina, desenhos de crianças e uma carta de Feliz Natal, de dezembro de 2016. Aquele foi o último mês em que a Escola Municipal Boa Sorte, numa área agrícola de mesmo nome em Cachoeiras de Macacu, abriu suas portas aos estudantes. Desde então, tomado pelo mato, o colégio entrou para as estatísticas de um desmonte da educação nas zonas rurais do Rio , que perderam 232 unidades de ensino de 2010 a 2018, segundo o mais recente Censo Escolar .
No começo da década, eram 1.192 colégios, dos quais restaram 960 no ano passado, uma redução de 19,5%. De uma ponta à outra do estado, as construções abandonadas são um reflexo do êxodo rural que transforma regiões inteiras em despovoados sertões fluminenses, com número reduzido de alunos. Ao mesmo tempo, a falta de escolas contribui para o adeus de muitas famílias à roça.
— Agora, toda criança e adolescente daqui estuda fora — conta Rafael Vasconcelos, de 16 anos, ex-aluno da Boa Sorte. — Um ônibus escolar pega os que não foram morar na cidade. Só que, às vezes, ele não passa, porque não tem óleo, ou quebra no caminho. Nos dias de chuva, com a estrada barrenta, o motorista também não vem.
Num outro rincão do município, a Escola Estadual Faraó de Cima também fechou, e o terreno foi cercado por um muro, incorporado às terras do contraventor Luiz Pacheco Drumond, patrono da Imperatriz Leopoldinense. Os pequenos frequentam uma escolinha na localidade do Faraó de Baixo. Os mais velhos estudam na área urbana. E dependem de uma linha regular de ônibus, com para-choque quebrado e pneus carecas, que assim como acontece em Boa Sorte, às vezes nem circula.
José Carlos Belgone mora em colégio desativado, em Santo Antônio de Pádua: livros apodrecem Foto: Antonio Scorza / Agência O Globo
A bordo dele, desde os 10 anos, Roselene do Espírito Santo, hoje com 18, vai à escola. São 30 a 40 minutos sacolejando. Mas, para ela, essa é apenas uma etapa da viagem. Até chegar ao ponto de ônibus, a jovem caminha uma hora por uma estrada de chão na montanha. Para dar tempo de tudo, Roselene acorda de madrugada, às 4h30m, e desce a colina ao amanhecer, às vezes, em meio a uma intensa neblina.
— É exaustivo. Pior quando o ônibus não passa na volta para casa. O jeito é pedir carona ou fazer todo o trajeto a pé, o que dá umas duas horas e meia — diz ela, que sonha em ser veterinária.
Apenas em Cachoeiras de Macacu, são cerca de 20 escolas municipais ou estaduais desativadas. Mas não é o único cemitério de colégios no estado. Na última década, em 60 dos 92 municípios fluminenses, houve redução no número de escolas rurais. Em Aperibé, Laje do Muriaé e Macuco, todas foram extintas.
Secretário de Articulação da União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Lenine Lemos, que também comanda a Educação em Queimados, diz que o fechamento dessas unidades vem ocorrendo desde a criação do programa federal Caminho da Escola, em 2007, para financiar a compra de ônibus escolares. O objetivo era que nenhuma criança ficasse fora da sala de aula. Para muitos gestores, tornou-se menos custoso bancar esse transporte.
— Manter escola com poucos alunos em uma área rural é mais caro — diz Lemos, que defende, no entanto, o ensino no campo. — Em Queimados, fizemos uma parceria com a Universidade Federal Rural do Rio (UFRRJ) para capacitar professores com intuito de ensinar às crianças temas que fazem sentido para elas no meio rural. Isso ajuda a mantê-las na região em que nasceram.
No entanto, é uma tarefa que tem sido complicada. Segundo os últimos dados disponíveis do IBGE, em 2015 o Rio tinha 437 mil moradores nas zonas rurais (2,6% da população total e 21% a menos do que duas décadas antes, quando eram 555 mil). A queda é ainda mais acentuada se considerada apenas a população de 5 a 14 anos: diminuiu quase à metade no período, de 117 mil em 2005, para 58 mil em 2015.
Uma aluna residente em Farao, Cachoeiras de Macacu, caminha pela estrada de volta a casa observada por colegas que usam o transporte escolar. No município, são cerca de 20 escolas municipais ou estaduais desativadas, segundo o mais recente censo escolar do estado Foto: Antonio Scorza / Agência O Globo
Perto da divisa com Minas Gerais, Arapongas, em Santo Antônio de Pádua, no Noroeste Fluminense, vive um processo de esvaziamento. Lá, sobraram apenas 12 moradores. Os que permaneceram plantam para a subsistência e quase não têm água para a lavoura porque os poços praticamente secaram.
Ali, a Escola Municipal Crispim Pereira Gabry foi uma das nove fechadas em Pádua. Em seu último ano de funcionamento, tinha apenas três alunas. Duas delas eram as netas de José Carlos Belgone, de 66 anos, que, há 13, mora em uma ala do colégio que já não era utilizada. Em troca, cuidava do prédio. Quando os estudantes se foram, há cerca de cinco anos, ele ficou por lá sozinho, com a mulher, dona Maria Madalena Belgone. E nunca mexeu em nada que foi deixado para trás pela prefeitura.
Até rolos de papel higiênico deixados na dispensa apodrecem numa sala de aula, junto a livros, carteiras empilhadas e um velho quadro negro. Trancado, o lugar está cheio de casas de marimbondo.
— Todas as minhas netas estudaram aqui, antes de irem embora. A mais velha já faz faculdade — diz Seu José, que apoiou a decisão da família de ir embora. — As pessoas não sabem, mas passamos muito aperto na roça.
Em São Germano, ainda em Pádua, os dez irmãos de Marlene de Oliveira Eccard, de 60 anos, também deixaram o campo. Só ela resistiu. Seu sogro deu nome à Escola Municipal Anacleto Eccard Junior, onde ela trabalhou como servente por 28 anos. Quando o colégio fechou, em 2017, ela e as crianças da vizinhança foram transferidas para uma unidade urbana. Marlene tem certeza de que, sem escolas, é difícil conter o êxodo rural:
— Antes de o colégio fechar, os pais já vinham botando os filhos na cidade, porque aqui só havia uma professora, com um salário muito baixo, que também era a diretora.
Na sexta-feira, O GLOBO não conseguiu contato com a prefeitura de Pádua. Em Cachoeiras de Macacu, o secretário de Educação, Rui Dias, afirma que os alunos de escolas desativadas foram remanejados. Sobre a Boa Sorte, ele diz que não houve pedidos de matrícula em 2017.
Questões
O que é se entende por êxodo rural?
Por que em Santo Antônio de Pádua, no Noroeste Fluminense, observa-se um processo de esvaziamento de sua população rural?
Qual a iniciativa da UFRRJ para manutenção da população rural no campo?
O que vem acontecendo com os prédios de escolas abandonadas?
De que forma programa federal Caminho da Escola contribuiu para o fechamento de unidades de ensino no campo? E quais são as reclamações recorrentes no uso desse programa?