– We really didn’t have anything. They were good times even with all those limitations.-
– Mama, I don’t remember you complaining about the life we had
Textos produzidos

– We really didn’t have anything. They were good times even with all those limitations.-
– Mama, I don’t remember you complaining about the life we had

Tive uma infância muito limitada. Meu pai ganhava a vida como engraxate. Tinha uma banca na Av. Pres. Vargas (Rio de Janeiro) e era lá que ele ganhava o sustento da nossa família. Não tínhamos geladeira e nem televisão (se bem que nas décadas de 1960 e 1970 não era muito comum a presença desses dois eletrodomésticos numa casa). Dormíamos por volta das 20:00 horas sem muito o que fazer. No entanto, tínhamos um chuveiro elétrico!
Sim, um chuveiro velhinho e barulhento que sempre apresentava defeitos, mas nunca deixou de funcionar, pois meu pai, como um relojoeiro suíço, tinha uma enorme paciência para consertá-lo. Me lembro um dia que chegou do trabalho e ficou até altas horas sobre um amontoado de peças para procurar o defeito. Eu nunca entendia aquilo, afinal eram tantas carências. Essa obsessão do meu pai, em relação ao chuveiro elétrico, é uma das lembranças marcantes que eu tenho da minha infância.
Bom, há pouco tempo conversando com minha mãe sobre esse nosso passado.
– É realmente não tínhamos nada. Eram bons tempos mesmo com todas aquelas limitações.
– É verdade, a Senhora nunca reclamou da vida que tínhamos.
– Bom, seu pai nunca deixou faltar o único conforto que pedi quando nos casamos.
– Qual?
– Ter água quente no chuveiro. Ele sempre soube que eu odiava tomar banho frio!
Luciano Mannarino.
#geoverdade

Arco-Íris
— Vejam uma das mais belas ilusões óticas da natureza: um arco-íris. Ele está lá, mas só podemos enxergá-lo de uma determinada perspectiva. Ele existe e não existe ao mesmo tempo.
A professora de ciências abriu as janelas da sala, deixando o cheiro da chuva entrar. As gotas ainda escorriam pelo vidro, e o ar abafado contrastava com a brisa fria que vinha de fora.

— A perspectiva é essencial para contemplar esse fenômeno — continuou ela. — Assim como muitas coisas na vida, só o vemos quando estamos na posição certa.
Essa ideia me acompanhou durante todo o caminho de volta para casa.
“Quantas coisas maravilhosas existem ao nosso redor sem que as percebamos?
A chuva voltou a cair quando cheguei em casa estava completamente ensopado.
— Você vai acabar pegando um resfriado! Fique aqui, vou pegar uma toalha para te secar. O lanche está na mesa.
Minha mãe sempre teve sete cores.
(parte do livro que estou escrevendo “memórias do lugar”)
Prof Luciano Mannarino


A parte da rua onde as partidas eram realizadas com seus buracos no chão, calçadas irregulares, paralelepípedos, postes, pessoas e carros que passam etc., torna o futebol um jogo peculiar – quem já esteve de cara para o gol e foi obrigado parar a bola para uma kombi passar sabe o que estou falando.
É nesse pequeno universo que sentimentos e aptidões são desenvolvidos e exercitados. A rivalidade, a solidariedade, o oportunismo, a superação, o esforço, a vitória, a derrota, enfim turbilhões de emoções que cada jogo oferece – Acredito que seja possível conhecer muito sobre nós mesmos e sobre as pessoas durante um simples jogo de futebol.
É uma escola, no entanto, no meu caso, teve um fim melancólico. É que no final da rua onde vivi começaram a construir um condomínio de seis prédios com dez andares cada um. Sabíamos que isso poderia afetar nossas partidas, porém continuávamos a jogar mesmo com passagem constante de caminhões.
Mas na semana seguinte, após a entrega das chaves dos apartamentos, tudo mudou. O quarto automóvel que passou, com alguns minutos de jogo, descortinou o obvio: Havíamos perdido nosso “campo” de futebol. Ficou inviável.
Olhamos uns para os outros e resignados, sem dizer uma palavra, cada um foi para sua casa e nunca mais voltamos a jogar na rua. Fiquei sozinho com a bola sobre meu pé refletindo sobre a perda do meu laboratório de sentimentos até que uma buzina e uma bronca interromperam minha melancolia.
“Sai da rua seu maluco! Quer morrer???”
(memórias do lugar)
Professor Luciano Mannarino


Era uma manhã fria de inverno quando três viaturas da PM e uma Van entraram no pátio da ETEAB (Escola Técnica Estadual Adolpho Bloch) provocando um certo espanto em todos os alunos, funcionários e professores.
Um oficial saiu de uma das viaturas e rumou prontamente para a andar da direção. Alguns minutos depois todos ficamos sabendo que o governador do Estado do Rio de Janeiro usaria o campo de futebol do para pousar seu helicóptero, pois inauguraria um curso de capacitação na comunidade da Mangueira que fica bem próxima.
Isso despertou a fúria do grêmio estudantil que há tempos reclamava das condições da unidade junto a SECTI (Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia) e nunca foram ouvidos. Acharam isso uma afronta.
Após uma breve reunião, os alunos decidiram que iriam cercar a aeronave para bloquear o acesso do governador e só liberar depois de todas as reivindicações ouvidas e estavam dispostos a enfrentar a PM se fosse o caso. Alguns colegas professores tentaram ponderar, mas eles estavam decididos e só restou acompanhar o desenlace numa das janelas.
As 9:00 em ponto, apontou no horizonte o tal helicóptero que, após algumas manobras de aproximação, posou suavemente no campo. Quando as hélices davam as últimas voltas a aeronave foi cercada por dezenas alunos diante de atônitos policiais militares. O impasse estava armado.
Foram vários minutos até que um ajudante de ordem do governador saiu para falar com diretor do grêmio. Uma breve conversa e ele voltou para o aparelho e mais alguns minutos se passaram até que finalmente o governador apareceu e, com um largo sorriso, acenou e caminhou em direção aos alunos.
Foi logo cercado, e após gestos, falas, todos os alunos comemoraram, o abraçaram e fizeram questão de escoltá-lo até um furgão que o esperava.
Foi uma rápida inauguração, o governador voltou e antes de entrar no helicóptero, mais acenos que foram respondidos com uma calorosa salva de palmas. O aparelho levantou voo e desapareceu no horizonte.
Achei tudo aquilo muito estranho, dado aos ânimos exaltados e assim que pude fui até o grêmio para saber sobre o encontro.
– Afinal, o que aconteceu lá embaixo?
Perguntei…
– Professor, na realidade o governador fez o pouso de maneira intencional, ele queria saber das reais necessidades dos alunos junto a Secretária. Foi uma decisão dele. Queria falar com a gente diretamente. Nos ouviu e exigiu uma relação de todas as carências e necessidades. Entregamos uma lista suas mãos quando ele voltou da inauguração. Ele foi super atencioso!
Os meses se passaram e nenhuma das propostas foram atendidas.
O político só queria usar o campo de futebol como heliporto.
Prof Luciano Mannarino