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  • Com ventos de 240 km/h, furacão Laura é um dos maiores a atingir os EUA

    Com ventos de 240 km/h, furacão Laura é um dos maiores a atingir os EUA

    Embora com menos força, fenômeno avança pelo país; primeira morte confirmada é de menina de 14 anos

    Lucas Alonso

    BAURU (SP)

    O furacão Laura atingiu a costa da Louisiana, nos Estados Unidos, na madrugada desta quinta-feira (27), com ventos de até 240 km/h. Houve ao menos uma morte, além de inundações e cortes no abastecimento de energia de milhares de moradores.

    Uma menina de 14 anos morreu quando uma árvore caiu sobre sua casa, em Leesville, de acordo com uma porta-voz do governador da Louisiana. O estado trabalha com a possibilidade de haver mais fatalidades.

    De acordo com meteorologistas, Laura é um dos fenômenos climáticos mais poderosos que já atingiram o país e, nos próximos dias, pode causar ainda mais danos.

    “Extremamente perigoso, o furacão de categoria 4 Laura tocou o solo perto de Cameron, na Louisiana”, afirmou o Centro Nacional de Furacões (NHC) em um boletim publicado nesta quinta-feira.

    Os registros do NHC indicam que Laura atingiu o continente por volta de 1h (3h, no horário de Brasília) causando “tempestade catastrófica, ventos extremos e inundações repentinas” em várias regiões do estado.[ x ]

    Na quarta-feira (26), o Serviço Meteorológico Nacional previu que o furacão poderia formar uma enorme parede de água com cerca de 65 km de extensão e altura equivalente a um prédio de dois andares. As ondas decorrentes do fenômeno avançariam até 50 km continente adentro e o nível das águas poderia subir entre 4,5 e 6 metros acima do normal.

    Embora as piores projeções não tenham se materializado, o NHC e autoridades locais mantiveram os alertas de perigo e reforçaram os pedidos de evacuação.

    Região alagada em decorrência do furacão Laura em Vermilion, na Louisiana – Kathleen Flynn – 26.ago.20/Reuters

    Três horas depois de atingir o continente, o furacão foi rebaixado para a categoria 3, com seu núcleo a cerca de 50 km ao norte-noroeste de Lake Charles, na Louisiana.

    A velocidade dos ventos caiu para 195 km/h, mas eles ainda foram fortes o suficiente para estourar as janelas dos 22 andares do Capital One Tower, o segundo maior edifício da cidade.

    Os efeitos do furacão também foram responsáveis pela queda de dezenas de árvores por toda a cidade. Os ventos também derrubaram placas de ruas e danificaram casas e prédios. Nas redes sociais, moradores registraram destroços das construções e carros abandonados nas ruas inundadas.

    Mais tarde, Laura continuou enfraquecendo e chegou à categoria 2, com ventos estimados em até 168 km/h, mas ainda oferece riscos graves, segundo os meteorologistas.

    Cerca de 650 mil residências e empresas na Louisiana e no Texas. Concessionárias locais alertaram que o número de interrupções aumentaria conforme o avanço do furação para o interior.

    Em entrevista à Fox News, Pete Gaynor, administrador da Agência Federal de Gestão de Emergências (Fema) disse que o órgão está avaliando os prejuízos causados pelo furacão, mas que considera os danos menores do que as expectativas.

    No final da manhã, o fenômeno caiu mais um nível e chegou à categoria 1 —a mais branda, porém ainda perigosa— com ventos de até 120 km/h.

    De acordo com o físico Evandro Moimaz Anselmo, doutor em meteorologia pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, os furacões tendem a perder força quando chegam ao continente porque a sua principal fonte de energia é o vapor da água dos oceanos.

    Em terra firme —mais fria e seca—, eles perdem essa fonte e se dissipam gradualmente.

    “Durante este processo de dissipação do Laura no continente, as chuvas intensas deverão causar danos, principalmente nos próximos três dias, e ao longo da sua trajetória sobre os estados de Louisiana e Arkansas.”

    As condições atmosféricas da região Sul dos EUA indicam, segundo explicação de Anselmo à Folha, “desintensificação progressiva de furação para tempestade tropical e depressão tropical nos próximo cinco dias”.

    Segundo previsão do NHC, “o centro do Laura vai continuar a se mover para o interior cruzando o sudoeste da Louisiana”. Em um alerta divulgado na manhã desta quinta, o órgão pediu que os moradores da região que ainda não tinham sido evacuados buscassem proteção imediata.

    Apesar do risco iminente, muitas pessoas escolheram ficar em casa, contrariando as ordens de evacuação obrigatória na Louisiana e no Texas que abrangem cerca de 620 mil moradores dos dois estados.

    Autoridades locais reforçaram as recomendações dizendo que levaria horas até que pudessem sair para iniciar as missões de busca e resgate. O presidente dos EUA, Donald Trump, pediu aos moradores das áreas afetadas que seguissem as orientações.

    “Laura é um furacão muito perigoso e está se intensificando rapidamente”, disse o republicano em uma publicação no Twitter. “Meu governo continua colaborando totalmente com os gestores de emergência estaduais e locais”.

    Durante a manhã desta quinta, Trump aprovou a declaração de emergência para o estado do Arkansas, e deu a autoridades federais o poder de coordenar a assistência às vítimas e a liberação de recursos.

    À tarde, o presidente era esperado na sede da Fema para se atualizar sobre o furacão.

    Moradias temporárias foram organizadas às pressas fora da zona de emergência para os residentes evacuados, e equipes de emergência estavam estrategicamente posicionadas, de acordo com agências estaduais e federais.

    Em Vermilion, ao leste da primeira cidade atingido pelo Laura, o gabinete do xerife publicou um aviso severo em uma rede social.

    “Se você decidir ficar em casa e não conseguirmos chegar até você, anote seu nome, endereço, número do seguro social e contatos de parentes próximos e coloque em um saco plástico vedado em seu bolso”, diz a publicação.

    Em Lake Charles, Jimmy Ray, um morador ouvido pela agência de notícias AFP, disse que sua família tentaria, a princípio, “aguentar dentro de casa”, mas viu “que o furacão ia ser muito forte”.

    Outra moradora, Patricia Como, contou que seus irmãos, primos e outros membros da família decidiram ficar, mas ela não queria correr o risco. “Não vou brincar com Deus”, disse.

    Angela Jouett, que lidera a operação de evacuação na cidade, informou que novos protocolos foram implementados devido à pandemia do coronavírus. Segundo ela, as pessoas que entram nos centros de evacuação usam desinfetante nas mãos, passam por controles de temperatura e mantêm distanciamento físico.

    Em Westlake, cerca de 6 km a oeste de Lake Charles, o furacão pode ter sido a causa de um grande incêndio em uma fábrica de produtos químicos, que liberou uma espessa fumaça negra.

    O governador da Louisiana, John Bel Edwards, alertou os moradores da área para não saírem de duas casas, fecharem portas e janelas, e desligarem aparelhos de ar-condicionado, sob risco de intoxicação.

    Furacão Laura se aproxima da costa dos Estados Unidos

    Homem coloca tapumes em loja de conveniência na cidade de Galveston, no Texas, antes da chegada do furacão Laura
    Homem coloca tapumes em loja de conveniência na cidade de Galveston, no Texas, antes da chegada do furacão Laura ADREES LATIF/Adrees Latif – 26.ago.2020/Reuters

    No Texas, o governador Greg Abbott também pediu aos residentes que evacuem suas casas. “Eles têm apenas mais algumas horas para escapar dos danos”, disse a uma emissora local.

    “Esta é uma tempestade muito perigosa, mais forte do que a maioria que já cruzou” as costas do estado, acrescentou, insistindo para que a população faça “tudo que for possível para sair do caminho” do Laura.

    Abbott também sugeriu que quem tiver condições financeiras deve procurar refúgio em hotéis, para diminuir o risco de contaminação pelo coronavírus. O Texas é um dos estados americanos mais atingidos pela pandemia.

    A cidade texana de Port Arthur, com população estimada em 54 mil habitantes, estava praticamente abandonada na noite de quarta-feira. Apenas alguns postos de gasolina e uma loja de bebidas mantiveram as portas abertas.

    “As pessoas precisam de vodca”, disse Janaka Balasooriya, um funcionário. Ouvido pela Reuters, ele disse morar a alguns quarteirões de distância da loja e que enfrentaria o Laura em casa.

    Na Ilha de Galveston, cidade que sofreu com o furacão mais letal da história dos EUA em 1900, com milhares de mortos, o prefeito Craig Brown disse que as autoridades estão monitorando de perto a situação.

    “Tivemos uma boa cooperação de nossos residentes na evacuação”, disse ele. “Se eles quiserem ficar, nós permitiremos”, mas “se eles ficarem, é possível que não tenham nenhum serviço de emergência disponível”, esclareceu.

    Em Nova Orleans, devastada pelo furacão Katrina, de categoria 5, há 15 anos, o histórico Bairro Francês ficou sem turistas, e sacos de areia foram empilhados diante de portas e janelas. Os edifícios de arquitetura colonial foram protegidos com chapas de madeira.

    “Não estou preocupado com a água que entra com a tempestade, mas sim com a chuva e as bombas sem funcionar. É isso que vai causar as enchentes”, disse à AFP Robert Dunalp, empresário que não se esquece do furacão que deixou 1.000 mortos.

    Antes de chegar aos EUA, Laura passou como tempestade tropical por Cuba, onde provocou fortes chuvas e alguns danos. No fim de semana, a tempestade provocou 25 mortes no Haiti e na República Dominicana.

    De acordo com o NHC, a temporada de tempestades no Atlântico, que vai até novembro, deve ser uma das mais severas. Os meteorologistas preevem até 25 fenômenos, dos quais o furacão Laura é o 12º até o momento.

    Com AFP e Reuters

    Questão.

    1. Estabeleça diferenças entre Tornados e Furações?
    2. Por que os Furações ocorrem no final do Verão e começo do Outono no Atlântico?
    3. Por que os Furações perdem intensidade quanto avançam sobre o interior dos EUA?
    4. Por que observamos um número expressivo de vitimas fatais quando esses eventos atravessam as ilhas do caribe?

    Professor Luciano Mannarino.

  • Era pós-petróleo redesenha o Oriente Médio

    Era pós-petróleo redesenha o Oriente Médio

    Países árabes buscam modernizar economia e veem um parceiro em Israel

    Prêmio Nobel da Paz em 1994, o líder israelense Shimon Peres (1923-2016) celebrizou a expressão “um novo Oriente Médio” ao apontar a cooperação econômica como fator a transformar inimigos em parceiros numa das regiões mais turbulentas do cenário global. A previsão finalmente ganha contornos nítidos, com o recente anúncio do acordo entre Israel e Emirados Árabes Unidos.

    O histórico tratado, ainda a ser assinado, apresenta como motor fundamental a chamada era pós-petróleo. Países árabes, em particular alguns situados no golfo Pérsico, passaram a enxergar Israel com outros olhos diante da necessidade de ingressar numa fase marcada pelo declínio da economia petrolífera.

    Bandeiras de Israel e dos Emirados Árabes Unidos em estrada em Netanya
    Bandeiras de Israel e dos Emirados Árabes Unidos em estrada em Netanya – Nir Eliar – 17.ago.20/Reuters

    Fatores geopolíticos, sem dúvida, compõem também a equação. Na disputa por zonas de influência no Oriente Médio, ambições expansionistas do Irã contribuem decisivamente para a aproximação de seus arqui-inimigos regionais, Israel e monarquias do golfo Pérsico lideradas pela Arábia Saudita.

    No entanto, o fator primordial a transformar antigos adversários em novos aliados chama-se era pós-petróleo. Dirigentes de países como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos passaram a ver um potencial parceiro em Israel quando constataram o esgotamento da sua fórmula de governar no século 20.

    No passado recente, lideranças árabes governavam apoiados no tripé petróleo-ditadura-narrativa anti-Israel. Na economia, bastava confiar na bonança petrolífera, sem diversificar ou modernizar a atividade produtiva.

    No segundo fator do tripé, ditaduras congelavam dinâmicas política e social. Com a riqueza do petróleo e o autoritarismo, regimes árabes recorriam à narrativa anti-Israel como válvula de escape para obter mobilizações populares

    Plano de Netanyahu pode aumentar tensões entre Israel e Palestina

    Primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, em encontro semanal do gabinete de governo, em Jerusalem, em 28 de junho.
    Primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, em encontro semanal do gabinete de governo, em Jerusalem, em 28 de junho. Ronen Zvulun/AFP
    Tzvi Succot, 29, de uma família ultra-ortodoxa, caminha com a filha no assentamento de Yitzhar, ao sul da cidade palestina de Nablus, na Cisjordânia.

    Discursos oficiais descreviam a criação de Israel como “principal catástrofe do mundo árabe” e posicionavam as reivindicações palestinas no epicentro das estratégias emanadas do Cairo ou de Riad.

    A chegada do século 21, no entanto, corroeu o tripé, a começar pelo petróleo. A perda de relevância se evidencia com quedas vertiginosas em sua cotação e com a busca por fontes alternativas de energia.

    A partir de 2010, a Primavera Árabe, com manifestações de rua, derrubada de ditadores e guerras civis, demonstrou, a dirigentes no Oriente Médio, a necessidade de dinamizar o modelo econômico, gerar empregos e aplacar a crescente insatisfação popular.

    Ou seja, canalizar a revolta e a frustração para a narrativa anti-Israel deixou de ser suficiente. Evidenciou-se o esgotamento do tripé petróleo-ditadura-narrativa anti-Israel.

    Na nova equação, a opção por regimes autoritários se mantém. Prioriza-se agora a mudança do modelo econômico, com ênfase na diversificação das atividades e diminuição da dependência da indústria petrolífera. É a transição à era pós-petróleo.

    Arábia Saudita e as monarquias do golfo Pérsico embarcaram em planos para modernizar suas economias. Emirados Árabes Unidos, por exemplo, buscam se tornar polo de inovação e até lançaram uma sonda a Marte, iniciativa inaudita no Oriente Médio.

    Com as mudanças, sauditas e seus aliados reavaliaram a estratégia para o conflito israelo-palestino e a relação com Israel. Passaram a ver o ex-inimigo como parceiro, dono de soluções tecnológicas em defesa, segurança cibernética, agricultura no deserto, dessalinização de água, entre outras.

    Perspectivas de investimento e de comércio também fortalecem a aproximação, exemplificada pelo acordo entre Israel e Emirados Árabes Unidos. Ao que tudo indica, Shimon Peres tinha razão.Jaime Spitzcovsky

    Jornalista, foi correspondente da Folha em Moscou e Pequim.

    Prof. Luciano Mannarino

  • Mudanças precipitadas pela pandemia ameaçam futuro das megacidades

    Mudanças precipitadas pela pandemia ameaçam futuro das megacidades

    Na contramão do quanto mais gente melhor, crise pode valorizar cidades médias como próximas da escala humana

     

    SÃO PAULO

    Fuga temporária de grandes centros urbanos em busca de endereços rurais ou suburbanos, maiores e mais próximos da natureza. Disparada na venda de bicicletas em vários países do mundo. Fechamento de lojas e escritórios na esteira da imposição do teletrabalho e da digitalização do comércio.

    Essas e outras mudanças precipitadas pela pandemia colocaram em xeque o futuro das megacidades, cuja densidade populacional, antes motor de contextos vibrantes, diversos e criativos, virou fator de risco diante da fácil propagação do coronavírus.

    Cena registrada na Cidade do México, uma das 19 megalópoles registradas no projeto Hipercidades – Tuca Vieira/Folhapress

     

    Estranhamente silenciosas, sem trânsito e menos poluídas, boa parte das grandes cidades globais perdeu, desde o início da pandemia, o apelo das experiências sociais, econômicas e culturais atreladas a territórios adensados.

    “A pandemia interrompeu a rotina de bilhões de pessoas que residem em cidades e mudou tudo o que tomávamos como dado: trabalhar em um escritório, fazer compras numa loja, comer num restaurante. Impôs grandes desafios ao mesmo tempo em que apresenta oportunidades sem precedentes de uma virada que permita deixar de lado os erros que desgastaram as cidades”, avalia Janette Sadik-Khan, ex-secretária de Transportes de Nova York, na gestão de Michael Bloomberg.

    “Podemos restaurar nossas cidades para que sejam mais acessíveis, evitando a poluição e o desperdício”, diz a urbanista, que já participou do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento, cuja edição deste ano tem como tema “Reinvenção do humano”.

    “O trânsito de São Paulo diminuiu 50% durante a pandemia no horário de pico das manhãs de terça-feira. E é possível enxergar, nessas faixas vazias, o projeto da cidade que se quer como resposta e recuperação da crise.”

    Para ela, essa cidade do futuro tem mais espaço para caminhadas, bicicletas e encontros, que podem se traduzir em novos negócios.

    Mais ciclovias e maiores áreas com restrição ao tráfego de veículos automotores não são propostas novas, mas sua implementação foi acelerada desde a pandemia em cidades como Milão, Berlim, Barcelona, Lisboa e Bogotá.

    Sadik-Khan ressalta que a alta do desemprego aliada à falta de acessibilidade por ineficiências dos sistemas de transporte, sejam ônibus, trens, bicicletas ou mesmo calçadões, compõem um cenário sombrio para a recuperação das cidades só passível de reversão por meio de investimentos.

    Até a eclosão da pandemia, as cidades abrigavam 55% da população do planeta e produziam mais de 80% do PIB global. Ao escancarar desigualdades, a Covid-19 jogou luz sobre a situação de centenas de milhões de trabalhadores urbanos.

    “O trabalhador médio das grandes cidades é aquele que, na pandemia, não pode transpor sua atividade para o teletrabalho. Além de ser mal pago, de ter de trabalhar muito duro e de não contar com o reconhecimento de boa parte da sociedade, ele sofre com condições de deslocamento da ordem de horas por dia”, destaca a socióloga holandesa Saskia Sassen, professora da Universidade Columbia.

    Para ela, a vida em megalópoles se tornou um fardo para a maior parte das pessoas, e abandoná-la já era uma tendência para uma pequena parcela de seus habitantes mesmo antes da pandemia.

    Estudo do Instituto Brookings apontou que as três grandes megalópoles dos EUA, Nova York, Los Angeles e Chicago, viram suas populações diminuírem nos últimos anos.

    Entre as prováveis causas, o alto valor dos aluguéis e o fato de os trabalhos de baixa qualificação, descontados os custos de vida, terem remuneração semelhante em outras localidades com mais qualidade de vida.

    “Nossas cidades são grandes demais, e já insistimos nelas demais. Quem paga o preço não são as elites, mas o grosso de trabalhadores que têm de madrugar para chegar ao trabalho e que são invisíveis ao planejamento urbano, porque quem pensa e escreve sobre cidades não vive as dificuldades dessa realidade”, critica Sassen, cujo livro mais recente, “Expulsões: Brutalidade e Complexidade na Economia Global” (Paz e Terra), classifica esses processos como mais radicais que o da mera exclusão.

    “Trata-se de uma injustiça desnecessária porque beneficia empresas de alto padrão cujos executivos podem viver onde quiserem, mas escolhem grandes cidades globais e sua preferência é dominante”, avalia.

    “Mas a pandemia acabou com a fantasia que as elites nos venderam de que a vida nas cidades é o que existe de melhor. É um completo nonsense dizer que precisamos viver em grandes cidades para fazermos parte da comunidade global. Essa fantasia acabou!”, decreta ela.

    “Cedo ou tarde, teremos de reconhecer que precisamos não de uma São Paulo ou de uma Nova York, mas de múltiplas cidades médias, onde grandes firmas terão de se instalar. Elas são o bom futuro da humanidade.”

    Para Sassen, o engajamento de novas gerações com a questão ambiental também deve favorecer a vida fora das megacidades —nome dado a aglomerações urbanas com mais de 10 milhões de habitantes. Elas foram exploradas pelo fotógrafo Tuca Vieira no projeto Hipercidades, em que viajou por 19 delas. Duas das imagens registradas por ele ilustram esta reportagem.

    “O que pude ver é que não se pode pensar essas cidades separadamente das desigualdades sociais e das mudanças climáticas”, avalia ele, que hoje faz doutorado na área.

    “Como hoje a maioria da população do mundo vive em cidades, e portanto consome a partir delas, as cidades se tornaram o maior motor de transformações do planeta.”

    O urbanista e economista colombiano Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá responsável por reformas inclusivas em transporte e equipamentos públicos, diz não acreditar em mudanças drásticas no destino das grandes cidades no futuro próximo, a não ser na percepção de dois fatores: a importância do contato com o verde e do acesso a tecnologias de comunicação.

    “Cidades são produtivas, e nunca ninguém conseguiu frear seu crescimento de maneira artificial”, diz ele, citando a experiência frustrada da China em conter a migração interna e o crescimento das cidades com passaportes internos.

    “Como cada vez mais as pessoas vivem sós, como na Escandinávia e nos bairros ricos de Bogotá, elas necessitam mais do que nunca do contato com mais pessoas que a experiência urbana proporciona.”

    Se a aglomeração parece arriscada no curto prazo por conta do novo vírus, a desaglomeração pode ser pior, mas para o meio ambiente, como aponta Philip Yang, fundador do Urbem (Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole).

    “Entre 2001 e 2030, teremos três vezes mais superfície urbana do que no ano 2000, o que cria uma fricção das cidades com zonas agrícolas e áreas de proteção florestal e de mananciais de produção de água”, explica ele, citando pesquisa da geógrafa Karen Seto, da Universidade Yale.

    Yang avalia que a pandemia escancarou as assimetrias sociais das cidades, evidenciando a geografia como maior fator de risco da Covid-19, e que grandes cidades do Brasil, como do mundo em desenvolvimento, têm como desafio zerar o déficit educacional e de saneamento básico.

    “Sem resolver um problema do século 19 fica difícil encarar os desafios do século 21.”

     

     

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/08/mudancas-precipitadas-pela-pandemia-ameacam-futuro-das-megacidades.shtml
  • Crise multinível na América Latina está mais complexa

    Crise multinível na América Latina está mais complexa

    Incidência de atores extrarregionais faz da região um campo de conflitos e lutas geopolíticas e geoeconômicas
    Andrés Serbin
    LATINOAMÉRICA21

    O ano de 2019 foi um annus horribilis para a América Latina. Junto com uma acentuada desaceleração e um crescimento econômico magro que alcançou apenas 0,1%, a região experimentou uma multiplicação de mobilizações e protestos sociais que afetaram tanto os governos de esquerda quanto os de direita, em um contexto de uma reconfiguração –através de eleições– do mapa político da região.

    Mas o ano 2020 trouxe a pandemia, que, apesar das diferenças nacionais, aprofundou algumas das tendências e semelhanças existentes e acentuou algumas características estruturais que constituem o pano de fundo dos múltiplos desafios que a região enfrentará para entrar em uma fase de pós-pandemia.

    Funcionários carregam caixão em cemitério em Santiago, capital do Chile, durante a pandemia de coronavírus
    Funcionários carregam caixão em cemitério em Santiago, capital do Chile, durante a pandemia de coronavírus – Claudio Reyes – 5.ago.2020/AFP

    A Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) antecipou que, como consequência da pandemia, se produzirá a pior recessão da história da região, com uma contração do PIB de 5,3% em 2020 e o aumento do índice de pobreza de 30,3% para 34,7%. O Banco Mundial mostrou que a contração poderia chegar a mais de 7%, como parte da pior crise da região desde 1901.

    Sob o título genérico de Informe Iberoamérica 2020, um documento recente apresentado pela Fundación Alternativas de Madrid aponta os maus momentos que a região atravessa e atravessaria.

    O relatório aponta algumas dessas características, como a desigualdade pré-existente que afeta a estabilidade política da região, o aumento das demandas e expectativas associadas aos avanços sociais dos anos anteriores, que respondem a lutas redistributivas, e demandas por melhores políticas públicas por parte de diversos setores sociais.

    O relatório também destaca que esse é o pior desempenho econômico dos últimos 60 anos, o que agrava os problemas estruturais da região associados à baixa diversificação produtiva e à excessiva dependência de matérias-primas (e a demanda da China pelas mesmas).

    Essa situação é agravada por uma crise de representação que marca retrocessos democráticos associados tanto a baixos níveis de confiança nas instituições políticas quanto ao desencanto (e consequente deslegitimação) em relação à capacidade das elites políticas e das lideranças existentes de atender às demandas dos cidadãos.

    A rivalidade entre os Estados Unidos e a China não é o único eixo desse processo. A crescente incidência de atores extrarregionais faz da América Latina e do Caribe, apesar de sua aparente natureza periférica, um campo de conflitos e lutas geopolíticas e geoeconômicas que tornam sua inserção internacional mais complexa. Além dessas duas potências, Rússia, Irã, Turquia e, mais recentemente, a Índia estão fazendo incursões na região, além dos tradicionais laços com a União Europeia e o Japão.

    Três fatores adicionais –eventualmente relacionados entre si– tendem a tornar a crise multinível na região ainda mais complexa.

    Primeiro, existe a corrupção das elites que tende a permear diferentes níveis das respectivas sociedades. Há o reaparecimento dos militares como um ator político, processo que ameaça as instituições democráticas já enfraquecidas e dá origem a várias modalidades autoritárias. E a expansão do crime organizado em suas múltiplas encarnações, do tráfico de drogas ao tráfico humano.

    Nesse contexto, ao desafio de lidar com a pandemia se somam obstáculos difíceis.

    Os países devem enfrentar a recessão e a crise econômica que afetam tanto os setores mais vulneráveis quanto a sociedade como um todo.

    A resiliência da democracia e de suas instituições enfraquecidas deve ser reforçada através da promoção de estratégias e políticas públicas que demanda a cidadania.

    E, finalmente, uma coordenação regional mais eficiente deve ser desenvolvida para enfrentar os desafios globais e para promover a inserção internacional com maiores graus de autonomia e de diversificação.

    Desafios do mau momento que exigem acordos sociais complexos e sofisticados e consensos regionais, em uma América Latina devastada pela pandemia, mas também pela polarização social e política e pela atomização regional.

    Andrés Serbin é cientista político, presidente-executivo da Coordenação Regional de Pesquisa Econômica e Social (Cries), membro pleno do Conselho Argentino de Relações Internacionais (Cari) e ex-diretor de Assuntos Caribenhos do Sistema Econômico Latino-Americano (Sela).
    http://www.latinoamerica21.com, um projeto plural que dissemina diferentes visões da América Latina.

     

    Prof Luciano Mannarino.

  • Na esteira global, países africanos mudam nomes de lugares que homenageiam colonialistas

    Na esteira global, países africanos mudam nomes de lugares que homenageiam colonialistas

    Movimento que questiona monumentos já existia no continente e ganha força com Black Lives Matter
    Adriano Maneo
    BRASÍLIA

    O movimento global que pede a retirada de monumentos em homenagem a figuras ligadas ao passado colonial, desencadeado pelos atos antirracistas após a morte de George Floyd, impulsionou propostas para alterar nomes de locais e estátuas que celebram exploradores, monarcas e opressores na África.

    Após as manifestações, que começaram nos Estados Unidos e se espalharam por todo o mundo, Uganda, Quênia e Senegal já mudaram ou têm propostas para trocar o nome até mesmo de locais muito conhecidos, como o Lago Vitória, um dos maiores do planeta.

    Localizado entre Quênia, Tanzânia e Uganda, o lago foi batizado em homenagem à rainha Vitória, em 1850, por John Speke, oficial do Exército britânico que buscava encontrar a nascente do rio Nilo.

    Pescadores preparam redes na ilha Mimingo, no Lago Vitória, na fronteira entre Quênia e Uganda – Yasuyoshi Chiba – 5.out.18/AFP

    Incomodados com a memória da presença britânica que transformou o Quênia em uma colônia entre 1920 e 1963, os advogados Wambugu Wanjohi e Kariuki Karanja entregaram uma petição à Assembleia Nacional do país no final de julho para pedir que nomes de locais em homenagem à época do império sejam substituídos por outros “que reflitam a identidade cultural do povo queniano ou de heróis do país”.

    A petição também pede a retirada ou substituição de toda a “iconografia que promova a opressão do povo queniano” e a revisão do currículo escolar, “especialmente a história da ocupação colonial e a luta pela independência, para glorificar, em vez dos opressores, o povo queniano que lutou contra a opressão”.

    Segundo Wanjohi, apesar de os povos nativos estarem nesses locais até hoje, as crianças são ensinadas nas escolas há anos que os lugares foram descobertos por europeus.

    Entre os nomes dados por nativos ao Lago Vitória estão Nnalubaale, na língua luganda, Nyanza, em algumas línguas bantu, e Namlolwe, no dialeto dholuo, no Quênia.

    Na vizinha Uganda, um protetorado britânico de 1894 a 1962, movimento similar acontece.

    Uma petição online com mais de 5.500 assinaturas pela renomeação de ruas e de outros monumentos do país foi entregue pelo advogado Apollo Makubuya ao primeiro-ministro Ruhakana Rugunda e à presidente da Câmara do país, Rebecca Kadaga.

    O advogado Apollo Makubuya entrega petição para a mudança de nomes e monumentos de Uganda à presidente da Câmara do país, Rebecca Kadaga
    O advogado Apollo Makubuya entrega petição para a mudança de nomes e monumentos de Uganda à presidente da Câmara do país, Rebecca Kadaga – Reprodução – 26.jul.2020/Parlamento de Uganda

    Assim como no pedido queniano, a solicitação ugandesa, subscrita por parlamentares e juristas de renome do país, também sugere a reforma do currículo escolar e a instituição de uma regulamentação para fazer a troca de nomes a partir de discussões com a sociedade civil.

    O pleito ainda estimula a produção de pesquisas e publicações sobre a história da criação de Uganda e do período colonial britânico, para “apoiar o trabalho do Conselho de Direitos Humanos da ONU em busca da responsabilização e de reparação às vítimas de décadas de opressão e exploração colonial”.

    No ato de entrega, Makubuya afirmou que “a iconografia colonial ofende direitos e liberdades fundamentais de grupos e indivíduos contra tratamento cruel, desumano e degradante” e que ela “reforça e celebra uma cultura de supremacia colonial, dominação e impunidade”.

    Mas a posição não é unânime. Quando o jornal ugandês The Observer publicou reportagem sobre a iniciativa, leitores defenderam que o país trate ruas e monumentos como um museu a céu aberto.

    “Não sejamos mesquinhos. Só porque o sr. M7 [apelido do ditador de Uganda, Yoweri Museveni, no poder desde 1986] foi um bárbaro, por exemplo, a próxima administração deveria retirar todas placas e pedras fundamentais das instalações inauguradas por ele?”, escreveu um leitor.

    “Espero que o sr. Makubuya não esteja pensando em demolir o principal prédio da Universidade Makerere, o Livingstone Hall, […] porque foi construído pelos colonialistas britânicos.”

    Para outro leitor, o movimento é uma “loucura”, e os defensores das ações, não tão diferentes “dos loucos do Estado Islâmico que usaram martelos e destruíram ruínas de uma antiga civilização no Oriente Médio”.

    “Seguindo a linha de pensamento desses homens, por que não destruir também as imagens e relíquias de reis ugandeses que vendiam seus súditos para comprar armas?”

    OS DESCOBRIDORES AFRICANOS

    A petição de Makubuya foi inspirada em outra, de Milton Allimadi, professor ugandês de história africana na Universidade da Cidade de Nova York. Allimadi ficou conhecido em 2019 após “descobrir” um rio em Londres. Em visita à cidade, tirou uma foto em frente ao Tâmisa, um dos símbolo da capital inglesa.

    africa
    “Descobri o rio que vocês veem atrás de mim, aqui em Londres. Não sei como os nativos o chamam, mas darei um nome apropriado: rio Gulu”, escreveu, batizando o Tâmisa com o nome de sua cidade natal.

    “Descobri o rio que vocês veem atrás de mim, aqui em Londres. Não sei como os nativos o chamam, mas darei um nome apropriado: rio Gulu”, escreveu, batizando o Tâmisa com o nome de sua cidade natal.

    “Assim como o sir Samuel Baker [explorador britânico], agora vocês podem me chamar de sir Milton… Aquele que descobriu o rio Gulu”, afirmou ele. Colegas e admiradores passaram a chamá-lo de “sir”.

    Em poucos dias, o post viralizou, dando início a um movimento de “descoberta” de outros monumentos por africanos ou afrodescendentes pela Europa e pelos EUA.

    “Uma pessoa certamente não acredita que vale muito se considera que a história e a cultura dos outros são superiores à sua própria”, diz o professor, em entrevista à Folha.

    “Muito antes de países como os Estados Unidos existirem, já havia culturas avançadas na África, incluindo Egito, Núbia [atual Sudão], Aksum [partes da atual Etiópia] e Etiópia”, lembra.

    “Até mais recentemente, no século 12, as artes em bronze do Benin e dos Yorubá são evidências dos altos níveis culturais, mas muitos africanos perderam a confiança, porque a única história que são ensinados é de subjugação na forma de escravidão e colonialismo.”

    Marcada pela história profundamente ligada ao tráfico de escravos, a Ilha de Gorée, no Senegal —ex-colônia francesa—, era um dos principais portos de comércio de cativos na África.

    A 20 minutos de balsa da capital Dacar, Gorée hoje é ponto turístico, patrimônio mundial da humanidade e música na voz de Gilberto Gil. Mas a principal praça da ilha que recebe muitos turistas diariamente acabou levando um nome que dividiu opiniões.

    Financiada pela União Europeia, foi inaugurada em 1998 como European Square (praça europeia). No mês passado, no entanto, impulsionado pelo movimento global contra o racismo, o Conselho Municipal decidiu alterar o nome do local para Freedom Square (Praça da Liberdade).

    Segundo Doudou Dia, presidente da comissão de turismo da ilha e coordenador científico da comissão da Praça da Liberdade, Gorée tenta se posicionar como um lugar onde existe diálogo intercultural e civilizado em um mundo marcado por intolerância e crises de identidade.

    “Acima de tudo, esses eventos sublinharam a profunda divisão racial que continua a fraturar a humanidade dando espaço a medo, incertezas e humilhações”, afirma Dia.

    “Esse é um espaço de humanidade, para celebrar liberdade, valores de dignidade e honra. A praça está próxima da Casa de Escravos, e em respeito a essa memória o Conselho Municipal organizou encontros e decidiu mudar o nome, em resposta aos atos de racismo e violência pelo mundo.”

    A discussão sobre mudanças no legado colonial em países africanos não é nova e se renova quando há impulsos, como os atos pela morte de Floyd, e em alguns momentos as mudanças se materializam.

    As capitais de Moçambique, Maputo, e Zimbábue, Harare —para citar exemplos das inúmeras mudanças de nomes ocorridos em diversos países na África pós-colonial—, chamavam-se Lourenço Marques e Salysbury, até os países tornarem-se independentes de Portugal e Reino Unido, respectivamente.

    O próprio Zimbábue é um nome recente. Antes da independência, em 1980, o país cujo nome significa casa de pedra na língua nativa shona, chamava-se Rodésia, em homenagem ao imperialista inglês Cecil Rhodes, que teve papel central na dominação britânica das nações do sul do continente.

    Rhodes foi também alvo de revolta em um movimento que começou na Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, em 2015, e se espalhou por outros países, dentro e fora da África, com o nome de “Rhodes Must Fall” (Rhodes deve cair).

    Após um estudante jogar excrementos na cabeça de uma estátua do explorador no campus da instituição, uma série de protestos exigindo a retirada do monumento deu margem ao surgimento de outras pautas, como o racismo institucional da universidade e o acesso à educação no país.

    Rhodes, afinal, caiu, e nomes de outras instalações da universidade mudaram ao longo dos últimos anos.

    Movimento Rhodes Must Fall chegou à Universidade Oxford em 2015, e voltou à tona neste ano, em Londres – Adrian Dennis – 9.jun.2020/AFP

    Em 2016, uma figura vista por muitos como um símbolo da não violência gerou debates acalorados na Universidade de Gana, em Acra.

    Na iminência de uma visita do então presidente indiano Pranab Mukherjee, uma estátua de Mahatma Gandhi, líder pacifista e um dos responsáveis pelo movimento de independência da Índia, foi instalada no campus sem qualquer aviso ou discussão.

    Quando Obadele Kambon, pesquisador de línguas africanas da universidade, descobriu a novidade, enviou um email para a comunidade acadêmica revelando o surpreendente passado racista do ícone global.

    “Com a nova estátua de Gandhi atrás da Biblioteca Balme, penso que isso seja do interesse de vocês”, escreveu Kambon. “Espero que, na morte, ele não se oponha tanto a ser associado com africanos como aparentemente fazia enquanto vivo”, continuou.

    Na sequência, deixou referências a 58 frases racistas de Gandhi, nas quais chamava africanos de “selvagens” e “kaffir” —termo pejorativo para africanos negros— e elogiava o apartheid sul-africano.

    Depois, o professor criou uma petição online e o movimento Gandhi Must Fall (Gandhi precisa cair). Quando reuniu 1.500 assinaturas, entregou o pedido à universidade, que prometeu retirar a estátua.

    “Situamos o movimento Gandhi Must Fall no contexto dos movimentos Black Lives Matter que já estavam ocorrendo naquela época e somamos forças com o movimento Rhodes Must Fall”, lembra Kambon.

    A estátua, entretanto, foi retirada apenas dois anos depois, entre idas e vindas.

    Estátua de Mahatma Gandhi, na praça Gandhi, em Joanesburgo, na África do Sul – Siphiwe Sibeko – 11.jun.2020/Reuters

    Kambon diz compreender a existência do debate para definir o que deve ser retirado e o que deve ser mantido, mas ressalta que, após pesquisas como a que fez sobre Gandhi demonstrarem um histórico de racismo e opressão, é preferível que essas imagens sejam “substituídas por outras que sejam potentes e inspiradoras para as pessoas que vivam naquele local”.

    “Caso coloquem uma estátua de alguém que eu, como pesquisador, posso provar que se referia a nós como animais, vou exigir que ela seja retirada.”

    Segundo o professor, as pessoas olham a história como um passado ao qual não pertencem. Em vez disso, diz ele, elas deveriam encará-la como algo que estamos fazendo todos os dias.

    “Quando entendermos isso, podemos registrar em uma placa que ali existia uma estátua dessa pessoa, mas que, finalmente, o povo negro teve bom senso. Seria um registro de que acordamos e que somos pessoas sensíveis, com dignidade e respeito próprio.”

    Questões.
    1. Qual o objetivo do movimento “Rhodes must fall”?
    É possível estabelecer  relações  como o movimento “Black Lives Matter”? Justifique.
    2. Aponte influências da Europa  que ainda estão presentes nos países africanos mesmo após a emancipação política. Exemplifique.
    Prof Luciano Mannarino.