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  • Rússia, China e Índia lideram projeção geopolítica com a vacina (atividade)

    Rússia, China e Índia lideram projeção geopolítica com a vacina (atividade)


    Países mais ricos, por sua vez, buscam imunizar suas populações para reativar economia

    3.fev.2021 às 23h15

    Igor Gielow

    SÃO PAULO

    Enquanto EUA e Europa tentam imunizar suas populações mais rapidamente do que cresce a taxa de mutações do novo coronavírus, Rússia, China e Índia apostam na projeção geopolítica da vacina.

    As três potências, que integram o moribundo grupo Brics com Brasil e África do Sul, têm feito movimentos de expansão de sua influência a partir da oferta de imunizantes, em especial a países em desenvolvimento.

    Enfermeira boliviana recebe dose da Sputnik V russa em hospital de La Paz
    Enfermeira boliviana recebe dose da Sputnik V russa em hospital de La Paz – Jorge Bernal/AFP

    Os russos tiveram uma semana de boas notícias, com sua contestada Sputnik V sendo chancelada pela comunidade científica a partir da publicação de seus dados preliminares de fase 3 na prestigiosa revista britânica The Lancet.

    Isso abriu as portas para a chanceler alemã, Angela Merkel, dizer que se o imunizante for aprovado para uso na Europa, ela ajudaria Vladimir Putin a fazê-lo na Alemanha —resolvendo um dos gargalos da Sputnik V.

    Além disso, a aprovação para uso emergencial e fabricação no Brasil avançaram consideravelmente. Nesta quarta (3), México e Nicarágua elevaram para 18 os países que já deram aval para a vacina, 6 deles na América Latina.

    Para Putin, o prestígio é peça central, ainda mais no momento em que a pressão ocidental acerca da prisão do opositor Alexei Navalni cresce exponencialmente.

    De quebra, alguns negócios típicos dos russos podem avançar ao mesmo tempo.

    Na Argentina, que vacinou 0,88% de sua população desde a virada do ano com a Sputnik V, o embaixador da Rússia ofertou, segundo relatos, a venda de caças Su-30 ou MiG-29 para a Força Aérea local, que voa em estado miserável.

    Na mão inversa, compradores recente de caças russos como Egito e Argélia usaram os canais azeitados para receber o fármaco de Moscou.

    FRANÇA - Enfermeira injeta uma dose da vacina Pfizer-BioNTech Covid-19 em um membro da equipe médica de Hospital na cidade de Lyon
    FRANÇA – Enfermeira injeta uma dose da vacina Pfizer-BioNTech Covid-19 em um membro da equipe médica de Hospital na cidade de Lyon Jeff Pachoud/AFP

    Na quarta, desembarcaram na África do Sul 1 milhão de doses da vacina indiana Covishield, a versão sob licença do fármaco da AstraZeneca/Universidade de Oxford.

    Embora ela seja entregue pelo consórcio da Organização Mundial da Saúde Covax, que ajuda países mais pobres, é uma bandeira fincada pelo maior produtor de vacinas do mundo no continente mais desprezado pelos fabricantes.

    Com isso, Nova Déli entra na disputa com o maior ator externo na África, Pequim.

    O presidente Xi Jinping já prometeu ajudar 38 países com dificuldades na pandemia, com foco no continente, para o qual destinou US$ 2 bilhões para imunizantes.

    A África do Sul, onde uma nova variante mais transmissível do Sars-CoV-2 assusta cientistas, encomendou 12 milhões de doses ao consórcio.

    Vai precisar de mais: isso supre menos de 10% de sua população, lembrando sempre que são vacinas que necessitam de duas inoculações.

    Segundo a União Africana, os países da região já reservaram 400 milhões de doses na Índia, ante 270 milhões de farmacêuticas ocidentais. O Covax deverá entregar 700 milhões, de diversos produtores.​

    Também nesta quarta a China aplicou um golpe contra os indianos, rivais econômicos com quem quase foram às vias de fato em uma escaramuça fronteiriça em 2020.

    Pequim anunciou a entrega de lotes doados de vacinas chinesas para o Paquistão, seu aliado e maior inimigo da Índia, que já era cliente da estatal Sinopharm.

    As atitudes desses colegas de Brics contrastam com a estratégia de países ricos, de assegurar para si o maior número de doses possível.

    Há lógica geopolítica também: eles precisam conter a pandemia para reativar fluxos econômicos e manter estabilidade social, tão importantes quanto influência externa.

    Segundo o monitor de contratos para entrega de vacinas da agência Bloomberg, que conta 110 acordos oficiais, nada menos do que 40% dos 8,57 bilhões de doses negociadas estão nas mãos de EUA, União Europeia, Reino Unido, Japão e Canadá, que somam 13% da população mundial.

    Os canadenses reservaram uma cobertura vacinal três vezes maior do que a necessária.

    Os dados são só referências. Há vacinas com problemas crescentes de aceitação, inclusive a campeã de contratos (3 bilhões de doses), a da AstraZeneca/Universidade de Oxford.

    Índia começa a vacinação contra a Covid-19

    Indiana tem seu dedo marcado para registrar que já foi vacinada contra a Covid em hospital de Hyderabad
    Indiana tem seu dedo marcado para registrar que já foi vacinada contra a Covid em hospital de Hyderabad Noah Seelam/AFP

    Além isso, não há informações confiáveis acerca de quantas vacinas estarão disponíveis para China e Índia, os dois países mais populosos do mundo, com 1,44 bilhão e 1,38 bilhão, respectivamente.

    A Índia quer vacinar 300 milhões até agosto. Até aqui, só inoculou 0,29% da população.

    Mas o país, que produz 60% das vacinas do mundo, será uma grande fábrica de imunizantes ocidentais vendidos para terceiros, também.

    Já a China, que usa três de suas vacinas no programa emergencial desde julho passado, também está empenhada em parcerias externas.

    Um dos casos mais conhecidos é o da Coronavac, feita em parceria com o Butantan e cuja disponibilidade forçou o até então negacionista Jair Bolsonaro a adotá-la.

    Esses são efeitos secundários dessa disputa geopolítica: sob risco de ficar sem insumos chineses, Bolsonaro mudou sua postura crítica à ditadura chinesa e até deve aceitar a presença da Huawei como fornecedora de redes 5G.

    Mas tanto no caso chinês como no indiano, há considerações de política interna a fazer, como o episódio em que Nova Déli segurou uma carga de 2 milhões de doses para o Brasil da vacina de Oxford no começo de sua campanha.

    Outro ponto é de imagem: a China controlou a pandemia de forma eficaz, antes da vacina, enquanto os EUA caíram no caos e lideram o ranking da tragédia.

    Mas os americanos estão vacinando em alta velocidade relativa: 10% dos moradores já receberam ao menos uma dose, e 2%, duas. A China, até por ser quatro vezes mais populosa, só vacinou 1,7%.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/02/russia-china-e-india-lideram-projecao-geopolitica-com-a-vacina.shtml

    Questões

    Por que o segundo parágrafo menciona a expressão moribundo quando se refere ao BRICS?

    Qual o litígio de fronteira foi motivo do aumento da tensão entre chineses e indianos em 2020?

    A dependência de insumos chineses para produção de vacinas no Brasil tornou nossa política externa mais pragmática.? Justifique.

    Coreias do Norte e do Sul restabelecem comunicação encerrada há dois meses

    Cercado, Japão se afasta do pacifismo e acelera uso de armas ofensivas. (atividade)

    Prof Luciano Mannarino

  • Glorificação do trabalho na China combina ambições pessoais e endosso do Estado

    Glorificação do trabalho na China combina ambições pessoais e endosso do Estado

    Cultura inclui elementos do confucionismo, resistência a adversidades e sacrifício pessoal

    8.out.2020 às 23h15

    Você está ocupado? Ni mang ma? Esse era o tema do capítulo 2 do meu primeiro livro de mandarim. Fiquei me perguntando o porquê de aprender isso antes de saber dizer bom dia, boa noite, meu nome é fulano, sou de tal país.

    Mas não, de acordo com o manual, antes convinha perguntar se a outra pessoa estava muito ocupada. Do capítulo 1, tinha aprendido basicamente a dizer olá, nihao. Imediatamente depois: “Você está muito ocupado?”.

    Pois aquilo tinha razão de ser, revelava um traço cultural importante que aos poucos fui percebendo. A valorização do trabalho duro na China e a glorificação de longas jornadas são muito enraizadas no país.

    Funcionários trabalham em linha de montagem de baterias de lítio na cidade de Yichang, na província de Hubei, na China
    Funcionários trabalham em linha de montagem de baterias de lítio na cidade de Yichang, na província de Hubei, na China – 28.mai.19/Reuters

    A cultura do trabalho aqui combina elementos do confucionismo, como dedicação, capacidade de resistir às adversidades e sacrifício pessoal. Segundo um ditado antigo, os céus recompensam os diligentes.

    Essa lógica encontra terreno fértil na dita era da ambição que vive a China, na qual há um mundo de oportunidades, mas a corrida pelo dinheiro encontra competição extremamente acirrada.

    Para completar, a valorização do trabalho e a busca por melhores condições de vida têm as bênçãos do Partido Comunista. Enriquecer é glorioso, teria dito Deng Xiaoping.

    A relação dos indivíduos com a família e com a sociedade contribui para essa ética do trabalho. Os pais se sacrificam pela educação dos filhos e têm expectativas altas de que sejam bem-sucedidos.

    A sociedade espera que a geração seguinte tenha uma vida mais confortável que a anterior. Essa sequência de gerações materialmente melhores é algo constante na China dos últimos 40 anos —e aumenta a pressão para que os jovens trabalhem duro, o que, ademais, é motivo de orgulho para a família.

    No setor de tecnologia, por exemplo, é visto como normal o regime de trabalho 996 —das 9h da manhã às 9h da noite, 6 dias por semana. A piada com fundo de verdade é que a jornada, na verdade, é do tipo 007 —de zero hora de um dia até zero hora do seguinte, todos os dias.

    'Indústria Americana' (2019)
    ‘Indústria Americana’ (2019)

    De longe, pode-se ter a impressão de que a legislação trabalhista mais flexível ou a dificuldade de questionar condições de trabalho explique tudo.

    De perto, e mesmo assumindo o risco da generalização, é impossível desconsiderar a importância da ética do trabalho na China, ignorar como aspectos culturais e sociais moldam a maneira como os chineses veem o trabalho e a corrida pelo sucesso. Lembro o dia em que assinei meu contrato de trabalho em Pequim. Logo após os papéis, fui convidada a tomar chá com uma autoridade da universidade. Depois de amenidades, fui perguntada se eu teria algum problema em trabalhar aos finais de semana. Saí do chá pensativa, o contrato recém-assinado não tinha nada sobre aquilo. ​

    Mais de um ano depois, com um número razoável de domingos tomados por atividades acadêmicas, perguntei a um colega, afinal, por que sempre fazer esses seminários nos fins de semana.

    O sujeito se surpreendeu com a pergunta por ser óbvia a resposta: durante a semana nós trabalhamos, ora. Estamos muito ocupados. Hen mang! Só aí entendi uma das lições básicas do meu curso de chinês.

    Tatiana Prazeres – Senior fellow na Universidade de Negócios Internacionais e Economia, em Pequim, foi secretária de comércio exterior e conselheira sênior do diretor-geral da OMC.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tatiana-prazeres/2020/10/glorificacao-do-trabalho-na-china-combina-ambicoes-pessoais-e-endosso-do-estado.shtml

    Questões

    1. O texto revela um componente cultural na competitividade do trabalhador chinês? Justifique.

    2. É possível identificar, no texto, contradições no comunismo vivido na sociedade chinesa? Justifique.

    Prof. Luciano Mannarino

  • EUA, Japão, Austrália e Índia desafiam China e prometem Indo-Pacífico livre e aberto

    Encontro de chanceleres do grupo Quad tem retórica agressiva puxada por Mike Pompeo

    Igor Gielow

    SÃO PAULO

    Estados Unidos, Japão, Austrália e Índia fizeram uma demonstração de força contra a China durante encontro de seus ministros de Relações Exteriores em Tóquio.

    Eles formam o chamado Quad, sigla inglesa pra Diálogo de Segurança Quadrilateral, grupo que foi ressuscitado em 2017 para buscar criar o que a China já chamou de “mini-Otan” no Pacífico, aludindo à aliança militar americana na Europa contra os soviéticos e, depois, os russos.

    Da esq. para a dir., os chanceleres Subrahmanyam Jaishankar (Índia), Marise Payne (Austrália), Pompeo (EUA) e Motegi (Japão), no encontro do Quad em Tóquio
    Da esq. para a dir., os chanceleres Subrahmanyam Jaishankar (Índia), Marise Payne (Austrália), Pompeo (EUA) e Motegi (Japão), no encontro do Quad em Tóquio – Kiyoshi Ota/AFP

    Os ministros prometeram tomar medidas concretas para manter a região do Indo-Pacífico “livre e aberta”, um recado direto às pretensões em curso de Pequim, de controlar 85% do mar do Sul da China, sua principal saída comercial com o mundo.

    Não houve, contudo, a temida provocação por parte do mais belicoso dos chanceleres, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, com uma inédita visita surpresa a Taiwan, que a China considera uma ilha rebelde.

    Pompeo foi quem tomou a frente em termos de retórica. “Como parceiros, é mais crítico agora do que nunca que nós colaboremos para proteger nossos povos da exploração, corrupção e coerção do Partido Comunista Chinês. Nós as vemos nos mares do Sul e do Leste da China, no Mekong, nos Himalaias, no estreito de Taiwan”, afirmou.

    O secretário buscou efeito midiático máximo no momento em que seu chefe está atrás nas pesquisas da corrida eleitoral, que acaba em 3 de novembro. O tema China sempre catalisou apoio para Donaldo Trump.

    Mas não é só isso. A fala seguiu o tom usual do secretário, visto como um dos principais “falcões” da Guerra Fria 2.0 proposta por Trump ao chegar ao poder em 2017.

    O próprio Quad, que agora terá reuniões anuais de seus ministros, é resultado dessa nova realidade. Ele existiu brevemente em 2007, mas acabou por falta de apetite dos membros em confrontar a China. Foi reanimado.

    China celebra 70 anos da Revolução Comunista

    O líder chinês Xi Jinping desfila em carro aberto
    O líder chinês Xi Jinping desfila em carro aberto Thomas Peter/Reuters

    Neste 2020, o cenário é particularmente mais complexo, ainda que o risco de guerra ampla seja considerado baixo. A Índia, que sempre viu o grupo como uma forma de pressionar a China em suas negociações comerciais, está efetivamente do lado dos EUA desde que houve os embates citados por Pompeo nos Himalaias.

    Nova Déli e Pequim disputam fronteira naquela região e montaram uma escalada militar, ora congelada com mediação de Moscou, depois que escaramuças deixaram dezenas de mortos em junho.

    Já a Austrália tomou a frente das críticas aos chineses pela condução inicial da pandemia do novo coronavírus, surgida em Wuhan. Hoje isso é uma pedra de toque da administração Trump, e mesmo nesta terça Pompeo voltou a falar no “vírus chinês”.

    “Seja em direitos humanos individuais, economias de mercado, combatendo desinformação ou construindo maior resiliência em nossas cadeias produtivas, nossos valores e interesses comuns significam que dividimos uma visão de um Indo-Pacífico livre, aberto e próspero”, escreveu no Facebook a chanceler australiana, Marise Payne, depois do encontro.

    A Índia foi menos assertiva em sua mensagem, mas o tom mais frio veio por parte dos anfitriões. O governo do premiê Yoshihide Suga acaba de assumir, e ele irá receber o chanceler chinês neste mês.

    Testando ainda o terreno, o chanceler japonês, Toshimitsu Motegi, não citou a China em sua fala inicial, ainda que relatos posteriores indiquem que a questão das ilhas que Pequim reivindica para si hoje sob controle de Tóquio foi discutida.

    Nos últimos anos, o antecessor de Suga, Shinzo Abe, promoveu uma ativa remilitarização do Japão, país de conturbado passado expansionista e forte tendência pacifista.

    Navios da Marinha japonesa, com o destróier Kurama à frente, durante parada ao sul de Tóquio
    Navios da Marinha japonesa, com o destróier Kurama à frente, durante parada ao sul de Tóquio – Toru Hanai – 18.out.2015/Reuters

    Pompeo foi embora do Japão, tendo encurtado o que seria uma visita à Mongólia e à Coreia do Sul, o que ensejava o temor de uma “esticadinha” em Taiwan entre os chineses. Ele retornou devido ao diagnóstico de Covid-19 de Trump.

    Desde agosto, duas autoridades americanas estiveram na ilha, o que implica um reconhecimento diplomático que não existe no papel —EUA e China têm relações desde 1979.

    A reação chinesa seria inevitável, na forma de alguma demonstração de poderio militar no estreito de Taiwan, o que sempre pode sair do controle.

    O encontro desta terça também abriu o caminho para que a Austrália faça parte dos exercícios militares navais anuais que unem Índia e EUA desde 1992 e, a partir de 2015, integraram também o Japão.

    Chamadas de Malabar, as manobras atuam em áreas de interesse estratégico da China. Observando um mapa, a posição dos membros do Quad explicita um cerco geopolítico que Pequim não tem como deixar de notar, apesar das declarações minimizando a eficácia do grupo por parte da chancelaria chinesa.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/10/eua-japao-australia-e-india-desafiam-china-e-prometem-indo-pacifico-livre-e-aberto.shtml

    Questões

    1. Por que o governo chinês chama o Quad de mini-OTAN?

    2. Explique a permanente tensão entre a China e a Ilha de Formosa.

    3. O seria a Guerra Fria 2.0?

    4. A remilitazação do Japão é apoiada pelos EUA? Justifique.

    Prof Luciano Mannarino

  • Brasil foca em soja e milho para exportação, e arroz e feijão perdem espaço…

    Brasil foca em soja e milho para exportação, e arroz e feijão perdem espaço…

    Bruno Cirillo

    Colaboração para o UOL, em São Paulo

    Atualizada em 27/09/2020 07h10

    Nos últimos 20 anos, as culturas agrícolas voltadas para exportação, como soja e milho, cresceram exponencialmente, enquanto as plantações de itens da cesta básica, como arroz e feijão, tiveram expressivas reduções de área. Essa mudança no perfil da agricultura brasileira ajuda a explicar as recentes altas no preço dos alimentos, de acordo com especialistas.

    Nos anos 2000, o arroz ocupava 3,2 milhões hectares de área plantada no Brasil; a estimativa para a safra atual é de 1,6 milhão de hectares, metade do que era plantado. Já a soja, que ocupava 13,9 milhões de hectares há duas décadas, atingiu 36,9 milhões de hectares neste ano, expansão de 165%. O mesmo acontece nas culturas do feijão (redução de 76,5%) e do milho (alta de 143%), segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

    Expansão das exportações agrícolas

    “A partir de 2000, as exportações de soja e milho começaram a deslanchar”, observa o pesquisador da Embrapa Elisio Contini.

    Para o coordenador do índice de preços da FGV, André Braz, a atratividade do mercado externo provoca uma mudança no comportamento do produtor brasileiro, que acaba dando preferência às commodities.

    O incentivo para produzir arroz e feijão não é grande. O espaço para exportação de milho e soja é maior, remunera mais e, com a desvalorização do real, acaba sendo ainda mais vantajoso. No momento em que outras culturas pagam menos, é natural que o uso da terra seja voltado às commodities.
    André Braz, coordenador do índice de preços da FGV

    O especialista não vê risco de desabastecimento, mas considera que a alta de preços de produtos da cesta básica é uma tendência que deve continuar. Isto somado à situação econômica do país é preocupante, segundo Braz.

    O maior risco, numa recessão, é a falta de emprego. Ainda que o preço dos produtos suba, se você tem renda, consegue driblar o aumento. Se não tem renda, a qualquer nível de preço, o produto fica caro.
    André Braz, coordenador do índice de preços da FGV

    Produtor do RS trocou arroz por soja

    Na região da Campanha Gaúcha, o produtor Paulo Lederes plantava 1.500 hectares de arroz há quinze anos. Quando iniciou a produção de soja, foi deixando paulatinamente a rizicultura. Em 2005, passou a produzir mais soja que arroz e, nesta safra, está plantando 900 hectares de soja e um décimo (150 hectares) do que plantava de arroz.

    Em razão dos altos custos de produção, baixos preços das safras e problemas de crédito, migramos para a soja.
    Paulo Lederes, produtor agrícola de São Gabriel (RS)

    “A soja não tem volta, cada ano cresce de dez a quinze hectares na região”, diz o produtor de São Gabriel (RS).

    O município está plantando 21 mil hectares de arroz (30% a menos do que no ano passado) e 140 mil hectares de soja neste ano, seguindo uma tendência que tem sido averiguada nos últimos anos, de crescimento de uma cultura sobre a outra.

    Soja oferece vantagens financeiras ao produtor

    Lederes lembra que, nos últimos anos, sete indústrias de soja chegaram à região, financiando a cultura.

    A soja tem a venda garantida através de preços fixados no mercado futuro (Bolsa de Chicago), além da troca de parte da produção pelos insumos necessários ao plantio (sementes, fertilizantes e defensivos).

    No caso do arroz, os produtores conseguem, no máximo, um empréstimo das indústrias, com preço negociado entre ambos, mas sem poder usufruir da garantia do preço futuro de uma Bolsa de commodities para a época da colheita.

    O arroz não tem garantia de preço, vale bem menos a pena.
    Paulo Lederes, produtor agrícola de São Gabriel (RS)

    Mais de 60% da soja e 30% do milho produzidos no Brasil são exportados, principalmente para a China, puxando as vendas internacionais do agronegócio brasileiro. Desde janeiro do ano passado, 60 novos mercados foram abertos para os produtos agrícolas brasileiros.

    “A rentabilidade da soja aumentou muito com as exportações para a China. As indústrias passaram a remunerar melhor o produtor”, comenta Lederes.

    Menos feijão no Paraná

    À frente da produção de sementes de feijão feita por vinte cooperados no Oeste do Paraná, o produtor Airton Cittolin, de Cascavel (PR), observa que os 28 municípios paranaenses devem produzir 30% a menos do grão nesta safra.

    A produção vai diminuir porque o preço da soja e do milho subiu muito. O feijão é uma cultura que oscila muito de preço, então o pessoal opta pelas culturas mais seguras.
    Airton Cittolin, produtor agrícola de Cascavel (PR)

    Embora as sacas de feijão preto e carioca estejam valendo R$ 250 e R$ 280, enquanto a da soja seja vendida a R$ 120, a garantia de venda da soja ainda compensa mais o produtor do que o feijão.

    A soja tem liquidez na hora, muitos lugares que recebem –é dólar na mão. Já o feijão tem pouco comprador, depende muito da qualidade e só paga em 30 dias.
    Airton Cittolin, produtor agrícola de Cascavel (PR)

    O economista Marcelo Garrido, do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Agricultura do Paraná, informa que, em dez anos, a área plantada de feijão encolheu 92% no Paraná. No mesmo período, a soja cresceu 3,9%, para 995 mil hectares: “Para o Paraná, é uma expansão considerável porque não temos terra nova para plantio — a área agrícola está esgotada”.

    Garrido observa que o movimento se repete em boa parte do país. “Nos últimos anos, a soja tem ganhado muita área em cima das culturas menores, em função de preço e liquidez. A soja é a cultura com mais rentabilidade, não depende do mercado interno. O feijão depende do mercado interno e é muito sensível ao clima”, compara.

    Área caiu, mas produtividade aumentou

    “Existe, de fato, uma substituição de culturas no Brasil. O Rio Grande do Sul perdeu muita área de arroz e foi para a soja, entre outras culturas. No arroz, em específico, a área decresceu 41% em dez anos, mas a produtividade aumentou 38%, compensando a queda. O consumo de arroz caiu 6%, enquanto a produção cresceu 5% nos últimos cinco anos”, pondera o superintendente de gestão de oferta da Conab, Alan dos Santos.

    O especialista observa um movimento parecido com o feijão, que teve queda de 27% na área plantada nos últimos dez anos, mas crescimento de 18% na produtividade —queda de 13% na produção. Em uma década, o consumo do grão caiu de 3,6 milhões para 3,2 milhões de toneladas no Brasil. “São produtos básicos da alimentação brasileira, complementares, e seguiram tendências parecidas”, observa Santos.

    Falta política pública para segurança alimentar?

    Os especialistas afirmam que não existe risco para a segurança alimentar —uma responsabilidade da Secretaria de Política Agrícola, do Ministério da Agricultura (Mapa), que não se manifestou até a publicação da reportagem.

    O maior desastre seria faltar produto. Mas isso, a meu ver, não vai acontecer.
    Elisio Contini, pesquisador da Embrapa

    Segundo ele, o governo trabalha com estoques estratégicos, taxas de importação menores, incentivos à produção e oferta de crédito para garantir o abastecimento interno.

    A política agrícola estimula a oferta de bens básicos, como o arroz e feijão. Isso tem garantido a oferta nacional. Houve crises de preço em 2011 e 2018, e a política de preço mínimo garantiu a permanência de produtores na cultura –para evitar a substituição de culturas e dependência externa.
    Alan dos Santos, superintendente de gestão de oferta da Conab

    Há 30 anos no setor privado, o analista Carlos Cogo, que já trabalhou na Conab, discorda dos colegas do setor público.

    O Brasil não tem política agrícola. O Brasil tem bombeiro que vai lá e apaga fogo quando tem um problema grave, como aconteceu agora no caso do arroz.
    Carlos Cogo, ex-Conab e diretor da Carlos Cogo Consultoria Agroeconômica

    Ele lembra que o governo decidiu zerar as tarifas de importação do arroz quando os preços da saca já haviam batido R$ 40 nos supermercados.

    Cogo lembra que há muito tempo a política de estoques públicos, empregada quando falta produto ou os preços estão muito baixos, vem sendo abandonada pelo governo. “A Conab não tem mais estoque público já faz um tempo, só tem estoque residual de milho. Não tem mais nada de trigo e arroz. Por isso não houve intervenção com leilões de estoques no caso do arroz”, observa.

    O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Santa Catarina (Faesc/Senar-SC), José Zeferino Pedrozo, lembra que, apesar da alta no preço do arroz neste ano, a cultura vem causando prejuízos há muitas safras para os produtores, agravados pela ausência de instrumentos de política agrícola.

    É justo assinalar que os arrozeiros amargaram muitos anos de prejuízos e que os ganhos deste ano não repõem as perdas do passado.
    Zeferino Pedrozo, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Santa Catarina

    “Aqui em Santa Catarina se fala em manter os dois mercados, nacional e internacional”, relativiza o presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias de Santa Catarina (Fecoagro-SC), Ivan Ramos, à frente de dez cooperativas e o frigorífico Aurora. “Houve uma diminuição na área plantada de arroz, nos últimos anos, em função de preço. O pessoal está migrando bastante para fruticultura”, comenta o representante.

    https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/09/27/alimentos-commodities-seguranca-alimentar-brasil.htm

    Questões

    1. As culturas de exportações têm um papel fundamental em nossa balança comercial? Justifique.

    2. Qual a importância da Embrapa na produção de alimentos no Brasil? (pesquisa)

    3. De que forma é possível aumentar a produtividade sem avançar sobre novas áreas agrícolas?

    4. O Brasil é um dos principais exportadores de alimentos do mundo, no entanto vem apresentando problemas de abastecimento interno. Explique essa contradição.

    5. Aponte impactos ambientais ligados a produção agropecuária brasileira.

    Professor Luciano Mannarino.

  • Em visita à Califórnia, Trump minimiza preocupações com mudanças climáticas

    Em visita à Califórnia, Trump minimiza preocupações com mudanças climáticas

    Presidente culpa gestão florestal dos estados democratas da Costa Oeste americana

    14.set.2020 às 18h34

    WILMINGTON e MCLELLAN PARK | REUTERS

    As queimadas que se espalham pela Costa Oeste dos Estados Unidos entraram de vez na pauta das eleições presidenciais do país, cuja votação está marcada para dia 3 de novembro.

    Em visita à Califórnia, o presidente e candidato à reeleição, Donald Trump, minimizou o papel das mudanças climáticas nos maiores incêndios já registrados na história do estado e afirmou que a culpa é da ineficiência da gestão florestal, em uma tentativa de responsabilizar os governo democratas da Califórnia, do Oregon e de Washington.

    “Quando as árvores caem, após um curto período de tempo elas ficam muito secas, como um fósforo”, disse Trump, nesta segunda-feira (14), ao desembarcar no estado. Para o republicano, no entanto, muitos outros países não enfrentam problemas como esse.

    O presidente dos EUA, Donald Trump, participa de reunião sobre as queimadas na Costa Oeste dos EUA, em McLellan Park, na Califórnia – Jonathan Ernst/Reuters

    Ele, que vinha sendo criticado por se calar sobre as queimadas, participou de uma entrevista coletiva ao lado do governador da Califórnia, Gavin Newson, na qual ouviu agradecimentos do democrata pela ajuda federal no combate ao fogo, ainda que tenha sido questionado sobre sua posição negacionista.

    “Nós viemos, humildemente, de uma perspectiva em que seguimos a ciência, e é evidente que a mudança climática é real e está exacerbando isto”, disse Newson em referência às queimadas na Costa Oeste.

    O governador afirmou que, de fato, o manejo florestal pode e deve ser melhorado, mas lembrou o presidente que 57% da área de floresta da Califórnia está sob controle do governo federal.

    Escorregador de playground ficou derretido após incêndios passarem por Fresno, na Califórnia
    Escorregador de playground ficou derretido após incêndios passarem por Fresno, na Califórnia Josh Edelson/AFP

    Durante sua gestão, Trump retirou os EUA do Acordo de Paris, a principal iniciativa global para frear as mudanças climáticas, enquanto seu adversário na corrida pela Casa Branca, Joe Biden, põe o assunto entre as maiores crises que o país enfrenta. Os incêndios, diz ele, ilustram sua posição.

    Nesta segunda, Biden —que tem sido atacado por republicanos por não ter visitado as áreas devastadas— chamou Trump de “incendiário climático” em um discurso em Delaware. “Se tivermos mais quatro anos do negacionismo climático de Trump, quantos subúrbios serão incendiados pelas queimadas?”, questionou.

    Os moradores dessas áreas têm sido explorados por Trump nas últimas semanas. Em oposição à proposta de habitação de Biden e às tensões causadas pelos protestos antirracismo, o presidente passou a dizer que fará de tudo para impedir a construção de moradias mais baratas próximas a subúrbios, regiões que concentram a classe média americana.

    O candidato democrata à Presidência dos EUA, Joe Biden, discursa em Delaware sobre as queimadas na Costa Oeste dos EUA – Drew Angerer/AFP

    Os incêndios florestais avançam sobre estados da Costa Oeste dos EUA em meio a uma intensa onda de calor. Focos de chamas na região são comuns nesta época do ano devido ao clima seco, mas o fogo registrado até agora parece não ter precedentes —e o pico da temporada de incêndios ainda não chegou.

    As queimadas mataram ao menos 24 pessoas, causaram a destruição de centenas de imóveis e forçaram centenas de milhares a deixarem suas casas. Uma seca crônica e ventos fortes alimentam o fogo que se espalha do estado de Washington, na fronteira com o Canadá, até a cidade californiana de San Diego, na divisa com o México. Ainda é impossível avaliar a verdadeira extensão da destruição.

    Cientistas acreditam que o aumento da intensidade dos incêndios está relacionado ao aquecimento global, que torna as temporadas de chuva e de seca mais extremas. No último final de semana, as temperaturas na parte oeste do vale de San Fernando, na Califórnia, chegaram a 49ºC.

    Na Califórnia, uma série de 37 incêndios tornou-se oficialmente a maior da história do estado ao destruir uma área de 190 mil hectares. Em Washington, o governador Jay Inslee, também do Partido Democrata, afirmou que as chamas consumiram 200 mil hectares.

    Caminhão de bombeiros queimado no Oregon, durante incêndios florestais na Costa Oeste dos EUA – Shannon Stapleton/Reuters

    Imagens de drones mostram centenas de casas reduzidas a cinzas em comunidades ao sul do Oregon. Em mais de 12 comunidades, equipes de busca e resgate vasculharam residências destruídas em busca de restos humanos.

    Após quatro dias de muito calor e ventania no estado, o fim de semana teve ventos mais leves e clima mais ameno, ajudando as equipes a avançar contra o fogo. Na sexta-feira (11), um homem foi preso acusado de iniciar as queimadas que destruíram cidades inteiras no Oregon.

    A polícia do estado também alerta a população contra posts em redes sociais com afirmações falsas, segundo as quais as queimadas foram iniciadas por antifascistas ou militantes de extrema direita.

    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/09/em-visita-a-california-trump-minimiza-preocupacoes-com-mudancas-climaticas.shtml

    Questões

    1. Há um componente político presente no combate aos incêndios na Califórnia? Justifique.

    2. Por que esses eventos sempre acontecem nessa época do ano (momento da reportagem)?

    3. O que é o “negacionismo climático” e de que forma ele se relaciona com a postura americana em relação ao Acordo de Paris.

    Professor Luciano Mannarino