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  • Investimentos na matriz eólica superam R$ 187,1 bi na última década

    Investimentos na matriz eólica superam R$ 187,1 bi na última década

    Fonte de energia ganha competitividade no país com preocupação ambiental

    17.jul.2021 às 23h15

    Luis Henrique Gomes

    NATAL

    Quando o primeiro leilão de energia eólica foi feito no Brasil, em 2009, só 0,5% da capacidade de geração de eletricidade do país tinha essa origem. Passados 12 anos, esse percentual cresceu para 10,6%, com investimentos no país que somam US$ 35,8 bilhões entre 2011 e 2019, segundo os cálculos da Bloomberg New Energy Finance. A quantia corresponde a R$ 187,1 bilhões em valores atuais.

    Com esse crescimento, numa década em que o mundo se comprometeu em reduzir a emissão de carbono, a matriz eólica se tornou uma fonte de energia competitiva no Brasil e tem a seu favor o financiamento de bancos internacionais que buscam cumprir as metas do Acordo de Paris, realizado em 2015.

    Somente no Rio Grande do Norte, o estado que mais produz esse tipo de energia no Brasil hoje, mais de R$ 15 bilhões foram investidos em parques eólicos.

    Parque eólico da Neoenergia, localizado em Rio do Fogo, no litoral do Rio Grande do Norte, estado com maior produção de energia eólica no Brasil
    Parque eólico da Neoenergia, localizado em Rio do Fogo, no litoral do Rio Grande do Norte, estado com maior produção de energia eólica no Brasil Alex Régis/Folhapress

    O primeiro foi instalado pela Neoenergia em 2006, no município de Rio do Fogo, distante 80 quilômetros de Natal, com capacidade de 28 MW (megawatts). Hoje, o estado possui uma capacidade de 5.266 MW instalados, em mais de 180 parques.

    Além dos investimentos, empresas têm buscado cada vez mais adquirir energia gerada em parques eólicos, de acordo com a presidente da Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica), Elbia Gannoum. Em 2020, cerca de 3 GW (gigawatts) foram comprados por companhias.

    Dois fatores contribuem para isso: a perspectiva de uma energia mais limpa, com menos passivos ambientais, e o preço competitivo.

    “Hoje a energia eólica é a mais barata do país. Por isso, a perspectiva é que os investimentos aumentem nos próximos anos”, diz Gannoum.

    Segundo a presidente da Abeeólica, o Brasil já está entre os países com as matrizes energéticas mais limpas do mundo, mas o setor eólico continuará em expansão. Os investimentos até 2029 devem chegar a R$ 72,3 bilhões.

    “O Brasil tem a melhor posição do mundo em energia porque é o país mais rico em recursos renováveis”, diz ela.

    https://www1.folha.uol.com.br/mpme/2021/07/investimentos-na-matriz-eolica-superam-r-1871-bi-na-ultima-decada.shtml

    Questão

    Explique as condições climáticas que torna o nordeste um grande produtor de energia elétrica a partir de fontes renováveis.

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  • Amazônia: soberania e direito amazônico

    Amazônia: soberania e direito amazônico

    Cooperação entre Estados amazônicos deve servir para facilitar o cumprimento da responsabilidade sobre o território

    13.jul.2021 às 9h30

    Oito países soberanos estão reunidos em torno da bacia amazônica, do Amazonas, o coração da América do Sul. Esses oito Estados, todos vizinhos da imensa floresta comum, atravessados por rios que correm de todas as partes para o grande rio mãe –e que constitui a avenida do interior da América do Sul para o Oceano Atlântico–, são os administradores do que para muitos são os pulmões do mundo.

    Junto a eles, num canto da Amazônia, existe também um “território ultramarino” sob a soberania francesa. A riqueza da diversidade natural da Amazônia não foi totalmente quantificada, nem foi avaliado o seu potencial para o desenvolvimento dos Estados vizinhos. É um território tão grande –mais de sete milhões e meio de quilômetros quadrados– e tão difícil acesso em muitas partes que ainda se pode falar de “pontos brancos” no mapa da Amazônia e de populações que o ocupam e que provavelmente ainda não tiveram contato com a “civilização ocidental”. Populações localizadas em regiões que, na sua maioria, não foram capazes de se incorporar nos processos socioeconômicos dos respectivos países da zona e cujo potencial turístico ainda não foi descoberto.

    Há quarenta anos, muito antes do debate de posições em torno da Amazônia, o desenvolvimento sustentável, as alterações climáticas e o futuro do planeta e da humanidade se tornassem tão públicos e globais, e muito antes dos terríveis incêndios de centenas de milhares de hectares no lado brasileiro durante 2018, os oito países soberanos da Amazônia assinaram (em 3 de julho de 1978, Brasília) o Tratado de Cooperação Amazônica (TCA).

    O POTENCIAL DE DESENVOLVIMENTO DA AMAZÔNIA

    Os países ribeirinhos perceberam que o verdadeiro potencial para o desenvolvimento racional da Amazônia e a conservação da ecologia da área eram dois fatores que estavam do mesmo lado da equação, e que não era possível alcançá-los sem um esforço conjunto e coordenado no exercício da soberania territorial e sem uma gestão alinhada das políticas de todos os Estados envolvidos. Havia, na altura, um sentimento de responsabilidade partilhada inerente à soberania de cada um dos Estados da Amazônia. A cooperação entre os Estados amazônicos deve servir para facilitar o cumprimento dessa responsabilidade, tal como se afirma no próprio TCA

    Morador rural do município de Claudia no estado de Mato Grosso acompanha a operação de combate ao fogo, queima ilegal em uma área de Reserva Ambiental, durante expedição da Rainforest Foundation para monitorar a produção de soja no Brasil e sua relação com o desmatamento.
    Morador rural do município de Claudia no estado de Mato Grosso acompanha a operação de combate ao fogo, queima ilegal em uma área de Reserva Ambiental, durante expedição da Rainforest Foundation para monitorar a produção de soja no Brasil e sua relação com o desmatamento. Victor Moriyama/Rainforest Foundation Norway

    O desenvolvimento econômico e social da Amazônia, porém, tem sido desordenado, por vezes caótico, criminoso e predatório nessa área de floresta tropical, que é também o gerador de milhões de litros de água doce todos os dias. Não há apenas o caso brasileiro já mencionado, mas também o caso dantesco do Arco Mineiro na parte venezuelana, ou os grandes derrames de petróleo na área que corresponde ao Equador, para não falar da quantidade de descargas poluentes nos rios afluentes do Amazonas e deste último. Aqui os mais diretamente afetados são as populações locais, mais de 420 povos e comunidades indígenas, com os respectivos danos nas riquezas etnológicas da área amazônica. O dano é irreparável e a única coisa que pode ser feita é evitá-lo.

    Os países signatários do TCA perceberam que os melhores desejos de cooperação indispensável para a proteção e desenvolvimento equilibrado da região são meras ilusões se os compromissos entre eles não forem reforçados. É por isso que, vinte anos após a assinatura do TCA, foi assinada uma emenda ao tratado. O Protocolo de Caracas de 1998 criou a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), com personalidade jurídica própria, a fim de reforçar os compromissos de cooperação assumidos. Foi um passo importante para a supranacionalidade da Amazônia, como salientado por estudiosos contemporâneos, e desde 2003 a secretraria-geral da OTCA opera em Brasília.

    A “LEI DA AMAZÔNIA”

    Apesar deste progresso, no entanto, faltou o que os autores mais conceituados chamaram de uma verdadeira “lei amazônica”. Trata-se de um regulamento que estabelece com maior clareza e precisão os direitos das populações locais e de cada um dos países da região em relação à Amazônia, incluindo a proteção e conservação do ambiente, bem como os respectivos deveres dos Estados partes no TCA.

    Por outras palavras, são necessários regulamentos amazônicos. Mas ao mesmo tempo, e com igual urgência, é necessário que os próprios Estados partes no TCA criem, no seio da OTCA, os órgãos de controle do TCA e da lei amazônica. Ou seja, órgãos de investigação e fiscalização, uma polícia amazônica coordenada, e um ou mais órgãos de justiça amazônica para ouvir queixas por violação da lei amazônica –incluindo danos ao ambiente e às populações locais– e perante os quais não só os Estados são responsáveis pelo seu incumprimento, mas também indivíduos pelos seus crimes ambientais.

    A soberania nacional individual não deve ser um obstáculo, como não foi no passado, para alcançar esse resultado. É a justiça ambiental amazônica necessária que é imposta e que também constituiria um exemplo para o mundo. É um dever de solidariedade soberana dos países da Amazônia com os seus povos e com os habitantes do planeta Terra. Isso seria, pelo menos, um passo significativo no desenvolvimento do difícil processo de cooperação universal na conservação dos espaços mais delicados e úteis para o presente e, sobretudo, para o futuro de toda a humanidade.

    Eugenio Hernández-Bretón

    É reitor da Faculdade de Ciências Jurídicas e Políticas da Universidade de Monteávila (Caracas). Professor da Universidade Central da Venezuela e da Universidade Católica Andrés Bello.

    Tradução do espanhol por Dâmaris Burity.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/latinoamerica21/2021/07/amazonia-soberania-e-direito-amazonico.shtml

    Prof LUCIANO MANNARINO

  • A encruzilhada da América Latina para alçancar as emissões zero de carbono

    A encruzilhada da América Latina para alçancar as emissões zero de carbono

    É urgente repensar quais são os setores que poderiam gerar divisas e como reinserir a região no mundo

    5.jul.2021 às 9h00

    Leonardo E. Stanley

    Economista e pesquisador no Centro de Estudios de Estado y Sociedad (Cedes), na Argentina

    A comunidade científica levantou a necessidade de reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e evitar o acúmulo adicional de gases na atmosfera. Como resolver a situação? Quem deve liderar o processo de transição?

    Inicialmente a maioria das iniciativas se concentrou em mercados com o desenho de mecanismos de incentivo, precificando as emissões de carbono, a fim de estimular a busca de fontes renováveis. Independentemente das intenções e dos mecanismos implementados, as emissões continuaram a crescer. A indústria petroleira continuou a se expandir, aproximando o planeta de uma situação limite.

    Algo deve ser feito, e imediatamente. A comunidade científica propôs uma mudança de abordagem, e a ideia de manter reservas no subsolo está começando a se tornar popular. Isto supõe limitar a prospecção e a exploração de petróleo e associá-las a um “orçamento do carbono” – ou seja, uma certa quantidade que um país, setor ou cidade ainda tem para emitir GEE durante um período de tempo sem comprometer o objetivo de manter um aumento de temperatura inferior a 1,5°C ou 2°C.

    Em nível global, falamos de um estoque de carbono de 460 gtC02, o remanente do “orçamento do carbono” se o objetivo é manter o aumento da temperatura abaixo de 1,5°C. Ao ritmo atual das emissões anuais (fluxo: 41,5 gtC02) este orçamento estará esgotado em cerca de 11 anos. Por isso, a urgência. Caso contrário, as consequências seriam irreversíveis. Isto levanta a necessidade de um Estado que preveja os limites e estimule a transição.

    Manifestantes se fantasiam de ursos polares em ato convocado por diversas ONGs perto da Torre Eiffel, em Paris
    Manifestantes se fantasiam de ursos polares em ato convocado por diversas ONGs perto da Torre Eiffel, em Paris Francois Guillot – 12.dez.15/AFP

    Durante muito tempo, os líderes globais ignoraram o chamado da comunidade científica e foram surdos ao chamado dos jovens para a ação. Mas os riscos colocados pelo aquecimento global são palpáveis. Isto explica o comportamento das companhias de seguros, que rapidamente estão decidindo abandonar o “barco do carbono”.

    Os investidores também reagem pressionando as petroleiras a implementar planos de conversão para que seus ativos (estoques) não sejam afetados pela “bolha do carbono”. Esta bolha está associada à ideia de ativos estancados (stranded assets), que é o lado financeiro do risco descrito acima. Quanto mais nos aproximamos do limite do orçamento do carbono, mais acionistas estão interessados em sair de sua posição no setor, o que se reflete em uma venda acelerada de ações.

    Poucos acreditavam no peso do ativismo em 2011, quando o apelo ao desinvestimento foi ouvido pela primeira vez nos campi universitários dos EUA. A ideia de “deixar reservas no subsolo” era vista como utópica, impossível. A equação econômica também não era auspiciosa para os recursos renováveis, o que obrigava ao Estado a fornecer subsídios generosos ao setor a fim de torná-lo competitivo com os combustíveis fósseis. E as petroleiras foram legalmente “blindadas”, independentemente da origem da demanda, já que a justiça sempre decidiu a seu favor.

    UMA MUDANÇA ACELERADA

    Tudo está mudando rapidamente. O ativismo se espalhou entre os investidores e as energias renováveis estão se tornando muito mais baratas, enquanto as empresas petroleiras estão começando a se sentar no banco dos réus. Isto só acelera a transição, aproximando a indústria do abismo financeiro e os investidores vendo seus ativos desvalorizados.

    Em maio passado, a Agência Internacional de Energia (AIE) publicou um relatório destacando a necessidade de abandonar todos os projetos a fim de cumprir com os compromissos assumidos. Para alcançar uma queda acentuada nas emissões, a prospecção e a exploração devem ser abandonadas imediatamente. A publicação veio como um choque, um “tapa na cara” para a indústria petroleira.

    Para avançar com a transformação e garantir o cumprimento das metas (zero emissões líquidas até 2050), Carbon Tracker destaca a necessidade de tornar as ações das empresas transparentes.

    Mas isto não é tudo. Em 26 de maio, um tribunal holandês decidiu que a Royal Dutch Shell estava sujeita a condenação porque suas operações tradicionais (produção, distribuição, comercialização) haviam agravado o problema da mudança climática. O tribunal considerou que os atores não estatais, como as petroleiras, também são agentes responsáveis. A condenação obriga à empresa petrolífera a elaborar um plano de transição mais ambicioso e aumentar os cortes de emissões originalmente prometidos. Esta condena poderia desencadear uma reação em cadeia de grandes proporções.

    Manifestantes se reuniram no Masp, na Avenida Paulista, para pressionar autoridades a tomarem ações contra as mudanças climáticas
    Manifestantes se reuniram no Masp, na Avenida Paulista, para pressionar autoridades a tomarem ações contra as mudanças climáticas Matheus Moreira/Folhapress
    AS PETROLEIRAS ESTÃO COMEÇANDO A SE READAPTAR?

    O impulso de mudança também chega aos conselhos de administração das grandes petroleiras, como demonstrado pela recente reunião de acionistas da Exxon Mobil, onde um grupo acabou impondo um plano mais ambicioso de adaptação à empresa. Enquanto alguns investidores estão assumindo uma postura ativa, outros estão se abstendo de participar, e cada vez mais fundos de investimento estão decidindo parar de financiar a indústria petrolífera.

    Recentemente também foi divulgado um relatório das Nações Unidas, que destaca os efeitos nocivos da emissão de gás metano para a atmosfera. Ao contrário do dióxido de carbono que permanece por centenas de anos, o metano dura pouco tempo, cerca de uma década, embora seja muito mais perigoso. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), o efeito do metano sobre o aquecimento global é 86 vezes mais forte do que o gerado pelo CO2, portanto, o metano é considerado um “carbono com esteroides”. Portanto, a fim de reduzir rapidamente o aquecimento global, um número crescente de especialistas sugere também o abandono de projetos de gasíferos.

    Passo a passo, o lobby climático está ganhando força. Não apenas nas ruas, mas também nas salas de reunião e nos escritórios de justiça. Tudo isso deve soar como alarme e preocupar aqueles que continuam a apostar na exploração do petróleo na América Latina. Isto implica um tremendo desafio econômico, mas também um risco financeiro. É urgente repensar quais são os setores que poderiam gerar divisas e como reinserir esta região no mundo.

    Ignorar o problema e continuar a investindo em um setor destinado a desaparecer só agravaria a crise que temos de enfrentar inexoravelmente.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/latinoamerica21/2021/07/a-encruzilhada-da-america-latina-para-alcancar-as-emissoes-zero-de-carbono.shtml?origin=uol

    Prof Luciano Mannarino

    Questões

    1 O que você entende como “lobby climático”?

    2 Analise o papel do metano e do CO2 no aquecimento global.

    3 “Deixar reservas no subsolo” ainda pode ser considerado uma solução utópica para questão do aumento do efeito estufa?

    4 Explique o interesse das companhias de seguro no debate de mudanças climáticas mundiais.

    Prof Luciano Mannarino

  • Juventude e fronteiras no Mercosul

    Juventude e fronteiras no Mercosul

    A transição para a vida adulta para os que vivem nas áreas fronteriças é particularmente complexa

    24.jun.2021 às 9h30

    Nahuel Oddone – Doutor em estudos internacionais (UPV/EHU) e chefe de Promoção e Intercâmbio de Políticas Sociais no Instituto Social do Mercosul (ISM)

    Em 2019, mais de 60 milhões de adolescentes e jovens de 10 a 24 anos viviam nos Estados membros do Mercosul, de acordo com estatísticas da Divisão de População das Nações Unidas.

    Na Argentina representavam 23,5%; no Brasil, 23,2%; no Paraguai, 28,5%; no Uruguai, 21,6%.

    Entretanto, nas localidades fronteiriças mais povoadas, essa média é significativamente maior, devido a uma colonização tardia do território, como no caso de Ciudad del Este (Paraguai), ou devido à atração da migração interna ou internacional, como em Foz de Iguaçu.

    A América Latina e o Caribe estão passando por um processo de transição demográfica acelerado.

    E, apesar dos diferentes estágios demográficos que os países da região estão experimentando, a região ainda tem uma janela de oportunidade conhecida como o “bônus demográfico”.

    DESAFIOS E OPORTUNIDADES

    A dimensão da fronteira é sem dúvida uma variável chave que influencia as condições e oportunidades de desenvolvimento para adolescentes e jovens.

    A transição para a vida adulta para aqueles que vivem nessas áreas é particularmente complexa.

    Em algumas áreas, foi detectada uma série de problemas sociais decorrentes da reprodução precoce, do abandono escolar e da dificuldade de acesso ao emprego, que muitas vezes ocorre no contexto de uma economia informal e, às vezes, ilícita.

    Todos esses fatores contribuem para perpetuar a transmissão intergeracional da pobreza e limitar as oportunidades de desenvolvimento.

    A falta de acesso a serviços básicos como saúde, educação e trabalho tem um impacto no bem-estar pessoal e coletivo e afeta os processos decisórios individuais.

    Na medida em que adolescentes e jovens aumentam sua autonomia progressiva e conseguem plena integração social, eles terão melhores condições para alcançar seu pleno potencial.

    Vila Thomaz Albornoz, território brasileiro reivindicado pelo Uruguai
    Vila Thomaz Albornoz, território brasileiro reivindicado pelo Uruguai Fábio Zanini/Folhapress
    A NECESSIDADE DE POLÍTICAS PÚBLICAS FOCALIZADAS

    Nesse contexto, há quatro fatores que demonstram a necessidade do desenho de políticas focalizadas que levem em conta o território fronteiriço e o ciclo de vida das pessoas que ali vivem.

    Primeiro, a cobertura de saúde de adolescentes e jovens é menor, com maior precariedade em comparação com as crianças ou com as pessoas idosas.

    Da mesma forma, aqueles jovens que tiveram cobertura de saúde por meio de seus pais tendem a perdê-la após os 18 anos de idade.

    Em segundo lugar, o abandono escolar tende a ser maior nos últimos anos do ensino médio, porque os jovens começam a trabalhar ou a ajudar em novas tarefas. Aqueles que conseguem terminar o ensino médio enfrentam maiores desafios para entrar na universidade.

    Há poucos (ou nenhum) programas que acompanhem a transição do ensino médio para a universidade.

    Enquanto na faixa etária de 15 a19 anos nas cidades fronteiriças de Posadas (Argentina), Encarnación (Paraguai), Santana do Livramento, Rivera (Uruguai), Concordia (Argentina) e Ciudad del Este (Paraguai) mais de 70% frequentam um estabelecimento de ensino, na faixa etária de 20 a 24 anos em quase todos os casos fica abaixo de 50%.

    Em terceiro lugar, há uma maior informalidade econômica.

    Na América Latina, a informalidade é de 54%, em média, segundo a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) e a OIT (Organização Internacional do Trabalho), mas essa porcentagem tende a aumentar substancialmente à medida que nos aproximamos das fronteiras.

    A atração de uma parte importante da força de trabalho jovem para empregos precários tem duas consequências principais.

    Por um lado, as pessoas que entram na economia informal tendem a permanecer nela, afetando a solidariedade dos sistemas de proteção social.

    Por outro lado, os homens jovens tendem a migrar da informalidade para a ilegalidade.

    Como consequência, há uma alta exposição de jovens fronteiriços a fazer parte de redes de contrabando e tráfico.

    Em quarto lugar, a população de mulheres na faixa etária de 20 a 24 anos que não estudam nem trabalham nas maiores cidades fronteiriças do Mercosul é significativa, chegando a 38,6% em Rivera. Na faixa etária seguinte, 25 a 29 anos, porcentagens semelhantes são observadas.

    As pesquisas sobre o “uso do tempo” geralmente escondem a carga de cuidados que as mulheres assumem dentro do lar (trabalho não remunerado), seja o cuidado de irmãos mais novos ou crianças, ou tarefas de limpeza doméstica, entre outros, afetando o desenvolvimento de seus projetos pessoais.

    Indígena da etnia pemón foge em trilha de mata para o Brasil carregando os filhos gêmeos
    Indígena da etnia pemón foge em trilha de mata para o Brasil carregando os filhos gêmeos Fabiano Maisonnave/Folhapress
    OS EFEITOS DA PANDEMIA

    A pandemia de Covid-19 teve um forte impacto nas fronteiras. O fechamento truncou a dinâmica social e o uso de serviços transfronteiriços.

    Além do fato de que o impacto tem sido diferencial por cidade, a incerteza tem “congelado” projetos de natureza mais individual.

    Os desafios impostos pela pandemia aumentaram a necessidade de maior investimento social, coordenação das ações nas fronteiras e garantia de coesão social a fim de contribuir para superar a interseccionalidade das lacunas que afetam suas populações.

    Dentro dessa estrutura, é provável que as mulheres jovens enfrentem novos desafios para conseguir uma maior e melhor participação na reativação econômica pós-Covid-19.

    Por isso, são necessárias intervenções específicas para garantir sua participação em programas de treinamento profissional e empreendedorismo, bem como a criação de novos espaços de cuidados que permitirão que mais mulheres com crianças se juntem à força de trabalho formal.

    Além das dificuldades envolvidas em habitar esses espaços, a dimensão da fronteira é uma oportunidade.

    A identidade fronteiriça de adolescentes e jovens é um valor diferencial que permite gerar projetos de vida intercultural mais associativos e respeitosos da diversidade.

    É também uma oportunidade para implementar novas formas de participação e inovação social que fortalecem sua capacidade de influenciar a agenda pública.

    O desenvolvimento de uma cidadania no Mercosul que realce o papel da juventude fronteiriça é fundamental para a sustentabilidade da integração regional.

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    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/latinoamerica21/2021/06/juventude-e-fronteiras-no-mercosul.shtml

    Questões

    1 O que seria o “bônus demográfico”? Cite um aspecto positivo ligado a ele.

    2. O que são “cidades gêmeas” ? Baseado no texto, aponte um exemplo.

    3 Explique a criação do Mercosul.

    4. Quais seriam as políticas públicas focalizadas que atenderiam as demandas da população jovem que vivem no território fronteiriço do Mercosul?

    4. Faça uma pequeno resumo (cinco linhas) sobre os aspectos que o texto aborda.

    América do Sul: um espaço migratório regional ‘quase perfeito

    Em cúpula, Lacalle Pou defende Mercosul sem alinhamento com EUA ou China..

    Prof Luciano Mannarino

  • A maioria dos rios e riachos seca todos os anos

    A maioria dos rios e riachos seca todos os anos

    Um modelo dos rios e riachos do mundo foi desenvolvido para prever quais desses cursos d’água fluem durante todo o ano e quais secam. A análise mostra que os rios e riachos que secam são onipresentes em todo o mundo.

    Kristin L. Jaeger

    As águas correntes dos rios de superfície e riachos transportam com eficiência sedimentos, matéria orgânica e nutrientes, entre outras coisas, das encostas e áreas terrestres para lagos a jusante, reservatórios e o oceano. Ao longo do caminho, rios e riachos (doravante denominados coletivamente como riachos) fornecem recursos importantes para nossas comunidades e sustentam ecossistemas ricos e complexos. Riachos não perenes, que não fluem o ano todo, são cruciais neste contexto. 

    No entanto, como os riachos não perenes são fontes menos confiáveis ​​de água de superfície do que os perenes, eles são menos bem estudados do que seus correspondentes perenes. Escrevendo na Nature , Messager et al .  forneça uma estimativa muito necessária da proporção total da rede de stream do mundo, por extensão, que não é perene – e descubra que a maioria se enquadra nesta categoria.

    Messager e colegas combinaram dados de fluxo de rios de locais ao redor do mundo com informações que descrevem a hidrologia, clima, geografia física e cobertura da terra nesses locais, para modelar a probabilidade de que a água não flua por pelo menos um dia por ano. Eles então expandiram suas previsões para todos os segmentos de riachos registrados em um banco de dados de rede de riachos global (RiverATLAS) 

    Os autores relatam que 51-60% dos riachos do mundo não fluem por pelo menos um dia por ano, e que 44-53% do comprimento global do rio fica seco por pelo menos um mês (cerca de 30 dias) a cada ano. Sua modelagem mostra que riachos não perenes ocorrem em todos os climas e biomas em todos os continentes.  O modelo também mostra que 95% da rede de riachos em regiões quentes e secas – que representam 10% da massa terrestre global – seca a cada ano (Fig. 1). Surpreendentemente, até mesmo segmentos de grandes rios, como o rio Níger na África Ocidental, estão previstos para secar nessas regiões áridas. 

    A vasta prevalência de riachos não perenes em tais locais destaca como até mesmo riachos que não fluem continuamente afetam substancialmente a disponibilidade e a qualidade da água. Os resultados enfatizam a necessidade de mapas mais detalhados de fluxos perenes e não perenes em escalas regionais e locais, e de estudos adicionais de como os riachos não perenes afetam a disponibilidade e qualidade geral da água.

    Um canguru é visto no leito seco do rio Darling em 18 de fevereiro de 2020 em Louth, Austrália.
    Figura 1 | O seco Darling River em New South Wales, Austrália, fevereiro de 2020. A análise de Messager e colegas 1 mostra que a maioria dos rios e riachos secam por pelo menos um dia por ano, incluindo seções dos principais rios em regiões áridas. Crédito: Mark Evans / Getty

    Pequenos riachos de cabeceira (aqueles que não têm afluentes) representam 70–80% do comprimento do rio em todo o mundo, semelhante à maneira como o comprimento coletivo dos dedos de uma pessoa é muito maior do que o comprimento da palma da mão. O modelo de Messager e colegas de trabalho prevê que, mesmo nas regiões mais úmidas, como a bacia do rio Amazonas e partes da África central e sudeste da Ásia, até 35% desses córregos das cabeceiras param de fluir em algum momento do ano. 

    No entanto, deve-se notar que os riachos de cabeceira são monitorados por relativamente poucos medidores de riacho, que tendem a estar localizados em rios perenes maiores a jusante. O modelo pode, portanto, fornecer estimativas altamente incertas para as regiões a montante das redes de fluxo.

    A falta de dados de fluxo de água é um problema comum para a modelagem de fluxos de cabeceira e, portanto, esforços de coleta de dados estão sendo implementados para preencher essa lacuna de conhecimento. Por exemplo, a França desenvolveu a rede Observatoire National des Étiages (ONDE), que complementa a rede de medição de fluxo nacional, mas se concentra em fluxos de cabeceira. No entanto, esses programas são caros e requerem um investimento considerável de recursos. Os rios europeus estão fragmentados por muito mais barreiras do que o registrado

    Medidores de fluxo também são escassos para fluxos não perenes em geral. Na análise de Messager e colegas, por exemplo, não havia medidores em riachos não perenes na Argentina; apenas um na Nova Zelândia; e 10 no Noroeste do Pacífico dos Estados Unidos, em uma rede de 250 medidores. Para melhorar os modelos que mapeiam fluxos perenes e não perenes, observações de campo de baixo custo serão necessárias, juntamente com o desenvolvimento de tecnologia de sensoriamento remoto de alta resolução que detecta frequentemente – ou pelo menos prevê – o fluxo de superfície em fluxos.

    A análise de Messager e colegas de trabalho fornece uma confirmação quantitativa robusta da onipresença dos rios não perenes. Seus resultados indicam a necessidade de uma mudança fundamental nos campos de ciência e gestão de rios e riachos, nos quais riachos não perenes foram amplamente negligenciados. Em regiões áridas, a predominância de riachos não perenes pode ser um grande impulsionador da disponibilidade e qualidade da água. 

    E em áreas onde os serviços desenvolvidos por humanos não estão prontamente disponíveis, os serviços ecossistêmicos, como água corrente em riachos, são usados ​​para atender às necessidades básicas e irão, em parte, determinar o bem-estar e a prosperidade das pessoas nessa área. As novas descobertas, portanto, apontam para a necessidade de contabilidade global de ambos os riachos perenes e não perenes.

    Além disso, mudanças na distribuição dos riachos podem ter impactos de longo alcance nos ciclos do carbono e biogeoquímicos em escalas globais e continentais, e na sobrevivência de organismos que vivem nos riachos, incluindo muitas espécies ameaçadas de extinção. Uma referência global da prevalência de riachos perenes e não perenes é, portanto, crucial para avaliar os efeitos de futuras mudanças em sua distribuição associadas às mudanças climáticas e do uso da terra. Finalmente, modelos regionais e locais de riachos são necessários, bem como melhores dados para cabeceiras e porções não perenes da rede de riachos, para aumentar ainda mais o valor dos modelos globais.

    Nature 594 , 335-336 (2021)

    https://www.nature.com/articles/d41586-021-01528-4

    Um texto da renomada Nature

    Prof Luciano Mannarino

    O que é uma Bacia Hidrográfica?

    Em Tocantins, ‘caixa-d’água do Brasil’, desmate ameaça rios

    Bacia do Paraná já sente efeitos da seca sobre agronegócio e geração de energia