A monetização do acaso em partidas de futebol revela a complexa relação entre imprevisibilidade, emoção e mercado. Quando anunciamos uma grande partida, estamos vendendo mais do que um evento esportivo; estamos comercializando o as possibilidades que o acaso traz.
A incerteza do resultado e os momentos imprevisíveis – como gols de última hora ou jogadas inesperadas – atraem milhões de fãs. Essa imprevisibilidade é o que torna a partida um produto valioso. Ao anunciar um jogo, exploramos a expectativa coletiva sobre o que pode acontecer, e cada fã, ao assistir, está investindo na chance de testemunhar algo único enquanto ganha dinheiro por isso.
Patrocinadores, emissoras e clubes entendem o valor desse drama. Campanhas publicitárias e promoções em torno de uma partida vendem não apenas o jogo, mas a promessa de emoção e o suspense do inesperado.
No fundo, o que está sendo vendido não é apenas o jogo, mas a emoção que o acaso provoca nos torcedores. Essa comercialização molda a forma como o esporte é consumido, transformando o que era uma experiência espontânea em um evento mercantilizado. A monetização do acaso em uma partida de futebol reflete o poder da incerteza sobre o público, tornando o acaso tanto o herói quanto o produto central de uma das indústrias mais lucrativas do mundo.
Crônica feita com ajuda de Inteligência Artificial.
É o fluxo de água que ocorre em sub-superfície. A água que percola no solo pode encontrar uma descontinuidade com menor permeabilidade e começar a escorrer lateralmente, dentro do solo, em subsuperfície.
Escoamento Subsuperficial
Os horizontes tilais argilosos, por exemplo, podem provocar a existência do escoamento subsuperficial. A presença da rocha matriz, em subsuperfície, próximo do horizonte A, também pode dar origem a esse tipo de escoamento de água. O escoamento subsuperficial pode dissolver alguns minerais mais solúveis e criar verdadeiros túneis dentro do solo, podendo haver o colapso do teto desses dutos, originando o aparecimento de voçorocas.
Voçoroca
Neste caso, quase sempre essas formas erosivas são de grande expressão espacial, tanto em termos de profundidade, como de largura e comprimento, pois esses dutos vão se formando e se alargando, sem que o homem perceba o que está acontecendo em subsuperfície. Os problemas costumam ser mais sérios, quando esse tipo de escoamento ocorre em áreas urbanizadas, onde casas e ruas são destruídas, bem como pessoas podem morrer.
Fonte: Novo dicionário geológico-geomorfológico – Antonio Teixeira Guerra, Antonio José Teixeira Guerra. Rio de Janeiro – Bertrand Brasil, 1997.
Encontro entre corredor de umidade, que flui de norte para sul do país, e frentes frias causa chuvas fortes nesta época do ano
1º.fev.2022 às 8h46
Rafael BarifouseBBC NEWS BRASIL
As tempestades que vêm causando uma sequência de tragédias no Brasil desde o final do ano passado têm em comum um mesmo fenômeno.
Assim como a água corre em terra, também há fluxos massivos de água nos céus.
Na América do Sul, um desses enormes corredores de umidade atmosférica vai da região amazônica até o centro-sul do país.
Tempestades provocaram deslizamentos e mortes em São Paulo – Reuters
Esse “rio voador” carrega parte da água que evapora no norte para outras partes do território nacional.
“É uma região muito úmida e tropical, onde tem um aquecimento constante. A Floresta Amazônica por si só já despeja uma quantidade enorme de água na atmosfera pela evaporação”, explica Estael Sias, da Metsul Meteorologia.
“O relevo da América do Sul, a cordilheira dos Andes, não deixa essa umidade escapar do continente, obrigando esse rio voador a descer.”
Se esse corredor de umidade se encontra com uma frente fria vinda do sul, as nuvens carregadas tendem a ficar concentradas por alguns dias em uma determinada região.
‘Rio voador’ leva umidade da Amazônia até o sul do país – MetSul Meteorologia
Um fenômeno potencializa o outro, formando um terceiro —a chamada zona de convergência do Atlântico Sul, que é recorrente durante o verão nesta região do planeta e provoca fortes chuvas.
Foi o que aconteceu primeiro no sul da Bahia, no final do ano passado e, depois, em Minas Gerais, no início do mês.
Agora, foi a vez das chuvas torrenciais atingirem São Paulo, provocando mais inundações, deslizamentos e mortes.
Sias explica que o rio voador da América do Sul corre a uma altitude entre 5 a 10 km do solo e fica ativo durante o ano todo.
Seu curso e alcance são influenciados pela dinâmica dos ventos na região e pela passagem de outros fenômenos pelo continente.
“No inverno, um sistema de alta pressão atmosférica não deixa a maioria das frentes frias subirem até o Sudeste ou o Centro-Oeste, por isso é um período muito seco nessa parte do país, e o rio atmosférico consegue ir até mais ao sul”, afirma a especialista.
“No verão, esse bloqueio vai para o oceano, se afastando do continente, e as frentes frias conseguem subir. Quando sobe uma frente fria, ela se conecta à umidade amazônica, e elas vão andando juntas até parar em cima do Sudeste ou do Nordeste do Brasil e se transformar em chuvas e temporais.”
Encontro de ‘rio voador’ com frente fria cria zona de convergência na região do Atlântico Sul – Climatempo
Sias afirma que, na semana passada, o rio voador estava mais disperso, mas que, nesta semana, uma massa de ar frio e seco chegou ao sul do país e criou uma barreira que não deixou o corredor de umidade avançar.
As nuvens ficaram então paradas sobre a região metropolitana de São Paulo e foram potencializadas pela frente fria, provocando fortes chuvas.
O resultado foi que choveu em poucos dias a média histórica para o mês inteiro, e isso foi fatal em uma região que já vinha sofrendo com tempestades.
FENÔMENO É CARACTERÍSTICO DO VERÃO
No entanto, apesar de muita gente pensar que chuvas assim são excepcionais, Francisco de Assis, do Instituto Nacional de Meteorologia, explica que as zonas de convergência são algo característico da América do Sul no verão.
“Dependendo do ano, ocorrem mais para o sul ou mais para o norte”, afirma Assis.
Nesta época do ano, o corredor de umidade que vem da Amazônia ganha força. “Há uma alta liberação de calor e umidade da Amazônia devido às temperaturas elevadas,”, afirma Assis.
Também há uma maior evaporação de água dos oceanos Pacífico e Atlântico, intensificando esses fenômenos meteorológicos, explica o especialista.
Josélia Pegorim, meteorologista da Climatempo, reforça que as zonas de convergência acontecem todos os anos, com maior ou menor intensidade.
“Se pegarmos outros eventos de desastres naturais e de chuvas catastróficas, no Sudeste em particular, quase todos, ou a maior parte, estiveram associados à formação de zonas de convergência”, diz Pegorim.
Em poucos dias, choveu a média de janeiro inteiro na região metropolitana de SP – Reuters
A especialista avalia que as tragédias ocorrem não pela intensidade das chuvas ou porque elas sejam imprevisíveis —na verdade, foi o contrário, dizem os meteorologistas ouvidos pela reportagem, e alertas foram emitidos com antecedência.
O problema é a falta de preparo e de reação das autoridades aos avisos.
“A culpa é da chuva até certo ponto. Não se pode dizer que é por causa das mudanças climáticas ou que nunca choveu assim, porque já teve chuvas até piores. Não teve surpresa”, diz Pegorim.
Ao mesmo tempo, afirma a meteorologista, a canalização do ar úmido da região Norte em direção ao Centro-Oeste e ao Sudeste e a formação das zonas de convergência no encontro com frentes frias, formando tempestades, tem uma função importante.
“Esse sistema é fundamental para que consigamos recompor as reservas de água para os reservatórios de geração de energia e de abastecimento da população.”
1 De que forma o aumento da devastação da floresta amazônica pode modificar a quantidade de chuvas no verão das regiões Centro Oeste e Sudeste?
2 Explique as características do Clima Equatorial a partir de seu Climograma.
3 Por que eventos de chuvas intensas atingem mais as populações de baixa renda nas grandes metrópoles da região sudeste? Quais intervenções que o poder público poderia fazer para diminuir os danos dessas chuvas sobre essas populações?
4 Como o “La Nina” altera o comportamento das massas de ar que atuam no Brasil?
A grave crise no Leste Europeu que opõe a Rússia de Vladimir Putin à Ucrânia e ao Ocidente, representado pela sua aliança militar, a Otan, pode trazer a guerra de volta ao solo europeu.
Ao mesmo tempo, as negociações em torno do impasse testam duas décadas de política de Putin e talvez seu futuro político — no poder desde 1999, ele mudou a Constituição e pode tentar ficar no cargo até 2036.
Força de reserva ucraniana treina a defesa de Kiev, capital do país, no fim de 2021 – Serguei Supinski – 25.dez.2021/AFP
O presidente da Rússia, que assumiu sobre as ruínas dos dez anos de crise após o fim da União Soviética, trabalhou um plano geopolítico claro. Críticos o acusam de buscar restaurar o império comunista, mas suas preocupações são as mesmas de governantes do maior país do mundo desde tempos imperiais: aumentar a distância entre seu território e os adversários, perdida quando a união caiu, em 1991.
Há outros pontos, como a proteção de russos étnicos que ficaram para trás, e a manutenção da popularidade, que tem na ideia de uma Rússia forte um de seus pilares. O adversário, claro, é a Otan, liderada pelos vencedores da Guerra Fria, os EUA.
Três décadas depois, o Ocidente se vê encurralado pelos russos na Ucrânia, uma crise que Putin tenta resolver com um xeque-mate — ou um ippon, para ficar no judô que aprecia. A Folha resume o caminho que trouxe os dois países com os maiores arsenais nucleares do mundo frente a frente, novamente.
O que está acontecendo na Ucrânia agora?
No começo de novembro, Putin deslocou mais de 100 mil soldados e equipamentos para áreas próximas, relativamente, da Ucrânia. O vizinho, os EUA e a Otan o acusaram de planejar uma invasão militar, que ele nega.
Tanques ucranianos fazem manobras perto de Donetsk Forças Armadas da Ucrânia – 14.abr.2021/Via Reuters
Mas o que existe lá que interessa a Putin?
Em 2014, o governo pró-Rússia de Kiev foi derrubado (golpe ou revolução, depende de quem conta). Putin percebeu que a Otan e a União Europeia poderiam absorver o vizinho e agiu, promovendo a anexação da Crimeia, um território étnico russo que havia sido cedido à Ucrânia nos tempos soviéticos, em 1954. E fomentou uma guerra civil de separatistas pró-Kremlin na região do Donbass, no leste da Ucrânia, que está no centro da confusão agora.
A ONU disse o quê?
Ela não reconhece a Crimeia russa.
Alguém reconhece?
Apenas oito aliados do Kremlin. Mas, na prática, a anexação é vista como um fato consumado na comunidade diplomática.
E as áreas autônomas?
Aqui a coisa complica. Primeiro, porque não são tão homogêneas etnicamente; segundo, porque Putin não jogou todo seu peso militar para apoiar de forma decisiva os rebeldes.
Mas isso não o interessava?
Anexar o Donbass seria muito mais complexo e caro, além de ter evidente custo militar e humano. A prioridade de Putin é outra: evitar que a Ucrânia, ou qualquer outro país ex-soviético, entre na Otan e, de forma talvez mais secundária, na União Europeia.
Por quê?
Historicamente, os russos têm o seu flanco mais vulnerável no Leste Europeu. Por isso, tanto o Império Russo quanto a União Soviética ou dominavam ou tinham aliados na região. O ocaso soviético fez com que parte desses países fosse absorvida na esfera ocidental, e em 2004 a expansão da Otan chegou a três repúblicas que eram da união: Estônia, Letônia e Lituânia. Isso foi a gota d’água para Putin.
Mas isso não seria uma questão dos países?
Sim, é o que diz o direito internacional e a lógica ocidental, quando lhe interessa. Politicamente, contudo, os EUA se comportaram como vencedores pouco magnânimos da Guerra Fria, perdendo a oportunidade de atrair a Rússia para uma parceria mais estável com seus aliados europeus.
E então Putin agiu.
Ele primeiro travou uma guerra em 2008 na Geórgia, um país pequeno numa região explosiva, o Cáucaso, uma das rotas históricas de invasões e guerras —no caso, contra a Turquia. Nos dias de hoje, o problema lá é a infiltração de radicais islâmicos, como as duas guerras que Moscou lutou na Tchetchênia, que faz parte de seu território, demonstraram. No caso georgiano, o então presidente do país tinha uma atitude agressiva e foi visto como imprudente ao provocar os russos, dando a desculpa para que eles atacassem em nome da minoria étnica que povoa duas áreas do país. Resultado, hoje a Geórgia não controla 20% de seu território, o que na prática impede que ela se una à Otan.
Que é exatamente o que Putin queria.
Sim, e é o motivo pelo qual ele é visto como um vilão no Ocidente, pelo uso de força bruta quando acha necessário. O passo seguinte foram as ações na Ucrânia, em 2014.
E as sanções ocidentais tiveram efeito?
Há uma pressão sobre a Rússia, mas especialistas se dividem sobre o real impacto, porque a resultante das sanções foi um incremento no mercado interno, o maior descolamento do sistema financeiro internacional e uma certa diversificação da economia, que ainda é dependente da exportação de hidrocarbonetos (petróleo e gás).
E a Europa segue comprando gás russo.
O gasoduto Nord Stream 2, completado no ano passado, permitirá à Rússia, quando a Alemanha liberar sua operação, retirar boa parte do trânsito do gás natural que vende aos europeus por meio de velhas linhas que passam pela Ucrânia. Assim, Kiev pode perder boa parte dos US$ 2 bilhões anuais que aufere em taxas. O Nord Stream 2 e seu irmão em operação, o ramal 1, ligam a Rússia à Alemanha pelo mar Báltico. Hoje, 40% do gás que a Europa consome vem do país de Putin, e os EUA lutam para inviabilizar o gasoduto porque consideram que os europeus fazem jogo duplo.
Por que a Ucrânia não entrou na Otan e na UE?
Pelo mesmo motivo da Geórgia: as regras dos clubes não permitem países com conflitos territoriais ativos. Isso torna conveniente o discurso ocidental, já que ninguém quer pagar para ver em um confronto direto com a Rússia. Assim, Kiev recebe apoio e algum armamento da Otan, mas não se esperam tropas em solo para sua defesa.
E o que acontece agora?
Putin quer ver implementados os Acordos de Minsk 2, de 2015, que congelaram a guerra civil no Donbass. Só que eles preveem um grau de autonomia às áreas russas que Kiev não aceita. Ao deslocar tropas, insinua que pode usar a força como em 2014, o que alguns acham ser blefe.
Por quê?
Porque o Exército ucraniano não pode derrotar o russo, mas causar um bom estrago. E uma invasão implicaria anexação de áreas, o que custa bilhões que Putin não dispõe. Fora o risco de a Otan mudar de ideia e defender Kiev, o que arriscaria uma escalada perigosa, talvez nuclear. Não por acaso, as cinco potências atômicas se comprometeram recentemente a nunca iniciar uma guerra com essas armas.
Tanque russo atira durante treinamento no campo de Mulino Vadim Savitski – 11.set.2021/Ministério da Defesa da Rússia/via Reuters
O que está sendo negociado?
Russos e ocidentais não avançaram nas negociações iniciadas em meados de janeiro para debater os termos apresentados por Putin para pacificar a região. Ele “trucou”, pedindo compromisso do fim da expansão da Otan e retirada de forças da aliança de membros que entraram após 1997, ou seja, todo o bloco que era comunista. Isso não será aceito, mas pode haver concessões pontuais e o reinício de negociações sobre a Ucrânia, o que já será vendido em Moscou como uma vitória do líder.
E qual a resposta?
Até aqui, é não, mas o fato de que diversas frentes de negociações foram abertas traz a esperança de que algum avanço venha a acontecer.
Se não der certo, pode haver guerra?
Sim, o risco é real, embora não seja necessariamente o cenário mais provável. Putin tem na mesa opções mais drásticas e perigosas, como tentar invadir totalmente a Ucrânia e depois deixar o país sob condições de que nunca entre na Otan, ou ações mais pontuais.
E a Otan, faria o quê?
Joe Biden cometeu um erro e admitiu que uma ação limitada não deveria trazer as sanções econômicas devastadoras que promete aplicar ao Kremlin em caso de invasão. Tentou corrigir, mas o estrago foi feito. Além disso, países como a Alemanha, o mais forte economicamente da Europa, são reticentes em um embate direto com Putin, explicitando o racha na aliança.
Em frente a monumento a mortos na Segunda Guerra, noiva e sargento da Marinha Russa dançam ao som de uma banda militar, tradição local
Mas a Otan não reforçou suas fronteiras com caças e navios? Sim, foi uma sinalização política, embora do ponto de vista militar não deverá fazer grande diferença, até porque não pretende defender diretamente a Ucrânia. Ainda assim, os EUA colocarem soldados em alerta é sempre um sinal forte.
E a crise recente no Cazaquistão, como se encaixa nisso?
Há duas teorias sobre o fato de protestos legítimos contra o aumento de combustível terem quase virado uma revolução, com gente armada nas ruas. Primeiro, que foi fomentada pelo Ocidente para enfraquecer Putin. Segundo, que foi obra do Kremlin para, resolvida rapidamente, o colocar em posição de força. Seja o que for, Putin saiu fortalecido.
Há outras implicações?
A crise aproximou ainda mais a Rússia da China, que deu apoio a Putin e disse que ambos os paísesprecisam se defender juntos do Ocidente. É uma tendência que já estava colocada, mas que pode ter efeitos no futuro próximo.
Há alguma chance de uma Terceira Guerra Mundial com a China e a Rússia de um lado, e o Ocidente, do outro?
Isso é especulação pura, até porque tal conflito não interessaria a ninguém e teria uma grande chance de acabar com a civilização. Ainda assim, não passou despercebido que a China reiniciou seu embate com os EUA no Indo-Pacfício, reagindo a exercícios de dois porta-aviões americanos na sua vizinhança com mais uma grande incursão aérea contra Taiwan.
Sempre com belas jovens a tiracolo, Olacyr de Moraes descia do jatinho em Ponta Porã (MS) para vistoriar sua fazenda de 500 km², maior que o território de 17 países reconhecidos pela ONU. A pista particular de aterrissagem do chamado “rei da soja”, maior produtor individual do grão no mundo no final do século 20, é usada agora para secar o milho produzido no maior assentamento sem-terra do país.
Após a derrocada empresarial de Moraes, a terra foi desapropriada e distribuída a mais de 3.000 famílias, a partir de 2003. O atual distrito de Nova Itamarati quer virar município e possui 17 mil habitantes atraídos por esse simbólico exemplo de reforma agrária no Brasil. O revelador é que 80% deles é de “brasiguaios”, população que migrou para o país vizinho e voltou nos últimos anos.
O paranaense Djones Ambrust, conhecido como Tigrinho, viveu no Paraguai até os 18 anos. Justo acontecia a Copa do Mundo de 1998 quando ele atravessou a fronteira para se juntar a um acampamento de sem-terra em Naviraí (MS). “Minha família plantava na terra dos outros, e o dinheiro só dava pra pagar as contas. E ainda tinha que conviver com a perseguição e preconceito dos paraguaios. Por isso, vim embora”, conta
Meses depois, ele se mudou para uma barraca feita de paus e lonas, como tantas outras, em uma fazenda ocupada em Itaquiraí (MS), à beira da BR-163. “Era numa ribanceira, as carretas passavam aceleradas, e o vento rasgava a lona. A gente acordava com o sereno da noite caindo na gente.” Atualmente, tem casa e lote no assentamento Itamarati.
Em 2000, seus familiares que ficaram na colônia de brasileiros em Canindeyú (Paraguai) avisaram que um grande proprietário estava precisando de gente para a colheita, e Tigrinho atravessou a fronteira de volta — para sua tristeza. “Não gosto nem de lembrar. Era como se tivessem arrasado toda minha infância: eles derrubaram a casa, o pomar e a escola para fazer plantação. O lugar onde eu cresci foi todo empurrado e virou entulho no meio do mato.” Assim como a paisagem, a própria história dessa gente está sendo apagada.
O paranaense Djones Ambrust, 41, saiu do Paraguai com 18 anos e hoje planta soja orgânica no maior assentamento sem-terra do Brasil.
Quando as marchas se encontram
A divisa entre os dois países ganhou o desenho atual há exatos 150 anos. Após dois anos do fim da Guerra do Paraguai (1864-1870), era assinado o tratado bilateral Loizaga-Cotegipe, que estabeleceu os limites entre as nações. Os vencedores ficaram com territórios que antes eram reivindicados pelos derrotados, e começou o avanço de empresas e populações brasileiras que nem sempre obedeceram aos marcos fronteiriços.
O primeiro mega empreendimento da região foi a extração da erva-mate nativa dos dois países pela Companhia Matte Larangeira, propriedade de Thomaz Larangeira, empresário que fornecera insumos para as tropas imperiais. Com sucessivas concessões e explorando mão de obra indígena, a empresa vendeu chimarrão para os argentinos até os anos 1940.
Grupo de agricultores brasiguaios presente em reunião no assentamento Itamarati, em Ponta Porã (MS).
Foi quando começou a “Marcha para o Oeste”, promovida pelo Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945). Arregimentou-se levas de sulistas para as áreas de fronteira, com desmatamento e lavoura. A partir da década de 1960, o avanço passou a alfândega: o ditador paraguaio Alfredo Stroessner fomentou por seu lado a “Marcha ao Leste”, incentivando a migração de agricultores vizinhos habituados à mecanização.
Resultado: na década de 1980, 10% dos habitantes do Paraguai eram brasileiros e descendentes — hoje, a porcentagem é 3% (240 mil). Uma das razões dessa diminuição foram os conflitos agrários. Nessa briga, os mais desprotegidos são os pequenos lavradores e empregados rurais brasileiros. O agronegócio verde-amarelo, que chega a ser dono de mais de 50% das terras em áreas fronteiriças, segundo censos econômicos paraguaios, tem conexões políticas na capital, Assunção, e se protege bem mais dos vários movimentos campesinos.
Brazilians, go home
“Direto eu ouvia: ‘volta pro seu país’. Isso é também um resquício da guerra. Estudei na escola de lá, e, quando ensinam História, havia muito ódio aos brasileiros”, relembra Jacob Bamberg, 48. Ele nasceu em Cascavel (PR) e morou dos 11 aos 38 anos no país vizinho. Um grileiro brasileiro enganou seu pai, que comprou um terreno sem título oficial paraguaio — e a família acabou ganhando a vida como funcionários de outros conterrâneos.
Bamberg foi tratorista, churrasqueiro e garçom e nunca teve terra própria no Paraguai. Ouvia falar das ocupações de latifúndios improdutivos no Brasil, mas não se arriscava a voltar. “Muita gente me convidou, mas se falava muito mal dos sem-terra, e eu não queria morar em acampamento. Acabei vindo por pura necessidade”, conta ele, que é uma das lideranças atuais do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) no assentamento Itamarati.
O agricultor brasiguaio Jacob Bamberg toma tereré em pausa do trabalho em seu lote no assentamento Itamarati, o maior do Brasil..
Nessa condição, voltou ao Paraguai para verificar as ameaças que camponeses paraguaios faziam a carvoeiros brasileiros, confundidos com jagunços de grandes proprietários. “Eles não tinham nem uma espingarda velha para caçar passarinho e não sabiam do perigo que corriam. Quando contei para eles, choraram de tanto medo”, relata.
Segundo Bamberg, o campesinato paraguaio é muito dividido. “Há muitos grupos pequenos que se voltam contra os colonos brasileiros porque é mais fácil, é o vizinho tão pobre quanto eles. Outros radicalizam e querem expulsar todos os estrangeiros. E ainda tem os que vão para as guerrilhas”, analisa. O país conta com os únicos grupos guerrilheiros em atividade da América do Sul, como o EPP (Ejército del Pueblo Paraguayo) e EML (Ejército del Mariscal López), com incursões em propriedades de brasileiros por lá.
Guerrilheiros na fazenda
“Eles queimaram o maquinário, os tratores e os galpões. Enquanto a situação for essa, não vou mais investir ali.” Assim o empresário gaúcho Iracy Antoniolli descreve a ação em 2018 do EPP, grupo armado de no máximo 80 integrantes, que entrou e destruiu sua fazenda no Departamento de Concepción, centro-norte do Paraguai.
Antoniolli, 81, é uma exceção entre os brasiguaios: fez fortuna extraindo peroba nas matas vizinhas e hoje tem gado, madeireiras e plantações nos dois países. A ideia inicial era trocar a vidinha na serra gaúcha pelas oportunidades em Sinop (MT), mas sua mulher, quando percebeu que iria morar no meio da floresta, decidiu que não dariam mais nem um passo na direção norte. “A gente estava em Campo Grande, e pra distraí-la, disse para ir até a fronteira. Quando nos hospedamos no hotel de Ponta Porã, choveu corretor oferecendo terra no Paraguai”, recorda-se. Formado em contabilidade, fez os cálculos e viu que podia ficar milionário com o negócio.
O empresário brasiguaio Iracy Antoniolli posa em seu escritório em Pedro Juan Caballero com chimarrão e bandeira paraguaia.
Voltou para Nova Prata (RS), vendeu os três carros que tinha e pediu um empréstimo no banco. Foi ao país vizinho, comprou “um perobal maravilhoso”, botou abaixo e vendeu tudo para empreiteiras paulistanas, afinal, as perobas estavam cada vez mais escassas em território nacional. “Não tinha um balde de asfalto nas estradas do Paraguai, era ruim trazer as toras pro Brasil, mas o Stroessner dava muito incentivo fiscal e financiamento para quem colocava dinheiro no país”, afirma. Hoje, Antoniolli tem 35 funcionários no Paraguai e 50 no Brasil. Mora em Ponta Porã, mas seu escritório é em Pedro Juan Caballero, aproveitando a conurbação binacional. Ele é da direção tanto do CTG (Centro do de Tradições Gaúchas) do lado brasileiro quanto da Asociación Rural do Departamento de Amambay, do lado paraguaio.
Ponte sem amizade
O casal Rosane e Ivanildo Silva também tiveram sua terra no Departamento de Caaguazú invadidas. Pior: tomada por pessoas que eles consideravam amigos. “Um deles tinha sido meu colega de escola. Outro ajudava meu marido no trator e tomava tereré com a gente. No dia que íamos construir o casebre no terreno, eles barraram a gente na estrada com facões, machadinhas e galões de gasolina”, conta Rosane, que perdeu um dente e ficou com a boca inchada por tentar argumentar com o grupo, que era uma milícia rural e não tinha ligação com os chamados carperos da Via Campesina, maior agrupação paraguaia de sem-terra.
Depois de três décadas de Paraguai, três filhos para cuidar e com todas as economias investidas no sítio ocupado, o casal decidiu se juntar ao movimento sem-terra em Mato Grosso do Sul.
Braz Correia, 46, viveu metade da vida no Paraguai, mas agora cuida de seu rebanho e é motorista escolar no assentamento Itamarati (MS)
Os brasiguaios são os únicos da diáspora brasileira com perfil rural. Além da vegetação e do solo similar ao Brasil, a concentração de terras no Paraguai é parecida também, e isso determinou as perambulações dessa população da região Sul para o Paraguai e depois em direção ao Centro-Oeste nas últimas décadas.
O que tomaram de Rosane e Ivanildo no Paraguai eles tentam reconstruir do lado brasileiro, cuidando de seu lote familiar e ajudando nas terras coletivas do assentamento Itamarati. “É como diz o ditado: o bom filho à casa torna”, resume Rosane.
O paranaense Altair Schlickmann viveu 31 anos no Paraguai, onde nasceu seu filho, mas hoje é assentado da reforma agrária em Ponta Porã (MS)